MYSTICA URBE: UM ESTUDO ANTROPOLOGICO SOBRE O CIRCUITO NEOESOTERICO NA METROPOLE2019-03-02T22:00:20+00:00

José Guilherme Cantor Magnani
Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo

 

Introdução

1.- O fenômeno do “neo-esoterismo”Em fins dos anos sessenta o sociólogo Peter Berger lançava um livro com o sugestivo título Um Rumor de Anjos, mostrando que os “sinais da transcendência” – poderosos e visíveis em épocas passadas – teriam ficado reduzidos, nos tempos modernos, a tímidos indícios, algo assim como o som das asas dos mensageiros divinos. Quase trinta anos depois, outro livro volta a falar de anjos, mas desta vez na direção oposta à de Berger. Em Presságios do Milênio: Anjos, Sonhos e Imortalidade (1996), o ensaísta Harold Bloom expõe os exageros e contrafações desses temas nas atuais práticas “esotéricas” ou “místicas” nos Estados Unidos, em comparação com os contextos históricos do gnosticismo cristão, cabala judaica e sufismo muçulmano, com os quais, segundo o autor, aquelas crenças estão originariamente relacionadas.2
A julgar pela atual disseminação, em âmbito mundial, dessas e outras práticas mais comumente agrupadas sob a genérica denominação de “esotéricas” – fenômeno também conhecido como Nova Era, Conspiração Aquariana, Movimento do Potencial Humano, Era de Aquário, Nova Consciência 3 – o delicado rumor dos arautos do sobrenatural mudou de escala e subiu de tom. Agora, está por toda a parte: nos anúncios classificados de jornais e revistas, em lugar de destaque nos estandes das livrarias e no topo das listas do mais vendidos, é tema de talk-shows da televisão e de chats na Internet, faz parte de selecionados mailings mas também circula nos adesivos de automóveis, é divulgado em folhetos e, finalmente, estava, na época, disponível na linha 0900 de serviços de telefone. Ponto de confluência de elementos das mais diferentes tradições, esse conjunto passou a abrigar uma ampla gama de produtos, atividades e serviços que vai desde consultas a antigas artes divinatórias, passando por terapias não convencionais e exercícios de inspiração oriental até vivências xamânicas, técnicas de meditação, cursos e workshops sobre crenças e sistemas filosóficos de várias origens. Completa este quadro a disseminação do consumo de artigos correlatos como compact discs de New Age e world music, livros de auto-ajuda, produtos orgânicos, incensos, cristais, pêndulos, imagens de anjos e duendes  etc.
Há quem considere a difusão desses temas e o consumo a eles ligado como um fenômeno basicamente mercadológico. As impressionantes cifras associadas a alguns títulos da literatura de auto-ajuda, assim como o sistema de consulta a oráculos por telefone, amplamente anunciado na mídia, reforçam essa imagem. Trata-se, para esta interpretação, de mais um modismo escapista e passageiro, típico da sociedade consumista, induzido por uma bem montada estratégia de marketing para vender uma linha específica de produtos.4
Outra posição diante de tais práticas é a de determinados órgãos corporativos –conselhos profissionais geralmente da área da saúde– que vêem com desconfiança a crescente procura pelas terapias “alternativas”. Apesar do reconhecimento pelo establishment médico de algumas dessas técnicas, como é o caso da acupuntura (aceita com reservas, desde que restrita a determinadas afecções e aplicada ou supervisionada por determinado tipo de profissional), a maioria delas é considerada desprovida de base científica. Este argumento, aliás, também é utilizado em certos setores da área jornalística e acadêmica para contestar a validade das previsões da astrologia, dos efeitos da  numerologia, das interpretações do tarot, das cosmologias de base mítico-religiosa, etc.
Sem entrar, por ora, no mérito da polêmica, cabe assinalar que muitas dessas críticas consideram que tais oráculos, terapias e cosmologias fazem parte de um mesmo bloco indivisível, sem diferenciações, e o público envolvido é encarado como o protótipo do consumidor indiscriminado, leitor acrítico de livros de auto-ajuda, seduzido por qualquer sistema dito alternativo e pronto a ver duendes em toda parte.5
