A pesquisa de campo é tradição
na antropologia. Desde que comecei a dar aulas no então Departamento
de Ciências Sociais da FFLCH da USP, em 1983, sempre incentivei os
alunos, mesmo nas disciplinas mais teóricas, a valorizar essa etapa
do processo de investigação, principalmente na análise
da diversidade cultural da cidade. Nas disciplinas “A Dimensão
Cultural das Práticas Urbanas” (Programa de Pós-Graduação
em Antropologia Social, em 1987) e, em 1989, “A Pesquisa Antropológica
no Contexto Urbano”, para alunos de graduação, o exercício
do método etnográfico era parte integrante das atividades
programadas. De lá para cá tem sido uma constante, nas disciplinas
de Antropologia Urbana, a exigência de elaboração de
projeto de pesquisa, de idas sistemáticas a campo e da apresentação
de relatório com os resultados do trabalho.
Analisando em conjunto, ao longo
desses anos, os temas e objetos de pesquisa escolhidos pelos alunos, tem-se
uma boa mostra de suas relações com a cidade, suas inquietações
teóricas a respeito e até das propostas de intervenção
frente a carências e demandas sócio-culturais urbanas. Pois
bem, durante todo esse tempo, temas ligados à USP –
seja a vida acadêmica, a própria cidade universitária
e suas instituições ou as formas de sociabilidade no campus
e os vínculos com a cidade – apareceram muito pouco,
em contraste com outros temas: apenas 09 de num total de mais de 500 trabalhos
distribuídos entre religiosidade, lazer, o mundo do trabalho,
habitação, gênero, juventude, corpo e sexualidade,
cultura popular, entre outros temas.
Mais reveladores ainda são
os recortes, quando o objeto de estudo era, de alguma forma, ligado à
universidade: três projetos de pesquisa sobre o Conjunto
Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP), dois sobre a vizinha
favela São Remo, um sobre a presença de meninos dessa favela
no campus, um sobre o Museu de Arte Contemporânea (MAC), um sobre
o bar Rei das Batidas, um sobre o uso da maconha...
Sem desmerecer essas escolhas – ao
contrário, tomando-as como indicadores para introduzir
uma questão mais ampla – tem-se a impressão de que
a vivência no campus durante os anos de formação dos
estudantes, com toda a gama de atividades que ela implica, não
estabelece neles uma identificação positiva mais forte: o
CRUSP é visto antes como um estigma que como espaço de convivência
de que se tem boas lembranças, e a favela, uma sombra e testemunha
acusatória dos privilégios de uns frente à carência
de outros, justo ali ao lado. Bem, sempre se leva a lembrança
de alguns momentos de lazer e descontração...
No caso mais específico do
CRUSP, chama a atenção o contraste com outros estudos sobre
moradia estudantil, como o analisado no trabalho “Uma embaixada estudantil
em Ouro Preto”, das alunas Nathália Guimarães von Kruger
e Paula Moura Lacerda de Souza (2003). Nesse estudo, as autoras mostram
a profunda e duradoura identificação dos moradores
com as famosas repúblicas estudantis ligadas à Universidade
Federal de Ouro Preto. Algo idêntico ocorre em Piracicaba/SP, onde
os novos alunos da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ)
procuram as mesmas repúblicas em que moraram seus pais, tios, etc.
quando fizeram a faculdade e continuam participando, mesmo depois de formados,
com toda a família, das festas que comemoram datas significativas
na história dessas repúblicas; os famosos apelidos que recebem
em seu batismo de entrada também são passados “de pai para
filho”.
Tal fenômeno não se
verifica em relação ao campus da USP no bairro do Butantã,
em São Paulo. Além do mais, não obstante a ampla rede
de equipamentos e instituições de que é dotado – hospital,
museus, mídia (editora, rádio e TV, jornais, cinema), livrarias,
bancos, restaurantes, lanchonetes, espaços de lazer e esportes –
parece não suscitar maiores indagações, ao menos
por parte de estudantes, em suas análises sobre sociabilidade,
cultura urbana e dinâmica social.
