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Introdução – os
circuitos do sexo
“Foi meio estranho, a
princípio. Ter de ficar nu. Apenas com os calçados e com
a máscara que ganhei na entrada. Era uma festa de “mascarados”,
para comemorar o aniversário do clube. A máscara preta, de
elástico, me foi entregue pelo dono do local, que havia mandado
fazer um enorme bolo em formato de pênis, avistado logo na entrada.
Em volta dele, alguns rapazes já nus, apenas de tênis ou coturnos,
altos e musculosos, comiam seus pedaços. No andar debaixo havia
uma grande cama coletiva. A maioria dos freqüentadores fazia sexo
nesse espaço. A presença de malhados, “sarados” e “bombados”
era marcante nesse dia. Havia, sim, homens mais velhos. Barrigudos, gordinhos.
Mas a grande maioria era de “bombados”. Alguns eram “barbies”, outros eram
típicos “ursos”. Um público “seleto”. Parece que a estratégia
de “afastar as bichinhas”, como havia me dito um dos organizadores do local,
no carro, enquanto íamos para lá, funciona bem. Eu pude ver
e ouvir o “macho versus macho” (Braz, 2007) em carne, osso e músculos.
Havia muitos garotos na faixa dos 20 aos 25 anos. Bem mais do que nos cinemas-pornôs
do centro. E quase não havia negros. Um público muito parecido
com o que freqüenta as boates da moda. Só que aqui eles procuram
comportar-se de modo “masculino”. O som tocado próximo ao bar também
lembrava o das boates do circuito GLS moderno. A iluminação
era penumbra, o que parece ser uma convenção em locais como
esse. Depois de meia hora lá dentro, a nudez deixa de ser algo estranho.
O que passa a ser esquisito é ver alguém chegando ao local,
ainda com as roupas, ou ver os funcionários da casa vestidos, circulando
para lá e para cá. Eu percebi que muitos me olhavam. Roçavam
em mim enquanto eu passava, de espaço em espaço, apenas observando.
Tentavam pegar em mim e eu me esquivava. Queria passar incólume,
o mais neutro possível. Mas minha nudez não lhes era invisível”.
Essas notas etnográficas trazem
já alguns dos dados em que me apóio neste artigo, cujo intuito
é o de problematizar a construção discursiva da corporalidade
em diferentes locais inseridos no mercado do sexo entre homens na cidade
de São Paulo. Pensar sobre o modo como a nudez – minha própria
e dos outros – é percebida nesses espaços permite um olhar
sobre as convenções que regem a corporalidade desejável
e desejante dentro deles. Nesse sentido, o corpo é aqui tomado não
apenas como sujeito/objeto de reflexões, mas como metodologia de
pesquisa. Corpos que são fios narrativos e também analíticos
. A produção da corporalidade liga-se ao modo como a masculinidade
é reiterada nos contextos estudados. O interesse é, então,
pensar nos corpos desejáveis para se entender os sujeitos possíveis.
Especificamente,
tenho em mente o sexo realizado em cinemas pornôs, saunas, bares
e clubes de sexo, envolvendo em alguns casos elementos “fetichistas” ou
“sadomasoquistas (s/m)” .
Tomo a liberdade de utilizar aqui tais expressões de modo inclusivo,
entendendo que o que é designado como “s/m” ou como “fetiche” é
contextualmente variado, sendo um de meus objetivos de pesquisa entender
como se configuram esses elementos da perspectiva dos sujeitos com os quais
tenho dialogado. Meu interesse é construir uma interpretação
antropológica da sociabilidade nesses espaços e de
seus sujeitos. Pensando na existência de uma matriz de inteligibilidade
cultural hegemônica (Butler, 2003), que opera
por meio da reiteração de normas que estabelecem a coerência
dos corpos, talvez as práticas que me proponho estudar possam ser
descritas como exemplares de descontinuidades, uma vez que romperiam com
a coerência estável entre sexo, gênero, desejo e materialidade
corpórea. De certa forma, esses homens seriam “corpos abjetos” dentro
de uma matriz heteronormativa (Butler, 2002). O abjeto
designa, para Butler, aquelas “zonas invivíveis”, “inabitáveis”
da vida social “que, sem dúvida, estão densamente povoadas
pelos que gozam da hierarquia dos sujeitos, mas cuja condição
de viver sob o signo do “invivível” é necessária para
circunscrever a esfera dos sujeitos” (Butler, 2002: pp. 19-20). A inteligibilidade
não deve ser tomada, aqui, como um campo fechado ou um sistema com
fronteiras finitas. É um campo aberto. A prática social seria
constituída por atos repetidos que se instituem como normatividades
hegemônicas quando encobrem seus efeitos. Sendo um campo em aberto,
nas margens se encontram os “sujeitos” excluídos. E eles ajudam
a entender o que seria a norma
. Pensar em abjeção em relação a uma matriz
cultural hegemônica não significa, contudo, que não
possamos pensar na criação de “matrizes alternativas” de
inteligibilidade, nas quais a “coerência” seria dada por outros modos
de arranjo entre categorias diversas. O fato de que os universos metropolitanos
de pessoas que se relacionam afetivo-sexualmente com outras do mesmo “sexo”
(sejam eles designados como “GLS”, “GLBTTT” ou nenhum dos dois) criam em
seu interior formas próprias de “inserção” e “abjeção”
é algo que vem sendo apontado em estudos contemporâneos realizados
em São Paulo
. A questão que norteia minha pesquisa é saber como convenções
relativas a uma série de marcadores de diferença (tais como
os de gênero, sexo, sexualidade, classe, raça, idade e posições
sexuais) são atualizadas por esses homens, levando à possível
criação processual de matrizes alternativas de inteligibilidade
de corpos, prazeres, desejos e práticas sexuais.
