O que é que o Ibirapuera tem? Le Parkour  e “esportes radicais” no parque
Rafael Adriano Marques 
Mestrando em Antropologia Social – PPGAS-USP 

Por volta do meio-dia, em um típico dia de garoa paulistana antes do tal do aquecimento global, alguns jovens começam a aquecer seus corpos entre a Oca, o MAM e o pavilhão da Bienal, marcos tradicionais do Parque do Ibirapuera, equipamento urbano criado para a comemoração dos quatrocentos anos da cidade, em 1954. O parque conta com 1,6 milhão de metros quadrados e acolhe uma infinidade de atletas anônimos que procuram nessa grande área verde um espaço para treinar suas respectivas modalidades esportivas. Mas esses jovens não estão no parque para caminhar, jogar basquete, voleibol, ou mesmo para o onipresente futebol (basta um olhar atento  para as “áreas verdes” entre as avenidas, ou entre as alças de acesso das pontes da cidade, para percebemos que, apesar da quase extinção do futebol de várzea, este esporte está longe de ser praticado só em campos e quadras). 

Após um breve aquecimento, alguns deles investem corajosamente contra o muro de uma rampa de acesso ao pavilhão da Bienal. Três movimentos coordenados de braços e pernas, uma breve corrida e pronto: lá estão eles do outro lado da rampa, economizando uns 200 metros de caminhada pelo trajeto usual. Até aí, não chamam a atenção dos demais freqüentadores do parque. “Coisa de moleque”. Esse era, provavelmente, o pensamento das testemunhas a caminho da exposição StarWars Brasil

 

Alguns minutos depois, o grupo crescera consideravelmente; pudera; já passavam 30 minutos do horário marcado para o início do treino dos  iniciantes em Le Parkour. Sim; as investidas contra o muro da Bienal não eram meramente um ato de “indisciplina” juvenil. Com a quantidade de jovens envolvidos, alguns perceberam isso rapidamente e formou-se uma pequena platéia de curiosos que incluía até um guarda civil metropolitano. Mas o que é o tal Le Parkour? Convém poupar o leitor dos minutos de estranhamento dos freqüentadores do parque.

Surgida na França, a prática de Le Parkour se define como uma disciplina em que os traceurs (como são chamados os praticantes) utilizam-se de seus corpos para ultrapassar obstáculos urbanos de forma rápida e o mais fluentemente possível, percorrendo, assim, um traçado A-B definido pelo praticante.

O Le Parkour tem seus movimentos inspirados em diversas influências culturais: desde as artes marciais orientais até a tradição da ginástica francesa. Uma de suas marcas distintivas mais importantes em relação aos demais esportes é o fato de não haver competições. Isso estimularia cada praticante a buscar em si mesmo os motivos para o treinamento. 

Um elemento central na difusão do Le Parkour é a Internet, particularmente os sites que permitem a divulgação de vídeos amadores. A maioria das pessoas conhece a prática assistindo a esses vídeos na rede. A eficácia da Internet como elemento de reunião e difusão da prática pode ser facilmente notada com uma breve pergunta: “De que lugar da cidade você é?” Nenhuma zona da cidade fica de fora: há gente da Zona Leste, extremo sul da Zona Sul, ali de perto, da Vila Mariana… Enfim, de qualquer lugar onde houver ao menos uma lan house para acessar o Youtube, assistir um vídeo, depois procurar uma comunidade no Orkut para ficar a par da data e horário do treino e pronto. Utilizando apenas as ferramentas do Google estamos ali, no «Ibira» com gente de todos os cantos da cidade para conhecer melhor esse “esporte novo” vindo da França.

O pessoal que organizou o encontro reúne a turma e pede a palavra. Não se trata de instrutores, esclarecem, já que a prática não admite nenhum tipo de hierarquia entre os praticantes. Cada um tem seu tempo e motivos próprios para estar ali, e não para uma competição esportiva, concluem para uma atenta platéia de jovens ávidos para aprender os impressionantes saltos a que assistiram no Youtube.

Os primeiros ensinamentos são dados ali mesmo, no labirinto, uma obra de arte atrás da Oca. Impressionante, parece que ela foi feita exatamente para aquilo! Começa a garoa novamente e o grupo de aproximadamente 50 pessoas se desloca para um espaço coberto atrás do prédio da Bienal. Ali é transmitido um intenso treinamento físico, baseado no Método Natural de Educação Física, de Georges Hebért. Imagine essa turma toda fazendo exercícios no chão, rastejando em movimento que lembram aranhas. Claro, era inevitável que chamassem cada vez mais atenção. Talvez até mais do que os fantasiados fãs de Star Wars.

 

 

Os mais experientes praticavam em andaimes de alguma obra em andamento (ou não), no prédio da Bienal. Mais à frente, o entra-e-sai de alguma exposição. Passado algum tempo, começam a chegar alguns guardas que apenas observam, sem entender muita coisa. Algum tempo e mais alguns guardas depois, o grupo é abordado cordialmente. Alguém explica para os guardas do que se trata e tudo parece estar resolvido depois de o pessoal descer dos andaimes.

O treino se desloca, então, para a rampa de acesso. Consistia em cruzar a rampa em uma linha reta utilizando a técnica de ultrapassagem de obstáculo sugerida. Forma-se um fila e tem início um intenso movimento de corpos correndo, saltando, dando “rolamentos”, enfim: transformando a rampa em obstáculo lúdico e fazendo um inesperado uso do equipamento urbano. Nunca mais se olha para uma rampa da mesma forma depois de um treino.

 

E lá vêm os guardas de novo. Dessa vez, há uma denúncia de vandalismo. Novamente, alguém explica do que se trata. Um agente se aproxima do pessoal que argumentava e diz: “Eu sei que vocês não estão destruindo nada; até conheço alguns de vocês que vêm aqui sempre. É que muita gente chama a atenção…” E logo depois: “Por que vocês não formam uma Associação para conversar com a administração do Parque?” Mas será que é que é possível formar uma “confederação” de praticantes de uma atividade que não se quer esporte e nem acredita, pelo menos discursivamente, na existência de hierarquias?

Há, realmente, no Ibirapuera, uma sensação no ar de que as novidades esportivas são bem-vindas. É difícil circular pelo parque sem encontrar skatistas e rollers que transformam a marquise projetada por Niemayer em uma imensa pista. Lá está, também, o pessoal que treina  malabares e, se caminharmos um pouco, poderemos encontrar alguém saltando em uma espécie de pula-pula ultramoderno chamado Pogo Stick: uma mistura de brinquedo com esporte radical.

 

O fato é que o Ibirapuera – salvo em alguns momentos na década de 80 – é um ambiente amigável para os chamados esportes radicais e para as novidades lúdicas de todo tipo. Mas, por que o “Ibira”? O que é que esse parque tem? A facilidade de acesso, diriam alguns. A capacidade de diálogo da administração, argumentariam outros. Tudo isso, e mais um pouco, pode ser verdade, mas não responde por completo à indagação. Parece que o Ibirapuera tem algo mais; parece que tem um certo poder de legitimação, como se para se estabelecer em São Paulo uma prática precisasse se estabelecer primeiro no parque. Pode ser só uma sensação, mas – com certeza – partilhada por muitos. Basta aparecer lá em um final de semana e conferir o frenesi de pessoas experimentando práticas e trocando técnicas corporais como em um imenso laboratório ao ar livre, cheio de possibilidades de exploração lúdica do corpo e da cidade.

 

Rafael Adriano Marques estuda as práticas do Le Parkour e do skate em São Paulo e é bolsista  da FAPESP