esta
segunda etapa pelo cerceamento ou extinção do passe a proposta
na forma de uma resolução, que somente complementaria a Lei
Zico (8.672), era transformada em um projeto de lei, o que demandava um
percurso maior, e portanto com mais possibilidades de ser remodelada pelos
interesses em conflito a medida em que deveria percorrer os trâmites
legais mas sujeitos aos imponderáveis de qualquer projeto de lei
dentro do poder legislativo.
ncaminhado
para a câmara dos deputados, tramitando entre setembro a dezembro,
sofreria várias alterações e seria aprovado em dezembro
e em fevereiro de 1998 o senado o mesmo ocorre no Senado federal, sem emendas,
o que não possibilitou o retorno do projeto à Câmara.
No dia 24 de março, por meio de vetos presidenciais intensamente
negociados, 17 no total, ficaria determinado que o passe expiraria em três
anos, e não mais em dois anos como previa o projeto original, e
mais: "o lobby formado pelos clubes e federações já
estava conformado com o fim do passe, mas queriam ter direitos sobre o
jogador por cinco anos. No entanto, o presidente vetou o artigo e os clubes
só terão direitos sobre o atleta no primeiro contrato profissional,
que não poderá durar mais do que dois anos" (Lance, 25.03.1998).
o
entanto, extrapolando as querelas jurídicas e as formas e contornos
da lei, muitos colocariam em dúvida também as qualidades
pessoais do próprio ministro na condução do processo.
Numa matéria em que vislumbrava os riscos de a proposta ser pulverizada
pelos políticos e dirigentes, aliás muitos com forte ascendência
sobre o congresso legislativo, alguns ocupando mandatos eletivos, assim
comentava o cronista esportivo José Geraldo Couto, numa matéria
intitulada "lei do passe corre o risco de acabar em pizza": "meu engano,
como o de tantos outros otimistas, foi acreditar que Pelé, por ter
sido um ser sobre-humano dentro de campo, poderia sê-lo também
fora dele. Só assim teria condições de enfrentar essa
rede de intrigas que paralisa a organização do nosso futebol"
(Folha de S. Paulo, 19.09.1996).
próprio Pelé reconhecia suas limitações, frutos
de um ascetismo profissional e de uma trajetória marcada pelo individualismo
técnico e ideológico:
"quando
eu era jogador, só me preocupava com minha performance em campo,
não sabia o que fazer fora. Hoje me arrependo disso (...) O Afonsinho
teve vários problemas quando ganhou na justiça o passe livre,
foi boicotado, pediu minha ajuda, mas na época eu fui meio covarde"
(Folha de S. Paulo, 12.11.1996).
fim do passe, no entanto, articulado principalmente à falta de experiência
de muitos jogadores em negociar seus próprios contratos de trabalho,
desigualdades técnicas num universo muito competitivo, imprevistos
de uma carreira profissional peculiar marcada por contusões e términos
precoces de muitas carreiras tem trazido mais à tona a figura do
procurador-empresário, grande captador e beneficiário das
transações no futebol.
inda
em 1996 um articulista antevia: "jogadores mal orientados, a exemplo das
empresas mal geridas, que se desintegraram na nova economia, serão
obrigados a trocar de profissão se quiserem sobreviver" (Fabio Bouéri,
A Gazeta Esportiva, 15.09.1996). Tais dúvidas separaram os jogadores:
"A lei é ruim para quem não está em evidência.
Será difícil para esses jogadores acharem um clube para jogar
(Válber, à época zagueiro do São Paulo Futebol
Clube) ou, demonstrando mais otimismo, "(...)A liberdade de escolher onde
jogar é mais importante do que qualquer outra vantagem" (Djalminha,
à época meio campista da Sociedade Esportiva Palmeiras) (Folha
de S. Paulo, 29.09.1996).
uma
matéria intitulada "Filho de Pelé não é beneficiado
pela lei", o jornal Folha de S. Paulo apurou que Edinho, primeiro filho
de Pelé, à época goleiro do Santos Futebol Clube,
não seria beneficiado com a resolução devido sua precoce
independência em relação a lei do passe:
"O
contrato do Edinho com o Santos vence em dezembro. Mas, desde que chegou
ao clube, em 1991, ele é dono do próprio passe. 'Nunca fui
vinculado a clube nenhum', disse Edinho (...) Ninguém poderá
dizer que Pelé advogou em causa própria" (Folha de S. Paulo,
22.09.1996).
