árias
são as chaves conceituais para se pensar o preconceito no Brasil,
mas uma parece particularmente interessante para dar conta sobretudo dessas
formas mais internalizadas no domínio da sociabilidade e do decoro
social - dimensões que igualmente definem o esporte e que
oferecem alguma medida para se compreender a conduta resignada de Pelé.
eproduzo,
para generalizar, algumas considerações que importantes autores
fizeram sobre as características daquilo que é definido
na literatura sociológica brasileira por "preconceito de marca":
"a identificação de um indivíduo quanto à cor
[pode ser] influenciada pela associação com outras características
de status, como o grau de instrução, a ocupação
e hábitos pessoais, com tendência a se atenuar a cor de indivíduos
socialmente bem-sucedidos" (Nogueira apud Cavalcanti, 1996:18) .
E como expus alhures, o preconceito de marca consiste num
"Mecanismo
muitas vezes sutil de externar formas de preconceito, identificado como
definidor de uma auto percepção coletiva perversa de nossa
estrutura social, no "preconceito de marca" são veiculados valores
e ideologias de uma hierarquia rígida e tradicional somados à
estratificação moderna, cuja ideologia da mobilidade de alguns
indivíduos, mas não da classe ou do grupo de pertencimento,
consiste num valor interiorizado que perpassa toda a sociedade brasileira.
Observa-se, neste sistema, a manipulação muitas vezes escamoteada
de uma condição étnica, de modo a dinamizar um sistema
inclusivo, definido como embranquecimento social e simbólico, a
partir da maior visibilidade e mobilidade dos "jogadores de cor", que confirmaram
dentro de campo níveis de excelência até então
inéditos quanto aos resultados obtidos
(Toledo, 2003).
uitos
atletas negros, Pelé certamente é destaque dessa lista ,
fizeram parte de uma geração de vencedores que reascenderam,
ao assumir posições distintivas no cenário futebolístico,
novas modalidades de se externar o preconceito no universo esportivo. Pois,
a condição social de origem desses jogadores, muitas vezes
determinada de modo metonímico pela cor, revelava, aos olhos de
muitos que os cercavam e admiravam, um processo de embranquecimento simbólico,
todavia desigual e condicionado pela maior ou menor competência técnica
futebolística. Enquanto alguns optaram, para além do uso
do talento dentro de campo, pelo confronto ideológico explícito,
outros buscaram a via mais individual do ascetismo profissional como estratégia
de inserção social, via certamente trilhada por Pelé
e outros. Mas, de qualquer modo, todos vítimas de um mesmo mecanismo
que justapunha como categorias de acusação as qualidades
morais, condição de classe e atributos étnicos.
excerto de uma entrevista dada a revista Realidade concedida por Paulo
Machado de Carvalho, popularizado como a insígnia de "marechal da
vitória", pois foi o dirigente chefe da delegação
brasileira que disputou e venceu a Copa de 1958, é elucidativo desse
paternalismo de classe amalgamado a nomenclatura racialista impregnada
no discurso do senso comum que carrega, certamente, as marcas da evitação
e do preconceito, ainda que as relações pessoais estabelecidas
ocorram num plano de cordialidade:
"os
jogadores são muito simples, impressionáveis e mais ou menos
fáceis de manobrar psicologicamente. O Pelé, por exemplo,
é um homem extraordinário, o mais belo caráter que
encontrei em toda a minha vida. Ele era um menino de 17 anos em 1958. Na
Suécia, após as nossas vitórias, eu entregava o bicho
a todos os jogadores menos a ele .
Ele me perseguia pela concentração reclamando: - E o meu,
dr Paulo? E eu lhe dizia: - Você ainda não sabe gastar dinheiro
macaquinho .
Fica prá lá. Amanhã nós vamos passear em Estocolmo
e eu vou ajudá-lo a gastar o seu dinheiro. Ele não agüentava
de impaciência quando no dia seguinte a gente saía. E eu o
fazia primeiro comprar um belo presente para a sua mãe (...) E ele
comprava malhas e vestidos para dona Celeste. Só depois do presente
eu entregava o resto da gratificação de Pelé" (Realidade,
julho, 1966:29).
utro
fator que se soma às nuanças (e armadilhas) do fenômeno
do preconceito de marca pode ser observado na biografia de Pelé,
ausente no conjunto de outros jogadores negros. Se constatamos o processo
de embranquecimento social como uma das forças motrizes de ocultamento
ou amortecimento do racismo, uma outra vazão ideológica,
a da identidade nacional, também preservou Pelé da contenda
mais acirrada em torno das questões raciais. É como se um
certo consenso simbólico inscrito em seu próprio corpo o
tivesse retirado da arena dos embates étnicos no intuito de preservar
uma representação ainda mais cara, a de um projeto de nacionalidade
acima dos conflitos étnicos latentes.