Um contato mais sistemático com esse universo, contudo, mostra que além do consumidor ingênuo e crédulo existe um tipo mais exigente, informado e que se dedica a alguns desse temas com outra atitude: não se pode, de imediato, nivelá-los. Para avaliar o alcance dessa difusão, a real profundidade de sua inserção e as bases sobre as quais se assenta é preciso, por conseguinte, ir além do panorama desenhado pela mídia. Com tal propósito e seguindo as próprias pistas dos anúncios veiculados nos meios de comunicação, coordenei a realização de um levantamento inicial na cidade de São Paulo que permitiu elaborar uma primeira listagem das instituições, espaços, associações, núcleos, centros e lojas dedicados às diversas práticas oferecidas sob a designação de “místicas” ou “esotéricas”.6
O traço mais significativo no primeiro contato sistemático com a oferta dessas atividades, produtos e serviços foi poder constatar, ao lado de sua diversidade, a recorrência de alguns padrões com relação ao funcionamento, gerência, periodicidade, recursos mobilizados e até programa arquitetônico dos espaços.
Assim, além da esperada salinha alugada para consultas e atendimento individual, foram encontradas verdadeiras clínicas aparelhadas para o ensino e aplicação de diversas técnicas terapêuticas; centros de estudos, dedicados principalmente a atividades de formação, ofereciam palestras, workshops e cursos para uma clientela regular sobre os mais variados temas. Contando com recursos de computação, muitos desses espaços dispõem de equipamento capaz de produzir o material necessário para os cursos; alguns possuem gráficas ou editoras.
Nada mais distante, por conseguinte, do grupo informal e esporádico de estudos sobre algum assunto hermético, de interesse voltado apenas para uns poucos iniciados.
Mas a lista continua: livrarias com amplo e variado estoque, farmácias especializadas, lojas com material para o exercício das diferentes especialidades (óleos, essências, instrumentos) e outras com os já emblemáticos cristais e incensos indianos, além de uma imensa variedade itens de consumo para o público em geral. Entrepostos de ervas medicinais e alimentos produzidos com base em determinados princípios, assim como feiras de produtos hortigranjeiros cultivados segundo as normas da agricultura orgânica, completam o quadro dos estabelecimentos que oferecem a infra-estrutura e a necessária base de sustentação para as atividades desse meio.
Agências de viagem anunciam pacotes com roteiros por “lugares sagrados” em âmbito internacional (Machu-Picchu, no Peru; Mount Shasta, na Califórnia; Varanasi na Índia, Katmandu no Nepal, entre outros) e nacional (São Thomé das Letras – MG; Chapada dos Veadeiros/ Alto Paraíso – GO) garantindo uma forma de lazer que se pauta por outros princípios que não os do turismo convencional. Algumas datas são celebradas de forma diferente, nesse circuito: as brincadeiras de halloween, por exemplo, alheias ao calendário festivo nacional mas recentemente introduzidas pelos incontáveis cursos de inglês espalhados pela cidade, terminaram se transformando, em alguns casos, em celebrações do druidismo celta, valorizando o feminino através da reivindicação da figura da bruxa; as passagens do solstício e de equinócio, ocorrências de reduzida percepção no contexto urbano, assim como as fases da lua, são motivo de rituais periódicos.
Toda essa atividade vai buscar sua fundamentação – às vezes de maneira mais elaborada, às vezes na forma de um leve verniz – em alguns sistemas de pensamento e religiões de origem oriental, em cosmologias indígenas, em correntes espiritualistas, no esoterismo clássico europeu e até em propostas inspiradas em certos ramos da ciência  contemporânea; e não poucas vezes em todos eles, simultaneamente, resultando em surpreendentes bricolages.
Trata-se, enfim, de um fenômeno de proporções, consolidado na cidade, que mobiliza recursos, envolve pessoas, modifica comportamentos, inventa ritos e propõe novas modalidades de uso do tempo livre. Diversificado, apresenta uma série de nuances que impedem que seja tomado como um bloco, sob pena de colocar num mesmo caldeirão realidades bastante diversas.
