Rua, símbolo e suporte da experiência urbana - José Guilherme Cantor Magnani
 parte 2
 
 
 
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3.- O olhar antropológico.
 

Inicialmente vale lembrar que a antropologia clássica desenvolveu seus métodos de trabalho e construiu seus  arcabouços conceituais com base principalmente na observação e análise dos então denominados povos "primitivos" ou sociedades de pequena escala, numa  terminologia mais atual. Apesar de não mais se aceitar – com razão –  a oposição entre "sociedades simples" versus "sociedades complexas" para estabelecer o ponto de corte entre aqueles grupos tradicionalmente estudados pelos antropólogos e as sociedades urbano-industriais, não se pode negar que o modo de operar da antropologia, seja qual for o contexto de seu estudo, carrega inevitavelmente as marcas das primeiras incursões a campo. Que não deixam de ser particularmente sentidas – seja como vantagem ou dificuldade – quando o que se tem pela frente são questões, objetos e temas próprios das sociedades contemporâneas, na sua escala e complexidade características. Mas como opera, afinal, a antropologia?

A prática da etnografia, que caracteriza o métier do antropólogo, supõe  a delimitação de contextos empíricos onde seja possível trabalhar com determinados  instrumentos tais como a observação direta de comportamentos, a observação participante (quando há um maior envolvimento no cotidiano), coleta de depoimentos, de histórias de vida, narrativas orais, termos de parentesco, descrição de rituais, etc.

Cabe observar, contudo, que etnografia não é uma mera descrição,  coleta de dados brutos a serem posteriormente trabalhados: o que se observa e a forma como se ordenam as primeiras observações constituem já parte integrante do processo de interpretação.

Esta forma de operar, portanto,  não exclui – ao  contrário, supõe – a utilização  de quadros teóricos mais amplos, o conhecimento de variáveis mais abrangentes, a inserção em processos históricos pertinentes. A alternância entre ambos os níveis – o trabalho com os significados em nível local e sua colocação em quadros mais gerais – descrita por Geertz através dos termos "experience-near" e "experience-distant", (GEERTZ, 1983)  caracteriza a dinâmica do trabalho do antropólogo, dentro de uma perspectiva interpretativa.

Existem algumas precauções que o  antropólogo urbano procura tomar e uma delas diz respeito à forma como encara seu objeto de estudo. Se diante de uma cultura radicalmente diferente da sua  a atitude  é no sentido de procurar transformar o "exótico", ou melhor, o que lhe aparece inicialmente como estranho, sem sentido – porque ainda não conhecido –  em familiar, o caminho daquele que enfrenta sua própria sociedade é inverso: trata-se, aqui, de transformar o familiar, o que já é (aparentemente) conhecido  em estranho, de forma a escapar à armadilha do senso comum. (DA MATTA, 1974; VELHO e VIVEIROS, 1978).

O segundo cuidado  é resistir à tentação de encarar o objeto de pesquisa escolhido – este ou aquele bairro, tal ou qual seita religiosa, instituição social, prática cultural ou movimento popular – como se constituíssem uma "aldeia", nos moldes de algumas das sociedades tradicionalmente estudadas pelos antropólogos. Seja qual for o recorte escolhido, é preciso levar em consideração a malha de relações que mantém com a sociedade envolvente: a dinâmica de um espaço  não se esgota no seu perímetro, assim como o significado mais amplo de uma comunidade religiosa afro-brasileira vai além dos limites do terreiro.

O desafio é manter as características da pesquisa etnográfica – a tradição da descrição e análise minuciosas, do contato prolongado, da busca de relação  direta com os informantes – sem perder de vista o quadro mais amplo no qual os fenômenos culturais se desenvolvem, nas sociedades modernas.

Tendo apresentado, de forma resumida, algumas das especificidades do olhar e do modo de operar da antropologia, trata-se agora de mostrar  resultados mais concretos a respeito do tema proposto. As observações que seguem, em torno  das categorias manchas, pedaços, trajetos, pórticos, são o produto de  pesquisas que realizei sobre práticas de lazer, locais de encontro e formas de sociabilidade no contexto da cidade de São Paulo. Tais categorias constituem uma tentativa de  identificar espaços, personagens e  comportamentos tendo em vista a inevitável e característica diversidade das práticas urbanas. Seu propósito é perceber regularidades,  padrões e significados lá onde muitas vezes o senso comum não vê senão o resultado de escolhas feitas de forma individual e aleatória.

