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Etnografias
possíveis: “estar” ou “ser” de dentro
Edlaine de
Campos Gomes & Rachel Aisengart Menezes
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tratamentos
adequados para os distintos tipos de câncer, entre outros. O fato
de R. Menezes possuir formação médica foi decisivo
para tal, pois a linguagem técnica já havia sido incorporada
anteriormente. Deste modo, novos conhecimentos da fisiologia, patologia
e terapêutica dos pacientes “fora de possibilidades terapêuticas”
foram adquiridos pela pesquisadora médica/antropóloga, o
que seria praticamente impossível para um antropólogo sem
formação prévia na área da saúde.
Se, por um
lado a dupla identidade possibilitou a entrada no hospital observado, por
outro acarretou a necessidade de maior reflexão sobre a posição
do pesquisador – o que não é, e nunca deve ser, exclusivo
desta condição dupla, pois integra a prática etnográfica.
Para efetuar a análise do material sempre é preciso um movimento
de afastamento e aproximação do objeto da investigação,
o que é amplamente reconhecido por etnólogos, desde os primórdios
da antropologia.
Em dezembro
de 2004 foi lançado um livro baseado na tese de Doutorado (Menezes,
2004) .
A recepção desta obra pelos militantes da causa da “boa morte”
foi muito positiva. À ocasião a pesquisadora recebeu diversas
mensagens de médicos, psicólogos, enfermeiros e assistentes
sociais paliativistas, agradecendo a publicação e a possibilidade
de divulgação da proposta paliativista no Brasil. Aos comentários
contendo elogios somavam-se pedidos de envio do livro para universidades
e hospitais, com a finalidade de indicação de leitura obrigatória
em cursos sobre o tema. À semelhança do uso de textos sócio-antropológicos
(Gomes, 2004, 40; Silva,
2006) sobre religião pelas instituições religiosas
como forma de legitimação – notadamente as igrejas evangélicas
e as religiões afro-brasileiras –, os militantes paliativistas perceberam
a publicação de um livro especificamente dedicado aos Cuidados
Paliativos como prova da importância do assunto. Assim, R. Menezes
passou a ser vista como integrante da causa da “boa morte” no Brasil. Desde
o primeiro contato com os Cuidados Paliativos a pesquisadora sentiu uma
certa empatia pelo projeto, em especial, por sua proposta de uma assistência
mais humanizada, em oposição à medicina tecnologizada,
“desumana”. Na observação percebeu o risco de uma empatia
acentuada, podendo chegar até a simpatia. A possibilidade de uma
expectativa – por parte dos profissionais desta especialidade – de aderência
à causa paliativista se apresentou desde o ingresso no campo de
observação.
O fato de estudiosos
se dedicarem a um determinado tema enfatiza sua relevância em um
contexto, o que não implica, necessariamente, a “conversão”
a uma causa. Cabe ressaltar que, apesar de ser tida como defensora dos
Cuidados Paliativos por profissionais de saúde desta área,
em nenhum momento a pesquisadora se posicionou desta forma. O interesse
em investigar esta recente modalidade assistencial integra um universo
mais amplo de reflexão, direcionado à antropologia do corpo,
sexualidade, emoções, saúde, doença, medicina
e da religião. Não cabe aqui desenvolver o embricamento destes
campos de estudo, mas vale ressaltar as articulações entre
eles, por possibilitar um entendimento das relações sociais
e identidades dos sujeitos na sociedade ocidental contemporânea.
A equipe do
Hospital do Câncer IV foi convidada para o lançamento do livro
de R. Menezes, mas nenhum membro esteve presente. À ocasião,
um fato foi mais significativo do que a ausência destes profissionais:
a impossibilidade de comparecimento de um primo da pesquisadora, de 46
anos, doente, com diagnóstico de câncer. Cerca de dois meses
antes ele sentiu dores e notou aumento de gânglios. Procurou atendimento
na cidade em que morava, sem alteração do quadro. A pesquisadora
sugeriu que ele viesse para o Rio, para consultar um especialista. Como
era autônomo, não possuía emprego fixo nem seguro-saúde
buscou atendimento em um hospital público. Os exames constataram
uma neoplasia e ele foi encaminhado para o Hospital do Câncer I para
tratamento. Com o diagnóstico, retornou ao Rio de Janeiro, passando
a residir com sua mãe. Ambos entraram em contato com R. Menezes,
indagando acerca da possibilidade de acompanhá-lo nas consultas
no Hospital do Câncer I – como prima/médica –, ao que respondeu
afirmativamente. A demanda pode ser entendida pelo fato de o grupo familiar
considerá-la, prioritariamente, como médica. Além
deste aspecto, a solicitação também pode ser compreendida
de outra forma: como possibilidade de apoio emocional, diante de uma doença
associada ao estigma da morte e relacionada ao atendimento em saúde
em hospital público. Até aquele momento seu primo sempre
foi atendido em consultório privado. A família de R. Menezes
pertence às camadas médias da zona sul do Rio de Janeiro,
o que, geralmente, significa acesso a clínicas e consultórios
privados, seja mediante seguro-saúde ou por meios próprios.
