1.-
O fenômeno do “neo-esoterismo”
Em
fins dos anos sessenta o sociólogo Peter Berger lançava um
livro com o sugestivo título Um Rumor de Anjos, mostrando que os
“sinais da transcendência” - poderosos e visíveis em épocas
passadas - teriam ficado reduzidos, nos tempos modernos, a tímidos
indícios, algo assim como o som das asas dos mensageiros divinos.
Quase trinta anos depois, outro livro volta a falar de anjos, mas desta
vez na direção oposta à de Berger. Em Presságios
do Milênio: Anjos, Sonhos e Imortalidade (1996), o ensaísta
Harold Bloom expõe os exageros e contrafações desses
temas nas atuais práticas “esotéricas” ou “místicas”
nos Estados Unidos, em comparação com os contextos históricos
do gnosticismo cristão, cabala judaica e sufismo muçulmano,
com os quais, segundo o autor, aquelas crenças estão originariamente
relacionadas.2
A julgar
pela atual disseminação, em âmbito mundial, dessas
e outras práticas mais comumente agrupadas sob a genérica
denominação de “esotéricas” – fenômeno também
conhecido como Nova Era, Conspiração
Aquariana, Movimento do Potencial Humano, Era de Aquário, Nova
Consciência
3 – o delicado rumor dos arautos
do sobrenatural mudou de escala e subiu de tom. Agora, está por
toda a parte: nos anúncios classificados de jornais e revistas,
em lugar de destaque nos estandes das livrarias e no topo das listas do
mais vendidos, é tema de talk-shows da televisão e de chats
na Internet, faz parte de selecionados mailings mas também circula
nos adesivos de automóveis, é divulgado em folhetos e, finalmente,
estava, na época, disponível na linha 0900 de serviços
de telefone. Ponto de confluência de elementos das mais diferentes
tradições, esse conjunto passou a abrigar uma ampla gama
de produtos, atividades e serviços que vai desde consultas a antigas
artes divinatórias, passando por terapias não convencionais
e exercícios de inspiração oriental até vivências
xamânicas, técnicas de meditação, cursos e workshops
sobre crenças e sistemas filosóficos de várias origens.
Completa este quadro a disseminação do consumo de artigos
correlatos como compact discs de New Age e world music, livros de auto-ajuda,
produtos orgânicos, incensos, cristais, pêndulos, imagens de
anjos e duendes etc.
Há
quem considere a difusão desses temas e o consumo a eles ligado
como um fenômeno basicamente mercadológico. As impressionantes
cifras associadas a alguns títulos da literatura de auto-ajuda,
assim como o sistema de consulta a oráculos por telefone, amplamente
anunciado na mídia, reforçam essa imagem. Trata-se, para
esta interpretação, de mais um modismo escapista e passageiro,
típico da sociedade consumista, induzido por uma bem montada estratégia
de marketing para vender uma linha específica de produtos.4
Outra
posição diante de tais práticas é a de determinados
órgãos corporativos –conselhos profissionais geralmente da
área da saúde– que vêem com desconfiança a crescente
procura pelas terapias “alternativas”. Apesar do reconhecimento pelo establishment
médico de algumas dessas técnicas, como é o caso da
acupuntura (aceita com reservas, desde que restrita a determinadas afecções
e aplicada ou supervisionada por determinado tipo de profissional), a maioria
delas é considerada desprovida de base científica. Este argumento,
aliás, também é utilizado em certos setores da área
jornalística e acadêmica para contestar a validade das previsões
da astrologia, dos efeitos da numerologia, das interpretações
do tarot, das cosmologias de base mítico-religiosa, etc.