A
pesquisa que venho realizando envolve não só os espaços
mencionados, mas também uma etnografia de espaços virtuais.
Muitos dos locais que visito contam com páginas na Internet. Criei
um perfil no Orkut
explicando meus propósitos e pedindo voluntários, por meio
de mensagens deixadas em comunidades relacionadas a esse universo. Em pouco
tempo, consegui uma lista de homens dispostos a conversar comigo via comunicador
instantâneo (MSN), com quem tenho conversado bastante. Por meio de
alguns amigos e amigas também entrei em contato com os freqüentadores
bastante conhecidos nesses locais, como proprietários de clubes
e organizadores de encontros sadomasoquistas e fetichistas para homens.
A entrada nessa rede tem me propiciado um incipiente e promissor trabalho
de campo
.
De
acordo com Green e Trindade, a região do centro de São Paulo,
sobretudo nas proximidades do Vale do Anhangabaú e da Praça
da República, constitui um local historicamente freqüentado
por homossexuais (GREEN e TRINDADE, 2005). MacRae
inclui nessa lista o entorno da avenida Ipiranga (MAcRAE,
2005), enquanto Simões e França lembram da famosa avenida
Vieira de Carvalho (SIMÕES e FRANÇA,
2005). Antes da criação de um mercado voltado para esse público
em meados dos anos 60, as trocas homossexuais se davam em bailes carnavalescos,
pela prática do footing em parques, praças, bem como pelas
“caçadas” em banheiros públicos, cafés e restaurantes,
que abarcavam a sociabilidade dos homens que buscavam outros homens, embora
aqueles de camadas mais elevadas preferissem festas particulares e jantares
em casas e apartamentos de amigos.
É
na década de 1960 que são abertas em São Paulo algumas
boates declaradamente destinadas a um cliente homossexual de classe média,
“que procurava locais de encontro onde houvesse maior segurança
contra ataques policiais ou de bandidos” (MAcRAE,
2005: p. 292). O número de estabelecimentos, tais como saunas e
boates, cresce nas décadas seguintes. No final da década
de 70, uma passeata de protesto contra a “Operação Rondão”,
que visava, de acordo com os movimentos de militância, limpar o centro
da cidade da presença indesejada desse público, reuniu grupos
homossexuais, feministas, além do Movimento Negro Unificado, levando
às ruas quase mil participantes.
Depois
da abertura política, cresce o número de estabelecimentos
do chamado “mercado gay” (MAcRAE, 2005). A palavra
“gay” para se referir a esse público é “importada” nos anos
80. Segundo MacRae, “a origem anglo-saxônica empresta-lhe um glamour
de coisa de país desenvolvido”. O autor nomeia tal movimento como
de formação de um “gueto homossexual” no centro de São
Paulo, enfatizando sua dimensão política e cultural, no sentido
de ocupação de um “espaço público” por parte
de sujeitos marginalizados. Simões e França nos lembram que
o caso paradigmático para se pensar num gueto homossexual é
a cidade de São Francisco, nos Estados Unidos. Lá ele constituiria
um território delimitado por uma forma específica de ocupação
e utilização, sendo inclusive local de moradia desse público.
Em São Paulo, esse processo teria mais a ver com os deslocamentos
dos sujeitos por lugares em que se exercem atividades relacionadas à
orientação e à prática homossexual (SIMÕES
e FRANÇA, 2005). A referência aqui é o trabalho
de Perlongher, que critica a transposição mecânica
da noção de “gueto gay” (que implicaria na universalização
da política de identidade gay), para São Paulo, preferindo
em seu lugar uma caracterização sócio-antropológica
das territorialidades homossexuais na cidade (PERLONGHER,
2005). Simões e França afirmam que há diferentes “guetos”
(entre aspas) em São Paulo hoje em dia, diferenciados pelas regiões
da cidade. Seus sujeitos seriam agrupáveis não só
pela orientação sexual, mas por sexo, poder de consumo, “estilo”,
pelo modo a partir do qual expressam suas preferências sexuais etc.
Por isso, para os autores, é melhor usar as categorias propostas
por Magnani (2000) como “manchas” e “circuitos”,
que procuram dar conta da lógica de implantação e
utilização de aglomerados de estabelecimentos e serviços
na paisagem urbana, em diálogo com concepções renovadas
de territorialidades itinerantes e flexíveis. Simões e França
apontam para a crescente importância do mercado na promoção
e difusão de imagens, estilos corporais, hábitos e atitudes
associados à política de identidades e às emergentes
culturas identitárias homossexuais na atualidade. Os guetos se expandem,
chegando até à realidade virtual. É nesse contexto,
já nos anos 90, que surge a categoria GLS (gays, lésbicas
e simpatizantes), a partir do MixBrasil, que incluía uma página
de Internet e um e festival de cinema alternativo, ambos voltados para
esse público emergente. Os autores afirmam que esse movimento contribuiu
para a diluição das fronteiras do que se poderia antes chamar
de “guetos”, embora sua ênfase mercantil tenha levado a outros processos
de diferenciação por parte de outros grupos, tais como os
de militância, que ao invés da sigla GLS, passam a se denominar
de outras formas. Importante notar que GLS passou desde então a
ser associada a um estilo “moderno e descolado” – caracterizando um público
de alto poder aquisitivo e capital simbólico distintivo (SIMÕES
e FRANÇA, 2005).
