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Fraya Frehse
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Concebido
no intuito de, conforme anuncia a página principal do
sítio eletrônico da Conference , “criar um espaço
de reflexão interdisciplinar” e de “debate internacional” sobre
as cidades a partir da difusão de pesquisas recentes, de autoria
de “jovens investigadores em estudos urbanos” - em especial pós-graduandos,
mas também profissionais envolvidos em atividades de intervenção
e de docência -, o evento congregou estudos sobre as mais diversas
urbes do mundo. São cidades maiores ou menores em termos demográficos,
mais ou menos importantes em termos econômicos e políticos
em seus países, de história mais ou menos antiga, no presente
e no passado. Uma brochura que, contendo os resumos dos 168 trabalhos aprovados
para apresentação, foi distribuída entre os participantes
da reunião científica, é uma evidência cabal
e sintética de que Lisboa virou “sede” não apenas de investigações
sobre si mesma, sobre a sua região metropolitana e outras cidades
portuguesas como o Porto, Vila Nova de Gaia, Almada, Seixal, Braga e a
açoriana e insular Ponta Delgada. “Abrigou” naqueles dias também
cidades ibéricas como Madri, Barcelona, Valência, Salamanca,
Palma, Bilbao, Guadalajara e a inventada Ciudad Valdeluz; as francesas
Paris, Bordéus e Toulouse; as italianas Palermo, Gênova, Turim
e a região do Vêneto; a alemã Berlim e a polonesa Gdansk,
em meio a outras urbes desse país, afora o noroeste europeu - belga,
holandês e finlandês. A Europa Central fez-se presente através
da croata Zagreb, da região do Kosovo, da grega Tessalonica. Curiosamente,
uma vez apenas apareceu Londres, a primeira grande metrópole industrial
moderna... Fez par com Manchester, quando o assunto foi a Inglaterra. E,
como não só de cidades européias é feito o
mundo atual, houve espaço ainda para outros continentes. As complexas
fronteiras entre a Europa e o Oriente Médio asseguraram o seu espaço
no debate através de estudos sobre as turcas Istambul e Ancara.
O Oriente Médio como tal se fez tematizar através das iranianas
Teerã, Isfahã e Yazd. As Américas ali estiveram representadas
principalmente por meio das capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São
Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Cuiabá, Curitiba,
Florianópolis, Porto Alegre, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador.
Porém, houve quem trouxesse reflexões sobre Buenos Aires,
sobre Santiago, Calama e, mais perto do Equador, sobre Manila e a Cidade
do México, enquanto os Estados Unidos se deixaram problematizar
por meio de Los Angeles, Boston, do estado de Nova Jersey e da região
da Nova Inglaterra. E não faltaram cidades africanas como Maputo,
por exemplo. A Ásia, enfim, “compareceu” por meio das indianas Nova
Delhi e Bangalore, da tailandesa Bangcoc, além das chinesas Kunshan
e Hong Kong.
Se
nem todos os autores dos trabalhos inscritos puderam, por razões
variadas, comparecer e participar concretamente do evento, o cosmopolitismo
foi de fato a tônica daqueles dias. E isso, não somente porque
foram tantas as cidades “atraídas” ao carinhosamente apelidado “FICYURB”,
uma iniciativa que pode ser considerada pioneira no cenário acadêmico
internacional, ao fornecer a pesquisadores urbanos iniciantes uma oportunidade
ímpar de interlocução internacional com profissionais
já bem mais experientes, e provindos das mais diversas áreas
de pesquisa referidas à temática urbana. A competente organização
da reunião científica contribuiu de maneira significativa
para esse caráter cosmopolita do evento por meio dos tipos de atividade
que propôs aos participantes em cada um dos dias.
Na
noite do dia 10, ainda antes da abertura oficial do evento, estipulada
para a manhã do dia subseqüente, ocorreram, no Centro Cultural
Malaposta, situado na região metropolitana de Lisboa, a exibição
e o debate de dois interessantes documentários sobre a vida social
e
cultural da capital portuguesa do presente: “Lisboetas”
(2004), de Sérgio Tréfaut, e “Gosto
de ti como és” (2005), de Sílvia Firmino. Dada a quantidade
de semelhanças, mas também de diferenças entre os
contextos narrados e retratados e as cidades das quais provinham os participantes
da Conference, a atividade teve o efeito instantâneo de instigar
os espectadores a comparações elucidativas entre variados
contextos urbanos. Lisboa assumia assim, no plano discursivo, o papel que
os organizadores do FICYURB tinham lhe assegurado fisicamente, ao viabilizarem
acadêmica, institucional e financeiramente a realização
do evento ali: o papel de contraponto empírico referencial para
um aprofundamento verdadeiramente cosmopolita acerca da reflexão
interdisciplinar e internacional sobre as potencialidades e dilemas sociais,
culturais, políticos e econômicos da vida nas cidades do mundo
atual.