O campus na cidade
e como uma cidade
A primeira e mais óbvia aproximação
para tentar entender a especificidade da dinâmica da cidade universitária
seria uma análise comparativa com outros campi ou unidades
de ensino superior situados em áreas centrais da cidade ou sem entorno
demarcado, como acontece com a PUC, Mackenzie, Direito da USP, UNIFESP,
entre outros. A dinâmica de um campus isolado – ainda que
circundado pela cidade – evidentemente difere daquela de estabelecimentos
que estão mais diretamente ligados ao tecido urbano. A primeira
diferença é que, exatamente por sua distância ou dificuldade
de acesso, um campus mais isolado precisa estar munido de equipamentos
que forneçam a infraestrutura capaz de sustentar o cotidiano da
vida acadêmica. Neste caso, ele passa a funcionar como uma cidade
e depende de instituições e rotinas de gerência,
controle, manutenção, etc.
Justamente para dar conta da dinâmica
do uso da cidade venho desenvolvendo uma série de categorias – pedaço,
trajeto, mancha, circuito – elaboradas em contextos especiais de
pesquisa (Magnani 1998[1984]; 2000; 2002) e cujo propósito
era contrapor-se a um determinado tipo de discurso, comum na mídia
(e também em muitas análises e diagnósticos técnicos)
sobre o decantado caos das grandes cidades contemporâneas. Com a
aplicação dessas categorias foi possível observar
ordenamentos e regularidades na cidade, identificando e descrevendo, por
exemplo, lugares de encontro, pontos de referência, espaços
de lazer e vivência coletivas, vínculos de sociabilidade,
sistemas de troca e reciprocidade, em contraste com o quadro de isolamento,
desordem e fragmentação dentro do qual a cidade é
muitas vezes descrita.
Assim, a noção de "pedaço",
originalmente elaborada a partir de pesquisas sobre lazer em bairros
de periferia, aponta para a existência de um espaço social
que se situa entre a esfera da casa e a da rua. Com base em vínculos
de vizinhança, coleguismo, procedência e trabalho, o
pedaço
estabelece uma forma de sociabilidade mais aberta que a fundada em laços
de família, porém menos formal e mais próxima do cotidiano
que a ditada pelas normas abstratas e impessoais da sociedade mais ampla.
É nesse espaço que se vive e compartilha toda sorte de
vicissitudes que constituem o dia-a-dia por ocasião dos momentos
de lazer, devoção, participação em atividades
comunitárias e associativas, troca de favores e pequenos serviços;
como também dos inevitáveis conflitos e disputas
.
A vida na cidade, no entanto, não
se restringe às experiências do cotidiano que transcorrem
no âmbito do bairro. A circulação em direção
a e através de territórios mais amplos dá-se por meio
dos trajetos – percursos determinados por regras de compatibilidades
– que abrem o particularismo do pedaço a novas experiências,
situadas fora das fronteiras daquele espaço conhecido, onde se está
protegido por regras claras e inequívocas de pertencimento.
A cidade, ademais, não se
oferece para uso e desfrute como uma totalidade indiferenciada, ou então
repartida em unidades discretas: naqueles territórios mais impessoais
das regiões do centro, situados fora do círculo de vizinhança,
é possível distinguir a existência de áreas
claramente demarcadas pela oferta de determinados bens ou serviços:
são as manchas, áreas contíguas do espaço
urbano dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam, competindo
ou complementando-se, uma atividade ou prática predominante
.
O circuito, por seu lado,
cumpre as mesmas funções da mancha; a diferença
está na forma de inserção, uma vez que não
apresenta o caráter de contigüidade espacial. Assim, por exemplo,
é possível distinguir os circuitos dos cines de arte,
das livrarias, dos brechós, de espaços neo-esotéricos,
da cultura black, do agito gay, do movimento rapper
e de muitos outros, constituídos por pontos espalhados pela cidade,
mas que mantêm algum tipo de relação entre si, sendo
conhecidos em sua totalidade apenas pelos usuários mais habitués.
Considerando-se o campus do Butantã
em função de sua localização e dos vínculos
que mantêm com a cidade, a categoria que mais se lhe aproxima é
a de mancha. Nesse sentido, apresenta algumas particularidades:
trata-se de uma mancha bem delimitada, cercada e até
fechada. Se algumas linhas regulares de ônibus, por exemplo, constituem
rotas de passagem e estabelecem aberturas com o tecido urbano mais abrangente,
predominam as linhas especiais; há, ainda, controle nas entradas
do campus, principalmente em determinados horários e dias, existe
um sistema de segurança interna, etc.
