Por volta do meio-dia, em um típico
dia de garoa paulistana antes do tal do aquecimento global, alguns jovens
começam a aquecer seus corpos entre a Oca, o MAM e o pavilhão
da Bienal, marcos tradicionais do Parque do Ibirapuera, equipamento urbano
criado para a comemoração dos quatrocentos anos da cidade,
em 1954. O parque conta com 1,6 milhão de metros quadrados e acolhe
uma infinidade de atletas anônimos que procuram nessa grande área
verde um espaço para treinar suas respectivas modalidades esportivas.
Mas esses jovens não estão no parque para caminhar, jogar
basquete, voleibol, ou mesmo para o onipresente futebol (basta um olhar
atento para as “áreas verdes” entre as avenidas, ou entre
as alças de acesso das pontes da cidade, para percebemos que, apesar
da quase extinção do futebol de várzea, este esporte
está longe de ser praticado só em campos e quadras).
Após um breve aquecimento,
alguns deles investem corajosamente contra o muro de uma rampa de acesso
ao pavilhão da Bienal. Três movimentos coordenados de braços
e pernas, uma breve corrida e pronto: lá estão eles do outro
lado da rampa, economizando uns 200 metros de caminhada pelo trajeto usual.
Até aí, não chamam a atenção dos demais
freqüentadores do parque. “Coisa de moleque”. Esse era, provavelmente,
o pensamento das testemunhas a caminho da exposição StarWars
Brasil.
Fonte: Le
Parkour São Paulo
Alguns minutos depois, o grupo crescera
consideravelmente; pudera; já passavam 30 minutos do horário
marcado para o início do treino dos iniciantes em Le Parkour.
Sim; as investidas contra o muro da Bienal não eram meramente um
ato de “indisciplina” juvenil. Com a quantidade de jovens envolvidos, alguns
perceberam isso rapidamente e formou-se uma pequena platéia de curiosos
que incluía até um guarda civil metropolitano. Mas o que
é o tal Le Parkour? Convém poupar o leitor dos minutos
de estranhamento dos freqüentadores do parque.
Surgida na França, a prática
de Le Parkour se define como uma disciplina em que os traceurs
(como são chamados os praticantes) utilizam-se de seus corpos para
ultrapassar obstáculos urbanos de forma rápida e o mais fluentemente
possível, percorrendo, assim, um traçado A-B definido pelo
praticante.
O Le Parkour tem seus movimentos
inspirados em diversas influências culturais: desde as artes marciais
orientais até a tradição da ginástica francesa.
Uma de suas marcas distintivas mais importantes em relação
aos demais esportes é o fato de não haver competições.
Isso estimularia cada praticante a buscar em si mesmo os motivos para o
treinamento.
Um elemento central na difusão
do Le Parkour é a Internet, particularmente os sites que
permitem a divulgação de vídeos amadores. A maioria
das pessoas conhece a prática assistindo a esses vídeos na
rede. A eficácia da Internet como elemento de reunião e difusão
da prática pode ser facilmente notada com uma breve pergunta: “De
que lugar da cidade você é?” Nenhuma zona da cidade fica de
fora: há gente da Zona Leste, extremo sul da Zona Sul, ali de perto,
da Vila Mariana... Enfim, de qualquer lugar onde houver ao menos uma lan
house para acessar o Youtube,
assistir um vídeo, depois procurar uma comunidade no Orkut
para ficar a par da data e horário do treino e pronto. Utilizando
apenas as ferramentas do Google estamos ali, no "Ibira" com gente de todos
os cantos da cidade para conhecer melhor esse “esporte novo” vindo da França.
O pessoal que organizou o encontro
reúne a turma e pede a palavra. Não se trata de instrutores,
esclarecem, já que a prática não admite nenhum tipo
de hierarquia entre os praticantes. Cada um tem seu tempo e motivos próprios
para estar ali, e não para uma competição esportiva,
concluem para uma atenta platéia de jovens ávidos para aprender
os impressionantes saltos a que assistiram no Youtube.