Sem
entrar, por ora, no mérito da polêmica, cabe assinalar que
muitas dessas críticas consideram que tais oráculos, terapias
e cosmologias fazem parte de um mesmo bloco indivisível, sem diferenciações,
e o público envolvido é encarado como o protótipo
do consumidor indiscriminado, leitor acrítico de livros de auto-ajuda,
seduzido por qualquer sistema dito alternativo e pronto a ver duendes em
toda parte.5
Um
contato mais sistemático com esse universo, contudo, mostra que
além do consumidor ingênuo e crédulo existe um tipo
mais exigente, informado e que se dedica a alguns desse temas com outra
atitude: não se pode, de imediato, nivelá-los. Para avaliar
o alcance dessa difusão, a real profundidade de sua inserção
e as bases sobre as quais se assenta é preciso, por conseguinte,
ir além do panorama desenhado pela mídia. Com tal propósito
e seguindo as próprias pistas dos anúncios veiculados nos
meios de comunicação, coordenei a realização
de um levantamento inicial na cidade de São Paulo que permitiu elaborar
uma primeira listagem das instituições, espaços, associações,
núcleos, centros e lojas dedicados às diversas práticas
oferecidas sob a designação de “místicas” ou “esotéricas”.6
O traço
mais significativo no primeiro contato sistemático com a oferta
dessas atividades, produtos e serviços foi poder constatar, ao lado
de sua diversidade, a recorrência de alguns padrões com relação
ao funcionamento, gerência, periodicidade, recursos mobilizados e
até programa arquitetônico dos espaços.
Assim,
além da esperada salinha alugada para consultas e atendimento individual,
foram encontradas verdadeiras clínicas aparelhadas para o ensino
e aplicação de diversas técnicas terapêuticas;
centros de estudos, dedicados principalmente a atividades de formação,
ofereciam palestras, workshops e cursos para uma clientela regular sobre
os mais variados temas. Contando com recursos de computação,
muitos desses espaços dispõem de equipamento capaz de produzir
o material necessário para os cursos; alguns possuem gráficas
ou editoras.
Nada
mais distante, por conseguinte, do grupo informal e esporádico de
estudos sobre algum assunto hermético, de interesse voltado apenas
para uns poucos iniciados.
Mas
a lista continua: livrarias com amplo e variado estoque, farmácias
especializadas, lojas com material para o exercício das diferentes
especialidades (óleos, essências, instrumentos) e outras com
os já emblemáticos cristais e incensos indianos, além
de uma imensa variedade itens de consumo para o público em geral.
Entrepostos de ervas medicinais e alimentos produzidos com base em determinados
princípios, assim como feiras de produtos hortigranjeiros cultivados
segundo as normas da agricultura orgânica, completam o quadro dos
estabelecimentos que oferecem a infra-estrutura e a necessária base
de sustentação para as atividades desse meio.
Agências
de viagem anunciam pacotes com roteiros por “lugares sagrados” em âmbito
internacional (Machu-Picchu, no Peru; Mount Shasta, na Califórnia;
Varanasi na Índia, Katmandu no Nepal, entre outros) e nacional (São
Thomé das Letras - MG; Chapada dos Veadeiros/ Alto Paraíso
- GO) garantindo uma forma de lazer que se pauta por outros princípios
que não os do turismo convencional. Algumas datas são celebradas
de forma diferente, nesse circuito: as brincadeiras de halloween, por exemplo,
alheias ao calendário festivo nacional mas recentemente introduzidas
pelos incontáveis cursos de inglês espalhados pela cidade,
terminaram se transformando, em alguns casos, em celebrações
do druidismo celta, valorizando o feminino através da reivindicação
da figura da bruxa; as passagens do solstício e de equinócio,
ocorrências de reduzida percepção no contexto urbano,
assim como as fases da lua, são motivo de rituais periódicos.
Toda
essa atividade vai buscar sua fundamentação – às vezes
de maneira mais elaborada, às vezes na forma de um leve verniz –
em alguns sistemas de pensamento e religiões de origem oriental,
em cosmologias indígenas, em correntes espiritualistas, no esoterismo
clássico europeu e até em propostas inspiradas em certos
ramos da ciência contemporânea; e não poucas vezes
em todos eles, simultaneamente, resultando em surpreendentes bricolages.
