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José
Guilherme Cantor Magnani
Departamento
de Antropologia da Universidade de São Paulo
Caminhando na
chuva
Era um sábado
tipicamente curitibano, diriam alguns: chuva miúda, persistente
e fria. Mas, que fazer? O exercício tinha sido marcado e, após
as recomendações (teórico-metodológicas) saímos
para a rua - a
rua Quinze, e começamos pelo primeiro segmento: imediações
da praça Osório, coreto, Boca. De acordo com as recomendações,
era preciso estar atento ao cenário, de olho nos atores, para poder
identificar e desvendar as regras. E o trajeto era de praça a praça.
Por causa do tempo,
porém, a caminhada - meio truncada, oscilando entre
corridas em busca de abrigo e pausas para observação
sob marquises - rapidamente levou ao ponto final previsto, a praça
Santos Andrade. Lá, dividimos o espaço das escadarias da
Universidade com outras pessoas, aparentemente buscando refúgio
da chuva. Quem seriam? De um lado, um pessoal meio punk, ou dark;
de outro, um grupo bastante homogêneo, parecia excursão. Iriam
eles para onde? Com aquela chuva? O jeito era de alguma comunidade paroquial,
e aquela ali, sem dúvida, devia ser uma freira.
Seria mesmo? As hipóteses
variavam até que Solange resolveu tirar a dúvida e encarou:
era uma turma de pedagogia, em fim de curso, que tinha combinado tirar
a foto de formatura aproveitando como cenário as clássicas
linhas da Universidade...
E a Solange? Ah, era
aluna do curso de especialização "Levantamento de Informações
para Planejamento Urbano", assim como a Alba, Claudio, Cristiane, Denise,
Reginaldo, Renate, Samia, Sandramara, Sony, Tadeu - todos membros daquela
primeira ida a campo que, mesmo sob a chuva, comprovou, entre outras coisas,
que a "etnografia de um espaço não pode ser senão
o que ocorre nele". A rua, espaço público, é lugar
de encontro com o diferente, com o estranho; é suporte de muitas
apropriações, espaço de reconhecimento e sujeito
a negociações, de forma tácita ou explícita:
se os personagens - por seus sinais externos e comportamento público
(roupa, emblemas, postura, gestos) - não oferecem uma chave para
seu entendimento, é preciso abordá-los. Como Solange fez.
O que permitiu, por sua vez, que o grupo observado também fizesse
suas indagações sobre nós próprios.
Este artigo é um comentário
sobre o que aconteceu durante o tempo que compartilhamos - aulas, seminários,
exercícios práticos, intervalos para o café, avaliação
final - durante o transcorrer da disciplina sob minha responsabilidade
no curso de especialização já citado, promovido pelo
Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC.
O olhar antropológico
Era
um primeiro exercício e, seu objetivo, uma tentativa de treinar
o olhar a partir de um ângulo diferente. Os participantes da caminhada
sem dúvida conheciam a cidade e, como arquitetos, tinham todos
um discurso articulado sobre aquele e outros espaços urbanos. O
que se propunha era apresentar um outro ponto de vista, chamar a atenção
para outros aspectos, com o objetivo não de substituir a perspectiva
habitual, mas de enriquecê-la. A partir de conceitos, métodos
e modos de operar da Antropologia.
Antropologia, porém,
evoca lugares distantes - no tempo e no espaço - com personagens
exóticos, ritos desconhecidos. Que teria a ver com algo tão
familiar como a rua Quinze? Tão conhecida, tantas vezes percorrida,
já sem segredos? Talvez aqui esteja o ponto de partida para se entender
a especificidade desta disciplina, forjada no estudo de pequenas comunidades,
as chamadas "sociedades primitivas" ou, mais modernamente,
"sociedades de pequena escala".
Diante de povos com costumes
e padrões culturais radicalmente diferentes dos seus, o antropólogo
é treinado para observar e registrar cada ritual, hábito,
gesto -por mais insignificantes que possam parecer. Sabe que
podem parecer desprovidos de sentido para quem ainda não detém
as chaves do entendimento daquela cultura. À custa de paciente observação,
indagações sobre tudo e todos e presença constante
- aos poucos o que num primeiro momento era visto como estranho,
exótico, desprovido de significação, começa
a fazer sentido: o pesquisador despoja-se de seus modos de ver -
e às vezes, de julgar - procurando assumir o olhar do outro.