Os primeiros ensinamentos são
dados ali mesmo, no labirinto, uma obra de arte atrás da Oca. Impressionante,
parece que ela foi feita exatamente para aquilo! Começa a garoa
novamente e o grupo de aproximadamente 50 pessoas se desloca para um espaço
coberto atrás do prédio da Bienal. Ali é transmitido
um intenso treinamento físico, baseado no Método Natural
de Educação Física, de Georges Hebért. Imagine
essa turma toda fazendo exercícios no chão, rastejando em
movimento que lembram aranhas. Claro, era inevitável que chamassem
cada vez mais atenção. Talvez até mais do que os fantasiados
fãs de Star Wars.
Foto: Le
Parkour
Os mais experientes praticavam em
andaimes de alguma obra em andamento (ou não), no prédio
da Bienal. Mais à frente, o entra-e-sai de alguma exposição.
Passado algum tempo, começam a chegar alguns guardas que apenas
observam, sem entender muita coisa. Algum tempo e mais alguns guardas depois,
o grupo é abordado cordialmente. Alguém explica para os guardas
do que se trata e tudo parece estar resolvido depois de o pessoal descer
dos andaimes.
O treino se desloca, então,
para a rampa de acesso. Consistia em cruzar a rampa em uma linha reta utilizando
a técnica de ultrapassagem de obstáculo sugerida. Forma-se
um fila e tem início um intenso movimento de corpos correndo, saltando,
dando “rolamentos”, enfim: transformando a rampa em obstáculo lúdico
e fazendo um inesperado uso do equipamento urbano. Nunca mais se olha para
uma rampa da mesma forma depois de um treino.
Foto: Le
Parkour São Paulo
E lá vêm os guardas
de novo. Dessa vez, há uma denúncia de vandalismo. Novamente,
alguém explica do que se trata. Um agente se aproxima do pessoal
que argumentava e diz: “Eu sei que vocês não estão
destruindo nada; até conheço alguns de vocês que vêm
aqui sempre. É que muita gente chama a atenção...”
E logo depois: “Por que vocês não formam uma Associação
para conversar com a administração do Parque?” Mas será
que é que é possível formar uma “confederação”
de praticantes de uma atividade que não se quer esporte e nem acredita,
pelo menos discursivamente, na existência de hierarquias?
Há, realmente, no Ibirapuera,
uma sensação no ar de que as novidades esportivas são
bem-vindas. É difícil circular pelo parque sem encontrar
skatistas e rollers que transformam a marquise projetada por Niemayer
em uma imensa pista. Lá está, também, o pessoal que
treina malabares e, se caminharmos um pouco, poderemos encontrar
alguém saltando em uma espécie de pula-pula ultramoderno
chamado Pogo Stick: uma mistura de brinquedo com esporte radical.
O fato é que o Ibirapuera
– salvo em alguns momentos na década de 80 – é um ambiente
amigável para os chamados esportes radicais e para as novidades
lúdicas de todo tipo. Mas, por que o “Ibira”? O que é que
esse parque tem? A facilidade de acesso, diriam alguns. A capacidade de
diálogo da administração, argumentariam outros. Tudo
isso, e mais um pouco, pode ser verdade, mas não responde por completo
à indagação. Parece que o Ibirapuera tem algo mais;
parece que tem um certo poder de legitimação, como se para
se estabelecer em São Paulo uma prática precisasse se estabelecer
primeiro no parque. Pode ser só uma sensação, mas
- com certeza - partilhada por muitos. Basta aparecer lá em um final
de semana e conferir o frenesi de pessoas experimentando práticas
e trocando técnicas corporais como em um imenso laboratório
ao ar livre, cheio de possibilidades de exploração lúdica
do corpo e da cidade.
Rafael
Adriano Marques estuda as práticas do Le Parkour e do skate em São
Paulo e é bolsista da FAPESP