Pare, olhe, escute! Visão, audição e movimento humano2019-03-02T12:51:21+00:00

 

Pare, olhe, escute! Visão, audição e movimento humano

Tim Ingold – University of AberdeenTradução de Ligia Maria Venturini Romão – (FFLCH/USP), Marcos Balieiro (PPGF/USP) , Luisa Valentini (PPGAS/USP), 
Eliseu Frank (ICB/USP),  Ana Leticia de Fiore (C.Sociais, FFLCH/USP) Rui Harayama (C.Sociais, FFLCH/USP)
 

 

Sobre ouvir sons e ver objetos

 

Próximo à casa na qual cresci, existia um caminho que eu costumava usar e que cruzava a linha do trem. Ao lado dos trilhos existia um aviso aos pedestres que dizia: “pare, olhe e escute” antes de tentar cruzar a linha. Posso não ter seguido esse aviso tanto quanto deveria, mas, ao menos, eu sabia o que ele significava. Para mim, e sem dúvida para outros que utilizavam o caminho, ele fazia todo o sentido. Na ausência de dispositivos automáticos de sinalização, de que outra forma alguém saberia se um trem estivesse vindo, a não ser olhando e escutando? Somente depois descobri que o que era óbvio aos pedestres era, para os filósofos, inteiramente confuso. Para ser exato, o filósofo pode admitir que nosso conhecimento sobre o mundo só possa  surgir através de alguma forma de percepção. Ainda assim, parece que a única coisa que não percebemos é a própria percepção. Você pode até argumentar que vê o trem, mas somente por meio da luz que alcança seus olhos. E você só o ouve através do som que alcança seus ouvidos. Sendo assim, como você pode saber que o trem existe a uma certa distância, como um objeto material independente, por trás de imagens perceptivas, moldadas em luz e som, que você tem dele? E se existe somente em sua percepção – em seus olhos e ouvidos, ou mesmo em seus pensamentos – então, como ele pode te atropelar? Isso não é tudo. Olhando e escutando, recebemos um conjunto de sensações através dos olhos, e outro, bem diferente, através dos ouvidos. Supondo que o nosso conhecimento seja fundado em uma experiência sensorial, como sabemos que as visões e os sons que vêm à nossa percepção são, todos, manifestações da mesma coisa, o trem, avançando em nossa direção? Se podemos ouvir sons em vez de coisas (como trens), então como eu sei que esse som que eu escuto pertence àquele trem que eu vejo? 
Esses são alguns dos mais antigos dilemas filosóficos e não é minha intenção resolvê-los aqui. Quero sugerir, no entanto, que o modo como eles são apresentados carrega a marca de um certo modo de imaginar o sujeito humano – a saber, como um lugar de consciência, limitado pela pele e definido em oposição ao mundo – que está profundamente sedimentado no pensamento ocidental tradicional. O problema da percepção, então, diz respeito a como algo pode ser traduzido, ou “atravessar” de fora pra dentro, do macrocosmo do mundo para o microcosmo da mente. É por isso que a percepção visual e a auricular são descritas, usualmente, nos escritos dos filósofos e dos psicólogos, como processos de ver e ouvir. A visão começa no ponto em que a luz entra nos olhos do perceptor estacionário e a audição no ponto em que o som atinge os ouvidos – na interface, em resumo, entre fora e dentro. No entanto, o aviso ao lado dos trilhos do trem não dizia ao pedestre “fique de pé, veja e ouça”. Ele dizia: “pare, olhe e escute”; ou seja, que interrompesse uma atividade corporal, andar, e iniciasse outra, olhar-e-escutar (como mostrarei adiante, é melhor vê-las como aspectos de uma mesma atividade que como duas atividades distintas). Em quê, então, consiste essa atividade? Não em abrir os olhos, já que eles estão abertos de qualquer modo; nem em abrir os ouvidos, já que eles não podem ser fechados a não ser tapando-os com os dedos. Consiste, antes, em um tipo de esquadrinhamento de movimentos, realizado pelo corpo todo – ainda que de um local fixo – e na qual os dois procuram por, e respondem às, modulações ou inclinações no ambiente ao qual está sintonizado. Como tal, a percepção não é uma operação “dentro-da-cabeça”, executada sobre o material bruto das sensações, mas ocorre em circuitos que perpassam as fronteiras entre cérebro, corpo e mundo. 