Não se trata, contudo,
de substituir uma forma de olhar por outra, a do observador estrangeiro
pela do nativo, supostamente mais autêntica, mas de uma postura
que procura incorporar os diferentes olhares, as muitas versões,
os vários comentários, nem sempre consensuais. Se a cultura,
longe de constituir uma coleção de objetos, crenças,
hábitos, mitos, práticas coletivas, é antes um código
que dá significado a esses objetos, crenças, práticas
etc., não é tampouco um código fixo, imutável
e isento de contradições. Na realidade, mais do que uma cultura
-sempre idêntica a si mesma, "autêntica"- em situações
concretas o que se tem são processos, dinâmicas culturais
específicas.
Uma das técnicas que
os antropólogos usam para sua imersão nesses processos culturais
vivos, diferentes daqueles a que estão habituados por sua própria
origem é a conhecida "observação participante". Tomando
parte do cotidiano da população que estuda, participando
de seus ritos, ajustando-se a seus hábitos alimentares, normas de
convivência, o pesquisador vive uma situação onde
observa "de dentro" e, com isso, apreende os padrões que explicam
o comportamento no contexto imediato em que eles ocorrem.
Pensando no objeto "clássico"
de estudo da antropologia, as sociedades de pequena escala, é
possível imaginar uma imersão deste tipo. Mas, no caso das
sociedades modernas, como captar sua dinâmica? Por definição
elas constituem sociedades divididas em classes e grupos sociais
com interesses muitas vezes antagônicos, com diferenças étnicas
e regionais, pluralidade de crenças, complexa divisão técnica
e social do trabalho. Numa palavra: os padrões culturais, longe
de apresentarem homogeneidade são múltiplos, diferenciados
e não raro conflitantes entre si. A pergunta que se faz, então,
é: pode a Antropologia, com instrumentos de pesquisa e categorias
interpretativas forjados a partir do estudo das sociedades tribais, dar
conta da dinâmica cultural das "sociedades complexas"? Como aliar
a descrição minuciosa, a atenção para cada
detalhe, o contato face-a-face em busca do significado de uma prática
qualquer - características da pesquisa etnográfica
- com a complexidade da vida moderna, principalmente nas grandes
e superpovoadas metrópoles?
Existem algumas precauções
que a antropologia urbana procura tomar e uma delas diz respeito à
forma como encara seu "objeto" de pesquisa. Se diante de uma cultura radicalmente
diferente da sua a atitude do antropólogo é no sentido de
procurar transformar o "exótico", ou melhor, o que lhe aparece inicialmente
como "estranho", sem sentido - porque ainda não conhecido -
em familiar, o caminho do pesquisador que enfrenta sua própria sociedade
é inverso: trata-se, aqui, de transformar o familiar, o que já
é (aparentemente) conhecido, em estranho, de forma a escapar à
armadilha do senso comum.
O segundo cuidado que se
toma é resistir à tentação de encarar o objeto
de pesquisa escolhido - este ou aquele bairro, tal ou qual seita religiosa,
instituição social ou movimento popular - como se constituíssem
uma "aldeia", nos moldes de algumas das sociedades tradicionalmente estudadas
pelos antropólogos. No caso das sociedades complexas, seja qual
for o recorte escolhido, é preciso levar em consideração
a malha de relações que mantém com a sociedade envolvente:
a dinâmica da rua Quinze não se esgota no seu perímetro,
assim com o significado mais amplo de uma comunidade religiosa afro-brasileira
vai além dos limites do terreiro. O desafio é manter
as características da pesquisa etnográfica -a tradição
da análise minuciosa, do contato prolongado, da busca de relação
direta com os informantes- sem perder de vista o quadro mais amplo no qual
os fenômenos culturais se desenvolvem nas sociedades modernas.
Os instrumentos
Não se tratava, porém,
aqui, de uma pesquisa antropológica stricto sensu, o que
suporia um longo período de observação e contato com
o objeto de estudo. Era antes um experimento procurando incorporar algumas
das regras que presidem a prática etnográfica, ajustando-as
ao tema e ao pouco tempo de que se dispunha. Assim, ao invés da
tradicional "observação participante", optou-se por outros
instrumentos: a caminhada, a observação, a grade classificatória.
