.
3.-
O olhar antropológico.
Inicialmente
vale lembrar que a antropologia clássica desenvolveu seus métodos
de trabalho e construiu seus arcabouços conceituais com base
principalmente na observação e análise dos então
denominados povos "primitivos" ou sociedades de pequena escala, numa
terminologia mais atual. Apesar de não mais se aceitar com razão
a oposição entre "sociedades simples" versus "sociedades
complexas" para estabelecer o ponto de corte entre aqueles grupos tradicionalmente
estudados pelos antropólogos e as sociedades urbano-industriais,
não se pode negar que o modo de operar da antropologia, seja qual
for o contexto de seu estudo, carrega inevitavelmente as marcas das primeiras
incursões a campo. Que não deixam de ser particularmente
sentidas seja como vantagem ou dificuldade quando o que se tem pela
frente são questões, objetos e temas próprios das
sociedades contemporâneas, na sua escala e complexidade características.
Mas como opera, afinal, a antropologia?
A
prática da etnografia, que caracteriza o métier do antropólogo,
supõe a delimitação de contextos empíricos
onde seja possível trabalhar com determinados instrumentos
tais como a observação direta de comportamentos, a observação
participante (quando há um maior envolvimento no cotidiano), coleta
de depoimentos, de histórias de vida, narrativas orais, termos de
parentesco, descrição de rituais, etc.
Cabe
observar, contudo, que etnografia não é uma mera descrição,
coleta de dados brutos a serem posteriormente trabalhados: o que se observa
e a forma como se ordenam as primeiras observações constituem
já parte integrante do processo de interpretação.
Esta
forma de operar, portanto, não exclui ao contrário,
supõe a utilização de quadros teóricos
mais amplos, o conhecimento de variáveis mais abrangentes, a inserção
em processos históricos pertinentes. A alternância entre ambos
os níveis o trabalho com os significados em nível local
e sua colocação em quadros mais gerais descrita por Geertz
através dos termos "experience-near" e "experience-distant", (GEERTZ,
1983) caracteriza a dinâmica do trabalho do antropólogo,
dentro de uma perspectiva interpretativa.
Existem
algumas precauções que o antropólogo urbano
procura tomar e uma delas diz respeito à forma como encara seu objeto
de estudo. Se diante de uma cultura radicalmente diferente da sua
a atitude é no sentido de procurar transformar o "exótico",
ou melhor, o que lhe aparece inicialmente como estranho, sem sentido
porque ainda não conhecido em familiar, o caminho daquele
que enfrenta sua própria sociedade é inverso: trata-se, aqui,
de transformar o familiar, o que já é (aparentemente) conhecido
em estranho, de forma a escapar à armadilha do senso comum. (DA
MATTA, 1974; VELHO e VIVEIROS, 1978).
O
segundo
cuidado é resistir à tentação de encarar
o objeto de pesquisa escolhido este ou aquele bairro, tal ou qual seita
religiosa, instituição social, prática cultural ou
movimento popular como se constituíssem uma "aldeia", nos moldes
de algumas das sociedades tradicionalmente estudadas pelos antropólogos.
Seja qual for o recorte escolhido, é preciso levar em consideração
a malha de relações que mantém com a sociedade envolvente:
a dinâmica de um espaço não se esgota no seu
perímetro, assim como o significado mais amplo de uma comunidade
religiosa afro-brasileira vai além dos limites do terreiro.
O
desafio é manter as características da pesquisa etnográfica
a tradição da descrição e análise
minuciosas, do contato prolongado, da busca de relação
direta com os informantes sem perder de vista o quadro mais amplo no
qual os fenômenos culturais se desenvolvem, nas sociedades modernas.
Tendo
apresentado, de forma resumida, algumas das especificidades do olhar e
do modo de operar da antropologia, trata-se agora de mostrar resultados
mais concretos a respeito do tema proposto. As observações
que seguem, em torno das categorias manchas, pedaços, trajetos,
pórticos, são o produto de pesquisas que realizei sobre
práticas de lazer, locais de encontro e formas de sociabilidade
no contexto da cidade de São Paulo. Tais categorias constituem uma
tentativa de identificar espaços, personagens e comportamentos
tendo em vista a inevitável e característica diversidade
das práticas urbanas. Seu propósito é perceber regularidades,
padrões e significados lá onde muitas vezes o senso comum
não vê senão o resultado de escolhas feitas de forma
individual e aleatória.
Para
apreciar diferentes tipos de experiências da rua, conforme a denominação
dada neste texto, às vivências de sociabilidade em determinados
espaços da cidade, foram escolhidos, dois contextos, o do bairro
e o centro.
