SAMBISTAS E “SAMBEIROS”: ESCOLAS DE SAMBA E TORCIDAS ORGANIZADAS NO CARNAVAL DE SãO PAULO – 32019-03-02T21:02:58+00:00

Fenômeno análogo aconteceu em relação ao Carnaval. Nos anos 70, o desfile das escolas de samba cariocas, que havia sido oficializado em 1935 (o que garantia às escolas subsídios governamentais), consolidou-se como um acontecimento de massa, passando a servir de modelo para carnavais de outras cidades brasileiras. Em São Paulo, os desfiles carnavalescos foram oficializados apenas em 1967, passando assim a contar com regras escritas (copiadas do regulamento carioca) e a promoção da Secretaria de Turismo da Prefeitura, o que reduziu a informalidade e abriu espaço para uma maior organização das agremiações . 
Vê-se que, nesse momento, os universos do futebol e do samba já não mantinham as relações estreitas que os caracterizaram nos anos 20, 30 e 40 (como no exemplo da Vai-Vai). Do desenvolvimento organizacional e da formação de ligas, federações etc., derivou uma nítida separação entre os dois domínios. Todavia, na mesma década de 70, voltou a acontecer, em novos moldes (e especialmente na cidade de São Paulo), uma reaproximação entre o samba e o futebol. Agora a mediação não era feita pelos times de várzea, mas pelas torcidas organizadas. 
Em 1975, a torcida Gaviões da Fiel formou um bloco carnavalesco e passou, desde então, a desfilar no Carnaval paulistano. Depois de alcançar por doze vezes o primeiro lugar na categoria de Bloco Especial, a Gaviões foi convidada, no ano de 1989, a transformar-se em escola de samba . Pouco depois da torcida corinthiana, a Torcida Jovem do Santos, em 1979, e a Torcida Tricolor Independente, em 1981, passaram a integrar o desfile dos blocos. Ainda nos anos 80, foi a vez da Camisa 12, mais especificamente em 1984. Na década seguinte, T.U.P. (Torcida Uniformizada do Palmeiras), Pavilhão 9 e Mancha Verde formaram seus blocos carnavalescos – em 1991, 1992 e 1996, respectivamente. 
Assim, escolas de samba e torcidas organizadas constituíram-se em formas diferentes de organizar o lazer, ligadas a estilos de vida distintos, passando a interagir, construindo “redes e gramáticas combinatórias que enunciam uma circularidade por entre as várias esferas de manifestações populares” (Toledo, 1996:95). 
Porém, essa circularidade não se dá sem tensões, produzidas tanto dentro das agremiações, que participam desses dois mundos sociais (o futebolístico e o carnavalesco), quanto externamente, na relação destas com as demais escolas de samba. 

 

3.2  “Uma torcida que samba”

3.2.1  A quadra dos Gaviões 

 Tendo isso em vista, a pesquisa de campo foi centrada na quadra do Grêmio Recreativo Gaviões da Fiel Torcida. Ao longo do ano, esse espaço é apropriado e ressignificado de diversas maneiras, além de servir de base para tipos diferentes de sociabilidade. 

Todos os sábados acontecem pelo menos duas atividades: a tradicional feijoada com pagode e as reuniões para os novos associados, em que estes são apresentados à história da fundação da Gaviões, aos lemas e regras da “família”, etc. Ambos os eventos parecem ocorrer desde a fundação da agremiação (sendo o que consta no site da Gaviões e o que relataram nossos informantes) e fazem com que a quadra se transforme, semanalmente, num ponto de encontro, um locus de sociabilidade freqüentado tanto pelos gaviões mais atuantes (diretores, mestres de bateria, o pessoal da velha-guarda, etc.), quanto por pessoas que moram ali perto, sócios e simpatizantes de outros locais. Nessas ocasiões o ambiente é bastante tranqüilo, comparecendo um público variado: famílias, namorados, amigos. 

Nas noites de sexta-feira, acontece o “Botequim da Fiel”, quando são realizados shows de grupos de pagode, tais como Fascinação, Um Toque a Mais, Badabauê, D-Verdadi, Coisa da Antiga, Samba Diferente e Negritude Junior. Esse evento, que foi criado recentemente, há cerca de dois meses, inspirado em atrações similares promovidas por outras escolas de samba de São Paulo (segundo nos contou a informante Cida, do Departamento de Eventos), reúne um público mais jovem e transforma a quadra num ambiente mais “agitado”. 
Podem ainda ocorrer durante o ano outros shows, como o que estava  marcado para o dia 4 de julho de 2003, com os grupos de rap Racionais MC´s, Rappin’ Hood e 509-E. Nessa ocasião, supõe-se, o público deve ter sido bastante diferente daquele que costuma freqüentar os “botequins”, dada a especificidade das atrações que centralizam cada um desses eventos. 
No dia 26 de julho acontece uma das festas mais importantes do calendário da agremiação: o aniversário da Gaviões da Fiel. Nessa ocasião, segundo  relataram Cida e Roberto Szanieski, a quadra é ocupada quase exclusivamente por torcedores “radicais” (a análise desta e de outras categorias nativas será feita mais adiante), que se juntam para cantar o hino do Corinthians e entoar os gritos de torcida próprios dos estádios.