É
com base nas afirmações de Simões e França
que procuro localizar o mercado do sexo para homens que venho pesquisando.
Talvez seja possível falar num circuito do sexo entre homens localizado
dentro das manchas ou circuitos homossexuais da cidade. Haveria, portanto,
o “circuito popular” do sexo, localizado no centro da cidade, e os “modernos”,
em bairros da Zona Sul. Centro e Jardins constituiriam, da perspectiva
de Simões e França, uma espécie de “oposição
estrutural” no circuito mais amplo. Eles lembram que isso não significa,
contudo, que não haja diversidade dentro de cada uma dessas manchas,
bem como circulação de sujeitos, símbolos etc.
Na
área central – Praça da República, Vieira de Carvalho
e Largo do Arouche, que constitui um circuito homossexual há várias
décadas, é possível vislumbrar a “mancha popular”
desse mercado, que inclui de bares a boates. Os freqüentadores desses
espaços, quando são jovens, sobretudo os que freqüentam
as boates, são chamados de “bichas quá-qua”, “bichas poc-poc”,
“bichas um-real” por aqueles que freqüentam outros circuitos - termos
que para Simões e França são pejorativos, quase categorias
de acusação, “que pretendem designar o jovem homossexual
mais pobre e efeminado, de comportamento espalhafatoso e menos sintonizado
com linguagens e hábitos “modernos” de gosto, vestimenta e apresentação
corporal” (SIMÕES e FRANÇA: p. 317).
Existe uma vasta tradição de estudos sobre as homossexualidades
no Brasil, que remonta à década de 80 do século passado,
tendo a obra de Peter Fry como referência (FRY, 1982). Nesse modelo,
as “bichas” seriam os passivos, considerados homossexuais, em oposição
aos “bofes”, que se valeriam de uma suposta ambi-sexualidade (DUARTE,
2004). Esse modelo vem sendo problematizado por pesquisas recentes em São
Paulo, que apontam para um processo de circulação dos ideais
igualitários entre pessoas que se relacionam com pessoas do mesmo
sexo de diferentes camadas sociais e colocam a necessidade de se repensar
o entendimento da materialização dos corpos nesses contextos,
levando em conta a intersecção entre diferentes categorias
e marcadores (ver, por exemplo, FACCHINI, 2006;
BRAZ,
2007).
Embora
Simões e França lembrem que a porção popular
do mercado homossexual pareça remeter ao modelo hierárquico
proposto por Peter Fry, apontam que há atualmente uma incipiente
especialização de serviços ligada à segmentação
da homossexualidade em variados estilos de vida. Como exemplo, citam o
surgimento de bares e boates para homens mais velhos. Meu interesse, porém,
é olhar para uma porção específica dessa mancha.
Poderia, então, falar num circuito popular do sexo localizado
nessa região da cidade, que inclui os famosos cinemas pornôs ,
bem como saunas e clubes de sexo. Não pretendo afirmar que o modelo
“bicha-bofe” é preponderante nesses contextos, mas vale salientar
que ele persiste como um dos modelos disponíveis pelos a partir
dos quais os sujeitos desse circuito constroem sentidos para suas
experiências. Ele aparece quando se trata, por exemplo, de nomear
os rapazes mais jovens que freqüentam os cinemas pornôs. Em
campo, ouvi que eles são desde “machos ou machinhos que comem bichas”,
até “braçais”, termo utilizado por aqueles homens de camadas
e idades variadas, que vão a esses locais em busca da suposta “virilidade”
desses rapazes, que são de camadas populares e geralmente trabalham
como pedreiros, office-boys ou profissões similares. E também
como michês. É o “fetiche pelos braçais”. Quanto à
nominação dos homens mais velhos, na faixa dos 50 a 60 anos,
que em alguns dos “cinemões” que visitei constituem o maior público,
ouvi desde “coroas”, termo que enfatiza não só sua idade,
mas também sua “discrição”, visível nas vestimentas
e na sua postura, até “terceira idade”. Algumas pessoas também
se referem a esses cinemas específicos cuja clientela é de
“coroas” como “desmanches”.
Saindo
do centro da cidade, em direção aos bairros de classe média-alta,
Simões e França localizam outros circuitos, compostos
por um público “moderno”, sintonizado com padrões globalizados
associados à homossexualidade. As categorias de acusação
operam aqui em sentido contrário – seus sujeitos são chamados
de “bichas finas” pelos freqüentadores da mancha popular. A área
que vai dos Jardins até a avenida Paulista conta com pelo menos
20 bares e boates. Há também estabelecimentos em outros bairros
nobres, tais como Itaim-Bibi, Pinheiros, Vila Madalena e Moema – que contam
com mais onze casas noturnas. Além disso, há mais duas boates
em bairros mais afastados, a Lapa e a Barra Funda (SIMÕES
e FRANÇA, 2005). Com relação ao mercado do sexo,
vale salientar que nessa mancha não há “cinemões”.
