projeto que deu origem ao presente trabalho tinha como objetivo estudar
os motoboys enquanto categoria relativamente nova na cidade de São
Paulo, e sua relação com esse contexto. Sua condição
particular de trabalho abre mais uma possibilidade de compreensão
das relações sociais na metrópole. Por poderem ser
considerados típicos representantes das novas relações
de trabalho capitalistas, cuja palavra de ordem é a desregulamentação,
eles poderiam servir como paradigma para compreender esta nossa velha conhecida,
a crônica desigualdade de renda cujos reflexos se fazem sentir em
dois tempos distintos, ou, se preferirem, em uma via de mão dupla:
primeiro num sem-número de formas de exclusão, conforme o
conhecimento já disponível sobre excedentes de mão-de-obra
que o sistema incessantemente vai gerando; a seguir, em formas de inclusão,
porque o processo econômico capitalista é assim mesmo: não
pára de fazer surgir novas necessidades (que geram novos postos,
embora nunca suficientes para todos);como, por exemplo, a de superar o
trânsito caótico de megalópoles como São Paulo,
para que produtos, papéis, documentos e valores cheguem ao destino
"a tempo". O capitalismo tem pressa e a desigualdade limita caminhos, e
definindo espaços e atitudes. É aí que entram os motoboys:
"incluídos" graças à constante necessidade do real
time, do in time, do on line, etc., contra o gigantismo desordenado das
grandes cidades. Não há tempo a perder; "tempo é dinheiro!".
E assim vai-se movimentando o tecido social da maior e mais rica metrópole
do país.
orteados
por essa visão da problemática socioeconômica de uma
cidade como a capital paulista, focalizamos nosso tema no quadro dos grupos
urbanos, procurando lançar um olhar antropológico sobre a
categoria dos motoboys e sua relação com a cidade. Seus códigos,
símbolos e meios específicos mereciam ser estudados, pois
poderiam revelar, pela análise de seu discurso, aspectos da "teia
de significados" da cidade. Mais que um trabalhador cujo local de trabalho
são as ruas e avenidas de São Paulo, o motociclista profissional
estabeleceu determinadas formas de convívio entre si e com a cidade.
Seus códigos específicos, gestos, vestimenta, sinais e posturas
são os indícios de uma identidade própria? As condições
extremamente perigosas para a execução de seu trabalho contribuem
para uma solidariedade especial? Será que este novo grupo urbano
constitui o que os termos atuais da cidade definem como "tribo"?
Ou vigora entre eles o "cada um por si"?
estudo dessa categoria de trabalhadores urbanos poderia revelar também,
a partir do que fosse constatado a respeito de seu comportamento, aspectos
insólitos que nos permitiriam vê-los não apenas como
vítimas de relações de trabalho modernas, mas também
como elementos ativos, conscientemente ou não, diante das desumanas
circunstâncias do mercado. Em outras palavras, vislumbrávamos
a possibilidade de que, no seu próprio agir, os motoboys, forçados
a tomar atitudes, talvez fossem eles mesmos os responsáveis
por alguns de seus problemas, uma vez que estão submetidos a uma
brutal carga de pressão, o que, como se sabe, tem o poder de nos
fazer agir não apenas de acordo com os princípios básicos
da "racionalidade" característica da sociedade capitalista mas também
guiados por impulsos quase sempre inconscientes e reativos à provocação
do meio. Cabia investigar.
ão
raros os estudos a respeito deste assunto. É mais fácil encontrar
referências aos motoboys em jornais, revistas, rádios e TV,
que nos trabalhos acadêmicos, pois, como se trata de tema atual e
que afeta a todos que usam a cidade, há muitas reportagens sobre
eles - às vezes porque vitimados pelo trânsito, às
vezes nas páginas policiais. A falta de estudos sobre o tema estimula
o preconceito de lado a lado, fato reconhecido pela própria Companhia
de Engenharia de Tráfego de São Paulo, que ministra constantemente
cursos de atualização e educação no trânsito,
com pouco sucesso. Sentíamos que era necessário lançar
um outro olhar para tudo isto. O saber comum pensa a cidade como um aglomerado
caótico em detrimento de um olhar "de perto e de dentro" que descortina
as relações intrincadas que dão sentido ao microcosmo
da metrópole. Também o motociclista profissional carece de
estudo semelhante, que desvende suas características íntimas
enquanto categoria que interage com a cidade, produto e produtora de significados
que enriquecem a megalópole.
