Três pensadores do século
vinte
Com o objetivo de preparar o terreno
para uma metafísica alternativa da visão, embarcarei, em
seguida, em uma espécie de triangulação teórica.
Farei isso por meio da avaliação das idéias de três
pensadores de meados do século vinte, todos os quais têm coisas
importantes a dizer sobre a visão e que são críticas,
de um modo ou de outro, a Descartes. O primeiro, Hans Jonas, fez um grande
esforço para estabelecer as diferenças entre visão,
audição e tato enquanto modalidades sensoriais. Para ele,
a visão era, de fato, o sentido superior, não devido à
sua identificação com a razão, mas às suas
propriedades fenomênicas peculiares. O segundo, James Gibson, rejeitou
o modelo em dois estágios da percepção visual e, com
ele, o dualismo cartesiano clássico de corpo e mente. Gibson argumentou
que a percepção é uma atividade não da mente,
a partir daquilo que os sentidos lhe oferecem, mas de todo o organismo
em seu cenário ambiental. A visão não é, portanto,
indireta, como sustentava Descartes, mas direta. O terceiro, Maurice Merleau-Ponty,
talvez tenha ido mais longe que qualquer outro pensador recente ao reconhecer
que a visão não diz respeito apenas a ver coisas, mas é,
crucialmente, uma experiência da luz. Recusando-se a estabelecer
qualquer fronteira absoluta ou linha de demarcação entre
o perceptor e o percebido, Merleau-Ponty sustentou que a luz é equivalente
ao que experienciamos, na visão, como uma abertura do corpo para
o mundo.
Hans Jonas
O que torna a visão distinta,
para Jonas, consiste em três propriedades que pertencem unicamente
a essa modalidade sensorial, a saber: simultaneidade, neutralização
e distância (Jonas, 1966: 136). A primeira se refere à habilidade
de absorver o mundo com um olhar de relance, de modo que a diversidade
que está presente toda de uma vez possa ser apreendida toda de uma
vez. Nem a audição nem o tato podem conseguir isso. Reiterando
um ponto de vista bem estabelecido, a que já nos referimos, Jonas
argumenta que, enquanto podemos ver coisas, ouvimos sons e não as
entidades cuja atividade dá origem a eles. Assim, ouvimos o latido,
mas não o cachorro, cuja presença pode ser inferida apenas
com base em informações não acústicas. E não
há som que não esteja suspenso no correr do tempo. A duração
do som que ouvimos é a mesma que a do tempo em que o estamos ouvindo;
o que se desenlaça no tempo é, também, apreendido
no tempo. É verdade que sons distintos podem coexistir ou estarem
justapostos, mas cada qual pertence a um entre vários “fios” que
ocorrem concorrentemente, e não pode ser apreendido separadamente
do fluxo temporal. Pare o fluxo e o que você terá não
é um instantâneo coerente, mas uma coleção de
fragmentos atômicos. O tato compartilha com a audição
essa qualidade da temporalidade, ao menos no que diz respeito ao perceptor.
Ainda assim, diferentemente da audição, os dados do tato
podem ser sintetizados de modo a revelar a presença estável
dos objetos. Nesse sentido, o tato se aproxima mais da visão. Assim,
até certo ponto, os cegos podem conseguir por meio de suas mãos
aquilo que os que enxergam conseguem com seus olhos. Ainda assim, a diferença
entre o tato e a visão continua a ser fundamental. A descoberta
de objetos pelo tato necessita de uma exploração ativa do
ambiente, o que exige movimento e toma tempo. Com a visão, tem-se
apenas que abrir os olhos e o mundo está lá, já desdobrado
como um terreno para qualquer exploração posterior. Somente
com a visão, portanto, é que é possível distinguir
ser de tornar-se e, a partir daí, ter uma concepção
de mudança. Para a audição e o tato, que podem conhecer
o mundo somente por meio do movimento da atividade perceptiva, não
há mudança nem estase, apenas tornar-se (Jonas 1966: 136-45).
A segunda propriedade da visão,
que Jonas denomina de neutralização, consiste no desapego
entre o perceptor e o que é visto. Tocar algo exige uma ação
de sua parte, à qual o objeto responde de acordo com sua natureza.
Escutar pressupõe uma ação da parte do objeto que
gera o som, ao qual você responde de acordo com sua sensibilidade.