e
todo o modo, a lei Pelé acabou regulamentada em 1998, extinguindo
o instrumento contratual do passe (artigo 39), que deixou de vigorar em
2000. No mesmo dia em que foi regulamentada, 29 de abril, Pelé pedia
a exoneração do cargo de ministro e o próprio ministério
extraordinário dos esportes era extinto, ficando as questões
concernentes ao esporte de alçada do Ministério da Educação
e do Desporto. Dias antes da tomada da decisão, alguns colunistas
já faziam um balanço crítico de sua gestão
e viam com certo ceticismo a simples extinção do ministério,
olhando com uma nostalgia ainda precoce a atuação de Pelé
na administração direta. Como que reunindo novamente os vários
Pelés em torno da difícil tarefa de reestruturar o futebol
brasileiro, assim resumia, de modo mais otimista o colunista Juca Kfouri:
"(...)
deve-se dizer que nunca existiu um ministério extraordinário
propriamente dito, mas sim um ministro extraordinário. Tão
extraordinário que, como tal, é mesmo impossível substitui-lo"
(Folha de S. Paulo, 12.04.1998).
dos
mil corpos de um rei
imos
neste ensaio algumas dimensões interdependentes em torno das representações
de corporalidade em Pelé. Os papéis sociais atados e justapostos
que compõem a sua pessoa, circunscritos aqui num continuum delimitado
pelas esferas do privado e do público, evocaram a centralidade
com que esse notório atleta assumiu no imaginário social
brasileiro, da condição étnica à nação
representação do corpo de Pelé como sede e suporte
físico ideal para a aptidão futebolística, tão
preeminente em algumas falas, tais como a do preparador Julio Mazei, para
quem em seu corpo abrigavam os maiores atributos fenotípicos que
estariam, até mesmo, para além das determinações
"raciais", transfigura-se em qualidades e valores inerentes à sua
alma, denotando uma personalidade extra série, como pudemos observar
nos comentários do jornalista Juca Kfouri, exultante ao definir
o papel sobretudo moral (mais do que propriamente ideológico) de
Pelé frente ao Ministério extraordinário dos Esportes.
E todas essas falas, mais do que opiniões subjetivas a seu respeito
e longe de afastar-nos da melhor compreensão que se poderia elaborar
de um "verdadeiro" Pelé estão alicerçadas em construções
mentais, quer dizer, representações coletivas calcadas em
séries de fatos normais que perpetuam a reconstrução
de sua pessoa. As apropriações de seu corpo por segmentos
da sociedade acabaram por fabricá-lo, moldando-o simbolicamente
em torno da noção de singularidade, representação
cara ao futebol brasileiro tomado como totalidade. Totalidade que, num
nível hierárquico superior, identifica-se a uma das suas
partes, ou seja, à forma-representação denominada
de futebol-arte, em contrariedade ao futebol-força que, com mais
freqüência, situa-se num nível inferior dos valores partilhados
em torno das formas de jogar no Brasil. Todavia, devemos estar atentos
para o fato de que a categoria futebol-arte não deve ser percebida
como uma forma-representação homogênea, consensual
e que aplacaria no domínio esportivo nossas contradições
sociais, idéia mais ingênua propagada do futebol brasileiro.
Futebol-arte, incorporado aqui em Pelé, poderia ser pensado menos
como um fenômeno substantivo, portanto sujeito às mesmas lutas
sociais que mobilizam o processo identitário nacional que
suporta e supõe contradições.
m
outros termos, a fabricação de um ídolo como Pelé
leva em conta alguns dos dilemas que sustentam a moldura sociocultural
brasileira dada por uma síntese estrutural hierárquica que
sugere o modo como navegamos socialmente, individual ou coletivamente,
entre as dimensões do público e do privado, esferas que não
podem ser vistas nem como autônomas, tomadas como dicotômicas,
sequer amalgamadas e determinadas pela noção unívoca
de indivíduo como medida de todas as coisas (do todo social), tal
como presenciamos em outros domínios culturais. Desse modo, Pelé
não pode ser apropriado simplesmente como um herói idealizado,
ao menos no sentido mais usual que se empresta ao termo, ou seja, como
portador de qualidades excepcionais que o levariam à noção
mais estrita de um indivíduo imaculado, próxima, digamos
assim, às representações em torno do super herói
norte-americano, pois não é exatamente somente como indivíduo,
ou um "super indivíduo" que ele é reconhecido e idolatrado
no Brasil, pois está enredado a uma trama de relações
que o constrói permanentemente como pessoa pública para além
das molduras psíquica e jurídica que asseguram o reconhecimento
nos planos subjetivo e formal de sua individualidade .