or
isso o estudo do motociclista profissional como uma categoria social da
metrópole, seus modos, atitudes, simbologia, etc. Sua movimentação
pelo espaço urbano aparecia-nos como sinalização de
uma determinada postura para com a cidade e suas relações,
postura esta que poderia elucidar aspectos maiores da sociedade paulistana,
normalmente camuflados, cujos padrões poderiam revelar atitudes
culturais. O aparecimento de uma nova categoria oferece uma oportunidade
única para o estudo da criação e desenvolvimento de
uma simbologia própria dentro da cultura da cidade. E um tal estudo
poderá ir preparando o caminho para a compreensão dos desdobramentos
que a atividade dos motoboys certamente acarretará sobre as relações
sociais na metrópole.
QUADRO
DE REFERÊNCIAS.
Quadro
Teórico.
estudo na cidade privilegia seus atores sociais tornando-os objetos de
interesse do antropólogo na medida em que revelam seu comportamento
e sua "ação simbólica", que fornecerá material
para o estudo do contexto cultural amplo da cidade e sua "teia" de relações.
presente trabalho pretende orientar-se tomando por base a antropologia
interpretativa, mais especificamente o trabalho de Clifford Geertz. Ao
defender que os significados se dão dentro das sociedades em seus
contextos específicos, Geertz usa a empiria como forma de interpretação
dos signos sociais, desvendando assim relações que ficariam
encobertas se pinçadas para fora de seus contextos. O tipo de estudos
a que nos propomos, caracterizados por um "olhar de perto e de dentro"
nas sociedades "complexas", permite a interpretação da simbologia
dos grupos que nela interagem, revelando um conjunto de significados e
significantes que ordenam o modo como a sociedade encara a si mesma e o
mundo que a rodeia (Magnani, 19??).
<> ncarando
a cultura e seu significado como públicos, a antropologia interpretativa
pretende compreender o que tal sistema cultural representa usando
as categorias particulares a ele. O exercício intelectual de se
observar o "microscópico" e dele retirar material para alimentar
o conhecimento das ciências humanas, a nosso ver, estimula o trabalho
dentro das sociedades complexas enquanto possibilita o estudo de grupos
e facetas da cidade. A interpretação que vai do "todo à
parte e da parte ao todo" situa o contexto em que se insere o objeto e,
em nosso caso, permite uma melhor compreensão do grupo de motociclistas
profissionais e da cidade, a partir do modo como estes interagem
dentro da noção maior de cultura como um "contexto, algo
como eles [os acontecimentos sociais, os comportamentos, as instituições
ou os processos] podem ser descritos de forma inteligível - isto
é, descritos com densidade
<>
s
motoboys, enquanto grupo e atores sociais, estão inseridos nas relações
de trabalho capitalistas e, portanto, imbuídos de história
-das relações sociais e de sua evolução enquanto
categoria. É importante, portanto, que dentro do quadro teórico
de referência do presente trabalho façam parte as correntes
antropológicas que lidam com os momentos históricos e sua
importância no estudo das sociedades. Para tanto, usaremos também
o trabalho de Marshall Sahlins (data) que se preocupa com os eventos, as
interações que acontecem entre os atores sociais e sua mútua
influência na corrente da constante dinâmica das sociedades
e com os aspectos simbólicos da cultura pretensamente utilitarista.
uitas
das referências históricas da cidade quanto às relações
de trabalho podem ser compreendidas à luz das categorias marxistas
que acreditamos poder utilizar com proveito na medida em que tomarmos por
pressuposto que, mais que fruto de relações de trabalho que
determinam relações sociais, os indivíduos atuam efetivamente
na sociedade e mais, dentro de âmbitos simbólicos. Não
se trata portanto de descartar tais categorias, mas ,como fez Max
Weber, principalmente na "Ética Protestante e o Espírito
do Capitalismo", de reabordá-las, salientando o indivíduo,
os grupos e suas motivações simbólicas como também
relevantes para o entendimento da cultura e do universo social. Como salienta
o próprio Geertz: "a Segunda lei da termodinâmica ou princípio
da seleção natural, a noção de motivação
inconsciente ou a organização dos meios de produção
não explicam tudo, nem mesmo tudo que é humano, mas ainda
assim explicam alguma coisa ."
