Entre os Suyá, de
acordo com Seeger, a faculdade da audição é altamente
valorizada, como o são as faculdades complementares da fala e do
canto. A fala é distinta do canto na classificação
Suyá, não nos termos do destacamento das palavras com relação
ao som, mas como pólos num contínuo de combinações
alternativas entre “fonética, texto, tempo, tom e timbre” (Seeger
1987: 46, 51). A primazia atribuída à audição,
assim como à fala e ao canto, é enfatizada por meio da enorme
expansão dos lóbulos das orelhas e (para homens) dos lábios
inferiores, nos quais são inseridos grandes discos de madeira ou
folha de palmeira enrolada. A palavra ku-mba, na língua Suyá,
pode ser traduzida não apenas como “ouvir”, mas, também,
como “entender” e “conhecer”. É a habilidade de bem “ouvir-entender-conhecer”
que define a pessoa como um ser plenamente social. E onde nós podemos
descrever a memória até de palavras faladas em termos visuais,
como imagens na mente, os Suyá descrevem até mesmo um fenômeno
visual, como um padrão de tecelagem que foi aprendido e lembrado,
como se estivesse alojado no ouvido (Seeger 1975: 213-14). O sentido da
visão no pensamento Suyá, pelo contrário, é
associado a tendências moralmente delinqüentes e anti-sociais.
Uma pessoa que possua poderes extraordinários de audição
é um ideal de virtude; mas alguém com visão extraordinária
é um bruxo. O bruxo vê tudo – seu mundo é transparente
e não oferece barreiras à visão. “Ele pode olhar para
cima e ver a aldeia dos mortos no céu; ele pode olhar para baixo
e ver os fogos das pessoas que vivem sob a terra; e pode olhar à
sua volta e ver índios inimigos em suas próprias aldeias
muito longe.” (1975:216). Em sua elaboração da audição
como o sentido moralmente superior, os Suyá parecem estabelecer
“algum tipo de oposição entre visão e virtude social”
que, sugere Seeger, pode ter ressonâncias em outros lugares – até
mesmo nas tradições ocidentais (1975: 222).
Os Umeda, como muitos outros povos
de Papua Nova Guiné, habitam um ambiente de floresta densa e virtualmente
intocada, no qual as coisas são visíveis apenas num curto
alcance; normalmente poucas dezenas de metros. Tal ambiente, argumenta
Gell, “impõe uma reorganização da sensibilidade”,
dando o lugar de honra à audição, junto ao olfato
(Gell 1995: 235). Assim, ao sair para caçar, os Umeda caminham com
os olhos no chão, ouvindo a caça em vez de buscá-la
com os olhos, já que é por seus sons que os animais anunciam
sua existência e presença no mundo do caçador. Este
não é um mundo de objetos visuais e espaciais pré-constituídos,
mas, em vez disso, é apreendido dinamicamente. Não
apenas animais e plantas, mas também elementos da paisagem - como
cadeias montanhosas, colinas e charcos - são apreendidos em primeiro
lugar como movimentos mais do que como formas estáticas. Alerta
a esses movimentos, o corpo ressoa como uma caixa acústica e responde,
similarmente, através de sua própria atividade de fala (1995:
240). Assim, o som da palavra falada ecoa o movimento do ser ou elemento
do ambiente ao qual ele corresponde, dando origem ao “iconismo fonológico”
que, mostra Gell, é uma característica pronunciada da língua
Umeda. Por meio de sua fala, os Umeda não apontam e rotulam coisas
no mundo “lá fora”, mas, continuamente, trazem o mundo à
existência em torno de si ao mesmo tempo em que são de contínuo
trazidos à existência através de sua própria
imersão num ambiente sonoro. Mas Gell vai mais além ao propor
que a predominância da audição sobre a visão
conduza a um “viés em direção à expressão
da solidariedade para com os membros da comunidade” (1995: 235). A cultura
“auditiva” dos Umeda, afirma Gell, é uma “cultura da solidariedade”.
