Referências
bibliográficas
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Notas
1
Artigo publicado originalmente na revista Campos nº 3. Curitiba:
UFPR/Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social,
2003. O texto é uma versão ligeiramente modificada da comunicação
apresentada no GT "Antropologia do Estado" da IV Reunião de Antropologia
do Mercosul (Curitiba, novembro de 2001).
2
Nas palavras de Lévi-Strauss: "... a única garantia que
podemos ter de que um fato total corresponde à realidade, em vez
de ser a acumulação arbitrária de detalhes mais ou
menos verídicos, é que ele seja apreensível de uma
experiência concreta: primeiro de uma sociedade localizada no espaço
ou no tempo ("Roma, Atenas"), mas também de um indivíduo
qualquer de qualquer uma dessas sociedades ("o melanésio de tal
ou qual ilha"). (...) [D]ito de outra maneira, não
podemos jamais estar seguros de havermos atingido o sentido e a função
de uma instituição se não pudermos reviver a sua incidência
sobre uma consciência individual. Como esta incidência é
parte integrante da instituição, toda interpretação
deve fazer coincidir a objetividade da análise histórica
ou comparativa com a subjetividade da experiência vivida" (Lévi-Strauss
1974:15).
3
Ao assinalar o caráter distintivo da experiência etnográfica,
Mariza Peirano observa que, "embora tenham chamado de informantes seus
principais colaboradores na pesquisa de campo, os antropólogos talvez
tenham sido os únicos entre os cientistas sociais a render sistemática
homenagem a eles". Entre outros exemplos, a autora evoca as referências
de Victor Turner ao especialista Muchona (sobretudo no livro The Forest
of Symbols, de 1967) e, mais recentemente, o tema e o título do
livro de Victor Crapanzano, Tuhami. Portrait of a Moroccan, de 1980 (Peirano
1995:139).
4
Os dois episódios, porém, não são rigorosamente
equivalentes. A inabilidade de Chachubutawachugi como caçador é
um fato público, cujos trágicos efeitos são publicamente
engendrados e vividos. O caso de Quesalid, por sua vez, é um drama
íntimo que, publicamente revelado no seio do grupo, por certo arruinaria
sua reputação como um grande xamã, sem mencionar outras
conseqüências potenciais cujo alcance é imprevisível.
5
É o caso, por exemplo, do relato de Clifford Geertz sobre o drama
do aldeão balinês a quem ele dá o nome fictício
de Regreg. Quando sua esposa fugiu com outro homem, Regreg recorreu ao
conselho da aldeia para que tomasse providências para trazê-la
de volta. Embora lamentassem o ocorrido, os membros do conselho alegaram
que o problema estava fora de sua jurisdição e, portanto,
não poderiam intervir. Meses mais tarde, quando chegou sua vez de
assumir como um dos cinco chefes do conselho, Regreg recusou-se a aceitar
o posto ao qual estava obrigado. Em conseqüência, perdeu o terreno
de sua casa, seus direitos políticos, sua posição
hereditária e o acesso aos templos da aldeia. Mesmo seus familiares
mais próximos foram obrigados a abandoná-lo. Regreg vagava
pela aldeia a esmo, remexendo em montes de lixo em busca de sobras de comida,
até perder completamente a razão (cf. Geertz
1997).
6
Um exemplo emblemático das limitações do emprego de
nomes fictícios nos textos etnográficos é oferecido
pelo debate que se seguiu à publicação, em 1985, do
livro Waiting. The whites in South Africa, de Vincent Crapanzano. Intelectuais
sul-africanos imediatamente assinalaram a ingenuidade da tentativa do autor
de proteger a identidade de seus informantes por meio da substituição
de seus verdadeiros nomes. Mais que isso, num comentário ao livro
publicado na New York Times Magazine por J.M. Coetzee, em março
de 1986, os entrevistados e a localidade onde a pesquisa foi realizada
são reconhecidos por seus próprios nomes, incluindo fotografias
(cf. Peirano 1992:142, nota 12).
7
Num texto recente, Marcio Goldman e Tania Stolze Lima identificam certo
conjunto de operações que reintroduzem subrepticiamente o
"grande divisor" (Goldman & Lima, 1999). A utilização
de critérios diferenciados no tratamento dos informantes pela etnologia
indígena e pela antropologia urbana é certamente um mecanismo
secundário, mas nem por isso menos revelador dos dilemas de uma
disciplina que se definiu por muito tempo como o estudo de sociedades radicalmente
distantes.
8
O relato dos episódios que se seguem só é possível
neste texto porque, distanciados do contexto mais geral da pesquisa, permanecem
suficientemente vagos.
9
Ver, por exemplo, o estudo de Scotto (1996) sobre
as eleições municipais de 1992 no Rio de Janeiro, em que
as principais referências aos candidatos são extraídas
dos meios de comunicação de massa. Ao analisar os trabalhos
da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Orçamento,
que funcionou entre 1993 e 1994, Costa Teixeira
(1996) utiliza como fontes documentos oficiais do Congresso Nacional.
10
Do ponto de vista da etnografia, não é relevante apenas que,
cientes da realização da pesquisa, o juiz e a promotora tivessem
agido de modo diferente. Ainda mais crucial é que os consumidores
envolvidos nos dois episódios teriam deixado de ouvir o que ouviram
e de experimentar as emoções que experimentaram, o que certamente
modificaria sua avaliação do caso e sua conduta subseqüente.  |