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José
Guilherme Cantor Magnani
Departamento
de Antropologia da Universidade de São Paulo
INTRODUÇÃO.
Dona
Teresa estava louca. Além de há muito tempo não realizar
mais as tarefas domésticas, quando tinha seus acessos assumia atitudes
muito estranhas: no meio da noite saía seminua a provocar
os homens em bares, fazia as necessidades fisiológicas por
toda a casa, entrava em supermercados, onde enchia o carrinho de mercadorias
e, na hora de pagar, atirava-os para o alto, aos gritos. Não conseguia
mais dormir e perdera a memória: não reconhecia nem
mesmo os próprios filhos.
Seus
familiares tinham experimentado de tudo, sem sucesso. Internada em diversos
hospitais psiquiátricos, onde fora submetida aos tratamentos habituais,
apresentava ainda sinais e feridas causados pelas ataduras com que era
sujeitada, cada vez que entrava em estado de agitação.
Já sem esperança, marido e filhos resolveram, então,
seguir a indicação de um conhecido e a levaram ao terreiro
de umbanda "Tenda de Umbanda Caboclo Trovejeiro" da mãe-de-santo
"madrinha" Lourdes, localizado em Pirituba, bairro de periferia na
zona oeste da cidade de São Paulo.
Como
este, são incontáveis os casos de pessoas que, por motivo
de doença, conflitos familiares, questões afetivas, problemas
econômicos e distúrbios psíquicos, recorrem aos
cultos denominados afro-brasileiros - entre os quais se enquadra
a Umbanda - em busca de alívio para as mazelas do corpo e
aflições da alma. As dimensões deste fenômeno
- para muitos, indicativo do grau de atraso, abandono e ignorância
das camadas mais baixas da população - podem ser avaliadas
pelo número de casas de culto: só no município de
São Paulo, e contando apenas os devidamente registrados, existem
atualmente cerca de 18.000 terreiros de umbanda, candomblé
e centros espíritas .
A
disseminação destas e outras formas de religiosidade popular
tem levado alguns estudiosos a vinculá-la às condições
de vida da população de baixa renda nos grandes centros urbanos.
Sujeita a uma intensa rotatividade no mercado de trabalho, confinada a
bairros de difícil acesso e carente dos recursos mais essenciais,
essa população vê-se compelida a montar estratégias
capazes de articular os escassos rendimentos com suas necessidades básicas,
a fim de garantir a sobrevivência. Uma dessas estratégias
seria fornecida pelo atendimento oferecido por diferentes cultos religiosos
que constituem de certa forma uma alternativa à deficiente
rede pública hospitalar.
Cabe
assinalar, contudo, que não apenas pessoas oriundas dos estratos
mais pobres freqüentam os centros umbandistas. A presença de
membros das camadas médias, por exemplo - evidentemente com acesso
aos serviços médicos convencionais - torna insuficiente a
explicação do florescimento de tais cultos por fatores como
a pobreza ou ignorância de seus freqüentadores. Certamente
ligada à insegurança produzida pelas duras condições
de vida, a resposta mágico-religiosa a problemas como desemprego,
perturbações mentais, doenças físicas,
dificuldades na relações interpessoais, etc., não
se restringe à busca de solução para questões
concretas e imediatas: quando se recorre às práticas religiosas,
busca-se algo mais.
A religião,
antes de mais nada, oferece um conjunto de certezas que constituem pontos
de referência diante da imprevisibilidade da vida cotidiana. Se nem
sempre evita o sofrimento, torna-o inteligível, dá-lhe um
significado. Princípio integrador de acontecimentos que em sua incoerência
se apresentam como insuportáveis, propicia a introdução
de uma ordem no caos. E é aqui onde reside uma diferença
fundamental entre a prática médica oficial e as práticas
alternativas, particularmente as que se vinculam a sistemas religiosos
como é o caso da Umbanda. Enquanto a primeira tende cada vez mais
à especialização e tecnificação - separando,
dividindo, classificando - estas últimas oferecem um princípio
integrador.
Analisar
a composição química das folhas, raízes
e ervas empregadas em banhos e infusões; estudar o papel terapêutico
da música e da dança; entender o fluxo energético
contido nos passes e defumações - elementos utilizados pelas
práticas curativas umbandistas - se de um lado podem trazer
algum conhecimento sobre sua eficácia deixam, contudo, escapar
o essencial: essa, com efeito, reside menos nas propriedades dos objetos
e gestos mobilizados durante os rituais do que na referência a um
sistema mais abrangente que, antes de mais nada, define o que é
doença e fundamenta as práticas de cura. Pensar, pois, a
questão da doença e da cura no interior do culto umbandista
implica levar em consideração sua cosmologia, seu
ritual, a prática de seus agentes.
Portanto,
antes do relato do tratamento da dona Teresa, fazem-se necessárias
alguma referências ainda que sumárias sobre os fundamentos
da Umbanda.
UMBANDA:
PRINCÍPIOS E FUNDAMENTOS
Não
cabe, nos limites deste artigo, uma descrição pormenorizada
da religião umbandista, principalmente porque isto implicaria expor
e analisar os complexos laços que mantém com outras religiões
e cultos que lhe serviram de matrizes, no passado, e com aqueles com que
estabelece, no presente, relações de troca ou competição.
Limitar-me-ei, por conseguinte, aos elementos que permitirão o entendimento
do seu sistema de classificação das doenças e do próprio
ritual mobilizado na cura de dona Teresa.
Tal
como ocorre nos demais cultos de possessão que, em graus diferentes,
estão em sua base, como o Candomblé e o Espiritismo,
a pedra angular da Umbanda é a comunicação entre a
esfera do sobrenatural e o mundo dos homens, através da incorporação
das entidades espirituais num grupo e no corpo dos iniciados. Apresenta,
contudo, algumas particularidades que a diferenciam daqueles cultos.