Além dos já citados, há também os acontecimentos relacionados à atuação da Gaviões no Carnaval paulistano: a festa de apresentação dos “pilotos” (os protótipos das fantasias a serem confeccionadas), as eliminatórias para escolha do samba-enredo e os ensaios, que reúnem membros de outras escolas de samba e pessoas desse universo em geral – um público mais próximo daquele que freqüenta os “botequins”. 
A quadra da Gaviões, portanto, adquire contornos e significados bastante distintos dependendo do evento que ali se realiza. Essas diferenças apontam não só para a heterogeneidade do público que freqüenta esse espaço, como para a diversidade de relações que podem se estabelecer com a  (e na) Gaviões da Fiel. 

 

3.2.2  As regras da “família”

Um ponto que apareceu na maioria das entrevistas realizadas é ser a  Gaviões da Fiel – a agremiação em geral, mas sobretudo a quadra – um lugar de estabelecimento de laços de sociabilidade duradouros. Parece que os informantes fazem questão de ressaltar isso, em razão da imagem de violência e marginalidade que marca a visão de senso comum sobre as torcidas organizadas. 
Nelsinho, por exemplo, que está na Gaviões desde 1973, conta que conheceu sua mulher em 1979 e que ambos eram da torcida, mas  nunca tinham se visto. Ele era lutador de boxe, estava disputando uma vaga no Pan-americano e resolveu lutar vestindo a camiseta da Gaviões. Diz  que ganhou “primeiro a luta e, depois, a mulher”, que tinha ido puxar conversa com ele por causa da camiseta. 
Além desse caso, tanto o diretor de harmonia quanto Pacaratá chamaram a atenção para o fato de que se fazem muitas amizades na Gaviões. Este último, durante a entrevista que  concedeu do lado de fora da quadra, viu passar um amigo e falou: “Olha, esse eu conheci aqui dentro. Não conhecia, e hoje é um puta amigo. […] A gente foi na igreja juntos. O cara tava meio mal, com uns problemas… A gente foi até na igreja, cê acredita?” 
Há também um discurso oficial que identifica a Gaviões da Fiel como uma grande “família”. O exemplo abaixo foi retirado de um texto do site da entidade que trata das reuniões para novos membros:

[…] Já devidamente estimulados a integrar nossa família, os novos integrantes da entidade corinthiana participam da última rodada de esclarecimentos em relação a filosofia da torcida, comportamento nas arquibancadas, os órgãos que dirigem os Gaviões (Conselho Deliberativo e Diretoria Administrativa), os lemas a serem seguidos (Lealdade, Humildade e Procedimento) e principalmente a consciência de que o glorioso Sport Club Corinthians Paulista é a única razão da nossa existência.

A idéia de “família” também aparece no discurso dos torcedores, como mostra o trecho a seguir, retirado do fórum de mensagens do site: 

OI GALERA, EU QUERIA AQUI DEIXAR MEU DEPOIMENTO E AGRADECIMENTO A ESSA TORCIDA MARAVILHOSA, HOJE APESAR DE SER 2003 AINDA HÁ MUITO PRECONCEITO COM AS MULHERES QUE GOSTAM DE FUTEBOL E QUE VÃO AOS ESTÁDIOS INCLUSIVE POR PARTE DE ALGUNS DA FAMILIA COM MEDO DESSA VIOLÊNCIA ASSUSTADORA. […]

MAS A QUESTÃO QUE EU QUERO TOCAR É A SEGUINTE: mENINA SOZINHA INDO COMPRAR INGRESSO OU PEGAR ONIBUS NOS TERMINAIS PARA IR AJOGOS, NÃO TEM O QUE TEMER POIS ESSA TORCIDA PROTEGE E MUITO AS MULHERES.
CERTA VEZ EU COMPRANDO INGRESSO DE TIMÃO E UM CERTO TIMINHO DE SEGUNDONA NÃO PERCEBI A CONFUSÃO E QUASE TOMEI UMA BORRACHADA, SE NÃO FOSSEM TRÊS IRMÃOS QUE EU NEM CONHECIA ENTRAREM NA FRENTE E APANHAREM POR MIM.
DEPOIS DESSE DIA EU PERCEBI QUE A FIEL É UMA FAMÍLIA DE VERDADE E COM IRMÃOS QUE EU PARTICULARMENTE ADORO. […] 
(“bruninha_dafiel”, mensagem postada em 25/06/2003 às 17h59)

