Luíz Henrique de Toledo

 
 

 
Pelé: a Fera, para os comentaristas de rádio; o Negrão, para o povo. 
Um dos poucos mitos da vida moderna em que a parte da realidade
não é inferior à da legenda (Décio de Almeida Prado)

 
 

dos nomes

 
 
 

as inúmeras vezes em que Pelé é instado a tecer alguma opinião sobre determinado assunto, particularmente no que se refere a sua carreira de jogador de futebol profissional, iniciada no final dos anos 50 e encerrada em meados dos anos 70 do século XX, ele lança mão da terceira pessoa do singular como forma de tratamento e auto percepção de sua pessoa. Ao invés do esperado "eu", o Rei muitas vezes insiste no uso do "ele" como referência a si mesmo. Tal idiossincrasia não escapou à grande imprensa, fiadora da sua visibilidade, fazendo notar que a utilização da terceira pessoa consiste "(...) numa de suas marcas registradas, talvez tão característica quanto o soco no ar   (...)", tal como exultava o diário A Gazeta Esportiva 
 
 

 
comentarista e locutor Walter Abraão, militante nos meios esportivos de comunicação de massa dos anos setenta, ostentando um estilo narrativo que se notabilizou pelo uso dos bordões e clichês, ao invés de citar o jogador pelo apelido, como é corrente em qualquer transmissão esportiva, mencionava o jogador também por intermédio da terceira pessoa do singular, em contraste aos demais jogadores que eram mencionados pelos nomes ou apelidos. O estilo de Walter Abraão era pontuado por pausas que prenunciavam, com reverência, a acolhida da bola pelo corpo (pés, cabeça, peito, coxas) de Pelé. Ao microfone, irradiava o desenrolar do jogo mais ou menos desta maneira: bola com fulano de tal, que toca para sicrano (pausa)...ELE...(pausa), que passa novamente para fulano, e seguia. Como se o pronome, tomado por nome, assumisse em Pelé uma singularidade, destacando-o do continuum da narração, numa espécie de renúncia em tomá-lo como um jogador comum.
 
 

oderíamos até mesmo generalizar, dizendo que o uso incisivo do "ele" consistiria numa modulação pronominal muito valorizada na cultura brasileira, um tanto avessa às relações igualitárias, pois não é raro vê-la utilizada, por aqueles que cultivam seu próprio ego, como um estilo de destacar suas personas públicas transfiguradas pela fama e pelo sucesso em índice de status marcado por uma grande eficácia e alto alcance simbólico apropriado a uma sociedade marcadamente hierarquizada . Entretanto, este afastamento diferencial imposto a si mesmo evoca algo mais do que uma "marca registrada", um traço peculiar da personalidade ou mesmo uma determinação implacável de uma estrutura social desigual. Pelé é, de fato, muitos outros. E tal peculiaridade revela uma síntese mais sutil e menos determinista, revelada em escolhas culturais que estão para além da sua própria biografia. Em outras palavras, é minha tese que tal distanciamento de si mesmo deve ser pensado no encontro da sua  macro persona com um projeto coletivo pontilhado por representações sociais que o posicionaram, muitas vezes e mesmo à sua revelia, como uma espécie de encarnação da própria cultura e dos muitos processos que resvalam na questão da identidade nacional tomados a partir do campo esportivo, em seu nível de maior excelência. 

 

uando completou 50 anos, em 1990, um dos mais tradicionais jornais do Brasil, o paulistano O Estado de São Paulo (OESP), num caderno retrospectivo inteiramente dedicado ao "meio século" de sua existência, assim o definia: 


 
"Existem três pessoas que convivem num só corpo: Edson, Dico e Pelé. Quem completou meio século de vida no último dia 23 (21, segundo o registro civil de Três Corações [Minas Gerais], cidade onde nasceu) foi Edson Arantes do Nascimento. Dico, apelido familiar do filho mais velho de Dondinho e Celeste, apagou as velinhas, dedilhou seu violão, cozinhou um peixe para os amigos (...) Edson e Dico, porém, carregam nas costas o mito de Pelé" (OESP, suplemento especial, 27.10.1990).
 

as é o próprio jogador que no mesmo jornal enfatiza a existência de um feixe de habilidades e qualidades, corporais e morais, que habitam "o Pelé": 


 
"(...) os três são diferentes. Quem segura a barra de Pelé e Dico é o Edson, que nasceu primeiro. Edson é um sujeito responsável, respeitável, por isso, teve condições de proteger o Dico como família e ajudar o Pelé a manter a humildade necessária para chegar ao sucesso sem se desviar no meio do caminho" (OESP, suplemento especial, 27.10.1990).
 

speculando sobre a paleta de nomes formada pela tríade Pelé, Dico e Edson, nota-se como são distribuídos os valores em cada uma dessas porções de sua persona. É o Dico quem expressa os atributos considerados mais evocativos das qualidades morais enraizadas às representações nacionais mais triviais da esfera doméstica - da casa, da família e do domínio da intimidade, como cozinhar para os amigos, dedilhar um violão, pescar, bem como os valores próximos às idéias de segurança, estabilidade, ser um esteio moral da família, não ter esquecido dos pais. 