 

Estou me adiantando, contudo. Existe ainda muito a ser esclarecido antes que a idéia de percepção, delineada acima, possa ganhar corpo. Para iniciar esse esclarecimento, precisamos investigar mais de perto as suposições que tendemos a fazer sobre nossa experiência de ver e ouvir. Você pode tentar descobrir o que elas são executando um simples experimento de pensamento. Suponha que você esteja ao lado dos trilhos enquanto o trem passa. Você vê a locomotiva e os vagões passando em grande velocidade e você ouve o barulho do motor seguido pelos estalidos dos vagões enquanto eles passam pelas junções dos trilhos. Essas visões e sons são comumente tão emaranhados em sua experiência que não é fácil de descrevê-los separadamente, para imaginar como o trem poderia ser sem o barulho que ele produz, ou como seria o barulho dele sem a aparência que ele apresenta. Todavia, você pode tentar. Imagine você vendado, ou numa noite escura como breu, na qual o componente visual da experiência é eliminado. O som do trem se aproximando, à medida que cresce, parece tomar de assalto e, por último, dominar, cada fibra do seu ser. Você não resiste e se deixa levar por ele até que, por fim, à medida que o trem se distancia, você é deixado pelo caminho, sem ar e tonto, exatamente no mesmo lugar em que, na verdade, você esteve o tempo todo! Mas agora, em um segundo experimento, imagine você com os seus ouvidos tapados, como que para eliminar o componente auditivo da experiência. Desta vez o trem parece passar diante dos seus olhos como se fosse um espectro cuja existência mesma residisse em dimensões diferentes daquelas do mundo ao qual você pertence. Você o vê , registra sua presença e passagem, mas não é movido por ele. A visão é só uma outra aparição para adicionar à sua coleção. 

 

Se os resultados desses experimentos, assumidamente fictícios, têm qualquer validade, eles sugerem que, longe de serem equivalentes, ou mutuamente substituíveis, visão e audição são radicalmente opostas; tão diferentes quanto estar à beira do rio vendo a água correr e ser arremessado dentro da correnteza. Como um observador participante no evento constituído pelo trem passando pelo local onde você está, na intersecção do caminho e dos trilhos, pareceria que participando através dos ouvidos, você, ao mesmo tempo, observa visualmente. De fato, a noção de que o som pode entrar e sacudir você de um modo que a luz não consegue tem um longo e distinto pedigree na história das idéias. Repetidamente, os ouvidos são imaginados de modo topográfico,como aberturas na cabeça que realmente permitem penetrar e tocar as superfícies mais reclusas do ser. Por contraste, supõe-se que atrás dos olhos existam telas que não permitem a qualquer luz passar, deixando a mente no escuro – como os habitantes de uma caverna, na celebrada alegoria de Platão, que não podem ver nada além das sombras na parede projetadas pela luz do próprio fogo. Diz-se que o som alcança diretamente a alma, ao passo que na visão tudo que se pode fazer é reconstruir uma imagem de como o mundo de fora poderia ser, baseado nas sensações induzidas pela luz. Mas, da mesma maneira, somos mais prontamente convencidos de que ouvimos som do que de que vemos luz. Supomos que os objetos da visão não são fontes ou manifestações da luz, mas coisas que a luz ilumina para nós. Os objetos da audição, por outro lado, não são coisas, mas sons ou fontes de som.

 

É verdade, houve vozes dissidentes. Uma delas foi a de Martin Heidegger. Em seu ensaio sobre “A origem da obra de arte”, Heidegger argumenta que somente quando desviamos nossas atenções dos objetos, ou escutamos abstratamente (por exemplo, com os olhos fechados, como fazemoscom a música clássica), é que ouvimos “som bruto”. Na vida cotidiana, ele insistia, não ouvimos sons, mas as próprias coisas – a porta fechando na casa, a tempestade na chaminé, o Mercedes como distinto do Volkswagen (Heidegger, 1971:26). Do mesmo modo, Heidegger poderia ter dito, antes escutamos o trem do que o som que ele faz. Mas esse ponto de vista não se concilia facilmente com a experiência diária. Pois o que dizemos escutar, ao menos quando falamos sobre esses assuntos, é o bater de uma porta, o assobio do vento, o zumbido ou a explosão do motor do carro e o ruído da locomotiva. Estrondear, assobiar, zumbir, entre outras, são palavras que não descrevem coisas, mas ações ou movimentos os quais, devido às vibrações que causam, na verdade sentimos como barulhos de diferentes tipos. Ou, para usar outro exemplo, considere a palavra “cuco”. Ela é, em primeiro lugar, uma expressão onomatopéica de um som que eu normalmente escutava no campo e que sempre parecia emanar de um lugar distante e escondido no meio do bosque. Dizemos que o cuco é um pássaro, mas na minha experiência o pássaro existe, pura e simplesmente, como seu som. Eu nunca vi um (a não ser em livros ilustrados de ornitologia). Mas é somente ao ser visto que o cuco chega a ser apreendido como uma coisa que produz um som, ao invés do som em si. 