A primeira questão que se apresenta, então, é: apesar da inegável heterogeneidade –de práticas, propósitos, fundamentação–, o que é que caracteriza esse fenômeno? É possível distinguir nele alguma unidade, podendo ser chamado de sistema, ou mesmo de movimento? Apresenta-se como herdeiro ou depositário de alguma corrente anterior, com o qual mantém uma linha de continuidade?
Um dos pontos de referência que praticamente todas as interpretações, nativas e acadêmicas, costumam invocar para situá-lo é o movimento da contracultura que, a partir dos anos cinqüenta, nos Estados Unidos, ensaiava alternativas ao status quo – nos campos da política, da estética, da religião, dos costumes.7 Indo um pouco ainda para trás, pode-se também detectar nele a influência, entre outras, do espiritualismo e da teosofia de fins do século XIX e, se se quiser, quando se pensa numa gênese mais remota é possível incluir, de períodos mais recuados, muitas outras correntes e grupos ocultistas tanto do Ocidentes como do Oriente. Contudo, mais do que tentar refazer a trajetória dos múltiplos e intrincados caminhos que, a partir das inesgotáveis fontes de antigas tradições, desembocaram no atual boom, já nas décadas de 1980 e 1990, o que importa é reconhecer sua contemporaneidade e as dimensões que hoje ostenta.
Os desacordos, porém, começam já com a denominação, tanto entre os praticantes como entre os analistas. No levantamento inicial foi possível constatar a presença desde correntes de forte orientação religiosa até grupos reconhecidamente agnósticos; sociedades iniciáticas, vinculadas ao esoterismo clássico e práticas principalmente terapêuticas;   academias dedicadas a práticas corporais ligadas a tradições específicas como o hinduísmo ou o taoísmo. Que termo poderia dar conta de toda essa diversidade?
Espaços mais ecléticos se auto designam ora “esotéricos” ora “místicos” – termos consagrados na mídia, mas evidentemente já sem nenhuma relação com o significado mais técnico que possuem no quadro dos estudos de religião. A denominação “alternativo”, tributária ainda do movimento da contracultura, por denotar um caráter de contestação a valores dominantes, como no caso de Ferreira (1984) é mais comumente usada para qualificar práticas na área de saúde, como faz Russo (1993), que no entanto prefere “complexo alternativo”; Tavares (1998), citando Champion, fala em “nebulosa místico-esotérica” e também em “holístico”; D’Andrea (1996) seguindo a tendência internacional mais difundida emprega “New Age” ou “Nova Era”, da mesma forma que Amaral (1998) a qual, porém, para designar os espaços concretos, utiliza “holísticos”.
Neste trabalho mantenho a expressão que já utilizei anteriormente, – “neoesotérico” – sendo que o prefixo neo cumpre a função de estabelecer a necessária diferença em relação a dois usos já consagrados da categoria esotérico: em termos técnicos, no campo do estudo das religiões e sistemas iniciáticas, esotérico designa aqueles ritos ou elementos doutrinários reservados a membros admitidos a um círculo mais restrito, opondo-se, assim, a exotérico, a parte pública do cerimonial; o outro significado do termo é aquele empregado por Carvalho (1998) e que poderia ser qualificado de esoterismo histórico.8
A expressão em sua forma composta (e na versão apocopada, neo-esô) tem a vantagem de não ser usada por nenhum espaço, o que lhe empresta certa distância do campo, sem contudo perder o poder evocativo dado pelo uso atual e generalizado do termo esotérico. Neste livro, não será utilizada para caracterizar especificamente esta ou aquela instituição, atividade ou crença; aparecerá principalmente em dois contextos: ao lado de “universo” ou outro termo similar, apontando para um conjunto mais geral e ainda difuso de determinados valores, hábitos, discursos e como “circuito neo-esotérico”, neste caso para designar a distribuição e articulação entre espaços e práticas concretas que de uma forma ou outra integram aquele universo.

