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Lilian de Lucca Torres
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“... a música
se vive em mim, eu me ouço através dela.”
(Claude Lévi-Strauss, O Cru
e o Cozido, p. 26)
“O som é um objeto subjetivo,
que está dentro e fora, não pode ser tocado diretamente,
mas nos toca com uma enorme precisão” (José Miguel Wisnik,
O som e o sentido, p. 28)
Filme,
música e cultura
O
filme Assédio (1998), de Bernardo Bertolucci, rodado em locações
entre o Quênia e a cidade de Roma, remete às relações
entre culturas no campo da linguagem musical. Universos sonoros em tese
tão distintos entre si, como o africano e o europeu, produziram
“misturas” que, ao reunir elementos polissêmicos, têm assumido
historicamente lugares de destaque nas áreas da música e
da cultura há mais de um século. Neste filme encontram-se
não só referências a estes diálogos musicais,
mas também uma reflexão sobre identidades e alteridades no
mundo contemporâneo.
Segundo
José Miguel Wisnik, no livro O som e o sentido, o som musical
é o sacrifício do “ruído do mundo”, é a Cultura
sobrepondo-se à Natureza na produção de um tipo específico
de ordem simbólica .
Cada sociedade fará sua própria seleção de
sonoridades “naturais”, instituindo escalas que irão variar de um
contexto para outro. Assim, a música
carrega consigo um poder sagrado, pois, ao ordenar o “caos ruídico”
primordial, remete não só à fundação
de um cosmos sonoro, mas também à constituição
do universo social. Como disse Wisnik, “um único som musical afinado
diminui o grau de incerteza do universo, porque insemina nele um princípio
de ordem” (2004, p. 27). O caráter
“sacrificial” da música (morte do “ruído”) pode ser entrevisto
na matéria-prima de origem orgânica de que eram feitos os
primeiros instrumentos musicais (ossos para flautas, peles para tambores,
chifres para cornetas e trompas, intestinos para cordas): o animal é
sacrificado, assim como o ruído, para que sobrevenha o som. Deste
modo, “a violência sacrificial é a violência canalizada
para a produção de uma ordem simbólica que a sublima”
(Wisnik, 2004, p. 35).
Para
Wisnik, por ser o som impalpável e invisível, as mais diferentes
culturas atribuíram à música propriedades semelhantes
às do espírito (2004,
p. 28). Com características vibratórias perceptíveis,
a música é capaz de traduzir para a nossa escala sensorial
aquilo que é, em termos físicos, sutil ou “quase anímico”.
Por isso o som tem um poder mediador, sendo “o elo comunicante do mundo
material com o mundo espiritual” (p. 28). Por outro lado, enquanto reflexão
sobre o mundo, a música remete ao não-verbalizável,
“atravessa certas redes defensivas que a consciência e a linguagem
cristalizada opõem à sua ação e toca em pontos
de ligação efetivos do mental e do corporal, do intelectual
e do afetivo” (p. 28).
Nas
sociedades pré-capitalistas, a música está baseada
na pulsação rítmica recorrente e, geralmente, simétrica.
Aos ouvidos ocidentais contemporâneos, esse caráter de repetição
pode parecer estático, porém remete muito mais ao extático,
ao hipnótico, a uma quase suspensão do tempo, ou seja, ao
tempo circular - uma ordem de duração cíclica, não-linear,
subordinada a exigências rituais (p. 40). A música, aqui,
relaciona-se à regeneração constante do cosmos, bem
como à reafirmação da experiência social coletiva,
sendo sua execução indissociada de práticas cerimoniais.
Nestas sociedades a música sempre está vinculada a uma vivência
simultaneamente mágica, terapêutica, ordenadora e reordenadora,
aparecendo cercada de cuidados, regras e interdições. Nota-se
- e não poderia ser diferente dado o tipo de experiência de
tempo própria destes contextos - a presença constante de
instrumentos rítmicos e de percussão, como tambores, gongos,
guizos, chocalhos, pandeiros, entre outros, que se aproximam do mundo dos
ruídos. Aqui até mesmo a voz pode ser utilizada como “instrumento”
percussivo (Wisnik, 2004, p. 40). Este tipo de música é chamado
de “modal”.
