PELÉ: OS MIL CORPOS DE UM REI - Luíz Henrique de Toledo

 

continuação
 
 

mbora muitas dessas jogadas e dribles (chilenas, elásticos, bicicletas, pedaladas...) não tenham sido propriamente "inventadas" por jogadores brasileiros, foram, contudo, respaldadas por uma moldura simbólica que, antes de mais nada, as reivindicam como um devir esportivo. Portanto, é o aspecto da singularidade que parece qualificar em maiores proporções o domínio do jogo no Brasil e, dessa forma, Pelé não poderia fugir à regra, sendo ele mesmo um dos ápices dessa busca contínua pela singularidade. Em outras palavras, aqui a singularidade (individualidade) pode ser também percebida como uma escolha, ainda que não planejada, de um devir ou valor que anima e perpassa as representações dos mais diversos atores que interferem, de algum modo, nas definições de futebol-arte. 
 
essa forma, a singularidade é desejada, reivindicada, inventada, e não deve ser compreendida somente como obra do acaso histórico, do imponderável e da presença inusitada da subjetividade, pois é alvo da especulação continuada que domina a esfera do cotidiano, da fala dos torcedores às análises dos cronistas esportivos, movimentando toda uma coletividade. Não por mera coincidência vê-se, de geração em geração, a crônica esportiva anunciar a sucessão da coroa de rei a jogadores que começam a se destacar: Antes mesmo de Pelé, Leônidas já foi considerado rei, mais nos anos sessenta tivemos Coutinho rivalizando com Pelé, e que teve precocemente o cetro de rei nas mãos; nos anos setenta, Paulo César Caju, que atuou nos clubes cariocas, também foi considerado seu sucessor "natural"; mais atualmente o próprio Robinho, outro jogador santista, foi vítima do peso da comparação desmesurada. Mas não poderíamos ver nessas investidas uma busca desesperada pelo exclusivismo e por um novo Pelé, como manifestação de uma nostalgia por craques excepcionais? Creio que não, e o contrário parece mesmo mais próximo de um juízo sociológico, correspondendo a dinâmica da busca pela singularidade na abundância e normalidade dos fatos e não na escassez desses. Singularidade que melhor se manifesta num contínuo jogo contrastivo, tal como revelou o poeta e escritor Paulo Mendes Campos em inspirada percepção que, dialeticamente, faz conspirar singularidade e estilo coletivo de jogo:

 
Bailando sem jogar, gemia o Macalé: - "Quem me dera que fosse o preto Moacir, que vive no Flamengo, estrela a reluzir!" Mas a estrela, fitando em Santos o Pelé: -"Pudesse eu copiar o bom praça de pré, Uma cobra que jamais encontrará faquir, Sempre a driblar, a ir e vir, chutando a rir! Porém Pelé, fitando o mar sem muita fé: - "Ah se eu tivesse aquela bossa de tourada. Que faz de qualquer touro o joão de seu Mané!" Mas o Mané deixando, triste, uma pelada: - "Pois não troco Pau Grande por Madri, Pelé, E mesmo o Botafogo muito já me enfada...Por que não nasci eu um simples Macalé?" (Paulo Mendes Campos, Círculo Vicioso, 2000[1959]) .

 
omo, entretanto, em Pelé, amplificou-se o fenômeno social da singularidade? Alguns exemplos são reveladores dessa investida: torcedores, especialistas do jornalismo, profissionais do universo esportivo, intelectuais, artistas, enfim, muitos indivíduos, a partir do lugar social que ocupam, arriscaram uma definição do estilo praticado por Pelé e, por extensão, do futebol à brasileira. 
 
uitas vezes é a confirmação de uma expressão apolínea que se destaca nas representações em torno de seu estilo de jogo, tal como se nota na fala do preparador físico Júlio Mazei , entrevistado pelo médico e escritor Roberto Freire para a revista Realidade, em novembro de 1966 , e para quem tal singularidade pode ser notada a partir do plano corpóreo e fisiológico. Misturando um certo cientificismo, determinismo biológico racista, aspectos étnicos e o individualismo como valor, Mazei deixa entrever sua representação de Pelé na entrevista: 