ovamente,
é a revista Realidade que nos oferece algumas pistas interessantes
nesta direção. Nas edições de setembro de 1969,
julho de 1970 e julho de 1971 a revista trouxe, respectivamente, uma matéria
sobre comportamento e dois ensaios fotográficos tratando da temática
racial, étnica e identitária. A primeira, intitulada "O Sucesso
não tem cor. Exemplos que ilustram este fato: a progressiva ascensão
da comunidade negra em todos os setores profissionais do país",
discorria sobre indivíduos negros bem sucedidos, ocupando estratos
médios da sociedade e algumas das profissões liberais mais
prestigiadas, tais como medicina, advocacia. Pelé não aparece
como exemplo dessa mobilidade social, provavelmente porque não está
na categoria dos profissionais liberais, e a ele são reservadas
outras representações.
o
ensaio fotográfico de 1971, "Os negros são lindos", recorta-se
novamente a sociedade com um similar apelo étnico, só que
enfocando não mais o domínio da competência profissional
mas o universo estético do entretenimento artístico e esportivo,
espaço simbólico em que Pelé poderia estar mais a
vontade para representar a parcela negra da sociedade. Destacava-se na
pequena lista mencionada o artista de teatro, cinema e televisão
Grande Otelo e algumas personalidades do mundo esportivo da época,
Gilson, jogador do selecionado brasileiro de basquete, o jóquei
Machadinho, José Marçal, árbitro de futebol no Rio
de Janeiro e, representando a categoria dos jogadores de futebol, Paulo
César Caju.
á
no ensaio fotográfico de 1970 podia-se ler no título: "Este
rosto você conhece. É um rosto entre oitenta milhões.
É o rosto de um brasileiro". Pelé abre este ensaio sobre
os rostos do Brasil numa imagem "sangrada" de sua face, de modo que até
mesmo pelo formato generoso da revista podemos vasculhar os detalhes de
sua feição. Segue o texto inicial que acompanha o ensaio:
"Não
há rosto mais famoso do que este no Brasil. No entanto, é
um rosto bastante comum, o do senhor Edson Arantes do Nascimento, "Rei"
Pelé. Em toda parte, a cada instante, encontramos rostos assim,
povoando a paisagem humana do país. Com quem se parece o brasileiro?
Com tantos povos, por força da origem, com nenhum outro, ao mesmo
tempo. Este ensaio fotográfico tenta captar, em várias expressões,
a singularidade de nossas própria face" (Realidade, julho, 1970).
nteressante
salientar que a ausência da imagem de Pelé nas primeiras matérias
citadas, que tiveram como mote o universo mais elitizado de brasileiros
negros, contrasta vivamente com as representações da terceira
matéria que o conformam às múltiplas origens étnicas
da nação. É como se em seu rosto estivessem
definidos os traços essenciais que estabelecem a identidade "corporal"
nacional, oferecendo uma forma mais definida ao rosto genérico do
brasileiro. Na imagem hobbesiana do corpo do rei-nação formado
por todos os indivíduos contemplamos os mil corpos de Pelé.
Imagem que, tal com o poder uno reivindicado pelo filósofo do Estado,
deveria estar acima dos "egoísmos", das frações étnicas,
das classes, das categorias profissionais .
odemos
sugerir, portanto, que a Pelé não está associada uma
identidade étnica propriamente dita, mas nacional. Sequer na matéria
sobre a ascensão social dos negros ele aparece como um exemplo disponível,
embora evidentemente o fosse. Na matéria sobre os esportistas "de
cor" as marcas positivadas da etnia aparecem pronunciadas em outros jogadores
que mais explicitamente posicionaram-se contra o racismo velado no futebol,
tal como era a postura mais altiva de jogadores como Paulo César
Caju. E mesmo quando seu sucesso fora do domínio esportivo, resultado
de uma meteórica mobilidade social, é mencionado, notar que
Pelé é alocado acima do lugar onde estatisticamente está
a maioria dos negros que ascenderam socialmente no Brasil (camadas médias),
ou seja, na esfera dos empreendedores, investidores, empresários,
domínio próprio de uma elite branca.
da
nação incorporada: pelé-ministro e a escravidão
do passe
m
1996, Manoel Tubino, vice-presidente da Fédéracion Internacionale
D' Education Physique (FIEP), ovacionava Pelé a frente do Ministério
"extraordinário" dos esportes, pasta que havia sido recém
criada, em 2 de janeiro de 1995, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso,
na ocasião iniciando seu primeiro mandato (1995-1998), para conduzir
o processo de reformulação no futebol. Mais especificamente,
a missão de reformular as condições de trabalho do
jogador profissional, particularmente no que dizia respeito a nova moldura
institucional sobre o passe, mecanismo abusivo que concedia aos clubes
o direito quase que irrestrito de renovação (ou não)
dos contratos dos jogadores, e que para muitos consistia num instrumento
que reproduzia a "escravidão" no futebol brasileiro. Essas mudanças
traduziriam o que ficou conhecido metaforicamente como a "lei áurea"
do profissionalismo esportivo.