No
universo musical modal, parece ser a combinação de ritmo,
canto e dança que reforça esta noção circular
de tempo, vivida coletivamente. A circularidade também está
fundada na subordinação das notas musicais a uma tônica
fixa, que se mantém como um fundo estável, em repetição
contínua, soando no grave, sobre o qual as outras notas alçam
seus vôos melódicos. A música indiana usa instrumentos
(o tampura, por exemplo) cuja função é a de produzir
esta base, um “chão”, um tipo de eixo, que remete à idéia
de unidade indivisível (Wisnik,
2004, p. 80). Segundo Wisnik (p.
92), muitos dos que escutam pela primeira vez música indiana, árabe
ou iraniana, esperando ouvir sons melódicos, deparam-se com uma
sobreposição de defasagens que causa a impressão de
que aquilo não é exatamente música. O princípio
de afinação nestas tradições também
difere quanto ao do ocidente, propiciando a exaltação, o
transe, o êxtase ou, por outro lado, a meditação (p.
92).
Na
tradição ocidental, devido à influência da Igreja
Católica, houve momentos em que a música em si foi concebida
como “ruído diabólico” a ser evitado. O Canto Gregoriano,
que vai desembocar na música barroca e clássico-romântica
dos séculos XVII, XVIII e XIX, baniu os instrumentos musicais e
a multiplicidade de timbre vocais. “É uma música para ser
cantada, em princípio, por vozes masculinas em uníssono,
à capela, na caixa de ressonância da igreja, sem acompanhamento
instrumental” (Wisnik, 2004, p.
41). A rítmica do Canto Gregoriano é frásica e polifônica,
colocando-se “a serviço da pronunciação melodizada
do texto litúrgico” (p. 42). Ao abolir todo tipo de acompanhamento,
principalmente o rítmico-percussivo, o Canto Gregoriano conduziu
a experiência musical ocidental do domínio do pulso para o
das alturas melódicas, mais contínuas, sem tantos “degraus”,
preparando o terreno para a música tonal, consagrada como clássica
(p. 42). Nesta última, a partitura é inviolável, os
instrumentos são rigorosamente afinados e a sala de execução
é lugar de silêncio e concentração (individual,
pode-se afirmar).
No
século XX opera-se uma significativa transformação
neste campo sonoro do qual a pulsação rítmica havia
sido quase banida (ou domesticada, com pratos, tambores e tímpanos
em pontuações localizadas e tendendo a alturas definidas
durante a execução da peça musical). Stravinski, Schoenberg,
Eric Satie, Varése, entre outros, reintroduzem o descontínuo
e o assimétrico, rompendo a separação entre o som
afinado e os ruídos do mundo. Segundo Wisnik,
a Sagração da Primavera (1913), de Stravinski, “é
heavy-metal de luxo” (2004, p. 44):
o ritmo da máquina, a velocidade, a aceleração do
tempo e a eletricidade irão adentrar o universo da música,
desembocando, mais tarde, na música serial e no minimalismo.
No
sistema dodecafônico, desenvolvido por Schoenberg
em 1923, amplia-se a contraposição ao sistema tonal, uma
vez que o movimento cadencial de tensão e repouso é rejeitado.
A música dodecafônica baseia-se na construção
de séries de doze sons, de forma a que se retarde o maior tempo
possível o retorno de um som já escutado, o que dificulta
a repetição bem como a memorização (Wisnik
apud Hikiji, 2000). Ao contrário
do dodecafonismo, o minimalismo implanta a repetição exaustiva.
Na
música contemporânea, como foi visto, há um retorno
ao pulso e a repetição deixa de ser simétrica como
na música modal. Os limites entre ordem e não-ordem se esfumaçam.
John
Cage fala em silêncios e ruídos encadeados. Nos
anos 70, a música de Steve
Reich contém muito dos processos repetitivos africanos sem ser
música modal .