4.
Sociabilidade no bairro
O
primeiro contexto onde se pode perceber a relação entre uma
forma de sociabilidade e determinada delimitação do
espaço urbano é o bairro, e bairro popular, de periferia.
Justamente para descrever e explicar um tipo particular de relações
entre ambos os níveis é que foi elaborada a categoria pedaço,
no decorrer de uma pesquisa sobre formas de cultura popular e modalidades
de lazer que ocupam o tempo livre dos trabalhadores, nos bairros da periferia
da cidade de São Paulo .
Ao invés de pensá-las simplesmente como um mecanismo
de reprodução da força de trabalho, o que se pretendia
era, através da abordagem antropológica, detectar seu significado
a partir do discurso e da prática concreta dos personagens diretamente
envolvidos nessa rede de lazer.
Inicialmente
tratava-se de demonstrar que, ao contrário de uma afirmação
bastante em voga, os fins de semana dos trabalhadores não eram utilizados
apenas para complementar, através de "bicos", os magros orçamentos
domésticos, nem eram gastos diante dos intermináveis e alienantes
programas populares na TV. Um contato mais estreito com os moradores de
determinado bairro começou a revelar a existência de múltiplas
formas de diversão, entretenimento e encontro através das
quais se desfrutava o tempo livre: festas de casamento, almoços
de batizado, comemorações de aniversários, bailes,
torneios e festivais de futebol de várzea, festas de candomblé
e umbanda, quermesses, circos, excursões, etc.
Por
outro lado, essas modalidades de lazer tampouco constituíam
um todo indiferenciado, disponível e desfrutável por todos,
de forma aleatória: havia uma ordem. Era possível distinguir,
por exemplo, formas de entretenimento características de homens,
por oposição às de mulheres; de crianças
versus de adultos; de rapazes e moças, e assim por diante.
Outra classificação ordenava as formas de lazer segundo o
local do desfrute, através dos eixos "em casa" e "fora de
casa". "Fora de casa", por sua vez, subdividia-se em "no pedaço"
e "fora do pedaço".
Este
último, pedaço, aparecia em outras situações,
denotando lealdades, códigos compartilhados, pertencimentos;
a recorrência de seu uso apontava para uma riqueza de significados
que valia a pena investigar. Era, sem dúvida, uma categoria nativa"
que não podia deixar de ser incorporada, após, evidentemente,
algum trabalho dedicado a determinar seu campo de aplicação
e remontá-la, em outro nível.
E
assim ocorreu. Uma primeira análise mostrou que a categoria pedaço
era formada por dois elementos básicos: um de ordem espacial, físico,
sobre o qual se estendia uma determinada rede de relações.
O primeiro configurava um território claramente demarcado: o telefone
público, a padaria, este ou aquele bar, o terminal da linha de ônibus,
talvez um templo ou terreiro e outros pontos mais delineavam seu
entorno.
As
características desses equipamentos definidores de fronteiras mostravam
que o território assim delimitado constituía um lugar de
passagem e encontro. Entretanto, não bastava passar por esse lugar
ou mesmo frequentá-lo com alguma regularidade para "ser do pedaço";
era preciso estar situado numa peculiar rede de relações
que combina laços de parentesco, vizinhança, procedência,
vínculos definidos por participação em atividades
comunitárias e desportivas, etc. Assim, era o segundo elemento
a rede de relações que instaurava um código capaz
de separar, ordenar, classificar: era, em última análise,
por referência a esse código que se podia dizer quem era e
quem não era "do pedaço", e em que grau: "colega",
"chegado", "xará", etc.
"O
termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre
o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade
básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém
mais densa, significativa e estável que as relações
formais e individualizadas impostas pela sociedade." (MAGNANI, 1998,
p. 116).
É
aí
que se tece a trama do cotidiano: a vida do dia-a-dia, a prática
da devoção, o desfrute do lazer, a troca de informações
e pequenos serviços, os inevitáveis conflitos, a participação
em atividades vicinais. Para uma população sujeita às
oscilações do mercado de trabalho, à precariedade
dos equipamentos urbanos e a um cotidiano que não se caracteriza,
precisamente, pela vigência dos direitos de cidadania, pertencer
a um pedaço significa dispor de uma referência concreta, visível
e estável daí a importância do caráter territorial
na definição da categoria. Pertencer ao pedaço significa
também poder ser reconhecido em qualquer circunstância, o
que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade que até
mesmo os "bandidos" da vila, de alguma forma, acatam.