 

No devido tempo continuarei a qualificar a idéia de que vemos antes coisas que luz, e de que ouvimos antes sons que coisas. Devo fazê-lo mostrando que o som, estritamente falando, não é um objeto de audição mais do que a luz é um objeto de visão. Pelo contrário, assim como dizer que existe luz é um outro modo de dizer que se pode ver, dizer que existe som é um outro modo de dizer que se pode ouvir. Luz e som são, em essência, os lados avessos das experiências de ver e ouvir, respectivamente. Agora, como os deficientes visuais podem nos dizer, é de fato possível ouvir coisas assim como vê-las. E, para pessoas com visão, os olhos são parte do sistema perceptivo para escutar, tanto quanto os ouvidos são parte do sistema para olhar. Até esse ponto, visão e audição são mais intercambiáveis do que diferentes. Mas, por trás da descoberta, seja ela visual ou auditiva, de um mundo já feito está um nível de percepção profundo e pré-objetivo, um nível no qual a atenção sensitiva se encontra no ápice do movimento mesmo do vir a ser do mundo. Nesse nível, como mostrarei, as experiências da visão e audição não são mutuamente substituíveis do mesmo modo que– por exemplo – a língua de sinais dos surdos é substituível pelo discurso oral. Pelo contrário, elas são virtualmente indistinguíveis: visão é um tipo de audição e vice e versa. Esse argumento me levará por fim a rejeitar a tese que atribui a dominância do pensamento objetivo no ocidente a uma obsessão pelo olho. Por enquanto, no entanto, deixe-me continuar com o contraste entre ver e ouvir, como ele é normalmente entendido, para examinar suas implicações no nosso entendimento, primeiro, sobre pessoas e coisas; segundo, sobre língua, fala e escrita; e terceiro, sobre as práticas sensoriais de pessoas em sociedades não-ocidentais. 


Visão objetifica, som personifica.

De todas as implicações do contraste entre visão e audição, a que mais teve conseqüências tem sido a noção de que a visão, já que não é contaminada pela experiência subjetiva da luz, produz um conhecimento do mundo exterior que é racional, independente, analítico e atomístico. Por outro lado, diz-se que a audição, já que se baseia na experiência imediata do som, arrasta o mundo para dentro do perceptor, produzindo um tipo de conhecimento que é intuitivo, engajado, sintético e holístico. Para aqueles que gostariam de celebrar o método de indagação científica positiva como a realização máxima do espírito humano, a visão é sem dúvida o  sentido superior. Todavia, por todas essas razões, não se deve confiar nela. O caminho visual para a verdade objetiva é, ao que parece, pavimentado de ilusões. Precisamente porque a visão produz um conhecimento que é indireto, baseado na conjectura dos dados limitados disponíveis na luz, ela nunca poderá ser nada mais que provisória, aberta a futuros testes e à possibilidade de refutação empírica. Mas conquanto nunca possamos ter certeza do que vemos, não existe dúvida em relação ao que ouvimos. Uma vez que o som nos fala diretamente, a audição não mente. Não sofremos de problemas auriculares da mesma maneira como sofremos de ilusões ópticas (Rée 1999:46). Em resumo, quando se trata de assuntos da alma, da emoção e da sensação, ou das questões “introspectivas” da vida, a audição supera a visão, assim como o entendimento ultrapassa o conhecimento e a fé transcende a razão. 

