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final
 

julgamento do motorista que pode achar que ainda há tempo disponível para uma manobra. Outro fator é o das faixas brancas pintadas no chão e que dividem as avenidas por onde os motoboys transitam. De material especial para não desgastarem muito rapidamente, elas são particularmente escorregadias e em tempo de chuva impedem qualquer manobra evasiva mais emergencial. Ele citou inclusive um estudo de fisioterapia que apontava para o problema.

 
odos esses problemas tornam a vida do motoboy extremamente perigosa e seu convívio nas ruas e avenidas com o motorista comum  potencialmente explosivo. Na solidariedade de grupo se pode pensar uma forma de autoproteção. Na verdade, muitos motoboys alegam que tal solidariedade não existe. Eles salientam que se estiverem atrasados e algum motoboy for "bração", ou seja, se atrapalhar a passagem, eles não hesitam em "passar por cima". A concorrência dos últimos anos parece que teve efeitos negativos na imagem da categoria em relação a ela mesma.
união e a solidariedade se dão, portanto, dentro de uma ação reativa e não afirmativa. Assim também muitos motoboys justificam ações admitidas por eles como violentas, tais como perseguir motoristas que os fecham, chutar espelhos, arranhar automóveis. Para alguns deles, tais atos são reações ao tratamento que recebem diariamente. A imagem de uma categoria desprestigiada fortalece a construção de um imaginário grupal que determina comportamentos e atitudes frente à cidade. Esta reage com as armas que têm a mão, muitas provenientes de processos históricos, e assim estabelecem-se relações que se auto-alimentam e acabam por determinar os contornos diários da cidade.

 
 

CONCLUSÕES
 
 
 

s motoboys constituem uma categoria profissional relativamente nova na cidade. Sua trajetória foi vertiginosa e cheia de percalços até que encontrasse um espaço que hoje começa a aparecer nos projetos de conjuntos residenciais que levam em conta o motoboy como fator a ser pensado na realidade diária da cidade. Sem dúvida que o fato de pertencerem à mesma profissão lhes dá uma identidade comum. Junte-se a isso suas condições particulares de trabalho, que favorecem o preconceito, e chegaremos facilmente à conclusão que os motoboys construíram uma imagem de si mesmos feita com tijolos dos outros. Na reação ao tratamento muitas vezes desumano e na procura de um espaço dentro da cidade, os motoboys forjaram uma identidade que hoje começa a ter suas regras estabelecidas pela história da profissão, pautada em cima de estatísticas de estarrecer. A tendência que observamos nos motoristas em geral de selecionar uma categoria e agrupá-la - em detrimento das ricas diferenças e oposições que existem dentro dela - para assim poder generalizar qualidades e estereótipos colabora para que tal grupo fortaleça-se justamente pela imagem que lhe é atribuída.
 
 
linguagem dos motoboys indica uma similaridade no uso de gírias e expressões que se apropriam de uma linguagem típica de periferia com a de outras categorias. "Mano", "bração", "bad-boy", "corredores", "embaçar" etc. lembram as expressões dos taxistas, motoristas de ônibus, perueiros e outras categorias que usam o trânsito como local e modo de trabalho. O que concluímos do curto tempo de entrevistas foi que os próprios motoboys não se consideram uma categoria. Tais como médicos, professores, advogados eles têm em comum a profissão, mas quando o horário do expediente termina, eles passam a ser outra coisa: pais de família, hippies, rappers, roqueiros etc. Suas roupas e atitudes foram moldadas pela necessidade de proteção, sem dúvida, mas como salientou um motoboy em entrevista "Onde eu moro, quem tem moto tem tudo, pega todas..." Certamente ser motoboy é motivo de orgulho para muitos, que ganham relativamente bem e podem vangloriar-se de pertencerem a uma profissão viril, pois perigosa. Pinos nas pernas, cicatrizes e motos amassadas são ostentados como medalhas de uma trajetória difícil e conflituosa, mas o crescente profissionalismo caminha junto à palavra "motofrete" que parece regulamentar finalmente a profissão dentro de parâmetros legais aceitáveis pela sociedade.