Trata-se,
enfim, de um fenômeno de proporções, consolidado na
cidade, que mobiliza recursos, envolve pessoas, modifica comportamentos,
inventa ritos e propõe novas modalidades de uso do tempo livre.
Diversificado, apresenta uma série de nuances que impedem que seja
tomado como um bloco, sob pena de colocar num mesmo caldeirão realidades
bastante diversas.
A primeira
questão que se apresenta, então, é: apesar da inegável
heterogeneidade –de práticas, propósitos, fundamentação–,
o que é que caracteriza esse fenômeno? É possível
distinguir nele alguma unidade, podendo ser chamado de sistema, ou mesmo
de movimento? Apresenta-se como herdeiro ou depositário de alguma
corrente anterior, com o qual mantém uma linha de continuidade?
Um
dos pontos de referência que praticamente todas as interpretações,
nativas e acadêmicas, costumam invocar para situá-lo é
o movimento da contracultura que, a partir dos anos cinqüenta, nos
Estados Unidos, ensaiava alternativas ao status quo – nos campos da política,
da estética, da religião, dos costumes.7
Indo um pouco ainda para trás, pode-se também detectar nele
a influência, entre outras, do espiritualismo e da teosofia de fins
do século XIX e, se se quiser, quando se pensa numa gênese
mais remota é possível incluir, de períodos mais recuados,
muitas outras correntes e grupos ocultistas tanto do Ocidentes como do
Oriente. Contudo, mais do que tentar refazer a trajetória dos múltiplos
e intrincados caminhos que, a partir das inesgotáveis fontes de
antigas tradições, desembocaram no atual boom, já
nas décadas de 1980 e 1990, o que importa é reconhecer sua
contemporaneidade e as dimensões que hoje ostenta.
Os
desacordos, porém, começam já com a denominação,
tanto entre os praticantes como entre os analistas. No levantamento inicial
foi possível constatar a presença desde correntes de forte
orientação religiosa até grupos reconhecidamente agnósticos;
sociedades iniciáticas, vinculadas ao esoterismo clássico
e práticas principalmente terapêuticas; academias
dedicadas a práticas corporais ligadas a tradições
específicas como o hinduísmo ou o taoísmo. Que termo
poderia dar conta de toda essa diversidade?
Espaços
mais ecléticos se auto designam ora “esotéricos” ora “místicos”
– termos consagrados na mídia, mas evidentemente já sem nenhuma
relação com o significado mais técnico que possuem
no quadro dos estudos de religião. A denominação “alternativo”,
tributária ainda do movimento da contracultura, por denotar um caráter
de contestação a valores dominantes, como no caso de Ferreira
(1984) é mais comumente usada para qualificar práticas na
área de saúde, como faz Russo (1993), que no entanto prefere
“complexo alternativo”; Tavares (1998), citando Champion, fala em “nebulosa
místico-esotérica” e também em “holístico”;
D’Andrea (1996) seguindo a tendência internacional mais difundida
emprega “New Age” ou “Nova Era”, da mesma forma que Amaral (1998) a qual,
porém, para designar os espaços concretos, utiliza “holísticos”.
Neste
trabalho mantenho a expressão que já utilizei anteriormente,
– “neoesotérico” – sendo que o prefixo neo cumpre a função
de estabelecer a necessária diferença em relação
a dois usos já consagrados da categoria esotérico: em termos
técnicos, no campo do estudo das religiões e sistemas iniciáticas,
esotérico designa aqueles ritos ou elementos doutrinários
reservados a membros admitidos a um círculo mais restrito, opondo-se,
assim, a exotérico, a parte pública do cerimonial; o outro
significado do termo é aquele empregado por Carvalho (1998) e que
poderia ser qualificado de esoterismo histórico.8
A expressão
em sua forma composta (e na versão apocopada, neo-esô) tem
a vantagem de não ser usada por nenhum espaço, o que lhe
empresta certa distância do campo, sem contudo perder o poder evocativo
dado pelo uso atual e generalizado do termo esotérico. Neste livro,
não será utilizada para caracterizar especificamente esta
ou aquela instituição, atividade ou crença; aparecerá
principalmente em dois contextos: ao lado de “universo” ou outro termo
similar, apontando para um conjunto mais geral e ainda difuso de determinados
valores, hábitos, discursos e como “circuito neo-esotérico”,
neste caso para designar a distribuição e articulação
entre espaços e práticas concretas que de uma forma ou outra
integram aquele universo.