Começando pelo primeiro deles, não era qualquer tipo de caminhada,
mas de acordo com o texto que foi discutido em aula, uma cujo ritmo
"... deveria
obedecer a um timing que a distinguisse do andar apressado e alheio do
usuário habitual, assim como do passeante descompromissado. No primeiro
caso, o do usuário, o percurso é um meio para se atingir
algum ponto: assim, ele recolhe apenas as informações estritamente
necessárias para seu objetivo, tais como sinais de trânsito,
fluxo de carros, evitação de obstáculos, de outros
transeuntes, etc. Para o usuário habitual, o espaço é
familiar. No caso do turista ou do passeante, existe a observação
do entorno só que sujeita ao sabor dos imprevistos e ao caráter
errático da caminhada. O pesquisador, ao contrário, mesmo
numa caminhada de reconhecimento, tem um plano pré-estabelecido
e seu caminhar deve ser mais lento que o do usuário e mais regular
que o do passeante" (MAGNANI, 1991:43).
Durante
a caminhada, a observação devia ser contínua e seguindo
o fluxo do andar e parar. Sistemática, mas não exaustiva.
A regra é deixar-se impregnar pelos estímulos sensoriais
durante o percurso. Deve-se estar atento principalmente à materialidade
da paisagem: relação entre espaços vazios e construídos,
disposição das edificações e equipamentos,
escala, volumetria, ruídos, cores, cheiros. Não se trata
de buscar o inusitado, o inesperado mas, ao contrário, o reiterativo,
o padrão, a norma. A delimitação prévia do
percurso e a cobertura do trajeto em sua totalidade sem interrupções
é condição para se captar a diversidade de uma rua,
por exemplo, sem se deixar levar pela fragmentação
que, à primeira vista, ela parece exibir. Deve haver uma ordem,
um ritmo, regras. Os usuários obedecem a essa ordem sem necessariamente
dar-se conta disso, pois o padrão está internalizado. Ao
pesquisador cabe identificar tais regras.
E para evitar a dispersão
do olhar sujeito a uma multiplicidade de estímulos, durante a caminhada,
propôs-se a seguinte grade de classificação destinada
a dirigir, desde o início, a observação: cenário
/ atores / script ou regras.
Isto porque etnografia não
é uma mera descrição, coleta de dados brutos a serem
posteriormente trabalhados: o que se observa e a forma como se ordenam
as primeiras observações já obedecem a algum princípio
de classificação e, se não se propõe algum,
o que vai presidir e orientar esse primeiro olhar é o do senso comum.
Que é o que, precisamente, se pretende evitar.
O cenário não
é, nesta perspectiva, um conjunto de elementos físicos, nem
deve sugerir a idéia de um "palco" que os atores encontram já
montado para o desempenho de seus papéis. Aqui, é entendido
como produto de práticas sociais anteriores e em constante diálogo
com as atuais - favorecendo-as, dificultando-as e sendo continuamente transformado
por elas. Delimitar o cenário significa identificar marcos, reconhecer
divisas, anotar pontos de intersecção - a partir não
apenas da presença ou ausência de equipamentos e estruturas
físicas, mas desses elementos em relação com
a prática cotidiana daqueles que de uma forma ou outra usam o espaço:
os atores.
Com relação
a estes últimos, trata-se de detectar tipos, construir categorias,
determinar comportamentos - agrupando, separando, classificando. Serão
moradores, trabalhadores, passantes, usuários, transeuntes, manifestantes
- segundo o enfoque escolhido e a orientação da pesquisa.
Se a observação direta é o instrumento para captar
o cenário e também para obter um primeiro levantamento dos
atores, uma classificação mais precisa e a obtenção
de dados e informações mais completos fazem-se por
meio de entrevistas, questionários, e histórias de vida.
As regras ou script
constituem a etapa final da análise: os atores, naquele cenário,
interpretam papéis, seguem um roteiro. São essas as regras
que dão significado ao comportamento e através delas é
possível determinar as regularidades, descobrir as lógicas,
perceber o ordenamento. Identificando os movimentos, os fluxos, as diferentes
formas de apropriação, é possível chegar
a padrões mais gerais que dão a chave para a compreensão
dos comportamentos, permitindo separar o que é público do
que é privado, distinguir o sagrado do religioso - e suas relações
- perceber os espaços preferencialmente femininos e os masculinos
etc. É o que se quer: chegar ao significado, com todas as suas nuances,
em toda sua riqueza, em toda sua complexidade.
O que se viu
O trabalho de campo não
se resumiu, evidentemente, àquela primeira caminhada sob a chuva.
Observações feitas em outros sábados e também
durante a semana permitiram colher dados mais diferenciados e, por conseguinte,
fazer uma leitura mais rica da rua Quinze. Sempre como exercício,
ou seja, levando em conta as limitações de tempo tanto para
a parte prática como para as discussões posteriores. Pretendo,
neste item, "ler a leitura" dos alunos, ou seja, fazer alguns comentários
a partir dos trabalhos finais apresentados para avaliação.