Sobre a questão metodológica do estudo de sociedades "complexas"
utilizaremos o trabalho de Nestor Perlongher (data) e de Gilberto Velho
(data) como fontes de informação e possíveis esclarecimentos.
omo
entendemos o motoboy como parte integrante das relações sociais
historicamente definidas, recorreremos ao trabalho de Max Weber, (data),
Henri Lefebvre, (data), Pierre Bourdieu (data) e Michel Maffesoli (data).
Do primeiro utilizaremos além do conceito de cultura já explicitado
no trabalho de C. Geertz, o enfoque no aspecto simbólico e na prática
do indivíduo como agente da ação social. De Henri
Lefebvre usaremos suas concepções sobre o espaço urbano
e seus desdobramentos na sociedade. Aceitando o enfoque marxista do autor,
acreditamos ser importante para o presente estudo a discussão sobre
poder e espaço na cidade. De Pierre Bourdieu pretendemos utilizar
o estudo sobre o poder simbólico como auxiliar na concepção
interpretativa da qual pretendemos nos valer. De Michel Maffesoli utilizaremos
as noções de tribos - os grupos em cuja identificação
o indivíduo da sociedade contemporânea encontra sua "lógica
da identidade" na emoção compartilhada e no sentimento coletivo
onde o ambiente tem a função de criar um ethos e um "corpo
coletivo".
ompreender
a cidade de São Paulo é essencial para podermos localizar
o motoboy em seu contexto, pois se trata da maior e mais rica metrópole
do país, paradigma de particulares situações sociais
brasileiras como a desigualdade de renda, que gera exclusão e formas
de inclusão que movimentam seu tecido social do qual fazem parte
os motoboys. Tal desigualdade limita caminhos possíveis a seus atores
sociais e define espaços e atitudes que podem assim ser melhor compreendidas.
Para tanto pretendemos utilizar trabalhos específicos sobre a cidade
de São Paulo, seja no que concerne à história das
relações de trabalho seja nas que estudam as relações
sociais específicas da cidade. Para tanto, utilizaremos trabalhos
de Teres Caldeira (data), Lúcio Kowarick (data), Lucia Machado Bogus
(data) e Raquel Rolnik (data), todos relacionados aos problemas da cidade,
sua história e as relações sociais ali presentes.
respeito da criação, reforço e uso do imaginário
social, que pode avigorar a realidade cotidiana dos atores sociais através
de um "discurso do real", pretendemos usar o trabalho de Michael Taussig
sobre Xamanismo e Colonialismo (data). Apesar de um estudo centrado na
relação colonial e seus desdobramentos na Colômbia,
acreditamos que a investigação do discurso simbólico
pode revelar o livre uso de categorias "mitológicas" que norteiam
as ações cotidianas sem que os atores delas suspeitem.
Procedimentos
Metodológicos.
ara
a realização deste estudo percorremos inicialmente a
documentação existente na imprensa sobre os motociclistas
profissionais. Muito se tem falado neles e a leitura de artigos de revistas
e jornais, bem como vídeos, pode fornecer pistas de como o motoboy
entra no imaginário social, qual o seu papel no discurso do cotidiano
dentro da mídia.
ada
a escassa quantidade de trabalhos acadêmicos específicos sobre
o assunto, cercamos o tema com trabalhos sobre as relações
de trabalho na cidade. Para tanto usamos trabalhos listados na bibliografia
nas áreas de antropologia, sociologia, psicologia e urbanismo, todos
voltados para as características das cidades e interesses ao presente
estudo.