2.-
As interpretações
Ainda
que o movimento editorial gerado pelo fenômeno neo-esotérico
seja de grandes proporções, não são muitas
as obras, de dentro do movimento, que oferecem um quadro interpretativo
mais global. Dentre estas, destaco as de dois autores bastante conhecidos
- Marilyn Ferguson (1980) e Fritjof Capra ([1975] 1995); ([1982] 1995 b)
-apenas para apontar uma linha de interpretação bem difundida
e marcar a diferença com os enfoques de fora, de corte acadêmico.
Ferguson,
jornalista e Capra, escritor e ex-pesquisador na área de física
de alta energia, detectaram os inícios da onda, tendo-se dedicado
a estabelecer elos entre suas múltiplas manifestações
e assim oferecer uma visão de conjunto. Ferguson fala em “conspiração”
– o título do livro é A Conspiração Aquariana
(op. cit.) – e Capra, principalmente em O Ponto de Mutação
(1995 b), refere-se à emergência de uma nova consciência.
Ambos tentam mostrar a ocorrência simultânea – silenciosa,
não combinada – de iniciativas e propostas que levam a uma significativa
mudança nos modos de pensar, sentir e relacionar-se, com conseqüências
nos campos da ciência, política, saúde, religião.
Para eles, tratar-se-ia do surgimento de um novo paradigma que deixa para
trás velhos modos de encarar os contatos interpessoais, o trato
com a natureza, a produção do conhecimento e as relações
com o sobrenatural. Resultado de encontros entre Oriente e Ocidente, ciência
contemporânea e antigas cosmologias, tradições indígenas
e novas propostas ecológicas, esse movimento é considerado
de caráter transnacional, suprarracial e interclassista, – planetário,
até – que anuncia o advento de uma nova consciência mundial
e de uma nova era, já prevista segundo alguns: a famosa Era de Aquário.
Esse
cenário, que enfatiza o caráter harmônico, de totalidade
e de complementaridade entre pólos opostos,9
contrasta com leituras de fora do movimento:ao vinculá-lo a determinadas
características das condições de vida modernas (ou
pósmodernas, conforme a periodização), estas últimas
apontam mais para os aspectos de individualismo, da fragmentação
e da destradicionalização. Claro, há nuances entre
uma e outra posição, mas pode-se dizer que essa polaridade
básica reproduz-se (de forma mais elaborada ou mais ligeira) em
todos os níveis da discussão.
Tomando
como referência apenas o panorama da produção nacional,
verifica-se que as primeiras indagações, circunscritas ao
campo de estudos da religião, tinham como quadro de referência
e pano de fundo o debate em torno do processo de “secularização”
seguido por movimentos de “reencantamento”. Um dos desdobramentos dessa
discussão, que constatava um revival do sentimento e práticas
religiosas após o período de desencantamento, foi a caracterização
de um novo campo religioso em termos de “mercado”. As práticas do
circuito neo-esô, para alguns, constituíam o exemplo mais
bem acabado das regras desse mercado, onde cada consumidor, insatisfeito
com as opções religiosas institucionalmente predominantes,
faria as escolhas sem maiores lealdades, seja com as origens ou com os
princípios de base das doutrinas e objetos selecionados, para compor
seu próprio kit de espiritualidade.
