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Expedição São Paulo 450 anos: uma viagem por dentro da cidade

Conceito

 
Em outubro de 1985, uma original e bem sucedida iniciativa patrocinada pelo Jornal da Tarde e pelo Centro Cultural São Paulo, da Secretaria Municipal de Cultura,  resultou  numa expedição que, durante sete dias, atravessou a cidade de São Paulo de ponta a ponta. Doze especialistas – das áreas das ciências ambientais, arquitetura, urbanismo, antropologia, sociologia, história – seguidos de perto por jornalistas e fotógrafos, percorreram uma rota inspirada nos percursos dos viajantes  do século XIX.

As perguntas eram: como seria São Paulo aproximadamente cem anos depois dessas primeiras viagens? Que havia naquele espaço? Qual era sua população, onde morava, de que se ocupava, onde e como se divertia, que problemas enfrentava? No decorrer de uma semana foram feitas visitas, entrevistas e observações, tudo  devidamente  registrado pelo jornal. A Expedição São Paulo, como foi denominada, tinha como modelo a saga dos  antigos viajantes; as modalidades de registro e comunicação, contudo, constituíram uma inovação; a idéia era experimentar um novo veículo museológico: ágil, direto, seguindo   o formato do meio escolhido, o jornal diário. 

O primeiro contraste, que aliás esteve na origem da proposta, foi sugerido pela comparação entre duas imagens: uma, que retratava o quase vazio da paisagem oitocentista; a outra – emaranhada, densa – foi captada por meio de uma tecnologia então inovadora, a câmera do satélite Landsat. Era impressionante a mancha urbana de São Paulo, destacando-se na paisagem: aliás, só mesmo do alto do satélite teria sido possível abarcar suas dimensões e visualizar suas bordas. O desafio, então,  foi atravessar essa mancha, aqui de baixo.

Não se tratava de um trabalho de cunho jornalístico nem, evidentemente, de uma pesquisa científica: o propósito era deixar-se impregnar pelas sensações produzidas pelas múltiplas vozes, sons, cheiros, cores, espaços, edificações  e o próprio  ritmo da metrópole, cuidando para  que esse bombardeio fosse filtrado pelo olhar de cada especialista. Assim, em vez de conceitos, análises exaustivas ou interpretações complexas, o que se produziu foi um conjunto de relatos, entremeados de metáforas. O desafio  era articular todos esses relatos sobre a dinâmica e o espaço urbano – tomando a cidade em seu conjunto, no decurso de uma semana e no transcorrer de uma caminhada contínua – com base na  troca de impressões entre os viajantes em seu convívio diário. Não havia tempo nem condições para refinar análises, corrigir o estilo, consultar muitas fontes. 

Esta foi a experiência que serve de inspiração,  estímulo e contraponto  para reeditar a Expedição São Paulo, quase vinte anos depois  e em função de uma data muito especial, a celebração dos 450 anos de fundação da cidade.

São Paulo mudou, nesses anos: a população cresceu, alterou-se  o perfil do mundo da produção e do trabalho, do ritmo da ocupação do solo, do cenário político; muitos problemas se agravaram e também houve ganhos em vários aspectos. Esse quadro de transformações tem sido objeto de inúmeros estudos, análises e diagnósticos e com base neles têm-se estabelecido caminhos, propostas  e alternativas.

E as respostas da população, suas iniciativas e estratégias de vida? É possível perceber  mudanças, nesse plano? O propósito da expedição é justamente servir de antena para captar sinais, rastrear indícios, identificar aqui e acolá pistas muitas vezes só reconhecidas pelos próprios  protagonistas, nos limites de seu cotidiano. A escala da cidade impede que todos os seus meandros sejam conhecidos. E, no entanto, seus moradores, de uma maneira ou outra, descobrem formas de transitar por esses meandros e nem sempre essas formas são fáceis, brandas. Ao contrário: alguns desfrutam de amplo acesso a bens, equipamentos e serviços enquanto grandes segmentos vêem-se desprovidos, muitas  vezes, das condições mínimas e  indispensáveis a uma vida digna. São os excluídos, os vulneráveis, como consta dos estudos e diagnósticos.

Não é preciso nenhuma expedição para comprovar esse quadro  em seu contorno mais geral e identificar os fatores explicativos  e indicadores de ordem macro sociológica e econômica. Tampouco se trata de um alegre mergulho na fragmentação; quando se propõe uma viagem por dentro da cidade o que se pretende é ir além dessas alternativas, não para provar alguma tese ou buscar a comprovação de questões pré-estabelecidas, mas para dispor-se a reconhecer outro horizonte e perceber a palpável e efetiva existência de redes sociais, iniciativas localizadas, arranjos coletivos, sistemas de trocas, projetos em parcerias, pontos de encontro,  formas de auto-proteção, de representação, de associação  – sem os quais a vida social,  nas suas múltiplas dimensões, já há muito estaria impossibilitada, no cenário dessa megalópole.

Tal é o objetivo da Expedição São Paulo nessa nova versão; ela tem a seu favor a memória da anterior, da qual mantém o caráter experimental, lúdico, de exercício. Não substitui outros instrumentos: é  apenas mais uma forma de tentar conhecer a cidade e desvendar alguns de seus segredos por meio de uma metodologia muito particular

Seu pressuposto é o confronto de diferentes perspectivas e técnicas de observação e registro: em primeiro lugar o olhar diferenciado dos  especialistas que perscrutará ângulos específicos,  em busca de pistas  e cujo resultado  deverá estar consignado em seus textos  finais, ainda que não conclusivos; a pesquisa de campo de estudantes na coleta de documentos, imagens e informações sobre grupos, associações, instituições, espaços e objetos significativos,  material que mais tarde deverá constituir o acervo para  exposição no Museu da Cidade. 

E finalmente, a participação de alguns moradores muito especiais que não precisam fazer a viagem: a longa vivência, o conhecimento acumulado e a ligação com a cidade fazem deles testemunhos privilegiados do processo de  transformação; sua leitura traz uma outra temporalidade, em contraste com a avalanche diária e ininterrupta de informações que  os viajantes deverão enfrentar.

Mais concretamente, a “Expedição São Paulo 450 anos” consiste na viagem, a partir de um roteiro previamente estabelecido, de duas equipes completas – especialistas, pesquisadores, documentaristas – que se deslocarão, uma no sentido leste/oeste, outra no sentido norte/sul durante uma semana inteira. As equipes serão acompanhadas por profissionais de comunicação (televisão, jornal, rádio e internet), encarregados de fazer o registro e transmissão das impressões colhidas durante todo o percurso  sobre a cidade, seus habitantes, seus trajetos, locais de moradia e sociabilidade, trabalho e lazer e as incontáveis, inesperadas e criativas respostas às condições concretas de vida com  que se deparam nesta São Paulo de 450 anos.



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