Após apresentarem os
fundamentos do mana no clássico Esboço de uma Teoria
Geral da Magia, Marcel Mauss e Henri Hubert descrevem as muitas formas
que ele toma nas diferentes sociedades. Os autores impressionam-se com
a amplitude do termo e com a “força” da expressão e afirmam
que as sociedades ocidentais têm dificuldade em entendê-las.
O mana está associado à magia, à força
das pessoas e das coisas, a uma potência mística; é
uma categoria que equivale a muitos processos, e, ao final desta primeira
descrição, Mauss e Hubert (2003a, p. 143) mostram que “em
certas ilhas, a palavra
mana designa inclusive o dinheiro”. Poderíamos
inverter a frase e pensar não no mana e em sua força abrangendo
inclusive a noção de dinheiro, mas indagar o dinheiro e sua
força associados a uma eficácia mágica ou um poder
místico em certas ilhas. Qual o poder do dinheiro? Que tipo de propriedades
e condutas sociais estão associadas a ele?
Na teoria econômica a moeda
foi e é um tema de análise bastante vasto, tendo enfatizadas
suas propriedades e capacidades. A discussão dos economistas recupera
a interpretação do dinheiro em seus diversos papéis:
como reserva de valor, equivalente geral e também compreendendo
elementos como as quase-moedas, criadas por agentes privados como um fator
importante para resolver problemas de falta de liquidez (Soares, 2006,
p. 72) .
A questão que motivou este
trabalho se insere neste panorama, isto é, do poder do dinheiro
e sua profunda inserção nas urdiduras do social. Mais especificamente,
o trabalho analisa a relação entre o valor simbólico
do dinheiro e os usos de moedas sociais e trocas em clubes específicos,
denominados de clubes de troca. Estes clubes são criados por um
número relativamente pequeno de pessoas que se encontram algumas
vezes por mês para trocar bens e serviços. Em muitos casos,
são cunhadas moedas chamadas de sociais, pois geralmente estão
associadas a regras próprias, circulam apenas no grupo e há
limites para sua acumulação (Burigo, 2000; Mance, 2002).
Zelizer (2005a, p. 297) afirma que este é um movimento que ocorre
mundialmente, embora com mais intensidade na Europa e nas Américas.
As moedas sociais e os clubes de troca foram empreendidos com a intenção
de criar mecanismos de relações sociais e econômicas
distintos dos que caracterizam o uso do dinheiro oficial, sendo os mais
conhecidos os Lets (Local Exchange Trade System) dos países de língua
inglesa , o Clube Del Trueque na Argentina e o Sel francês (Système
d’Exchange Local).
O trabalho de Zelizer (2005a) mostra
que era comum no século XIX lojas e organizações criarem
suas próprias moedas como uma forma de se contrapor à escassez
das pequenas trocas. Como remédio para crises, também foram
utilizadas durante a Depressão dos anos 1930 nos Estados Unidos.
O que diferencia o movimento atual das moedas sociais é justamente
sua existência em meio ao dinheiro oficial e sua espacialidade, ou
seja, geralmente ocorre em comunidades, em uma cidade ou através
de redes que criam certa territorialidade. Por essa razão, alguns
autores afirmam que há princípios de comunitarismo nestas
iniciativas (Williams, 1997; Schroeder, 2002), em contraposição
ao desenvolvimento da sociedade capitalista global.
Diversos pesquisadores têm
mostrado que estes clubes são empreendimentos para enfrentar problemas
econômicos como o desemprego, porém não raro encontram-se
referências acerca do fato de que eles são formulados por
pessoas que têm acesso razoável a informações
e escolaridade - profissionais liberais, ecologistas etc. Mesmo o Clube
Del Trueque na Argentina, analisado por Primavera (s/d.) e que foi criado
em meio à crise econômica que vivia o país na década
de 1990, apresentou comportamento semelhante: foram estratos sociais específicos
e com engajamento em outras esferas (ecologismo, alternativismo) que iniciaram
suas operações. Mais que desenhar um esboço obtuso
de resistências, talvez devêssemos pensar os grupos em termos
de inventividade de práticas.
Alguns clubes de troca e redes de
moedas sociais, por exemplo, têm sido planejados para serem integrados
por pessoas de classes populares – é o caso quando ONGs estrangeiras
aportam no país para divulgar formas alternativas de economia e
de usos de moedas locais. Neste sentido, o público diretamente beneficiário
destas trocas seria aquele pertencente a estratos sociais mais baixos da
população. Entretanto, olhando-se com mais acuidade, para
pessoas de baixa renda, o que significa ser estimulado a apenas trocar?
Um primeiro contato com participantes de um clube de trocas de Porto Alegre
permitiu observar que estimular as trocas sem jamais “tocar no dinheiro
oficial” não é tão simples, uma vez que o dinheiro
carrega um simbolismo (Dodd, 1997), está ligado ao poder (Hart,
no prelo) , à individualidade (Simmel, 1998) e, como bem lembra
Zelizer (2005a), os circuitos econômicos destes grupos nunca são
fechados – o dinheiro oficial faz parte de um circuito muito mais amplo.
A pergunta que emerge deste contexto é: qual o valor simbólico
do dinheiro e das trocas para grupos sociais que em situações
cotidianas obtêm pouco dinheiro oficial? E que problemas surgem para
a constituição dos clubes de trocas? O valor simbólico
do dinheiro estaria vinculado ao princípio da equivalência
que ele impõe, tão significativo nas economias monetárias?