Para apreciar diferentes tipos de experiências da rua, conforme a denominação dada neste texto, às vivências  de sociabilidade em determinados espaços da cidade, foram escolhidos, dois contextos, o do bairro e o centro.
 
 
 

4. Sociabilidade no bairro

O primeiro contexto onde se pode perceber a relação entre uma forma de sociabilidade  e determinada delimitação do espaço urbano é o bairro, e bairro popular, de periferia.  Justamente para descrever e explicar um tipo particular de relações entre ambos os níveis é que foi elaborada a categoria pedaço, no decorrer de uma pesquisa sobre formas de cultura popular e modalidades de lazer que ocupam o tempo livre dos trabalhadores, nos bairros da periferia da cidade de São Paulo.  Ao invés de pensá-las simplesmente como um  mecanismo de reprodução da força de trabalho, o que se pretendia era, através da abordagem antropológica, detectar seu significado a partir do discurso e da prática concreta dos personagens diretamente envolvidos nessa rede de lazer.

Inicialmente tratava-se de demonstrar que, ao contrário de uma afirmação bastante em voga, os fins de semana dos trabalhadores não eram utilizados apenas para complementar, através de "bicos", os magros  orçamentos domésticos, nem eram gastos diante dos intermináveis e alienantes programas populares na TV. Um contato mais estreito com os moradores de determinado bairro começou a revelar a existência de múltiplas formas de diversão, entretenimento e encontro através das quais se desfrutava  o tempo livre: festas de casamento, almoços de batizado, comemorações de aniversários, bailes, torneios e festivais de futebol de várzea,  festas de candomblé e umbanda, quermesses, circos, excursões, etc.

Por outro lado,  essas modalidades de lazer tampouco constituíam um todo indiferenciado, disponível e desfrutável por todos, de forma aleatória: havia uma ordem. Era possível distinguir, por exemplo, formas de entretenimento características de homens, por oposição às de mulheres;  de crianças versus  de adultos; de rapazes e moças, e assim por diante. Outra classificação ordenava as formas de lazer segundo o local  do desfrute, através dos eixos "em casa" e "fora de casa". "Fora de casa", por sua vez, subdividia-se em "no pedaço" e "fora do pedaço".

Este último, pedaço, aparecia em outras situações, denotando lealdades, códigos compartilhados,  pertencimentos; a recorrência de seu uso apontava para uma riqueza de significados que valia a pena investigar. Era, sem dúvida, uma “categoria nativa" que não podia deixar de ser incorporada, após, evidentemente, algum trabalho dedicado a determinar seu campo de aplicação e remontá-la, em outro nível.

E assim ocorreu. Uma primeira análise mostrou que a categoria pedaço era formada por dois elementos básicos: um de ordem espacial, físico, sobre o qual se estendia uma determinada rede de relações. O primeiro configurava um território claramente demarcado: o telefone público, a padaria, este ou aquele bar, o terminal da linha de ônibus, talvez um templo ou terreiro e outros pontos  mais delineavam seu entorno.

As características desses equipamentos definidores de fronteiras mostravam que o território assim delimitado constituía um lugar de passagem e encontro. Entretanto, não bastava passar por esse lugar ou mesmo frequentá-lo com alguma regularidade para "ser do pedaço"; era preciso estar situado numa peculiar rede de relações que combina laços de parentesco,  vizinhança, procedência, vínculos definidos por participação em atividades comunitárias e desportivas, etc. Assim, era o segundo elemento – a rede de relações – que instaurava um código capaz de separar, ordenar, classificar: era, em última análise,  por referência a esse código que se podia dizer quem era e quem não era "do pedaço", e  em que grau:  "colega", "chegado", "xará", etc.
 

"O termo na realidade designa aquele espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público, onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável que  as relações formais e individualizadas impostas pela sociedade." (MAGNANI, 1998, p. 116).


É aí que se tece a trama do cotidiano: a vida do dia-a-dia, a prática da devoção, o desfrute do lazer, a troca de informações e pequenos serviços, os inevitáveis conflitos, a participação em atividades vicinais. Para uma população sujeita às oscilações do mercado de trabalho, à precariedade dos equipamentos urbanos e a um cotidiano que não se caracteriza,  precisamente, pela vigência dos direitos de cidadania, pertencer a um pedaço significa dispor de uma referência concreta, visível e estável – daí a importância do caráter territorial na definição da categoria. Pertencer ao pedaço significa também poder ser reconhecido em qualquer circunstância, o que implica o cumprimento de determinadas regras de lealdade que até mesmo os "bandidos" da vila, de alguma forma, acatam.
 