É também possível,
e talvez até com mais rendimento, olhar essa mancha em busca
de regularidades internas, procurando observar em seu interior a ocorrência
das demais categorias (pedaço, trajeto, circuitos).
Para tanto, é preciso ajustar o foco e assim obter um olhar
mais “de perto e de dentro”
.
Lendo a cidade universitária
nesta chave, vê-se que os usuários típicos – professores,
funcionários e alunos – têm seus próprios “pedaços”,
percorrem trajetos específicos, freqüentam circuitos
de suas preferências; mas também cruzam territórios
e espaços uns dos outros. É justamente quando esses planos
se cruzam que se abrem novas e inesperadas possibilidades de trocas,
de encontros (e também de conflitos) entre os atores, pois as diferenças
se expõem e colocam, a qualquer momento, a inevitabilidade
da presença do outro com a conseqüente necessidade
de negociação.
Além do mais, como acontece
em qualquer cidade, principalmente naquelas construídas com base
em planejamento prévio, é possível identificar um
outro domínio de uso e apropriação, também
criado pelos atores e regido por normas que se sobrepõem,
anulam ou reescrevem as originalmente previstas na prancheta. Abre-se aqui
um inesperado e rico campo de análise: tome-se, a título
de ilustração, uma pequena mostra do particular universo
de um dos componentes da população do campus, os funcionários,
com, por exemplo, as fotos de familiares nos locais de trabalho;
os dizeres, avisos e cartazes nas suas cantinas e pontos de
encontro; os circuitos de compra e venda de produtos caseiros (cosméticos,
roupas, alimentação), as festas de aniversário, as
confraternizações de fim de ano, os chás de cozinha,
as listas de ajuda para casos de doença, funeral, roubo, enchentes...
Essas e outras formas de comportamento
e apropriação do espaço revelam uma cultura, têm
como base um conjunto de padrões de sociabilidade que vêm
de fora, que vêm da cidade circundante, dos bairros de origem desse
segmento de usuários da cidade universitária. É significativo
que, entre outros resultados, um dos trabalhos dos alunos tenha mostrado
a grande porcentagem de funcionários da USP que vivem na vizinha
favela São Remo. A aplicação deste enfoque aos outros
segmentos, professores e alunos, com certeza permitiria também
obter um esboço do ethos que os identifica e particulariza.
Identidade e patrimônio
Seja como uma cidade em ponto menor,
seja como uma mancha especial na metrópole circundante, a
cidade universitária, em suas atividades específicas de ensino,
pesquisa e extensão, apresenta um nível de atividades intenso,
complexo, com base e apoio num corpo de agentes diversificado e altamente
especializado. Entretanto, apesar de todo seu intrincado e interdependente
sistema de trocas, a vida no campus e a referência a uma “comunidade
universitária” não parecem fundar uma identidade forte, um
sentimento de pertencimento mais geral.
As vivências que se têm
dão-se com base em práticas e experiências mais ligadas
a especialidades, a domínios separados e a dicotomias do que a totalidades:
têm-se as Ciências Exatas versus as Humanas, o Clube
dos Professores e o bandejão, os concursados e os celetistas, a
pós e a graduação, as ricas instalações
da Faculdade de Economia e Administração versus as
mais precárias do prédio da Sociais, a Politécnica
e a Educação, os espaços deteriorados ao lado de outros
mais bem cuidados, e assim por diante. Há quem diga que a cidade
universitária foi planejada justamente para produzir essa fragmentação
e desta forma impedir um maior contato – considerado perigoso, na época
– entre as diversas unidades, às quais se tem acesso com mais facilidade
por carro que por outro meio transporte ou locomoção: o campus
está na escala do automóvel, não do pedestre.
Num plano mais teórico, cabe
observar que esta forma relacional de produção de identidades
é conhecida na literatura antropológica e a referência
mais clássica é o estudo de Evans-Pritchard
(1978[1940]) sobre os Nuer. O sistema político deste povo nilótico
baseia-se num processo de articulação em que os segmentos
que se opõem num plano mais próximo da unidade doméstica
e da aldeia juntam-se para formar novos segmentos, fundando alianças
cada vez mais amplas, até o ponto limite em que todos se identificam
como o povo Nuer contra os vizinhos Dinka.