No
Candomblé, por exemplo, as entidades - orixás - não
são consideradas espíritos de mortos, mas reis, princesas
e heróis divinizados que representam forças da natureza (Iansã,
os ventos, a tempestade; Iemanjá, o mar; Ossãe, as folhas
e plantas; Oxum, os rios e cascatas, etc.); atividades humanas (Oxossi,
a caça; Ogum, a guerra e a metalurgia; Omulu, a medicina); virtudes
e paixões (Xangô, a justiça, Oxum, o amor e o ciúme;
Oxalá, a sabedoria), etc., cujas ações se desenrolaram
num tempo mítico .
Na
Umbanda, as entidades são considerados espíritos de mortos
que descem do astral onde habitam para o planeta terra - visto como lugar
de expiação - onde, através da ajuda dos mortais,
ascendem em seu processo evolutivo em busca da perfeição.
Tal concepção, tributária da doutrina do carma, apresenta,
contudo, algumas diferenças com relação ao Espiritismo
kardecista :
enquanto para este último os espíritos que descem nas sessões
são individualizados e reconhecidos pela história de suas
vidas passadas, as entidades umbandistas constituem categorias mais genéricas,
onde a referência à vida pessoal é substituída
por representações como, por exemplo, caboclos
e pretos-velhos.
Perdida
a lembrança dos traços individualizadores, os espíritos
de velhos escravos e índios assumem o papel de antepassados de etnias
africanas e indígenas, sendo representadas por uma série
de marcas correspondentes a uma visão que se generalizou através
de tradições orais e da escrita: a figura altiva do índio,
amante da liberdade, popularizada pela corrente indianista da literatura
romântica; o aspecto humilde do preto-velho, sábio e compreensivo
com as misérias humanas e o sofrimento, visão idealizada
sobre velhos escravos e escravas conhecedores de segredos, remédios
e também poderosas magias empregadas contra os senhores brancos.
Nos
três casos citados - Candomblé, Espiritismo, Umbanda - o caráter
do transe é diferente: no Candomblé, ele é regulado
por um conjunto de mitos que contam as sagas dos deuses e que os iniciados
repetem, através da coreografia, cânticos e roupas, representando
assim, uma história muito antiga, mítica. No Espiritismo
kardecista, os médiuns emprestam seu corpo, sua voz, sua matéria,
enfim, para que mortos possam continuar comunicando-se com os parentes,
amigos, discípulos.
Na
Umbanda, o transe não é nem estritamente individual nem propriamente
uma representação com a profundidade dos mitos, mas a atualização
de fragmentos de uma história mais recente através de personagens
tais como foram conservados na memória popular: o caboclo Tupinambá,
ou o pai Joaquim de Angola, quando descem, não são a representação
deste ou aquele indivíduo em particular, mas uma representação
genérica e estereotipada de índios brasileiros, escravos
africanos e outros personagens liminares (Turner,
1974) presentes em diferentes contextos históricos e sociais brasileiros .
As
entidades umbandistas são, portanto, espíritos de mortos
- ainda que não individualizados - para quem a missão
de ajudar os homens é um meio de expiar faltas passadas de acordo
com a doutrina do carma e assim progredir em busca da perfeição.
Tem-se, assim, a crença na comunicação concreta e
real entre o mundo dos vivos e dos mortos; estes o fazem em virtude da
necessidade de evoluir espiritualmente, para o quê necessitam da
materialidade do corpo físico dos iniciados.
As
entidades dividem-se, basicamente, em espíritos de luz (ou da direita)
e espíritos não evoluídos (ou da esquerda). Tanto
uns como outros encontram-se em diferentes estágios de progresso
espiritual: os mais atrasados na escala evolutiva, muito próximos
ainda da matéria são os exus, cuja representação
iconográfica os aproximaria da figura do diabo da tradição
cristã. No panteão do candomblé, porém,
Exu é considerado o orixá que estabelece mediação
entre o mundo dos homens e o dos deuses: não evoca o mal, mas
a ambigüidade, a passagem, a comunicação. Na Umbanda,
o correspondente feminino de exu é a pomba-gira, que geralmente
assume a forma estereotipada da prostituta .
Exus
e pombas-gira são antes representações coletivas
do que espíritos individuais; para se designar espíritos
de mortos individualizados usa-se o termo eguns. Estes, antes de iniciar
seu processo evolutivo - neste caso considera-se que permanecem vagando,
podendo inclusive afetar as pessoas - são nomeados pelo termo
quiumbas. Não provocam transe mas, como se verá, uma perturbação.
Os
espíritos de luz, que trabalham na direita, quando baixam no terreiro
e se apossam do corpo dos médiuns, assumem posturas corporais e
exibem adornos que permitem identificar sua origem: são os já
citados caboclos, pretos-velhos, marinheiros, etc. Cada uma dessas
categorias, agrupadas em linhas, atendem a pedidos específicos,
"especializam-se" em determinadas doenças e problemas. Assim, por
exemplo, exus e pombas-gira atendem a casos que envolvem dinheiro, sexo,
desavenças de ordem afetiva; espíritos de luz, como caboclos
e pretos velhos não se envolvem com tal tipo de questões:
dão conselhos, receitam remédios de ervas e raízes,
insistem no fortalecimento espiritual, abrem caminhos.