A Antropologia dos Sentidos: Uma
primeira crítica
O que mais chama a atenção
nos estudos descritos acima é que em todos os três há
um contraste radical entre a audição e a visão em
linhas que, como vimos, estão inseridas na tradição
Ocidental. Entre os critérios de distinção, para recapitular,
estão: que o som penetra enquanto a visão isola; que o que
ouvimos são sons que enchem o espaço à nossa volta
enquanto o que vemos são objetos abstraídos ou 'recortados'
do espaço diante de nós; que o corpo responde ao som como
uma cavidade ressonante e à luz como uma tela refletora; que o mundo
auditivo é dinâmico e o mundo visual estático; que
ouvir é participar enquanto ver é observar à distância;
que a audição é social enquanto a visão é
associal ou individual; que a audição é moralmente
virtuosa enquanto a visão é intrinsecamente inconfiável;
e, finalmente, que a audição é solidária enquanto
a visão é indiferente ou, até, traiçoeira.
Contudo, existem enigmas e inconsistências que sugerem que essas
distinções podem refletir mais sobre as pré-concepções
de analistas antropológicos do que sobre a própria experiência
sensória dos povos entre os quais eles têm trabalhado. De
fato, é difícil evitar a suspeita, levantada por Nadia Seremetakis
(1994;124), de que a atribuição aos 'Outros' não-Ocidentais
de sensibilidades auditivas (bem como táteis e olfativas) aguçadas,
os esteja levando a carregar o peso das modalidades sensoriais exiladas
da estrutura sensória da modernidade Ocidental, por conta da atribuição
de hegemonia à visão pelo Ocidente.
Stoller, por exemplo, dedica um capítulo
inteiro à defesa da necessidade dos antropólogos transformarem-se
de 'espectadores em videntes
etnográficos por meio de uma abertura ao mundo do outro, permitindo-se
ser penetrado por ele. Ele está tão convencido, no entanto,
de que "o 'olhar' espacializado de uma pessoa cria distância
"que ele pode seguir seu próprio conselho somente por meio de aprender
a ouvir, em vez de ver como fazem os Songhay (1989;120). Nisso, sua abordagem
está inteiramente de acordo com a convenção de que
para atingir o conhecimento verdadeiro deve-se abandonar as ilusões
da visão e ceder à orientação do ouvido. O
verdadeiro 'vidente' da tradição Ocidental é o profeta
cego: nas palavras de Seeger, 'aquele que fisicamente não consegue
ver' (1975;222). Contudo, pelo relato de Seeger, isso não acontece
para os Suyá, dentre os quais o feiticeiro é certamente um
vidente ao invés de um espectador, apesar de um caráter moral
indesejável. Pois a visão completa do feiticeiro não
vê o mundo pelo lado de fora, mas abre-o pelo lado de dentro. Uma
inconsistência parecida, entre pré-concepções
analíticas e experiência nativa, aparece no estudo de Gell
sobre os Umeda. Tendo reafirmado a agora familiar proposição
de que 'visão é (relativamente) íntima', concreta
e tangível, enquanto a visão promove a abstração',
ele avança dizendo-nos que os próprios Umeda 'tratam a visão...
como um sentido de clímax com conotações de intimidade
e perigo' (1995; 235,239, grifos meus). A intimidade da visão, para
os Umeda, é encontrada no curto alcance, no olho-no-olho e seu perigo
está ligado à possibilidade, sempre presente, de um ataque
de feitiçaria. Um olhar furioso pode aterrorizar aquele a quem foi
direcionado. Os Umeda, ao que parece, seriam os últimos a concordarem
que a visão promove abstração!