Há, porém, muitas saunas
, bares e clubes de sexo, inclusive na Vila Mariana – em que se observa
a reprodução do modelo europeu ou norte-americano de clube
fechado, voltado para um público mais elitizado
Macho
versus
Macho
Num artigo publicado na Folha de
São Paulo, Carrara se apóia nos resultados de pesquisas junto
a participantes das Parada Gays de São Paulo e do Rio de Janeiro
e afirma:.
“Para alguns, por aumentar
o preconceito, a feminilidade parece politicamente incorreta nos homens.
Para outros, deve ser cuidadosamente policiada pelos que se aventuram no
mercado dos afetos e paixões (CARRARA, 2005)”
O autor lembra que, nas últimas
décadas, “a emergência pública do fenômeno "gay"
tem mostrado que homossexualidade masculina não é sinônimo
de "efeminação"”. A afirmação de uma homossexualidade
viril seria para muitos uma questão política, à medida
que desestabiliza o paradigma da "inversão sexual", que produz a
homossexualidade masculina como resultado do “aprisionamento de suposta
alma feminina em um corpo masculino” (CARRARA, 2005). Mas essa não
seria a única explicação para a rejeição
da figura do “afeminado”. Esta pode ser lida também como uma resposta
à discriminação, que é desviada para um “subgrupo
mais vulnerável” dentro dessa população homossexual.
O autor questiona até que ponto “a adequação às
normas de gênero vigentes é, para muitos, o preço para
ingressar no universo da cidadania ou da conjugalidade bem sucedida”. E
conclui o artigo com uma indagação: “Afinal, apenas os homossexuais
viris, discretos e bem comportados merecem o paraíso?” (CARRARA,
2005).
Em
um trabalho anterior, eu trouxe alguns dados de campo que me permitiram
perceber a valorização da masculinidade e a criação
do que chamo de “hiper-masculinização” entre homens que se
relacionam afetivo-sexualmente com outros homens, seja na Internet, seja
em alguns dos locais de pesquisa (BRAZ, 2007). Na Internet,
tanto em salas de bate-papo, quanto numa página de busca de parceiros
para sexo e/ou relacionamento afetivo-sexual, ou ainda nas comunidades
do Orkut que tenho pesquisado, os usuários buscam conhecer “caras
machos”, com postura “masculina”, sem “trejeitos” ou “afetações”.
Apresentar-se como “discreto” ou “fora do meio” e adquirir o status de
“macho” parece ser uma maneira de se tornar mais valorizado sexualmente.
Tanto aqueles que se identificam como “ativos” quanto os “passivos” buscam
parceiros afetivo-sexuais “machos”. Em campo, percebi e ouvi muitas referências
a essa valorização da masculinidade exacerbada. Um bom exemplo
são os “ursos”, as barbies e os “bombados” (ver discussão
em SIMÕES e FRANÇA, 2005). O primeiro
termo é utilizado nos circuitos homossexuais, e em outros espaços
de trocas eróticas entre homens, como referência a um grupo
de homens usualmente corpulentos, que valorizam os pêlos corporais
(barbas, bigode, cavanhaque, peitoral, axilas). Os ursos, embora
grandes, não são necessariamente “sarados”, ou “malhados”.
A gordura muitas vezes aparece como uma marca corporal valorizada. Eles
se opõem às “barbies”, termo utilizado para se referir
aos homens também altos e fortes, de torsos definidos e geralmente
depilados, que se engajam em horas e horas de exercícios físicos
em academias de musculação. Se a malhação é
regada de hormônios e anabolizantes, o termo passa a ser
“bombados”
. Esses três grupos se apresentam usualmente como “machos”, tanto
por meio da aparência, dos sinais de apresentação ou
pela postura corporal que indicam “masculinidade”, opondo-se à “afetação”
e à “bichisse”.
Corpos
e prazeres
“Fiquei lá por
uma hora e meia e só vi uns dois rapazes na faixa dos vinte e poucos
anos. Os outros todos tinham entre 30 e muitos e 60 e poucos. Nada de homens
“sarados”, malhados, com roupas de moda ou de marca. Camisetas ou camisas
de manga curta, calça jeans ou de pano, sapatos, tênis ou
sandálias de couro. Logo que cheguei, senti olhares curiosos. Alguns
de desejo, outros de curiosidade mesmo. Alguns deles passavam por mim e
encaravam, olhavam, piscavam, dava a famosa “pegada” para chamar atenção,
essas coisas. E eu de mochila, perambulando para lá e para cá,
sem ficar muito tempo num local só. Acho que isso soava mais estranho
ainda. Afinal, quem paga para entrar lá para não fazer nada?
Nem se masturbar? O que achei interessante é que ninguém
falou comigo. As cantadas eram silenciosas e bastava eu não encarar,
ou ficar olhando para a tela, que eles passavam”.
O
primeiro choque quando se entra num cinema-pornô é a escuridão.
Não se consegue ver nada. Aos poucos, a vista se acostuma e passa
ser possível perceber onde se pisa. Alguns cinemas têm mais
de uma tela de exibição. Outros têm vários andares.
Nos banheiros, muitas vezes o clima é de “caça”, ou “pegação”.