Assim, na medida em que o equilíbrio da ação muda
do sujeito (no tato) para o objeto (na audição), há,
entre ambos, um engajamento de um tipo que está inteiramente ausente
no caso da visão. O objeto não precisa de nada para ser visto,
já que a fonte da luz pela qual ele é revelado está
em outro lugar. E para ver o objeto, não precisamos assumir uma
atitude em relação a ele. “Ao ver”, Jonas escreve, “o perceptor
permanece inteiramente livre do envolvimento causal das coisas a serem
percebidas” (1966:148). Assim, a visão é neutralizadora,
já que revela o objeto simplesmente pelo que ele é. O que
se perde em termos de uma compreensão intuitiva da conexão
das coisas é compensado por um ganho em termos de objetividade.
Em vez de afetar o perceptor, como fazem o tato e a audição,
a visão oferece ao perceptor uma imagem que, transmitida ao pensamento,
pode ser manipulada à vontade, sem maiores conseqüências
para o próprio objeto. Mas precisamente por conta de sua neutralização,
os objetos da visão são, em certo sentido, “mudos”, já
que eles não falam conosco ou se endereçam às preocupações
humanas quando revelam sua presença (Jonas, 1966: 145-9).
A terceira propriedade da visão,
a distância espacial, é relativamente auto-evidente. Em um
ambiente livre de obstrução, podemos ver a uma grande distância.
O tato não se estende além do alcance do corpo, aumentado,
talvez, por bastões ou outras próteses desse tipo. O som
vai além, mas tem limites, e é especialmente suscetível
a distorções em suas margens. Além disso, quando ouço
um som distante, ainda que eu possa ser capaz de estimar a direção
e a distância de sua fonte em relação ao lugar em que
me encontro, ainda não tenho idéia – unicamente pela informação
acústica – do que está entre mim e o som. É peculiar
à visão, por outro lado, revelar não apenas objetos
distantes, mas também uma paisagem abrangente, que se estende do
meu presente local até o horizonte. Eu poderia, então, enveredar
por uma trilha que me levasse a qualquer um desses objetos com algum conhecimento
anterior do que estivesse me esperando pelo caminho (Jonas 1966: 149-52).
Ainda, em um apêndice, Jonas adiciona uma qualificação
crucial a esse argumento. Como ele admite, então, a visão
nunca revelaria o mundo do modo como ela o faz, organizado em profundidade
e se estendendo para longe de nós, se já não estivéssemos
acostumados a nos mover através dele e, ao fazê-lo, incorporar
suas características em estruturas de consciência tátil.
O tato, em suma, confirma a materialidade do visível. Daí
a mobilidade do corpo ser um fator da própria constituição
da visão e do mundo visto. À primeira vista, essa proposição
parece estar em descompasso com a tese da simultaneidade da percepção
visual, que afirma que o mundo pode ser apreendido por um relance a partir
de um ponto fixo. A solução de Jonas para esse paradoxo é
argumentar que somos capazes de ver o mundo como um espetáculo,
de uma posição de repouso, precisamente porque o fazemos
à luz da “experiência acumulada do movimento realizado” (1966:
154), resultante de uma história de atividades anteriores. Em resumo,
a dinâmica do movimento corporal estabelece a fundação
essencial para a experiência estática da visão, mas
não é, ela mesma, parte dessa experiência (Jonas 1966:
152-6).
James Gibson
Gibson se discordaria fundamentalmente
com relação a este último ponto. O Movimento, do modo
como ele vê, é integral à visão tanto quanto
ao tato; além disso, não há necessidade de um sentido
ser validado por outro (Gibson 1966: 55). Não tentarei oferecer
uma avaliação completa da abordagem ecológica que
Gibson faz da percepção visual, dado que outros já
o fizeram (Michaels e Carello, 1981, Reed 1988b). Entretanto, há
três aspectos dessa abordagem que me interessa expor aqui. Primeiramente,
explicarei de modo mais preciso o que Gibson queria dizer ao afirmar que
a modalidade visual, assim como outras modalidades de percepção,
é direta ao invés de indireta. Em segundo lugar, mostrarei
como a concepção de Gibson dos sentidos como sistemas perceptuais,
e não como registros de experiência específicamente
relacionados a estímulos, torna as distinções entre
visão, audição e tato muito menos claras do que estamos
inclinados a pensar. Em terceiro lugar, pretendo explorar os argumentos
específicos pelos quais Gibson nega que vemos a luz enquanto tal.