 

BIBLIOGRAFIA

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Artigos de revistas e jornais sobre os motociclistas profissionais além de um vídeo de um debate entre o presidente do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do Rio de Janeiro, o pesquisador da Fundacentro Eugênio Pacelli Diniz e o proprietário da empresa de motoboys "Boy Service" também do Rio. Tal debate foi realizado pela TV Educativa de Rio de Janeiro dentro do programa "Mão Dupla", em 2000.

 
 

Notas

Geertz, Clifford. A Interpretação das Culturas, p. 10.
Geertz, Clifford. A Interpretação das Culturas, p. 4.
Caldeira, Teresa Pires do Rio. Enclaves Fortificados: A Nova Segregação Urbana, in Novos Estudos SEBRAP, nº 47, 1997, pg. 158.
Vários autores falam hoje da sociedade industrial como sociedade de consumo por excelência. De certo modo então todos somos ambiciosos na medida em que é imperativo consumir. Teresa Caldeira fala da dificuldade de se estabelecer hierarquias em uma sociedade cada vez mais democrática e com acesso ao consumo de partes cada vez maiores da população. Mike Featherstone fala do consumo de "marca" ou de "atitude" onde o consumidor hoje necessita ser algo que seja facilmente demonstrado através de códigos visuais que o insiram em categoria sociais. Seria mais importante então ter, para se poder então parecer ser.
Olivato, Alessandra. Percepção e avaliação da conduta de motoristas e pedestres no trânsito :um estudo sobre espaço público e civilidade na metrópole paulista. TESE DatDef 19.02.2002 no Departamento de Sociologia da USP
As estatísticas sobre morte de motoboys acompanham os problemas existentes em relação aos outros tipos de morte violenta. Dados esparsos e incompletos impossibilitam o acompanhamento de casos em que o acidentado vai morrer depois de voltar para casa devido aos ferimentos recebidos. "Alemão" acha que o número de mortes é maior. Segundo pesquisa do CET apresentada por Alessandra Olivato, o número de vítimas fatais entre 1996 e 1999 aumentou em 245%.
Segundo os dados da Conjuntura Criminal (www.conjunturacriminal.com.br) em 1998 morreram 31 policiais militares e 14 policias civis. No mesmo ano, 1011 policiais militares foram feridos contra 67 policiais civis. Pelo número de mortes e considerando-se o motoboy uma profissão completamente diferente do policial militar, cujo caráter ofensivo de seu trabalho ostensivo é particularmente perigoso, surpreende a disparidade dos números. 
Olivato, Alessandra. Percepção e avaliação da conduta de motoristas e pedestres no trânsito :um estudo sobre espaço público e civilidade na metrópole paulista. TESE DatDef 19.02.2002 no Departamento de Sociologia da USP
Beck, Ulrich. Risk Society: Towards a New Modernityapud Olivato, Alessandra. Percepção e avaliação da conduta de motoristas e pedestres no trânsito :um estudo sobre espaço público e civilidade na metrópole paulista. TESE DatDef 19.02.2002 no Departamento de Sociologia da USP, pg. 73
Olivato, Alessandra. Percepção e avaliação da conduta de motoristas e pedestres no trânsito :um estudo sobre espaço público e civilidade na metrópole paulista. TESE DatDef 19.02.2002 no Departamento de Sociologia da USP, pg. 136
Caldeira, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros, pg. 314.
Caldeira, Teresa Pires do Rio. Cidade de Muros, p. 325.
Pesquisa CET em julho de 2001 na cidade de São Paulo: 40% tem até 24 anos, 4,8% tem escolaridade superior, 50% ganha entre 1 e 5 salários mínimos e 31,5% rodam de 150 a 200 km por dia
"As inovações promovidas por Alfred Sloan nas técnicas de marketing - a compra do modelo do ano, o constante aperfeiçoamento dos produtos, os esforços para associá-los ao status social, a inculcação deliberada de um apetite ilimitado por mudanças - constituíram a contraface necessária das inovações de Henry Ford na produção." Lasch, Christopher. O Mínimo Eu, Sobrevivência Psíquica em Tempos Difíceis, pg. 20.
Lasch, Christopher. O Mínimo Eu, Sobrevivência Psíquica em Tempos Difíceis, pg. 22.

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