Quase ninguém conversa em cinemões. Os únicos sons
percebidos vêm dos filmes. A abordagem raramente é direta.
São sempre olhares, insinuações, “secadas”. Em alguns
desses cinemas, minha presença é logo estranhada. Não
raro alguém vem puxar conversa comigo, querer saber de onde eu sou,
quantos anos eu tenho, o que eu procuro ali. Mas essas conversas são
sempre fora dos locais de “caçação” do cinema – no
bar, na escada entre os andares. E sempre conversas rápidas. Quase
sussurradas. No cinema, a nudez não é a do público.
É a da tela. O jogo de mostrar/esconder as partes do corpo se faz
presente nas salas de exibição. Certa vez perguntei para
um rapaz por que havia tantos homens em pé, no fundo do cinema.
Ele me disse que esse era um sinal de que “eles queriam brincar”. Esses
homens se masturbam na penumbra, esperando quem entenda seu convite. No
banheiro, o jogo persiste nos mictórios, onde lado a lado os homens
se exibem. Ou numa porta de reservado propositalmente deixada aberta. Nesse
jogo de mostrar/esconder/ver é que eu me insiro enquanto pesquisador.
No “cinemão”, todos somos voyeurs. O ponto que quero frisar
é que o modo como sou percebido em cada cinema me ajuda a entender
as convenções que o regem. Num cinema onde o público
é majoritariamente “coroa”, sou estranhado logo de cara. Os olhares,
os cochichos, as divagações. É sempre lá que
alguém me pergunta o que “um cara como eu” procura lá dentro.
Minha aparência, minha postura, meus gestos, minha corporalidade
denunciam que eu não pertenço àquele lugar. E é
lá que tentar conversar com alguém quase sempre não
é bem visto. Nesses cinemas de “coroas”, a regra é a discrição,
a rejeição de estereótipos associados ao homossexual,
tais como a “afetação”, os “trejeitos”, ou a “afeminação”.
Mas também pode significar que nada neles (roupas, aparência,
comportamento) anuncia – ou denuncia – a homossexualidade. O discreto seria
então aquele que “parece um heterossexual”. Ou, como disse um rapaz
com quem conversei certa vez num dos cinemas, “são todos enrustidos”.
Os filmes exibidos são quase sempre heterossexuais. As roupas são
“discretas” – calça social ou jeans, camisa de botões. Os
rapazes mais jovens, como eu, são presumivelmente garotos de programa.
Ou, então, são os “machinhos que comem bichas”.
Um
dos locais onde tenho pesquisado é uma sauna do circuito GLS “moderno”,
num bairro de Zona Sul, onde a presença de garotos de programa é
proibida. Ela funciona 24 horas.
“Na área onde
ficam as TVs passando os filmes, na entrada do labirinto escuro onde rola
o sexo, percebi que masturbar-se na frente dos outros é algo que
afasta possíveis parceiros. Parece ser uma “tentativa desesperada”.
Ninguém dá muita bola. A não ser que o cara seja bonitão.
Uma tática bastante utilizada é beneficiar-se do fato de
que o chuveiro que leva às saunas é separado da área
do bar por um vidro transparente para exibir-se. Muitos caras banhavam-se
com o pênis semi-ereto, algumas vezes ereto. Ficavam de frente para
a “platéia”. E depois saíam. Geralmente, alguns íam
atrás. Subir a escada e dar um giro pelo labirinto é algo
que é feito durante toda a noite, em intervalos sucessivos. Muitos
ficam parados na parede das salas onde ficam as TVs, vendo quem entra ou
sai. É um bom lugar para a caçada, os olhares, as insinuações.
Percebi que uma tática para afastar quem estava me secando ou cantando
era fingir que não havia percebido a encarada. Olhar para o teto...para
a TV...É o que eu fazia. E funcionava. Vi outros fazendo o mesmo.
Outra maneira de “fugir” é simplesmente descer as escadas de volta
para a área de descanso. Ou mudar de sala, até que o cara
desista e encontre outra possível presa”.
Mais uma vez, o sujeito desejado
é “macho”. E novamente posso tentar perceber essas convenções
a partir do modo como minha presença é percebida. Olhar para
mim mesmo, para meu corpo, para o modo como me comporto lá dentro,
e contrapor essas informações à forma como sou assediado
em campo me ajudam a entender quem é e quem não é
desejado naquele contexto. A “desejabilidade” passa não apenas pelo
visual, pela estética – gordo, magro, malhado, bombado, baixinho,
alto, jovem, velho, peludo, sem pêlos, bem dotado ou não –
mas também pelo modo de se comportar – se é “bicha”
demais ou de menos, se fica na sua ou é espalhafatoso, se bebe demais,
se adota táticas desesperadas, como se masturbar vendo os filmes
(o que, diga-se de passagem, é uma postura própria dos cinemões),
se mantém uma postura mais sorrateira, discreta. A discrição
aqui adquire novos significados. Ser discreto, para além de não
ser “afeminado”, é saber olhar, mostrar, flertar sem parecer “desesperado”.
Todas essas são convenções que implicam a valorização
ou desvalorização enquanto parceiro sexual. Na sauna, não
se fica nu o tempo inteiro. Trata-se de uma “semi-nudez”. Há a toalha.