Tais
categorias são fundamentais para se compreender a classificação
das doenças, na Umbanda, e os processos de cura. Assim, costuma-se
distinguir, em primeiro lugar, as doenças cármicas: são
as decorrentes de uma provação pela qual a pessoa deve passar
em razão de faltas não expiadas que seu espírito,
do qual o corpo é mero invólucro, tenha cometido em vidas
anteriores. Neste caso resta apenas resignar-se porque da aceitação
do sofrimento presente depende a evolução do espírito
rumo à perfeição. Geralmente tal tipo de explicação
aplica-se a enfermidades congênitas.
Em
alguns casos as perturbações, tanto físicas como mentais
- fraqueza, desmaios, dores de cabeça, visões, convulsões
- são consideradas não doenças propriamente ditas,
mas sintomas de mediunidade. A pessoa que possui essa capacidade e não
sabe, ou se sabe e não quer aceitá-la pode sofrer uma série
de distúrbios interpretados como resistência a dar passagem
à entidade espiritual que a escolheu como instrumento para sua missão
na terra.
Há
também perturbações causadas por outras pessoas: são
o resultado de influências negativas por causa da inveja nas relações
afetivas, profissionais e também por causa de feitiços e
encantamentos encomendados por desafetos. Se no primeiro caso o malefício
é interpretado como resultado de fluidos negativos, no segundo é
produzido diretamente pela manipulação de forças
espirituais através de ritos e objetos mágicos.
Finalmente,
há as doenças causadas por encosto: no último plano
da escala evolutiva estão espíritos ainda sem luz, os quiumbas,
que vagam sem destino e podem apossar-se das pessoas (nas quais encostam).
Quando isto acontece, essas pessoas ficam perturbadas, com dores de cabeça,
desmaios, compulsão ao suicídio, têm convulsões
e até mesmo distúrbios físicos. Se o encosto chega
a dominá-las completamente, trata-se de uma obsessão: ele
toma o lugar do espírito da pessoa o que pode acarretar perturbações
mais sérias e até levar à morte. Segundo
as palavras de uma mãe-de-santo entrevistada,
"...
é
os que vem com encosto, pra eles sair, deixam desmaiado... porque
esses que às vezes estão doente, que não tem cura,
que os médicos estão procurando saber é porque eles
não estão com seu espírito, o espírito deles
está vagando e o que está é aquele companheiro morto,
é um guia ruim morto, e como é que eles (os médicos)
vão achar, eles não podem achar, eles ficam procurando e
dizem 'você não tem nada', não tem nada naquela matéria.
Porque é um espírito que está vagando, que está
ali, no pé dele... A Raimunda, ela passou dezessete dias nas (Hospital
das) Clínicas, mal, mal, e os médicos não estavam
mais dando vida pra ela, ela só ficou boa quando fiz o levantamento
dentro das Clínicas, chamei o espírito dela, tirei aquele
que estava vagando com ela, trouxe prá cá e fiz transporte
aqui no terreiro mesmo, na gira, foi aí que deu três dias
e ela recebeu alta: ela não abria os olhos, não falava mais.
Enquanto não tirar (o espírito obsessor) pode até
morrer, porque taca remédio sem aquela matéria precisar,
não é? aí toma aqueles remédios, injeção,
operação, duas, três operação, eles queriam
operar e eu disse não opera e dito e feito, não precisou,
até hoje". (Gilda Alves, mãe-de-santo da "Tenda de Umbanda
Caboclo Sete Flechas")
DOENÇA
E CURA
Tendo
em vista que para os umbandistas corpo e mente constituem uma unidade,
pertencente ao mundo físico e contraposta ao plano espiritual, cósmico,
a doença mental surge sempre no discurso sobre doença de
forma geral. Encostos, faltas não expiadas em outras encarnações,
mediunidade não desenvolvida, más influências de terceiros,
trabalhos feitos
- tudo isso pode acarretar perturbações tanto no corpo como
na mente. Por outro lado, sendo a terra "um planeta de trevas, de expiação,
de sofrimentos, por isso o mal predomina nos espíritos reencarnados
neste mundo: somos imperfeitos, isto é, somos maus, orgulhosos,
odientos, vaidosos, vingativos, ciumentos, invejosos e temos faltas a redimir
provindas das encarnações anteriores", de acordo com as palavras
de um líder umbandista , a humanidade está sujeita a toda
sorte de más influências que afetam as pessoas mais fracas,
sem a cobertura e proteção dos guias.
A existência
do mal no mundo, que para os adeptos mais intelectualizados da Umbanda
é resultado da posição inferior que a terra ocupa
no plano evolutivo cósmico, no discurso de pais e mães-de-santo
de terreiros mais populares aparece vinculada a problemas muito concretos
que afetam a vida de seus clientes: dificuldades econômicas, conflitos
familiares, desemprego, e outros:
"...às
vezes está desempregado, já está biruta, falando sozinho,
aí a gente diz: 'Filho, você precisa de arrumar um emprego,
eu vou arrumar prá você um emprego' - já fica alegre,
no outro dia volta, eles chegam com a carteira (profissional), os orixás
benzem aquela carteira, eles saem com aquela fé e arruma no mesmo
dia, no outro dia volta a trabalhar, já então deixa de pegar
a loucura, porque já vai trabalhar, e não pensa mais nisso"
(Gilda Alves, mãe-de-santo).
Neste
caso, a doença mental, ainda que sempre referida ao plano espiritual,
não está diretamente vinculada à interferência
dos fatores sobrenaturais, mas é conseqüência de conflitos
e dificuldades bem prosaicos. Nos terreiros mais populares não há
a preocupação globalizante do discurso dos intelectuais umbandistas
que procuram relacionar tudo ao plano cósmico e para quem a desordem
se situa no desajuste entre este plano e a esfera dos mortais. Mais colados
ao cotidiano de seus consulentes, seu móvil é menos a coerência
doutrinária que a busca de alívio para os problemas concretos
e existenciais daqueles que os procuram.