Comentando o caso dos Suyá,
David Howes sugere que 'pode haver uma conexão entre auralidade
e sociabilidade, por um lado, e visualidade e individualidade (ou uma "disposição
associal") por outro'. Essa conexão, argumenta ele, pode até
ser reformulada como uma lei geral: 'quanto mais uma sociedade der ênfase
ao olho, menos comunal ela será; quanto mais ela enfatizar o ouvido,
menos individualista ela será'. (Howes 1991b: 177-8). Mais uma vez,
no entanto, essa 'lei' apenas reproduz uma homologia entre duas dualidades:
individual versus social e visão versus audição, que
tem sido por muito tempo axiomática da tradição Ocidental.
E ela evita falar das diferenças fundamentais entre concepções
Ocidentais e (por exemplo) Suyá, tanto do 'indivíduo associal'
como da visão. O 'feiticeiro' Suyá não é, de
maneira alguma, como Howes (1991b: 177) imagina, a contraparte do 'indivíduo'
Ocidental. Para começar, a visão do feiticeiro penetra o
mundo ao invés de capturar reflexos de suas superfícies exteriores;
ademais, ele não se posiciona, como o faz a sociedade Ocidental,
vis-à-vis os outros na sociedade, mas encarna em seu ser a negação
ativa de socialidade como um princípio de relacionamento. Nesse
sentido, o feiticeiro é mais anti-social do que associal.
Como o feiticeiro Suyá, o
xamã, entre os Inuit, possui poderes de visão extraordinários,
embora possam ser usados tanto para fins benéficos quanto para fins
prejudiciais. Também ele é um vidente, ao invés de
um espectador, cuja visão pode abrir caminhos para mundos paralelos
de animais e espíritos. Na cosmologia dos Esquimós Yup'ik,
de acordo com Anne Fienup-Riordan, 'visão era um ato constituindo
conhecimento e testemunhar era um ato potencialmente criativo' (1994:
316). O cosmos Esquimó transpira, fervilha, com olhos sempre atentos.
Entre os Inuit, em geral, há uma associação estreita
entre ver e caçar: é através de sua visão clara
e penetrante que o caçador prepara um encontro com o animal a ser
caçado que por sua vez é consumado com o fato do animal se
oferecer de bom grado ao caçador (Oosten 1992: 130). Essas observações
nos trazem de volta ao estudo seminal de Carpenter sobre a experiência
sensória dos Inuit. Por que é que Carpenter, face à
evidência esmagadora da centralidade do olhar para a percepção
dos Inuit de seu ambiente, insistia, ao contrário, em que para eles
o olho é subserviente ao ouvido (Carpenter 1973:33)? Seria porque
ele levou para o seu estudo uma noção preconcebida de visão,
como analítica e reflexiva ao invés de ativa e generativa
(Schafer 1985;96), que era fundamentalmente incompatível com sua
apreciação refinada do potencial dinâmico e a topologia
esférica do mundo vivo dos Inuit? E se, como sugere a etnografia
Inuit, for perfeitamente possível combinar a percepção
de um mundo vivo desse tipo com um 'ocularcentrismo' consumado –de um tipo,
contudo, radicalmente diferente daquele com o qual estamos familiarizados
no Ocidente –, então como poderemos atribuir por mais tempo tal
percepção à predominância da audição
sobre a visão no equilíbrio dos sentidos?
Lembre-se que é precisamente
nesses termos que Gell relata a percepção dos Umeda em relação
aos animais, plantas e paisagens. A julgar pelas descrições
de Gell e Carpenter, os paralelos entre os modos pelos quais os Umeda e
os Inuit constituem seus mundos de experiência são notavelmente
próximos. Seus respectivos ambientes, no entanto, não poderiam
ser mais diferentes; a floresta tropical densa contra a tundra ártica
e sem árvores. Não é de surpreender que, nessas condições,
o caçador Umeda seja obrigado a depender dos seus ouvidos, e o caçador
Inuit de sua excelente visão. De fato, Carpenter admite que
quando seus companheiros Inuit usavam seus olhos 'era, muitas vezes, com
uma acuidade que me surpreendia' (1973: 36). Porém, até o
ponto no qual ele depende dos poderes da visão em vez dos da audição,
o caçador Inuit não vê, conseqüentemente, sua
relação com o mundo virada do avesso. Ele permanece, como
sua contraparte Umeda, no centro de um cosmos dinâmico, em meio ao
processo de sua regeneração perpétua. Os seres não
lhe parecem a um tempo inertes e reificados, nem tampouco o caçador
se sente mais um observador, ou menos um participante.