Como já foi dito,
a rua Quinze era já familiar a todos, seja como usuários,
seja como profissionais; tratava-se de suscitar uma nova forma de olhá-la
e a questão inicial foi a de sua segmentação.
"A primeira tarefa
que se coloca para uma pesquisa antropológica voltada para questões
ou problemas característicos da vida urbana é delimitar suas
unidades de análise. Como não são dadas de antemão,
é necessário destacá-las do fundo impreciso da
'realidade' tal como é vista pelo senso comum. (...) as descontinuidades
significativas no tecido urbano não são o resultado de fatores
'naturais', como a topografia ou de intervenções normativas
como o traçado de ruas, zoneamento, etc. Tais descontinuidades são
produzidas por diferentes formas de uso e apropriação do
espaço" (MAGNANI, op.cit. pg.42).
Renate e Denise distinguiram
cinco segmentos na rua Quinze, delimitados, respectivamente, pelas transversais
Ébano Pereira, Dr. Muricy, Marechal Floriano, Barão do Rio
Branco, Praça Santos Andrade. Monsenhor Celso e Presidente
Farias não foram entendidas, por elas, como marcos significativos.
Sua leitura, contudo, não se limitou a reproduzir a divisão
física das ruas: cada segmento é marcado por tipos característicos
e atividades correspondentes. Assim, por exemplo, se o primeiro segmento
apresenta, entre outros, um caráter masculino e político,
o quarto segmento é marcado por uma romaria feminina pelas
diferentes lojas de calçados e roupas; por outro lado, se naquele
a presença da Boca Maldita dá o tom e reforça o caráter
masculino, não se pode deixar de registrar um ponto de referência
feminino, de encontro, constituído pela entrada e imediações
da Mesbla.
Já
Cristiane, Samia e Sony dividiram a rua Quinze em três segmentos:
da praça Osório até Dr. Muricy, desta até Marechal
Floriano e daí até a praça Santos Andrade. A rua Barão
do Rio Branco e Presidente Farias foram classificadas de obstáculos,
pois as consideraram do ponto de vista do fluxo contínuo dos pedestres.
Alba, Sandramara e Solange
tomaram a rua Quinze como uma unidade, sem subdivisões: os cortes
significativos foram dados pelos inúmeros personagens que, com suas
atividades, fazem dela um contínuo e diversificado espetáculo.
Claudio e Reginaldo tampouco
seccionaram o trecho para análise. Sua leitura, mais global,
procurou interpretar a rua Quinze em sua relação com a cidade,
relação metonímica - (...) "e a rua se confunde
com a própria cidade, onde o centro, a cidade é a XV".
Finalmente Tadeu, apesar
de reconhecer alguns segmentos, estabelecidos pelas transversais Dr. Muricy,
Marechal Floriano, Monsenhor Celso, Barão do Rio Branco e Presidente
Farias, trabalhou com duas grandes divisões que chamou de rua/rua
e rua/casa: a primeira, também qualificada de rua/homem -
é onde se compra, se vende, por onde se anda rápido, e não
se perde tempo: a outra, rua/mulher - que acolhe e protege, é
a sala de estar, lugar do encontro, da prosa, da leitura dos jornais
expostos nas bancas. A rua/rua (...) "começa a acontecer devagarinho...
a rua alarga-se após cruzarmos a Muricy; parece um boca enorme a
engolir o fluxo enlouquecido de pedestres a serviço: é a
primeira barreira que, de certa forma, marca a transposição
para o público, vindo do privado. É o umbral, o vestíbulo
da rua/rua".
Qualquer que tenha sido o
número de segmentos visualizados - cinco, três, dois, ou só
um - em todos os casos houve uma tentativa de transcender a divisão
sugerida pelo recorte físico das transversais. Podia-se até
partir delas, mas o que se buscava era um outro critério capaz de
explicar melhor a diversidade e dinâmica do trecho escolhido. A polêmica
em torno do significado da rua Monsenhor Celso foi elucidativa: que está
lá, ninguém duvida; mas, constitui um "obstáculo"?
Não seria antes um "ponto de fuga"? Mais - não teria até
mesmo um papel particular, enquanto trajeto de ligação
entre duas praças, Tiradentes e Carlos Gomes? Percebeu-se, assim,
que está principalmente em outro registro a chave para reconhecer
recortes e fluxos significativos: são os personagens e suas atividades
os responsáveis pela dinâmica e particular feição
daquela paisagem urbana que, nem é preciso repetir, constitui seu
cenário. Na verdade, são elementos de um mesmo processo e
um não se entende sem o concurso do outro.