Assim, a assistência em saúde pública não costuma
integrar o universo de opções da família – como de
outras do mesmo estrato social –, à exceção de situações
de emergência.
Ao mesmo tempo
em que entregava os originais do livro aos editores, a pesquisadora passava
a freqüentar o ambulatório do Hospital do Câncer I, um
hospital até então desconhecido – tanto no que diz respeito
à estrutura física e espacial quanto em termos de contatos
pessoais –, como familiar de paciente, médica e antropóloga,
uma vez que não é possível uma dissociação
desta identidade, intimamente imbricada com as outras. Acompanhar um doente
nas consultas médicas de um hospital público proporcionou
novas observações em torno do tema de seu interesse: a instituição
médica. O tempo de espera, o formato da consulta e, especialmente,
os diálogos entre médico e paciente constituíram objeto
de novas reflexões, aprofundando as anteriormente empreendidas.
Desde as primeiras consultas R. Menezes foi tratada como “colega” pela
equipe de saúde. À exceção das recepcionistas,
que desconheciam sua identidade profissional, nenhum profissional dirigiu-se
a ela como familiar de paciente. Este dado indica um aspecto relevante:
entre equipes de saúde, a identidade pessoal e familiar é
subsumida à profissional.
É possível
acrescentar a estas questões o viés referente à inserção
social: a maior parte dos pacientes ali atendidos pertence a camadas populares
ou franjas mais baixas de camadas médias – diversamente do primo
de R. Menezes. Sua estranheza por não ser tratado como estava habituado
– um atendimento “mais pessoal” – e, sobretudo, uma dificuldade de aceitação
dos códigos da assistência pública, expressa sob diversas
formas, desde buscar um “jeitinho” (Barbosa, 1988;
Da Matta, 1990) de passar à frente na
fila dos doentes até a revolta pela demora no atendimento, contrastavam
com a conduta paciente dos outros doentes e familiares na sala de espera.
R. Menezes
foi apresentada por seu primo a diversos médicos do Hospital do
Câncer I como a prima médica, pesquisadora e especialista
em Cuidados Paliativos, provavelmente como recurso a um tratamento diferenciado.
Este tipo de situação provocou certo constrangimento na antropóloga,
por não condizer com seus princípios igualitários.
Entretanto, apesar de discordar desta iniciativa, em diversas ocasiões
a condição de médica proporcionou algumas facilidades,
como acesso mais rápido a resultados de exames, inclusive a confirmação
de um teste por telefone, o que não é prática usual
da instituição. Por outra perspectiva, em certos momentos,
o fato de investigar os Cuidados Paliativos produziu reações
negativas, reiterando um dado anteriormente observado na etnografia, pois
a especialidade era avaliada negativamente pelos demais médicos,
sendo a expressão “especialista em atestado de óbito” muito
freqüente à época. Ao saber da pesquisa e do livro publicado,
um médico disse-lhe: “espero que seu primo não precise dos
Cuidados Paliativos, estamos fazendo tudo para que ele não vá
para lá, para o Hospital do Câncer IV”. No entanto, apesar
do tratamento para a cura da doença e do investimento da equipe,
foi o que ocorreu.
A partir do
avanço da doença e da não resposta ao tratamento,
ele recebeu o diagnóstico de “fora de possibilidades terapêuticas”
e foi encaminhado para o hospital previamente observado. Nesta data ele
já havia lido o livro de R. Menezes. O enfermo recebeu a informação
de que passaria a ser assistido em unidade paliativa em uma consulta em
que ela o acompanhava. A médica disse: “você vai ser atendido
por especialistas...”, quando foi interrompida pelo doente, que afirmou:
“sei o que você está me dizendo; já li o livro. Não
tem jeito então” .