A literatura
mais específica sobre o assunto é recente e ainda pequena:
alguns poucos livros, teses não publicadas, principalmente artigos
e papers apresentados em congressos e encontros. É possível,
no entanto, distinguir dois conjuntos de contribuições: um
primeiro bloco é constituído por autores que, mesmo não
se dedicando explicitamente ao tema aqui denominado de neo-esoterismo,
escreveram os primeiros ensaios, tendo o mérito de haver reconhecido
e registrado sua presença, sob diferentes denominações,
no contexto brasileiro. Esses autores o fizeram no interior dos estudos
de religião, seu campo principal de atuação. Entre
outros podem ser citados Carlos Rodrigues Brandão, Luiz Eduardo
Soares e José Jorge Carvalho, cujos insights abriram espaço
para os trabalhos de uma fase posterior, oferecendo as primeiras pistas
de interpretação. O que discutem é o surgimento de
novas respostas a uma situação de “crise das instituições
produtoras de sentido”, para usar o termo empregado por Brandão
(1994). Alguns, como Carvalho, ressaltam o aspecto dissonante de certos
arranjos, em comparação com estilos de espiritualidade já
consagrados (1992:147). Soares refere-se a uma “nova consciência
religiosa”, em resposta às condições de vida na modernidade
e em diálogo com elas: em seu citado artigo “Religiosos por natureza:
cultura alternativa e misticismo ecológico no Brasil”, afirma que
“a nova consciência religiosa parece ser, afinal, o último
avatar do racionalismo moderno ocidental ou a expressão mais radical
de um de seus efeitos mais significativos” (1989:143).10
O campo
fora reconhecido, mas não ainda constituído: o uso de termos
como “transumância”, “andarilho”, “nomadismo”, para designar o caráter
fugidio dessas novas opções no terreno religioso denotava
também a necessidade de novas estratégias para lidar com
um fenômeno mais recente que demandava pesquisas especificamente
voltadas para ele: são essas pesquisas que constituem o segundo
bloco dos estudos voltados para temas do neo-esoterismo.
Estando
ainda em seus inícios, é possível listar grande parte
dos trabalhos atualmente disponíveis: “A ciência dos mitos
ou o mito da ciência”, estudo pioneiro de José F. Ferreira
Neto (1984), sobre ufologia; “O mundo da astrologia”, de Luiz Rodolfo Vilhena
(1990); “O corpo contra a palavra”, sobre terapias corporais, de Jane Russo
(1993); “Relativismo Mágico e Novos Estilos de Vida”, sobre literatura
de auto-ajuda, de Patrícia Birmann (1993); “Mosaicos de si: uma
abordagem sociológica da iniciação no tarô”,
de Fátima R. G. Tavares (1993); “Nova Era: um desafio para os cristãos”
de Leila Amaral et alii (1994); “Esotéricos na Cidade: os novos
espaços de encontro, vivência e culto” de José G. C.
Magnani (1995); “Bioenergética: uma abordagem etnográfica
do corpo”, de Carmita Lima de Santana; “O self perfeito e a Nova Era: individualismo
e reflexividade em religiosidades pós-tradicionais” de Anthony D’Andrea,
(1996); “O buscador e o tempo: um estudo antropológico do pensamento
esotérico e da experiência iniciática na Eubiose”,
de Antônio Carlos Fortis (1997), “Carnaval da alma: comunidade, essência
e sincretismo na Nova Era”, de Leila Amaral (1998); “Alquimias da cura:
um estudo sobre a rede terapêutica alternativa no Rio de Janeiro”,
de Fátima R. G. Tavares (1998).
Como
se pode perceber, em se tratando de pesquisas concretas, os recortes são
mais específicos: alguns sobre sistemas oraculares e técnicas
de cura, outros sobre determinada prática ou sociedade iniciática;
há também levantamentos sobre a disseminação
do fenômeno e tentativas de buscar sua lógica interna, articulando-o
seja com a metrópole, seja com determinadas características
da contemporaneidade, pensada como “alta modernidade”, modernidade tardia”
ou “pós-modernidade”, conforme a linha ou autores adotados11.