Este processo de transformação se enriquecerá com
as hibridações de gêneros, resultantes, entre outros
fatores, das relações interculturais em contextos de colonização
ou escravização, das migrações de grupos através
dos continentes, bem como da expansão e segmentação
do mercado musical global.
O
filme Assédio, na medida em que estabelece diálogos
entre referenciais sonoros de universos que se contrapuseram por
tanto tempo, como a África e a Europa, conduz o espectador a um
jogo de identidades e alteridades, de “misturas” não apenas sonoras,
mas, sobretudo, culturais. Entrar em contato com as primeiras cenas do
filme, mesmo que não seja por meio da projeção ou
do roteiro, introduzirá o leitor deste texto em uma ambiência
narrativa singular, na qual a música irá cumprir papel fundamental.
Trechos de um diário
de campo
Abertura e créditos
iniciais. A câmera capta do alto o encontro das águas calmas
de um lago com as encostas de um vulcão. (Cenário natural
que, já nos primeiros momentos do filme, remete a pares de opostos
– fogo/água, quente/frio, alto/baixo).
Um campo. África.
Sentado sob uma árvore frondosa, um homem canta e toca um instrumento
tradicional de cordas, demarcando o ritmo com um chocalho amarrado no tornozelo.
Crianças sobem pelo tronco e sentam-se nos ramos grossos de modo
a observá-lo de cima. Em sua canção, repete, a intervalos
regulares, um tipo de refrão composto por uma única palavra:
África. A voz alterna-se em acentos fortes e fracos, subindo e descendo
numa cadência constante, assumindo um caráter mais rítmico
do que melódico. Num instante o cenário muda para um hospital
infantil, onde crianças com deficiência (e, quem sabe, algumas
sobreviventes de guerra) usam andadores e cadeiras de roda para fazerem
exercícios auxiliadas por uma enfermeira. (Novamente um contraste
significativo: pernas e pés de crianças saudáveis,
associados à árvore antiga e robusta, contrapondo-se a membros
atrofiados e enfraquecidos de crianças internadas num hospital,
em uma nação conturbada por algum tipo de conflito étnico-político;
esta oposição remete a uma África ancestral, terreno
de culturas vigorosas, que convive com a África urbana, as seqüelas
da colonização e os problemas advindos dos processos de independência).

Área
urbana. O exército está nas ruas. Soldados armados conversam
nas esquinas. Comemora-se o “National Founder’s Day”. Cartazes e pinturas
murais, espalhados por toda a cidade, exibem o busto de um homem de uniforme
militar sobre o mapa da África. A enfermeira sai do hospital e,
de bicicleta, atravessa a cidade observando a movimentação
dos que preparam a festa. Dirige-se ao campo.

Escola.
Um professor escreve na lousa “leader” e “boss”.
Estrada no campo. Jipes militares
ultrapassam a enfermeira na bicicleta levantando muita poeira.
Escola.
O professor pergunta aos alunos a diferença entre um “líder”
e um “chefe”. De forma irônica, imita um chefe autoritário,
que “anda sem parar, sem ligar para quem está em seu caminho”. Risos.
Então, a porta é aberta violentamente. Soldados invadem a
sala de aula prendendo o professor sob os olhares atônitos das crianças.
Do lado de fora, a jovem, paralisada pelo medo, grita desesperadamente
o nome dele enquanto o vê sendo levado em um dos carros militares
que passam em alta velocidade. Os jipes cruzam com o músico, que
vinha pela estrada interpretando sua canção (desde a abertura
do filme, esta mesma música foi tocada praticamente sem interrupções).
Caída no chão, desolada, a jovem observa o cantor. A passagem
de um avião, cujo barulho ensurdecedor a assusta, encerra a cena
e remete o espectador para outro espaço e outro tempo.
*
Sons musicais e ruídos
se sobrepõem: avião, canto, roldanas, gritos.