As relações entre
identidade e um de seus correlatos, o conceito de comunidade, continuam
uma
questão discutida e controversa na área das ciências
sociais. George Marcus (1991), no texto Identidades
passadas, presentes e emergentes: requisitos para etnografias sobre a modernidade
no final do século XX ao nível mundial, em que discute
uma proposta que chama de etnografia “modernista” para diferenciá-la
do que denomina de etnografia “realista” (entre as quais situa o estudo
sobre os Nuer, por exemplo), problematiza o conceito de comunidade, tradicionalmente
referida a uma localidade específica e a uma identidade determinada:
é preciso, segundo ele, dissolver as conotações de
solidez e homogeneidade implicadas nessa relação, já
que a formação de identidades depende de atividades desenvolvidas
em muitos locais e planos de referência.
Numa outra linha de argumentação,
pode-se também pensar a formação de identidades a
partir do campo do patrimônio cultural. Tendo-se em vista a orientação
desta coletânea, talvez essa seja a perspectiva mais apropriada para
pensar o problema aqui delineado. Como é sabido, o tema do patrimônio
apresenta uma série de desdobramentos, desde os já tradicionais
“patrimônio arquitetônico” e “histórico”, passando pelo
“cultural” e, recentemente, pelo conceito de “patrimônio imaterial”.
Este último surge no discurso mais atual dos órgãos
de preservação a partir da compreensão de que há
uma realidade ainda não suficientemente contemplada na conceituação
corrente e nos instrumentos e medidas oficiais de proteção:
trata-se de um conjunto de bens culturais ainda não claramente delimitados,
mas reconhecidos como merecedores de integrar o patrimônio
cultural brasileiro, e não exatamente pelas mesmas razões
e critérios que nortearam a formação e proteção
do importante acervo centrado na arquitetura luso-brasileira do século
XVIII.
Não são edificações,
sítios naturais ou arqueológicos ou mesmo bens móveis:
trata-se de “saberes”, “modos de fazer”, “festas e folguedos” e outras
manifestações culturais destituídas de um suporte
durável, mas certamente constitutivas do modo de vida de atores
sociais cujas diferenças – e correspondentes formas e meios de manifestação
– cada vez mais são expressas em termos de direitos de cidadania.
Atitudes como esta, de abertura para
com mudanças no plano mais geral da sociedade, de sintonia com tendências
e movimentos políticos, culturais e ideológicos mais amplos
não constituem novidade, na prática e na reflexão
de técnicos, conselheiros e demais envolvidos com as questões
do patrimônio. Assim, nas décadas de 70 e principalmente
de 80, houve uma importante inflexão nos critérios habituais
que se manifestou na preocupação com o legado de imigrantes
mais recentes, minorias e grupos étnicos (Fonseca, 1996). Contribuições
desses segmentos foram incorporadas ao patrimônio nacional na qualidade
de testemunhos, ainda via tombamento, mas – é digno de nota – já
não em nome do então chamado “interesse etnográfico”
(melhor seria dizer “etnocêntrico”), critério ainda marcado
por conotações elitistas, segundo membros e militantes de
determinados movimentos sociais. Constituem mostras dessa nova orientação
o tombamento, entre outros, de exemplares da arquitetura de imigrantes,
de testemunhos da presença judia, de sítios ligados à
resistência quilombola e de espaços dedicados a cultos
afro-brasileiros (Magnani & Morgado, 1996).
Apesar de constituir um alargamento
do alcance do conceito de patrimônio cultural, essa inclusão
das marcas de outros atores ainda foi feita com base no valor documental
de alguns de seus bens culturais inscritos e sujeitos às medidas
habituais de descrição, levantamento e proteção.
No final da década passada, entretanto, além
da visão tradicionalmente voltada para a delimitação
do núcleo de referência da nacionalidade, uma nova perspectiva
começa a incorporar outros vetores e começa-se a falar, no
cenário do patrimônio, em desenvolvimento, diversidade cultural,
qualidade de vida, cidadania. Assim, nessa linha, o patrimônio
já não se circunscreve à lista dos bens materiais,
mas leva em conta a interrelação desses e de outras categorias
de bens culturais – justamente aqueles denominados de “bens culturais imateriais”–
com os contextos em que são produzidos e circulam.
Toda essa digressão é
para experimentar uma abordagem nova, no campo da reflexão sobre
o patrimônio, que abra outras perspectivas para pensar a questão
de onde ancorar a formação de identidades, de emblemas e
de imagens capazes de construir e sustentar um possível ethos
uspiano, para além, evidentemente, da já difundida griffe
de excelência associada à formação acadêmica
proporcionada pela Universidade de São Paulo e sua produção
científica.