Pretende-se aqui demonstrar alguns
resultados de uma pesquisa sobre este tema. A pesquisa de campo foi realizada
no inverno de 2007 em Porto Alegre, por meio de entrevistas abertas com
pessoas participantes e informantes. Também foram utilizadas a técnica
da observação de reuniões do grupo e a análise
de materiais impressos, cartilhas e folders. No que segue, apresento o
clube onde foi desenvolvida a pesquisa, depois faço uma análise
dos aspectos que acompanham as transações. O seguinte momento
é reservado ao tema principal do texto, o problema simbólico
do dinheiro e o princípio de equivalência, e, logo após,
são traçadas algumas conclusões.
O estudo em um clube de trocas
de Porto Alegre
A pesquisa que fundamentou as análises
desta exposição foi realizada num clube de trocas da zona
norte da capital gaúcha intitulado Clube de Trocas da Zona Norte
existente há quase três anos. Este grupo é composto
por cerca de dez a doze pessoas. Na realidade, o público pertencente
é variável (oscila) e, somando-se os jovens e crianças
das famílias que participam, o número é um pouco maior.
Os encontros em que acontecem as trocas de produtos são realizados
duas vezes por mês em um salão de uma organização
de bairro.
As trocas são feitas expondo-se
aquilo que cada participante trouxe para o evento em mesas e bancos para
que todos possam observar. Paredes brancas, almofadas para sentar e janelas
com grades também compõem o cenário. Para que ocorram
as trocas, dois mecanismos são utilizados: as moedas sociais e as
trocas diretas sem mediação do dinheiro elaborado pelo grupo.
A moeda criada por este grupo recebeu o nome de Obirici, fazendo referência
a uma lenda indígena e a alguns lugares conhecidos da zona norte
da capital.
O clube tem regras claras. Cada participante
novo deve trazer produtos quaisquer para serem expostos e trocados por
outros; entretanto, somente terá direito às moedas sociais
depois de participar de três encontros. Então, são
dadas as moedas à pessoa para que possa fazer as transações
com o uso deste mediador (comprar e vender). O interessante é que
cada um tem direito ao dinheiro quando participa do grupo – ganham-se as
moedas pela participação e não pela troca de produtos:
é como um elemento inicial em que o sujeito adquire meios que lhe
conferem maior poder de compra no interior do grupo. Para os participantes
de baixa renda isso é fundamental, pois os relatos dos entrevistados
sugerem que estas pessoas chegam ao grupo com quase nada para oferecer
– não possuem meios sequer para produzir algo com o objetivo de
levar aos encontros.
A organização do grupo
precisa contar com membros que controlem a emissão e a circulação
de moedas, a presença nos encontros e os produtos oferecidos. Chama-se
de EcoBanco o mecanismo que possibilita as operações: é
como uma central de controle onde ficam guardadas as notas. Aqui um aspecto
chama a atenção quando se parte de um olhar assentado na
idéia de propriedade (de bens e também do dinheiro): as pessoas
não levam para casa seu dinheiro, uma vez que apenas na feira ele
tem valor e função. Assim, um participante é responsável
por levar às reuniões o EcoBanco com as notas de cada um.
Quando se inicia o evento, ele distribui os envelopes (cada envelope contém
o nome do participante e o valor que lhe corresponde, também registrado
num caderno por razão de segurança). As pessoas fazem as
transações e, quando o encontro termina, o EcoBanco recebe
os depósitos novamente, com os valores de cada um reajustados. A
moeda continua sendo das pessoas como o dinheiro comum que levamos na carteira,
mas a caixa que as guarda impõe barreiras ao livre uso. É
transparente o volume de moedas que cada um possui, por isso é possível
frear a acumulação.
Nos clubes de troca, as moedas geralmente
assumem valores iguais aos do dinheiro oficial. Voltaremos a este ponto
mais adiante, mas vale recordar que a moeda social não pode ser
trocada em outros espaços, somente nos encontros do clube.
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>
<>Segundo as entrevistas, é
preciso ver as pessoas como “prossumidoras”, isto é, produtoras
e consumidoras ao mesmo tempo. Este conceito, forjado nos grupos de economia
solidária e nas redes de troca define que todos os indivíduos
são capazes de produzir algo para trocar (pães, bolos, artesanato,
pintura, cortar cabelo, consertar máquina, cuidar de bebês).
Na realidade, alguns entrevistados afirmaram que as pessoas produzem riqueza
e não conseguem realizá-la nos mercados, sendo o clube um
meio para isso. Para as trocas são também trazidas às
feiras coisas usadas que as pessoas não querem mais e que podem
ser úteis para outrem. Este fundamento de que todos podem produzir
e consumir é apenas um elemento do conjunto de idéias que
formam o grupo. Tal como Zelizer (2005a) percebeu, há aspectos ideológicos
que se impõem aos que querem participar destes grupos. Contudo,
é impossível não considerar a polifonia no seio do
clube: nem todos compartilham certos princípios, embora nem sempre
externalizem opiniões na frente dos outros. Também
pude observar a partilha de um ideário comum. Antes de participar
da reunião, pensei que aconteceriam trocas e nada mais. Porém,
as pessoas falam muito sobre ideais de conservação da natureza,
solidariedade, discriminação da economia de mercado, etc.