*
Num
cenário escuro, a câmera aproxima-se do rosto da jovem, que
está se debatendo e murmurando algo ininteligível. Está
tendo um pesadelo. Um barulho de roldanas mistura-se aos seus gritos: é
o mecanismo de um elevador de cargas de uma antiga casa assobradada. Acorda
chorando. Percebe alguém andando no andar de cima. Ouve o elevador
descendo e vai até ele. Abre a portinhola e, dentro, encontra uma
folha de partitura com as pautas vazias, sem notações musicais.
No centro da página, um ponto de interrogação. Deita-se
novamente, olha a folha durante alguns segundos, coloca-a no chão
ao lado da cama, apaga a luz e volta a dormir.

O
filme e a palavra
A
descrição acima se baseia na idéia de que, neste caso,
o filme é o “campo”. As seqüências iniciais foram relatadas
cena a cena, a partir do contraponto lago/vulcão até o episódio
do pesadelo, no qual os personagens principais, através da folha
de partitura com o ponto de interrogação, interagem pela
primeira vez aos olhos do expectador. Nota-se, nesta parte do filme, uma
total ausência de diálogos, sendo a narrativa essencialmente
visual.
Em
entrevista à RAI, indagado sobre se o filme Assédio
(1998) poderia ser definido como um Último Tango em Paris
(1972) trinta anos depois, Bertolucci respondeu que sim, “ainda que numa
versão sussurrada e tranqüilizante” (grifos meus) .
Estava se referindo ao que considerava como a sensualidade sutil e indireta
de Assédio, em contraposição, simultaneamente, à
“sexualidade agressiva” dos filmes atuais e à “transgressão”
representada pelo filme de 1972 .
Entretanto, parecem possuir uma significação mais abrangente
os adjetivos empregados para qualificar Assédio, que se caracteriza
por uma “economia” de palavras. Perante filmes como Antes da Revolução
(1964) e O Conformista (1970), que tratam de questões políticas
e existenciais, e das grandes produções realizadas fora da
Itália, como O Último Imperador (1987), O Céu
que nos Protege (1990) e O Pequeno Buda (1993), que lhe renderam
duras críticas pelo que foi considerado um esvaziamento ideológico
e uma submissão a Hollywood, Assédio é um exemplo
de mudança de linguagem principalmente quanto ao ritmo e à
montagem. Segundo Bertolucci, é um filme que responde ao seu desejo
de “voltar às origens do cinema mudo” . Para ele, ao se renunciar
à importância das palavras, é possível atingir
“aquele belíssimo silêncio misterioso do mudo, desprovido
talvez de clareza, mas cheio de uma possibilidade infinita de interpretações
para os espectadores” (apud Carlos,
2005). O mais inusitado é o fato deste filme ter sido feito para
a televisão: televisão sem diálogos ou com poucos
diálogos é, no mínimo, um desafio, porém Bertolucci
defende que este meio não deve se reduzir a uma “vitrine de produtos”.
Assédio escapa, além do mais, a tentativas de classificação
rápida: é uma produção econômica e despojada,
porém o cineasta utiliza a técnica do close-up, o
que imprime força dramática ao rosto isolado na tela, recorre
a uma iluminação em tons amarelo-avermelhados, de modo a
reforçar a abordagem intimista, e, por fim, lança mão
da música como recurso narrativo, ou seja, enquanto veículo
privilegiado de acesso aos significados. Bertolucci, que na juventude se
identificou com a Nouvelle Vague
francesa e desenvolveu intensa ligação com o Cinema Novo
brasileiro (sendo amigo íntimo de Glauber Rocha), considera Assédio
um filme alinhado com um cinema que procura sempre se reinventar: “Por
isso gosto de Scorsese, David Lynch, Win Wenders, Van Sant, só para
citar os cineastas da minha geração. Eles se perguntam a
cada filme o que é o cinema, e sempre se percebe neles a tensão
de quem quer recomeçar” (apud Byington
& Carelli, p. 59, 1999).