A primeira
conclusão a que se pode chegar sobre o caráter da doença
na concepção e prática umbandistas é que as
perturbações, sejam físicas ou mentais, estão
sempre relacionadas com o plano espiritual: de forma explícita,
no discurso dos intelectuais e dirigentes da Federações Espíritas,
portadores de uma doutrina mais elaborada; nos terreiros mais populares
essa relação é mais difusa e fragmentária.
Algumas, como as doenças de origem cármica e as perturbações
consideradas sintomas de mediunidade, são diretamente produzidas
pela interferência do plano cósmico na vida dos mortais.
As
doenças decorrentes de encostos, trabalhos feitos e fluidos negativos
de outras pessoas, ainda que induzidos pela ação de terceiros,
de uma forma ou outra passam pela mediação da esfera espiritual:
o encosto é a alma de algum morto, geralmente próximo
ao enfermo (parente, colega) que por ignorância ou vingança
apossa-se dele; os
trabalhos feitos supõem manipulação
de forças e entidades espirituais através de determinados
ritos e as más influências são consideradas irradiações
fluídicas maléficas.
Vejamos
mais de perto o caso das perturbações produzidas por encostos.
Aparecem repentinamente: a pessoa está bem e, de um momento para
outro, começa a ter visões, idéias compulsivas de
suicídio, surtos temporários de loucura - brigas com familiares,
acessos de fúria com quebra de objetos em casa - ou é acometida
inexplicavelmente por algum mal físico.
A
primeira providência a ser tomada é identificar que tipo de
espírito está encostado, pois o processo da cura dependerá
de sua natureza: geralmente entram na categoria de quiumbas, isto
é, espíritos sem luz, atrasados. Pertenceram a pessoas que
se dedicaram, na terra, a fazer o mal e por isso depois da morte ficam
vagando sem descanso. Nem sempre são associados a pessoas que em
vida tiveram alguma relação com o doente. Uma vez identificados
- o que implica nomeá-los - e satisfeitos seus pedidos de tabaco,
aguardente ou comida pois, como se viu, são considerados espíritos
ainda muito próximos da matéria, deverão ser afastados.
O processo de expulsão inclui uma série de ritos conforme
o grau de domínio do encosto sobre a pessoa. Se a possessão
não é total, podem ser suficientes alguns gestos rituais,
os passes: o paciente - descalço e desprovido de objetos de metal
- é rodeado pelos médiuns incorporados com suas entidades
que passam vigorosamente as mãos pelo seu corpo, de alto a baixo,
da cabeça aos pés; dão-lhe baforadas de tabaco, fazem-no
girar sobre si mesmo, sacodem seus braços, etc. Se o espírito
resiste, insistindo em habitar e perturbar aquela pessoa, faz-se
um descarrego ou desobsessão.
O ritual
varia de terreiro para terreiro, mas o processo consiste em transferir
o encosto do corpo do afetado para o do médium, que atua como uma
correia de transmissão; tal prática é também
chamada de transporte. São ainda empregados banhos de ervas,
descargas de pólvora, defumações e outros recursos
como técnicas auxiliares.
Quando,
no processo de identificação, estabelece-se uma relação
mais direta entre o encosto e a pessoa afetada, para fazê-lo
subir
é preciso descobrir os motivos pelos quais se apossou dela. Este
foi o caso de dona Teresa, que será relatado a seguir.
CASO
DE DONA TERESA
Dona
Teresa chega ao terreiro amarrada: seu caso é desesperador. Como
já foi assinalado na introdução, há muito tempo
deixara de cumprir com suas obrigações de dona de casa e,
quando tinha os surtos, apresentava um comportamento estranho e perturbador:
convidava os filhos a compartilhar seu leito, fugia de casa, fazia as necessidades
fisiológicas pela casa, altas horas da noite aparecia em bares em
atitudes provocativas, até em supermercados do centro da cidade
fora encontrada, fazendo confusão. Não dormia mais, nem reconhecia
os próprios filhos. Independentemente de qualquer diagnóstico
médico, estava louca, ou seja, seu comportamento estava em
desacordo com os padrões vigentes no seio de sua família
e de seu meio social, como resultado de processos desconhecidos para
ela e seus familiares e que resultavam em sofrimento para todos.
"A
primeira vez que ela veio ao terreiro, entrou ela, o marido e os dois filhos.
Era uma morena bonita, cabelo curto, rosto redondo, olhos deste tamanho.
Os olhos, como duas bolas de fogo. Quando eu olhei, disse para mim mesma
- Meu Deus, agora ela me mata! - a sorte é que eu tinha saído
do assentamento, eu faço meu trabalho espiritual ali. A gente
sente quando uma pessoa chega carregada, não é?" (Madrinha
Lourdes, trecho de entrevista.)
Quando
a mulher vê a mãe-de-santo, fica furiosa, solta-se e avança
sobre ela aos tapas e pontas-pés, arrebentando-lhe as guias (colares
de contas coloridas) e rasgando-lhe a roupa. O marido e os filhos
querem intervir, mas madrinha Lourdes os impede: "Seu Bertolino" e "Rosa
Bacura", duas entidades espirituais são invocadas para ajudá-la.
São as entidades protetoras dessa mãe-de-santo e do seu terreiro;
ela atua tanto em estado de possessão, com os espíritos incorporados,
como também de forma consciente, apenas com sua invocação
e presença espiritual. Por um tempo a doente se acalma, pede desculpas
e ajoelha-se a seus pés, mas madrinha Lourdes diz que não
é preciso, pois
"(...)
eu
era igual a ela, mas ela não queria: - Ah, a senhora me desculpe,
a senhora me perdoe - Aí eu já fui chamando meus protetores,
fazendo a minha parte. Ela ficou quietinha, dizendo: - A senhora
me perdoe, viu, a senhora me perdoe.