Desta maneira, comparando o perfil
sensório dos Inuit ou dos Umeda – ou, ainda, dos Songhay ou Suyá
- com o do Ocidente, fica claro que o que está em jogo não
é a predominância da visão sobre a audição,
mas o entendimento da própria visão. É evidente que
a primazia da visão sobre a audição não pode
ser usada para responder pela objetificação do mundo. Antes,
o contrário; é através de sua cooptação
a serviço de um projeto peculiarmente moderno de objetificação
que a visão tem sido reduzida à faculdade de reflexão
pura e desinteressada, cujo papel é meramente o de entregar "coisas"
à uma consciência transcendente. Mas enquanto o olho, como
argumentou Theodor Adorno, precisou se acostumar à percepção
da realidade dos objetos, (ou, mais especificamente, das commodities),
o ouvido ficou para trás nesse desenvolvimento. Existe algo quase
'arcaico', diz Adorno, sobre a audição (Adorno 1981:99).
Uma das ironias da crítica contemporânea do visualismo é
que ao clamar pela restauração da audição
a seu devido lugar na proporção dos sentidos, ela, na verdade,
reproduz essa oposição entre a audição e a
visão e, com ela, um conceito de visão muito limitado e empobrecido
para o qual seu alistamento no projeto da modernidade nos trouxe. Tendo
estabelecido a visão como o instrumento principal do conhecimento
objetivo e deixando a audição a flutuar nos campos primordiais
da emoção e do sentimento, sabemos o que significa ouvir
som, mas perdemos, efetivamente, o contato com a experiência da luz.
Para mostrar como isso se deu, voltar-me-ei, em seguida, a uma figura
cujo pensamento é amplamente conhecido por ocupar um lugar central
nessa transição - René Descartes.
A Óptica de Descartes
Descartes começa sua Óptica
de 1637 declarando seu entusiasmo pelo telescópio. "Já que
a visão", ele escreveu, "é o mais nobre e mais abrangente
dos sentidos, invenções que servem para aumentar o seu poder
estão sem dúvida entre as mais úteis que podem haver"
(1988: 57). E que invenção mais maravilhosa se poderia imaginar
que o telescópio, que aumentou o poder da visão a ponto de
abrir novos horizontes para a compreensão humana da natureza e do
universo? Atribuindo à visão um lugar de honra entre os sentidos,
Descartes estava seguindo os passos de uma longa linhagem de filósofos
iniciada por Platão e Aristóteles
.
Apesar das contínuas dúvidas referentes à confiabilidade
da visão em oposição à audição,
a superioridade tanto da visão quanto da audição sobre
os chamados sentidos de "contato", que compreendiam o tato, o paladar e
o olfato, nunca esteve em questão. Até aqui, não tenho
nada a dizer sobre estes últimos. Paladar e olfato levantam, por
si mesmos, toda uma gama de problemas que estão além de minhas
preocupações presentes, e, ainda que eu admita que eles deveriam
ser incluídos em qualquer discussão da experiência
sensorial humana que se pretendesse verdadeiramente abrangente, não
pretendo lidar mais com eles aqui. Mas não posso adiar algumas considerações
sobre o tato. Pois nos tratamentos da percepção realizados
pela tradição filosófica ocidental, foi sobretudo
ao tato, e não à audição, que a visão
foi comparada. E, nesse ponto, Descartes não foi exceção.
De fato, foi por uma analogia com o tato que ele escolheu introduzir os
mecanismos da visão.