Tal fato pôde ser notado no fracionamento hierárquico de nomes
que se impuseram a Pelé a partir dele próprio e das situações
sociais concretas observadas nalguns dos fragmentos biográficos
aqui apresentados e pensados como partícipes de estruturas relacionais.
Sua identidade pessoal e imagem pública operam numa chave hierárquica
agenciada por vários grupos e segmentos sociais: família,
políticos, torcedores, especialistas da crônica esportiva,
intelectuais, artistas. Assim, "negrão", "fera", "gasolina", "dico,
"edson", "rei" e tantos outros nomes remetem a um jogo multipolar de identidades
que descortina, digamos, o modus operandi de toda uma cultura, tal como
nos evidenciam as contribuições mais decisivas do antropólogo
Roberto DaMatta (1979), inspirado numa leitura "dumontiana" do fenômeno
da hierarquia .
elé
não é uno, mas múltiplo. Não porque abriga
séries incoerentes ou fragmentos de uma personalidade dilacerada,
mas porque sua persona é, digamos, exagerada e levada, no plano
simbólico, a ocupar várias posições hierarquizadas
e hierarquizantes ao mesmo tempo. A esfera de relações e
interdependência as quais esteve e está enredado permite que
desvendemos alguns dos aspectos balisadores de uma cultura marcada por
um processo complexo de construção da identidade. Nesse sentido,
Pelé é ídolo e não é, é extra
série e medíocre, coerente e incoerente, perspicaz e ingênuo.
individualismo manifestado pelo seu desempenho esportivo em campo foi acolhido
festivamente como uma singularidade, forma social que em grande medida
amortizou alguns dos aspectos e valores socialmente mais reprovados da
sua conduta fora dos gramados. Já o individualismo cultivado na
vida pública como político e empresário foi tomado
como uma representação de forte apelo instrumental, egoísta
e oportunista ou, no mínimo, sem o consenso esperado por aqueles
que só viram nele a figura de um herói genérico. Mas
a sua tardia tomada de posição em relação aos
temas do racismo e do profissionalismo esportivo (a lei do passe) igualmente
mereceram da parte de seus "súditos" toda a sorte de críticas,
restrições, senões e ressalvas.
emos
atuar em Pelé pelo menos duas modulações de individualismo
mantidas por uma assimetria de valores que, para além da sua pessoa,
é constitutiva do próprio sistema social que o gestou. E
isso não faz dele um esportista menos admirado pois, ao reviver
em si mesmo a mitologia nacional da ambivalência entre público
e privado, indivíduo e pessoa, individualismo e holismo, particularismo
e universalismo, dimensões caras ao universo relacional brasileiro,
tornou-se uma síntese das mais significativas para se pensar muitos
dos aspectos da cultura brasileira .
Originalmente
publicado em Julio Garganta & José Oliveira & Mauricio Murad
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desporto mais popular do mundo. Porto, Campo das Letras, 2004.
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Notas
Os itálicos Fera e Negrão são meus.
Pelé é o inventor de um estilo de comemorar a feitura dos
gols amplamente repetida até hoje por milhões daqueles que,
dos jogos de várzea improvisados aos gramados do futebol profissional,
experimentam a catarse desse momento. Trata-se, como se sabe, de uma impulsão
frenética deslocando o corpo do chão para o alto, gesticulando
a mão cerrada em punho como se estivesse golpeando várias
vezes o próprio ar.
Cf. A Gazeta Esportiva de 10.10.1997.
A propósito da eficácia social das relações
hierárquicas no Brasil consultar os trabalhos do antropólogo
brasileiro Roberto DaMatta (1979, 1982).
Como aponta toda uma vasta produção intelectual brasileira,
a propósito consultar a bibliografia. No que se refere ao fenômeno
Pelé há um déficit considerável de análises
desse gênero, cabendo aos biógrafos, jornalistas, poetas,
músicos estabelecer a sua importância na cultura brasileira.
Esporte bretão consiste numa expressão ainda utilizada no
Brasil para sinalizar a origem inglesa do referido esporte.
As especulações em torno dos gols que não possuem
registros visuais volta e meia acendem as polêmicas futebolísticas.
Lembro-me ouvir contarem sobre um famoso gol antecedido por vários
chapéus consecutivos (jogada em que o adversário é
superado pelo movimento elíptico da bola por cima de sua cabeça)
na linha adversária (conjunto de jogadores da defesa), que tentava
tomar a posse de bola, mas que acabou no fundo do gol. Imagens que não
vimos, mas que se perpetuam no imaginário social.
