Rua, símbolo e suporte da experiência urbana - José Guilherme Cantor Magnani
parte final
 
 
 
 
As marcas dessas duas formas de apropriação e uso do espaço - pedaço e mancha - na paisagem mais ampla da cidade, são diferentes. No primeiro caso, onde o determinante é o componente simbólico, o espaço enquanto ponto de referência é restrito, interessando mais a seus habituês. Com facilidade muda-se de ponto, quando então "leva-se junto o pedaço".

A mancha, ao contrário, sempre aglutinada em torno de um ou mais estabelecimentos, apresenta uma implantação mais estável, tanto na paisagem como no imaginário.  As atividades que oferece e as práticas que propicia são o  resultado de uma multiplicidade de relações entre seus equipamentos, edificações e vias de acesso, o que garante uma maior continuidade, transformando-a, assim, em ponto de referência físico, visível e público para um número mais amplo de usuários

A cidade, contudo, não é um aglomerado de pontos, pedaços ou  manchas excludentes: as pessoas circulam entre eles, fazem suas escolhas entre as várias alternativas – este ou aquele, este e aquele e depois aquele outro – de acordo  com determinada lógica;  mesmo  quando se dirigem a seu  pedaço favorito, no interior de determinada mancha seguem caminhos que não são aleatórios. 

Estamos falando de trajetos.

O termo trajeto  surgiu da necessidade de categorizar uma forma de uso do espaço que se diferencia, em primeiro lugar, daquele descrito  pela categoria pedaço. Enquanto esta última, como foi visto, remete a um território que funciona como ponto de referência – e, no caso da vida no bairro, evoca a permanência de laços de família, de vizinhança, origem  e outros – trajeto aplica-se a fluxos no espaço mais abrangente da cidade e no interior das manchas urbanas.
 Não que não se possa reconhecer sua ocorrência no bairro, mas é justamente para pensar a abertura do particularismo do pedaço  que essa categoria foi elaborada.  É a  extensão e principalmente a diversidade do espaço urbano para além do bairro que colocam a necessidade de deslocamentos por regiões distantes e não contíguas: esta é uma primeira aplicação da categoria. Na paisagem mais ampla e diversificada da cidade, trajetos  ligam pontos  e manchas, complementares ou alternativos: casa /trabalho /casa; casa /cinema /restaurante /bar; casa /posto de saúde /hospital /curandeiro - eis alguns exemplos, dos mais corriqueiros, de trajetos possíveis.

Outra aplicação é no interior das manchas. Tendo em vista que a mancha supõe uma presença mais concentrada de equipamentos, cada qual concorrendo, à sua maneira, para a atividade que lhe dá a marca característica, os trajetos, nelas, são de curta extensão, na escala do andar: representam escolhas ou recortes no interior  daquela mancha, entendida como uma área contígua.

Sanduicheria Baguette /Cineclube /Café do Bexiga /Livraria Arte Pau Brasil, nessa ordem; ou: Livraria Belas Artes /Cine Belas Artes /Bar e Restaurante Riviera – são  exemplos de trajetos já conhecidos,  um no interior da mancha do Bexiga e outro na mancha da esquina da  Consolação com  Paulista, como resultado de escolhas concretas frente a alternativas oferecidas pelas respectivas manchas.

A construção dos trajetos não é aleatória nem ilimitada em suas possibilidades de combinação. Estamos diante de uma lógica ditada por sistemas de compatibilidades. No exemplo:  Livraria Belas Artes /Cine Belas Artes /Bar e Restaurante Riviera,  que mostra uma combinação não apenas possível, mas bastante freqüente, não entra na seqüência (nem como alternativa), o bar Metrópolis, apesar de estar situado na mesma mancha. Outra é a gramática que permite compreender o significado desse bar e do trajeto em que se inscreve: com características de bar yuppie, apresenta  um tipo de paquera com abordagens explícitas que o distancia do bar Riviera, por exemplo.   E no caso daquele outro trajeto, recortado no Bexiga, não entra, por certo, o teatro de sexo explícito “Márcia Ferro”, logo ali e ao mesmo tempo tão distante,  ao menos do ponto de vista de determinado padrão de lazer.

Assim, a idéia de trajeto  permite  pensar  tanto uma possibilidade de escolhas no interior das manchas como a  abertura dessas manchas e pedaços em direção a outros pontos de espaço urbano e, por conseqüência, a outras lógicas. Sem essa abertura corre-se o risco de cair numa perspectiva reificadora, restrita  e demasiadamente "comunitária" da idéia de pedaço, com seus códigos de reconhecimento, laços de reciprocidade, relações face a face.

Foi afirmado que o pedaço é aquele espaço intermediário entre a casa (o privado) e o público ou, para utilizar um sistema de oposições já consagrado,  entre casa e rua. (DA MATTA, 1985). Não é, contudo, um espaço fechado e impermeável a uma e outra; ao contrário. É a noção de trajeto que abre o pedaço para fora, para o espaço e âmbito do público.

