A
Música e o Risco
Rose Satiko Gitirana Hikiji
EDUSP/FAPESP
São Paulo, 2006
256 páginas
Gestos em tritono
Daí a gente acorda, tem
que pegar a linha do boi,
daí a gente toma café,
daí tem que fazer procedimento...
depois a gente pode pegar a brasa.
(Interno da Febem).
As cascas de pão só
podiam ser deixadas do lado esquerdo do prato.
Regra de cadeia para adultos.O desenho
dos lençóis deveria
ficar paralelo à beirada
da cama, os travesseiros em ângulo reto.
(Descrição de campo
de concentração)
(In:A música e o risco, p.217).
Esta resenha destina-se a
fazer uma leitura (ou audição) crítica do livro A
Música e o Risco - Etnografia da Performance de Crianças
e Jovens Participantes de um Projeto Social de Ensino Musical, de Rose
Satiko Gitirana Hikiji. É importante ressaltar que o livro é
apenas um dos resultados do estudo etnográfico realizado pela autora,
que inclui ainda a produção de quatro vídeos, os quais
não serão analisados aqui Os vídeos Microfone, senhora,
Prelúdio, Vírus da Música e Pulso, um vídeo
com Alessandra podem ser adquiridos ou consultados no Laboratório
de Imagem em Som em Antropologia da USP.
O trabalho de Rose se propõe
analisar, através do foco antropológico, a influência
dos projetos sociais voltados para o fazer musical nas chamadas "populações
de risco". Seu foco está no Projeto Guri, em dois pólos principais:
o Febem e o Pólo Mazzaropi, no Belenzinho. O primeiro para internos,
jovens em conflito com a lei. O segundo aberto para a população
de crianças e jovens em geral. A tese tem seu início em uma
breve explicação sobre as motivações que levaram
a autora a este estudo: sua relação antiga com a música,
suas conversas com sua professora que já havia trabalhado com jovens
que viviam em uma realidade diferente da sua, aliados à constatação
do crescimento de projetos sociais que tomam por base o ensino musical
deram um impulso à reflexão:
Qual a especificidade do aprendizado
musical? Por que e como a música seduz e envolve seus praticantes?
Que experiências o fazer musical possibilita aos sujeitos definidos
(pelo outro) pela carência, pela falta, pela negação?
Como e por que a música veio ocupar um lugar de destaque dentre
os projetos sociais voltados à "questão do menor?". [p.21]
Este trabalho de doutorado é
dividido em cinco capítulos, além da introdução
e da abertura: Das Possibilidades de uma Audição da Vida
Social; Música como Intervenção Social; No primeiro
capítulo, é colocada a discussão que aprofunda a idéia
apresentada na Abertura, da possibilidade de utilizar a linguagem sonora
na pesquisa etnográfica como forma de romper uma tradição
estritamente visual das Ciências Sociais e se aproximar, através
de outra sensibilidade, de seu objeto de estudo.
Para a pesquisa, defende-se a abordagem
sensível (que gera uma antropologia auditiva) porque ela, a despeito
da visão tradicional, é aquela que possibilita a compreensão
mais profunda e fiel da dimensão subjetiva de um grupo social. Ou
seja, a audição da vida social pode permitir grandes descobertas
e troca intensas de experiências sensíveis com o outro. Como
um dos exemplos, temos os Suyá, povo amazônico estudado por
Anthony Seeger, que não têm como principal sentido a visão,
mas sim, a audição, ou mesmo o tato, olfato e paladar. Então,
como devemos estudar essas outras culturas? Será que a melhor forma
é mesmo a visual? Ou será que devemos quebrar certos preconceitos
com relação às nossas sensações baseadas
nos outros sentidos e analisar de outra forma estes outros? Entra em cena,
a Etnomusicologia.