Igualmente
refletindo sobre o tipo de obra que quer realizar, Abbas Kiarostami, diretor
iraniano, se contrapôs àquele cinema “que se limita a contar
uma história” ou “se torna um substituto da literatura” (2004,
p. 181). Segundo Kiarostami,
para que o cinema seja considerado a sétima arte deve reunir música,
história, poesia e, sobretudo, manter um caráter de incompletude,
de modo que se resguarde para o espectador um papel ativo e construtivo:
“O espectador tem que intervir se quiser perceber tudo”, inclusive “pode
criar as coisas de acordo com sua própria experiência” (p.
182-183). E questiona-se: as pessoas não fazem isso a partir da
poesia e, até mesmo, da música? Por que não com o
cinema? Por que devemos nos aproximar do filme através do intelecto
e não dos sentimentos? A poesia se completa no leitor; além
de não contar uma história, é quase uma impossibilidade
alguém “contar” uma poesia.
Mesmo
a fotografia, segundo Kiarostami, não conta uma história;
resguarda-se numa espécie de mistério sem sons. Quanto ao
cinema, é quase unanimidade achar que se pode “contar” o que se
viu, como se um filme fosse algo linear, fechado e completo em si mesmo,
captado como um todo e transmitido como tal. Do ponto de vista da criação,
para Kiarostami o filme precisa ter “espaços livres” de modo que
o espectador possa completá-los com o que quiser e não à
maneira de uma palavra cruzada, que predetermina os conteúdos. Seria
quase “pornográfica” a necessidade de “mostrar tudo” do cinema de
entretenimento, conclui Kiarostami
(2004, p. 184). No caso de Besieged - adaptação do
conto The siege (O assédio) do escritor londrino James Lasdun
- conta-se uma história, mas com poucas palavras. O filme, segundo
Bertolucci, “sugere algumas coisas, acena, desvela, mas depois vela de
novo... há uma penumbra que cobre os personagens, as motivações
dos acontecimentos” (apud Carlos,
2005).
Em
Assédio,
a música cumpre uma função narrativa. Muitas vezes,
entre a música e a palavra, o cineasta parece optar pela música.
O conjunto formado pelas composições africanas contemporâneas
(Ali Farka Toure, Salif Keita, Paul Kalle, Papa Wemba) e peças européias
clássicas (Bach, Chopin, Mozart, Beethoven) não configura
uma trilha sonora no sentido corrente da expressão. As inserções
musicais não funcionam como reforço das imagens ou representações
do clima emocional em que se movem os personagens. A música assume,
dentro do filme, o papel de um sistema de significações.
A canção interpretada por John C. Ojwang, como foi visto,
sustenta sozinha os primeiros seis minutos de projeção, enquanto
se alternam cenas de uma África interior e uma África urbana.
Cantos tradicionais semelhantes reaparecerão ao longo do filme,
sempre demarcando referências históricas e culturais. Da mesma
forma, a música africana moderna e as obras clássicas européias
irão tecer, no campo sonoro, identidades e alteridades dos personagens
e das relações que se estabelecem. Assim, pode-se dizer que,
em Assédio, a música é uma estratégia
narrativa que tira o expectador de sua posição tradicional:
articulando-se principalmente com as imagens, a música substitui
os diálogos na constituição dos sentidos .
Bertolucci,
que verteu para o cinema obras de escritores consagrados como Dostoiévsky,
Jorge Luís Borges e Alberto Moravia, desta vez escolheu adaptar
um conto que tem como base ainda outra fonte literária: a quinta
novela da décima jornada do Decamerão, de Giovanni Boccaccio,
um conjunto de narrativas que retratam a ascensão da burguesia na
passagem da Idade Média para a Idade Moderna. Analisando as relações
entre a novela, o conto e o filme, Ana
Maria Carlos (2005) chama a atenção para os contextos
culturais distintos em que estas três obras foram concebidas. Na
novela de Boccaccio, discutem-se
os valores que a nova sociedade burguesa deve resguardar, destacando-se
a generosidade, perante o predomínio do novo ideário mercantilista.