Seu campus, sem dúvida, abriga
uma série importante de “bens culturais”, desde edificações
de interesse pelas características arquitetônicas, passando
pelo desenho e disposição dos espaços,
por sua área verde, seus equipamentos mais diretamente ligados à
arte e à cultura, etc. e que já são reconhecidos
como o patrimônio cultural da USP. Todavia, há um outro domínio
que escapa a esse inventário e que talvez a noção
de patrimônio imaterial ajude a resgatar. Ainda ambíguo
em sua conceituação, tem-se uma primeira idéia do
que seja esse patrimônio através dos itens que habitualmente
compõem suas listagens: costuma-se falar de festas, folguedos, lugares
de reunião, modos de fazer, narrativas orais, ritos, artes populares.
Sua intenção é a de resgatar uma série de expressões
culturais que não apresentam um suporte material claramente definido
e por isso não são contempladas pelos habituais instrumentos
e normas de preservação, como ademais, e principalmente,
mostram um maior grau de fragilidade diante da força de agentes
tais como o mercado, os meios de comunicação, etc.
Tomando-se apenas os itens acima
mencionados que costumeiramente entram na lista para exemplificar o que
seja o patrimônio imaterial, há quatro conjuntos de questões
a se considerar: primeiro, a opção pela contemporaneidade;
depois, trata-se de bens que não deixam (ou não deixaram)
testemunhos monumentais e/ou duradouros; sua ocorrência verifica-se
predominantemente em contextos iletrados; e, por último, coloca-se
a questão da imaterialidade do suporte.
O primeiro feixe de questões
diz respeito não apenas ao patrimônio imaterial mas a todo
e qualquer bem cultural quando marcado antes por sua contemporaneidade
do que por seu valor “histórico”: esses bens estão ainda
imersos no fluxo da dinâmica cultural, sujeitos a contínuas
mudanças e influências, sem que tenha transcorrido o tempo
suficiente para sua sedimentação numa forma especifica e
reconhecida. Esta situação coloca uma questão conceitual
prévia e de fundo a respeito das próprias definições
de cultura e patrimônio, cuja discussão, porém, não
cabe nos limites deste texto.
Uma segunda ordem de dificuldades
advém da circunstância de que, por seu próprio modo
de vida, muitos dos grupos ou comunidades cuja produção cultural
se pretende registrar e proteger não deixam (ou não deixaram)
testemunhos monumentais e/ou duradouros, seja na forma de edificações
(os bens de “pedra e cal”, no jargão já consagrado)
ou mesmo de bens móveis, de suporte mais durável; a
alternativa que resta é tomar como referência testemunhos
da vida cotidiana, do mundo do trabalho, da devoção e sociabilidade
moldadas com base em materiais extremamente frágeis e perecíveis
– a palha, o tecido, o barro, a madeira, o couro – e, às vezes,
em meros vestígios, o que torna as medidas de registro e proteção
uma verdadeira operação de salvamento.
Outra ordem de problemas surge quando
essas manifestações ocorrem ou ocorreram em contextos iletrados.
Neste caso, até podem ter como suporte um elemento material, mas
evanescente (o som, o gesto), configurando o conjunto das chamadas tradições
orais (contos, mitos, poesia, ritos, cantos), mas não dispõem
do recurso da transcrição que, no caso de contextos
letrados, permite transpor um saber ou encadeamento cognitivo específico
para o plano abstrato das relações, dando-lhes perenidade.
Quando, excepcionalmente, a comunidade conta com esse recurso da transcrição
– seja por que meio for, como no caso da organização espacial
da aldeia entre alguns povos indígenas, cuja forma constitui um
verdadeiro diagrama de suas regras de parentesco e casamento – então
o problema se coloca em outros termos
.
Finalmente, a própria questão
da imaterialidade do suporte. Uma festa popular religiosa (seja da vertente
católica, seja dos cultos afro-brasileiros ou de outras tradições),
por exemplo, é composta simultaneamente por vários códigos
e por vários suportes: o som da cantoria, a sucessão ordenada
dos passos de dança, o material dos instrumentos musicais e adereços,
etc. Há problemas, evidentemente, na decisão de qual desses
aspectos deve ser privilegiado como critério para classificar essa
festa no campo da cultura imaterial; por outro lado, sabe-se que mesmo
os bens claramente definidos pela materialidade e permanência de
seus suportes, como as edificações, são depositários
de múltiplos significados que só podem ser recuperados
a partir das relações estabelecidas entre seus elementos
constitutivos.