Tudo isso é articulado à economia solidária e ao uso
das moedas sociais. Em mais de um trabalho, Zelizer (2005a, 2005b) mostrou
como as pessoas criam circuitos que relacionam bens, valores e idéias,
separados de outros como “mundos hostis” essencialmente distintos.
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<>>
<>
>
Outras pesquisas sobre o tema podem
esclarecer estes aspectos. Num estudo de caso na Noruega, Gran (1998) observou
que o sistema Lets é dominado por pessoas que partilham ideais políticos
radiacais e parecem ter se envolvido com a moeda social primeiramente por
razões ideológicas ou ambientais. A pesquisa conduzida em
quatro grupos noruegueses mostrou que a maior parte dos participantes tem
emprego em tempo integral e educação universitária.
Apesar destes indicadores sobre escolaridade e emprego serem mais comuns
nos paises nórdicos que no Brasil, já são um sinal
sobre quem conduz as iniciativas nos clubes de moedas locais. Já
Williams, na Austrália (1997), constatou certa preponderância
de “greens” nos Lets, no entanto também mostrou que um número
razoável de participantes pertencia a estratos sociais de baixa
renda ou estava desempregado.
Caldwell (2000) encontrou dados muito
interessantes nos Lets que investigou no Reino Unido. Sua pesquisa mostrou
que apenas 2,4% dos participantes estavam desempregados. Curiosamente,
a maior parte das pessoas trocava muito pouco e mesmo assim mostravam-se
satisfeitas. Caldwell (2000, p. 8) constatou que para a maioria a motivação
da participação é dada por ideários como ecologismo
e pensamento alternativo , e que o ecologismo dos discursos é fortemente
associado a processos de justiça social . Segundo o autor, isto
explicaria a aproximação dos “greens” com as moedas sociais.
DeMeulenaere (2000) encontrou aspectos semelhantes na Red Global de Trueque
na Argentina, embora a crise econômica neste país fosse severa
nesta época.
Através dos depoimentos na
pesquisa realizada em Porto Alegre observa-se que os clubes de troca não
substituem os mercados formais. As pessoas não conseguem sobreviver
dessas trocas e para que isto fosse possível os clubes teriam que
crescer em número e tornar o rol dos produtos bastante diversificado.
Mas os depoimentos sugerem que há uma complementação
de uma economia com a outra. Alguns folders e cartilhas de outros grupos
e da Red Global da Argentina também insistem neste aspecto: os clubes
ajudam as pessoas a economizar, sem depender estritamente do dinheiro para
muitas transações econômicas. Esta comunicação
necessária entre a economia do clube e a economia externa parece
ser um ponto nodal, cuja força da ocasião é a capacidade
de empurrar os sujeitos aos interstícios de ambos sistemas e propiciar
um ponto de vista diferente da economia em que vivemos. Uma entrevistada
insistiu que o clube não sobrevive se não houver o dinheiro
oficial nas vidas das pessoas e, além disto, muitos clubes precisam
de financiamentos e recursos. Eles precisam pagar o aluguel ou a limpeza
do salão que usam, arcar com a confecção das moedas.
Para vencer estes desafios, uma entrevistada concluiu criticamente que
o passo seguinte à criação do clube seria a organização
de uma moeda circulante local .
Quando a troca extravasa as fronteiras
do econômico: rituais e solidariedade
Ao observar os encontros do grupo,
imediatamente vêm à mente os fundadores da Antropologia e
suas análises dos rituais. Se Durkheim sustentou que os rituais
eram sempre vinculados à esfera do sagrado nas sociedades – em oposição
à do profano – Leach procurou mostrar que essa dicotomia poderia
ser uma construção fictícia. Entre os Kachin da Alta
Birmânia, Leach (1995, p. 75-76) mostrou que as mais variadas atividades
econômicas eram ritualizadas cotidianamente, como o trabalho nas
plantações de arroz, sendo portanto mais interessante para
o pensamento antropológico lidar com a idéia de que sagrado
e profano não são pólos distintos enquanto totalidades.
Entre os extremos, há ações que participam tanto de
um como de outro, sendo técnica e ritual aspectos constitutivos
de qualquer ação.
Certamente, as perspectivas sobre
os rituais se modificaram mais recentemente nas pesquisas antropológicas,
especialmente depois das seminais obras de Victor Turner e Stanley Tambiah.
Contudo, o importante para o argumento aqui desenvolvido é que o
ritual age como “intensificação de pensamentos, de linguagens
e de situações sociais comuns” (Anjos, 2006, p. 15); é
revelador da realidade social. No ponto de vista de Peirano (2001, p. 8),
Rituais são tipos especiais
de eventos, mais formalizado e estereotipado, [...] há uma ordem
que os estrutura, um sentido de acontecimento cujo propósito é
coletivo. [Os rituais] ampliam, focalizam, põem em relevo e justificam
o que já é usual numa sociedade.
Os encontros do Clube de Trocas da
Zona Norte possuem uma série de momentos que poderiam se aproximar
da definição de ritual acima descrita. A reunião inicia
com a colocação dos produtos em uma parte específica
do salão, geralmente próximos a uma lateral. No centro as
pessoas se reúnem e a alguém é posta a tarefa (previamente
decidida) de animar o encontro. Cada pessoa pode escolher o que fazer,
mas pôde-se observar que não são muitos os “líderes”
e que existe uma certa padronização na organização
do tempo e do que essa pessoa vai dizer, fazer, recordar e estimular.