Mas
apenas tinha se acalmado, já mudou:
- Ai, credo, que casa fedida, Deus que me perdoe! De novo chamei
meus protetores, peguei na mão dela, falei para ela:
-
Agora
a senhora gosta de mim?
-
Eu
gosto! A senhora é muito boa, mas o que eu vim fazer
aqui?
-
A
senhora veio passear, tomar um café...
-
Eu
não quero café, não! Deus me livre, nesta casa cheia
de enxofre. Aqui é igreja?
Ela
estava com calça preta e blusa vermelha (são as cores
rituais preferidas pelas pombagiras). Aí eu pedi para tirar aquela
blusa e ela disse:
-
Ah,
é para eu ficar pelada? Eu fico pelada!"
Madrinha
Lourdes lava-lhe a cabeça e a doente volta a acalmar-se: chega a
dizer para o marido que se sente bem, que é outra mulher. A mãe-de-santo
começa então a perceber os encostos perto dela, que
tinham ficado fora, por causa da "cerca espiritual" que suas entidades
protetoras, os
guias de cobertura, tinham feito quando ela chegou.
Vai, então, começar a identificação dos espíritos
que atormentam aquela mulher. Todos participam: a mãe-de-santo,
a própria dona Teresa, o marido, os filhos, e os médiuns
do terreiro que vão chegando - cada qual contribuindo, à
sua maneira, como se verá adiante, para o processo coletivo de busca
e construção de categorias com base no repertório
comum oferecido pelas narrativas e representações das
entidades e a partir da biografia da paciente.
A estrutura
do processo é o seguinte: a mãe-de-santo "vê" cada
um dos encostos, descreve-os, interpela-os firmemente para saber
porque estão com aquela mulher e em seguida confirma suas percepções
com os filhos, o marido e com a própria dona Teresa quando
volta a si, perguntando se realmente existiu tal ou qual pessoa, se eles
sabiam quem era, qual a relação que havia entre eles e dona
Teresa. Esta, durante todo o processo, alternará entre estados de
consciência alterados - quando, então, serão os encostos
que se manifestam - e momentos de volta a si.
De
sumo interesse seria conservar, na íntegra, o discurso e o encadeamento
que a mãe-de-santo imprime ao processo; tendo em vista, porém,
seu tempo de duração - "essa confusão
foi prá mais de uma hora, meu filho, mais de uma hora só
conversando", afirmou madrinha Lourdes - vou procurar reconstituir
de forma mais econômica as falas a partir do relato original:
"(...)
aí ela começou a conversar comigo depois do banho, quando
daí a pouco (os encostos) iam aparecendo, um por um. Cada
um que ia aparecendo, ela já ia ficando tomada. Assim, chegou primeiro
uma velhinha, uma velhinha baixinha de lenço na cabeça, era
bem de idade mesmo, uma pessoa de 80 anos, bem velha mesmo, com um pano
amarrado aqui assim, um aventalzinho xadrez, com uma blusinha branca com
um babadinho aqui, a roupa amarrada aqui assim, com um pedacinho de queijo
na mão, um pano como um coador e um pedacinho de queijo. Mastigando,
assim, uma coisa bem esquisita. Foi só a velha entrar que, pronto,
ela (dona Teresa, alterada) começou:
-
Ah, que eu vou ficar louca, porque eu vou ficar louca, porque
eu não gosto dela, porque eu tenho raiva dela, porque eu quero que
ela morra! "Aí, eu falei para eles (para o marido e os
filhos): Eu vi entrar uma velha. E ela, falando como velha:
-
Eu
quero banana, eu quero banana! " Então o marido virou para
ela e disse":
- Ó
Teresa, não tem banana aqui, na casa da madrinha não tem
banana...
- Eu
não sou Teresa, não, não sou Teresa, não!
"Aí, eu falei" :
- Olha,
eu estou vendo muito bem a senhora - aí ela baixou a cabeça
- não vá pensar que a senhora vai entrando aqui de pato a
ganso, porque aqui tem quem chamar, entendeu, eu mesma estou vendo
a senhora, estou vendo a senhora de tênis marrom, de avental escuro
de pintinha, meio remendado num canto, estou vendo a senhora com um pano
amarrado na cara, estou vendo a senhora com um coadorzinho e com um pedaço
de queijo. Aí, ela desencostou e ficou num canto mascando,
mascando. Aí, eu falei: "E eu tenho o nome da senhora, a senhora
chama-se
Nhá Mica".
-
Ah, eu quero banana, eu quero banana! - Aí, ela voltou de novo.
"Então
eu falei que ia mandar buscar banana, mandei buscar na hora e o senhor
sabe como é, banana é uma coisa que quando acaba de fritar
é quente, não é? O senhor acredita que o Luís
foi buscar as bananas para ela e ela comeu as sete bananas num minuto!
Quente, fervendo, num minuto!"
-
Agora
que a senhora já comeu as bananas, agora a senhora vai contar porque
persegue esta moça. Ela é uma senhora casada, ela tem filhos,
ela tem a vida dela. Se a senhora pertenceu à família dela,
ou se teve amizade com ela, a senhora tem que entender que já não
é deste mundo. A carcaça dela não é da senhora,
a da senhora já foi há muito tempo. Nós vamos fazer
uma prece para a senhora, para a senhora reconhecer o seu estado
-porque fazendo uma prece, ela sente aquela leveza, assim, e aquela força,
compreende?
