Pelé:
a Fera, para os comentaristas de rádio; o Negrão,
para o povo.
Um
dos poucos mitos da vida moderna em que a parte da realidade
não
é inferior à da legenda (Décio de Almeida Prado)
dos
nomes
comentarista e locutor Walter Abraão, militante nos meios esportivos
de comunicação de massa dos anos setenta, ostentando um estilo
narrativo que se notabilizou pelo uso dos bordões e clichês,
ao invés de citar o jogador pelo apelido, como é corrente
em qualquer transmissão esportiva, mencionava o jogador também
por intermédio da terceira pessoa do singular, em contraste aos
demais jogadores que eram mencionados pelos nomes ou apelidos. O estilo
de Walter Abraão era pontuado por pausas que prenunciavam, com reverência,
a acolhida da bola pelo corpo (pés, cabeça, peito, coxas)
de Pelé. Ao microfone, irradiava o desenrolar do jogo mais ou menos
desta maneira: bola com fulano de tal, que toca para sicrano (pausa)...ELE...(pausa),
que passa novamente para fulano, e seguia. Como se o pronome, tomado por
nome, assumisse em Pelé uma singularidade, destacando-o do continuum
da narração, numa espécie de renúncia em tomá-lo
como um jogador comum.
oderíamos
até mesmo generalizar, dizendo que o uso incisivo do "ele" consistiria
numa modulação pronominal muito valorizada na cultura brasileira,
um tanto avessa às relações igualitárias, pois
não é raro vê-la utilizada, por aqueles que cultivam
seu próprio ego, como um estilo de destacar suas personas públicas
transfiguradas pela fama e pelo sucesso em índice de status marcado
por uma grande eficácia e alto alcance simbólico apropriado
a uma sociedade marcadamente hierarquizada .
Entretanto, este afastamento diferencial imposto a si mesmo evoca algo
mais do que uma "marca registrada", um traço peculiar da personalidade
ou mesmo uma determinação implacável de uma estrutura
social desigual. Pelé é, de fato, muitos outros. E tal peculiaridade
revela uma síntese mais sutil e menos determinista, revelada em
escolhas culturais que estão para além da sua própria
biografia. Em outras palavras, é minha tese que tal distanciamento
de si mesmo deve ser pensado no encontro da sua macro persona com
um projeto coletivo pontilhado por representações sociais
que o posicionaram, muitas vezes e mesmo à sua revelia, como uma
espécie de encarnação da própria cultura e
dos muitos processos que resvalam na questão da identidade nacional
tomados a partir do campo esportivo, em seu nível de maior excelência.
uando
completou 50 anos, em 1990, um dos mais tradicionais jornais do Brasil,
o paulistano O Estado de São Paulo (OESP), num caderno retrospectivo
inteiramente dedicado ao "meio século" de sua existência,
assim o definia:
"Existem
três pessoas que convivem num só corpo: Edson, Dico e Pelé.
Quem completou meio século de vida no último dia 23 (21,
segundo o registro civil de Três Corações [Minas Gerais],
cidade onde nasceu) foi Edson Arantes do Nascimento. Dico, apelido familiar
do filho mais velho de Dondinho e Celeste, apagou as velinhas, dedilhou
seu violão, cozinhou um peixe para os amigos (...) Edson e Dico,
porém, carregam nas costas o mito de Pelé" (OESP, suplemento
especial, 27.10.1990).
as
é o próprio jogador que no mesmo jornal enfatiza a existência
de um feixe de habilidades e qualidades, corporais e morais, que habitam
"o Pelé":
"(...)
os três são diferentes. Quem segura a barra de Pelé
e Dico é o Edson, que nasceu primeiro. Edson é um sujeito
responsável, respeitável, por isso, teve condições
de proteger o Dico como família e ajudar o Pelé a manter
a humildade necessária para chegar ao sucesso sem se desviar no
meio do caminho" (OESP, suplemento especial, 27.10.1990).
speculando
sobre a paleta de nomes formada pela tríade Pelé, Dico e
Edson, nota-se como são distribuídos os valores em cada uma
dessas porções de sua persona. É o Dico quem expressa
os atributos considerados mais evocativos das qualidades morais enraizadas
às representações nacionais mais triviais da esfera
doméstica - da casa, da família e do domínio da intimidade,
como cozinhar para os amigos, dedilhar um violão, pescar, bem como
os valores próximos às idéias de segurança,
estabilidade, ser um esteio moral da família, não ter esquecido
dos pais.