"Pessoas
de pedaços diferentes, ou alguém em trânsito por um
pedaço que não o seu, são muito cautelosas: o conflito,
a hostilidade estão sempre latentes, pois todo lugar fora do pedaço
é aquela parte desconhecida do mapa e, portanto, do perigo"
(idem, ibidem, p. 116/117)
Resumindo,
nem a universalidade abstrata do mundo legal, nem o particularismo das
obrigações e deveres ditados por laços de parentesco:
"Para
além da soleira da casa, portanto, não surge repentinamente
o resto do mundo. Entre uma e outro situa-se um espaço de mediação
cujos símbolos, normas e vivências permitem reconhecer as
pessoas diferenciando-as, o que termina por atribuir-lhes uma identidade
que pouco tem a ver com a produzida pela interpelação da
sociedade mais ampla e suas instituições" (idem, ibidem,
p. 117)
Até
aqui, o contexto da pesquisa era o bairro. A pergunta que se colocava era:
e o que acontece em outros pontos do território urbano? Pedaço
serviria para designar outros estilos de apropriação do espaço
e sociabilidade em regiões centrais da cidade? Em outros termos:
existem pedaços no centro?
5.
Sociabilidade no centro
Se
o uso da categoria pedaço no contexto do bairro tinha como
referência a moradia e vizinhança, na pesquisa
que se seguiu
tal conotação desaparece: as unidades de análise
eram, agora, definidas em função exclusivamente
de atividades de lazer e encontro. O que se queria saber é se por
ocasião dessas práticas, num território heterogêneo
e acessível a todos como é o centro da cidade, estabelecem-se
vínculos, sinais de reconhecimento e delimitação de
espaço, de forma que aí também seja possível
definir quem é e quem não é "do pedaço" .
Neste
novo contexto foi possível perceber uma nova forma de relação
entre os componentes básicos da categoria, o simbólico
e o espacial, com sensíveis diferenças nos estilos de apropriação
e uso do espaço.
Numa
primeira modalidade, o componente determinante que dá o tom é
o simbólico. Os códigos são de tal maneira explicitados
que não há lugar para dúvidas: é o que acontece
em determinados espaços gay - bares e locais de encontro, espetáculos
e dança de "entendidos" e "entendidas"; bares, lojas de discos e
cabeleireiros black; salões de dança de clubbers; pontos
de encontro e zoada de punks, góticos, funções, carecas;
bares happy-hour de yuppies; o café dos artistas nas imediações
do Ponto Chic no Largo do Paissandu, ponto de encontro de artistas circenses
às segundas-feiras e assim por diante. Como exemplo de identificação
de, Um trecho do relatório da pesquisa ilustra essa noção
de pedaço:
(...)
"e a rua 24 de Maio é a via de acesso. Chama a atenção
a calma reinante na rua, em contraste com a costumeira agitação
de um dia útil; é até possível perceber um
grupo de "punks" e mais adiante outro, de "funções",
possivelmente dirigindo-se à loja Piter, bem a seu gosto, com grifes
acessíveis ao orçamento de office-boys. Nessa rua, porém,
destaca-se uma das tantas galerias da região: Centro Comercial Presidente,
ocupada por lojas de discos "funk", "disco" e outros ritmos dançantes
(Disco Mania Blacks, Truck's Discos), além de outros serviços
como cabeleireiros "black" (Gê Curl Wave, Almir Black Power, Gueto
Black Power) que reforçam a particular "gramática" de
sua ocupação característica: é um "pedaço"
negro que aglutina rapazes e moças em torno de algumas marcas
de negritude como determinada estética, música, ritmo, freqüência
a shows e danceterias como Chic Show. Zimbabwe, Skina Club etc.
(in MAGNANI & TORRES, 2000: 40)
Quando
jovens negros saem de suas casas e dirigem-se a este seu pedaço,
no centro da cidade, não o fazem, necessariamente, para dar um trato
no visual ou comprar discos: vão até lá para encontrar
seus iguais, exercitar-se no uso dos códigos comuns, apreciar os
símbolos escolhidos para marcar as diferenças. É bom
estar lá, rola um papo legal, fica-se sabendo das coisas... e é
assim que a rede da sociabilidade vai sendo tecida.
A
diferença com a idéia do pedaço tradicional, aquele
encontrado no âmbito da vizinhança, é que aqui
os freqüentadores não necessariamente se conhecem ao menos
não por intermédio de vínculos construídos
no dia-a-dia do bairro mas sim se reconhecem enquanto portadores dos
mesmos símbolos que remetem a gostos, orientações,
valores, hábitos de consumo, modos de vida semelhantes.