 

Nada ilustra melhor essas atitudes em relação à visão e à audição, tão profundamente incrustadas nas sensibilidades ocidentais, que esse trecho extraído do “Prefácio” para o clássico estudo de percepção musical de Victor Zuckerkandl, Sound and Symbol. Aqui ele compara o comportamento do cego e do surdo: 

 

A quietude, a tranqüilidade, a confiança, pode-se quase dizer a piedade, tão comum nos cegos contrastam estranhamente com a irritabilidade e a suspeita encontrada entre tantos surdos… Parece que, pelo fato do homem cego confiar na orientação do ouvido em vez do olho, outros modos de conexão com o mundo lhe são revelados; modos que, de outra forma, são ofuscados pela dominância do olho – como se, no domínio no qual ele entra em contato, os homens fossem menos sozinhos, mais bem providos, mais em casa do que num mundo de coisas visíveis para as quais o homem surdo é direcionado e às quais um elemento de alienação sempre se liga. (1956:3). 

 

 

Como representação estereotípica do comportamento das pessoas cegas e das surdas, essa passagem é, obviamente, ultrajante. Ela diz muito, no entanto, sobre como tendemos a perceber a audição como calorosa, comunicativa e solidária; e a visão como fria, distanciada e insensível. Não por acaso, então, inúmeros comentadores procuraram culpar a obsessão pela  visão dos males da civilização ocidental moderna. (Jay 1993, Levin 1988, 1993). Mais do que qualquer outra modalidade de percepção, dizem eles, a visão nos leva a objetificar nosso ambiente, a considerá-lo como um repositório de coisas, alheias ao nosso eu subjetivo, que estão lá para serem apreendidas pelos olhos, analisadas pela ciência, exploradas pela tecnologia e dominadas pelo poder. Se ao menos pudéssemos restaurar o equilíbrio devolvendo a audição ao seu devido lugar no sensórium, alega-se, poderíamos recuperar uma atenção mais harmoniosa, benevolente e empática ao nosso entorno. Então, quem sabe, poderíamos redescobrir o que significa pertencer. 
Essas queixas não são novas; ao contrário, a depreciação da visão é tão antiga quanto a sua elevação ao topo da hierarquia dos sentidos. Como Don Ihde aponta em seu estudo sobre a fenomenologia do som, “existe uma antiga e arraigada tradição de que a visão ‘objetifica’, e, de modo oposto e não amplamente notado, existe uma tradição de que o som ‘personifica’” (Ihde, 1976:21). A essa última tradição pertencem os argumentos de muitos estudiosos clássicos de que a própria palavra “pessoa” deriva do Latim personare, que significa, literalmente, “soar através de”. Se a derivação é bem fundada etimologicamente não nos importa; o que conta são, antes, as razões que a tornam tão convincente. Essas, afirmo, encontram-se em sua concordância com a noção amplamente sustentada de que por trás do aspecto visível da pessoa, sobretudo da face, reside um ser interior que se revela pela voz. Quando se fala, a voz “soa através de”, de dentro para fora; quando se ouve, ela penetra inversamente de fora para dentro. Onde a visão coloca um e outro vis-à-vis, cara-a-cara, deixando cada qual construir a representação interna do estado mental do outro com base em sua aparência externa, a voz e a audição estabelecem a possibilidade de uma intersubjetividade genuína; de uma comunhão participativa do eu com o outro por meio da imersão no fluxo de som. A visão, nessa concepção, define a individualidade do eu em oposição aos outros; a audição define o eu socialmente em relação aos outros. 

 