R. Menezes
retornou ao Hospital do Câncer IV, após cerca de dois anos
do término da observação, como familiar de paciente
internado. Anteriormente havia observado o percurso de doentes e familiares
nesta instituição. Desta feita, nos termos da equipe paliativista,
passou a compor o “time de cuidadores”. As reações dos profissionais,
ao tomarem conhecimento de seu parentesco com o novo paciente, foram muito
semelhantes. Por um lado, alguns médicos e enfermeiros lamentaram
a situação, dizendo: “que coincidência, e ainda por
cima um quadro tão grave!”. Por outro, diversos profissionais se
referiram à possibilidade de ajudá-lo, a partir dos conhecimentos
técnicos adquiridos sobre Cuidados Paliativos e controle da dor
ao longo da observação etnográfica. Uma médica,
com a qual manteve um maior contato durante a observação,
se colocou à disposição: “se precisar de algo, é
só telefonar para o meu celular”. A partir destas reações,
é possível afirmar que R. Menezes foi reconhecida inicialmente
como familiar de paciente, a seguir como médica e, por fim, como
interessada nos Cuidados Paliativos – o que não significava, necessariamente,
para os profissionais de saúde, uma identidade de antropóloga
e pesquisadora.
A partir do
encaminhamento para o Hospital do Câncer IV a conduta de R. Menezes
se transformou, provavelmente por duas razões: a primeira concernente
ao conhecimento prévio da equipe e da instituição,
e a segunda à piora da condição de seu primo. Anteriormente,
no outro hospital, evitou utilizar o “jeitinho” para conseguir determinadas
prerrogativas. Já na unidade paliativa, posicionou-se como familiar
e médica, com alguns conhecimentos sobre Cuidados Paliativos. Ao
acompanhar a trajetória de seu primo, em diversas circunstâncias
percebeu que atuava como uma paliativista em busca de alívio dos
sintomas do doente. O fato de ter realizado a investigação
neste hospital possibilitou tanto uma familiaridade com a rotina institucional
e com a equipe, quanto um aprendizado farmacológico. Conforme referido,
caso a pesquisa fosse efetuada por um antropólogo sem vínculos
profissionais com a medicina, é provável que a apreensão
de um corpo de conhecimentos técnicos em torno de medicações
não pudesse ser adquirida nem aplicada na prática.
À dupla
identidade inicial – médica e antropóloga – somou-se outra:
de familiar de paciente, com o surgimento do câncer de seu primo.
R. Menezes já havia empreendido um estudo etnográfico neste
hospital e não era seu propósito, à ocasião,
uma análise acerca da situação. Entretanto, o retorno
ao campo da investigação provocou a emergência de sentimentos,
confirmou hipóteses anteriormente formuladas e instigou novas reflexões.
A atitude dos
profissionais em relação à médica/familiar/antropóloga
ilustra o modo de gestão dos sentimentos da equipe paliativista:
R. Menezes sempre foi tratada como “colega”. Em nenhum momento foi considerada
uma familiar de paciente, o que pode ser ilustrado por dois episódios.
No primeiro, telefonou para uma médica para saber o resultado de
um exame de seu primo. Ela explicou o laudo e complementou: “sabe que foi
muito difícil fazer o exame? Pois é, também com aquela
louca lá, a mãe dele é louca, ficou chorando, atrapalhou
a execução do procedimento!”. A “louca” era a mãe
do paciente, extremamente angustiada pela piora de seu filho. Assim, para
a médica, não havia qualquer nexo entre a mãe do doente
e a pesquisadora. Entretanto, ela é, de fato, sua tia. A segunda
situação também ocorreu a partir de um telefonema,
quando comunicou a morte de seu primo à médica responsável.
Ela disse então: “finalmente descansou. Você está aí
com a mãe dele? A esposa e filhos já sabem? Como eles estão?
Você está cuidando deles? Por favor transmita a eles que sinto
muito”. Este comportamento se repetiu em outra ocasião, quando encontrou
outra médica deste hospital: “como vai a mãe dele? Coitada...”.
Estes exemplos evidenciam a construção de um determinado
modo de gestão das emoções pelos paliativistas diante
da morte (Menezes,
2005 ), no qual a equipe de saúde e, especificamente, o médico,
estariam imunes a qualquer sentimento.
Os comentários
evidenciam a dissociação efetuada por estes profissionais
de saúde em relação à identidade de R. Menezes.
Para eles, a referência inicial permaneceu: conheceram-na como “médica
visitante”, ao ingressar no hospital para empreender a observação
etnográfica. Seu retorno à instituição como
prima de paciente não foi levado em conta pelos profissionais. Em
suma, seu vínculo afetivo e familiar foi desconsiderado – o que
demonstra uma dificuldade, por parte da equipe, no lidar com as emoções
envolvidas no acompanhamento de um homem de 46 anos e de seus familiares.
A referência à idade é um dado relevante: quanto mais
jovem o doente, maior a mobilização emocional da equipe de
saúde. Consideram-se aqui as categorias de idade como construções
históricas, sociais e culturais. Na contemporaneidade, a juventude
é extremamente valorizada, e este dado se reflete na avaliação
e no investimento de equipes de saúde (Menezes, 2006: 68). A possibilidade
de identificação dos profissionais de saúde com a
situação vivenciada por R. Menezes provavelmente provocou
esta dissociação.