Nesse ponto, sugiro, suas idéias ainda estão firmemente enraizadas
na tradição cartesiana.
Para Descartes, como devem se lembrar,
a mente é incapaz de se misturar ao mundo. Trancada no confinamento
do corpo, tudo que ela pode fazer é executar várias manobras
de cálculo, com base em estímulos registrados no cérebro,
de modo a construir uma representação mais ou menos precisa
do mundo exterior. Era isso que Descartes queria dizer quando descreveu
a percepção – seja ela visual ou tátil – como indireta.
Gibson sustenta, pelo contrário, que a percepção é
direta. Com isso, ele não quer dizer que ela pode, de algum modo,
trespassar o cérebro; qualquer sugestão desse tipo seria
obviamente absurda. O que ele afirma é, antes, que deveríamos
deixar de pensar na percepção como a atividade computacional
de uma mente dentro de um corpo e vê-la, em vez disso, como uma atividade
exploradora do organismo dentro de seu ambiente. Como tal, ela não
fornece imagens ou representações. É como se ela guiasse
o organismo ao longo do avanço de seu projeto. O organismo preciso
perceptualmente é aquele cujos movimentos estão bem afinados
e são sempre responsivos às perturbações ambientais.
Por esse motivo, a percepção visual jamais pode ser desinteressada
ou puramente contemplativa, como afirmara Jonas. O que vemos é inseparável
de como vemos; e como vemos é, sempre, dado em função
da atividade prática na qual estamos presentemente engajados.
Face a tudo isso, Gibson pareceria
concordar com Descartes em que a visão e o tato são modos
estritamente comparáveis de contato sensorial com o ambiente. “Em
muitos aspectos”, escreve ele, “o sistema [háptico] funciona em
paralelo com a visão” (1966: 134). Além disso, vimos que
o ponto de vista de Gibson, segundo o qual a percepção de
qualquer tipo depende do movimento do perceptor em relação
à coisa percebida, também tem ressonâncias em Descartes.
Por trás da aparente convergência, entretanto, suas respectivas
posições são diametralmente opostas. Pois, no eixo
de contraste que Jonas entalha entre a neutralização e o
envolvimento, e que para ele distingue visão e tato, a perspectiva
cartesiana poria juntos tato e visão do lado da neutralização,
enquanto a perspectiva gibsoniana põe juntos visão e tato
do lado do engajamento. Ou, para resumir:
Tato
Visão
Descartes:
Neutralização
Neutralização
Jonas:
Engajamento
Neutralização
Gibson:
Engajamento
Engajamento
Seria errado, argumenta Gibson, pensar
nos olhos, nos ouvidos ou nas superfícies sensíveis da pele
simplesmente como loci para bancos de células receptoras que estão,
por sua vez, vinculados a centros de projeção no cérebro.
Em vez disso, eles devem ser entendidos como partes integrais de um corpo
que está continuamente em movimento, ativamente explorando o ambiente
na busca prática de sua vida no mundo. A visão, por exemplo,
não é um efeito do estímulo de fotorreceptores na
retina, aliado a processadores localizados no córtex visual. Ela
é, isso sim, uma conquista de um sistema que também abrange
as ligações neuromusculares que controlam o movimento e a
orientação dos órgãos nos quais os receptores
estão localizados. Esses órgãos podem ser especificados
em vários níveis de inclusividade crescente. Assim, “o olho
é parte de um órgão dual, um de um par de olhos móveis,
e eles estão localizados em uma cabeça que pode virar e que
está vinculada a um corpo que pode mover-se de um lugar para outro”.
Juntos, esses órgãos compreendem o que Gibson denomina o
sistema perceptual para a visão (Gibson 1979: 53, cf. 1966). Muito
disso é compartilhado com o sistema para a audição
e com o sistema para o tato. A cabeça, por exemplo, é comum
à visão e à audição; a ação
de virar a cabeça de modo a equilibrar a entrada auditória
do som emitido por uma fonte, fazendo com que chegue igualmente às
duas orelhas, localizadas uma de cada lado, também vira os olhos,
na frente, de modo que eles sejam orientados diretamente na direção
da fonte. Como esse exemplo mostra, os sistemas perceptuais não
apenas se imbricam em suas funções, mas também se
submetem a um sistema total de orientação corporal (Gibson
1966: 4, 49-51; 1979 :245). Olhar, ouvir e tocar, portanto, não
são atividades separadas; elas são apenas facetas diferentes
da mesma atividade: a do organismo todo em seu ambiente.