Na vez em que fui apresentado ao
grupo uma moça foi responsável pela condução
da reunião. Ela fez dinâmicas de grupo, tais como a apresentação
de cada um do grupo por outra pessoa (a que estava ao lado). Logo após,
leu passagens de um livro para estimular uma reflexão sobre as relações
humanas. Nesse meio tempo, a apresentação foi muito mais
do que uma mera introdução – foi um momento repleto de dádivas
de palavras (elogios, demonstração de confiança e
de carinho) quando alguém falava de outra pessoa. Até mesmo
em relação a mim houve uma tentativa de também realizar
isto, embora a pessoa não me conhecesse anteriormente (apenas trocamos
algumas palavras minutos antes).
As trocas ocorreram após esses
momentos iniciais que tomaram a maior parte do tempo. Foi interessante
observar as negociações, bem como os produtos mais requisitados
e os menos procurados. A moeda circulou razoavelmente e as conversas eram
constantes nos momentos de transação. Cada participante é
orientado a vir ao encontro com o produto já marcado com o preço
para evitar constrangimentos. Na minha opinião, isso também
evitaria uma espécie de equilíbrio entre oferta e demanda
(ou seja, o participante querer aumentar o preço durante a sessão),
tão criticada na economia de mercado.
Muitos produtos são bem elaborados,
como os pães caseiros, os livros editorados por um membro do grupo,
a granola de outra. No entanto, outros produtos são perceptivelmente
velhas mercadorias empoeiradas que estavam atrapalhando na casa de quem
as trouxe para tentar “desencalhar”. Um entrevistado foi bastante enfático
em afirmar que é preciso algum controle “para que a feira não
vire um brechó”.
Ao final, as pessoas decidiram quem
seria o próximo animador e também mostraram entusiasmo com
o encontro. Alguns quiseram comentar o encontro e externalizaram preocupações
com o “mundo hostil lá de fora”. Ainda me lembro de um dos participantes
dizer “aqui não buscamos o lucro econômico, mas lucro social”.
Outros concordaram e expressaram outras questões. Antes de irem
embora, todos se abraçaram.
A idéia de que o encontro
e seus diversos momentos encerram muito mais que os fluxos de mercadorias
é essencial para compreender até mesmo o que seja a economia
e os mercados. Segundo Mayer (2004, p. 168), o “trueque” não existe
puro, ele é imerso em relações sociais e em formalidades
culturais. É, inclusive, necessário que se estabeleçam
outras relações sociais para que ele exista (isso auxilia
a explicar os rituais, os abraços, as palavras). De um certo modo,
o fato de que as trocas não são apenas um “toma lá,
dá cá” nos mostra por que certos laços sociais são
privilegiados para as trocas (as pessoas conhecidas, os participantes do
clube de trocas), mesmo que elas possam ser feitas em outros lugares com
outras pessoas, ou o sujeito possa vender seu produto ao invés de
trocar. Nesse sentido, parece haver um regime de reciprocidade cujo objetivo
é o grupo, para além do simples ganho monetário.
Na perspectiva de Zelizer (2005a,
p. 297), a criação das moedas locais simplesmente dramatiza
o papel significativo que têm as relações de proximidade
na vida econômica impessoal atual. Tanto na observação
das reuniões como na análise dos folders este elemento chamou
a atenção: a percepção que confiança
e solidariedade devem estruturar os clubes de troca. Apesar dos problemas
e dos discursos não serem homogêneos, o encontro dos membros
do grupo enseja um processo criativo. A vida cotidiana atribulada na cidade
e o momento de encontro do grupo como um gesto de suspensão me fazia
recordar uma espécie de ‘tempo de agora’, no qual Benjamin (1985,
p. 229) queria que pudessem ser concentradas as energias – um tipo de paralisação
do tempo que explode a linearidade temporal comandada pela economia capitalista.
Em uma reunião, duas pessoas
procuraram entrar como novos membros do grupo. Eles estavam bastante curiosos,
porém calados; chegaram por intermédio de alguém que
havia comentado acerca do grupo e foram recebidos com amabilidade. Um deles
chegou no meio do encontro e trouxe consigo um instrumento musical. Esse
foi um fato relevante para observar, porque o outro não carregava
nada e estava apenas querendo conhecer o grupo. Perguntei-me logo sobre
as motivações do primeiro, uma vez que seu instrumento tinha
um valor econômico muito alto comparado aos produtos que se costumam
trocar. Refleti rapidamente: se fosse eu em seu lugar, como chegaria no
grupo? Traria algo ou apenas viria para conhecê-lo? De certo modo,
observei algum incômodo dos participantes mais antigos, no entanto
não sabia qual seria o desfecho. De uma forma sutil, os participantes
mais antigos tentaram falar para ele que seu produto não era usual
nas transações, mesmo assim houve quem se interessasse pelo
produto – ele queria trocar por um aparelho de som (já chegou com
um objetivo claro). Dois entrevistados já haviam me falado que havia
pessoas que tinham interesses pontuais nas trocas, e que não preservavam
a idéia de grupo, de altruísmo, etc. Pensei que este sujeito
poderia ser alguém que queria trocar esse instrumento que tinha
em sua casa oportunamente, mas não pude concluir nada. Ao longo
do encontro, a animadora fez questão de sublinhar a importância
das pessoas perseverarem e “realizarem uma escolha” (nesse momento achei
a frase quase religiosa), sempre se dirigindo a estes novos integrantes.