Nas suas palavras, antecipando uma nova era para o futebol brasileiro com
a presença de Pelé, vaticina: "Por que perdemos, na Suíça,
para a Hungria? Examinem a fotografia de um e outro times entrando em campo.
Enquanto os húngaros erguem o rosto, olham duro, empina, o peito,
nós baixamos a cabeça e quase babamos de humildade. Esse
flagrante, por si só, antecipa e elucida a derrota. Com Pelé
no time, e outros como ele, ninguém irá para a Suécia
com a alma dos vira-latas [no Brasil, cachorro sem pedigree]. Os outros
é que tremerão diante de nós (Minha personagem da
semana, Manchete Esportiva, março de 1958)
Milhões, sobretudo aos finais de semana, praticam algum futebol
pelo Brasil. As modalidades populares ganham uma dimensão e importância
cruciais na sociabilidade e nas formas de entretenimento. Em cada região,
praticamente, inventa-se uma maneira e um nome para essas práticas
não profissionais do jogo. No caso, "pelada" consiste numa denominação
para esse futebol amador, muitas vezes improvisado e jogado num campo sem
grama e marcações precisas, mas que muitos consideram uma
etapa importante no aprendizado da prática.
Na legenda de uma foto publicada no jornal OESP, em que aparece com a parte
posterior do uniforme toda recoberta pela lama do gramado, lê-se:
"O uniforme sujo de barro: além da genialidade, jamais faltou valentia"
(OESP, 27.10.1990).
Por forma-representação compreendo a síntese entre
as formas de jogo, ou seja, as configurações de jogadores
organizados em campo, pondo em movimento as técnicas individuais
e coletivas, muitas vezes expressas em codificações (4-3-3;
4-2-4; 3-5-2 etc.) somadas às ideações que, num nível
simbólico, adquirem uma certa autonomia no plano representacional,
permitindo que uma coletividade se reconheça como dotada de um determinado
estilo dentro de um campo semântico em que várias formas-representações
se confrontam, por exemplo, futebol-arte, futebol-força, futebol
à brasileira, futebol à italiana, futebol argentino etc.
(Toledo, 2002).
Décio de Almeida Prado foi um reconhecido intelectual e um dos maiores
críticos teatrais do país.
Ronaldo passou por alguns dos mais festejados times europeus, tais como
o PSV holandês, o Milan italiano e o espanhol Real Madrid.
Que virão somar-se às contribuições mais decisivas
já existentes, tais como Guedes (1977), DaMatta et al (1982), Murad
(1994), Leite Lopes (1997), Pereira (2000), entre outros.
Aliás, inventor do chute denominado de "folha seca". Para uma análise
dos significados simbólicos em torno da carreira desse outro esportista
negro consultar Toledo (2003).
Rol de jogadores excepcionais que poderia ser estendido e multiplicado
muitas vezes, mas listo apenas alguns por uma mera questão de espaço.
Alguns esclarecimentos: Paulo Mendes Campos chama Garrincha pelo prenome
futebolístico, Mané. O jogador Moacir, citado no poema, ficou
famoso por disputar com Didi, maior jogador na copa de 1958, um lugar na
seleção brasileira. A expressão "joão de seu
Mané" refere-se aos adversários, chamados por Garrincha indistintamente
de "joões" (sic), numa alusão à fragilidade com que
eram driblados e batidos em campo. "Pau Grande" é a localidade onde
nasceu e cresceu Garrincha; Santos é uma cidade litorânea
do Estado de São Paulo, conhecida pelo clube de mesmo nome que revelou
Pelé para o mundo e Botafogo (de Futebol e Regatas) é um
dos times mais tradicionais do futebol carioca e brasileiro.
Júlio Mazzei foi preparador físico de Pelé no Santos
Futebol Clube e no time norte-americano Cosmos.
Ano de realização da Copa do Mundo na Inglaterra, vencida
pelo país sede. O Brasil se desclassificou logo na primeira etapa,
Pelé teve uma atuação discreta, saindo contundido
num jogo disputadíssimo em que os brasileiros foram derrotados
pela seleção de Portugal, que à época detinha
um excelente time, com jogadores do porte de Euzébio, considerado
por muitos uma espécie de Pelé português.