As questões acima se
aplicam principalmente a bens culturais de origem popular; por conseguinte,
nem todas podem ser transpostas ao caso da USP e seu patrimônio.
Contudo, alguns desses critérios podem ser úteis. Quando
se considera, por exemplo, as rotinas de trabalho, as especialidades, os
saberes específicos, a padronização dos documentos
e de seu fluxo, as hierarquias, os ritos acadêmicos, as formas de
sociabilidade e os estilos de vida, é possível identificar
imediatamente ao menos duas entre as questões apontadas: a
contemporaneidade e a imaterialidade do suporte. Com efeito, todos os itens
da listagem acima estão imersos no fluxo da vida cotidiana do campus
e não estão fixados “em pedra e cal”; intangíveis
e ainda em processo, nem por isso são menos efetivos como modeladores
de comportamentos ou menos reais como formadores de ethos.
Em busca de marcas de identidade
Cada um dos termos empregados para
qualificar o patrimônio – arquitetônico, histórico,
cultural, imaterial – empresta-lhe uma conotação diferente;
no entanto, há um elemento comum que perpassa todos: é o
reconhecimento de que, em algum grau, constroem um sentido de pertencimento.
Um “bem cultural” só faz parte, legitimamente, de determinado acervo
(estando sujeito, portanto, a medidas oficiais de proteção)
porque antes foi transformado pelos próprios atores em ponto de
referência, ou seja, carregado de carga simbólica para eles.
Tome-se como exemplo – para ficar
no âmbito da USP – o significado associado ao prédio que abrigou
a antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras na rua Maria Antonia,
hoje transformado em espaço cultural. Não é propriamente
a edificação que importa, nem o conjunto de sua história
ou a relevância de sua produção acadêmica que
são levados em conta: a percepção e posterior reconhecimento
como patrimônio cultural deve-se ao poder simbólico de um
fato episódico, altamente dramático, sintético e facilmente
lembrado que, associado a um processo mais geral (a resistência à
ditadura) terminou condensando toda a trajetória da FFCL no prédio
da rua Maria Antonia. Evidentemente, a função, papel
e contribuição intelectual representados por essa faculdade
ao longo de sua história não se reduzem à sua
participação política, nem muito menos àquela
modalidade específica que alguns de seus membros protagonizaram
nos idos de 1968; mas foi este aspecto o que vingou para erigi-la como
emblema; e “pegou”.
E o campus do Butantã?
Estaria fadado a permanecer fragmentado na diversidade e dispersão
de seus espaços e unidades? A diluir-se na heterogeneidade
dos modos de ser e de operar de cada segmento de seus atores constitutivos?
Dois exemplos podem abrir algumas pistas interessantes para melhor situar
essas perguntas, e o primeiro é fornecido pela própria Faculdade
de Filosofia. Algo dos episódios da Maria Antônia permaneceu
quando de sua mudança para a atual cidade universitária:
o funcionamento em instalações precárias constituiu
uma fase de transição antes de sua transferência definitiva
para os novos e mais modernos prédios; contudo, a lembrança
dos “barracões” mantém-se até hoje e, sem dúvida,
constitui uma marca identitária sem qualquer suporte físico
remanescente.
O outro exemplo vem de uma expressão
corrente entre os estudantes, em determinados contextos: “p.u.” (pronuncia-se
pê-u),
que significa literalmente “padrão universitário”, mas é
aplicada apenas às universidades públicas, especialmente
USP/UNICAMP/UNESP
. Este termo é usado para designar a mudança
de comportamento dos novos alunos, após a maratona do vestibular,
principalmente quando retornam às suas cidades de origem, no interior.
Esses alunos passam a exibir um certo ar intelectual, assumem outros gostos,
exibem preferências por determinados tipos de filme, de leitura.
A expressão não é empregada no caso das particulares
porque ter “p.u.” implica também preocupação com questões
como a gratuidade do ensino público, a qualidade dos cursos, o financiamento
da pesquisa acadêmica, etc. – perenes temas de discussão do
movimento estudantil e que pouco ambiente encontram nas universidades e
faculdades privadas.