"Pessoas de pedaços diferentes, ou alguém em trânsito por um pedaço que não o seu, são muito cautelosas: o conflito, a hostilidade estão sempre latentes, pois todo lugar fora do pedaço é aquela parte desconhecida do mapa e, portanto, do perigo" (idem, ibidem, p. 116/117)


Resumindo, nem a universalidade abstrata do mundo legal, nem o particularismo das obrigações e deveres ditados por laços de parentesco:
 

"Para além da soleira da casa, portanto,  não surge repentinamente o resto do mundo. Entre uma e outro situa-se um espaço de mediação cujos símbolos, normas e vivências permitem reconhecer as pessoas diferenciando-as, o que termina por atribuir-lhes uma identidade que pouco tem a ver com a produzida pela interpelação da sociedade mais ampla e suas instituições" (idem, ibidem, p. 117)


Até aqui, o contexto da pesquisa era o bairro. A pergunta que se colocava era: e o que acontece em outros pontos do território urbano? Pedaço serviria para designar outros estilos de apropriação do espaço e sociabilidade em regiões centrais da cidade? Em outros termos: existem pedaços no centro?
 
 
 

5. Sociabilidade no centro

Se o uso da categoria pedaço no contexto do bairro  tinha como referência a moradia e vizinhança, na pesquisa que se seguiu  tal conotação desaparece:  as  unidades de análise eram, agora,  definidas em função exclusivamente  de atividades de lazer e encontro. O que se queria saber é se por ocasião dessas práticas, num território heterogêneo e acessível a todos como é o centro da cidade, estabelecem-se vínculos, sinais de reconhecimento e delimitação de espaço, de forma que aí também seja possível definir quem é e quem não é "do pedaço"

Neste novo contexto foi possível perceber uma nova forma de relação entre os  componentes básicos da categoria, o  simbólico e o espacial, com sensíveis diferenças nos estilos de apropriação e uso do espaço.
 Numa primeira modalidade, o componente determinante que dá o tom é o simbólico. Os códigos são de tal maneira explicitados que não há lugar para dúvidas: é o que acontece em determinados espaços gay - bares e locais de encontro, espetáculos e dança de "entendidos" e "entendidas"; bares, lojas de discos e cabeleireiros black; salões de dança de clubbers; pontos de encontro e zoada de punks, góticos, funções, carecas; bares happy-hour de yuppies; o café dos artistas nas imediações do Ponto Chic no Largo do Paissandu, ponto de encontro de artistas circenses às segundas-feiras e assim por diante. Como exemplo de identificação de, Um trecho do relatório da pesquisa ilustra essa noção de  pedaço:
 

(...) "e a rua 24 de Maio é a via de acesso. Chama a atenção a calma reinante na rua, em contraste com a costumeira agitação de um dia útil; é até possível perceber um grupo de "punks"  e mais adiante outro, de "funções", possivelmente dirigindo-se à loja Piter, bem a seu gosto, com grifes acessíveis ao orçamento de office-boys. Nessa rua, porém, destaca-se uma das tantas galerias da região: Centro Comercial Presidente,  ocupada por lojas de discos "funk", "disco" e outros ritmos dançantes (Disco Mania Blacks, Truck's Discos), além de outros serviços como cabeleireiros "black" (Gê Curl Wave, Almir Black Power, Gueto Black Power) que reforçam a particular "gramática" de  sua  ocupação característica: é um "pedaço" negro  que aglutina rapazes e moças em torno de algumas marcas de negritude como determinada estética, música, ritmo, freqüência a shows e danceterias como  Chic Show. Zimbabwe, Skina Club etc. (in MAGNANI & TORRES, 2000: 40)
Quando jovens negros saem de suas casas e dirigem-se  a este  seu pedaço, no centro da cidade, não o fazem, necessariamente, para dar um trato no visual ou comprar discos: vão até lá para encontrar seus iguais, exercitar-se no uso dos códigos comuns, apreciar os símbolos escolhidos para marcar as diferenças. É bom estar lá, rola um papo legal, fica-se sabendo das coisas... e é assim que a rede da sociabilidade vai sendo tecida.

A diferença com a idéia do pedaço tradicional, aquele encontrado no âmbito da vizinhança,  é que aqui os freqüentadores não necessariamente se conhecem – ao menos não por intermédio de vínculos construídos no dia-a-dia do bairro – mas sim se reconhecem enquanto portadores dos mesmos símbolos  que remetem a gostos, orientações, valores, hábitos de consumo,  modos de vida semelhantes.