A sunga. A cueca. É também, como nos cinemas, um jogo de
mostrar ou esconder. E de saber bem onde – e como – mostrar. E o que mostrar
também.
O
Clube X é um espaço para sexo e orgias privado. Fica num
bairro da Zona Sul. O site dele traz os roteiros das festas organizadas
pelo grupo. Os participantes (ou os antropólogos que lá forem
fazer sua pesquisa...) devem, obrigatoriamente, concordar em não
vestir nenhuma peça de roupa lá dentro – o termo utilizado
para a nudez obrigatória é “bottomless”. Os temas das festas
são variados, envolvendo uma série de “fetiches” homoeróticos.
Na primeira vez em que estive lá, convidado pelo principal organizador
dos encontros de “BDSM gay” e de “gays leathers”
da cidade, tratava-se de uma festa de “mascarados” (a única peça
de roupa permitida eram máscaras fornecidas na entrada). Assim,
há festas “estudantinas”, para rapazes mais novos; “Boots”, que
tem a ver com uniformes, especialmente militares; “Paizão”, em que
rapazes mais novos realizam trocas eróticas com homens mais velhos;
Há também festas sadomasoquistas, bem como um espaço
especialmente criado para o exercício dessas práticas, dentro
do clube (que conta com as chamadas slings, uma espécie de cadeira
suspensa, feita de couro). Há uma série de itens que devem
ser preenchidos para que um homem interessado possa ser membro dele: cadastrar-se
(via site); ter uma aparência e uma atitude “masculina”; ter o peso
proporcional à altura; ter entre 18 e 55 anos; ser “resolvido” e
“open minded” - que, segundo alguns sujeitos de pesquisa, significaria
não se restringir a fazer sexo com só um parceiro durante
a festa, não fazer “carão”, nem “bancar o difícil”,
estar, enfim, disposto mesmo a fazer sexo. Muito embora a consensualidade
seja valorizada por meio da regra de que “não é não”.
A consensualidade vem da sigla SSC – são, seguro e consensual ou
consentido -, utilizada por adeptos/as como referência às
práticas do BDSM. Segundo Zilli, o B designa o Bondage (Imobilização),
sendo o par B & D para Bondage e Disciplina. O par D & S para Dominação
e Submissão, e o par S & M para Sadismo e Masoquismo, ou Sadomasoquismo
(Zilli, 2006). O BDSM envolveria ainda práticas
ligadas ao Fetichismo. É interessante tentar articular as informações
em torno da “consensualidade” com as teorias a respeito do erotismo. A
partir dos anos 50 do século passado, o tema passa a ganhar destaque
na intelectualidade francesa, pela retomada dos escritos do Marquês
de Sade e de Leopold von Sacher-Masoch (podemos destacar Maurice Blanchot,
Michel Leiris, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Gilles Deleuze, Georges
Bataille, dentre outros/as). Comparando escritos dos dois autores, Deleuze
discute a unidade entre sadismo e masoquismo, argumentando que a idéia
de “sado-masoquismo” é analiticamente inconsistente sob vários
aspectos (DELEUZE, 1983). Para usar um jargão
pós-moderno, eu diria que ela é discursivamente produzida
no âmbito da medicina e da psicanálise. Essa é uma
idéia especialmente interessante para quem toma o “s/m” contemporâneo
como objeto de investigação
. Nos sites dos clubes que pesquisei até o momento, a consensualidade
é afirmada de modo recorrente. Eu tenho me valido dela para poder
fazer a pesquisa. Afinal, muito embora os proprietários do clube,
os organizadores das festas, alguns freqüentadores que eles vêm
me apresentando ou mesmo que eu conheci lá e com quem já
pude conversar saibam quais são meus propósitos, a maioria
das pessoas (que eu apenas observo) não sabe. A consensualidade
é, de certo modo, uma forma de manter minhas roupas figuradas num
ambiente de nudez escancarada e compulsória. Na página do
Clube X na Internet, afirma-se que ele é voltado para “homens interessados
em homens”. Homens com “jeito de homem”, com “voz de homem” e com “postura
e vestimentas” masculinas. A masculinidade é então um dos
atributos que compõem o sujeito de desejo nesse contexto.
A
apropriação feita por Bataille dos escritos de Sade perpassa
boa parte dos escritos existentes a respeito do erotismo (BATAILLE,
1987). Inspirando-se em Sade, Bataille sugere que o erotismo deva ser pensado
como transgressão às convenções morais. Gregori
salienta que essa concepção é perpassada pelo posicionamento
da relação masculino/feminino a partir de uma díade
entre ativo e passivo , sendo ainda limitado o exame dos efeitos dessa
tradição no que concerne à problemática de
gênero (GREGORI, 2004) .