A palavra escrita e os sons da fala 

Em nenhum lugar a ambivalência em torno das atitudes perante a visão e a audição é tão evidente quanto nas idéias ocidentais sobre linguagem e, sobretudo, sobre a distinção entre fala e escrita. A desconfiança na escrita é um tema recorrente ao longo da história do pensamento ocidental. Desde Platão e Aristóteles, os filósofos tenderam a considerar a escrita como uma fachada exterior e visível para a realidade interior e sonora das palavras faladas. Platão, no Fédon (274-7), faz Sócrates declarar que a escrita não oferece mais que “a aparência e não a realidade da sabedoria [wisdom]” (Platão 1973). Para Aristóteles, apenas a palavra falada representa verdadeiramente a experiência mental, enquanto a palavra escrita representa a falada (Aristóteles 1938:115). Rousseau, para quem a escrita não era “nada além da representação da fala”, queixava-se amargamente (escrevendo, é claro) do prestígio e atenção oferecidos por seus contemporâneos à escrita quando esta não era mais que uma capa fabricada [contrived] e inautêntica para a coisa real (Derrida 1974: 36). E dois dos gigantes da lingüística do século vinte tinham a mesma opinião. Para Bloomfeld (1933:21), a escrita era “meramente uma forma de registrar a linguagem por meio de marcas visíveis”, enquanto de acordo com Saussure (1959:23), “a linguagem e a escrita são dois sistemas distintos de signos: o segundo existe com o único objetivo de representar o primeiro”. Numa famosa imagem, Saussure localizou a linguagem numa interface entre pensamento e som, como se a consciência humana – o domínio das idéias – flutuasse sobre um oceano de som como o ar sobre a água (1959:112). 

 

Em todas estas afirmações existe uma priorização implícita da audição sobre a visão, como se a primeira desse acesso a intimidades da experiência humana das quais a última poderia apenas oferecer um pálido reflexo. “A única ligação verdadeira”, escreveu Saussure, é “a ligação do som” (1959: 25). Ironicamente, contudo, ao mesmo tempo em que a escrita é apresentada como não tendo outra razão de ser senão o modelamento da fala num meio visível, a apreensão da fala é, ela mesma, modelada sob a inspeção da palavra escrita. Assim, entra um viés visual,pela “porta dos fundos”, na nossa própria noção do que é a linguagem. Lembre-se de que a suposição subjacente, compartilhada tanto pelos maiores defensores da percepção visual como por seus críticos, é a de que nós não vemos a luz, mas os objetos que ela ilumina. Você pode não ser capaz de ler, por exemplo, sem uma fonte de luminosidade, mas o que você vê não é a luz e sim as palavras na página. Igualmente, você não pode ouvir a fala a não ser que ela seja vocalizada em som. Entretanto, sua familiaridade com a palavra escrita o leva a acreditar que o que você ouve não é o som ele mesmo, mas as palavras formadas nele. “Linguagem-como-palavra”, com nota Ihde, “mesmo enquanto soa, não chama a atenção a si mesma enquanto som” (1976: 161). Antes, o som “entrega” ou profere as palavras que alegamos ouvir. Assim, supõe-se que palavras podem ser extraídas do meio1 do som, e podem ser preservadas, seja como impressões na mente ou como inscrições na página, independentemente de seu som. 

 

 A linguagem, ao que parece, é a exceção que prova a regra de que vemos coisas (não luz) e ouvimos sons (não coisas). Quando ouvimos música, prestamos atenção ao som enquanto tal, pois é,  certamente,  no som, nem mais nem menos, que a música consiste. Mas, quando se trata de fala, estamos inclinados a tratar a audição como uma espécie de visão – um tipo de visão com o ouvido, ou “visão do ouvido” – que reage ao som da mesma maneira que a “visão do olho” reage à luz. Assim, estamos convencidos de que apreendemos palavras, não sons. É quase como se os sons da fala fossem vistos em vez de ouvidos. Isto, claro, é exatamente o que Saussure tinha em mente quando descreveu o significante verbal – o padrão de som registrado na psique – como um som-imagem (1959: 66). De acordo com ele, reconhecemos uma palavra da fala da mesma maneira que reconhecemos uma palavra da escrita, combinando o padrão percebido com um esquema mental pré-existente. Mas e se jamais tivéssemos visto uma palavra, se não tivéssemos noção da palavra como um objeto da visão? Dado que nossa familiaridade com a escrita nos leva a modelar a audição da palavra falada sobre a visão daquela escrita, como o poder da fala poderia ter sido experimentado por pessoas sem o conhecimento da escrita, ou para quem a palavra escrita foi feita para ser disseminada, no máximo, através de sua leitura em voz alta em vez de sua reprodução impressa? 
Em seu influente estudo, The Gutenberg Galaxy, Marshall McLuhan (1962) argumentou que a invenção da prensa conduziu a uma era inteiramente nova na história da cultura humana, marcada pela dominância absoluta do olho e, com ela, a um viés em direção a uma maneira de pensar que é objetiva e analíticae que segue um caminho linear de conexões lógicas explícitas. Mesmo antes da introdução da tecnologia da impressão -durante o estágio “quirográfico” de cultura precedente-, a substituição de palavras escritas por faladas havia começado a pender o equilíbrio entre visão e audição em favor da primeira. Mas, entre povos em nível “oral-aural” de cultura, para quem a escrita era desconhecida, o ouvido exercia uma esmagadora tirania sobre o olho (McLuhan 1962: 28). Além disso, sustentava McLuhan, seu pensamento carecia da elaboração lógica, da discriminação analítica e da objetividade que, no Ocidente letrado, são normalmente consideradas os marcos da racionalidade. Baseando-se nessas idéias, um dos colegas de McLuhan, Walter Ong, buscou derivar todas as características essenciais do “pensamento e expressão baseados oralmente” dos traços que distinguem a audição da visão. A cultura oral, afirmou ele, tem um caráter agregativo;  é harmônica e holística em vez de dissecadora, analítica e atomística; é concreta e situacionalmente específica, em vez de abstrata e independente do contexto; é focada em pessoas, em vez de em coisas. A audição liga as pessoas em comunidade; a visão isola o indivíduo vis-à-vis o mundo. Finalmente, a “força interiorizante da palavra oral se relaciona de maneira especial ao sagrado, às questões últimas da existência”. Com a ascendência da visão, contudo, a religião dá lugar à ciência secular (Ong 1982: 73-4). 