 

elé, ao contrário, situa-se numa posição oposta àquela assumida por Dico, pois revela a face mais notória e valorizada de sua pessoa, produto também das relações sociais engendradas no universo esportivo e competitivo que o notabilizaram no domínio público. É como se Pelé fosse atributo da coletividade e não pertencesse somente à Dico, embora, pela lente da nossa ideologia, valorizemos e afirmemos os aspectos mais individuais, distintivos e singulares de seu estilo e técnica de jogo, minimizando, digamos assim, um "saber corporal" perpetuado por toda uma cultura esportiva da qual Pelé foi beneficiário e, ao mesmo tempo, benéfico. 

 
 

á Edson, nome juridicamente reconhecido no plano formal, consiste na somatória dessas qualidades individuais e coletivas e representa uma posição mediadora, espécie de árbitro, pois ora fala, atua e identifica-se a Dico, ora fala, atua e identifica-se ao próprio Pelé, produzindo um jogo contínuo de identidade e estranhamento num embate de posições homólogo ao próprio esporte que ajudou a engrandecer.


 
 
ste mote biográfico da multiplicidade da sua pessoa, instigado pelo empenho e curiosidade de muitos em desvendar as facetas da vida do ex-jogador, de tempos em tempos é reacendido no imaginário social alimentando as pautas jornalísticas, tal como num encarte especial veiculado num outro jornal de grande circulação no país, a Folha de S. Paulo [Folha de São Paulo], por ocasião da Copa do Mundo de 2002. A citação, num tom que evoca uma narrativa heróica, é muito significativa do investimento coletivo que se faz na pessoa de Pelé, ainda hoje: 

 
Fonte da Imagem: Googe"Edison, Edson, Edinho, Edico, Dico. Depois Pilé, Pelé, Rei. A parteira Amélia Bitencourt foi uma das poucas testemunhas do nascimento de Edson Arantes do Nascimento. Na rua 13, em Três Corações, no dia 23 de outubro de 1940, veio ao mundo o homem dos máximos números da bola: três títulos da Copa e 1.279 gols. Dondinho [pai] não percebeu que o nome de seu filho tinha sido registrado como Edison, e não Edson. Não tinha muita importância. A família transformou o Edison em Edson, em Dico. Mas era o futebol que ia batizar o menino. O goleiro Bilé, companheiro de Dondinho, inspirou o moleque, que repetia o nome dele incorretamente: 'Pilé'. De tanto falar errado, virou Pelé. Pelo resto da vida. Quando mudou para Bauru [cidade do Estado de São Paulo] em 1945, Pelé não gostava de seu apelido. Não tinha idéia de que iria, com o nome, sanar todas as frustrações esportivas do pai, bom jogador que parou a carreira depois de uma contusão (...)" (Folha de S. Paulo, histórias da Copa, 3.03.2002). 
 

elé ocupa uma posição simbolicamente relevante no imaginário brasileiro e, por isso mesmo, muitas vezes protagoniza jogos de representações sobre o próprio Brasil que o colocam como um sinalizador de alguns dos projetos mais acalentados de nação. 


 
 
oucos fenômenos, tal como o futebol, ou personalidades de seu universo como foi Pelé, sugerem tamanho poder de síntese compreensiva da cultura brasileira . Pelé vivenciou ou experimentou quase todas as dimensões do social, do econômico ao estético, passando pelo político e, obviamente, o esportivo. Foi ministro da República, ator de cinema, compositor e cantor, apresentador e comentarista esportivo, garoto propaganda, administrador, empresário...treinador e jogador! Salas, estádios e até mesmo um projeto de lei, como veremos, levou seu nome. Perscrutar sua vida a partir de alguns fragmentos de sua biografia, tomados aqui e acolá numa vasta documentação jornalística impossível de sistematização num único ensaio, permite desvelar um feixe de representações de grande relevância esportiva e social para pensar a própria idéia de "brasilidade" em discussão durante alguns períodos de sua maior visibilidade, dentro ou fora dos gramados de futebol, com implicações que repercutem ainda hoje. 
 