2.- As interpretações
Ainda que o movimento editorial gerado pelo fenômeno neo-esotérico seja de grandes proporções, não são muitas as obras, de dentro do movimento, que oferecem um quadro interpretativo mais global. Dentre estas, destaco as de dois autores bastante conhecidos – Marilyn Ferguson (1980) e Fritjof Capra ([1975] 1995); ([1982] 1995 b) -apenas para apontar uma linha de interpretação bem difundida e marcar a diferença com os enfoques de fora, de corte acadêmico.
Ferguson, jornalista e Capra, escritor e ex-pesquisador na área de física de alta energia, detectaram os inícios da onda, tendo-se dedicado a estabelecer elos entre suas múltiplas manifestações e assim oferecer uma visão de conjunto. Ferguson fala em “conspiração” – o título do livro é A Conspiração Aquariana (op. cit.) – e Capra, principalmente em O Ponto de Mutação (1995 b), refere-se à emergência de uma nova consciência. Ambos tentam mostrar a ocorrência simultânea – silenciosa, não combinada – de iniciativas e propostas que levam a uma significativa mudança nos modos de pensar, sentir e relacionar-se, com conseqüências nos campos da ciência, política, saúde, religião. Para eles, tratar-se-ia do surgimento de um novo paradigma que deixa para trás velhos modos de encarar os contatos interpessoais, o trato com a natureza, a produção do conhecimento e as relações com o sobrenatural. Resultado de encontros entre Oriente e Ocidente, ciência contemporânea e antigas cosmologias, tradições indígenas e novas propostas ecológicas, esse movimento é considerado de caráter transnacional, suprarracial e interclassista, – planetário, até – que anuncia o advento de uma nova consciência mundial e de uma nova era, já prevista segundo alguns: a famosa Era de Aquário.
Esse cenário, que enfatiza o caráter harmônico, de totalidade e de complementaridade entre pólos opostos,9 contrasta com leituras de fora do movimento:ao vinculá-lo a determinadas características das condições de vida modernas (ou pósmodernas, conforme a periodização), estas últimas apontam mais para os aspectos de individualismo, da fragmentação e da destradicionalização. Claro, há nuances entre uma e outra posição, mas pode-se dizer que essa polaridade básica reproduz-se (de forma mais elaborada ou mais ligeira) em todos os níveis da discussão.
Tomando como referência apenas o panorama da produção nacional, verifica-se que as primeiras indagações, circunscritas ao campo de estudos da religião, tinham como quadro de referência e pano de fundo o debate em torno do processo de “secularização” seguido por movimentos de “reencantamento”. Um dos desdobramentos dessa discussão, que constatava um revival do sentimento e práticas religiosas após o período de desencantamento, foi a caracterização de um novo campo religioso em termos de “mercado”. As práticas do circuito neo-esô, para alguns, constituíam o exemplo mais bem acabado das regras desse mercado, onde cada consumidor, insatisfeito com as opções religiosas institucionalmente predominantes, faria as escolhas sem maiores lealdades, seja com as origens ou com os princípios de base das doutrinas e objetos selecionados, para compor seu próprio kit de espiritualidade.
A literatura mais específica sobre o assunto é recente e ainda pequena: alguns poucos livros, teses não publicadas, principalmente artigos e papers apresentados em congressos e encontros. É possível, no entanto, distinguir dois conjuntos de contribuições: um primeiro bloco é constituído por autores que, mesmo não se dedicando explicitamente ao tema aqui denominado de neo-esoterismo, escreveram os primeiros ensaios, tendo o mérito de haver reconhecido e registrado sua presença, sob diferentes denominações, no contexto brasileiro. Esses autores o fizeram no interior dos estudos de religião, seu campo principal de atuação. Entre outros podem ser citados Carlos Rodrigues Brandão, Luiz Eduardo Soares e José Jorge Carvalho, cujos insights abriram espaço para os trabalhos de uma fase posterior, oferecendo as primeiras pistas de interpretação. O que discutem é o surgimento de novas respostas a uma situação de “crise das instituições produtoras de sentido”, para usar o termo empregado por Brandão (1994). Alguns, como Carvalho, ressaltam o aspecto dissonante de certos arranjos, em comparação com estilos de espiritualidade já consagrados (1992:147). Soares refere-se a uma “nova consciência religiosa”, em resposta às condições de vida na modernidade e em diálogo com elas: em seu citado artigo “Religiosos por natureza: cultura alternativa e misticismo ecológico no Brasil”, afirma que “a nova consciência religiosa parece ser, afinal, o último avatar do racionalismo moderno ocidental ou a expressão mais radical de um de seus efeitos mais significativos” (1989:143).10
O campo fora reconhecido, mas não ainda constituído: o uso de termos como “transumância”, “andarilho”, “nomadismo”, para designar o caráter fugidio dessas novas opções no terreno religioso denotava também a necessidade de novas estratégias para lidar com um fenômeno mais recente que demandava pesquisas especificamente voltadas para ele: são essas pesquisas que constituem o segundo bloco dos estudos voltados para temas do neo-esoterismo.
Estando ainda em seus inícios, é possível listar grande parte dos trabalhos atualmente disponíveis: “A ciência dos mitos ou o mito da ciência”, estudo pioneiro de José F. Ferreira Neto (1984), sobre ufologia; “O mundo da astrologia”, de Luiz Rodolfo Vilhena (1990); “O corpo contra a palavra”, sobre terapias corporais, de Jane Russo (1993); “Relativismo Mágico e Novos Estilos de Vida”, sobre literatura de auto-ajuda, de Patrícia Birmann (1993); “Mosaicos de si: uma abordagem sociológica da iniciação no tarô”, de Fátima R. G. Tavares (1993); “Nova Era: um desafio para os cristãos” de Leila Amaral et alii (1994); “Esotéricos na Cidade: os novos espaços de encontro, vivência e culto” de José G. C. Magnani (1995); “Bioenergética: uma abordagem etnográfica do corpo”, de Carmita Lima de Santana; “O self perfeito e a Nova Era: individualismo e reflexividade em religiosidades pós-tradicionais” de Anthony D’Andrea, (1996); “O buscador e o tempo: um estudo antropológico do pensamento esotérico e da experiência iniciática na Eubiose”, de Antônio Carlos Fortis (1997), “Carnaval da alma: comunidade, essência e sincretismo na Nova Era”, de Leila Amaral (1998); “Alquimias da cura: um estudo sobre a rede terapêutica alternativa no Rio de Janeiro”, de Fátima R. G. Tavares (1998).
Como se pode perceber, em se tratando de pesquisas concretas, os recortes são mais específicos: alguns sobre sistemas oraculares e técnicas de cura, outros sobre determinada prática ou sociedade iniciática; há também levantamentos sobre a disseminação do fenômeno e tentativas de buscar sua lógica interna, articulando-o seja com a metrópole, seja com determinadas características da contemporaneidade, pensada como “alta modernidade”, modernidade tardia” ou “pós-modernidade”, conforme a linha ou autores adotados11. Os quadros interpretativos, conquanto levem em conta a dimensão religiosa, já não se circunscrevem a ela, pois fatores de caráter mais geral, principalmente a questão da reflexividade, a presença de uma “cultura psicológica” preexistente, a emergência do pensamento ecológico, entre outros, são incorporados à análise.