Também
no que se refere às atividades estritamente acadêmicas do
programa, o cosmopolitismo as impregnou do começo ao fim. As conferências
de abertura e de encerramento ficaram sob a responsabilidade de cientistas
sociais provindos de continentes diferentes, um antropólogo e uma
socióloga, que, tendo como principais cenários empíricos
de referência respectivamente São Paulo e Rabat, demonstraram,
cada um à sua maneira, como a antropologia e a sociologia podem
contribuir para o enfrentamento da complexidade urbana do presente. Em
“No meio da trama: a antropologia urbana e os desafios da cidade contemporânea”,
proferida na manhã do dia 11, José
Guilherme Magnani (Universidade de São Paulo) lançou
mão de exemplos empíricos esclarecedores para ilustrar o
seu argumento de que a etnografia é não apenas uma técnica,
mas simultaneamente uma “atitude de estranhamento da realidade urbana”
e uma “forma de interpretar essa mesma realidade”. Uma vez que não
somente explicitou a um público tão diversificado – de cientistas
sociais, arquitetos, urbanistas, historiadores – o que é etnografia,
mas atestou de maneira muito vívida a importância metodológica
e teórica do olhar etnográfico, o antropólogo forneceu
um parâmetro conceitual que acabou por orientar de modo profícuo
boa parte das discussões havidas nos panels em que os temas eram
práticas sociais e culturais no espaço urbano. Já
Françoise
Navez-Bouchanine enfrentou, na conferência de encerramento, no
início da noite do dia 12, uma questão bem diversa que perpassa
o debate sobre as cidades da atualidade: “Savoirs sociaux et politiques
urbaines. Quelles évolutions?”. Utilizando complexos organogramas
que problematizavam justamente as relações entre o conhecimento
produzido na academia e as políticas urbanas efetivamente implantadas
na Europa atual, a contribuição da socióloga acabou
por contemplar uma segunda vertente de panels que figuravam na programação
e cujas temáticas centrais eram movimentos sociais e políticas
urbanas.

Se
as conferências tiveram o papel de lançar balizas metodológicas
e teóricas que se fizeram presentes também, em modalidades
diversas, nas 39 sessões de apresentação realizadas
durante a manhã e a tarde dos dias 11 e 12, o cosmopolitismo subjacente
ao evento como um todo assumiu, através dos panels, a sua
mais explícita forma de expressão. Respectivamente com duração
de uma hora e meia, ocorreram seis sessões em torno da temática
“ “Politics, power and negotiating processes”; três sessões
em torno de “Social movements: cultural practices and contexts”;
sete a respeito de “Politics, practices and urban identities”; cinco
sobre “Built spaces, conflict and social inequalities in the enlarged
city”; outras cinco acerca de “Urban territories’ planning, design
and uses of urban space”; novamente cinco em relação
à temática “Movement, flows and uses of public space”;
duas a respeito de “Work, territories and organizations – restructuration
and life styles”; mais cinco referidas a “Dispersion/concentration:
urban socialization in the splintered city”; enfim, uma ligada a “World-city/cities
in the world? Competition and hierarchy, differentiation and fragmentation”.
Justamente o fato de as temáticas de cada sessão serem bem
específicas, frutos de uma seleção prévia precisa
dos organizadores, fez da maioria das mesas foros de discussão privilegiados
a respeito do quanto variam e se assemelham historicamente os processos
de urbanização nos quatro cantos do mundo desde o advento
da modernidade. Espectadores e expositores foram levados de maneira instantânea
a alargar os seus horizontes de compreensão a respeito de suas próprias
cidades de referência, ao serem confrontados com a evidência
de que, em contextos urbanos absolutamente distintos do planeta, tudo poderia
ser tão parecido e, ao mesmo tempo, tão diferente.