 
"'Pelé tem de nascença uma musculatura excepcional. Seus músculos locomotores são extremamente desenvolvidos e possui poderosos glúteos, lombares e abdominais. Aliás, deve isso à raça negra; porém, mesmo entre os negros, raros foram tão bem dotados fisicamente para a prática do futeból. Mazei lembra ainda outra particularidade importante dos negros: tem o osso calcâneo mais alto do que o dos brancos, o que lhes obriga a uma inclinação maior para a frente e favorece o desenvolvimento da velocidade. Por essas razões explica a elevada porcentagem de negros no futebol brasileiro: 70 por cento, entre os profissionais  (...) A gente tem a impressão de que ele vê mais do que os outros jogadores. E vê mesmo - afirma Mazei - já que tem uma visão periférica fora do comum, isto é, tem capacidade de ver mais e melhor lateralmente, já espantou muito oftalmologista" (Julio Mazei apud Roberto Freire, Realidade, 1966:42).

 
em polemizar com Mazei, e imprimindo um tom mais subjetivista à definição do estilo de Pelé, o mesmo psicanalista, Roberto Freire, ainda nesse texto, busca num exemplo mais fenomenológico uma opinião suplementar,

 
"(...)durante alguns minutos [de um jogo que acompanhou para a realização da entrevista citada] tenho a impressão de que Pelé, lá no meio de campo, assiste ao jogo como eu. Estuda de perto o jeito de seu marcador, sem disputar bola com ele. Quando recebe, passa logo, sempre atento aos movimentos dos jogadores adversários. Mas, em seguida, vejo-o atraí-los, driblá-los, enganá-los com enorme facilidade (...)" (Roberto Freire, Realidade, 1966:39).

 
utros autores como o já citado intelectual Décio de Almeida Prado evocam a singularidade no justo contexto de uma tradição. No fragmento abaixo, extenso porém necessário transcrevê-lo por inteiro, dá as medidas excepcionais do futebol de Pelé e expõe a expectativa que, coletivamente, anima toda uma cultura esportiva: 

 
"Há jogadores de inteligência e jogadores de físico, jogadores cerebrais e jogadores musculares. Jogadores elegantes e jogadores efetivos. Jogadores clássicos e jogadores de improvisação. Jogadores que preparam e jogadores que concluem. Pelé é a síntese improvável de todas essas qualidades contrárias. É perfeito em tudo: velocidade; força; coordenação de movimentos; cálculo do tempo e do espaço; visão global do campo; antecipação da jogada adversária; combatividade; inteligência; coragem (...) Como Leônidas, Pelé era capaz de driblar valendo-se unicamente da inteligência (inteligência futebolística, bem entendido), ao deixar de fazer o que os outros (...) esperavam dele. A maioria dos jogadores só consegue perder tempo quando pára a bola com o objetivo de pensar. Alguns poucos ganham sempre com essa interferência do pensamento, até mesmo quando para isso não necessitam de interromper a jogada (...) e nesses pequenos milagres de lucidez, de coordenação integral entre espírito e corpo, o futebol revela a sua mais alta natureza, também de cosa mentale, como Leonardo da Vinci desejava que fosse a pintura" (Almeida Prado, 1997[1970]:201; 221).

 
ais ainda, nos últimos versos da já citada canção Futebol, o compositor Chico Buarque de Holanda também apercebe-se da forma social da singularidade ao cantar uma linha de passes que, ao final, sugere a iminência do gol: "Para captar o visual, de um chute a gol. E a emoção. Da idéia quando ginga. Para Mané Para Didi Para Mané para Didi para Mané Para Didi para Pagão para Pelé e Canhoteiro.

 
 

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ão somente ao futebol Pelé emprestou seu corpo privilegiado. Alvo de uma exposição intensa na mídia desde o início da carreira foi agenciado pelo próprio pai como garoto propaganda de uma aguardente, mas logo perceberia que não poderia vincular sua imagem de atleta a uma bebida alcoólica, recusando até mesmo um contrato publicitário, ainda em 1966 nos EUA, para posar para fotos de uma marca de uísque, que lhe renderiam 75000 dólares . Seu corpo vagou pela sociedade em imagens reproduzidas à exaustão nos jornais, revistas, televisões, banners nas esquinas, cartazes fixados nos ônibus, outdoors pelas vias públicas, placas nos edifícios, figurinhas, decalques e histórias em quadrinhos infantis. 
Suas formas físicas puderam ser multiplicadas e transfiguradas também no universo simbólico do consumo das mercadorias, fixando, numa estratégia de marketing até então sem precedentes no mundo esportivo brasileiro, inúmeras marcas e produtos. Numa matéria futurista de janeiro de 1971, intitulada "1990: uma grande indústria chamada Pelé", a revista Realidade trazia uma reportagem que projetava a imagem do jogador aos 50 anos. A capa estampava sua face maquiada ostentando um bigode espesso e grisalho (que, de fato, não se confirmaria, pois Pelé mantém até hoje, obviamente mais envelhecida, a fisionomia intacta do atleta que foi, haja vista o uso do mesmo corte de cabelo de quando jogava), sobrancelhas brancas, trajando um terno escuro e sóbrio, nas mãos duas bolas - uma de futebol e outra revestida de cédulas. O propósito da matéria era traçar uma espécie de radiografia dos negócios e projetos futuros do jogador-empresário e personalidade bem sucedida que já se anunciava. Os números trazidos pela revista o posicionavam à parte de todos os outros jogadores, mesmo entre os mais famosos. Assim, multiplicavam suas atividades extra campo: 