Pagão foi jogador do Santos Futebol Clube e formou um ataque que
ficou conhecido como "três pês": Pelé, Pagão
e Pepe. Canhoteiro foi um ponta direita muito habilidoso e jogou nos anos
sessenta no São Paulo Futebol Clube.
A relação cambial estava 1:5, ou seja, um dólar para
cada cinco cruzeiros, portanto cerca de 375000 cruzeiros.
Lembrar que o país estava, à época, sob um regime
de exceção política autoritário, conhecido
pela expressão ditadura militar.
Preconceito de marca é uma síntese conceptual oferecida por
Oracy Nogueira em importante trabalho de 1955, citado na bibliografia.
A propósito consultar Cavalcanti (1999) e Queiroz (1996).
A destacar Paulo César Caju, notabilizado pelo seu futebol elegante
mas também pela postura crítica em relação
às soluções encontradas pelo preconceito de marca
na sociedade brasileira. Aplaudido nos espaços dos gramados freqüentemente
viravam-lhe às costas nos espaços predominantemente ocupados
por setores da elite, tais como alguns refúgios balneários
e praias cariocas . A propósito ver Toledo (2003).
Bicho é o nome da gratificação por jogo ganho e, gratificação
independente do salário do jogador. Em certa medida, uma forma de
remuneração que pode ser considerada resquício do
amadorismo, uma vez que seu forte caráter informal atrelava ainda
mais os jogadores aos dirigentes. Hoje, tais gratificações
são coletivamente discutidas e convivem com outras formas mais profissionais
e racionalizadas de ganho, tais como o direito de imagem.
grifo meu.
Mas é interessante como no Brasil dizemos que temos dois reis, Pelé
e Roberto Carlos, cantor e compositor muito popular que, no domínio
da canção, leva o título de rei. Isso sem falar na
imagem do rei momo, figura notável no imaginário carnavalesco
nacional. Fatos que denunciam nosso apreço por uma ordem social
e moral mais hierárquica.
Apenas para se ter uma pálida compreensão do estado de ânimo
que dominava parte da imprensa em relação a esse assunto,
um conhecido jornalista esportivo brasileiro, Armando Nogueira, denunciava
em sua coluna "Na grande área", veiculada em alguns jornais do país,
a postura dos dirigentes esportivos que perpetuavam o "mais popular e retrógrado
dos esportes" com um artigo que ostentava o retumbante título Escravocratas,
sim senhor. (OESP, 22.09.1996).
Rezava a lei que o passe era propriedade dos clubes, desde que não
fossem adquiridos pelos atletas. A partir de 28 anos, os jogadores passariam
a ter porcentagens e aos 32 anos tornariam-se donos de seu passe. "O passe
é o direito de transferência. Em poder dos clubes, o jogador
é propriedade do clube" (Folha de S. Paulo, 19.09.1996)
O "caso Bosman" foi repetidamente mencionado durante todo esse processo,
os jornais reproduziram a saga do jogador belga em inúmeras edições,
mostrando, por comparação, ser possível alterar a
estrutura do futebol brasileiro: "O atacante belga Jean-Marc Bosman levou
cinco anos para conseguir se livrar do clube RC Liège, que detinha
o seu passe. Em 1990, ele entrou em litígio com os diretores, quando
lhe propuseram um salário 75% menor do que o anterior. Tentou ir
para a frança e foi proibido. Foi à justiça e ganhou
em várias instâncias a ponto de a UEFA lhe propor US$ 1,4
milhão por um acordo. Obteve a vitória final em novembro
de 1995. A decisão da Corte Européia beneficiou todos os
jogadores 'comunitários'" (Folha de S. Paulo, 01.09.1996). O jogador
esteve no Brasil e conheceu Pelé num seminário internacional
sobre a lei do passe, ainda em 1996, patrocinado pelo jornal O Estado de
São Paulo.
Para uma análise dos significados em ser uma celebridade no contexto
esportivo (em contraposição a outras esferas, tais como a
artística) e no interior da sociedade brasileira consultar Helal
(2003).
Remeto o leitor ao ensaio sintético de Leirner (2003) sobre os termos
holismo e individualismo desenvolvidos pelo antropólogo Louis Dumont.
Por fim, aproveito esta última nota para dedicar esse ensaio a alguns
amigos e colegas interlocutores e inspiradores: os antropólogos
José Guilherme Magnani, Piero de Camargo Leirner, Roberto DaMatta,
Simoni Guedes e o sociólogo Mauricio Murad. Mais especificamente
ao Roberto e ao Piero pelas leituras atentas e críticas valiosas
que fizeram de versões anteriores.
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