Meninas, mães e madrastas
Por quê o caso Isabella mobiliza tanto?
Sylvia
Caiuby Novaes
Às
8 da noite daquele feriado de Tiradentes, muita gente se concentrava na
padaria. Gente comprando pão e leite, tomando lanche, muitos jantando
naquela padaria tipicamente paulistana. Dois enormes aparelhos de televisão
de tela plana, pendurados em locais estratégicos no teto não
chamavam muita atenção. Até que entram as notícias
do caso Isabella Nardoni. O silêncio é imediato e todos, clientes
e funcionários, homens, mulheres e crianças acompanham atentos
as notícias que já conheciam.

Minha
filha se diz indignada com o excesso de exposição do caso.
Mesma reação, aliás, da respeitada jornalista de uma
revista semanal que inicia sua matéria com a frase: “Não
agüento mais ouvir falar do caso Isabella. Não suporto mais
a cara de sonso do pai, o choro falso da madrasta, a frieza do avô/advogado
paterno”. Certamente tudo neste caso causa indignação, mas
vale a pena entender por que razão este caso específico,
dentre tantos que nos chegam pela mídia e que relatam casos de violência
contra crianças, continua mobilizando tanta atenção.
Há, certamente, por parte da mídia impressa, televisiva e
radiofônica, uma técnica narrativa que muito se assemelha
a de alguns novos romances policiais. Os supostos assassinos são
conhecidos de início, nenhuma dúvida paira sobre quem são
eles. Mas a história se desenrola buscando provas daquilo que já
se sabe. Provas que comprovem o que é de todos conhecido. Provas,
aliás, que têm a autoridade atribuída à ciência:
exames de DNA, de impressões digitais, medições, cronometragem
e uma reconstituição em que pude ver, na semana seguinte,
na mesma padaria, peritos usando aventais brancos, que em nada ficavam
a dever àqueles utilizados pelos laboratoristas. A ciência
é chamada a referendar tudo aquilo que a opinião pública,
policiais e delegados já anunciava.

Evidentemente
estamos na era do espetáculo e este gosto do público pela
espetacularização da vida cotidiana, nos seus aspectos mais
banais, mas principalmente nos seus aspectos mais violentos, não
pode ser desconsiderado. Mas isto não é de hoje. Na Paris
do século XIX, uma das grandes atrações populares
era a identificação de corpos mortos no necrotério
da cidade. A maioria dos visitantes não estava mesmo tentando reconhecer
cadáveres. Iam apenas para olhar, voyeurismo público, flanerie
a serviço do estado, como bem aponta Vanessa Schwartz. O necrotério,
com os cadáveres vestidos e sentados em cadeiras, transformava a
vida real em espetáculo, numa época em que as salas de cinema
eram ainda muito restritas ou mesmo inexistentes.

No
caso Isabella a reconstituição da cena do crime foi acompanhada
de enorme emoção, até mesmo por parte dos peritos
que nela trabalharam. A suposta fidelidade ao “como tudo ocorreu” mobiliza
a atenção e comove a todos. Como se esta história
fizesse reviver, mesmo em adultos, a emoção presente nos
contos da literatura infantil. Em vários deles o protagonismo de
uma menina é dividido com a figura da madrasta. Branca de Neve e
Cinderela são, talvez, os mais conhecidos. Nestas histórias
a mãe (tal como no caso Isabella?) só é mencionada
pela ausência. O ciúme toma conta da madrasta que, ao
se sentir ameaçada pela menina só pode agir movida pela maldade.

Nas
primeiras notícias veiculadas sobre o caso Isabella sentia uma grande
dificuldade de entender quem era quem. Dificuldade que só podia
ser explicada pelo fato de mãe e madrasta terem o mesmo nome: Ana
Carolina. Por outro lado esta fusão de mãe e madrasta num
único nome parece ser uma transformação do processo
que a psicanálise descreve para a criança que vive a dificuldade
de enxergar sua própria mãe como uma pessoa má, ou
com quem ela não consegue se relacionar. Trata-se de um expediente
comum entre as crianças que, para preservarem a boa imagem da mãe,
dividem-na em duas pessoas, uma que é totalmente boa e protetora,
a outra uma bruxa capaz de todas as maldades e que nos contos infantis
corresponde ao papel da madrasta.

Não
consigo me lembrar de uma única história infantil em que
a figura masculina do padrasto seja protagonista dos dramas familiares.
Tampouco o é a do enteado. Em Cinderela, a única figura masculina
é a do príncipe que se encanta por ela no baile e segue atrás
de um sapatinho que ela na fuga deixara escapar. Em Branca de Neve a figura
masculina forte e presente é a do caçador, que ao não
seguir as ordens da rainha impede que a menina seja morta e seu coração
levado para satisfazer a inveja e o ciúme da madrasta. As figuras
masculinas são nestes contos figuras coadjuvantes, fracas (como
o pai de João e Maria, convencido pela mãe a abandonar os
filhos na floresta), ausentes, como o rei em Branca de Neve; a figura masculina
recorrente pode ser a do príncipe que aparece no final da história
e permite que vivam “felizes para sempre”.

Em
outros contos infantis é comum a figura masculina aparecer sob a
forma de um animal. São os ratos que se transformam em elegantes
cocheiros em Cinderela, o príncipe arrogante que é transformado
em fera monstruosa na Bela e a Fera, o sapo horroroso que vira príncipe.
Nos dramas familiares relatados pela mídia e que supostamente correspondem
a casos da “vida real”, a figura do pai, quando aparece, é a de
um ser que se comporta como animal. Na história de vida de muitas
prostitutas está presente a figura do padrasto, como aquele que
as teria deflorado quando ainda muito jovens. O caso mais recente é
o ocorrido na Áustria, em que um homem mantém por mais de
20 anos sua filha encarcerada no porão de sua casa, tendo concebido
7 filhos nesta relação incestuosa.
Uma
das grandes contribuições da antropologia de Lévi-Strauss
foi a de ter apontado para a proibição do incesto como o
modo de se pensar teoricamente a passagem da natureza para a cultura e
a possibilidade da troca como motor da vida social. Casar fora para não
morrer dentro, como dizia ele. Apenas os animais desconhecem a importância
da observação do tabu do incesto.
Por outro lado, é de se perguntar
como todas estas histórias, que envolvem um pai ou padrasto que
age como um ser que desconhece as regras básicas da vida humana,
são possíveis sem a participação de uma mãe
omissa. Seja como vítimas, seja participando destes dramas no papel
de mulheres omissas, que alegam desconhecer aquilo que ocorre no espaço
em que vivem, seja como as grandes vilãs, são as mulheres
as protagonistas destas tragédias que a todos comove e mobiliza.
Tragédias em que, ao contrário do que ocorre nos contos infantis,
não há final feliz. Talvez devêssemos pensar mais a
fundo sobre isto.
Sylvia
Caiuby Novaes é antropóloga, Professora Associada no
Departamento de Antropologia da USP.
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