Fiquei com dúvida a respeito de se outras pessoas do clube concordariam
totalmente com ela, por certos comportamentos que observei, tais como a
assiduidade no grupo. Isso não tem nada de negativo em si, apenas
mostra que os grupos não são homogêneos. Nessa assertiva
referida acima é notável o sentido de interpelação
da animadora, recordando a integração de reciprocidade que
Polanyi ressaltava em seus escritos. Um sistema de trocas, na concepção
de Mayer (2004, p. 168), é um esquema de relações
sociais em que “bens tendem a ser trocados repetidas vezes com pessoas
conhecidas em momentos e lugares particulares. Há uma tendência
retroalimentadora que induz [...] o intercâmbio no futuro”.
O valor simbólico do dinheiro
e o princípio da equivalência
Uma das questões mais instigantes
a serem analisadas é o valor simbólico do dinheiro para estes
grupos que, segundo Soares (2006), conseguem desmistificar sua existência,
entendendo que é uma construção social e histórica.
Essa característica pode ser observada de dois modos: o valor simbólico
do ponto de vista de uma noção sociológica de poder
e o valor simbólico de criar mecanismos mentais de comparação,
quantificação e fracionamento relativos a produtos .
No primeiro modo, o poder do dinheiro
se manifesta observando-se pessoas e comparando grupos com recursos econômicos
diferentes. O fator central é que o dinheiro agiria como atribuidor
de poder nas relações sociais. No clube, pessoas como mais
escassas condições financeiras têm menos poder de iniciativa
e não se sentem atraídas a participar do grupo que “apenas
troca” a partir do mediador moeda social. Uma entrevistada sugeriu que
estas pessoas já vivem com pouco dinheiro e que para sua sobrevivência
sempre procurar efetivar trocas no cotidiano. Aqui aparece um elemento
importante para entender o caso: esses sujeitos fazem pequenas trocas com
parentes e vizinhos, sendo o objetivo da vida econômica dessas famílias
conseguir o meio circulante, ou seja, ter acesso a um bem que é
reserva de valor e equivalente de trocas ao mesmo tempo.
As pessoas de baixa renda observam
que o dinheiro é um elemento de poder que obviamente lhes falta,
por isso necessitam dele como reserva e capacidade de acumulação
(geralmente essas pessoas acumulam algum dinheiro com esforços extraordinários).
Outro depoimento obtido durante a pesquisa de campo afirmou que as pessoas
mais pobres não conseguem incorporar um dos ideais do grupo: de
que todos são produtores e consumidores (“prossumidores”). Ora,
não há somente uma percepção de baixa auto-estima
(o valor simbólico do dinheiro e o valor simbólico que a
pessoa se atribui ), mas a incapacidade de produzir algo, uma vez que os
circuitos do clube dificilmente conseguem ser fechados – sustentados apenas
por meio de trocas. Para produzir é preciso acessar matérias-primas,
que nem sempre se obtêm no clube. Portanto, o dinheiro não
age somente na relação econômica e produtiva, ele influencia
significativamente as condutas. Seria um equívoco (embora opção
fácil e atraente para alguns) considerar que estas pessoas de baixa
renda são utilitaristas em suas relações; elas vivem
a partir de suas condições. Hart (no prelo, p. 19) afirma
que o dinheiro é um meio simbólico de comunicação,
ele informa nossa subjetividade e dá expressão concreta aos
nossos desejos.
Dois entrevistados relataram que
os que mais precisariam (do ponto de vista econômico) das trocas
são aqueles que querem lucrar com elas, comportamento que fere o
sistema de ideais do grupo. Seriam pessoas que têm dificuldade de
se envolver de maneira pró-ativa e que estariam acostumadas a apenas
ganhar (doações), conforme comentaram.
É preciso considerar, no entanto,
que não é algo fácil acreditar num sistema “rarefeito”
quando estão em jogo o trabalho, o dinheiro do dia-a-dia e os problemas
financeiros. Diferentemente da Argentina que passou por uma experiência
de crise econômica muito expressiva, ou da Bulgária (Chevalier,
2001) que experimentou na década de 1990 uma etapa de transição
em que as trocas eram essenciais para a sua economia de precária
monetarização, o Brasil vive outra situação.
Isso não ocorre somente neste país, como atestam algumas
pesquisas sobre moedas locais na Europa, Canadá e Austrália.
Caldwell (2000) mostra que nos sistemas de trocas por ele analisados as
pessoas mais vulneráveis economicamente trocam menos porque não
conseguem enxergar reais benefícios.
Além disto, é necessário
introduzir aqui o segundo ponto de análise dessa seção,
a equivalência. No segundo modo de valor simbólico do dinheiro
examinado este artigo, o princípio de equivalência desempenha
papel considerável.
Utilizando-se da proposta de Humphrey
e High-Jones (1992), Mayer (2004, p. 167) mostra que a troca é uma
transação entre produtos diferentes; não há
nenhum critério que possa julgar de fora que uma coisa tenha valor
igual à outra. Ocorre a negociação entre as partes,
mas sem referência a um valor abstrato ou a um denominador comum
entre elas, cada parte simplesmente desejando o objeto da outra; a transação
é simultânea, embora também possa haver intervalo de
tempo.