Ficaram
explícitas inquietações comuns, por um lado, em relação
às políticas públicas de promoção urbanística
e social da concepção de circulação nas mais
diversas cidades do mundo (sobretudo ocidental), a partir em particular
do século XIX; por outro lado, preocupações em relação
aos efeitos socioespaciais da consolidação do espaço
urbano como capital passível de valorização sempre,
nos atuais tempos de globalização. Os porta-vozes de tais
reflexões eram, boa parte das vezes, estudantes e profissionais
das ciências sociais, principalmente sociólogos e antropólogos,
mas também historiadores; porém, é digna de nota a
presença, ainda, de profissionais da arquitetura e do urbanismo.
Se,
de maneira geral, as abordagens apresentadas nem sempre conseguiram se
furtar a ideologizações de cunho político que exerceram
um efeito empobrecedor sobre o conhecimento a ser transmitido e debatido,
há que se ressaltar que mesmo essas perspectivas tiveram um papel
importante, na Conference. Colaboraram lado a lado com as diversas outras
para fazer do evento uma materialização concreta da absoluta
pertinência do jargão de que a cidade é, acima de tudo,
um “objeto interdisciplinar”. Compreendê-la em toda a sua complexidade
não se faz sem dialogar teórica e metodologicamente com os
muitos profissionais que sobre ela se debruçam.
Objeto
interdisciplinar, mas também objeto internacional. Se tantas foram
as cidades que encontraram abrigo em Lisboa naqueles dias, isso se deveu
também ao fato de que as línguas oficiais do congresso foram
várias: além do português e do inglês, o castelhano
e o francês. Não obstante, houve espaço para outras
línguas ainda, virtualmente todas: os organizadores reiteraram em
diversas ocasiões que os participantes estavam convidados a se expressar
na(s) língua(s) de sua preferência; tudo para garantir a comunicação
– também aqui, sinal evidente de cosmopolitismo.
É pena apenas que o tempo para
tanta pluralidade tenha sido restrito. Não somente porque dois dias
e uma noite passam por demais rapidamente. Com duração respectiva
de uma hora e meia, cada uma das sessões, coordenadas por um dos
organizadores do evento ou por acadêmicos convidados, acabava sendo
efetivamente muito curta para que as discussões suscitadas pelas
apresentações se aprofundassem. Sobretudo quando eram seis
os expositores, o que em boa parte das vezes foi o caso.
De toda forma, tal desencontro permanece
menor frente à multiplicidade de encontros que o evento como um
todo proporcionou àqueles que dele participaram. De resto, o seu
objetivo era, conforme anuncia o sítio eletrônico, constituir
um “espaço de disseminação das recentes investigações
provenientes das mais variadas áreas das ciências sociais
sobre contextos urbanos”, além de “promover a constituição
de redes interdisciplinares” (grifos meus). Pelo que pude perceber, como
participante e expositora, o que não faltou, em Lisboa entre 10
e 12 de junho, foram oportunidades para a realização desses
dois objetivos. E isso, talvez sobretudo porque o FICYURB transformou aquela
cidade - relativamente pequena para padrões brasileiros, somando
três milhões de habitantes apenas se nela se engloba a sua
região metropolitana – em uma imensa metrópole, em termos
intelectuais e acadêmicos. Mais do que intensas, foram tocantes as
iniciativas de que o ISCTE lançou mão naqueles dias para
fazer de Lisboa um cenário ímpar para a estimulante convivência
entre teorias, métodos, interpretações absolutamente
diversificadas sobre o mundo urbano forjado historicamente com a modernidade.

E quando tudo terminou, foi a vez de
sair às ruas e envolver-se de corpo e alma – por que não
etnografar? - nas chamadas “marchas populares”, celebrações
que mobilizam intensamente Lisboa na véspera do dia da morte de
“Santo António”, o nosso “Santo Antônio”, 13 de junho. As
datas de realização do FICYURB foram escolhidas pela organização
tendo em vista que a reunião científica se encerrasse imediatamente
antes de terem início essas festividades urbanas de forte cunho
popular. Foi possível assim aos participantes deixarmos a metrópole
cosmopolita e, no instante seguinte, depararmos com a cidade pequena, virtualmente
a aldeia, que essa mesma metrópole também abriga.
Estranhamento, diversão, muitas
descobertas. Mas essa já é uma outra história – urbana.
Professora
do Departamento
de Sociologia da Universidade de São Paulo e pesquisadora associada
do Núcleo de Antropologia Urbana
da mesma Universidade
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