A questão que me coloco é se essa concepção
do erótico via Bataille dá conta de explicar as práticas
aqui referidas. Em Bataille, o gênero aparece fixo e cristalizado,
ligado ao dimorfismo sexual e à associação entre sexo/gênero
e posições sexuais. O corpo “violado”, passivo, é
“feminino”, oposto ao masculino violador que o penetra. Vale salientar
que essas idéias presentes em Bataille não aparecem no próprio
Sade
. Em termos “butlerianos”, eu diria que Bataille introduz o erotismo dentro
da matriz heterossexual, impossibilitando que se pense o erótico
fora da heteronormatividade (cuja operação de gênero
implica a dualidade ativo/passivo, sujeito/objeto do desejo). E que para
pensar o aspecto erótico nas práticas aqui referidas, seja
necessário desconstruir a própria idéia do que é
erotismo. Um primeiro passo talvez seja levar a sério o que os sujeitos
com que tenho conversado dizem e dissociar a penetração do
corpo de sua “feminização”. Um segundo passo talvez seja
pensar que quando esses homens se dizem “machos” não estão
se opondo necessariamente à “feminilidade”. A rejeição
aqui é de quaisquer atributos – corporais, gestuais, comportamentais,
relativos a sentimentos, sensações ou expectativas – que
possam ser relacionados ao estereótipo do “afeminado”. A valorização
do “macho”, os discursos que constituem o macho como objeto de desejo,
não se opõem nesse sistema à feminilidade, mas à
“bichice”.
Mas
não basta ser “macho” para ser desejado no clube – é preciso
ter um “corpo proporcional à altura”. Na minha primeira vez lá,
comentando com um dos funcionários o quanto me era estranho ter
de ficar nu para fazer a pesquisa, ele me disse que isso era uma bobagem
– afinal, eu tinha um corpo “digno de ser mostrado”. Ele apontou então
para um senhor meio gordo e disse, rindo, que ele sim deveria ficar com
vergonha. Mas não eu. Numa outra oportunidade, fui com um
amigo e informante a uma festa no clube. Era o aniversário de uma
figura conhecida do universo BDSM entre homens da cidade. Meu amigo me
chamou a atenção em dado momento que aquela parecia uma “noite
de abelhas”. O clube estava lotado. Os grupos estavam bem separados – os
leathers,
adeptos de s/m com suas roupas e acessórios de couro de um lado,
os demais de outro. Os s/m andavam em bandos, de um espaço a outro
e vez por outra performavam alguma cena entre si. Quando isso acontecia,
em geral, os demais se afastavam. As cenas não pareciam fazer muito
sucesso entre eles. Quando começava uma coisa diferente em um ponto
da sala, juntavam-se muitas pessoas em volta para ver o que era, e depois
saíam. Mesmo com as cenas de sexo (sem s/m propriamente), isso ocorria.
Daí a idéia de meu informante, de que pareciam “abelhas”
voando em bandos. Vão a um local juntas, olham, e depois saem juntas.
Os rapazes mais novos geralmente andavam e brincavam juntos. Os mais velhos,
ou aqueles cujo corpo não era “proporcional à altura”, ou
se aproveitavam dos momentos em que as pessoas se aglomeravam em volta
de uma “cena” nova para “tirar uma casquinha” dos rapazes, ou apenas olhavam
de longe.
Nem
Toda Nudez Será Castigada
Em outra oportunidade, levantei a hipótese
de que a produção do “macho” como objeto de desejo é
um dos elementos da materialização dos corpos e da produção
das subjetividades nos contextos de minha pesquisa (BRAZ,
2007). Afirmei, ainda, que por mais questionável que seja do ponto
de vista das hierarquias que coloca, a hiper-valorização
da masculinidade ou a criação discursiva do “macho” como
objeto de desejo entre esses homens (e de um macho que não perde
sua “macheza” ao ser penetrado) pode ser lida como rearticulação
ou deslocamento de convenções relativas a sexo, gênero
e desejo que comporiam a matriz heteronormativa culturalmente hegemônica
(BUTLER, 2003). Por outro lado, implicaria na criação de
novos modos de hierarquização e de inteligibilidade, evidenciados
pela construção discursiva de uma corporalidade desejante
e desejável. Meu intuito aqui foi o de refletir sobre este último
ponto, à luz de alguns dados de campo. Nesse sentido, pensar sobre
a nudez – deles e minha própria – me pareceu um bom ponto de partida.
Csordas
afirma que o corpo pode ser construído ao mesmo tempo como fonte
de representações e como fundamento do estar-no-mundo I(CSORDAS,
1999). Isso significa manter em mente a possibilidade de que a representação
pode ser entendida como constitutiva da experiência e da realidade
enquanto textos. O corpo pode não só ser visto como um objeto
sobre o qual a cultura opera, mas também como o local das percepções,
a partir das quais a cultura “vem a ser”. A proposta de Csordas é
que o corpo possa ser tomado como uma ferramenta de pesquisa. Nesse sentido,
a experiência corporal (por que sobretudo perceptiva) não
só dos sujeitos estudados, mas também do/a antropólogo/a,
pode ser alçada à categoria de método de pesquisa.
Não se trata aqui de jogar fora a possibilidade do distanciamento,
nem de “virar nativo”. Mas de levar em conta o quanto a realidade estudada
pode ser incorporada não só nos sujeitos da pesquisa, mas
no/a próprio/a pesquisador/a.
É
por isso que acredito que, em campo, tanto a observação da
nudez alheia quanto a experiência da minha própria nudez permitem
um olhar sobre as convenções que regem a corporalidade desejável
e desejante nos espaços em que faço a pesquisa. Convenções
que dizem respeito à aparência e ao modo de se apresentar,
às posturas (des)valorizadas, ao jogo da caça e da sedução.