O trecho é interessante porque contrapõe uma possível família “de fato”, mas preconceituosa, à “família de verdade” que se forma na Gaviões da Fiel, sustentada por “irmãos” que não necessariamente se conhecem, mas que, como mostra um dos trechos seguintes, têm como objetivo comum defender o Corinthians: 

AE BRUNINHA, CONCORDO COM TUDO O QUE VOCÊ FALOU, E É MUITO BOM VER QUE A NOSSA FAMILIA TEM MUITO RESPEITO POR NÓS MULHERES NEH!!!
(“Quel_lhp”, mensagem postada em 25/06/2003 às 18h10)

PARABENS BRUNINHA EH ISSO MESMO GAVIOES EH UMA FAMILIA!!!!!!!!
CONTRA TODO INIMIGO SOMOS NOHS OS GAVIOES!!!!!!
ABRACO A TODOS DA MAIOR FAMILIA DO MUNDO!!!!!!!!!
(“Thiagogaviaolhp”, mensagem postada em 26/06/2003 às 10h22)AIH BRUNINHA, NÓS(GAVIÕES) DEPENDEMOS DE NÓS(GAVIÕES), NÓS NOS PROTEGEMOS, E OS 2 NÓS JUNTOS, É A FAMÍLIA Q DEFENDE O TIMÃO!!!!!!
(“WATCHA_LHP_Z/S”, mensagem postada em 26/06/2003 às 16h06)

É isso mesmo Bruninha,voce pode ter certeza que respeito nunca vai faltar com as minas que colam nos estádios,na quadra ou em qualquer outro evento que esteja presente os GAVIÕES DA FIEL,o nosso lema é muito forte – L H P […]
(“LMC”, mensagem postada em 25/06/2003 às 18h12)

Ae QUEL, ae se alguem relar em vc, é daquele jeito...
(“FielMooca”, mensagem postada em 26/06/2003 às 15h50)

Entretanto, essa família tem regras, sendo a principal delas  dada pelo lema “Lealdade – Humildade – Procedimento”, ou simplesmente “LHP”. Segundo Nelsinho, esse lema era de uma escola de samba chamada “Imperador do Ipiranga” e foi adotado pela Gaviões em meados da década de 80, trazido por um diretor que também integrava aquela escola. Ele estabelece, de modo geral, como devem ser as relações entre membros da “família”, não se estendendo necessariamente a torcedores de outros times. Dos três termos, o terceiro é o que mais chama a atenção. Questionado sobre qual seria o significado de “procedimento”, Nelsinho respondeu: “É o ‘procedê’. O ‘procedê’ que eu tenho com você, com você…”. 
Vê-se, portanto, que essa categoria não tem uma definição precisa, o que tampouco parece ser um problema; não precisa ser explicado, é óbvio – para quem é da “família”. De todo modo, pode-se definir “procedimento” como algo relacionado a uma atitude, um jeito de ser, de tratar alguém que é reconhecido como um “irmão”.  Não há como defini-lo melhor: é o “procedê”. 
Outro lema assumido coletiva e oficialmente pela Gaviões é “A corrente jamais será quebrada”, que Nelsinho afirma ter sido adotado desde a fundação da agremiação. Supõe-se, porém, que a frase deva ter assumido um significado mais forte para os gaviões a partir de 1995, quando torcidas organizadas como Independente Tricolor, de torcedores do São Paulo, e Mancha Verde, de palmeirenses, foram fechadas por decisão judicial (por conta do caráter violento atribuído a esses agrupamentos e, especificamente, em razão da “batalha campal” que ocorreu no Pacaembu após a final da Copa São Paulo de Juniores entre São Paulo e Palmeiras, em 1995) e outras, como a própria Gaviões da Fiel, foram proibidas de ostentar seus símbolos nos estádios (em camisetas, bandeiras, etc.) e ameaçadas de fechar. Isso pode ser exemplificado pela “assinatura” que um torcedor escolheu para ser repetida em todas as suas mensagens no fórum do site da Gaviões: 

A GAVIÕES NÃO ACABOU, E JAMAIS ACABARÁ, VOCÊ PODE ACREDITAR, NOSSA CORRENTE NÃO SERÁ QUEBRADA…LHP.