Por isso é que a idéia
proposta por Jonas - segundo a qual tendo feito uma exploração
exaustiva do mundo por meio do movimento, dependendo apenas de um sentido,
poderíamos, então, ficar inertes e absorvê-lo em um
relance por meio dos olhos - não teria feito qualquer sentido para
Gibson. Isso por duas razões. Primeira, exploramos o mundo com nossos
olhos abertos (mesmo quando paramos de olhar ao redor); segunda, a visão
não fornece um instantâneo, ou mesmo uma série de instantâneos.
Em vez disso, ela fornece uma apreciação dos objetos “de
todos os lados”. Não vemos um objeto, assim como não o sentimos,
de um único ponto de vista. Em vez disso, “fazendo correr os olhos
sobre ele” - do mesmo modo que poderíamos passar os dedos sobre
ele na percepção tátil – descobrimos sua forma como
o invólucro de um movimento, ou seja: da modulação
contínua do arranjo de luz refletida que alcança os olhos.
De fato, é porque a visão, como o tato, ocorre no tempo,
ao longo do que Gibson chama de “trilha de observação”
(1979: 197), que podemos ver aspectos de objetos que, em qualquer momento
particular, podem estar escondidos por beiradas que os bloqueiam. E já
que a informação oferecida pela operação de
sistemas perceptuais é específica das coisas encontradas,
e não do registro sensorial particular que é ativado, uma
mudança no equilíbrio do estímulo – digamos, do tátil
para o visual – pode causar diferenças pouco relevantes naquilo
que é realmente percebido. É claro que as sensações
da visão não são as mesmas que as do tato e da audição.
Mas os “padrões no fluxo de som, de toque e de luz do ambiente”,
que especificam os objetos de nossa atenção, podem ser estritamente
equivalentes (Gibson 1966: 54-4; 1979: 243).
Esse argumento implica um importante
corolário. Pois, se o que vemos é delineado pela padronização
ou modulação da luz refletida à medida que ela é
capturada pelos órgãos visuais em movimento, então,
a única coisa que nunca veremos deve ser a própria luz. À
questão “De todas as coisas que, provavelmente, podem ser vistas,
a luz é uma delas?”, Gibson responde com uma negativa categórica
(1979: 54). Em vez disso, diz ele que vemos coisas por meio da luz. Tendo
em vista a atitude resolutamente anticartesiana de Gibson, essa conclusão
– que está completamente de acordo com o ponto de vista de Descartes
sobre o assunto – parece algo surpreendente. De fato, ele admite estar
perplexo com a questão de como certos fenômenos parecem anunciar
sua presença diretamente, como a luz radiante, e não por
meio da iluminação de suas superfícies (19066:220).
Não é assim que percebemos uma fogueira flamejante, a luz
de um lampião, o sol e a lua, um feixe de luz solar passando através
das nuvens, um arco-íris, o brilho do sol refletido em uma
superfície brilhante ou as cintilações da luz na água?
Intuitivamente, parece que em cada um desses casos a luz é o que
realmente vemos. Ainda assim, para cada um deles, Gibson tem sua resposta:
o fogo e o lampião são “objetos específicos e estão
especificados dessa maneira”, do mesmo modo que os corpos celestes. Não
vemos realmente os feixes de luz solar, mas apenas partículas iluminadas
no ar. Deslumbrados pelo sol, o que realmente percebemos é “um fato
sobre o corpo”, a saber, seu excessivo estímulo óptico, experienciado
como um tipo de dor. Quanto aos arcos-íris, cintilações
e outras coisas do tipo, essas são “manifestações
da luz, não a luz enquanto tal” (1979: 55).
À medida, entretanto, que
os exemplos aumentam em número, a defesa de Gibson se torna cada
vez menos plausível. Em que sentido podemos, de modo aceitável,
ver a chama como um objeto? Ignorando o conhecimento da ciência e
dos livros escolares, como serão o sol e a lua explicitados?