Cabe ressaltar
que esta forma de lidar com o universo emocional não se restringe
a esta especialidade, mas integra um habitus e um ethos incorporados ao
longo da formação médica (Menezes,
2001). Um dado curioso consiste no contraste entre as situações
descritas e o preconizado pelo ideário paliativista: o estímulo
à expressão das emoções de pacientes e familiares,
e o subseqüente acolhimento destas pela equipe. Trata-se de um processo
de cisão concernente à esfera emocional, efetuado pelos profissionais:
por um lado, incitamento à verbalização e demonstração
das emoções de pacientes e de seus acompanhantes. Por outro,
quanto mais próxima a situação do universo social
dos profissionais, maior a necessidade de afastamento dos próprios
sentimentos. A expressão de determinadas emoções é
estimulada pela equipe, tais como: alegria, tristeza, angústia,
desde que dentro de certos limites. O riso ou o choro, expressos em tom
de voz mais alto são, geralmente, censurados pelos profissionais
da unidade paliativa. Diante de demonstrações de raiva, revolta
ou indignação de pacientes ou de seus familiares geralmente
a equipe responde com medidas de controle, como, por exemplo, solicitar
a presença do segurança da unidade, seja para conter o sujeito
ou ‘convidá-lo a se retirar’ do hospital. O perigo de uma identificação
excessiva se apresenta, o que pode acarretar o comprometimento do bom andamento
do trabalho institucional.
De certo modo,
há uma semelhança entre o movimento de aproximação
e distanciamento efetuado pelo profissional de saúde e pelo antropólogo.
Para ambos, este movimento é imprescindível. Entretanto,
uma diferença é crucial: na investigação etnográfica
o pesquisador tem – e deve sempre ter – consciência de seu embricamento
no campo. À esfera das emoções é atribuída
certa valoração, de acordo com o profissional de saúde.
No entanto, seja qual for a especialidade no campo da assistência
em saúde – à exceção da psicologia – os sentimentos
não constituem, via de regra, objeto de reflexão entre os
pares na prática hospitalar.
Considerações
finais
As escolhas
das pesquisadoras em desenvolver uma reflexão acerca de situações
nas quais desempenharam duplo papel são consoantes com as críticas
elaboradas por Abu-Lughod (1990) à
tendência psicologizante e etnocêntrica nas ciências
sociais, ao considerar que todos os seres humanos estão comprometidos
com a auto-compreensão cotidiana de suas vidas. Considera-se aqui
que, seja qual for o objeto de investigação do antropólogo,
necessariamente haverá uma articulação com a própria
história e subjetividade do pesquisador. Cabe ao antropólogo
refletir sobre seu desejo e sua possibilidade de investigar determinada
temática. Não se trata aqui de negar as determinações
conscientes ou inconscientes em torno da escolha do tema, mas de questionar
o uso de interpretações provenientes dos saberes “psi” no
campo das ciências sociais, com atribuição de valor
diferencial a certos assuntos. A formulação de hierarquias
referentes às distintas áreas de investigação
antropológica – quando sexualidade, morte, segredo, família,
religião e sentimentos no fazer antropológico podem provocar
comentários jocosos – evidencia valores correntes de um grupo, em
um dado contexto.
De acordo com
Abu-Lughod (1986), a emoção deve
ser analisada como prática discursiva contextualizada. O mesmo pode
ser dito no que concerne à escolha do objeto de investigação.
As reações dos pares ao exame e estudo de determinadas questões
refletem os valores morais associados ao tema. Assim, R. Menezes recebeu
comentários como “morbidez”, “masoquismo” e sugestões de
procurar tratamento psicológico e/ou psicanalítico para “evitar
uma depressão”, ao investigar a gestão do processo do morrer.
À E. Gomes foram dirigidos os seguintes conselhos: “ao invés
de pesquisar a família devia fazer psicanálise”, “atenção
para não ficar muito mobilizada”, “cuidado com sua exposição”,
entre outros. A escolha do objeto de pesquisa foi interpretada, por alguns,
apenas como sintoma a ser tratado e não como tema de interesse acadêmico,
racional e legítimo. Tal postura acarretou, em diversas ocasiões,
certa dificuldade de interlocução intelectual, acerca do
assunto em pauta. Questões significativas apontadas nas análises
ocupavam uma posição subalterna, em relação
à interpretação presumida de um problema pessoal das
autoras. Em suma, ambas receberam a sugestão, de seus pares, de
buscar atendimento psicanalítico, o que evidencia a preeminência
da psicanálise, na visão cosmológica dos antropólogos .