Na etnografia que aqui apresento,
minha própria experiência no aprendizado musical (...)
foi fundamental para entender vários dos sentidos do aprendizado
das crianças e jovens que conheci. As performances das quais participei,
junto com o grupo pesquisado (infelizmente poucas) ou com outros músicos,
me permitiram sentir e compartilhar sensações de forma única.
[p. 55]
Neste ponto chegamos ao segundo capítulo,
onde o estudo está na incrível capacidade da música
de transformar um universo impalpável, o universo dos sentidos e
sentimentos, em um forte instrumento de manipulação e transformação
da sociedade. A música é colocada como dotada de força
política, produtora de cultura e portadora de ideologias. Por se
tratar de uma linguagem (com sistema específico de significados
e símbolos) é tão capaz de transmitir informação
como qualquer outra linguagem, com a vantagem de se transmitir mais sensivelmente.
Tal aspecto da música gera
uma questão que a autora traz para seu objeto específico:
a música sendo tratada como um instrumento político, ao ser
utilizada para o desenvolvimento da cidadania, desenvolve as ambigüidades
de um programa civilizatório. Até que ponto os projetos do
GURI, assim como outros projetos sociais, permitem um desenvolvimento específico
de cidadania? É sintomática a valorização exacerbada
à disciplina proporcionada pelo aprendizado musical, em detrimento
de tantas outras características necessárias ao fazer musical.
O ensino de música erudita também é colocado nessa
ordem: a questão sobre o motivo pelo qual se trabalha a música
erudita e não a popular é recorrente. No entanto, mesmo com
a "perspectiva unificadora, higienista e cívica" que vem desde os
primeiros projetos de educação musical civilizatória,
passando pelo programa de ensino musical de Villa-Lobos, no Governo Vargas,
deve-se notar os novos temas emergentes na pauta e no discurso de projetos
sociais: a valorização, a inclusão.
No capítulo ocorre também
a desconstrução de termos e análises que - "a custa
de tanto se repetir tornam-se esvaziados
ou ambíguos". A "situação
de risco", o "menor", a "auto estima", a "cidadania". Os projetos estudados
pela autora são voltados para o jovem em situação
de risco, esta situação variando entre a falta de horizontes
e # as alternativas "perigosas" - o tráfico, o crime. É
o perigo do ócio, que pode levar os jovens para um "caminho errado",
e que deve ser erradicado pelo preenchimento de seu tempo com algo que
faça bem, que estimule a criatividade, coletividade, auto-estima
o estudo musical. No entanto, será que a educação
musical por si só é o suficiente, ou talvez não fosse
melhor ouvir "Além da musica dos jovens do Guri, seus anseios" [p.99]?
Para poder se aprofundar na análise,
é escolhido o estudo antropológico baseado na Etnografia.
Assim, o terceiro e quarto capítulos são os que mais consomem
o leitor, trazendo para este uma narração dos acontecimentos
feita de forma extremamente sensível, densa e tensa, focalizando
na mudança da corporalidade, da identidade e da temporalidade que
o fazer musical proporciona. Começando pela Etnografia do aprendizado
musical, entre outras, nos é contada uma situação
em que um jovem aluno do Projeto Guri ministra a sua primeira aula de instrumento
para os mais novos. O garoto logo tem sua atenção chamada
pelo professor orientador pois, nervoso, esquece-se de dar "bom dia" aos
alunos, bom dia este que poderia ser o primeiro do dia para a grande maioria
daquelas crianças.