 

Em suas localizações de culturas orais e civilizações letradas de cada lado de um “grande divisor”, tanto McLuhan como Ong efetivamente reproduziram uma dicotomia entre participação oral e observação visual que, como já mostrei, está profundamente incrustado na tradição ocidental. Assim, o som, de acordo com Ong, registra a interioridade das coisas de uma maneira que é não é possível com a luz, que meramente reflete suas superfícies externas:

 

A vista isola, o som incorpora. Enquanto a vista situa o observador fora do que ele vê, à distância, o som se derrama para dentro do ouvinte… A visão chega ao ser humano de uma só direção por vez… Quando eu ouço, entretanto, reúno som de todas as direções de uma só vez: sou o centro do meu mundo auditivo, que me envolve, assentando-me num tipo de núcleo de sensação e existência… Você pode se imergir na audição, no som. Não há maneira de se imergir similarmente na visão. (Ong, 1982:72) 

É na sua afirmação de que o ouvinte numa cultura “predominantemente oral” ouve as palavras como som, em vez de imagens na forma de som, que Ong polemiza Saussure (1982: 17). As pessoas numa tal cultura, “totalmente intocadas por qualquer conhecimento da escrita ou impressão”, não ouvem palavras como se estivessem olhando para elas. Em sua fala, toda palavra é um movimento fugidio carregado na crista de um som que “existe apenas quando está deixando a existência”. Foi a escrita, afirma Ong, que amarrou as palavras e as fez parecerem coisas, “objetos estanques… para a assimilação pela visão” (1982: 91). Assim, a escrita transforma a palavra em vez de, como pensava Saussure, meramente representá-la num meio alternativo. 

Visão e audição em Antropologia

Outro colaborador de McLuhan foi o antropólogo Edmund Carpenter. Escrevendo com base em trabalho de campo conduzido entre os esquimós Aivlik (Inuit), da ilha de Southampton no ártico canadense, Carpenter afirmou que o mundo dos Inuit é definido, acima de tudo, pelo som em vez da vista (Carpenter 1973: 33). Habitar um tal mundo não é se deparar com um espaço de objetos prontos, mas participar de dentro no movimento perpétuo de sua geração. Não existem coisas, estritamente falando, no mundo Inuit; apenas seres que estabelecem sua presença, antes de tudo, por meio de suas ações contínuas. A audição é o par ressonante dessas ações com o movimento da atenção do ouvinte. Assim, os Inuit ouvem som em vez de coisas e são movidos pelo som, ele mesmo, como o são pelo canto. De fato, a distinção entre fala e canto, tão central à concepção letrada de linguagem, não faria qualquer sentido para eles (Carpenter, 1966: 212 ). Falar e cantar são ações que, do mesmo modo que caçar ou entalhar, “externam” ou liberam aspectos do ser na plenitude do espaço acústico que envolve a pessoa. Diferentemente do espaço pictórico restrito e investigado pelo olho, o espaço acústico é “dinâmico, sempre em fluxo, criando suas próprias dimensões momento a momento” (1973: 35; ver também Carpenter e McLuhan 1960). Sua forma é a de uma esfera, estendendo-se para fora da pessoa, igualmente, em todas direções. Porém, essa esfera não tem superfície externa ou fronteira: ela não pré-existe nem cerca o falante e o ouvinte; mas como que toma forma à volta deles no processo mesmo de seu envolvimento auditivo um com o outro e com o ambiente.