Os quadros interpretativos, conquanto levem em conta a dimensão
religiosa, já não se circunscrevem a ela, pois fatores de
caráter mais geral, principalmente a questão da reflexividade,
a presença de uma “cultura psicológica” preexistente, a emergência
do pensamento ecológico, entre outros, são incorporados à
análise.
3.-
A proposta deste livro
A contribuição
mais imediata do conjunto dessas pesquisas – para além da diversidade
dos recortes empíricos e das orientações seguidas
– foi demarcar o campo e mostrar sua especificidade com relação
aos temas e enfoques habituais nas ciências da religião que
forneceram os primeiros quadros explicativos. Todas compartilham o pressuposto
de que, contrariamente ao que diz o senso comum, não se está
diante de um mero fenômeno de mercado e, diferentemente do que algumas
das primeiras interpretações deixavam entrever, não
se trata de um “caos semiológico”, um mosaico indigesto e sem sentido:
parece haver alguma ordem nesse ruído todo sendo necessário,
para detectá-la e descrevê-la, desenvolver uma estratégia
específica de pesquisa.
Da
mesma forma que os demais estudos, o presente livro também reconhece
a heterogeneidade constitutiva do fenômeno neo-esotérico,
tendo percebido a partir de um primeiro contato que não se tratava
de algo fútil, descartável, facilmente rebatido com dois
ou três lugares-comuns sobre a objetividade da ciência versus
a credulidade do público. O grau e as formas de adesão, a
extensão do negócio e, por fim, a capacidade de gerar comportamentos
mostram que se está diante de algo que vai além de um mero
modismo passageiro sujeito às escolhas aleatórias de cada
consumidor tomado individualmente.
Com
efeito, por meio da observação sistemática, notou-se
a ocorrência de determinadas regularidades – na implantação
e distribuição dos espaços, nas normas de funcionamento,
no calendário das atividades e até num discurso de base.
A pesquisa buscou, então, um enquadramento para o entendimento do
fenômeno, procurando pistas não tanto pelo viés negativo
– como resposta à suposta falência das religiões institucionalizadas
ou à crise de “instituições produtoras de sentido”
– mas na própria positividade do movimento, percebido como gerador
de comportamentos coletivos, no contexto da cidade. O que o diferencia
de outros trabalhos é que neste caso se pretende determinar sua
lógica não a partir de características internas ao
movimento mas dos vínculos e pactos que estabelece com a dinâmica
cultural em que está inserido – com o ritmo, as instituições
e a paisagem da metrópole.12
A pergunta
inicial foi suscitada por uma constatação empírica:
ao término de um estudo sobre formas de lazer e sociabilidade na
metrópole paulistana
13 , chamaram a atenção
as atividades de certos personagens como cartomantes, adivinhos, tarólogos,
que se supunha atuarem em recintos fechados e de forma privada, em plena
atuação em viadutos do centro, em praças e em lojas
em bairros de classe média: afinal de contas, tais práticas
diziam respeito a indagações sobre o futuro, tratavam do
destino, da saúde e de problemas espirituais do consulente – ou
ao menos era o que seus oficiantes apregoavam. E, no entanto, eram realizadas
no espaço público ou em contextos pouco afeitos ao mistério,
recolhimento e privacidade, como era possível comprovar principalmente
no chamativo caso das “feiras místicas” montadas em parques, shopping-centers,
praças e clubes.
Observando
mais de perto, verificou-se que, além desta surpreendente visibilidade,
mudara também seu sistema de funcionamento: a maneira como muitos
destes serviços estavam sendo oferecidos contrastava com o estilo
habitual – o contato pessoal com a cartomante atendendo em sua própria
casa, ou com o adivinho, no recesso de uma sala escura e repleta de objetos
misteriosos. Agora era diferente: a leitura das cartas, a interpretação
do I-Ching, o alinhamento dos chakras, a prática de yoga, a aplicação
do do-in e outras tantas atividades que integram, de uma forma genérica,
o caldeirão das práticas neo-esotéricas, finalmente
se modernizavam: seus praticantes não desdenham equipamentos, condições
e técnicas, como computação, marketing, terceirização,
franchising, comuns a qualquer das atividades de prestação
de serviços nos grandes centros urbanos. O neo-esoterismo virara
empreendimento (micro) empresarial!