ignificativa
a reformulação ou extinção da lei do passe
ser comparada a "lei áurea", que no plano formal extinguiu, em 1888,
o regime de escravidão no país. Igualmente significativa
a escolha simbólica de Pelé, um afro-descendente bem sucedido
nos negócios esportivos, para promover tais mudanças no domínio
do futebol: "Por uma questão de chance, essa grandiosa e extraordinária
nação, onde coisas boas germinam com mais facilidade que
as ruins, temos um ministro extraordinário dos esportes, que, aos
17 anos, já iniciava uma trajetória lendária, tornando-se
o "Rei do Futebol", e, mais tarde, seria eleito o atleta do século
[séc XX]. Esse rei recebe agora, do destino, a missão de
fazer o seu gol número 2000, resgatando a dívida social acumulada
com a lei do passe no país" (Manoel Tubino, A Gazeta Esportiva,
22.04.1996) .
urante
todo o transcorrer do ano de 1996 houve grande mobilização
pelo encaminhamento do projeto que reformularia os contratos de trabalho
dos jogadores profissionais, ocupando um significativo espaço na
agenda das controvérsias públicas veiculadas na mídia.
A discussão sobre a lei do passe é por demais complexa para
ser tratada aqui, mas podemos afirmar que, de modo geral, se deu num espaço
sociológico do continuísmo e conservadorismo de políticos
e dirigentes do futebol, que obstaculazaram como puderam a promulgação
da chamada "Lei Pelé", somada a apatia e pouca organização
sindical dos jogadores, embora sendo os principais protagonistas dessas
mudanças, ao papel decisivo exercido por boa parte do jornalismo
esportivo, mais ainda, aos projetos modernizantes e desregulamentadores
implementados nos mandatos presidenciais de Fernando Collor de Mello (1990-1991)
e Fernando Henrique Cardoso (1994-2002).
lei do passe, mais especificamente, atrelava os jogadores como se fossem
uma espécie de patrimônio fixo dos clubes, contrariando os
princípios trabalhistas existentes em outras profissões,
daí a analogia com a escravidão. Podemos observar os
passos cronológicos desse processo nas páginas dos jornais
e ofereço alguns desses momentos para que o leitor possa ter uma
noção mais panorâmica dos momentos considerados mais
decisivos entre os quais, herdados por Pelé e sua experiência
administrativa e política de dentro do governo, revelam uma história
de desmandos nas relações trabalhistas no universo esportivo.
Em 1941, pelo decreto 3.199, foi criado o Conselho Nacional de Desportos
(CND), órgão centralizador que legislava sobre as inúmeras
questões referentes aos esportes. Em 1976 é promulgada a
lei que regulamentou a profissão de jogador (6.354, lei do passe).
Segundo a imprensa foi a primeira vez se usou a palavra 'passe' com esse
sentido (artigo 111). Fixava a o passe livre aos jogadores com 32 anos
e dez anos de clube. Posteriormente, em 1993, a lei Zico (8.672) estabeleceu
que o valor, forma e pagamento na negociação do passe deveriam
ser reguladas pelo INDESP (Instituto nacional de Desenvolvimento do Desporto,
autarquia presidida pelo ministro responsável), e que o vínculo
empregatício se daria durante a vigência do contrato de trabalho .
m
5 de abril de 1996 o ministro Edson Arantes do Nascimento divulga proposta
de resolução para alterar a regra do passe, que redefinia
os limites contratuais de forma gradual, de 26 anos (já em
1o de janeiro de 1997) a 24 anos até o ano de 1999, em contraste
com a situação européia posterior ao caso do jogador
belga Jean-Marc Bosman, que criara a jurisprudência na revogação
de quaisquer limites. (Folha de S. Paulo, 1.09. 1996 ;
A Gazeta Esportiva, 22.09.1996) . As alterações no passe
ocorreram na forma de regulamentação e no interior da "lei
Zico", de 1991. Lei que levava o nome de outro jogador muito conhecido,
de reconhecida visibilidade em selecionados brasileiros e que ocupou a
secretaria dos esportes do Ministério da Educação
e do Desporto na gestão de Fernando Collor de Mello.
publicação da resolução de Pelé seria
seguida por outra batalha dos lobbies dos dirigentes que, entre outras
coisas, propunham que tais propostas obedecessem uma transição
mais gradual, por exemplo, contemplar uma carência de três
anos para a efetuação da nova lei e que a idade mínima
para liberar os jogadores dos clubes fosse de 28 anos, e não 26,
como prevista na proposta original. Acabou estabelecido, em 23 de outubro
de 1996, a seguinte configuração da resolução:
passe livre se tivesse 27 anos em 1998, desse modo, os dirigentes conseguiram
ao menos um ano de carência, e gradativamente, 26 anos em 1999 e
25 anos em 2000. Mas dada a complexidade dos interesses envolvidos tal
resolução entrava nos caminhos sinuosos das querelas de um
formalismo jurídico que impediria sua execução. O
caráter alegado de inconstitucionalidade, uma vez que se sobrepunha
a então vigente lei do passe, de 1976 e à própria
lei Zico, fez com que clubes e federações descumprissem ou
burlassem tal resolução. Em meio a uma onda de irregularidades
que tornavam públicas denúncias comprometendo o principal
órgão dinamizador dos projetos do ministério extraordinário,
o INDESP, a extinção do passe somente ganharia discussão
mais consistente na agenda nacional na forma de um projeto de lei, enviado
ao congresso em agosto de 1997. 
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