Está-se
entre iguais, nesses lugares: o território é claramente delimitado
por marcas exclusivas. O componente espacial do pedaço, ainda que
inserido num equipamento de amplo acesso, (no caso, uma galeria) não
comporta ambigüidades porque está impregnado pelo aspecto simbólico
que lhe empresta a forma de apropriação característica.
O
segundo caso é quando o fator determinante da apropriação
é exercido pelo componente espacial: trata-se de lugares que
funcionam como ponto de referência para um número mais
diversificado de freqüentadores. Sua base é mais ampla, permitindo
a circulação de gente oriunda de várias procedências.
Estamos agora falando de manchas neste caso, de lazer como
a do Bexiga, as da rua Augusta, a da região do Bar Avenida em Pinheiros,
a dos Jardins, entre tantas outras.
Emprego
o termo mancha para designar uma área contígua do espaço
urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam cada
qual com sua especificidade, competindo ou complementando uma atividade
ou prática predominante. Um trecho descrevendo a caminhada pelo
Bexiga pode dar uma idéia:
(...).
Este
é o Bexiga que aqui interessa, aquele que de repente é outro,
o da mancha de lazer, tão conhecido. Caminhar por ele não
é só prestar atenção para o cenário
que à noite é muito diferente, apesar de o referencial físico
ser o mesmo do Bexiga-bairro. Subir o pequeno trecho da rua Treze de Maio
a partir do Café Soçaite, por exemplo, é perceber
uma multiplicidade de cheiros, cores, luzes, sons, de ambos os lados da
rua, do mais "nobre" e do outro. E encontrar gente, também. Principalmente.
No Bexiga tem de tudo: "entendidos" e "entendidas", antigos hippies, casais,
turistas, famílias inteiras, garotos, intelectuais. Tudo depende
da hora, claro, pois alguns desses atores têm horário e local
certos. A caminhada pelo Bexiga ensina que para entender sua dinâmica
é preciso estar atento à sua diversidade, mas já identificando
nela sistemas de oposições, eixos de classificação:
bares / cantinas; cafés / botecos; teatros / casas de shows; MPB
/ jazz/ rock; famílias / bandos; pares / solitários; dia
/ noite / madrugada; dias úteis / fins de semana; sexta / sábado
/ domingo; igreja de Nossa Senhora de Achiropita / Centro Espírita
de Umbanda Caboclo Arutaê; italianos / negros / nordestinos; Escola
de Samba / banda de rock; pizza / sanduíche / fogazza; moradores
/ freqüentadores, etc. Sacrossanta mistura! E quanto mais
se caminha, mais elementos vêm aumentar essa lista. Mas começam
a aparecer, também, pistas orientadoras: algum diálogo,
alguma relação deve existir entre esses elementos, entre
os vários Bexigas. E já que o objeto de observação
é basicamente o cenário, começa a delinear-se uma
ligação, poderosa, entre o Bexiga do lazer em toda sua variedade
e o Bexiga bairro: é este que fornece ao primeiro o espaço
físico o traçado das ruas, a contigüidade dos estabelecimentos,
a escala das edificações, as próprias edificações
transformadas em casas noturnas. É esse desenho e particular arranjo
que explicam o reforço, mais que a competição,
entre as casas, por obra do efeito "espelhamento": os estabelecimentos
dialogam, conversam, opõem-se, complementam-se uns ao lado dos
outros e frente a frente. Existe um estímulo para passar de lá
para cá, subir e descer, parar e espiar antes de decidir-se por
este ou aquele bar, boteco ou casa de show. (in MAGNANI & TORRES,
2000: 41,42)
Assim,
numa mancha caracterizada pelo lazer como a do Bexiga, descrita mais acima,
os equipamentos podem ser bares, restaurantes, cinemas, teatros, etc. que
se complementam ou competem entre si, mas que no conjunto concorrem para
o mesmo efeito.
O
termo também se aplica a espaços marcados e procurados por
outras atividades: Faculdades /livrarias /bibliotecas /papelarias /xerox
/cafés são, entre outros, equipamentos que delimitam uma
área na cidade marcada pela atividade de ensino; Hospitais /consultórios
particulares /centros de fisioterapia /farmácias /raio X /lojas
de material cirúrgico, etc. constituem uma mancha ligada à
saúde. As lojas de tecidos e malhas, assim como as de aviamentos
e produtos de couro no Brás procuradas por atacadistas e varejistas,
sustentam uma intrincada rede de sociabilidade que vai além da mera
compra de produtos
. E assim por diante. Como se verá, uma mancha é recortada
por trajetos e pode também abrigar vários pedaços.
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