3.- A proposta deste livro

A contribuição mais imediata do conjunto dessas pesquisas – para além da diversidade dos recortes empíricos e das orientações seguidas – foi demarcar o campo e mostrar sua especificidade com relação aos temas e enfoques habituais nas ciências da religião que forneceram os primeiros quadros explicativos. Todas compartilham o pressuposto de que, contrariamente ao que diz o senso comum, não se está diante de um mero fenômeno de mercado e, diferentemente do que algumas das primeiras interpretações deixavam entrever, não se trata de um “caos semiológico”, um mosaico indigesto e sem sentido: parece haver alguma ordem nesse ruído todo sendo necessário, para detectá-la e descrevê-la, desenvolver uma estratégia específica de pesquisa.
Da mesma forma que os demais estudos, o presente livro também reconhece a heterogeneidade constitutiva do fenômeno neo-esotérico, tendo percebido a partir de um primeiro contato que não se tratava de algo fútil, descartável, facilmente rebatido com dois ou três lugares-comuns sobre a objetividade da ciência versus a credulidade do público. O grau e as formas de adesão, a extensão do negócio e, por fim, a capacidade de gerar comportamentos mostram que se está diante de algo que vai além de um mero modismo passageiro sujeito às escolhas aleatórias de cada consumidor tomado individualmente.
Com efeito, por meio da observação sistemática, notou-se a ocorrência de determinadas regularidades – na implantação e distribuição dos espaços, nas normas de funcionamento, no calendário das atividades e até num discurso de base. A pesquisa buscou, então, um enquadramento para o entendimento do fenômeno, procurando pistas não tanto pelo viés negativo – como resposta à suposta falência das religiões institucionalizadas ou à crise de “instituições produtoras de sentido” – mas na própria positividade do movimento, percebido como gerador de comportamentos coletivos, no contexto da cidade. O que o diferencia de outros trabalhos é que neste caso se pretende determinar sua lógica não a partir de características internas ao movimento mas dos vínculos e pactos que estabelece com a dinâmica cultural em que está inserido – com o ritmo, as instituições e a paisagem da metrópole.12
A pergunta inicial foi suscitada por uma constatação empírica: ao término de um estudo sobre formas de lazer e sociabilidade na metrópole paulistana 13 , chamaram a atenção as atividades de certos personagens como cartomantes, adivinhos, tarólogos, que se supunha atuarem em recintos fechados e de forma privada, em plena atuação em viadutos do centro, em praças e em lojas em bairros de classe média: afinal de contas, tais práticas diziam respeito a indagações sobre o futuro, tratavam do destino, da saúde e de problemas espirituais do consulente – ou ao menos era o que seus oficiantes apregoavam. E, no entanto, eram realizadas no espaço público ou em contextos pouco afeitos ao mistério, recolhimento e privacidade, como era possível comprovar principalmente no chamativo caso das “feiras místicas” montadas em parques, shopping-centers, praças e clubes.