estratégia usada foi a ida a campo para a realização
de entrevistas como motociclistas, com proprietários das empresas
de motoboys e com autoridades da área do trânsito para estabelecer
um diálogo entre partes envolvidas na rotina da categoria e assim
colhermos material para interpretação, que junto à
bibliografia pertinente pudesse elucidar relações estabelecidas
entre os motoboys enquanto grupo e destes com seu contexto imediato, a
cidade.
ais
entrevistas basearam-se em um roteiro pré-estabelecido de questões
e forneceram uma base inicial, dando condições para que,
a partir daí, o discurso do entrevistado fluísse o mais naturalmente
possível, revelando sob a perspectiva de cada um suas concepções
e vocabulários próprios para poder então, nas palavras
de C. Geertz:
"descobrir
as estruturas conceptuais que informam os atos dos nossos sujeitos, o "dito"
no discurso social, e construir um sistema de análise em cujo os
termos o que é genérico a essas estruturas, o que pertence
a elas porque são o que são, se destacam contra outros determinantes
do comportamento humano".
uanto
à estratégia proposta, a ida a campo para colheita de entrevistas,
foi efetivamente seguida, embora, durante o percurso, surgissem algumas
dificuldades. A maior delas e que realmente poderia interferir nos resultados
da pesquisa foi que o objeto estudado, o motoboy, é por definição,
dinâmico e tem como característica a pressa. E estando eles
sempre apressados, não nos davam oportunidade de aprofundar no diálogo
e às vezes, nem chegavam ao final da entrevista, visto que a sua
habilidade profissional é avaliada, muitas vezes, pela rapidez com
que fazem as entregas.
agilidade que torna a atividade do motoboy tão essencial para a
metrópole, acabou por se tornar um obstáculo para sua perfeita
observação.
utro
fator que apareceu como dificuldade na realização das entrevistas
foi a desconfiança com que nós, os entrevistadores, éramos
recebidos. Os motoboys, se intimidavam com nossa presença, mostravam-se
ressabiados com as nossas perguntas, davam desculpas de que tinham pressa
e não poderiam parar de trabalhar para nos atender. É certo
que nós, os entrevistadores, estávamos interferindo no bom
andamento do trabalho deles que, como já foi dito, tem a presa como
fator determinante. Mas vale a pena ressaltar que a maioria dos motoboys
trabalham em situação irregular, sem documentação
própria de prestadores de serviços, sem comprovação
legal alguma, consideram-se "autônomos", porém não
no sentido de estarem regularizados perante órgãos competentes,
apenas trabalham informalmente e, por isso, temiam que nós, os entrevistadores,
fossemos algum tipo de fiscal da prefeitura ou estado.
encida
esta barreira, somente a pressa do entrevistado causou algum tipo de dificuldade
na realização das entrevistas.
uanto
ao rumo proposto e o rumo efetivamente seguido houve uma pequena variação,
o rumo do projeto apontava o estudo de uma "tribo", com características,
modos e hábitos próprios, mas inesperadamente, a ida a campo
mostrou, que embora aparentemente sejam julgados como "tribo" pela sociedade,
os motoboys se revelaram independentes, com pouquíssimas relações
interpessoais, dificultando a averiguação das relações
de caráter antropológico erroneamente pré-concebidas
e, notadamente, inexistente entre eles.
entro
das limitações de tempo para a realização deste
trabalho, conseguimos realizar as entrevistas propostas no projeto e até
algo mais, descobrimos algumas relações dos motoboys com
a cidade de caráter singular.
udemos
observar já fazendo parte do cenário da cidade em algumas
esquinas, uma cadeira sob uma árvore ou sob toldos de estabelecimentos
comerciais e, em frente, um estacionamento improvisado de motos onde
descobrimos funcionarem "empresas" de entregas rápidas que empregam,
às vezes, mais de dez funcionários. É nesta cadeira,
às vezes, utilizando um telefone público, que um "agenciador"
recebe chamadas e organiza o trabalho de vários motoboys,
fazendo a ponte entre o cliente e o entregador.