Bem como ao modo como a masculinidade é produzida, por meio de arranjos
diversos que levam em conta marcadores de gênero, classe, sexualidade,
posições sexuais, idade, gramática corporal. O macho
é o sujeito de desejo nos circuitos do sexo entre homens na cidade
de São Paulo. Essa hiper-masculinidade não só é
reiterada e “performatizada”, mas também corporificada. O corpo
do macho nu – e posto a nu – ajuda a entender não apenas como o
sujeito hiper-masculino de desejo é produzido discursivamente nesses
contextos, mas também como essa hiper-masculinidade é corporalizada,
“embodied”, instituindo a partir daí modos particulares de relação
social.
Nem
toda nudez é castigada nesses espaços. A minha não
o é, dentre outros fatores, pelo fato de eu estar fazendo
meu trabalho de campo. Trata-se de uma exigência ético-antropológica.
Mas ela não é a única a não sê-lo e,
no caso das outras, trata-se do fato de que elas não são
inteligíveis dentro das reiteradas convenções que
tornam o corpo do sujeito de desejo “macho” sexualmente desejável.
Notas
Este
trabalho foi apresentado no GT 20: Sexualidades, Corporalidades, Transgressões,
do XIII Congresso Brasileiro de Sociologia, realizado de 29 de maio a 1
de junho de 2007 na UFPE, em Recife (PE). Agradeço à
minha orientadora, Maria Filomena Gregori, e às/aos demais pesquisadoras/es
e professoras/es do Núcleo de Estudos de Gênero (Pagu), bem
como a meus/minhas colegas da área de Estudos de Gênero do
Doutorado em Ciências Sociais da Unicamp, pelas leituras cuidadosas,
pelo apoio e por nossas conversas. Agradeço também a alguns
dos sujeitos dessa pesquisa que têm me ajudado, e muito, a torna-la
possível.
Cabe
lembrar que tal perspectiva não é novidade nas ciências
sociais e está presente, por exemplo, nos trabalhos de WACQUANT
(2002), CSORDAS (1999) e ALMEIDA (1996). Ver também BRAZ (2006).
S/m é uma abreviação para “sado-masoquismo”. Essa
sigla aparece em parte da bibliografia como designando jogos eróticos
inspirados em fantasias de dominação e submissão (a
esse respeito, ver GREGORI, 2004. Ver também MACCLINTOCK, 1994;
2003).
A autora se inspira aqui na leitura que Kristeva faz das idéias
de Mary Douglas (DOULGAS, 1976) para a constituição da idéia
de abjeção. Os corpos que “não são” tornam-se
importantes para se entender as normas que constituem as subjetividades
possíveis ou inteligíveis (os corpos que “são”). Ver
em KRISTEVA, 1982.
Ver, por exemplo, SIMÕES, 2004; SIMÕES e FRANÇA, 2005;
e FACCHINI, 2006. Vale salientar que os chamados queer studies tratam há
tempos dessa questão.
Rede virtual para contatos eletrônicos que se transformou em “febre”
no Brasil.
A pesquisa na internet vem sendo realizada desde o início de 2006.
O trabalho de campo foi iniciado em outubro de 2006.
Os “cinemões” funcionam em casarões e prédios antigos,
muitos deles onde antigamente já funcionavam cinemas para filmes
não-pornôs. Ouvi em campo que esses locais eram “cinemas normais”
antes do surgimento das grandes redes cinematográficas em shopping
centers da cidade. Passam a ser cinemões depois disso.
No caso das saunas, cabe salientar que não se limitam a um ou outro
tipo de mancha – elas espalham-se pela cidade.
Vale lembrar que muitas boates, tanto no centro quanto nos bairros da zonal
sul, contam com dark-rooms – espaços escuros onde os freqüentadores
podem se engajar em trocas sexuais diversas. Contudo, como não realizei
– e ainda não sei se vou realizar - pesquisas nesses espaços,
não faço referência direta a eles aqui.
Trata-se de um survey realizado pelo Datafolha na Parada Gay de São
Paulo de 2005, além da pesquisa conduzida pelo CLAM (Centro Latino-Americano
em Sexualidade e Direitos Humanos), pelo Grupo Arco-Íris e pelo
Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido
Mendes na Parada Gay do Rio de Janeiro de 2004.
Vale salientar que o termo “bombado” não é exclusivo dos
circuitos homossexuais, podendo ser utilizado para se referir a qualquer
homem cuja corporalidade denuncie o uso de anabolizantes, inclusive heterossexuais.
Outro ponto interessante a ser frisado é que “ursos” e “barbies”
são necessariamente homens grandes, altos. Em campo ouvi que alguém
baixinho jamais será “barbie” – no máximo, será uma
“suzy”.
Os termos são dele.
Analisando um sex-shop idealizado por lésbicas em São Francisco,
Gregori chama a atenção para o processo de criação
de um erotismo “politicamente correto”, protagonizado por atores ligados
à defesa das minorias sexuais, nos EUA (GREGORI, 2004). Segundo
a autora, estaria em curso um deslocamento do sentido de transgressão
do erotismo para um significado cada vez mais associado ao cuidado saudável
do corpo e para o fortalecimento do self. No que diz respeito às
práticas s/m, a autora percebe uma espécie de neutralização
ou domesticação dos traços e conteúdos violentos
a elas associados.
Uma análise da apropriação de Sade por Bataille pode
ser encontrada em GALLOP, 1981.
A esse respeito, ver CARTER, 1978.
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