 O risco do fim da agremiação, mesmo que atualmente  bastante fraco (não há mais nenhum processo de fechamento contra a Gaviões), parece ter motivado uma série de mudanças na agremiação. Os gritos de torcida, que antes eram marcadamente agressivos, foram amenizados (segundo Nelsinho, a Justiça proibiu cantos violentos nos estádios). Assim, por exemplo, havia um famoso grito, cantado por todas as torcidas organizadas da São Paulo, que dizia:

Sou, da Gaviões [ou Mancha Verde, etc.] eu sou 
Vou dar porrada eu vou 
E ninguém vai me segurar 
Nem a PM 

Após as torcidas organizadas terem sido proibidas de entrar nos estádios, a música sofreu uma pequena alteração: o último verso agora dizia “Nem o Farah [presidente à época, e até hoje, da Federação Paulista de Futebol]”. Atualmente, contudo, ela foi modificada para:

Sou, da Gaviões eu sou 
Corinthians joga eu vou 
E ninguém vai me segurar 

Como se vê, as referências violentas foram todas retiradas e substituídas por uma manifestação de fidelidade ao time. Mesmo em músicas em que os elementos agressivos eram mais sutis, considerando o contexto de rivalidade entre times e o linguajar comum aos torcedores, estes foram alterados. Um exemplo é uma canção que, originalmente, era assim: 

Pó-ró-pó pó pó pó pó pó  (4 vezes)
Corinthians veio pra vencer  (3 vezes)
E [o time adversário] pra se fuder 

Com as últimas mudanças nos gritos, a última estrofe foi mudada para: “E [o time adversário] pra perder” – o que, além de tê-la deixado menos agressiva, tirou bastante de seu caráter expressivo e poder de intimidação. Mas, o recrudescimento da violência entre torcedores de futebol nos anos 90 e os acontecimentos de 1995, que tanto ameaçaram as torcidas quanto motivaram a tomada de consciência dos próprios torcedores organizados a respeito do problema da agressividade, fizeram com que os diretores e as pessoas mais envolvidas com a Gaviões da Fiel tenham hoje uma atitude bastante cautelosa com relação à violência e à moralidade não apenas nos estádios, mas principalmente na própria quadra da torcida.
Os informantes procuraram ressaltar, tanto nas entrevistas concedidas quanto nas reuniões para novos sócios, o lado “bom caráter” e “correto” das pessoas que freqüentam a quadra. Um ponto ressaltado pelas pessoas mais envolvidas com a agremiação (diretor, mestre de bateria, presidente do conselho) é o fato de que, dentro da sede, a violência é controlada e a moralidade, preservada: “Drogas, brigas, aqui dentro a gente controla. Se pegar o cara… Agora, daqui pra fora já não é mais com a gente” (Alex Sandro, diretor social). Percebe-se que esse é um discurso pronto para lidar com um tema embaraçoso, tendo sido repetido quase igualmente por vários entrevistados. Entretanto, a questão é complicada justamente pela real impossibilidade de se controlar cerca de setenta mil associados, provenientes das mais diversas regiões da cidade, condições sociais, etc.
Uma forma de controle interno é também a criação e difusão de lemas que estimulam atitudes menos violentas. Um exemplo: “Gavião não age, reage”. Essa frase, adaptada do senso comum e afirmada nas reuniões para novos sócios, exalta uma atitude defensiva, não violenta, sem, contudo, parecer covardia, o que seria considerado extremamente humilhante, sendo  a afirmação da virilidade  uma característica bastante presente entre os torcedores organizados (essa questão é analisada mais adiante como um dos elementos constituintes do que chamamos de habitus viril). É interessante notar como, no discurso que envolve esse lema, a covardia se caracterizaria não apenas por uma falta de reação, mas também por uma ação sem motivo contra alguém sem capacidade de reagir: “se passar um ‘bambi’ [torcedor do São Paulo] sozinho aqui do lado, a gente não vai bater no cara. A gente não é covarde” (Pacaratá, presidente do conselho).
 É, também, curiosa a explicação do motivo pelo qual o animal gavião foi escolhido como símbolo da torcida:

 “Por que Gavião? Porque sabe a hora certa de dar o bote” (Pacaratá, durante reunião para novos sócios).

Aqui a ambigüidade entre agressividade e defensividade é evidente: a frase pode ser entendida tanto como elogio a uma esperteza predatória, quanto – desde que afirmada junto com a citada no parágrafo anterior – como uma exaltação da “reação”, e não da “ação”.
Essa ambigüidade aparece também quando, conversando com o pesquisador depois da reunião, Pacaratá relativizou o discurso moralizador há pouco pronunciado. “Na reunião a gente fala da paz, tenta conscientizar. […] Mas sabe que não é assim”. Ele próprio afirmou ter consumido drogas (não mencionou quais) quando mais jovem e ter algumas passagens pela polícia: “Adolescente é aquela coisa: uma adrenalina, a gente não controla. Agora que eu sosseguei”. Em relação à violência na quadra, acontece algo parecido. Ele relatou dois casos envolvendo homossexuais em que, se não houve, de fato, agressão corporal, chegou-se muito perto disso (a análise desses casos é aprofundada mais adiante).
Assim, se fora da Gaviões a responsabilidade pelos atos fica por conta de cada um dos sócios,  dentro da quadra há ocasiões em que o conflito se torna iminente. De todo modo, os diretores tentam controlar situações de tensão como podem. Depois de Pacaratá ter mencionado que existem tanto policiais quanto traficantes, bem como “gente do Comando Vermelho”, que são sócios dos Gaviões da Fiel, pôde ser feita mais diretamente uma pergunta sobre o nível de periculosidade. Ele, então, afirmou que, em dia de festa,  cercam o quarteirão onde fica a quadra com seguranças contratados.