Nos casos do conto e do filme, os elementos principais da novela são
transpostos para o contexto do mundo globalizado, em que as relações
entre a Europa capitalista e os países do Terceiro Mundo incluem
inúmeros desafios, não só no campo político-econômico,
mas no das questões interétnicas e interculturais, levando
à discussão das possibilidades de diálogo e ajuda
mútua entre nações ricas e nações pobres
(Carlos, 2005).
Na
novela de Boccaccio (2003) percebe-se,
como foi dito, não só o conflito (e a negociação)
entre a nobreza e a burguesia emergente, mas também uma reflexão
sobre os valores fundamentais da sociedade ocidental. Dianora, a jovem
esposa do rico e bondoso Gilberto, desperta o interesse do poderoso barão
Ansaldo que, com o objetivo de conquistá-la, envia-lhe inúmeros
presentes. Pensando num modo de afastar o indesejável e incômodo
pretendente, Dianora apresenta-lhe uma exigência que julga impossível
de ser atendida: um jardim florido e viçoso em pleno inverno. O
barão, embora percebendo a estratégia de Dianora para lhe
dissipar a esperança, persiste em seu intento. Passado algum tempo,
ele encontra um mago que, em troca de uma boa soma em dinheiro, transforma
um campo coberto de neve e gelo num perfeito jardim. Dianora, após
admirar o feito, é invadida pela melancolia. Gilberto percebe a
mudança ocorrida com a esposa e, ao tomar conhecimento do motivo
de sua tristeza, critica seu procedimento imprudente, porém determina
que peça ao barão a liberação do voto feito
anteriormente. Pondera que, se o barão negar, ela deve entregar-lhe
somente o corpo, resguardando a alma para o marido, de modo que o casal
não atraia para si o ressentimento do outro que, embora movido pelo
amor, foi capaz de utilizar a nigromancia para atingir seu objetivo. Dianora
relata essa decisão ao barão que, comovido com a generosidade
de seu rival, libera-a da promessa. O mago, por fim, renuncia ao pagamento
diante de tantas demonstrações de liberalidade e magnificência.
“Assim, ao final da novela, vemos a virtude sublimando o desejo, vemos
o dinheiro perdendo o valor diante da nobreza de caráter”, conclui
Ana
M. Carlos (2005) em sua análise. Quanto ao conto de Lasdun,
a protagonista, Marietta, para fugir de uma ditadura num país latino-americano
não-identificado, emigra para Londres e começa a trabalhar
como empregada na casa de um pianista que irá cortejá-la,
praticamente a mesma solução dada por Bertolucci ao filme,
no qual a América Latina é trocada pela África e Londres
pela cidade de Roma. Para os objetivos desta introdução,
já são suficientes estes dados, sendo que ao longo do artigo
serão analisados os desdobramentos da versão de Bertolucci.
A
cidade dentro do filme
A
cidade percorrida e conhecida por qualquer um de seus habitantes não
corresponde à totalidade do espaço urbano ali existente,
mas a trajetos
construídos a partir das experiências concretas dos moradores
(o bairro, os locais de trabalho e estudo, as áreas em que se desfrutam
os momentos de lazer, os roteiros religiosos, as atividades de compra,
etc.). No limite, é como se cada cidade comportasse muitas cidades
no seu interior, multiplicada em óticas particulares, sendo a “cidade
geral” sempre uma projeção, uma representação,
repleta de espaços imaginários, apreendida através
de avaliações sobre os “outros”, incluindo os “outros lugares”.
Do
mesmo modo como nenhum morador conhece ou experimenta a cidade em sua totalidade,
a “cidade dentro do filme” também não corresponde a todas
as regiões, espaços físicos, territorialidades, equipamentos,
personagens e grupos urbanos presentes na cidade real. A cidade do filme
é o resultado dos recortes feitos pelo diretor e pelo roteirista
(e, muitas vezes, pelo autor do texto original) a partir, basicamente,
do entrecruzamento do tema e época abordados, das espacialidades
evocadas na narrativa, da construção dos personagens e até
mesmo de exigências mercadológicas. O “olhar” que seleciona,
classifica e constrói a cidade fílmica é guiado, ainda,
por posições políticas, valores e visões de
mundo, resultando em uma produção simbólica.