[13] No que diz respeito aos feixes de luz solar, o senso comum nos diz
que vemos a luz por meio de partículas que pairam no ar, e não
o contrário. Se o estímulo óptico excessivo causa
dor, isso basta para fazer com que ele seja menos digno de ser considerado
uma experiência da luz? E se o brilho fosse menos intenso e não
causasse nenhum desconforto considerável? Deixaríamos, então,
de estar cientes dele? Finalmente, é difícil ver de que maneira
“manifestações da luz” podem ser distintas da “luz enquanto
tal” sem recorrer a noções altamente redutivas do que realmente
é a luz. De fato, é exatamente isso que Gibson faz. “Tudo
que vemos”, insiste ele, “é o ambiente, ou fatos acerca do ambiente;
nunca fótons ou energia radiante” (1979: 55, grifos meus). A “luz”
de Gibson, em resumo, é o lúmen da física moderna
.
[14] Em nenhum momento ele pensa nela como qualquer coisa além de
um tipo de impulso energético, uma fonte de estímulo que,
se excede um certo limiar faz com que as células fotorreceptoras
“entrem em chamas”. As sensações resultantes, insiste, não
constituem, em si mesmas, a base para a percepção visual.
Nenhuma quantidade de luz fará com que vejamos, a não ser
que a luz seja estruturada por conta de seu reflexo em superfícies
iluminadas no ambiente. Assim, a luz carrega a informação
para a percepção, mas nunca é percebida enquanto tal.
Maurice Merleau-Ponty
É nesse ponto, sobretudo,
que a psicologia ecológica de Gibson diverge da fenomenologia de
Merleau-Ponty. Ainda que falem línguas intelectuais bem diferentes,
há muito em comum entre o que Gibson e Merleau-Ponty têm a
dizer. Para ambos, os sentidos existem não como registros distintos,
cujas impressões separadas são combinadas apenas em níveis
mais altos do processo cognitivo, mas como aspectos do funcionamento do
corpo todo em movimento, integrados na própria ação
de seu envolvimento com o ambiente. Qualquer sentido, ao “se direcionar”
a um objeto particular de atenção, traz consigo as operações
concordantes de todos os outros. Em sua Fenomenologia da Percepção,
Merleau-Ponty compara essa integração dos sentidos em ação
à colaboração dos olhos na visão binocular
(1962: 230-3). Assim como a unidade do objeto da visão não
é o resultado de algum “processo em terceira pessoa” que produz
uma imagem única a partir de duas imagens monoculares, mas é,
antes, dada pelo modo como os dois olhos “são usados como um único
órgão por um único olhar”, a unidade de uma coisa
enquanto “entidade inter-sensorial” não reside na fusão mental
de imagens fundadas em diferentes registros de sensação,
mas na sinergia corporal dos sentidos em sua convergência rumo a
um objetivo comum. Assim, “meu olhar, meu tato e todos os meus outros sentidos
são, juntos, os poderes de um mesmo corpo, integrado em uma mesma
ação” (1962: 317-8). Em suma, para Merleau-Ponty, assim como
para Gibson, é em sua postura colaborativa em relação
às feições do mundo, não em sua relação
comum a centros de processamento na mente, que os sentidos são unidos.
Assim como Gibson, Merleau-Ponty
concebe o tato e a visão como modos comparáveis de envolvimento
sensorial com o ambiente. Isso não quer dizer que eles sejam equivalentes,
já que cada um traz consigo “uma estrutura de ser que nunca pode
ser exatamente transposta” (1962: 225). É por isso que pessoas anteriormente
cegas e cuja visão foi restaurada consideram, inicialmente, sua
situação tão espantosa. A experiência tátil
se revela um guia fraco para o mundo visual; não porque ela seja
relativamente empobrecida, mas porque o mundo tátil está
estruturado de modo diferente (1962: 222-4). Ainda assim, Merleau-Ponty
admite que o olhar visual funciona como um “instrumento natural” de percepção,
praticamente do mesmo modo que o bastão de um homem cego (1962:
153). A analogia, é claro, é extraída de Descartes.
Ainda assim, em seu célebre ensaio “O Olho e o Espírito”,
Merleau-Ponty a toma como o ponto de partida para um ataque com força
total a todo o programa cartesiano (Merleau-Ponty, 1964a: 169-78). Sua
objeção, entretanto, não é à comparação
do olhar visual à sonda tátil, mas à idéia
de que ambos estão atrelados ao projeto de construir representações
internas de uma realidade externa. A verdade, sustenta ele, é bem
outra. Pois, como o bastão, o olhar é capturado em um encontro
exploratório dialógico, entre o perceptor e o mundo, em que
cada movimento por parte do perceptor é uma questão e cada
reação da parte do percebido é uma resposta. Assim,
“o olhar obtém mais ou menos das coisas conforme o modo como as
questiona, percorre-as ou se detém sobre elas” (1962: 153).