Observando mais de perto, verificou-se que, além desta surpreendente visibilidade, mudara também seu sistema de funcionamento: a maneira como muitos destes serviços estavam sendo oferecidos contrastava com o estilo habitual – o contato pessoal com a cartomante atendendo em sua própria casa, ou com o adivinho, no recesso de uma sala escura e repleta de objetos misteriosos. Agora era diferente: a leitura das cartas, a interpretação do I-Ching, o alinhamento dos chakras, a prática de yoga, a aplicação do do-in e outras tantas atividades que integram, de uma forma genérica, o caldeirão das práticas neo-esotéricas, finalmente se modernizavam: seus praticantes não desdenham equipamentos, condições e técnicas, como computação, marketing, terceirização, franchising, comuns a qualquer das atividades de prestação de serviços nos grandes centros urbanos. O neo-esoterismo virara empreendimento (micro) empresarial!
Tratava-se, sem dúvida, de mudanças significativas e se, para muitos, essa modernização e mercantilismo redundam na perda de aura e mistério, para a pesquisa, contudo, constituíram valiosos indícios na busca de uma via explicativa nova. Começava a ganhar corpo uma hipótese apontando para a emergência de novos padrões de comportamento no contexto da cidade e em consonância com determinadas tendências da vida contemporânea.
Com efeito, ao assumir abertamente e sem rebuços essas atitudes, os usuários atuais afastam-se dos antigos moldes, quando uma consulta a cartomantes, xamãs, adivinhos, feita de maneira clandestina ou envergonhada, era vista como uma regressão a práticas primitivas. Por outro lado, já não se estava propriamente diante de atividades “alternativas”: instaladas em espaços próprios, em processo de legitimação institucional e com forte presença na mídia, encontram-se já incorporadas no dia-a-dia e na paisagem das grandes metrópoles.
Em suma – não obstante a primeira impressão produzida pela notável amplitude, fragmentação e variabilidade do universo das crenças e práticas neo-esôs –, quando se olhava o fenômeno desse outro ângulo, o das condições atuais de implantação na cidade, o panorama era outro. Em vez de lugares inacessíveis, freqüentados de forma esporádica por uma clientela difusa, o que se constatava era a oferta regular de determinados bens e serviços em endereços bem localizados, para um público consumidor formado por pessoas escolarizadas, de bom poder aquisitivo (condições necessárias, aliás, para manter o consumo de itens caros e sofisticados) sensíveis ao argumento da qualidade de vida e interessadas por temas tão diversos como filosofias orientais, ecologia, valorização do feminino, terapias soft. Tornou-se factível, então, postular que a regularidade dessa oferta, em termos de implantação espacial, regras de funcionamento, periodicidade, é a base sobre a qual se desenvolvem e consolidam comportamentos que, longe de serem o resultado de meras escolhas individuais, conformavam um determinado estilo de vida claramente reconhecido, com valores, padrões de consumo e formas de sociabilidade peculiares cultivado preferencialmente dentro de um novo conceito de utilização do tempo livre 14.
Diante do heteróclito e cosmopolita universo dessas práticas – que iam da crença em duendes nórdicos ao uso de florais canadenses; do consumo de incenso indiano à prática da acupuntura chinesa; da meditação tibetana ao shiatsu japonês; dos livros de auto-ajuda americanos ao xamanismo siberiano; da bruxaria celta aos rituais dos índios da Amazônia –, surgia a preliminar e básica pergunta: por onde começar?
Os passos iniciais da pesquisa foram dedicados à busca de um primeiro, ainda que provisório, ordenamento. Integram essa etapa o mapeamento, na cidade de São Paulo, dos espaços onde tais práticas são oferecidas, a descrição do programa arquitetônico de alguns estabelecimentos-tipo, sua classificação em grupos a partir dos objetivos, normas de funcionamento e natureza do produto ou serviço que oferecem. A partir de um contato mais próximo com os espaços e as práticas foi possível, então, detectar e descrever as regularidades que estão na base de seu funcionamento e organização, distribuição no tempo e no espaço e também no discurso que lhes serve de fundamento. Finalmente chegou-se ao perfil dos usuários – desde o tipo mais erudito até o consumidor ocasional – em busca de padrões que permitem explicar seu comportamento em termos de “estilo de vida”, tendo como fundamento uma matriz discursiva comum e como base de sustentação os circuitos e trajetos que se recortam na paisagem da cidade.
Notas