O desafio antropológico
de trabalhar com a própria família extrapola os limites da
pesquisa de campo realizada, por exemplo, na cidade, como na Antropologia
Urbana. Pesquisar o “próximo” em termos cognitivos, afetivos e espaciais
encerra limites do que se designa como familiar, no sentido genérico.
O limite se rompe quando a abordagem parte da análise da própria
família. No caso de E. Gomes, não somente em relação
ao objeto de pesquisa que está próximo, em termos afetivos
ou espaciais, como na Antropologia Urbana, ou Antropologia das Sociedades
Complexas, mas pelo fato da questão ser a família. Falar
da própria família é quase uma heresia, é expor
aquilo que há de mais sagrado e pulsante, paradoxalmente, no discurso
moderno. É nela que temas mais críticos e privados se ancoram:
sexualidade, decisões reprodutivas, segredo, religião. A
família como “crucialidade e intensidade próximas a uma religiosidade”
estabelece, assim como a religião, mediação entre
o público e o privado, como acentua Duarte
(2006). Família é lugar de segredo, reduto daquilo em que
a sociedade supostamente não interfere ou que não é
revelado. Trata-se de universo privado e sagrado. Por esta razão
é, por excelência, tabu na sociedade moderna. Observar de
“dentro” e expor o que deveria permanecer envolto em névoa, seria
uma subversão total do método antropológico que supõe,
em alguma medida, a capacidade de estranhar o outro, fazê-lo próximo
e, em seguida, distanciá-lo de forma tão precisa para que
possa, “de fato”, ser conhecido. Por outro lado, não seria uma descrença
nos instrumentos adquiridos no “treinamento” e na sensibilidade do trabalho
etnográfico?
Qualquer imersão
no campo traz a possibilidade de emergência de sentimentos – “os
hóspedes não convidados da situação etnográfica”
(Da Matta, 1978, p. 30). Seja na investigação
desenvolvida por E. Gomes em sua rede familiar, seja no retorno de R. Menezes
ao campo previamente observado, como parente de doente, as emoções
integraram o material de reflexão. O contato com a doença,
com o sofrimento e a morte foi, de fato, capaz de gerar angústia
na antropóloga/médica. Por ser médica, R. Menezes
vivenciou tanto uma familiaridade com o ambiente observado como um estranhamento
com as rotinas institucionais. Ambas as pesquisadoras se dedicaram a examinar
e refletir sobre sua dupla identidade e as emoções emergentes,
a partir desta condição. O pertencimento familiar de ambas
foi – e se mantém – objeto de distintas reações, tanto
por parte dos sujeitos observados quanto de interlocução
acadêmica. No entanto, é possível apontar uma diferença,
no que tange à posição das duas antropólogas.
Por um lado, os vínculos familiares de E. Gomes com a rede investigada
são claramente explicitados, e, por esta razão, provocam
debates e controvérsias. Por outra perspectiva, os laços
familiares de R. Menezes foram invisibilizados pela equipe de saúde
previamente observada, o que evidencia o incômodo com a questão.
Conforme referido, abordar a temática da família significa
tocar em valores tidos como sagrados, de modo a mobilizar reações
em todos os envolvidos, inclusive nas pesquisadoras.
Não
há dúvidas sobre a possibilidade de transformações
no investigador – e nos pesquisados – na imersão no campo e na elaboração
de seu texto. Dois antropólogos abordam esta questão, a partir
de suas vivências. Renato Rosaldo (1989, p. 11), em pesquisa de campo
entre os Ilongotes, vivenciou uma situação radical: o acidente
que causou a morte de sua esposa Michelle, também antropóloga.
Para ele, o uso de sua experiência pessoal de luto e viuvez serviu
como veículo para apreensão da qualidade e intensidade emocional
dos sujeitos que investigava. No artigo em que aborda seus sentimentos
– e os dos Ilongotes – diante da morte de sua esposa, ele afirma que alguns
leitores poderiam reduzir seu texto a uma expressão do processo
de luto e da descoberta do sentimento de raiva possível neste período.
Para ele, seu texto contém uma elaboração da perda,
uma apresentação da vivência pessoal e, sobretudo,
uma análise crítica do método antropológico.