Descartes nos convida a imaginar
um homem que, cego de nascença, tem uma prática considerável
na arte de perceber, por meio de um bastão, os objetos em seu entorno
e os que estão próximos de si. O que acontece é o
seguinte: quando a ponta do bastão atinge um objeto (quer isso se
deva ao movimento do bastão, do objeto ou de ambos), um impulso
mecânico é passado à mão e ,a partir daí,
é registrado pela região do cérebro a partir da qual
os nervos da mão se originam. Esses estímulos do cérebro,
então, fornecem os dados acerca dos quais é feito um ato
mental de cálculo. Suponhamos, por exemplo, que o homem cego deseja
julgar a distância de um objeto o qual ele toca ao mesmo tempo com
dois bastões, um em cada mão. Conhecendo a distância
entre suas mãos, bem como o ângulo formado por cada bastão
com a linha que os conecta, é simples determinar quão distante
do corpo está o objeto. Como o próprio Descartes observa,
o trabalho mental de cálculo envolvido na estimativa da distância
exige "um tipo de raciocínio bastante similar àquele usado
pelos exploradores quando medem lugares inacessíveis por meio de
dois pontos de observação diferentes" (1988:67).
A importância da analogia é
que, para Descartes, isso equivale precisamente ao que acontece na visão.
Tudo o que se tem que fazer é substituir raios de luz refletida
por bastões, e os dois olhos por duas mãos
.
Flutuações nos padrões de luz refletida que atingem
os olhos, devido ao movimento de objetos no ambiente ou dos próprios
olhos, são registradas no fundo da retina e, então, na parte
do cérebro em que as fibras nervosas ópticas se originam.
A mente - ou o que Descartes chama de alma (em francês, âme)
-, então, trabalha com esses padrões de estímulo,
o que resulta naquela consciência dos objetos que nos permite dizer
que os "vemos". Em defesa de Descartes é importante reconhecer dois
aspectos dessa formulação que são freqüentemente
negligenciados. Em primeiro lugar, era claro para ele que a percepção
- seja ela visual ou tátil - dependia do movimento. Se não
houvesse nenhum movimento do corpo e de seus órgãos sensoriais
em relação ao ambiente, nada seria percebido. Ironicamente,
esse ponto se perdeu em grande parte da psicologia subseqüente da
visão, apenas para ser redescoberta por defensores de uma abordagem
ecológica da percepção visual que adotam uma postura
tipicamente anticartesiana. Retornarei a esse assunto posteriormente. Em
segundo lugar, Descartes não defendeu, como comumente se supõe,
que a função dos olhos é estabelecer representações
internas de objetos externos, que ficam, então, disponíveis
para serem inspecionados pela mente. Na verdade, ele estava muito consciente
do absurdo de ter que colocar outro conjunto de olhos dentro do cérebro
para ver a imagem interna. O que quer que chegue ao cérebro e nos
leve a ter consciência sensorial dos objetos não se assemelha
mais aos objetos do que os movimentos do bastão do homem cego se
assemelham aos objetos com os quais ele entra em contato (1988:64)
.
Resta ainda o problema, no entanto,
de que, para Descartes, o ato da percepção se divide naturalmente
em dois estágios: o primeiro, que leva do encontro físico
com um objeto a um padrão de estímulo nervoso no cérebro,
e o segundo, que leva desses impulsos nervosos a uma consciência
mental do objeto na linha de visão do perceptor. Em qual desses
dois estágios, então, reside a essência da visão?
A comparação com o tato sugere o primeiro. Assim, a visão
emprega olhos e raios de luz, enquanto o tato emprega mãos e bastões.