 

Efetivamente, McLuhan, Carpenter e Ong  estabeleceram entre eles os fundamentos para um campo de pesquisa, atualmente vibrante, que veio a ser conhecido como a antropologia dos sentidos (Stoller, 1989; Howes 1991a; Classen 1993, 1997). É verdade que certos aspectos de seu programa têm acarretado críticas justificadas de grupos antropológicos: a atribuição de mentalidades pré-lógicas a sociedades “tribais” no nível oral-aural, o relativo desprezo de outras modalidades sensoriais além da visão e da audição e a conseqüente elisão de diferenças entre as culturas de cada lado do “grande divisor”, entre oralidade e letramento (Howes 1991b: 172-3, Classen 1997: 403-4). Entretanto, a idéia básica de que as culturas podem ser comparadas em termos do peso relativo dos sentidos através dos quais as pessoas percebem o mundo à sua volta foi mantida. Assim, não é tanto no quê elas percebem, mas em como elas percebem, que as culturas diferem. Não será mais possível identificar variações culturais com visões de mundo alternativas, como se todos percebessem seus entornos da mesma forma (visualmente, vendo-o), mas vissem coisas diferentes por conta de seus diferentes modos de organizar informações perceptivas em representações. Pois a própria idéia de que o mundo é conhecido pela sua representação mental está atada a pressupostos sobre a preeminência da visão que não são aplicáveis interculturalmente. Discuto abaixo, brevemente, três estudos da antropologia dos sentidos, que atribuem uma proeminência particular à audição. O primeiro, de Paul Stoller, trata dos Songhay do Níger, na África Ocidental; o segundo, de Anthony Seeger, trata dos Suyá de Mato Grosso, no Brasil; e o terceiro, de Alfred Gell, dos Umeda de Papua Nova Guiné. 

 

Para os Songhay, afirma Stoller, o som “é um fundamento da experiência”. Diferentemente da visão, que estabelece uma distância entre o espectador e o objeto visto, o som “penetra o indivíduo e cria um senso de comunicação e participação” (1989: 103, 120). Para mostrar como isso se dá, Stoller examina o significado que os Songhay atribuem aos sons de dois tipos de instrumentos musicais – o godji (violino monocórdio) e o gasi (tambor de cabaça) – ambos tocados durante cerimônias de possessão, da poesia de louvação, que acompanha essas cerimônias e das palavras ditas na feitiçaria. O godji produz um rangido agudo, enquanto o gasi, dependendo de como é batido, produz um “claque” ou um “rufar”. Tanto pessoas como espíritos são excitados por esses sons, considerando-os irresistíveis. De fato, para os Songhay, os rangidos do violino, e o claque e rufar do tambor são as vozes dos espíritos que, em rituais de possessão, penetram e abalam os corpos daqueles possuídos. E enquanto os instrumentos estão soando, o cantor de louvações (sorko) recita os nomes dos espíritos, gritando-os diretamente nos ouvidos do médium pretendido. A força sônica do grito afeta o corpo do médium da mesma maneira que o vento afeta o fogo, incendiando-o em paroxismos que indicam o início da possessão (Stoller 1989: 108-12). Na feitiçaria, também, é o próprio som do encanto mágico que atua, poderosamente, para o bem ou para o mal, no corpo da vítima ou do paciente. A palavra mágica é som que existe (e sai da existência) no ato de sua enunciação. Como tal, é um fenômeno da mesma ordem do rangido, claque ou rufar do instrumento musical, ou do grito do cantor de louvações. Em todo caso, é o som em si que as pessoas ouvem e ao qual elas respondem. Supõe-se que esse som tenha uma existência própria, “separada dos domínios da vida humana, animal e vegetal” (1989: 112). 

 


Notas
N.T.: no original, undersides.
Tipográfica [N.E.].
Na Melanésia [N.E.].