ssas
"empresas" aparecem em pontos comerciais privilegiados da cidade, como
na esquina da Rua Manoel da Nóbrega com Avenida Paulista ou na esquina
das ruas Brasília e Joaquim Floriano, no Bairro Itaim Bibi.
ercebemos,
também, um sutil, porém significante, "código de trânsito
particular" para os motociclistas profissionais que, embora não
explicitado, apareceu convencionado entre eles e serve para facilitar o
cotidiano desses profissionais no trânsito caótico da cidade,
, dificultando, porém, muitas vezes, a ação dos demais
motoristas. ATambém observamos a existência de um sutil código
de ética e solidariedade entre eles no trânsito, fato esse
de que nem os próprios motoboys tinham se apercebido. Tais descobertas
serão mais bem explicitadas no relatório que se segue.
DESCRIÇÃO
E ANÁLISE
O
cenário, os atores.
campo de estudos de nosso trabalho é a cidade de São Paulo
na medida em que nos propusemos a estudar o motoboy enquanto categoria
profissional e sua interação com a metrópole. Na verdade,
o "escritório" do motociclista profissional é o trânsito
da cidade, como um entrevistado tão bem relatou. É ali, portanto,
que se processa o dia a dia da profissão e onde se dão também
as relações de interação com os outros atores
sociais.
trânsito em si é matéria para um estudo específico
dada sua riqueza de processos e a característica peculiar de ser
uma relação social entre espaços individuais dentro
de uma "arena" pública. Vários estudos foram feitos sobre
o trânsito, principalmente na área de psicologia social, mas
para a área de interesse deste projeto optamos por usar uma tese
de mestrado do Departamento de Sociologia da USP sobre as "percepções"
dos diversos atores que participam do trânsito na cidade.
la
foi de muita utilidade para situar os motoboys no contexto mais amplo de
seu local de trabalho e das relações sociais ali produzidas
ou reproduzidas.
motociclista profissional - o motoboy - entretanto, é uma categoria
particular dentro do universo dos usuários de motos na cidade.
s
motociclistas são aqueles que usam uma motocicleta para transitar
pela cidade , como um veículo comum, mas não se utilizam
dela para fins profissionais.
motoqueiro é aquele que tem a motocicleta como um hobby, que a usa
de fim-de-semana ou nos horários de folga, como diversão,
sem a preocupação de chegar rápido ou de evitar tráfego
"cortando" faixas ou subindo em calçadas.
mbas
as categorias são diferenciadas dos motoboys. Estes possuem a moto
que é seu instrumento de trabalho. São poucos os registrados
e que dirigem uma moto da empresa. Por força das características
de seu trabalho, especificadas mais detalhadamente adiante, andam quase
sempre acima do limite de velocidade, "voando" por entre os corredores
de automóveis, desrespeitando as leis e os outros motoristas. Tal
comportamento não constitui regra, mas ficou no imaginário
da população e acabou por caracterizar toda a categoria à
sua revelia, o que ficará claro nas entrevistas que realizamos.
Tal imaginário encontrará no espelho projetado pelos motoboys
uma forma de solidariedade e identidade que o reforçará,
em um jogo circular que é muito característico das relações
sociais na cidade grande, onde vários atores diferenciados percorrem
e dividem o mesmo espaço, numa tensão permanente de concorrência
potencialmente perigosa, como atestam as aterradoras estatísticas
das fatalidades na profissão.
ntre
motoboys, motoqueiros e motocicletas, portanto, a convivência não
é pacífica. Tanto não é que, cientes do preconceito
que sofrem por força do imaginário descrito acima, a categoria
agora passou a designar-se "profissionais do motofrete", que caracteriza
a profissão de forma clara e inequívoca, além de fornecer-lhe
um significado específico dentro de uma terminologia formal profissional
que afasta o termo "motoboy", que muitas vezes é recusado por eles
mesmos pois carregado de significados e significantes que eles rejeitam
ou querem evitar.