1 O texto que segue está constituído pelo capitulo introdutório do livro publicado com este título em 1999 pela Editora Studio Nobel, São Paulo.

2 “Nossas indústrias em desenfreado florescimento de culto aos anjos, ‘experiências de quase morte’ e astrologia – redes de adivinhação de sonhos – são versões em massa de um gnosticismo adulterado ou travestido (…). A comercialização da angiologia e das mistificações das viagens fora do corpo junta-se apropriadamente à história secular da astrologia e da adivinhação de sonhos mercantilizada.” (Bloom, 1996:32, 33)

3 Essas denominações não são sinônimos, tendo surgido em diferentes momentos, designando assim várias nuances do fenômeno. (Cf. Heelas, 1996; Carozzi, 1998). Recentemente entrou em voga uma nova denominação, Next Age, em substituição à anterior e supostamente já desgastada New Age. Segundo Luís Pellegrini (1998) essa mudança não passa de um novo rótulo justamente para os excessos –principalmente o mercantilismo, o consumismo, o cultivo do ego – cometidos sob a égide da New Age. O mesmo vale para o fenômeno designado como millies, nos EUA, mote midiático referido à próxima virada do milênio e ligado à moda, consumo e comportamento, com vagas referência à “espiritualidade”, “busca de equilíbrio”, etc. .Folha de São Paulo, 21/03/98.

4 Além do sucesso editorial de Paulo Coelho (o grande ícone, tanto para os entusiastas, como para os críticos dessa literatura), com seus 20 milhões de livros vendidos até agora – para ficar apenas com o nome mais conhecido – cabe mencionar os inúmeros serviços telefônicos do tipo “disque-0900” que até recentemente ofereciam consultas e orientações através da numerologia, astrologia, tarot, baralho cigano, runas, etc. Segundo matéria publicada na Revista da Folha, em 14/09/97, o porto-riquenho Walter Mercado contabilizava em torno de 50 milhões de chamadas em 23 países, incluindo o Brasil, movimentando em torno de US$ 150 milhões. A empresa dos discípulos de Omar Cardoso, entre muitas outras, também mantinha um serviço similar e seu disque 0900 registrava 30 mil ligações por mês.

5 Algumas dessas análises tomam como referencia ou objeto de suas críticas certas facetas veiculadas de forma caricata, como por exemplo a do já citado Walter Mercado e o bordão “ligue djá” de seu serviço de consultas por telefone, ou as representações de duendes calcadas nas imagens infantis dos contos populares. Ainda que façam parte do circuito que está sendo estudado, não podem ser tomadas como representativas nemdo complexo tema dos sistemas oraculares, num caso, nem, no outro, dos “elementais”, presentes sob formas iferentes mas de maneira recorrente em várias tradições, sagas e mitos.
6 Ver, mais adiante, capítulo I
7 E que deu origem à great rucksack revolution dos anos 60, conforme expressão cunhada por Jack Kerouac (1958).