 
"Publicitário - sua imagem vende de roupa a gasolina, de chuteira a drops. Com isso recebe 63.600 cruzeiros por mês, além das comissões e royaltes sobre vendas no Brasil e no exterior". Negociante - os aluguéis de seus sessenta apartamentos e a renda de suas lojas [na cidade de] Santos dão-lhe por volta de 2.500 cruzeiros por mês". Diretor de relações públicas do Banco Industrial de Campina Grande - para atender aos clientes do banco de Campina Grande [agência em Santos] às quintas-feiras, das 14 às 18 horas, quando pode, ele ganha 5000. Ou quase 5000 cruzeiros por hora". Industrial - como presidente da Fiolax [fábrica de fibras elásticas da cidade de Santo André], recebe 10.500 cruzeiros por mês"(Realidade, 1971:19). 

 
obre a conquista da copa realizada em 1970 no México, Pelé ganhou 25000 do presidente da república, um volks [carro muito popular no Brasil até os anos oitenta] da prefeitura de São Paulo, uma loja de loteria esportiva do governo do Estado de São Paulo com direito a duas filiais (jogo de apostas implementado pelo governo e que era uma fonte captadora de recursos que se beneficiava da figura dos apostadores-torcedores e da própria euforia que tomava conta do futebol tricampeão) . E seguia a matéria jornalística radiografando sua fortuna: "o salário mensal de Pelé aumenta quase todo o dia". E atualmente possui mais três propostas: de uma firma japonesa que quer explorar a sua imagem no oriente; relógio Enicar e de uma produtora cinematográfica brasileira para estrelar 'A Marcha', filme sobre a abolição da escravatura, já vendido ao festival de Moscou, a ser filmado durante três meses, duas vezes por semana" (Realidade, 1971:19). Com o filme Pelé teria, ainda segundo a revista, 33% nos lucros. Mas parecia que essa "necessidade social de ser famoso" e o "medo de decair" sobretudo fisicamente, temas também destacados na referida matéria, obstaram alguns dos pressupostos éticos e morais que igualmente compuseram sua imagem. Enquanto foi jogador e retribuiu com jogadas e gols a fortuna e o prestígio que acumulou em torno do futebol, sua imagem pôde ser resguardada das críticas que, até então resignadas, logo tomariam a forma das controvérsias públicas em relação a sua postura ante alguns temas caros ao imaginário social, que poderiam ser resumidos a duas questões: uma inibição em instrumentalizar positivamente sua condição de negro de sucesso e a postura profissional individualista e acrítica que perdurou quase até sair definitivamente dos gramados. Detenhamo-nos um pouco sobre esses aspectos nos dois tópicos que seguem.

 
 
 

da alma: o multiracialismo à brasileira no futebol
 
 

uma transmissão de um jogo do selecionado brasileiro na Copa do Mundo de 1990, Pelé, contratado para comentar as partidas pela Rede Globo de Televisão, viu-se diante de uma situação embaraçosa. Como comentarista de arbitragem estava ao seu lado Arnaldo César Coelho que, ao referir-se a um jogador, que provavelmente desconhecia até aquele momento, não pelo nome mas pelo qualificativo pejorativo "de cor" imediatamente Pelé, ante o microfone aberto à audiência, dirigiu-se irritadiço a Arnaldo César e retrucou, por duas vezes: "Jogador cor de quê, Arnaldo? Cor de quê". Constrangido, o árbitro comentarista deitou uma fala verborrágica enaltecendo os homens de "cor" negra que tanto engrandeciam o esporte... Este fato foi amplamente explorado na mídia e repercute ainda hoje. Mas, note-se que, da parte de Pelé, os caminhos que definiram uma tomada de postura como essa, mais pública e indignada em relação a certos maneirismos verbais que cotidianamente expõe o preconceito na sociedade brasileira, foi lenta e com percalços.
 