convivência conflituosa entre os usuários de motos é
ainda pior entre os diferentes atores do trânsito. Quando indagados
sobre que categoria que mais "atrapalhava" o trânsito, os motoboys
foram quase unânimes em designar "todas". Ou seja, o trânsito
gera um tipo característico de situação em que o "outro"
é visto como empecilho e um problema. No caso dos motoboys isso
fica mais evidente pelo preconceito de que todos foram unânimes em
se queixar. Barrados em bancos por não terem atestado médico
sobre um pino que colocaram na perna por força de um acidente
acontecido há anos, parados em blitz policiais constantes,
sempre multados por constantes infrações e tratados como
marginais pela imensa maioria da população, os motoboys justificam
seu comportamento muitas vezes violento como forma de defesa pelo tratamento
que recebem. Isso sinaliza para uma hipótese interessante: nas relações
sociais citadinas: algumas categorias poderiam dar vazão à
violência latente, presente na tensão permanente da disputa
territorial na cidade, como uma forma de defesa justificada frente a constantes
e reiteradas demonstrações de preconceito.
a
arena permanente do trânsito, onde "cobra come cobra", dentro da
própria categoria existem diferenças que serão explicitadas
ao longo do presente trabalho e que indicam o estabelecimento de regras
de comportamento dentro da profissão que vão muito além
da mítica "solidariedade" entre os motoboys. Na consolidação
de uma categoria profissional, a construção de modos específicos
de atitudes frente à profissão caminha junto com os sinais
de identidade grupal, como as gírias, sinais e "cacoetes" específicos
que hierarquizam e conformam as "tribos" urbanas. O que este trabalho demonstrará
é que a formação de tal identidade ainda sofre problemas
devido às características da profissão, principalmente
durante os últimos oito anos. A grande concorrência advinda
das oportunidades que a categoria abriu na sociedade acabou por desestruturar
qualquer tipo de solidariedade mais organizada, como se queixou "Alemão",
diretor de um dos sindicatos que representam a categoria e tenta unir os
motoboys em torno de um projeto comum. Numa profissão com índices
de acidentes e morte elevadíssimos, índice de regulamentação
baixíssimo e direitos à assistência praticamente inexistentes,
surpreende que a categoria não seja mais unida e sempre se queixe
da solidão das ruas e da frieza do ambiente que só é
quebrado quando, em caso de acidente, algum companheiro pára
para ajudar, muitas vezes tarde demais.
esmo
dentro da categoria, existem diferenças. Há motoboys com
mais tempo de profissão, que possuem uma carteira de clientes fixos
que sempre os procuram e pagam o preço que estes cobrarem pelo frete,
pois existe confiança mútua construída ao longo de
anos de trabalho. Possuem moto própria e ganham o suficiente para
sustentar sua família. Existem motoboys que trabalham com carteira
assinada para alguma empresa grande. Podem ter moto própria ou usarem
a da firma, mas a situação estável é vista
por muitos como um ideal a ser alcançado. É uma espécie
de "elite" da categoria, que apesar de não ganhar tão bem
quanto os anteriores, estão mais longe dos fantasmas da informalidade
e da insegurança que povoam o mercado de trabalho hoje em dia. Existem
também os que trabalham para firmas de motoboys, o que talvez constitua
a maioria. Podem ter carteira assinada ou não, dependendo do tamanho
e do caráter da empresa, o que varia enormemente. Muitos donos de
firmas como essas são ex-motoboys que aproveitaram o crescimento
vertiginoso da profissão e abriram seu próprio negócio.
Tais empresas vivem às turras com os sindicatos da categoria pois
são constantemente acusadas de violarem direitos e abandonarem seus
funcionários em caso de acidente, doença ou invalidez. É
um negócio ainda em formação. Muitos motoboys montam
empresas completamente informais, tanto legal como espacialmente. A demanda
gerou uma corrida que agora parece acalmar por força da economia
em compasso de espera e da grande concorrência. Os mais novos são
vistos com desconfiança e desprezo, primeiro por serem novos concorrentes
e, segundo, por se portarem de forma a denegrir a categoria. Discutiremos
adiante as implicações e características de tais atitudes
entre os motociclistas profissionais.
que ficou claro como fator comum a todos e que, de certa forma, os une
enquanto uma categoria abstrata, é a relação com o
desemprego. Todos fugiram deste fantasma e encontraram na motocicleta o
instrumento necessário para uma oportunidade de inserção.