elé,
ao contrário, situa-se numa posição oposta àquela
assumida por Dico, pois revela a face mais notória e valorizada
de sua pessoa, produto também das relações sociais
engendradas no universo esportivo e competitivo que o notabilizaram no
domínio público. É como se Pelé fosse atributo
da coletividade e não pertencesse somente à Dico, embora,
pela lente da nossa ideologia, valorizemos e afirmemos os aspectos mais
individuais, distintivos e singulares de seu estilo e técnica de
jogo, minimizando, digamos assim, um "saber corporal" perpetuado por toda
uma cultura esportiva da qual Pelé foi beneficiário e, ao
mesmo tempo, benéfico.
á
Edson, nome juridicamente reconhecido no plano formal, consiste na somatória
dessas qualidades individuais e coletivas e representa uma posição
mediadora, espécie de árbitro, pois ora fala, atua e identifica-se
a Dico, ora fala, atua e identifica-se ao próprio Pelé, produzindo
um jogo contínuo de identidade e estranhamento num embate de posições
homólogo ao próprio esporte que ajudou a engrandecer.
ste
mote biográfico da multiplicidade da sua pessoa, instigado pelo
empenho e curiosidade de muitos em desvendar as facetas da vida do ex-jogador,
de tempos em tempos é reacendido no imaginário social alimentando
as pautas jornalísticas, tal como num encarte especial veiculado
num outro jornal de grande circulação no país, a Folha
de S. Paulo [Folha de São Paulo], por ocasião da Copa do
Mundo de 2002. A citação, num tom que evoca uma narrativa
heróica, é muito significativa do investimento coletivo que
se faz na pessoa de Pelé, ainda hoje:
"Edison,
Edson, Edinho, Edico, Dico. Depois Pilé, Pelé, Rei. A parteira
Amélia Bitencourt foi uma das poucas testemunhas do nascimento de
Edson Arantes do Nascimento. Na rua 13, em Três Corações,
no dia 23 de outubro de 1940, veio ao mundo o homem dos máximos
números da bola: três títulos da Copa e 1.279 gols.
Dondinho [pai] não percebeu que o nome de seu filho tinha sido registrado
como Edison, e não Edson. Não tinha muita importância.
A família transformou o Edison em Edson, em Dico. Mas era o futebol
que ia batizar o menino. O goleiro Bilé, companheiro de Dondinho,
inspirou o moleque, que repetia o nome dele incorretamente: 'Pilé'.
De tanto falar errado, virou Pelé. Pelo resto da vida. Quando mudou
para Bauru [cidade do Estado de São Paulo] em 1945, Pelé
não gostava de seu apelido. Não tinha idéia de que
iria, com o nome, sanar todas as frustrações esportivas do
pai, bom jogador que parou a carreira depois de uma contusão (...)"
(Folha de S. Paulo, histórias da Copa, 3.03.2002).
elé
ocupa uma posição simbolicamente relevante no imaginário
brasileiro e, por isso mesmo, muitas vezes protagoniza jogos de representações
sobre o próprio Brasil que o colocam como um sinalizador de alguns
dos projetos mais acalentados de nação.
oucos
fenômenos, tal como o futebol, ou personalidades de seu universo
como foi Pelé, sugerem tamanho poder de síntese compreensiva
da cultura brasileira .
Pelé vivenciou ou experimentou quase todas as dimensões do
social, do econômico ao estético, passando pelo político
e, obviamente, o esportivo. Foi ministro da República, ator de cinema,
compositor e cantor, apresentador e comentarista esportivo, garoto propaganda,
administrador, empresário...treinador e jogador! Salas, estádios
e até mesmo um projeto de lei, como veremos, levou seu nome. Perscrutar
sua vida a partir de alguns fragmentos de sua biografia, tomados aqui e
acolá numa vasta documentação jornalística
impossível de sistematização num único ensaio,
permite desvelar um feixe de representações de grande relevância
esportiva e social para pensar a própria idéia de "brasilidade"
em discussão durante alguns períodos de sua maior visibilidade,
dentro ou fora dos gramados de futebol, com implicações que
repercutem ainda hoje.