Finalmente, os trajetos levam de um ponto a outro através dos pórticos. Trata-se de espaços, marcos e vazios na paisagem urbana que configuram passagens. Lugares que já não pertencem ao pedaço ou mancha de lá, mas ainda não se situam nos de cá; escapam aos sistemas de classificação de um e outra e como tal apresentam a "maldição dos vazios fronteiriços" . Terra de ninguém, lugar do perigo, preferido por figuras liminares e para a realização de rituais mágicos, muitas vezes lugares sombrios que é preciso cruzar rapidamente, sem olhar para os lados...
 

Conclusão
 

Não se deve perder de vista o fato de as observações precedentes terem sido tiradas  de duas pesquisas que, apesar de  encadeadas por temática, orientação e metodologia, foram realizadas em contextos diferentes: as limitações de espaço não permitiram explicitar devidamente todas as pressuposições, passagens e mediações.

De qualquer maneira, o que se pretendia era mostrar que a metrópole – no caso, São Paulo – apesar de sua escala, diversidade e problemas comporta inúmeras e até mesmo surpreendentes formas através quais seus habitantes estabelecem vínculos entre si e com a cidade.  Algumas dessas formas podem ser apreciadas em sua relação com o próprio espaço no qual ocorrem: são as experiências da rua, para recuperar um termo usado no texto.

Ademais, e contrariamente ao que pensa o senso comum, a cidade não se impõe de forma homogênea e absoluta  sobre seus moradores. Há que se entender: não se trata de passar por alto ou minimizar  as profundas  contradições e perversidades  do  desenvolvimento urbano da metrópole paulistana. O que se propõe é apenas variar o ângulo, olhar desde outro lugar, apreciar a cidade do ponto de vista daqueles que, exatamente por causa da diversidade de seu modo de vida, se apropriam dela de forma também diferenciada.

Estas formas de apropriação não são o resultado de escolhas individuais, nem são aleatórias: são resultado de rotinas cotidianas, ditadas por injunções coletivas que regulam o trabalho, a devoção, a diversão, a convivência  e que deixam suas marcas no mapa da cidade. O resultado é um desenho bastante particular e que se sobrepõe ao desenho oficial da cidade: às vezes rompe com ele, outras vezes o segue, outras ainda não tem alternativa senão adequar-se.
 Pode-se afirmar que, entre os dois padrões paradigmáticos de apropriação do espaço  – o privado e o público – existe uma gradação onde é possível distinguir inúmeros arranjos intermediários, escolhas reveladoras da dinâmica urbana: ora é o pedaço com sua lógica particularizante que agrupa os semelhantes e distingue  claramente os "de fora"; ora é a mancha – mais ampla, com base não tanto nos signos diferenciadores  mas na lógica  territorial e que permite, por isso mesmo,  encontros imprevistos mas desejáveis, propiciando toda espécie de trocas. Estabelecendo ligações entre uns e outras estão os trajetos que, através dos pórticos, também abrem  passagens por espaços ainda não  conquistados.
Como se pôde ver, de uma forma ou outra a rua e sua experiência estão vivas, assim como viva permanece, ao menos como ponto de referência, a "velha rua moderna", segundo a expressão usada por Berman para referir-se ao cenário da cena que descreve como primordial.
 
 

Bibliografia
 

Benjamin, W. - Paris, capital do século XIX e A Paris do Segundo Império em Baudelaire in  Walter Benjamin, Kothe, F. (org.) São Paulo, Atica, 1985.

Berman, M. - Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo,    Companhia das Letras, 1986.

Chevalier, L. - Classes laborieuses et classes dangereuses. Paris, Pluriel, 1987.

Da Matta, R. -  A casa e a rua. São Paulo, Brasiliense, 1985.

Da Matta, R. - O Ofício de Etnólogo ou Como ter Anthropological Blues, in Cadernos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. Rio, 1974.

Geertz, C. - Local Knowledge. Basic Books, New York, 1983.

Le Corbusier - A Carta de Atenas. São Paulo Hucitec, 1989.

Lévi-Strauss, C - Totemismo Hoje. Petrópolis, Vozes, 1975.

Magnani, J.G.Cantor & Torres, Lilian de Lucca (org.) – Na Metrópole: Textos de Antropologia Urbana. São Paulo, Edusp, 2 ª Edição, 2000.

Magnani, J.G.Cantor. - Festa no Pedaço: Cultura Popular e Lazer na Cidade. São Paulo, Hucietec, 1998.

Santos. C. N. e Vogel, A. (coord) - Quando a rua vira casa. São Paulo, Projeto, 1985.

Simmel, G. - A Metrópole e a vida mental. In Velho, O. G.(cord.), O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1987.

Velho, G. e Viveiros de Castro, E.B. - O Conceito de Cultura nas Sociedades Complexas: uma perspectiva antropológica, in Artefato, Conselho Estadual de Cultura, Ano I, n.1, Rio de Janeiro, janeiro de 1978.
 

Versão revista e atualizada do artigo “A rua e a evolução da sociabilidade”, originalmente publicado em Cadernos de História de São Paulo 2, jan/dez 1993, Museu Paulista- USP.
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