Ao investigar a morte, muitos antropólogos eliminam a esfera das
emoções, assumindo a posição de um observador
distante (Rosaldo, 1989, p. 15). Nestes estudos
geralmente os rituais são associados ao processo de luto, e a relação
entre ritual e vida cotidiana é ignorada. Ao vivenciar e ultrapassar
o período de luto, o antropólogo passou a se posicionar diversamente
em relação ao objeto de investigação. O olhar
do etnógrafo não podia ser dissociado de suas emoções,
e novas reflexões foram então produzidas. Em suas palavras:
“The
notion of position also referes to how life experiences both enable and
inhibit particular kinds of insight. In the case at hand, nothing in my
own experience equipped me even to imagine the anger possible in bereavement
until after Michelle Rosaldo’s death in 1981. Only then was I in position
to grasp the force of what Ilongots had repeatedly told me about grief,
rage, and heahunting.” (Rosaldo, 1989, p. 19)
A partir da análise
de suas emoções no campo – antes e após a morte de
Michelle – Rosaldo (1989, p. 21) afirmou que, para
empreender uma reflexão antropológica, é preciso levar
em conta que os objetos da análise também constituem sujeitos
que interrogam criticamente os etnógrafos, com seus textos, sua
ética e sua política.
Já Dorine
Kondo (1990, p. 14), nipo-americana, relata sua transformação
ao residir no Japão. Ela era facilmente identificada, pelos “nativos”,
como “estrangeira” por sua postura corporal, gestos e linguagem. Entretanto,
com o tempo de permanência entre famílias japonesas, a antropóloga
se deparou com uma imagem refletida e, para sua surpresa, não se
reconheceu: via uma típica dona-de-casa, uma mulher caminhando com
a postura característica japonesa (Kondo,
1990, p. 16). Havia incorporado o ethos nativo – que, ao ingressar no campo
etnográfico, parecia tão distante e distinto de seu universo.
Kondo sentiu medo de não mais emergir deste mundo no qual havia
realizado uma imersão. Para ela, este colapso conduziu à
percepção das diferenças entre culturas e entre distintos
aspectos da identidade: pesquisadora, estudante, filha, mulher, japonesa,
norte-americana, nipo-americana. Tanto a fragmentação do
self quanto o colapso de sua identidade constituíram resultados
da complexa relação entre antropóloga e informantes.
A partir da constatação de sua mudança, decidiu retornar
aos Estados Unidos. Era preciso se afastar do campo para empreender a análise,
escrever o texto e, sobretudo, reescrever a própria identidade (Kondo,
1990, p. 23). A experiência de identificação, fragmentação
e auto-transformação demonstraram, para a pesquisadora, os
efeitos criativos e conflituosos no jogo de significado e poder, no qual
todos os atores sociais envolvidos reescrevem suas identidades.
A leitura da
produção antropológica pelos informantes ou grupos
pesquisados conduz a intensas discussões metodológicas, que
abrangem desde a ética em pesquisa até a restituição.
Orlandella (2005) expõe a importância
do trabalho desenvolvido por William Foote Whyte em “Street Corner Society”
para sua vida. Havia sido informante e ajudante de Whyte. Em suas palavras,
tinha “esperança de que a pesquisa fosse ajudar as pessoas de fora
a entender melhor o que realmente fazia o North End funcionar daquele modo,
e quais suas necessidades” (2005, p. 366). Como ajudante do antropólogo
aprendeu métodos de pesquisa que foram úteis em sua trajetória
profissional e pessoal. “Sim. Bill Whyte deu uma virada completa em minha
vida. Ele expandiu meu pensamento, para que eu pudesse apreciar e entender
melhor o North End”. Os dois se transformaram em grandes amigos: “Conheci
Bill e Kathleen quando tinha 20 anos de idade. Dentro de poucos meses terei
62, e é esse o tempo que vem durando nossa amizade” (2005, p. 377).
Os laços gerados em trabalho de campo existem, são os mais
diversos, movidos e moldados por simpatias e antipatias. Podem estar ou
não expressos na escrita, mas integram o processo reflexivo de qualquer
etnografia.
E. Gomes e
R. Menezes passaram por situações semelhantes quanto à
recepção e repercussão de seus textos. Constrangimentos,
temores, contentamento, tensão e ambigüidade apresentavam-se
na interação com seus interlocutores – todos, de alguma maneira,
“próximos” a elas: parentes, informantes ou acadêmicos. Em
concordância com Kondo (1990, p. 24), considera-se
que a experiência não é oposta à teoria: ela
atua e corporifica o referencial teórico .
Ao decidirem
refletir e expor sua análise acerca dos sentimentos envolvidos e
a duplicidade de papéis, E. Gomes e R. Menezes afirmam um determinado
modo do fazer antropológico que, necessariamente, contém
uma reflexividade em torno das identidades, uma vez que esta não
é uma categoria fixa. Ela é múltipla, negociável,
ambígua. É resultado das diversas interações
sociais e culturais, construídas nas diferentes situações.