Em uma passagem crítica de sua exposição, porém,
Descartes muda seu ponto de apoio. Pois transparece que não é
mais no funcionamento dos olhos que reside a essência da visão,
mas, antes, nas operações da mente sobre o que é levado
a ela pelos sentidos. "É a alma que vê", ele declara, "e não
o olho; e ela não vê diretamente, mas apenas por meio do cérebro"
(1988:68). Inicialmente introduzida como um modo ativo da exploração
do ambiente pelo corpo, a visão - como se diz- "vai para o lado
de dentro", e por motivos de força maior tem que construir uma imagem
do mundo exterior com base nas informações recebidas via
sistema nervoso. Essas informações nem mesmo precisam ser
recebidas exclusivamente por meio dos olhos. Como uma faculdade puramente
cognitiva, a visão também pode funcionar sobre os dados do
tato. Equipado com um bastão, ou até mesmo com as mãos
livres, o cego pode ver! Assim como pessoas dotadas de vista andando sem
luz em uma noite escura como o breu (1988:58).
Chegamos, assim, à extraordinária
conclusão de que a visão, agora concebida como uma conquista
exclusivamente intelectual, não está mais condicionada, de
modo algum, pela experiência corpórea de habitar um mundo
iluminado
.
O papel da luz, sendo precisamente equivalente ao do bastão de um
homem cego, é o de causar uma transdução puramente
mecânica. Não vemos a luz mais do que o homem cego vê
seu bastão. Antes, vemos as coisas por meio da luz e do bastão.
Pois o que é registrado no cérebro na forma de padrões
de estímulo nervoso é informação - não
a respeito da luz ou do bastão -, mas a respeito dos corpos no ambiente,
com os quais estes entram em contato, ou dos quais são defletidos.
Uma vez que essa informação está no cérebro,
no ponto em que a visão propriamente começa, a luz - como
o bastão - já fez seu trabalho e não tem mais efeito
nos procedimentos em virtude dos quais o perceptor "vê" o mundo se
desdobrar diante dele. Nesse ponto, os olhos, que olham mas não
podem ver, rendem-se ao "eu", o cogito cartesiano, que vê mas não
pode olhar. Por intermédio da luz, meus olhos podem tocar o mundo
e ser tocados por ele; mas eu não posso. Ainda assim, posso ver.
É evidente, então, que a superioridade da visão sobre
o tato não é a de um sentido sobre outro, mas a da cognição
sobre a sensação. É por isso que Descartes escolhe
explicar a visão tomando por exemplo o homem cego. Esse era seu
modo de mostrar que a luz é, por si mesma, incidental para a visão.
Sobre o significado da luz
Tudo isso, no entanto, ainda nos
deixa com um quebra-cabeça. Se o poder da visão reside nas
operações cognitivas da mente em vez de no trabalho físico
dos olhos, então por que Descartes ficou tão animado com
o telescópio, que certamente aumenta o poder dos olhos, mas não
faz nada para assistir a mente? É a alma que vê, diz Descartes.
Mas o telescópio, que não é um aparelho de computação,
não ajuda a alma a ver! Se fossemos sustentar, pelo contrário,
que o poder da visão reside, primeiramente, no trabalho dos olhos
e não nas operações da mente, então o telescópio
poderia, sim, ser de alguma ajuda. Contudo, pelo argumento de Descartes,
não haveria razão para elevar o senso de visão acima
do sentido do tato. Se alguém pudesse, com toda equanimidade, substituir
bastões por raios de luz, o que a visão teria, então,
de tão especial? A ambivalência, no argumento de Descartes,
entre o olho e a mente como o lócus primário da visão
ou, em outras palavras, entre visão como observação
corporal e especulação mental (Jay 1993a:29), nunca foi resolvida
e permanece conosco até hoje. Ademais, tem se confundido, em nosso
pensamento, com outro dilema, igualmente desconcertante, que diz respeito
ao próprio significado da palavra ‘luz’. Essa palavra refere-se
aos raios retilíneos que, refletidos na superfície das coisas,
atingem o olho e, conseqüentemente, originam certas sensações?
Ou será que seu significado está na experiência subjetiva
que temos em conseqüência dessas sensações de
uma luminosidade dentro da qual as coisas são apresentadas à
consciência como ‘objetos visíveis’? Em suma: a luz brilha
no mundo ou na mente?