Tanto Gibson quanto Merleau-Ponty
são ferrenhos em sua rejeição da idéia cartesiana
da visão; nas palavras de Merleau-Ponty, “como uma operação
do pensamento que colocaria ante a mente uma imagem ou uma representação
do mundo” (1964a: 162). De fato, o perceptor, diriam eles, não precisa
de uma tal imagem para agir de modo afinado com as feições
de seus arredores. Já que meu corpo habita o mundo, e já
que – para todos os efeitos e propósitos – eu e meu corpo somos
um só (Merleay-Ponty 1962: 206), segue-se que também
eu sou um habitante do mundo e não de um espaço dentro da
minha cabeça. E, pelo mesmo motivo, sempre posso consultar o mundo
para orientar meus movimentos, em vez de uma representação
cognitiva interna. Como Gibson, Merleau-Ponty afirmou que, ainda que não
possa haver visão sem movimento, esse movimento também deve
ser visualmente guiado. Ele deve “ter suas antenas, sua clarividência”
(1964a: 162). Mas enquanto Gibson se perguntava como era possível
que o perceptor visse objetos no ambiente, Merleau-Ponty ainda retrocedeu
um passo. Pois, como poderia haver um ambiente cheio de objetos, ele se
perguntava, exceto por um ser que já está imerso no mundo
da vida, no “solo do sensível” (1964a: 160) e, portanto, preso em
um campo visual que é dado pré-objetivamente? Tal envolvimento
deve ser ontologicamente anterior à objetificação
do ambiente que Gibson toma como seu ponto de partida. Em suma: antes de
“eu vejo coisas”, deve vir “eu posso ver”. Então, o que quer dizer
ver?
O ensaio de Merleau-Ponty, “O Olho
e o Espírito”, seu último trabalho publicado, é uma
tentativa de responder a essa questão. Os argumentos do ensaio não
são fáceis de seguir, mas podemos ter uma idéia deles
realizando um experimento simples. Feche seus olhos por um tempo e, então,
abra-os novamente. Você tem a impressão de estar olhando o
mundo através de um buraco (ou talvez dois) na frente de sua cabeça?
Seria como se você estivesse olhando pelas janelas de sua casa, cujas
luzes estão apagadas, depois de ter aberto as persianas?
Longe disso. O que parece é que é você mesmo quem está
lá fora, misturando-se de modo desenvolto a tudo o que vê
e passando por aí como um espírito ágil de um lugar
para o outro à medida que o foco de sua atenção muda.
É como se as paredes e o teto de sua casa tivessem desaparecido,
simplesmente, deixando-o exposto ao exterior. Resumindo, você não
experimenta o ato de ver como ver o lado de fora, mas como estar do lado
de fora – quer dizer, até que você feche seus olhos novamente,
fazendo com que seu espírito seja instantaneamente capturado e posto
para dentro de novo, aprisionado nos confins escuros e lúgubres
de um claustro fechado: sua cabeça. Para Descartes, a luz da mente
(lux) estava nessa escuridão e por isso ele pensava que os cegos
poderiam ver. Mas a experiência nos ensina algo diferente. Ocorre,
como escreve Merleau-Ponty (p.264), que pela visão “entramos em
contato com o sol e as estrelas, estamos em todos os lugares ao mesmo tempo”.
Ou, ainda, a visão “é o meio que me foi dado para estar ausente
de mim mesmo” (1964a: 186-7). Temos, agora, uma pista para compreender
o que Merleau-Ponty pretendia com sua repetida insistência na indistinguibilidade
do ver e do visto ou do “sensor e do sensível” (cf. 1962: 214).
Isso é primordialmente evidente no caso de meu corpo, que tanto
vê como é visto, mas igualmente verdadeiro no caso de todo
o “tecido do mundo” em que ele está inserido. E podemos entender
o que ele quer dizer com sua asserção de que a visão
não é das coisas, mas acontece em meio a elas. Pois ela é
constitutiva de todo o campo perceptual estabelecido ao redor de mim (que
estou em seu centro) e que tanto as coisas quanto eu habitamos.