8 (…) “um tipo particular de esoterismo que passou a ser construído no Ocidente sobretudo a partir do século XVII, que se expandiu durante o apogeu do Iluminismo e que veio a culminar com os grandes movimentos orientalizantes e espiritualistas da segunda metade do século XIX”. (Carvalho, 1998:56). O emprego do termo “neo-esoterismo”, contudo, não configura nenhuma novidade, tendo sido usado por vários autores eem diferentes contextos tais como debates, colóquios, etc. Martelli (1995), por exemplo, também recorre a ele, tomando-o emprestado de Berzano (1989). Este último distingue entre um esoterismo a que chama de “residual”, ligado a formas tradicionalistas e contraculturais, de outro, o qual então denomina de “neoesoterismo, (…) portador de instâncias críticas em relação às capacidades da ciência em responder aos desafios do presente”. (apud Martelli 1995, p.408). Em Morin (1972:278) – agradeço a Silas Guerriero pela referência – também se encontra o termo “neo-esoterismo”, ainda que este autor empregue preferencialmente a expressão “nova gnose”. Já Berger (1973 [1968] p.118) fala em “neomisticismo” para referir-se a uma mescla de espiritualidade e psicoterapia; Terrin (1996:22) também recorre à partícula “neo”antecedendo “xamanismo” com o propósito de chamar atenção para algumas características, atuais, de determinadas práticas.agrupadas sob essa denominação.

9 Nos moldes de uma “meta-narrativa”, segundo a expressão de Lyotard (1989:72).
10 As contribuições desses autores deram-se principalmente a propósito ou por ocasião de encontros que terminaram em coletâneas. Os títulos são sugestivos: “Sinais dos Tempos: Seitas no Brasil” (1989); “Sinais dos Tempos: Tradições religiosas no Brasil” (1989); “Diversidade Religiosa no Brasil” (1990); “O impacto da modernidade sobre a religião” (1992), todos promovidos pelo ISER. “Misticismo e Novas Religiões” (1994), promoção da PUC/SP e IFAN e, finalmente, na USP: “Dossiê Magia” (1996). Cabe lembrar o texto “La Croyance aux Parascienses: de nouvelles formes de religiosité?” de Eduardo Diatahy B. de Menezes (1989/90).

11 No encontro “VIII Jornadas Alternativas Religiosas na América Latina” (São Paulo, 22 a 25 de setembro de 1998) foi possível ampliar esse quadro, com apresentação de papers sobre práticas no Distrito Federal e Recife; primeiros resultados de novas pesquisas em Goiás, Rio de Janeiro, São Paulo além de contribuições vindas da Argentina. A quantidade de trabalhos propostos nesse encontro, classificados na rubrica “Esoterismo/Nova Era”, dá uma idéia do interesse que o tema vem despertando como objeto de pesquisa: 48, sobre um total de 191. Em segundo lugar vinham trabalhos sobre religiões evangélicas (40), depois catolicismo (29); afro-brasileiras (28); outras religiões (25) e trabalhos de caráter geral (21). Fonte: Secretaria das VIII Jornadas. Ao final, na bibliografia, estão as referências aos principais trabalhos apresentados nas mesas redondas dedicadas a temas da Nova Era..

12 O que não significa que pesquisas claramente situadas no campo de estudos de religião não possam buscar este tipo de relação com o contexto e práticas urbanas. Ver, a propósito, “Povo-de-Santo, Povo de Festa: estudo antropológico do estilo de vida dos adeptos do candomblé paulista”, de Rita de Cássia de Mello Peixoto Amaral (1992) e “Os Orixás da Metrópole”, de Vagner Gonçalves da Silva (1995).

13 J.G.Cantor Magnani – “Os Pedaços da Cidade´ – Relatório final CNPq, 1991; Na Metrópole: Textos de Antropologia Urbana, (co-org., com Lilian de Lucca Torres), EDUSP, (1996).

14 Segundo o projeto de pesquisa “Espiritualidade em ritmo metropolitano: os novos espaços de encontro, vivência e culto na cidade” (Magnani, 1994), o objetivo da pesquisa era (…) “identificar e analisar a emergência de padrões de comportamento que, como hipótese, começam a caracterizar significativamente a oferta e procura de bens na área das práticas mágico-esotéricas no contexto das grandes cidades, instituindo modos ou estilos de vida diferenciados. De ‘alternativas’, essas práticas passam cada vez mais a disputar e ocupar um espaço visível e legítimo, organizando-se, para tanto, em moldes empresariais, procurando alianças com outras instituições já estabelecidas e buscando um discurso de fundamentação próprio”.