 

3.2.3  Paixões do jogo

Uma característica bastante presente na fala dos gaviões em geral é a paixão pelo Corinthians, como seria de esperar em uma agremiação cuja existência se justifica em função deste time de futebol. Nesse sentido, na hierarquia dos afetos, a relação com o Corinthians parece estar sempre acima de todas as outras, até mesmo quando se trata da própria Gaviões. Isso aparece tanto em textos oficiais, como o já reproduzido  sobre a reunião para novos membros (“o glorioso Sport Club Corinthians Paulista é a única razão da nossa existência”), quanto nas “assinaturas” que os torcedores escolhem para acompanhar  as suas mensagens no fórum do site. Algumas foram selecionadas para exemplificar a referida relação com o clube:

CORINTHIANS VOCÊ É A MINHA VIDA TE AMO , TE AMO DE VERDADE!!!

CORINTHIANS A RAZÃO DO MEU VIVER 
EU SOU CORINTHIANS DE CORAÇÃO!!!!* CORINTHIANS: SEM VOCÊ NÃO EXISTO *

Minha Vida tem um pouquinho de tudo, mas 100% é corinthians
*CORINTHIANA eu serei até a morte*

Perdeu uma, perdeu duas, perdeu mil, CORINTIANO até à Puta Que Pariu.

EU SOU VALENTE EU SOU O BRAVO GUERREIRO E O CORINTHIANS COMPANHEIRO MORA NO MEU CORAÇÃO… Z/O

Sou Gavião Fiel de origem louco, nada bobo.
 *Triste é o Ser Humano que não é CORINTHIANO*

Pelo CORINTHIANS, com muito amor, até o fim…
CORINTHIANS,abaixo de DEUS acima de tudo

CORINTHIANS…ACIMA DE TUDO E DE TODOS!!!

Tá no sangue, tá na alma, tá no coração.
Não dá pra explicar.
Só quem é sabe.

Ainda que isso possa ser encarado como mero discurso, que teria por função construir uma legitimidade e uma respeitabilidade dentro da Gaviões (o que não deve ser descartado), parece que, de fato, a relação com o Corinthians é, em alguns momentos, bastante apaixonada. O diretor de harmonia, por exemplo, afirmou: “Quando o Corinthians ganha um campeonato, é como se a gente fosse sorteado na loteria”. Do mesmo modo, a perda de um campeonato importante parece afetar bastante  esses torcedores: “Essa derrota para o River Plate [que eliminou o Corinthians da Copa Libertadores da América] não foi fácil de engolir” (Nelsinho, mestre de bateria).
Mas, se a Gaviões da Fiel tem um peso afetivo menor do que o Corinthians, ela não deixa de ser também muito importante para as pessoas que têm uma maior participação na entidade (diretores, etc.), assim como para os torcedores mais envolvidos. Esta importância está em parte relacionada ao fato de, como já foi apontado, engendrarem-se nessa entidade e em sua quadra relações de sociabilidade mais ou menos duradouras. Mas parece ter a ver, também, com a construção de uma identidade social, que pode se somar a outras, como mostram as seguintes “assinaturas”:

CaDuZiNhO-LHP
Gaviões Sub-Sede Piracicaba (Z/L V.M.)
.:Lealdade Humildade Procedimento:.COISA BOA É PRA SEMPRE (* L H P *) zn

NOSSA CORRENTE NÃO SERÁ QUEBRADA
RAFA FIEL LAPA Z/O
L.H.P

Eu tenho orgulho de ser Gavião
JOGADORES VAO.CLUBE FICA!!!!!
COHAB1 MORRAO DO TIMAO!!
FIEL ATE A ALMA !!
LHP NA MENTE
PAZ!!

Ñ SEJA DIFERENT,SEJA DIFERENÇA,SEJA GAVIÕES DA FIEL
JESUS!