Indo além, diluir os limites entre o público e o privado
possibilita acessar e tratar de temas-tabu em contexto dominado por uma
vertente ideológica que efetua clara distinção entre
indivíduo e sociedade, Razão e Emoção, objetividade
e subjetividade.
Notas
A autora destaca duas acepções de “empatia”: 1. experimentar
de forma indireta as sensações, percepções
e pensamentos do outro, pressupondo uma distância; e 2. como comunhão
afetiva (Favret-Saada, 2005, p.158-59). Deixar-se afetar abre um tipo específico
de comunicação involuntária, desprovida de intencionalidade,
verbal e não verbal. Este é o primeiro traço distintivo
da modalidade de etnografia proposta, uma vez que se deve reconhecer que
a comunicação etnográfica “ordinária” – por
ser verbal, intencional e voluntária – é uma das variedades
mais pobres da comunicação humana (Favret-Saada, 2005, p.
160).
De acordo com a autora, quando os antropólogos nacionais “procuram
a alteridade” no próprio país, o foco se direciona mais pela
diferença do que pelo exotismo.
Muitas das reflexões também são decorrentes das discussões
realizadas no GT Ética em Pesquisa (ABA, 2006), coordenado por Rachel
Aisengart Menezes e Octavio Bonet, no qual Edlaine de Campos Gomes atuou
como debatedora.
E. Gomes pertence a um ramo socialmente ascendente de uma das três
redes
familiares investigadas que integram o livro intitulado “Três famílias.
Identidades e Trajetórias Transgeracionais nas Classes Populares
(2008, no prelo), em co-autoria com Luís Fernando Dias Duarte. A
pesquisa foi financiada pela Fundação Ford. As reflexões
aqui apresentadas são resultado deste trabalho conjunto, sem o qual
a experiência de pesquisa, tão singular, não seria
possível.
“Pentecostalismo e Comunicação, em 1990, sob a coordenação
do Prof. Francisco Cartaxo Rolim, à época atuou como bolsista
de Iniciação Científica do CNPq.
A exposição pública dos resultados da pesquisa
gerou
outra situação marcante, do ponto de vista da
recepção
do texto de E. Gomes. A pesquisadora recebeu um e-mail de um rapaz de
Goiás
que teve acesso ao artigo "Família, sexualidade e
trajetória
em contexto religioso plural" (2006), à época apresentado
no VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro. Comparava-se
ali como determinado núcleo familiar, vinculado aos Testemunhas
de Jeová, se distinguia dos demais, pelo constante "falar
sobre sexo", embora o tema fosse considerado proibido e impuro. O
interlocutor
apresentou-se como gay e integrante dessa confissão religiosa.
Apesar
de elogiar o artigo, disse não se sentir retratado na
análise,
pois recebia compreensão e afeto da família. Foi
explicado
para ele que a intenção do artigo era justamente
evidenciar
a possibilidade de adequações, passagens e
interpretações
pessoais, mesmo entre aqueles que integram confissões religiosas
"fundamentalistas", principalmente quando estão em jogo
relações
familiares. A interlocução gerou duas
sensações
na antropóloga: por um lado, sentiu grande
satisfação
por alguém "de fora" da academia ter lido o trabalho; por outro,
percebeu o alcance e, cada vez mais, a necessária seriedade para
a realização do ofício antropológico. Ponto
importante para nossa atual análise é o impacto da
escrita
e as possibilidades de acesso dos "nativos" às análises
elaboradas.
Ver também: Gomes (2006b)
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-77012006000200008&lng=en&nrm=iso
e Gomes (2006c).
Estas reflexões foram inicialmente formuladas no texto “O retorno
do objeto de investigação: dilemas para o pesquisador”, apresentado
no Grupo de Trabalho 40, “Ética em pesquisa e trabalho de campo:
dilemas e possibilidades”, na VII Reunião de Antropologia do Mercosul,
coordenado por María Epele e Rachel Aisengart Menezes, em julho
de 2007. Agradeço à Adriana Vianna a interlocução
sobre o tema e a Octavio Bonet seus comentários, como debatedor,
por ocasião da apresentação neste GT.
Programa de Pós-graduação em Saúde Coletiva
do Instituto de Medicina Social da UERJ, sob orientação do
Prof. Sérgio Carrara.
A proposta dos Cuidados Paliativos surgiu no final dos anos 1960 na Inglaterra
e na década seguinte nos Estados Unidos e Canadá. No Brasil,
o primeiro hospital especificamente dedicado a esta modalidade assistencial
– observado por R. Menezes – foi fundado em 1998. A Medicina Paliativa
é uma especialidade oficializada em diversos países, como
Inglaterra, Estados Unidos, Canadá, Austrália, Itália,
entre outros, mas não é reconhecida no Brasil, até
o momento. À ocasião da investigação ainda
era pouco difundida entre os próprios profissionais de saúde.