Essa questão não foi
levantada pelos filósofos da antiguidade; pelo menos não
dessa maneira. A física deles colocava a figura do homem senciente
no centro do cosmos e cada capítulo desta física correspondia
a uma área específica de sensação corporal.
Um desses capítulos era a óptica, que tratava de como o conhecimento
do mundo circundante podia ser obtido através do olho. Luz, denotado
pelo termo lux, era tanto a fonte de iluminação como o meio
no qual esse conhecimento devia ser representado. Como tal, ela se originava
do centro, com o homem, em vez de se originar da periferia cósmica.
Mas a revolução Copernicana derrotou essa cosmologia antropocêntrica.
Até a primeira metade do século XVII, quando Descartes escrevia,
a humanidade havia sido relegada à periferia de um universo supostamente
governado por princípios completamente indiferentes às sensibilidades
humanas. A tarefa da física, agora, seria descobrir esses princípios.
Entre eles, aqueles por meio do quais algum impulso físico é
propagado de modo a, juntamente com outros efeitos, estimular a reação
dos olhos. Esse impulso veio a ser conhecido como lumen. Nesse momento,
quando Descartes nos diz que é a alma que vê sob a luz da
razão, em vez de os olhos sob a luz do mundo físico, a luz
à qual ele se refere é, claramente, a lux dos antigos – a
luz que brilha na mente
.
Mas quando, ao longo da Óptica, ele diz o contrário, referindo-se
à luz como raios refletidos que estimulam o olho, refere-se, evidentemente,
ao lumen dos físicos. O paradoxo da Óptica é que,
enquanto a visão ‘vai para dentro’, do mundo para a mente, a luz
‘vai para fora’, da mente para o mundo. E como Descartes mostrou, essa
luz externa – lúmen – é a única coisa que não
podemos ver. O resultado é uma curiosa disjunção entre
luz e visão: aquela do lado de fora, essa do lado de dentro, de
uma interface entre a mente e o mundo. Em poucas palavras, a visão
começa onde a luz termina.
Embora mais de três séculos
tenham se passado desde que Descartes escreveu, ainda não estamos
esclarecidos em relação ao significado de luz. Da física
contemporânea aprendemos que luz é uma forma de radiação
que consiste em ondas ou fótons. Isso é entender luz no sentido
de lumen. Ainda assim, a maioria das pessoas, de modo natural, continua
a equiparar luz – como faziam os pensadores da antiguidade – com a lux
que ilumina o mundo de sua percepção. Elas estão convencidas,
no entanto, de que essa lux é o mesmo que o lumen dos físicos
e, portanto, de que ela tem uma existência externa bastante independente
de seus próprios olhos. Assim, diz-se que a luz viaja dos objetos
externos para os olhos e que vemos por causa dela. E mesmo que fechemos
os olhos supomos que o ambiente permaneça iluminado, como estava
antes. Mas sabemos que, na verdade, o que quer que seja que atinge os olhos
vindo do exterior (ondas, fótons), não vai além da
parte de trás da retina. E a experiência que relatamos, a
de um mundo iluminado, é aparentemente possível graças
ao que acontece além daquele ponto, nos nervos ópticos e
no cérebro. Então só há luz em conseqüência
de um estímulo da superfície da retina? Ela existe somente
no lado de cá da visão? E, se sim, como podemos afirmar,
ao mesmo tempo, que a luz alcança os olhos de longe? A física
teve a sua parte nessa confusão, ainda que na direção
inversa. Pois, apesar de sua redefinição de uma fisiologia
dos sentidos para uma ciência objetiva da natureza, ela continuou
a descrever como ‘óptica’ aquele ramo de estudo que lida com a luz
e sua propagação, mesmo quando, na prática, ela nada
tem a ver com o olho.