"
Dizem
que para os espíritos ganharem luz, demora muito porque enquanto
Deus não vê que tem merecimento, Ele não dá
luz... Mas naquela horinha, só para ele reconhecer seu estado e
deixar aquela carcaça em paz, os orixás de luz dão
um pouquinho de luz, só para eles reconhecerem que não pertencem
mais a este mundo."
-
Senhor
José, Ismael, Marcos, vamos fazer uma prece para dar força
para esse egun desencostar um pouquinho e reconhecer o estado dele. - Pronto,
fizemos aquela prece e (o encosto) saiu, saiu e ela ficou quieta, mas daqui
a pouco veio de novo:
-
Ah,
eu não gosto dela, não!
- Por
que a senhora não gosta dela?
- Ah,
eu trabalhava na casa do nhô Domingos, e a mulher do
nhô
Domingos contratou ela para trabalhar no meu lugar, pensando que eu ia
ficar escrava dela, que ela ia pisar em mim, aquele lugar me pertencia,
não era dela, então eu morri logo e estou em cima dela e
vou deixar ela louca.
- Está
bom. Mas a senhora vai sair dela. - "Aí, eu perguntei:
- Dona
Teresa, a senhora conheceu fulana de tal, assim, assim?
- Conheci,
sim, era um velhinha que fazia queijo na casa do meu tio e meu tio morreu
e casou com outra mulher e esta senhora pediu para eu ficar lá,
e esta velhinha era a caseira e vivia brigando comigo por tinha ciúmes,
pois eu sabia fazer queijo muito bem. - Aí, o marido dela
falou:
- É
mesmo, dona Lourdes, como é que pode, meu Deus? - Ele ficava assim
tão desesperado e começou a contar também da nhá
Mica. Aí eu falei que está bom , que está confirmado.
E de repente ela começou de novo a dizer que estava louca e a dizer
umas orações que o padre faz na Semana Santa, que ninguém
entende, orações de São Pedro, Santo Agostinho, São
Paulo, ela cantava Ave Maria, fazendo de conta que estava com o rosário
na mão. Aí eu fiquei quieta e enquanto ela fazia isso a outra
veio e encostou... Uma outra, morena pálida, morena bem bonita,
de cabelo comprido, com uma falha de dente, de óculos, com brinco
de argola, de vestido comprido, sapato branco uma fita azul e um
pano roxo...
Nem
bem tinha subido o primeiro encosto, quando se manifesta o segundo.
Para resumir, dona Teresa estava possuída por cinco encostos, um
exu e uma pomba-gira.... para cada um, repete-se o mesmo processo:
identificação, descrição rica em detalhes concretos,
confirmação, interpelação. Madrinha Lourdes
trabalha a "loucura" daquela mulher introduzindo um princípio de
classificação e ordem: cada encosto tem um nome, uma caracterização
e uma história que se cruza com a biografia de dona Teresa. A "morena
de cabelo comprido", Mercedes, era uma colega sua que fora afastada do
coro da igreja pelo pároco para ceder o lugar a ela; "pai
Inácio", um cuidado de porcos da fazenda que a detestava; Serafim,
um mendigo; Zinha, sua aluna de catecismo que morrera atropelada. Havia,
ainda, um exu e uma pombagira:
(...)
Aí eu falei: Olha, eu estou vendo você e conheço
você muito bem. Você é a Maria Sete Saias
e você está perturbando a pessoa errada, ela é uma
senhora casada, uma senhora mãe de filhos, uma senhora de muito
respeito. E se você foi destinada para ser uma protetora dela, você
deve proteger ela para não ter imoralidade, para ela não
pensar em coisas feias, assim como não se deve, como não
é permitido para uma senhora casada. Aí ela (a pombagira)
saiu e pediu que ela (Teresa) lhe desse uma saia vermelha, de babado
e uma flor para ela pôr no cabelo. Disse que não
ia mais amolar ela. Mas que ela tem de trabalhar com ela. Aí o marido
dela disse que era justamente essa daí que ficava falando, quando
tirava a roupa e chamava os filhos... A Teresa falava muito nessa Sete
Saias..."
Construído,
desta forma, um vínculo de cada um desses personagens com
a história da vida de dona Teresa, a mãe-de-santo estabelece
uma série de relações: a pombagira (Maria das Sete
Saias) era, pois, quem a impelia a fugir de casa e aparecer em bares; o
espírito do mendigo era quem a levava ao roubo e assim por diante.
Com base nessas relações, toma, então suas decisões:
aqueles encostos que estavam ligados a ela por sentimentos negativos -
vingança, ciúme, ódio - deviam ser afastados. Exu
e pombagira, na realidade espíritos de outra categoria, (não
individualizados, e já classificados - ainda que da linha da "esquerda"),
podiam vir a ser seus protetores, desde que ela se dispusesse a trabalhar
com eles. O único encosto que expressara bons sentimentos, de gratidão,
tinha sido sua antiga aluna, Zinha; então:
(...)
deixei
a menina para dar uma cobertura, porque depois de todos aqueles
encostos pesados, ela ficou muito abatida, muito fraca e a gente não
pode retirar tudo, sabe, a pessoa vai amofinando, vai amofinando até
morrer... Então eu falei para o marido - Olha, de todos os que estavam
com ela, o mais leve, porque é uma criança, a gente
vai ver se pode purificar com muito amor, com preces, com flores, com doces,
então o espírito dela vai ficando mais entendido e fica sendo
uma protetora. Porque de todos, a única que a gente podia deixar
era a menina, que estava para o bem dela. A menina estava encostada porque
queria agradecer, gostava dela. Mas, a velha, estava com raiva, a moça,
estava com raiva...