elé
foi freqüentemente levado, direta ou indiretamente, a dar forma a
determinados conteúdos simbólicos da cultura brasileira,
quer pela sua presença em alguns domínios, notadamente no
esportivo, quer também pela presença controversa nos espaços
ocupados pelas maiores lutas e ambigüidades no interior da tessitura
social, tais como na esfera política ou no complexo campo das relações
raciais. E, por isso mesmo, elegê-lo como rei do futebol teve um
"custo simbólico Brasil" que certamente sinalizou a construção
de nossa auto imagem e estima coletivas para além dos limites de
seu corpo e sua técnica futebolística.
tualmente,
se Pelé continua a ostentar, na concepção de milhões
de admiradores dentro e fora do Brasil, o cetro que cabe a um rei do futebol,
está, todavia, longe da unanimidade como pessoa pública,
imagem meticulosamente amealhada sobretudo no período compreendido
entre 1966 e 1977, ano em que deu por encerrada a sua carreira de jogador
de futebol num modesto clube nova-iorquino, denominado de Cosmos. Aliás,
não deixa de ser significativo o fato de que embora tenha sido assediado
para jogar na Europa, berço do futebol tal qual o conhecemos hoje,
acabou indo parar numa das periferias ou grotões futebolísticos,
os EUA, nação econômica, política e esportivamente
poderosa mas que, por escolhas culturais próprias, abraçou
outras modalidades esportivas em detrimento do esporte bretão .
efendo
neste ensaio uma visão indissociável, mas não consensual,
dos "mil pelés" que constituem e transitam no único Pelé,
o de dentro e fora do campo. Fera, negrão, gasolina (outro apelido
da infância), vão oferecendo, em nomes, os contornos da sua
existência. Mas quantos nomes mais seriam necessários para
melhor defini-lo?
**
** **
mbora
sua imagem tenha sofrido consideráveis desgastes ante a perecibilidade
e seletividade da memória coletiva, pois, do Pelé de dentro
de campo não temos uma completa documentação dos registros
importantes dos muitos gols e façanhas realizados nos mais de 1000
jogos em que atuou ,
e do Edson de fora dos gramados cristalizou-se uma imagem enredada nos
torvelinhos da própria história, feito protagonista de acontecimentos
e tomadas de decisões políticas controversas, encenando até
mesmo alguns escândalos de natureza financeira que, de quando em
quando, arranham sua aura de esportista maior, permanece vívido
o mito.
ito
que nos desafia a dizer algo sobre nós mesmos, como se parte da
cultura pudesse ser decodificada das suas práticas e técnicas
corporais. Atributos esportivos que alcançaram expressão
estética em outros domínios, entusiasmando tantas personalidades
representativas da cultura brasileira, tal como se pode notar na visão
do dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues, para quem "ele" encarnava algumas
das nossas maiores potencialidades morais e a possibilidade de olharmos
para o mundo com mais altivez ;
ou para compositores como Chico Buarque de Holanda que, atento aos barroquismos
e malabarismos realizados pelos jogadores descreve sua visão
do jogo numa canção intitulada "Futebol". Logo nos primeiros
versos, explicitamente dedicados a Pelé, o compositor interroga-se
e acena para as dificuldades de exprimir em versos a beleza do futebol:
"Para estufar esse filó [redes], como eu sonhei, só se
fosse o Rei. Para tirar efeito igual ao jogador, qual compositor?".
ua
presença é notada também em níveis nem sempre
tão perceptíveis, impregnando até mesmo o domínio
do senso comum, das técnicas corporais e da sociabilidade cotidiana.