Mayer afirma que os valores dos objetos
não são referidos a um valor abstrato, mas o dinheiro o que
é? Provavelmente Humphrey e High-Jones se referem à idéia
de que não há uma objetividade dos valores de consumo ou
de uso para além do desejo e da subjetividade dos trocadores, vontades
estas presentes em suas mentes na hora do escambo. Contudo, isto não
significa que os sujeitos não possam comparar produtos através
de critérios que considerem objetivos (número de horas trabalhadas,
raridade etc.), bem como criar um sistema institucionalizado baseado na
equivalência.
Ricardo e Marx tentaram sustentar
que o valor-trabalho era um princípio objetivo que fornecia os valores
de trocas às mercadorias, mas sempre foi insuficiente a relação
que estabeleceram entre trabalho qualificado e não-qualificado,
bem como a relação entre os valores e os preços dos
produtos nos mercados. Avanços recentes mostram que há muitas
forças sociais que atuam na formação dos mercados,
como redes e hierarquias (Abramovay, 2004), e o conceito de valor de troca
pode ser estendido, valores estes compreendidos como emergentes de negociações
e lutas entre muitos atores localizados em diferentes e estratégicos
pontos de uma rede de relações mercantis (Long e Villareal,
2004; Paredes Peñafiel, 2006).
O importante dessas considerações
teóricas acima descritas para a discussão aqui desenvolvida
é que há esquemas na ação e nas redes de trocas
que procurarão dar valores semelhantes ou iguais a produtos que
os trocadores tentam permutar, mesmo que não haja um critério
externo e transcendente válido. Neste aspecto que incide a moeda
social espelhando o dinheiro real estatal.
Observou-se no Clube de Trocas
da Zona Norte que o Obirici – a moeda social do clube - é interpretado
como um facilitador de trocas. As pessoas pensam a maior parte das transações
em termos de moedas. Um dos entrevistados considera que este é um
problema no início da participação do sujeito no clube,
mas que, aos poucos, é possível se desvencilhar do princípio
de equivalência e estabelecer as trocas com mais liberdade. Contudo,
a moeda social neste caso seria um contra-senso, uma vez que ela substitui
o dinheiro oficial como facilitador e sua reserva de valor é muito
restrita. O mesmo entrevistado deu um exemplo interessante. Na cidade de
Canoas (RS), já existem dois clubes de trocas, maiores que este
analisado aqui. Segundo ele, as trocas avançaram muito em ambos,
porém o próprio entrevistado concluiu que o passo seguinte
que um grupo de mulheres de Canoas realizou foi a constituição
de uma cooperativa para vender produtos nos mercados locais. Embora seja
uma iniciativa louvável, o depoimento acaba confirmando a dependência
do valor do dinheiro oficial e também a questão essencial
dos circuitos econômicos para fora dos clubes até mesmo para
mantê-los.
Comparado aos objetos, Hart (no prelo,
p. 3) mostra que o dinheiro é representado como uma coisa real na
qual é investido um poder abstrato. Com os avanços da economia
virtual nas últimas duas décadas isto se tornou mais claro.
A tese de Hart sobre o poder persuasivo do dinheiro nas nossas vidas pode
encontrar ecos – com as devidas proporções – nos trabalhos
de Strathern (1998) sobre a Melanésia e na maneira como a monetarização
transformou o modo como as pessoas da Papua Nova-Guiné contabilizam
objetos – de um sistema em que cada um tinha um valor específico,
para outro em que é possível quantificar, fracionar, dividir
objetos em valores.
Analisando escritos de Spengler,
o trabalho de Hart sugere que houve uma grande transformação
na sociedade ocidental européia: de um modo de pensar em termos
de bens (que sempre são diferentes) para um modo de pensar em termos
de dinheiro (Hart, no prelo, p. 6). Não que a abstração
seja apenas oriunda do uso do dinheiro; resulta também de longos
séculos de insistência sobre a função do pensamento
abstrato na filosofia e nas ciências. Mas a economia monetária
desempenha papel central nesse processo para Hart, e este autor argumenta
que o moderno sistema monetário municia os indivíduos com
um amplo repertório de instrumentos para cultivar suas trocas com
o mundo e calcular o equilíbrio do seu valor na comunidade. Assim,
o poder do dinheiro é dado tanto nas relações sociais
na comunidade como também conduz a uma reflexão do sujeito
sobre si próprio em termos quantitativos .
Uma entrevistada foi bastante
enfática ao dizer que o uso do dinheiro molda o comportamento nas
trocas. Observou que isto era de fato um problema, mas que os ganhos dos
participantes seriam válidos mesmo assim. Esse depoimento tende
a reforçar o que foi analisado no tópico anterior, que as
trocas são apenas um momento de uma série de relações
sociais que se atualizam nas reuniões e que a economia do grupo
está imersa em comportamentos e significados que a extravasam.
Outro artigo resultante de
pesquisa com moedas locais coloca questões semelhantes ao encontrado
acerca do princípio de equivalência do dinheiro nas trocas.