 

elé foi freqüentemente levado, direta ou indiretamente, a dar forma a determinados conteúdos simbólicos da cultura brasileira, quer pela sua presença em alguns domínios, notadamente no esportivo, quer também pela presença controversa nos espaços ocupados pelas maiores lutas e ambigüidades no interior da tessitura social, tais como na esfera política ou no complexo campo das relações raciais. E, por isso mesmo, elegê-lo como rei do futebol teve um "custo simbólico Brasil" que certamente sinalizou a construção de nossa auto imagem e estima coletivas para além dos limites de seu corpo e sua técnica futebolística. 

 
 

tualmente, se Pelé continua a ostentar, na concepção de milhões de admiradores dentro e fora do Brasil, o cetro que cabe a um rei do futebol, está, todavia, longe da unanimidade como pessoa pública, imagem meticulosamente amealhada sobretudo no período compreendido entre 1966 e 1977, ano em que deu por encerrada a sua carreira de jogador de futebol num modesto clube nova-iorquino, denominado de Cosmos. Aliás, não deixa de ser significativo o fato de que embora tenha sido assediado para jogar na Europa, berço do futebol tal qual o conhecemos hoje, acabou indo parar numa das periferias ou grotões futebolísticos, os EUA, nação econômica, política e esportivamente poderosa mas que, por escolhas culturais próprias, abraçou outras modalidades esportivas em detrimento do esporte bretão 

 

efendo neste ensaio uma visão indissociável, mas não consensual, dos "mil pelés" que constituem e transitam no único Pelé, o de dentro e fora do campo. Fera, negrão, gasolina (outro apelido da infância), vão oferecendo, em nomes, os contornos da sua existência. Mas quantos nomes mais seriam necessários para melhor defini-lo?

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mbora sua imagem tenha sofrido consideráveis desgastes ante a perecibilidade e seletividade da memória coletiva, pois, do Pelé de dentro de campo não temos uma completa documentação dos registros importantes dos muitos gols e façanhas realizados nos mais de 1000 jogos em que atuou , e do Edson de fora dos gramados cristalizou-se uma imagem enredada nos torvelinhos da própria história, feito protagonista de acontecimentos e tomadas de decisões políticas controversas, encenando até mesmo alguns escândalos de natureza financeira que, de quando em quando, arranham sua aura de esportista maior, permanece vívido o mito. 
 
 

ito que nos desafia a dizer algo sobre nós mesmos, como se parte da cultura pudesse ser decodificada das suas práticas e técnicas corporais. Atributos esportivos que alcançaram expressão estética em outros domínios, entusiasmando tantas personalidades representativas da cultura brasileira, tal como se pode notar na visão do dramaturgo e cronista Nelson Rodrigues, para quem "ele" encarnava algumas das nossas maiores potencialidades morais e a possibilidade de olharmos para o mundo com mais altivez rodape; ou para compositores como Chico Buarque de Holanda que, atento aos barroquismos e  malabarismos realizados pelos jogadores descreve sua visão do jogo numa canção intitulada "Futebol". Logo nos primeiros versos, explicitamente dedicados a Pelé, o compositor interroga-se e acena para as dificuldades de exprimir em versos a beleza do futebol: "Para estufar esse filó [redes], como eu sonhei, só se fosse o Rei. Para tirar efeito igual ao jogador, qual compositor?".

 

ua presença é notada também em níveis nem sempre tão perceptíveis, impregnando até mesmo o domínio do senso comum, das técnicas corporais e da sociabilidade cotidiana. Na esfera dos entretenimentos, milhões seguem imitando-o, no recurso estilístico do improviso, na esperança de alguma plasticidade e beleza técnicas em qualquer jogo peladeiro , na precisão de um passe, drible ou chute, na catarse da comemoração, mas até mesmo no exercício de outras qualidades que cultivou, como o sentido competitivo que norteou sua carreira e o ascetismo profissional , atributos observados e cobrados na performance de atletas até mesmo de outras modalidades pouco aparentadas ao futebol como a Fórmula 1, em que um conhecido narrador esportivo, Galvão Bueno, dizia que Airton Sena "do Brasil", um dos maiores pilotos na história dessa categoria automobilística, "driblava com garra" os adversários nas pistas, evocando a "autêntica" ginga brasileira. Vemos aí, certamente, um exagero, mas, no plano simbólico, a atualização e generalização de uma espécie de devir esportivo que se quer à brasileira porque, acima de tudo, existiu um Pelé para dar forma e sensibilidade à cultura esportiva aqui praticada. 