O período de consolidação democrática brasileira
dos anos 80 e 90, coincidiu com um período economicamente desfavorável
ao país: sucessivos planos econômicos não deram conta
de conter uma inflação crônica que corroia o poder
aquisitivo da classe média que havia experimentado um período
de gradual ascensão na década anterior. Não só
a classe média, mas a também a classe baixa, viu-se cada
vez mais sem esperanças: todas as conquistas trabalhistas impostas
pelo regime varguista começaram a diluir-se com o advento de políticas
liberais inspiradas por uma conjuntura internacional que possibilitava
ao capitalismo uma ação irrefreada - graças ao fim
da bipolaridade mundial - jogando milhares de trabalhadores na economia
informal, povoando a cidade de camelôs que para muitos paulistanos
eram um incômodo, uma triste visão de pobreza, sujeira e desorganização
no que antes era a São Paulo do progresso, do imigrante europeu,
das gravatas e luvas dos cinemas no centro. O motoboy que hoje passa a
centímetros de nossos automóveis, sobre motos sujas e amassadas,
pode ser também a visão incômoda de um tipo de trabalhador
vital para o funcionamento de um sistema que sempre operou na ilusão
cínica de que certas coisas acontecem como por mágica, de
forma absolutamente ascética, pois operada por uma classe de pessoas
absolutamente invisível - invisíveis em seus direitos de
cidadão.
Os
"motoboys" e a cidade.
idade
de São Paulo, um dia de semana comum. O trânsito nas primeiras
horas da manhã já dá sinais de que este vai ser um
dia complicado. Em meio aos automóveis, ônibus e caminhões,
os motociclistas profissionais já se insinuam ousadamente, gingando
para esquerda e direita, com o dedo na buzina acordando os sonolentos motoristas
como o antigo apito da fábrica de tecidos de Noel Rosa.
arregando
documentos, valores, correspondências, o motoboy hoje é parte
integrante da paisagem urbana e peça necessária da engrenagem
econômica que move a cidade. Segundo "Alemão", diretor de
um dos sindicatos da categoria dos "motofretes" - que é como os
motoboys são oficialmente reconhecidos -, São Paulo não
vive mais sem os motoboys. "Seguindo o mesmo padrão de muitas metrópoles
ao redor do mundo, São Paulo está sob um processo de terceirização.
Na última década [década de 80], a cidade perdeu sua
posição de maior pólo industrial do país para
outras áreas do estado e para a região metropolitana como
um todo, tornando-se basicamente um centro financeiro, comercial e coordenador
de atividades produtivas e serviços especializados"
.
os
primeiros motoboys que transportavam de tudo em tubos de PVC adaptados
às motos até os famosos baús colocados na "garupa"
das eternas Hondas CG 125, a profissão explodiu durante a última
década do século XX, chegando à beira de tornar-se
problema de saúde pública. Em 1999, acredita-se, morreram
250 motoboys
nas ruas da capital, ou um para cada dia útil. Vários foram
os fatores e parece que a profissão passa agora por um período
de "entressafra" não só pela situação econômica
do país, que de recessão em recessão vai esfriando
a economia, mas porque a concorrência acarretada pelas oportunidades
abertas na nova profissão baixaram preços e salários,
o que tornou o serviço desinteressante, principalmente para quem
inicia agora, sem carteira de clientes conhecida ou experiência no
ramo. O que importa é que os mais velhos na profissão são
os que conseguem sobreviver nesse período de intempéries
e têm uma visão diferenciada dos riscos envolvidos em andar
por corredores estreitos, espremidos entre carros e ônibus que muitas
vezes não os vêm. Muitos deles já tiveram sua cota
de acidentes quase fatais e viram companheiros morrerem ou ficarem inutilizados
em hospitais por meses ou para o resto da vida. Quando entrevistamos "Alemão",
ele tinha em sua mesa um parafuso estranho, muito comprido e de um metal
particularmente intenso. Usado como um item a mais em sua mesa já
repleta de fotografias 
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