Tudo isso está muito distante
do quadro pintado por Jonas do espectador imóvel e desapegado, que
contempla um mundo com o qual ele não tem nenhum engajamento causal.
Voltando a uma oposição que eu já havia introduzido
no contexto de minha discussão inicial da antropologia dos sentidos,
Merleau-Ponty substitui a imagem do espectador pela do vidente. “Imerso
no visível pelo seu corpo”, ele escreve, “o vidente não se
apropria das coisas que vê; ele meramente se aproxima delas ao olhar,
ele se abre para o mundo” (1964a: 162). Erga suas pálpebras e você
se encontrará quase literalmente “no espaço aberto”. De fato,
essa pequena frase captura perfeitamente o que Merleau-Ponty retrata como
a mágica – ou o delírio (1964a: 166) – da visão. Vivemos
em um espaço visual do lado de dentro, nós o habitamos e,
ainda assim, esse espaço já está do lado de fora,
aberto até o horizonte. Deste modo, a fronteira entre o interior
e o exterior, ou entre o eu e o mundo, é dissolvida. O espaço
da visão tanto nos cerca quanto passa através de nós
(1964a: 178). Em outro trecho, Merleau-Ponty se imagina olhando para o
céu azul:
À medida que contemplo
o azul do céu não estou me posicionado em oposição
a ele como um sujeito acósmico; eu não o possuo em pensamento,
ou espalho em relação a ele alguma idéia de azul tal
que poderia revelar o seu segredo... Eu sou o próprio céu
enquanto ele é considerado uno e unificado e enquanto ele começa
a existir por si mesmo; minha consciência está saturada com
o seu azul ilimitado. (1962: 214, grifo original)
Comparemos isso com Gibson, que dá
à sua própria questão sobre como poderíamos
perceber visualmente “um campo luminoso, tal como o céu?” a resposta:
“Parece-me que eu vejo o céu, não luminosidade enquanto tal”
(1979: 54).
O céu apresenta um problema
para Gibson precisamente porque ele é incapaz de dar conta do ambiente
de qualquer outro modo que não como um mundo de objetos “dispostos
em oposição” ao perceptor e revelado pelos padrões
da luz ambiente refletida a partir de suas superfícies externas
opacas. Ainda assim, o céu não tem superfície. Ele
não é uma coisa, como um edifício ou uma árvore,
no exterior da qual a luz ricocheteia. Pelo contrário, o céu
é a própria abertura ou transparência, pura luminosidade,
contra a qual as coisas se destacam por virtude de sua opacidade ou seus
contornos. Supor, como faz Gibson, que vemos o céu como distinto
de sua luminosidade é como pretender que ouçamos um trovão
em oposição ao seu som, ou sintamos o vento em oposição
a uma corrente de ar. O que é o trovão senão som,
ou o vento senão uma corrente de ar? Ao ouvir o trovão, ou
sentir o vento, é como se nossos próprios seres se misturassem
com os meios que nos cercam e ressonassem com suas vibrações.
Do mesmo modo, a luz do sol e a luz da lua se apresentam à visão,
nas palavras de Merleau-Ponty, como “espécies de simbioses, certos
modos que o exterior tem de nos invadir e certos modos que temos de reagir
a essa invasão” (1962: 317). Isso não é reduzir a
luz a energia radiante ou a fótons, como em uma descrição
fisicalista; também não é concluir, no outro extremo,
que a luz brilha apenas na mente enquanto o mundo bem poderia estar em
completa escuridão. É reconhecer que, para as pessoas que
podem ver, a luz é a experiência de habitar o mundo do visível,
e que suas qualidades – de brilho e de sombra, tonalidade e cor, e de saturação
– são variações dessa experiência
.