Nos Cuidados Paliativos a idéia central refere-se à qualidade
de vida no último período de vida, em oposição
a uma prática médica que busca estender a vida, às
custas de sofrimento para o doente e seus familiares.
Mestrado em Saúde Coletiva no Instituto de Medicina Social/UERJ,
sob orientação do Prof. Sérgio Carrara. A
dissertação
de mestrado deu origem ao livro Difíceis decisões.
Etnografia
de um centro de tratamento intensivo (Menezes, 2006). Sobre este livro
ver resenha de Gomes (2007), disponível no site
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312007000200011&lng=en&nrm=iso
O tema da restituição de trabalhos etnográficos aos
sujeitos investigados, apesar de relevante para muitos pesquisadores, é
pouco abordado. Em concordância com Rodolpho (2006) e Zonabend (1994:
10), por vezes o etnólogo pode ser percebido pelos entrevistados
como um tipo de “décepteur du social”, expressão que contém
um jogo entre duas palavras: devolução e decepção.
A devolução está presente – implicitamente – desde
o ingresso no campo de observação, o que foi constatado pelas
inúmeras perguntas dos profissionais observados sobre a data da
apresentação dos dados da pesquisa e da defesa da tese. De
acordo com Coelho (2006: 8), “no fundo o projeto etnográfico é
dizer do outro aquilo que ele não sabe de si”. Podemos acrescentar
a esta afirmação que o interesse é do pesquisador
e da antropologia, e talvez não tenha relevância alguma para
o sujeito da investigação. É possível também
aventar a possibilidade de existência de dúvida, desejo e/ou
temor do sujeito constituir objeto de uma investigação.
Sobre a publicação: Maués
(2006)
A referência ao livro de R. Menezes não foi exclusiva de seu
primo. Pouco após o lançamento da publicação,
a pesquisadora recebeu um e-mail de um leitor, interessado em conversar
com ela. Tratava-se de um portador do HIV, intelectualizado e psicanalisado,
pertencente a camadas médias, com uma postura crítica em
relação ao dispositivo médico. Autora e leitor mantiveram
contato por correio eletrônico e por telefone. Inicialmente ele desejava
trocar idéias sobre a conduta dos médicos. Após certo
tempo explicitou sua questão central: buscava ajuda para alcançar
uma “boa morte” e considerava que ela poderia auxiliá-lo nesta empreitada.
A partir dos esclarecimentos de R. Menezes sobre sua posição
e os objetivos da pesquisa, ele não mais a procurou. A repercussão
do livro causou, portanto, indagações, seja no que se refere
a seu uso pelos paliativistas, seja no que concerne aos objetivos de enfermos
e de familiares envolvidos com doença terminal.
A dor e o uso de medicação antálgica é um dado
relevante nos Cuidados Paliativos, pois um princípio central do
ideário paliativista consiste em uma assistência dirigida
a minorar os sintomas, de modo que o doente possa ter, dentro do possível,
um controle de sua vida e tomar decisões. Um paradoxo apresenta-se,
a partir destes princípios: para manter controle sobre a própria
vida, o enfermo deve estar consciente. No entanto, com o avanço
da doença, geralmente há muita dor, e a morfina é
utilizada, o que acarreta alteração da consciência,
delírio e alucinações. Como exercer a autonomia quando
há perda do contato com a realidade?
Vale lembrar que uma das autoras é psicanalista. A valorização
da psicanálise não se restringe ao universo profissional
brasileiro. Em outro sentido, um antropólogo norte-americano considera
o tratamento psicanalítico um requisito indispensável para
a entrada em campo etnográfico (Rosaldo, 1989: 8): “one influential
anthropological, Clyde Kluckhohn, even went so far as to recommend a double
initiation: first, the ordeal of psychoanalysis, and then that of fieldwork”.
Esta proposta se refere a um preparo o mais amplo possível do etnógrafo
antes de iniciar a pesquisa, uma vez que não é possível
prever o que o pesquisador encontrará no campo de observação.
Deste modo, o saber antropológico ficaria subsumido ao saber psicanalítico.
Cabe ressaltar as reações dos pares, a partir da apresentação
do trabalho “Emoções do antropólogo em campo: a etnografia
em questão”, no GT Antropologia das Emoções, coordenado
por Maria Cláudia Coelho e Octavio Bonet, no Encontro Anual da ANPOCS,
em 2007. Os comentários se referiram à exposição
das autoras – tidas como “corajosas” –, à relevância do tema
ou, ainda, ao “despropósito” da comunicação.
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