Está-se entre iguais, nesses lugares: o território é claramente delimitado por marcas exclusivas. O componente espacial do pedaço, ainda que inserido num equipamento de amplo acesso, (no caso, uma galeria) não comporta ambigüidades porque está impregnado pelo aspecto simbólico que lhe empresta a forma de apropriação  característica.

O segundo caso é quando o fator determinante da apropriação é exercido pelo componente espacial: trata-se de lugares  que funcionam como ponto de referência para um número mais  diversificado de freqüentadores. Sua base é mais ampla, permitindo a circulação de gente oriunda de várias procedências. Estamos agora falando de manchas – neste caso, de lazer –  como  a do Bexiga, as da rua Augusta, a da região do Bar Avenida em Pinheiros, a dos Jardins, entre tantas outras.

Emprego o termo mancha  para designar uma área contígua do espaço urbano dotada de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam – cada qual com sua especificidade, competindo ou complementando – uma atividade ou prática predominante. Um trecho descrevendo a caminhada pelo Bexiga pode dar uma idéia:
 

(...). Este é o Bexiga que aqui interessa, aquele que de repente é outro, o da mancha de lazer, tão conhecido. Caminhar por ele não é só prestar atenção para o cenário que à noite é muito diferente, apesar de o referencial físico ser o mesmo do Bexiga-bairro. Subir o pequeno trecho da rua Treze de Maio a partir do Café Soçaite, por exemplo, é perceber uma multiplicidade de cheiros, cores, luzes, sons, de ambos os lados da rua, do mais "nobre" e do outro. E encontrar gente, também. Principalmente. No Bexiga tem de tudo: "entendidos" e "entendidas", antigos hippies, casais, turistas, famílias inteiras,  garotos, intelectuais. Tudo depende da hora, claro, pois alguns desses atores têm horário e local certos. A caminhada pelo Bexiga ensina que para entender sua dinâmica é preciso estar atento à sua diversidade, mas já identificando nela sistemas  de oposições, eixos de classificação: bares / cantinas; cafés / botecos; teatros / casas de shows; MPB / jazz/ rock; famílias / bandos; pares / solitários; dia / noite / madrugada; dias úteis / fins de semana; sexta / sábado / domingo; igreja de Nossa Senhora de Achiropita / Centro Espírita de Umbanda Caboclo Arutaê; italianos / negros / nordestinos; Escola de Samba / banda de rock; pizza / sanduíche / fogazza; moradores / freqüentadores, etc.  Sacrossanta mistura! E  quanto mais se caminha, mais elementos vêm aumentar essa lista. Mas começam a aparecer, também,  pistas orientadoras: algum diálogo, alguma relação deve existir entre esses elementos, entre os vários Bexigas. E já que o objeto de observação é basicamente o cenário, começa a delinear-se uma  ligação, poderosa, entre o Bexiga do lazer em toda sua variedade e  o Bexiga bairro: é este que fornece ao primeiro o espaço físico – o traçado das ruas, a contigüidade dos estabelecimentos, a escala das edificações, as próprias edificações – transformadas em casas noturnas. É esse desenho e particular arranjo que explicam  o reforço, mais que a competição,  entre as casas, por obra do efeito  "espelhamento": os estabelecimentos dialogam, conversam, opõem-se, complementam-se – uns ao lado dos outros e frente a frente. Existe um estímulo para passar de lá para cá, subir e descer, parar e espiar – antes de decidir-se por este ou aquele bar, boteco ou casa de show. (in MAGNANI & TORRES, 2000: 41,42)


Assim, numa mancha caracterizada pelo lazer como a do Bexiga, descrita mais acima, os equipamentos podem ser bares, restaurantes, cinemas, teatros, etc. que se complementam ou competem entre si, mas que no conjunto concorrem para o mesmo efeito.

O termo também se aplica a espaços marcados e procurados por outras atividades: Faculdades /livrarias /bibliotecas /papelarias /xerox /cafés são, entre outros, equipamentos que delimitam uma área na cidade marcada pela atividade de ensino; Hospitais /consultórios particulares /centros de fisioterapia /farmácias /raio X /lojas de material cirúrgico, etc. constituem uma mancha ligada à saúde. As lojas de tecidos e malhas, assim como as de aviamentos e produtos de couro no Brás – procuradas por atacadistas e varejistas, sustentam uma intrincada rede de sociabilidade que vai além da mera compra de produtos . E assim por diante.  Como se verá, uma mancha é recortada por trajetos e pode também abrigar  vários pedaços.
 


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