Tratava-se,
sem dúvida, de mudanças significativas e se, para muitos,
essa modernização e mercantilismo redundam na perda de aura
e mistério, para a pesquisa, contudo, constituíram valiosos
indícios na busca de uma via explicativa nova. Começava a
ganhar corpo uma hipótese apontando para a emergência de novos
padrões de comportamento no contexto da cidade e em consonância
com determinadas tendências da vida contemporânea.
Com
efeito, ao assumir abertamente e sem rebuços essas atitudes, os
usuários atuais afastam-se dos antigos moldes, quando uma consulta
a cartomantes, xamãs, adivinhos, feita de maneira clandestina ou
envergonhada, era vista como uma regressão a práticas primitivas.
Por outro lado, já não se estava propriamente diante de atividades
“alternativas”: instaladas em espaços próprios, em processo
de legitimação institucional e com forte presença
na mídia, encontram-se já incorporadas no dia-a-dia e na
paisagem das grandes metrópoles.
Em
suma – não obstante a primeira impressão produzida pela notável
amplitude, fragmentação e variabilidade do universo das crenças
e práticas neo-esôs –, quando se olhava o fenômeno desse
outro ângulo, o das condições atuais de implantação
na cidade, o panorama era outro. Em vez de lugares inacessíveis,
freqüentados de forma esporádica por uma clientela difusa,
o que se constatava era a oferta regular de determinados bens e serviços
em endereços bem localizados, para um público consumidor
formado por pessoas escolarizadas, de bom poder aquisitivo (condições
necessárias, aliás, para manter o consumo de itens caros
e sofisticados) sensíveis ao argumento da qualidade de vida e interessadas
por temas tão diversos como filosofias orientais, ecologia, valorização
do feminino, terapias soft. Tornou-se factível, então, postular
que a regularidade dessa oferta, em termos de implantação
espacial, regras de funcionamento, periodicidade, é a base sobre
a qual se desenvolvem e consolidam comportamentos que, longe de serem o
resultado de meras escolhas individuais, conformavam um determinado estilo
de vida claramente reconhecido, com valores, padrões de consumo
e formas de sociabilidade peculiares cultivado preferencialmente dentro
de um novo conceito de utilização do tempo livre
14.
Diante
do heteróclito e cosmopolita universo dessas práticas – que
iam da crença em duendes nórdicos ao uso de florais canadenses;
do consumo de incenso indiano à prática da acupuntura chinesa;
da meditação tibetana ao shiatsu japonês; dos livros
de auto-ajuda americanos ao xamanismo siberiano; da bruxaria celta aos
rituais dos índios da Amazônia –, surgia a preliminar e básica
pergunta: por onde começar?
Os
passos iniciais da pesquisa foram dedicados à busca de um primeiro,
ainda que provisório, ordenamento. Integram essa etapa o mapeamento,
na cidade de São Paulo, dos espaços onde tais práticas
são oferecidas, a descrição do programa arquitetônico
de alguns estabelecimentos-tipo, sua classificação em grupos
a partir dos objetivos, normas de funcionamento e natureza do produto ou
serviço que oferecem. A partir de um contato mais próximo
com os espaços e as práticas foi possível, então,
detectar e descrever as regularidades que estão na base de seu funcionamento
e organização, distribuição no tempo e no espaço
e também no discurso que lhes serve de fundamento. Finalmente chegou-se
ao perfil dos usuários – desde o tipo mais erudito até o
consumidor ocasional – em busca de padrões que permitem explicar
seu comportamento em termos de “estilo de vida”, tendo como fundamento
uma matriz discursiva comum e como base de sustentação os
circuitos e trajetos que se recortam na paisagem da cidade.
Notas