Serra (2006) chama a atenção para o fato da “moeda-tempo”
(time currency) servir de medida para valores. Ela defende a tese de que,
para funcionar bem numa dada comunidade, estas moedas em forma de tempo
devem ser um meio para medir custos. Bem, esse é justamente o elemento
que serve como base para o questionamento da idéia de que o princípio
da equivalência sustenta as moedas locais. Isto ocorre tanto na equivalência
da moeda local com a moeda oficial (paridade) bem como na idéia
de que há uma exigência de reciprocidade nas trocas.
Quanto ao primeiro aspecto, é
curioso perceber que até isto é realizado com a finalidade
de facilitar as trocas – a paridade. É verdade que algumas não
são assim, mas a grande parte dos Lets e dos Time-hours de que se
encontrou referência funciona dessa maneira.
Quanto ao segundo aspecto,
uma outra entrevistada não demonstrou preocupação
com este fato. Ela tentou argumentar que não há necessariamente
equivalência nas trocas. Definiu que a formação dos
preços é um modo de controle do próprio grupo, e também
uma forma de poder distribuir as moedas. Na realidade, seu discurso demonstrou
que quando não existe a moeda social na mediação das
trocas do grupo há uma tentativa de fazer transações
mais ou menos eqüitativas. Cada um, segundo ela, deve saber o que
lhe agrada para poder estabelecer uma troca, na medida do possível,
equivalente. Cabe lembrar, entretanto, o que se depreende da proposição
de Mayer antes descrita. Na troca, a equivalência é dada pelos
sujeitos, suas subjetividades e desejos – culturalmente situados – condicionando
o que cada um considera bom para dar e receber; enquanto que com o dinheiro
ou a moeda social existe a institucionalização da equivalência
fundamentada na quantificação.
Na seqüência a essa indagação
que lhe fiz sobre as trocas, a mesma entrevistada afirmou que a reciprocidade
nas trocas e a moeda social são meios de evitar problemas com dons
e a não-retribuição. Se lembrarmos o debate que Bourdieu
(1996) estabelece com os textos clássicos de Mauss (2003b) e Lévi-Strauss
(2003) sobre a dádiva, o primeiro insiste que os dois últimos
não deram a devida importância ao tempo entre o dar e o receber,
momento em que se instala tanto a incerteza da retribuição
como o poder do doador. Enquanto eu tentava pensar em termos de uma vantagem
caso o clube vivesse de dons, ela relatava que as dádivas atrapalhariam
o funcionamento do clube, pois é necessário um jogo aberto
e explícito nas transações do grupo.
Segundo ela, algumas pessoas mais
próximas no interior do clube podem se permitir dádivas,
visto que mantêm contatos constantes e não precisam cobrar
restituições ou pagamentos. O caso dela e de uma amiga assemelha-se
a esta situação, entretanto tenho dúvidas se podemos
considerar dádivas no sentido mais estrito do termo. Como recorrência,
as duas trocam entre si produtos e serviços. Quando uma precisa
de algo, a outra não precisa levar o produto da troca no mesmo momento,
nem pagar em moeda social Obirici. Há esperança de que a
reciprocidade venha a re-equilibrar os trocadores – por isso talvez não
sejam dádivas, mas as permutas se estruturam também em tempos
distantes e por meio de relações confiança.
Desse modo, apesar das moedas e do
dinheiro agirem como modeladores do comportamento dentro e fora do clube,
compreende-se que há iniciativas para trocas não-mediadas.
Apesar disto, o que percebi realmente foi uma dificuldade em escapar das
medidas quantitativas (de valores) já introduzidas pela noção
que temos de dinheiro e pela sua importância na vida cotidiana.
Considerações finais
Este
trabalho procurou mostrar que a constituição de clubes de
trocas caracteriza-se expressivamente associada à implementação
de moedas locais próprias elaboradas por estes grupos. Existem,
de fato, diversos clubes sem moedas, mas percebeu-se com a pesquisa de
campo realizada em Porto Alegre e também com os dados obtidos acerca
de clubes no Brasil e no exterior que as moedas são amplamente difundidas.
A justificativas mais repetidas para
tal uso deve-se a sua capacidade de dar liberdades nas trocas e ser um
meio como o dinheiro oficial permitindo que as pessoas possam ampliar suas
transações. Há ainda outro elemento que pode ser citado
com fator para a implementação das moedas: elas evitam constrangimentos
caso os grupos apenas fizessem trocas e em certas operações
algumas pessoas não quisessem aceitar aquilo que fora oferecido
pelo outro. Com a moeda, as pessoas podem acumular (até um limite
estabelecido) e comprar o que quiser, dentro de um rol de produtos não
muito variado.
Muitos dos entrevistados foram enfáticos
em dizer que as pessoas que mais poderiam angariar recursos com os clubes
têm dificuldades de participar (referindo-se às de baixa renda
ou desempregadas). Elas não conseguem ver as reais possibilidades
dos grupos, segundo depoimentos. As poucas pessoas desempregadas ou de
baixa renda com quem consegui conversar e que pude observar evidenciaram
sua falta de interesse, pois o grupo de trocas não dá conta
da subsistência familiar. Até que os clubes possam ter um
funcionamento mais sistemático (cotidianamente) e com amplitude
para os mercados locais (tal como o Banco Palmas no Ceará e o projeto
de revitalização do bairro Ruben Berta em Porto Alegre, que
também possuem fortes limitações), os que têm
maiores problemas na vida financeira concederão poucas possibilidades
de engajamento. O exemplo do Clube de Trocas da Zona Norte mostrou que
muitos dos participantes são pessoas empolgadas com idéias
de conservação da natureza ou críticos da economia
de mercado, mas que possuem empregos e não passam por situações
de pobreza. Não se pode esquecer a (evidente) economia financeira
internacional e seu poder para frear iniciativas locais – os próprios
sistemas financeiros nacionais são geralmente inibidores do surgimento
de novas moedas (entretanto nunca conseguem controlar por completo pela
própria capacidade inventiva das pessoas em realizar transações
baseadas em outras formas de contagem: tempo, trocas de serviços
etc.).