Dona
Teresa permaneceu durante sete dias na casa da madrinha Lourdes que, durante
esse tempo a benzia, dava-lhe chás, preparava-lhe todos os dias
banhos especiais com ervas e raízes diferentes.
P.
E
depois de uma semana que ela ficou aqui, ela saiu...
R.
Igual
a todo mundo. Durante o dia ela ficava quieta, sentada, comia, bebia, tomava
banho, sentava no sol, lia revista, como qualquer um. Era como se você
me levasse para passar uns dias na sua casa: a gente acorda, come, bebe,
ajuda a lavar a louça...
P.
E
antes, ela não fazia nada disso?
R.
Nossa
Senhora! Ela não pegava nas coisas de jeito nenhum! ela não
queria nada com a casa, era ele quem lavava a roupa, os filhos que passavam...
Pois se até dos filhos ela não lembrava mais... Aqui, no
dia seguinte, ela já falou - "Ai, estou pensando no Marcos,
no Ismael..." Ela também não lembrava do nome do marido.
Mas aqui, todo mundo perguntava - "Onde o José trabalha?
Como é o nome dos seus filhos?" Todo mundo que vinha aqui perguntava...
E ela respondia, "fulano de tal." E falava bem, com uma gramática...
fala bem mesmo, gente fina...
CONCLUSÃO
Este
relato sugere aproximações e pontos de contato (mas também
contrastes, igualmente significativos) entre o processo desenvolvido no
âmbito de um sistema religioso com as práticas e pressupostos
do aparato e espaços institucionais voltados para o
tratamento da doença mental. Não era seu propósito,
entretanto, estabelecer uma comparação entre esses sistemas
de cura procurando determinar qual seria o mais eficaz, "verdadeiro",
nem ir muito longe na comparação, mesmo porque nenhum
dos dois, especialmente o sistema baseado na medicina oficial, foram
aqui apresentados e discutidos com o cuidado que o tema exige. Interessa
tão somente apontar algumas pistas para uma posterior discussão.
Assim,
diferentemente do hospital, por exemplo, a casa da mãe-de-santo
- onde está situado o terreiro, ou local do culto - não
se distingue das demais edificações do bairro: o material
da construção, o estilo, os objetos e implementos domésticos,
a decoração são os mesmos das outras casas da vizinhança;
há roupas dependuradas no varal, não falta uma pequena horta
ou jardim.
Observando-se
com mais atenção, contudo, percebem-se, aqui e ali, alguns
sinais que trazem a marca do sagrado: entre as plantas, há algumas
especiais - arruda, guiné, peregum, espada de São Jorge e
outras; uma ou outra vela acesa e, junto ao portão, a casinha de
Exu,
o guardião, o senhor dos caminhos e encruzilhadas (O
encosto
não se enganara: - "Aqui é igreja?"). Já as
marcas de ruptura que o hospital introduz não são, assim,
tão sutis: o edifício se destaca - grande e alto, branco
e cercado de muros - com guichês, corredores, salas, celas,
funcionários.
Enquanto
o terreiro estabelece relações de contigüidade com a
casa, o armazém, o bar, e as ruas do bairro, onde transcorre
a vida cotidiana, o hospital pertence a outro quadro de vínculos
paradigmáticos: evoca os espaços e edifícios
que são a sede do poder, como a delegacia, a prefeitura, e outros
órgãos públicos. Lá, o espaço é
familiar, conhecido; aqui, impessoal, burocratizado.
Dona
Teresa chega amarrada à casa da madrinha Lourdes, que manda soltá-la,
toma-lhe a mão, e diante de sua indagação tranqüiliza-a
dizendo que "veio tomar um café"; é assim que inicia o
processo de reconstituição de sua identidade desarticulada.
No hospital, é o contrário, pois lá - onde o
paciente é amarrado, sujeitado - o ritual de iniciação
e "boas vindas" é a retirada dos últimos sinais de
identificação: raspam-lhe os cabelos, vestem-no com o camisolão,
aplicam-lhe sedativos...
Neste
último, os objetos (equipamentos, remédios), o espaço
(salas, enfermarias, consultórios), os agentes (atendentes, enfermeiros,
médicos) as normas (fichas, rotinas) são sinais e mecanismos
de um poder que se exerce dividindo, separando, marcando as diferenças
entre doente e são, ignorância e saber, submissão e
autoridade... No caso da mãe-de-santo o que vemos atuando é
o que Lévi-Strauss denomina de
"complexo xamanístico" (1958: 197): a participação,
cada qual com sua especificidade, do agente da cura (no caso, a mãe-de-santo),
do paciente, e do público (assistentes, parentes) na produção
de um ritual integrativo, de junção, de agregação.
O
poder que o pai ou mãe-de-santo exercem sobre a "loucura" dos outros
tem como base e garantia o domínio sobre a própria loucura,
provados através de seu desenvolvimento, a partir da
feitura
de cabeça, ou seja, de sua iniciação nos segredos
e práticas sagrados, sujeitos a controle e contestação
por parte da comunidade. Madrinha Lourdes "delira" junto com sua paciente,
revive, com ela, sua própria crise; só que sabe como
entrar e sair desse estado, e o faz ritualmente, de forma codificada.
Sua
estratégia não consiste em tentar eliminar a loucura, mas
abrir um espaço para que esta possa expressar-se: para tanto, constrói,
de maneira vívida e convincente, as imagens dos
encostos
a partir de fragmentos de informações que vai recolhendo
durante o processo; ainda que não estejam totalmente "verdadeiras",
isto é, em conformidade com o que realmente aconteceu, essas imagens
são, com certeza, verossímeis - e é isso o que importa,
para sua eficácia e poder de convencimento.