ode-se constatar, com toda segurança, que a performance do negro Pelé foi tardia se comparada ao discernimento e tamanha precocidade com que apareceu no campo esportivo e mesmo empresarial, no mais, percepção igualmente indiferente em relação a esfera ideológica, mantida à distância praticamente durante a carreira futebolística. Em 1977, último ano como jogador profissional, foi declarado pela ONU "cidadão do mundo", em 1980 transformava-se no "atleta do século", distinções que, se consolidavam definitivamente sua imagem de esportista maior, ao mesmo tempo impulsionavam-no em direção aos posicionamentos menos ingênuos e tomadas de posição política mais explícitas. Alguns dos resultados desse processo de aproximação em relação ao domínio da política serão melhor explicitados no tópico seguinte.
 
odavia, rara é a entrevista em que discorre mais longamente sobre o tema das relações raciais, raro também levantar qualquer bandeira ideologizada contra algumas das formas assumidas no corolário dessas relações, como o racismo. Tais atitudes revelam, de algum modo, uma percepção naturalizada e mesmo resignada da sua condição de descendente negro.
 
entar compreender tal postura, mas sem cair nas armadilhas da crítica fácil que censura em Pelé uma atitude deliberadamente reacionária ante as questões étnicas, é iluminar algumas das trilhas de um processo complexo na formação da auto-estima e identidade coletiva étnica experimentadas pela enorme parcela da população negra num país como o Brasil. 
 
nfelizmente, o universo esportivo é amparado por uma produção bibliográfica desigual e ainda incipiente em relação ao tema das relações raciais se comparada a vasta reflexão produzida no pensamento social brasileiro e, dessa forma, não poderíamos abordá-lo satisfatoriamente aqui. Mas, mesmo assim, e assumindo os riscos de um esquematismo, não podemos deixar de lado uma das chaves para se compreender o fenômeno Pelé, situando-o na confluência da sua biografia com os condicionantes sociológicos que o legitimaram não sem produzir paradoxais representações do mito-rei. Portanto, deixemos que algumas poucas evocações sobre a questão racial relacionadas ao jogador nos conduzam a um dos possíveis epicentros dessa discussão, embora, insisto, saibamos das dificuldades conceituais em delimitar o tema.
 
uma dessas entrevistas retrospectivas, aliás já citada no início deste ensaio, em que pediu-se para que posicionasse sobre sua condição de negro, mais concretamente se havia sido vítima de preconceito, de modo categórico Pelé afirmou que não, desdenhando até mesmo dos possíveis reveses da memória: 

 
"Não. Mesmo em lugares que proibiam a entrada de negros, jamais alguém teve a coragem de fechar o meu caminho. Se isso tivesse ocorrido, eu denunciaria com a maior veemência. Olha, fui convidado para participar de várias homenagens e competições na África do Sul e sempre recusei por ser contra o apartheid. Jamais aceitei a prisão covarde de Nelson Mandela. Apenas não procuro faturar em cima desses problemas. Poderiam dizer que é oportunismo (...) Sou um negro que freqüenta todos os lugares importantes do mundo e é [o "ele" oculto traindo a concordância] recebido com o maior respeito. Isso não é uma valorização para a raça negra? (OESP, suplemento especial - Pelé 50 anos, 27.10.1990). 
 
upondo que a resposta tenha sido dada de boa fé, e não se encontram indícios do contrário, ao que parece Pelé jogador não foi vítima ou não percebeu as formas menos explícitas assumidas pelo preconceito nos microespaços sociais onde se manifestam as esquivas da convivência interclasses e interraciais, suas idiossincrasias, maneirismos verbais, gestualidades, impedimentos físicos. Porém, refém de um peculiar individualismo orientado numa esfera profissional que o desmobilizou ou o desarmou para o debate público sobre o racismo, certamente poderíamos dizer que sim, foi vítima do preconceito. Nesse sentido, foi vítima de uma forma histórica de preconceito incorporada ao sistema de valores vigentes que, em alguma medida, imobilizou ou o indispôs para o debate público. Mas tal atitude está longe de ser um atributo singular de Pelé. Aprofundemos brevemente essa questão.

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