Vasco Ronchi, na introdução
da sua Óptica, de 1957, ilustra esses problemas na concepção
da luz desenhando um intrigante paralelismo com o som. O equivalente, nesse
caso, da distinção entre lumen e lux é a distinção
entre vibração mecânica no meio externo e o som que
afirmamos ouvir quando nossos ouvidos são colocados dentro do seu
campo de ação. Por direito, não deveria haver tal
coisa como a física do som. Pois como não há som sem
um ouvido e um cérebro, o estudo do som – isto é, a acústica
– poderia ser empreendida somente pela combinação da física
do movimento vibratório com a fisiologia do ouvido e a psicologia
da percepção aural. No entanto, os físicos, ansiosos
para reservar a acústica para si próprios e não se
envolverem com o fenômeno subjetivo da mente e da percepção,
persistem em igualar as vibrações que induzem no ouvinte
uma experiência de som com o som em si, perpetuando, assim, o erro
de que ‘o som é na verdade um fenômeno físico, e não
mental’ (Ronchi 1957:17). E, então, todos ficam felizes em concordar
com a ilusão de que o som realmente viaja pelo ar e é recebido
como tal pelo ouvinte quando, na verdade, tudo o que alcança os
ouvidos são vibrações e não há som até
que essas vibrações tenham se transformado em impulsos nervosos
e levadas à mente-cérebro.
Se, todavia, realmente, não
há som no mundo físico para além do cérebro,
devemos concluir que esse mundo é silencioso? E, do mesmo modo,
se, realmente, não existe lux no mundo externo, devemos concluir
que o mundo ‘lá fora’ é escuro? Essa é, de fato, a
conclusão para a qual Ronchi se desloca. Nossa mente está
cheia de som e luz mesmo se vibrações nem raios as alcançam,
enquanto o mundo vibrante e radiante é, na verdade, silencioso e
escuro. Mas o que significa o silêncio em um mundo sem ouvidos, ou
a escuridão em um mundo sem olhos? Questões sobre o significado
da luz, bem como do som, são certamente mal formuladas se nos forçam
a escolher entre considerar a luz e o som como um fenômeno físico
ou mental. Elas são mal formuladas porque continuam a considerar
os órgãos dos sentidos como portais entre um mundo externo
e físico e um mundo interno da mente.
Deste modo, Ronchi, como Descartes
antes dele, pensa a visão como um processo que começa com
o movimento em um mundo que, por meio da propagação de ondas
ou partículas que porventura entram nos olhos, faz com que impulsos
viajem pelo nervo óptico até o cérebro, terminando
com esses impulsos sendo ‘passados para a mente’ que – com base na comparação
com a informação já em sua posse – ‘cria uma figura
luminosa e colorida’ (Ronchi 1957; 288). De acordo com essa idéia,
uma fisiologia da visão pode nos dizer o que acontece no lado afastado
do ponto ‘de passagem’, e uma psicologia da visão pode nos dizer
o que acontece no lado mais próximo. Nenhum dos dois relatos, no
entanto, pode abarcar a própria ‘passagem’. Como os impulsos nervosos
são passados para a mente – ou como eles ‘fazem cócegas’
na alma, como Descartes singularmente descreveu (1988:65) – permanece um
mistério.
Meu argumento é o de que não
existe tal interface entre o olho e a mente. Longe de começar como
radiação incidente e terminar como uma imagem mental, o processo
da visão consiste em um processo interminável, um engajamento
de mão dupla entre o perceptor e seu ambiente. É isso que
queremos dizer quando falamos de visão, coloquialmente, como ‘olhar’
ou ‘observar’. E o que Ronchi apresenta como um ponto de passagem
não é nada disso, mas um nexo crítico nesse processo.
É nesse nexo, em vez de no lado próximo ou afastado dele,
que o fenômeno que conhecemos como ‘luz’ é gerado. Esse fenômeno
não é o lumen externo e objetivo, nem o lux interno e subjetivo.
É antes um fenômeno de experiência daquele completo
envolvimento no mundo que é precondição necessária
para o isolamento do observador como um sujeito com uma ‘mente’ e do ambiente
como um domínio de objetos a serem percebidos. Estabelecer esse
entendimento do processo de visão e da natureza da luz será
nossa próxima tarefa.