Pressuponho, como explicita a situação
de aula descrita acima, que em um contexto no qual a música é
um instrumento de intervenção social ou seja, não
tem como única finalidade a dimensão estética, a aula
passa a ser locus de transmissão de valores, de experiências,
de imagens que ultrapassam a esfera musical e atingem a vida dos praticantes
como um todo. [p.102]
Partindo desse pressuposto, se estende
o estudo de como o projeto de música (no caso, a erudita) pode transformar
a vida dessas crianças em situação de risco. O fato
é que o Projeto Guri cresceu vertiginosamente de tempos para cá,
ainda que tenha um discurso muitas vezes um tanto quanto estereotipado
da situação em que age. Nas falas das diretoras, a velha
idéia de que a música clássica traz mais responsabilidade
e, por ter um aprendizado mais complexo, exige mais das crianças,
além de refinar seus gostos musicais. Nas falas de alunos e professores,
por outro lado, surge o simples prazer de poder trabalhar a música
e então transformar seu cotidiano (estudo em casa, abertura de novos
horizontes profissionais...). Na Febem, o ensino de instrumentos bate de
frente com a realidade opressora em que vivem aqueles jovens; como exemplo,
a mudança de postura necessária (bem traduzida na imagem
do encaixe) para se tocar um instrumento mostra uma expressão corporal
altiva, ereta que é reprimida severamente pela instituição.
O ambiente de estudo da música é de aprendizagem, de consciência
do "eu", de quebra de regras impostas. A imersão causada pela
música traz para o mestre e para o aprendiz uma relação
diferente, de confiança, essencial para a troca de saberes que se
realiza no ambiente; esta imersão proporciona sensações
novas, que vão trazer ao jovem músico em situação
de risco o despertar de desejos, emoções e aspirações
que podem lhe ajudar a ter forças para mudar sua própria
realidade.
Rose Satiko também entende
como necessária a análise da performance, uma vez que é
o momento de auge do músico, em que este expressa seu aprendizado
e, principalmente no caso da Febem, nas palavras dos professores, mostram
ao mundo que "também são gente". É o momento em que
se busca a alteridade, se subverte o esquema usual. Os jovens tornam-se
protagonistas, mostram-se a si mesmos, no novo formato e linguagem adquiridos.
É nesse momento que chegamos
ao ápice da análise etnográfica, pois é este
também o ápice destes projetos como um todo, o ponto mais
importante, já que é onde se publica para o mundo todo o
resultado de um longo processo percorrido entre professores e alunos. A
ocupação de espaços dotados de um grande status, como
grandes salas de concerto, festivais de música, aparece no
contexto do fazer musical como o momento em que se divulga o trabalho,
os aprendizados. Aí ocorre um dos fenômenos trabalhado pela
autora, em que a ética e a estética se contrapõe no
momento da performance. Os espetáculos são sempre bem-avaliados,
nem sempre pela qualidade musical, estética, mas freqüentemente
pela valorização do trabalho ético. A identificação
com a Febem é muito explorada, causando admiração
do público pelo projeto e indignação nos músicos
dos outros pólos do Guri. Chegamos então a um relato tenso
de uma saída a campo, quando podemos enfim sentir um pouco da atmosfera
em que vivem os meninos da Febem.
Por alguns momentos, a prática
musical subverte a condição da internação:
durante as apresentações, os "menores" são vistos,
sua condição é lembrada pela sociedade mais ampla;
durante alguns minutos , perdem a invisibilidade que os caracteriza na
situação de reclusão e se tornam o centro das atenções
provocam reflexão. [p. 179].
A conclusão da obra se dá
em duas partes: a primeira, em que são relembrados conceitos fundamentais
para que seja analisado o espaço que a música realmente ocupa
na vida das pessoas atingidas por estes projetos, e a segunda, onde a autora
nos passa suas considerações finais. Será a imersão
causada pelo fazer musical de fato algo tão poderoso, que pode realmente
mudar a forma de viver dessas crianças, quebrando preconceitos,
reformulando suas vontades, modificando suas rotinas, seus tempos de vida?
A resposta é clara:
Há na vida institucional,
o peso insuportável do ócio vigiado. Esse tempo é
preciso "matar". A música é chamada para tal. Mas não
só: o que diferencia a prática musical no pólo Febem
é que ela instaura conhecimento e desejo em corpos sem liberdade.