Diferentemente do exemplo anterior,
em que o pertencimento está ligado a uma determinada unidade,
neste caso trata-se de uma esfera mais ampla, cujo referente são
as universidades estaduais paulistas. Ambos, porém, têm em
comum o fato de não apresentarem como base de sustentação
um suporte tangível, localizado: são comportamentos, estilos
e relações que estão a evocar marcas identitárias.
Eis um filão que precisa ser
mais bem pesquisado para enquadrar melhor e separar as questões,
seja da suposta inexistência de marcas identitárias, da presença
dessas marcas apenas no plano de segmentos específicos ou, finalmente,
da consistência de algum símbolo mais abrangente. Para tanto,
seria preciso ler em conjunto as diferentes “classes” de patrimônio
– o arquitetônico, o urbanístico, o histórico, o imaterial.
No caso específico deste último, sem dúvida faz-se
necessária uma metodologia específica, pois, como foi reiterado,
ele está inscrito nos comportamentos, nos padrões e
rotinas de trabalho, nas relações entre os atores, nos estilos
de investigação desenvolvidos nos laboratórios, na
retórica das salas de aula – nada muito retumbante, nem quantificável
ou de fácil registro.
Uma estratégia seria começar
distinguindo dois planos: em primeiro lugar, aquele em que se forma o jogo
das identidades internas, à la Nuer, agrupando os atores
considerados de dentro, procurando distinguir, porém, os espaços,
fronteiras e elementos constitutivos de seus ethos. Trata-se,
como foi sugerido mais acima, de começar pesquisando os três
segmentos clássicos que apresentam um sem-número de divisões
e subdivisões, como os professores (doutores, titulares, das exatas,
das humanas, em rdidp, rtc e assim por diante); os alunos (de graduação,
de pós-graduação, bolsistas, moradores, africanos,
latinos, etc.); e os funcionários (técnicos, administrativos,
em cargos de confiança, terceirizados, celetistas...). Neste caso,
os domínios a considerar são a vida cotidiana, o calendário,
os ritos, as especialidades, os “saberes”, as rotinas específicas
de trabalho.
O segundo plano seria o de identidades
construídas para fora, mais especificamente o que a USP projeta
para além de seus muros, para a cidade. Neste caso, já não
se trata mais da rotina e sim do excepcional, do único, do específico,
na forma de eventos e rituais coletivos. Rituais que costurem os
fragmentos e a especialização da vida acadêmica e ofereçam
uma visão de totalidade. E eventos que guardem proporção
com a escala da mancha representada pelo campus, como é
o caso do Parque do Ibirapuera, que abriga várias atividades
mas projeta uma imagem associada a grandes e significativos eventos culturais,
como a Bienal, por exemplo. Que eventos coletivos existem na USP? Há
quem se lembre do festival “Bem Brasil”, no anfiteatro greco-romano;
de todos modos, eles têm de estar relacionados com a vida acadêmica
e não apenas resumir-se à cessão do espaço
para maratonas, eventos privados, episódicos.
Trata-se, em suma, de verificar o
que dá “liga” ao patrimônio da USP, o que realmente fica,
por exemplo, para os alunos, como referência de todo o seu tempo
de formação. Será que apenas as alegres e etílicas
confraternizações no “Rei das Batidas”?
Talvez a particularidade do campus
do Butantã ainda não tenha tido tempo de decantar, ou seus
integrantes não tenham tido a oportunidade de protagonizar algum
evento capaz de sintetizar e simbolizar o papel, lugar e especial contribuição
de sua instituição na cidade da qual faz parte. O certo é
que sem, talvez, deixar marcas externas, imediata e facilmente visíveis,
as sucessivas gerações de alunos, professores e funcionários
que aqui completaram sua formação, construíram
suas carreiras e contribuíram para a consolidação
de saberes específicos em em suas diferentes áreas de atuação,
edificaram o verdadeiro patrimônio, aquele que define a duradoura
feição da USP. É preciso, contudo, desvelar e tornar
público esse patrimônio.
Notas
Publicado, originalmente em Cidades Universitárias: Patrimônio
Urbanístico e Arquitetônico da USP. São Paulo,
EDUSP, Série Cadernos CPC, 2004 . Agradeço a Luiz Henrique
Xavier Magnani pela leitura e primeira revisão do texto.