Recompõe-se
a biografia daquela mulher e o que era vivido, dolorosamente, como "loucura",
adquire inteligibilidade: em vez de ser reprimida encontra, agora,
lugar num espaço ritual ao lado da de outras pessoas com experiências
semelhantes, passando a manifestar-se através de um código
legitimado por referência aos mitos que lhe dão sustentação.
A
iniciante terá à sua disposição, para
desenvolver-se, todo um espectro de possibilidades: será uma mulher
sedutora e debochada, através de sua pombagira; arrogante e independente,
por intermédio do caboclo; sábia e conformada, com seu preto
ou preta-velha e assim por diante. Sua "loucura" não será
mais a explosão incontrolável de forças desconhecidas
e perigosas: começará e terminará ritualmente.
O
tratamento realizado no terreiro, em vez de isolar o louco do convívio
dos sãos, é integrador em vários níveis,
pois fornece-lhe uma linguagem para exprimir sua loucura; ensina-lhe a
conviver com ela, permitindo um reordenamento de tendências e pulsões
desagregadoras; integra-o no grupo dos demais praticantes e o re-situa
no meio de um grupo que não o vê como anormal, mas, ao contrário,
como portador de uma missão.
O
que está em causa não é a tentativa de suprimir o
conflito, mas a possibilidade de torná-lo inteligível, de
dar-lhe um significado (Geertz, 1978). A linguagem
religiosa e as referências ao mundo dos espíritos que permeiam
a prática umbandista não significam, pois, um mecanismo simplificador
destinado a reduzir todas as perturbações a uma causa única,
espiritual, "ilusória". É certo que a referência ao
sistema religioso está presente e é a ele que se recorre
em busca de fundamento.
No
entanto, na outra ponta do processo estão os problemas concretos
e reais resultantes de dificuldades econômicas, familiares, afetivas,
etc. as quais, sejam ou não pensadas em termos de encostos, trabalhosfeitos,
etc., não deixam de constituir fatores de angústia,
sofrimento e conflitos. O discurso religioso globalizante, conforme afirma
Geertz
(op.cit.) permite pensá-los dentro de alguma ordem, oferece um critério
de classificação e representa um princípio integrador
de acontecimentos que em sua incoerência se apresentam como insuportáveis.
E a umbanda o faz à sua maneira como se pôde ver com base
no relato sobre o encontro de dona Teresa e madrinha Lourdes.
Notas
1
A publicação deste texto deveu-se ao interesse de Luiz Henrique
de Toledo, que me convenceu a fazê-lo, apesar de algumas resistências
iniciais que precisam ser explicitadas até para que se possa entender
a própria estrutura do artigo. Ele tem como base uma pesquisa
que coordenei, na década de 80, com auxílio financeiro da
Fundação Oswaldo Cruz e cujo responsável institucional
foi o médico psiquiatra Uraci Simões Ramos. O relatório
final, que nunca foi publicado, tinha como sub-titulo: "subsídios
para uma proposta de estudo comparativo entre a prática médica
oficial e práticas alternativas" e trazia os dados de
campo colhidos em vários terreiros de umbanda na cidade de São
Paulo. Utilizei parte das observações, entrevistas e análise
num texto didático que circulava entre alunos e que, posteriormente,
foi atualizado e tomou o formato de artigo. Essa versão, entretanto,
nunca foi publicada, pois eu queria localizar a paciente tratada pela mãe-de-santo
e incluir seu depoimento, após o processo aqui descrito,
com o propósito de cotejá-lo com o discurso de madrinha
Lourdes; infelizmente, nunca consegui localizar dona Teresa. Ainda acho
que o texto fica incompleto sem a comparação; no entanto,
fui convencido de que, apesar de datado e marcado por essa limitação,
valeria a pena divulgá-lo na medida em que mostra, ao
menos em parte, a lógica da cura no contexto ritual e doutrinário
da umbanda em uma de suas vertentes.
2
Este dado foi levantado por Negrão, 1996 e
é aproximativo, pois tem como base informações oficiais
colhidas em cartórios de registro. Há, porém,
muitos locais de culto que não são registrados e nem todos
que fecham fazem a devida comunicação.
3
Cabe lembrar que há diferenças entre as "nações"
de candomblé (quetu, angola, ijexá, etc.) em relação
ao panteão, denominações das divindades e suas características;
aqui tomo como referência a versão mais conhecida do
candomblé quetu ou nagô.
4
Que, por sua vez, tomou o termo da tradição hinduísta.
5
Como as entidades que representam boiadeiros, cangaceiros, ciganos,
marinheiros, etc.
6
Corruptela do termo quimbundo "bombongira"
7
No sentido mais corrente de feitiço, encantamento com fins
maléficos.
BIBLIOGRAFIA
Geertz,
Clifford. - A interpretação das culturas ,
Rio, Zahar Editores, 1978
Lévi-Strauss,
Claude. - Anthropologie Structurale, Paris, Plon, 1958
Magnani,
J.Guilherme. - Umbanda, São Paulo, Ed. Ática,
1996.
Magnani,
J.Guilherme e Ramos, Uraci S. - "Doença
e Cura na religião umbandista" - PESES, Fundação Oswaldo
Cruz - Relatório de Pesquisa, 1980
Negrão,
Lysias - Entre a cruz e a encruzilhada: formação do
campo umbandista em São Paulo . São Paulo, Edusp.
1996
Turner,
Victor. - O processo ritual. Petrópolis, Vozes,
1974
Artigo
publicado em Teoria e Pesquisa - revista do Programa de Pós-Graduação
em Ciências Sociais, Departamento de Ciências Sociais da
da Universidade Federal de São Carlos, n. 40/41 jan/jul 2002.
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