LEALDADE-HUMILDADE-PROCEDIMENTO
LUCIANO DA FIEL
PARANAGUA-PARANA
SOCIO-59.936

VEJAM SÓ A POEIRA QUE SOBE PRO CÉU
BALANÇA BANDEIRA GAVIÕES DA FIEL

LEALDADE – HUMILDADE – PROCEDIMENTO
UMA NAÇÃO EM PRÓL DE UMA PAIXÃO
Guardiã_Fiel, AMO-TE DEMAIS

 Assim, o lema abreviado “LHP” aparece freqüentemente nessas “assinaturas” acompanhado de outros sinais de identidade, que podem ser relativos a religião (“Jesus”), cidade de origem (“Paranaguá – Paraná”, “Gaviões Sub-Sede Piracicaba”), bairro ou região da cidade (“Lapa Z/O”, “Cohab 1”, “Z/L V.M.”), bem como apelido (“Caduzinho”, “Rafa”, “Watcha”).
Por outro lado, se essas pessoas se envolvem afetivamente e, em certo sentido, apaixonadamente com o Corinthians e com a Gaviões da Fiel, isso não parece impedi-las de atuar em outros domínios da vida social: a adesão não é incondicional. Quem chamou a atenção para isso foi Pacaratá, durante uma reunião para os novos sócios: “Aqui nós não queremos fanáticos. Todo mundo tem família, tem emprego, tem que fazer o seu ‘corre’…” Ele próprio falou que, por um bom tempo, ficou sem aparecer na entidade (depois de ter se casado), o que também aconteceu, sob outras circunstâncias, com o diretor de harmonia.
De todo modo, esse vínculo apaixonado dos Gaviões foi mencionado por diversos informantes como um traço que diferencia a entidade de outras agremiações carnavalescas. O carnavalesco Roberto Szanieski, que observa isso  “de fora” pois, apesar de ter trabalhado na Gaviões durante os carnavais de 1998 e 1999, é um profissional remunerado que não faz parte da entidade, foi bastante enfático ao explicitar esse caráter apaixonado da relação dos membros com a agremiação: “Uma coisa tem que ficar bem clara: Gaviões é paixão. […] Qualquer coisa que a gente vai mexer aqui é complicado por causa disso”. Pacaratá também confirmou, quando perguntado, que a Gaviões tem uma relação diferente com o Carnaval em comparação com outras escolas de samba;  o diretor de harmonia, por sua vez, mencionou um dos traços que marcam essa diferença: “A Gaviões é rebelde”.

 

3.2.4  Escola de samba entre aspas 

Na hierarquia dos afetos em que estão envolvidos os integrantes da Gaviões, depois do Corinthians e da torcida vem o Carnaval. O caráter subordinado dessa atividade dentro da agremiação é sinteticamente expressado no lema que cobre uma das paredes da sede e é bastante repetido por aqueles que se envolvem com a Gaviões. O carnavalesco Roberto Szanieski, assim que  lhe foi explicado do que se tratava a  pesquisa, evocou enfaticamente a referida frase:

ARTHUR: Eu tô estudando as relações entre torcida organizada e escola de samba dentro da Gaviões… ROBERTO: Ih! Mas isso você não vai encontrar. Porque a Gaviões não é uma escola de samba. É uma torcida que samba.

Depois, no decorrer da entrevista, toda vez que falava da Gaviões enquanto escola de samba, emendava “entre aspas”, para que ficasse bem clara a diferença entre a Gaviões da Fiel e as outras escolas de samba (sem aspas). Contudo, para melhor compreender o que diferencia a Gaviões da Fiel das entidades que atuam somente como escolas de samba, é preciso, antes, retomar brevemente a história da inserção dessa torcida no Carnaval paulistano, bem como qualificar as relações que membros desta agremiação têm tanto com outras torcidas organizadas, quanto com as demais agremiações carnavalescas.
Segundo informou um gavião da velha-guarda, chamado para dar seu depoimento durante a reunião para novos sócios, no início da década de 70, quando a Gaviões ainda não havia formado um bloco carnavalesco, seus integrantes desfilavam no Carnaval por escolas variadas, como Vai-Vai e Camisa Verde e Branco (isso acontecia, segundo ele, porque entre dezembro e fevereiro não havia campeonatos de futebol e o pessoal ficava sem ter o que fazer).
Posteriormente, devido ao grande número de Corinthianos e membros da Gaviões que desfilavam no Vai-Vai (em parte por suas cores serem a preta e a branca, como as do Corinthians), criou-se na escola uma ala especial somente para quem fosse dessa torcida organizada. A ala teria, então, ficado cada vez maior, até que seus integrantes resolveram não mais desfilar pelo Vai-Vai, mas fundar o bloco  dos Gaviões da Fiel. 
Muitos como Nelsinho, atual mestre de bateria dos Gaviões, continuaram por um tempo, ou até hoje, desfilando nas duas agremiações. Basta atentar para como isso seria inconcebível em relação a outras torcidas organizadas para observar uma primeira diferença entre a lógica da concorrência entre agremiações carnavalescas e a lógica que preside a rivalidade entre torcidas organizadas.
Por exemplo, a entrada de alguém na quadra da Gaviões com a camiseta de outra torcida, ou de outro time que não o Corinthians, é altamente arriscada:

ARTHUR:  […] E se eu vier aqui com a camiseta do Palmeiras, por exemplo?NELSINHO:  Não faz isso… Não faz isso. […]

 Mesmo a mera afirmação de que se torce para outro time, dentro da Gaviões, é pouco recomendada: “A gente sabe que tem gente que vem aqui que torce pros ‘bambi’ [são-paulinos], pros ‘porco’ [palmeirenses], […] mas enquanto não falar nada, tá tudo bem” (Pacaratá). 
É preciso assinalar, porém, que a relação com  as outras torcidas não é igual. Nelsinho menciona o fato de diretores da Torcida Jovem, do Santos, já terem visitado a sede da Gaviões e até jogado futebol na quadra. Falou, também, que com a Mancha Verde há uma certa relação. O curioso é que ela acontece apenas “enquanto escola de samba. Enquanto torcida, não tem relação nenhuma” (Nelsinho). Este ano, por exemplo, depois da morte de duas pessoas  no último Carnaval por causa de brigas entre torcidas/blocos, Gaviões da Fiel e Mancha Verde – Nelsinho ressalta que enquanto escolas de samba – realizaram um ato público conjunto pela paz.  Já com a Independente, segundo Nelsinho, não há conversa, porque seus integrantes, mesmo os diretores, são “desordeiros, traíras”. 
Todavia, mesmo com as torcidas com as quais há uma relação um pouco mais amena, esta não é semelhante à que é estabelecida com as escolas de samba. A Gaviões não tem atualmente uma relação boa com o Vai-Vai, pois o presidente desta é contra a participação de torcidas no Carnaval e costuma criticar e provocar a entidade corinthiana – no último Carnaval, por exemplo, depois de terminado o desfile da Gaviões da Fiel e antes de começar o do Vai-Vai, Solon Tadeu Pereira, presidente desta escola, afirmou: “agora vai começar o samba de verdade, não samba de comédia”. Apesar disso, Nelsinho diz ainda ter simpatia pela escola.
Um exemplo que marca mais uma diferença na relação entre escolas de samba, em comparação com as relações entre torcidas organizadas, é o fato de uma escola ser geralmente apadrinhada por outra. A Camisa Verde e Branco, por exemplo, foi madrinha da Gaviões da Fiel, assunto que foi recentemente discutido no fórum de mensagens do site desta última:

Poucas pessoas sabem mas a Madrinha dos Gaviões da Fiel é a escola de samba Camisa Verde e Branco os Gaviões forão batizados pelo Camisa Verde em 1988 pelo eX presidente já falecido Carlos Alberto Tobias filho do baluarte do samba Inocêncio Tobias mas muitos não sabem porque pelo Camisa ser verde e branco fazem comparações da escola aos porcú mas não têm nada a ver e varíos integrantes dos gaviões vão aos ensaios do Camisa e são muito bem recebidos. Os Gaviões também é madrinha das escolas Camisa 12, e Tradição da Zona Leste.
(“Luis”, mensagem postada em 25/04/2003 às 02h28)

A partir deste exemplo e do diálogo que se sucedeu a esta mensagem, evidencia-se como a participação de uma torcida organizada no Carnaval provoca confusões. Por um lado, alguns gaviões, geralmente (e não por acaso) os mais distantes do universo das escolas de samba, misturam de diversas maneiras as lógicas concorrenciais do futebol e do carnaval, manifestando um maior ou menor repúdio à escola que, apesar de ter batizado a Gaviões da Fiel, ostenta as cores do Palmeiras, o maior rival do time do Corinthians:

TEM Q SER CAMISA PRETA BRANCA!
  (“terror”, mensagem postada em 27/04/2003 às 13h38)NA BOA QUEM É CORINTIANO MESMO FANÁTICO TEM QUE TORCE PRO GAVIÕES DA FIEL TAMBÉM PORQUE ACIMA DE TUDO É CORINTHIANS NA AVENIDA
(“Rafael2003”, mensagem postada em 29/04/2003 às 04h36)

PARA FICAR UMA ESCOLA 100% LEGAL SÓ FALTA MUDAREM PARA CAMISA PRETA E BRANCA
(“ZIGLE_zLHP”, mensagem postada em 06/05/2003 às 12h25)

Por outro lado, existem aqueles que, por estarem mais inseridos no universo carnavalesco, acham que deve haver uma separação entre os dois domínios e defendem  que “samba é samba e torcida é torcida”:

EXATAMENTE MANO ….E VOU ALEM….LEMBRO QUE QUANDO COMECEI A IR NO ESTADIO A FIEL CANTAVA UM SAMBA DO CAMISA DE 1987 ( BARRA FUNDA ESTAÇÃO PRIMEIRA ) UM DOS MELHORES SAMBAS QUE JA OUVI ATÉ HOJE…….A RAPAZEADA TEM QUE APRENDER A SEPARAR AS COISAS, SAMBA É UMA COISA , FUTEBOL É OUTRA.
NEM TODO MUNDO QUE É CORINTHIANO GOSTA DA ESCOLA GAVIÕES, CONHEÇO GENTE QUE TORCE PRO TIMÃO, MAS DIZ NÃO GOSTAR DA ESCOLA…….E TB CONHEÇO GENTE QUE TORCE PRA OUTROS TIMES E TEM OS GAVIÕES COMO ESCOLA DO CORAÇÃO………É ISSO ……SEPARAR AS COISAS……MAS UM DIA IRÃO ENTENDER MELHOR.
(“lhpalmas-z/s”, mensagem postada em 25/04/2003 às 04h15)
AE RAPAZIADA VAMOS RESPEITA O CAMISA VERDE BRANCO LA NO CAMISA A RAPAZIADA E HUMILDE ELES RESPEITA OS GAVIOES DA FIEL E AGENTE RESPEITA O CAMISA NADA CONTRA O CAMISA SAMBA E SAMBA E TORCIDA E TORCIDA .
(“Sede”, mensagem postada em 03/05/2003 às 10h34) 
Ae rapaziada fmz? o camisa verde e branco foi quem batizou os gaviões da fiel sim, mais vi alguns comentarios que desmereceram o camisa que e uma escola de samba de muita tradição, eu mesmo frequento o camisa e sou corinthiano e muitos sabem que eu faço parte da harmonia dos gaviões e sempre que vou a quadra deles sou muito bem recebido assim como qualquer outra quadra de escola de samba, GAVIÕES DA FIEL , É uma grande entidade e é respeitada em todos os lugares, por ser uma torcida e uma escola de samba, não tem nada a ver os comentarios que surgem sobre qualquer entidade, acho que deveriamos respeitar todas as escolas, assim como todas respeitam aos GAVIÕES DA FIEL TORCIDA.
(“ANDERSON_IMIRIM”, mensagem postada em 03/05/2003 às 12h28) 
Cara, a maioria da massa que frequenta a Camisa é de Corinthianos, o VERDE fica só no nome e na bandeira.. hehehe… saudaçoes pra todos da barra funda, bom retiro e VILA MARIA!
(“Shark”, mensagem postada em 04/05/2003 a 00h09)

Houve, ainda, quem explicitasse os possíveis conflitos, contradições e confusões envolvidos na participação da Gaviões da Fiel em dois domínios diferentes: 

LEGAL ESSE TÓPICO, DEIXA BEM EXPLICADO A HISTÓRIA DAS ESCOLAS……..MAS AE NA HUMILDADE,PORQ QDO ROLA NOTA BAIXA PRO CAMISA HÁ UMA GRANDE MANIFESTAÇÃO DA PARTE DOS GAVIÕES NA ARQUIBANCADA NO DIA DA APURAÇÃO?????? 
(“DENNIS_LHP”, mensagem postada em 23/06/2003 às 17h54)Agora e se alguma pessoa for ao estádio ou em algum ensaio na quadra dos Gaviões vestindo a roupa da camisa verde e branca, será que alguém pediria para tirar ?
(“Luiz-P.S.L.”, mensagem postada em 26/06/2003 às 13h37)

Além disso, aparece nessas mensagens um respeito pelas escolas de samba concorrentes que não existe por outros times de futebol e seus torcedores. Como exemplo, há este outro tópico levantado no referido fórum, bem como algumas das respostas:

Assunto: Qual adversário você mais odeia!!!
Eu e meus amigos corinthianos nos divergimos sobre qual clube atualmente é o mais odiado. Uns dizem que são os lambaris [santistas], outros os bambis, outros os eternos inimigos porcos de 2ª e tem até que arrisca que é o flamerda. E aí qual vocês mais odeiam?
 (“juares”, mensagem postada em 08/06/2003 às 21h15)
EU ODEIO TODO MUNDO
(“terror”, mensagem postada em 08/06/2003 às 21h22)
ODEIO TODOS…..MAS PRINCIPALMENTE OS BIXARADA [são-paulinos]…..
O RACINHA DO CARALHO..……..
(“Psicopata_lhp”, mensagem postada em 08/06/2003 às 23h28)
Sem duvida todos mais os que eu gostaria de ver o avião cair é o do Palmeiras, Santos e Gremio
(“PaulodaFiel”, mensagem postada em 09/06/2003 a 01h01)
A porcada é de sangue...
(“Klebão”, mensagem postada em 09/06/2003 às 08h08)