Talvez Gibson estivesse certo, no
fim das contas, em dizer que não vemos a luz “enquanto tal”, já
que a luz não é um objeto. Antes, ela constitui, para aqueles
que vêem, a fundação pré-objetiva da existência,
aquela união do sujeito com o mundo sem a qual não poderia
haver coisas visíveis, ou “fatos sobre o ambiente”. A luz, em suma,
é a base do ser, a partir da qual todas as coisas coalescem - ou
da qual elas se projetam – como objetos de atenção. Assim,
como escreve Merleau-Ponty (1964a: 178), não vemos tanto a luz como
vemos nela. E para todos que podem ver nela, a experiência da luz
é perfeitamente real. De fato, não temos mais motivos para
duvidar da realidade da luz do que para questionar a experiência
da cegueira para aqueles que não podem ver nela. Ainda assim, estamos
todos demasiadamente predispostos a desprezá-la. É a própria
familiaridade de nossa experiência, dessa abertura do mundo sentido
como luz, que faz com que ela se esconda de nós. Preocupados que
estamos com todas as coisas que a visão nos revela, esquecemos a
experiência fundacional sobre a qual ela jaz. O processo de ver na
luz é engolido por seus produtos, objetos da visão. E por
um processo semelhante, a alegria e o espanto da descoberta de que “eu
posso ver” dá lugar à indiferença mundana do “eu vejo
coisas”. A mensagem de Merleau-Ponty é que precisamos reverter essa
perspectiva, recuperar o sentido da visão que é original
em nossa experiência do mundo, e que é uma pré-condição
para a sua objetificação
.
Isso, finalmente, é o que
motiva o trabalho do pintor. Uma pintura, para Merleau-Ponty, não
é apenas um outro objeto da visão. Você não
olha para ela, nem a vê, como você veria uma coisa comum qualquer.
Antes, você “vê de acordo com ela, ou com ela” (1964a: 164).
Como todas as pessoas que enxergam, pintores vêem na luz, e essa
é a inspiração para seu trabalho. Eles não
podem desmentir sua experiência como uma ilusão, e nós
também não podemos, a não ser que queiramos representar
a história da pintura como uma aberração causada pelo
superestímulo de mentes excessivamente suscetíveis (1964a:
186-7). Entretanto, a visão do pintor, insiste Merleau-Ponty, “não
é uma visão a partir do exterior, uma relação
meramente 'físico-óptica' com o mundo”. Ela é, antes,
um “nascimento contínuo”, como se a cada momento o pintor abrisse
seus olhos para o mundo pela primeira vez, como um recém-nascido.
O nascimento de sua visão é, a um só tempo, a “concentração
ou vir-a-si-mesmo do visível”. E assim, a pintura a que a visão
dá origem é um encorpamento desse momento criativo. Ela não
representa coisas, ou um mundo, mas mostra “como as coisas se tornam coisas,
como o mundo se torna um mundo” (1964a: 167-8, 181)
.
Assim, ver com, ou de acordo com, uma pintura é questionar a ordinariedade
de nossa percepção cotidiana dos objetos, reacender em nós
o espanto da visão e lembrar-nos de que, se há coisas para
serem vistas no mundo, é somente porque podemos ver.
Ao longo desta avaliação
das idéias de nossos três pensadores – Jonas, Gibson e Merleau-Ponty
– progredimos da noção da visão como um modo de especulação
para outra, da visão como um modo de participação
e, finalmente, para a noção da visão enquanto modo
de ser. Para Jonas, o mundo visual é apresentado ao observador desinteressado
como uma cena ou um espetáculo; para Gibson, ele se torna um ambiente
que cerca o participante envolvido, mas cujas superfícies pré-formadas,
apesar disso, permanecem fechadas e impenetráveis ao olho. Para
Merleau-Ponty, o mundo visual é dado à experiência
subjetiva como um cosmos aberto e transparente em que podemos ver em seu
interior, não apenas olhar para ele; é, também, um
mundo que vem continuamente à existência ao redor do perceptor.
Como já vimos, tanto na antropologia quanto na filosofia, debates
recentes -concernentes ao papel dos sentidos nas sociedades humanas - tenderam
a assumir que a visão é, inerentemente, especulativa e deram
pouca atenção à possibilidade de modalidades alternativas.
Entretanto, no que diz respeito ao toque e, especialmente, ao som, um ponto
de vista muito diferente prevalece e levou a uma grande divisão
entre a percepção visual, de um lado, e as percepções
auditiva e a tátil, de outro - e, com isto, a uma divisão
entre sociedades ocidentais, nas quais se supõe que as primeiras
dominam, e sociedades não ocidentais, das quais se diz que se entregaram
às últimas. Meu objetivo, agora, é substituir a noção
ortodoxa e especulativa por uma participativa ou existencial. Uma vez que
isso tenha sido feito, o “grande divisor” simplesmente desaparecerá.