A
forma que Bertolucci escolheu para colocar a cidade de Roma na narrativa
fílmica não obedeceu a recortes prioritariamente históricos
nem a representações tradicionais .
A Roma de Assédio não é a “Cidade Eterna”, imortalizada
em seus memoráveis ícones (o Vaticano, a Praça e a
Basílica de São Pedro, o Coliseu, o Panteão, a Fontana
di Trevi e tantos outros), percorrida incansavelmente por turistas de todo
o mundo: é a cidade multicultural das áreas menos centrais,
com vendedores ambulantes negros, missa católica rezada por padre
negro para uma comunidade igualmente negra. Durante todo o filme, não
é mostrada nenhuma visão panorâmica da cidade nem há
planos que ofereçam profundidade de campo (a maior parte das cenas
é filmada em interiores). Se não fosse pela referência
à Estação Spagna do metrô, praticamente nada
mais identificaria esta cidade. A Piazza di Spagna, ao lado da qual fica
a casa do filme, mesmo sendo um marco internacionalmente conhecido do comércio
de luxo da cidade, aparece recortada e pouco caracterizada: na Roma real,
esta praça é identificada pela grande escadaria de 137 degraus
da igreja Trinità dei Monti e pela sua fonte, a Fontana della Barcaccia,
que nunca são filmadas em sua totalidade .
A estação do metrô e o beco onde está situada
a casa fornecem, ao contrário dos símbolos históricos,
as principais referências em termos da espacialidade recriada no
filme. Passado e presente são remodelados através dos contrapontos
entre o sobrado antigo, os imigrantes, pixações nos trens
do Metrô e letreiros de néon dos bares. Isto nos leva a pensar
que Bertolucci desconstruiu a historicidade oficial de Roma e identificou
a cidade ao pluriculturalismo, com as imagens de seus pedaços
negros, e aos não-lugares (espaços urbanos que, isolados
do contexto maior, poderiam pertencer a qualquer cidade do mundo, por exemplo,
uma estação de metrô, mas também, aeroportos,
shopping centers, etc.) .
Como
os dois protagonistas do filme são estrangeiros residentes em Roma,
é como se Bertolucci escolhesse tratar a cidade através do
“olhar do estrangeiro” que, por não tomar tudo como conhecido e
familiar, é capaz de ver aquilo que os que estão lá
há mais tempo não conseguem enxergar. Um pouco como transformar
o “familiar” em “exótico”, prática metodológica própria
do trabalho do antropólogo urbano, que “estranha” intencionalmente
uma realidade em tese conhecida, despindo-se de visões preconcebidas .
É um tornar-se “estrangeiro” mesmo estando em casa. Bertolucci volta
as lentes de sua câmera para ruas comuns, para o interior de um trem
de metrô, áreas de comércio popular e uma danceteria
de imigrantes africanos, resgatando o que se tornou invisível pela
força da banalização, ou porque é desconsiderado
pelos meios de comunicação de massa ou, ainda, negado em
termos dos preconceitos vigentes.
Um
intervalo de mais de trinta anos separa a Itália de Assédio
(1998) da Itália de Antes da Revolução (1964),
para tomar um exemplo do cinema político de Bertolucci, o que faz
pensar nas transformações sociais pelas quais este país
passou e na mudança de perspectiva do próprio autor. Em entrevista
de 1999, um pouco posterior ao lançamento de Assédio, Bertolucci
afirma que
a realidade
neste momento não é muito permeada pela política.
O que há em termos de política neste momento é um
grande e angustiante desconforto. (...) Depois que caíram as ideologias
e as certezas, há um reequilíbrio muito difícil a
recuperar (apud Byington & Carelli,
p. 54, 1999).
Porém,
a julgar pelas primeiras cenas de Assédio, gravadas na África,
tem-se a impressão de que Bertolucci vai tratar de questões
políticas. E o faz, embora num sentido suprapartidário ou
supra-ideológico:
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