[p. 218]
A música, antes intervalo, contamina
a vida cotidiana, determinando ritmos, preenchendo vazios, construindo
sentidos. [p.221] Escrito em torno de uma pesquisa muito bem feita e análises
bem construídas, o livro de Rose se mostra essencial para que possamos
entender mais um pouco sobre como a música pode colocar novamente
a vida em movimento. A leitura se mostra necessária, principalmente
para os que trabalham no ramo (mais ainda para os que têm ligações
com projetos sociais no estilo do projeto Guri), uma vez que esclarece
e constrói dúvidas importantes para que possamos pensar a
relação música indivíduo grupo, e a partir
daí estudar de fato como se aplica esta relação para
os grupos em situação de risco.
As pessoas que estão em situação
de risco realmente vivem em um mundo diferente do estigmatizado pela sociedade
burguesa... Quando entramos na Febem, então, essa diferença
atinge níveis estratosféricos. Lá as crianças
estão isoladas, sujeitas a um tratamento de choque que ao invés
de recuperá-las piora sua situação por colocá-las
em um sistema de vigia incessante, em uma vida de ócio controlado.
A música se torna uma fuga deste mundo, pois a fuga é tudo
o que se deseja neste local. A música mexe com as bases de cada
pessoa, é um trabalho extremamente estrutural, onde se cria vontade.
No entanto, essa vontade pode acabar trazendo sérios problemas,
uma vez que não existe onde se apoiar para cumpri-la; é até
cruel se olharmos por esta ótica e fizermos a terrível pergunta:
por que se esforçar para criar uma consciência inutilizável?
Será que isso só não tornaria a pessoa mais presa,
deprimida? Pior ainda: Essa questão se mostra ainda mais cruel se
pensarmos que a Febem é um espelho agigantador do nosso mundo como
um todo. Será que são só os meninos da Febem, ou as
outras crianças em situação de risco que vivem uma
vida de ócio controlado? Será possível, de fato, mudar?
E nos responde a autora, através
das palavras de José Miguel Wisnik: "A Música ensaia e antecipa
aquelas transformações que estão se dando, que vão
dar, ou que deveriam se dar, na sociedade" [p.238].
O ponto original que diferencia
essa obra de outras e a torna referência no tema é a fidelidade
e coerência entre forma e conteúdo. Analisar o fazer musical,
o aprendizado de música e sua possibilidade de transformação
social é uma tarefa complicada e perigosa, por tratar fundamentalmente
de características sensíveis e, por vezes, ambíguas.
Um estudo tradicional corria o grande risco de perder nuances e sensibilidades
importantes para a análise da questão, além de poder
se tornar falso e tendencioso. A decisão pela "audição
da vida social", com um discurso "denso"e "tenso", aproximando-se de linguagens
artísticas é ousada. Sua escolha pode levar a caminhos pouco
interessantes para o estudo antropológico, científico: havia
a possibilidade de se tornar uma obra literária, artística
ou ainda de se tornar uma defesa cega do ensino musical, ou de algum dos
atores. Felizmente a identificação entre a autora e seu objeto
e a proximidade com a linguagem musical possibilitaram grandes vantagens
à etnografia: a de captar as esferas mais subjetivas e a polifonia
das vozes, de forma a enriquecer a análise.
Como observou Erving Goffman à
p.259 de "Manicômios, prisões e conventos" (Ed. Perspectiva),
sem algo a que pertençamos, não temos um eu estável;
apesar disso, o compromisso e a ligação total com qualquer
unidade social supõe uma espécie de ausência do eu.
Nosso sentimento de ser uma pessoa pode decorrer do fato de estarmos colocados
numa unidade social maior; nosso sentimento de ter um eu pode surgir através
das pequenas formas de resistência a essa atração.
Nosso status se apóia nas construções sólidas
do mundo, enquanto nosso sentimento de identidade pessoal reside freqüentemente
em suas fendas.