Ao longo da pesquisa, percebi que
os clubes enfrentam dificuldades para crescer em número de freqüentadores.
Torna-se difícil animar os participantes, pois as trocas são
em quantidade relativamente escassa, e quem participa acaba por ter que
se doar bastante (organizar, coordenar, fazer mediação, conseguir
produtos com cooperativas de produção). Além disto,
há ainda o problema daqueles que querem aproveitar a situação
para se desfazer de objetos usados. É preciso observar isto com
cuidado, pois está em jogo o discurso dos participantes ativos que
pretendem que o clube não seja apenas um grupo de trocas pontuais,
mas um espaço de reflexão, relações de proximidade,
envolvimento emocional, amizade, trocas afetivas, redes de informação.
O valor simbólico do dinheiro
exerce um papel importante neste processo. Para as pessoas, ele consiste
num símbolo de poder. Do ponto de vista daqueles que têm baixos
rendimentos, parece que ser estimulado a trocar ou inventariar produtos
para obter a moeda social não é algo que lhes agrade e interesse.
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De outro lado, o poder simbólico
do dinheiro está vinculado ao princípio de equivalência
e à capacidade que este tem de quantificar, fracionar e dividir
os valores dos produtos e dos serviços. Portanto, a pesquisa conduzida
em Porto Alegre encontrou resultados sustentados teoricamente nos trabalhos
de Hart e Strathern: o dinheiro se reveste de um poder que não é
apenas sociológico – isto é, no âmbito das relações
sociais e da diferenciação de grupos econômicos – mas
que se exerce no pensamento dos sujeitos que o utilizam.
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Talvez os grupos pudessem
arriscar e estimular seus membros a realizar suas transações
para além de um princípio de equivalência fundamentado
na moeda, procurando que os próprios produtos e os desejos das pessoas
fossem responsáveis pelo interesse que se depositam neles. As trocas
poderiam ser sem moeda, isto afastaria um pouco a noção abstrata
e o cálculo. Ainda assim a vantagem da moeda continuaria a se apresentar,
espelhada mesmo pela economia do dinheiro oficial. Penso que o essencial
é que cabe aos próprios clubes fazerem a escolha dos modos
de troca, e que a sua existência é um fôlego e ao mesmo
tempo uma recolocação crítica das regras do mercado
capitalista; embora possuam forças localizadas, são resultados
da capacidade inventiva para uma economia desoladora. A questão
que este trabalho levanta pode ser condensada em dois desafios: primeiro,
observar que efeitos decorrem das transações fundamentadas
nas moedas reproduzidas no interior do grupo e, segundo, compreender que
por enquanto a economia de mercado circundante continuaria ancorada no
dinheiro.
>
Notas
Bolsista do CNPq. g.radomsky@gmail.com
Grande parte da bibliografia utilizada neste texto pode ser acessada pela
Internet. Ver as referências ao final do artigo.
Zelizer (2005a, p. 301) anota que os sistemas de moedas ancorados na moeda
nacional tem sido mais utilizado na Europa e no Canadá (embora poderíamos
acrescentar Austrália e Nova Zelândia) e os sistemas baseados
no tempo (time dollares, Hours de Ithaca) prevalecem nos EUA.
Este artigo possui uma versão disponível
na Internet . No mesmo sítio, o autor disponibiliza diversos
outros textos acerca das relações entre antropologia, dinheiro
e economia.
Uma pesquisa que conduzo no momento pretende mostrar a aproximação
entre ideais de conservação da natureza, justiça social
e comércio justo nos processos
de certificação (criação de selos) na agricultura
ecológica.
Os usos das moedas dos clubes de trocas acontecem apenas em encontros e
feiras. Diferentemente, o circulante tem valor no dia-a-dia é aceito
nos mercados de bairros. Existem algumas experiências no Brasil,
como o Banco Palmas em Fortaleza e no bairro Ruben Berta, em Porto Alegre.
Em ambos os casos, há financiamento com dinheiro proveniente de
doações ou recursos de ONGs estrangeiras.
Sobre este último aspecto, o artigo de Strathern (1998, p. 5 e ss.)
faz uma discussão muito profícua e consistente.
Seria este um caso da troca de perspectivas, na acepção em
que Viveiros de Castro tem escrito? O dinheiro é um ponto de vista?
(Viveiros de Castro, 2007, especialmente p. 115). Sobre mercadoria e dádiva
como pontos de vista, ver Strathern (2006).
Ver também Hart (2007)
sobre o poder de síntese que faculta o dinheiro, uma vez que se
ele fraciona a experiência, também habilita ações
concretas e reais nos mercados. O texto integral pode ser acessado via
www
.
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