Não resta dúvida
que aumenta o nível de dificuldade quando se procura construir unidades
significativas incorporando os personagens e suas práticas: é
tarefa que exige mais tempo de observação, estabelecendo
uma base para comparações a partir de um espectro mais amplo
- manhã / tarde / noite; semana / fim de semana; sábado /
domingo, etc.
Pistas foram vislumbradas
a partir do já conhecido, daquilo que já é familiar:
a presença do mímico, a banquinha do PT, os freqüentadores
do bondinho (os de dentro e os de fora), os engraxates, o pessoal da Boca,
os vendedores de loteria, os grupos de estudantes - os que passam e os
que permanecem, os que vendem e os que compram, os que mostram e os que
apreciam, os que trabalham e os que passeiam: aos poucos o empírico
e o particular vai sendo agrupado. E as impressões começam
a ser nomeadas: a "sala de visitas" opõe-se aos "pontos de fuga",
a romaria que ziguezagueia por entre lojas femininas até nos nomes
- Xereta, Binoca, Chamuna, Fabulosa, Genia, Paulistana, Cintia, Marisa
etc. do quarto segmento - pode ser vista também como cabotagem
de curso mais longo, pois é só dobrar a esquina em direção
à praça Generoso Marques que a deriva continua, loja
após loja. Bom, aí já é outra caminhada...
Em busca de regularidades
capazes de dar conta do múltiplo e do aparentemente sem ordem ou
nexo, o passo seguinte é recorrer a pares de oposição
que oferecem princípios de ordenação: masculino
/ feminino; casa / rua; trabalho / lazer; público / privado; sagrado
/ profano e assim por diante: um sistema de espaços só
existe em conexão com um sistema de valores e ambos em relação
com um sistema de atividades. (SANTOS, 1985).
Uma classificação
com base nesses eixos de oposições não produz tipologias
rígidas porque não opera com espaços unívocos
e sim com sistemas de relações: às vezes, o espaço
do trabalho vira lazer, o do passeio é usado como lugar de manifestação,
o âmbito do masculino é invadido pelo feminino, a devoção
termina em festa ... É a prática social dos atores
que opera esses sistemas de classificação, abrindo-os ou
fechando-os e assim mantém-se e enriquece-se a diversidade
da dinâmica urbana que, "além de ser uma propriedade das cidades,
deve ser reconhecida como o princípio que as torna cidades" (SANTOS,
op. cit., pg. 78).
Concluindo
Foi só um
exercício. Tanto o trabalho dos alunos, com suas idas a campo e
reflexões sobre os dados colhidos, como este artigo - retomada de
alguns tópicos teóricos, recomendações
metodológicas e também "leitura de leituras". As discussões
em aula e o que cada um assimilou, a partir de sua própria experiência
e da de seus colegas sem dúvida superam o que aqui foi registrado.
Contudo, um arremate sempre é bom, pois permite - mesmo à
custa de inevitáveis simplificações - uma comparação
entre o que se propôs e o que foi realizado; permite refazer o caminho,
observando aqui e ali os fios que ficaram soltos, os que permitiram
certa amarração, e os que vão ficar para a próxima
vez...
E como o ângulo
escolhido para relativizar a perspectiva habitual foi o da Antropologia,
convém recordar o que um autor contemporâneo afirma, a propósito:
"Fazer a etnografia é como tentar ler um manuscrito estranho,
desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários
tendenciosos, escritos não com os sinais convencionais do som, mas
com exemplos transitórios do comportamento modelado" (GEERTZ,
1978:20).
Mais do que uma leitura completa
ou definitiva do manuscrito - neste caso, a rua Quinze - o que se
pretendeu aqui foi experimentar um caminho na direção
de seus múltiplos significados.
Este
texto tem como base os trabalhos de conclusão dos alunos em
disciplina por mim ministrada no curso de Pós-graduação
lato sensu "Levantamento de Informações Para Planejamento
Urbano", promovido pelo Departamento de Arquitetura e Urbanismo da PUC-PR
em 1991
Bibliografia
citada
Geertz,
C. - A Interpretação das Culturas, Rio, Zahar,
1978.
Magnani,
J.G.C. - "Os Pedaços da Cidade". Relatório de
Pesquisa, São Paulo, Departamento de Antropologia, USP, 1991.
Santos,
C.N.F (coord.) Quando a Rua vira Casa, São Paulo,
IBAM/FINEP, 1985.
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