“Meninos da FFLCH/USP: lazer como meio de vida e meio de vida como lazer”
(Carolina Moreira Marques, 1994); “Migrantes rurais e a experiência
urbana na favela S. Remo” (Ana Lúcia Marques Camargo Ferraz,
Ângela Aparecida Rangel, Leandro Lopes Pereira de Melo, Marta Valéria
Capacla, 1994) “O fim de semana na ilha: como os cruspianos utilizam o
tempo livre (André Augusto Bezerra, Celso Luiz de Camargo, Paulo
André Kulsar, 1996); “Lazer na cidade de São Paulo: a mancha
da avenida Waldemar Ferreira - Rei das Batidas” (Ludmila Costhek Abílio,
Mariana Baptista Giroto, Ricardo Francisco Rios, 2000); “Lazer e
sociabilidade no CRUSP” (Marina Stefani de Almeida, 2002); “Companheiros
sociais: etnografia e a mancha cruspiana” (Carlos Diego de Souza
Rodriques, 2003); “O lazer no MAC sob a ótica de seus freqüentadores”
(Cristiano Miglioranza Mercado, 2001); “Um estudo sobre o uso da maconha”
(Fábio Lyra, Juliana de Miranda Coelho, 2003). ); “Tem soldado no
pedaço – Jardim S. Remo” (João Branco, Lara Mesquita, Melina
Rangel, Olivia Gonçalves Janequine, Otávio Albuquerque, 2003).
A noção de "pedaço", aplicada em outro contexto -
não mais na periferia, mas em regiões centrais da cidade
- mostrou que as regras de sociabilidade que instaura também são
encontradas em espaços desvinculados da moradia e vizinhança:
"A diferença com a idéia do pedaço tradicional é
que aqui os freqüentadores não necessariamente se conhecem
- ao menos não por intermédio de vínculos construídos
no dia-a-dia do bairro - mas sim se reconhecem enquanto portadores dos
mesmos símbolos que remetem a gostos, orientações,
valores, hábitos de consumo, modos de vida semelhantes." (MAGNANI,
2000:39).
Agradeço a Daniela Amaral Alfonsi por esta informação.
Numa mancha de lazer, por exemplo, os equipamentos podem ser bares,
restaurantes, cinemas, teatros - os quais, seja por competição
ou complementação, concorrem para o mesmo efeito. Uma mancha
caracterizada por atividades ligadas à saúde, por exemplo,
geralmente se constitui em torno de uma instituição tipo
âncora - um hospital - agrupando os mais variados serviços
(farmácias, clínicas particulares, serviços radiológicos,
etc.). E assim por diante.
Ver Magnani 2002.
Este é um caso que, idealmente, ilustra uma das complexas relações
entre cultura e patrimônio no âmbito da política
preservacionista: uma possível iniciativa de proteção
evidentemente não se aplicaria àquelas regras de casamento
e parentesco, decisão que só pertence ao grupo em questão,
mas poderia contemplar seu suporte (seja na forma de registro ou mesmo
de tombamento), incorporando-o assim ao patrimônio, enquanto contribuição
dessa população e, também, possibilitando a outros
setores da sociedade entrar em contato com esse aspecto do modo de vida
daquele grupo indígena. Trata-se da conhecida regra de que medidas
de proteção aplicam-se aos suportes e não à
cultura enquanto sistema de regras. Este caso entra aqui apenas para estabelecer
um contraponto, sem a pretensão de introduzir a intrincada questão
do modo de vida e da cultura das nações indígenas
no quadro das políticas públicas de defesa do patrimônio.
Vide artigo de Curt Nimuendaju Habitação dos Timbiras
e
comentário de Viveiros de Castro, Revista do Patrimônio,
n. 26, 1997.
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MAGNANI,
J. Guilherme & TORRES, Lilian. (2000[1996]), Na metrópole:
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J. Guilherme Cantor - (2002) “De
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MAGNANI,
J. Guilherme Cantor & MORGADO, Naira (1996) – “Futebol de várzea
também é patrimônio” Revista
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
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(1991) – “Identidades passadas, presentes e emergentes: requisitos para
etnografias sobre a modernidade no final do século XX ao nível
mundial”. Revista
de Antropologia. n. 34, São Paulo.
NIEMUENDAJU,
Curt - “Habitação dos Timbiras” / “Comentário”
- VIVEIROS DE CASTRO, E (1997) - Revista
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
n. 26, Brasília.