 

do corpo: singularidade e estilo coletivo de jogo
 

eria ingênuo supor que Pelé, sozinho, tenha fixado todo um inventário de estilos, técnicas, jogadas e atitudes valorativas que confirmariam uma forma-representação  denominada de estilo brasileiro (futebol-arte), embora seja plausível que ele possa ser considerado, no contexto da popularização desse esporte no país e no mundo, uma espécie de "síntese produtiva" das mais felizes, tal como podemos observar nas considerações de Décio de Almeida Prado  ao escrever sobre o mito às vésperas da Copa do Mundo de 1962: "Com 21 anos, idade em que em geral se começa a jogar nas primeiras divisões [hoje essa idade, na média, baixou dos 18 anos], está na iminência de tornar-se bicampeão mundial, sendo já recordista de tentos, de todos os tempos, do selecionado brasileiro (Almeida Prado, 1997[1962]:199). Aos 17 anos, já havia participado (e jogado) no elenco que foi campeão na Copa do Mundo realizada na Suécia, em 1958. O selecionado brasileiro ganharia o bicampeonato em 1962, no Chile.
 
 

recorde enunciado por Décio de Almeida Prado ainda permanece em vigência. Ronaldo, conhecido na Europa como "o fenômeno", em 2003 tentou convencer algumas instâncias do futebol a recontar os gols de Pelé, pois acreditava poder superar aquela marca que contabiliza também gols em partidas não oficiais do rei na seleção, e que, por isso mesmo, não poderiam fazer parte das estatísticas. Assim, diminuindo a quantidade de gols de Pelé poderia alcançá-lo e tornar-se, ele próprio, o maior artilheiro do selecionado brasileiro. A proposta foi rechaçada pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e Pelé continua a ostentar a marca de artilheiro maior.

 
 

ão obstante, ainda que Pelé tenha reunido numa só compleição física a desenvoltura técnica necessária e as qualidades morais voltadas para a ética competitiva do jogo, atributos que fizeram dele um dos maiores representantes dessa modalidade, é preciso situá-lo no interior de uma moldura sociocultural esportiva mais complexa, tarefa empreendida por abordagens historiográfica, sociológica e antropológica que, não obstante, ainda estão à espera de um maior volume e qualidade nas contribuições . E no que concerne à perspectiva aqui adotada, faço a opção por analisar o estilo de jogo de Pelé de um ponto de vista sociológico, buscando nas séries mais longas e normais de continuidade e experimentação das técnicas do jogo o lugar em que ancoro suas qualidades individualizantes. Quero dizer que sua individualidade deve ser avalizada a partir da contínua experimentação contrastiva, de ordem moral e corpórea, no interior de um campo de possibilidades de aprendizado seletivo das regras, de enfrentamento de decoros sociais, de contínua experimentação de técnicas corporais. Campo de possibilidades que viabilizou a expressão de sua individualidade esportiva numa forma social que passo a denominar de singularidade no interior de um esporte que desde sua fixação em regras primou pelo coletivismo como característica constitutiva.

 
 

articularmente, é no domínio futebolístico brasileiro que podemos melhor observar essas séries mais longas e normais de fatos expressadas na quantidade de jogadores de altíssimo nível que continuamente a preenchem. Séries interrompidas, ou esporádicas, ou mais minguadas em outras culturas esportivas. 

 
 

partir de uma relativa liberalidade, improvisação, experimentação, disposições e estratégias acomodadas às regras, às brechas na moldura institucional e associadas às outras práticas culturais contíguas da cultura popular, tais singularidades acrescentaram modulações corporais e qualidades sensíveis à memória coletiva e corporal do jogo. 

 
 

ma dessa séries mais conhecidas, mas certamente outras ainda estão à espera de um maior reconhecimento, pode ser reconstituída desde os anos 20 com as jogadas chamadas de chilenas realizadas por Friedenreich; passando pela rotinização da jogada bicicleta por Leônidas, nos anos 30; os dribles rodopiadores feitos por Garrincha contrastados aos usos racionalizados do espaço de jogo por Didi , compatíveis com a marcação técnica de Nílton Santos, nos anos 60; o drible elástico de Rivelino e a precisão dos lançamentos em profundidade de Gérson, nos anos 70; o uso quase que abusivo dos calcanhares por Sócrates e a visão de jogo de Falcão e as investidas de Zico rumo ao gol, nos anos 80; o predomínio de Romário nos pequenos espaços da área, nos anos 90; o equilíbrio dinâmico de Ronaldo e a inventividade de Ronaldinho gaúcho; as pedaladas de Robinho mais no início deste século XXI .


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