Na esfera dos entretenimentos, milhões seguem imitando-o, no recurso
estilístico do improviso, na esperança de alguma plasticidade
e beleza técnicas em qualquer jogo peladeiro ,
na precisão de um passe, drible ou chute, na catarse da comemoração,
mas até mesmo no exercício de outras qualidades que cultivou,
como o sentido competitivo que norteou sua carreira e o ascetismo profissional ,
atributos observados e cobrados na performance de atletas até mesmo
de outras modalidades pouco aparentadas ao futebol como a Fórmula
1, em que um conhecido narrador esportivo, Galvão Bueno, dizia que
Airton Sena "do Brasil", um dos maiores pilotos na história dessa
categoria automobilística, "driblava com garra" os adversários
nas pistas, evocando a "autêntica" ginga brasileira. Vemos aí,
certamente, um exagero, mas, no plano simbólico, a atualização
e generalização de uma espécie de devir esportivo
que se quer à brasileira porque, acima de tudo, existiu um Pelé
para dar forma e sensibilidade à cultura esportiva aqui praticada.
do
corpo: singularidade e estilo coletivo de jogo
eria
ingênuo supor que Pelé, sozinho, tenha fixado todo um inventário
de estilos, técnicas, jogadas e atitudes valorativas que confirmariam
uma forma-representação
denominada de estilo brasileiro (futebol-arte), embora seja plausível
que ele possa ser considerado, no contexto da popularização
desse esporte no país e no mundo, uma espécie de "síntese
produtiva" das mais felizes, tal como podemos observar nas considerações
de Décio de Almeida Prado
ao escrever sobre o mito às vésperas da Copa do Mundo de
1962: "Com 21 anos, idade em que em geral se começa a jogar nas
primeiras divisões [hoje essa idade, na média, baixou
dos 18 anos], está na iminência de tornar-se bicampeão
mundial, sendo já recordista de tentos, de todos os tempos, do selecionado
brasileiro (Almeida Prado, 1997[1962]:199). Aos 17 anos, já
havia participado (e jogado) no elenco que foi campeão na Copa do
Mundo realizada na Suécia, em 1958. O selecionado brasileiro ganharia
o bicampeonato em 1962, no Chile.
recorde enunciado por Décio de Almeida Prado ainda permanece em
vigência. Ronaldo ,
conhecido na Europa como "o fenômeno", em 2003 tentou convencer algumas
instâncias do futebol a recontar os gols de Pelé, pois acreditava
poder superar aquela marca que contabiliza também gols em partidas
não oficiais do rei na seleção, e que, por isso mesmo,
não poderiam fazer parte das estatísticas. Assim, diminuindo
a quantidade de gols de Pelé poderia alcançá-lo e
tornar-se, ele próprio, o maior artilheiro do selecionado brasileiro.
A proposta foi rechaçada pela CBF (Confederação Brasileira
de Futebol) e Pelé continua a ostentar a marca de artilheiro maior.
ão
obstante, ainda que Pelé tenha reunido numa só compleição
física a desenvoltura técnica necessária e as qualidades
morais voltadas para a ética competitiva do jogo, atributos que
fizeram dele um dos maiores representantes dessa modalidade, é preciso
situá-lo no interior de uma moldura sociocultural esportiva mais
complexa, tarefa empreendida por abordagens historiográfica, sociológica
e antropológica que, não obstante, ainda estão à
espera de um maior volume e qualidade nas contribuições .
E no que concerne à perspectiva aqui adotada, faço a opção
por analisar o estilo de jogo de Pelé de um ponto de vista sociológico,
buscando nas séries mais longas e normais de continuidade e experimentação
das técnicas do jogo o lugar em que ancoro suas qualidades individualizantes.
Quero dizer que sua individualidade deve ser avalizada a partir da contínua
experimentação contrastiva, de ordem moral e corpórea,
no interior de um campo de possibilidades de aprendizado seletivo das regras,
de enfrentamento de decoros sociais, de contínua experimentação
de técnicas corporais. Campo de possibilidades que viabilizou a
expressão de sua individualidade esportiva numa forma social que
passo a denominar de singularidade no interior de um esporte que desde
sua fixação em regras primou pelo coletivismo como característica
constitutiva.
articularmente,
é no domínio futebolístico brasileiro que podemos
melhor observar essas séries mais longas e normais de fatos expressadas
na quantidade de jogadores de altíssimo nível que continuamente
a preenchem. Séries interrompidas, ou esporádicas, ou mais
minguadas em outras culturas esportivas.
partir de uma relativa liberalidade, improvisação, experimentação,
disposições e estratégias acomodadas às regras,
às brechas na moldura institucional e associadas às outras
práticas culturais contíguas da cultura popular, tais singularidades
acrescentaram modulações corporais e qualidades sensíveis
à memória coletiva e corporal do jogo.
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