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Pelo
espelho retrovisor: motoboys em trânsito
continuação
e
ícones que diziam muito sobre sua profissão, trajetória
e seu imaginário, perguntamos do que se tratava, imaginando ser
aquilo uma peça de alguma moto que contasse alguma história,
daí sua presença na mesa: "É
um pino - tenho oito desses na minha perna." Contou-nos que
fora atropelado por um ônibus e este passara com as rodas sobre seu
fêmur, quebrando-o em vários lugares. Depois de meses de hospital
e incertezas, as promessas de sua mãe para Nossa Senhora Aparecida
parece que foram ouvidas, pois ele recuperou-se sem seqüelas e hoje
promove romarias à basílica da referida santa, quando centenas
de motoboys vão pagar seu tributo a uma imagem devidamente
benzida por uma autoridade da igreja ciente da importância do grupo
como classe de potenciais fiéis, assim como "Alemão", que
não esconde o caráter político do movimento que objetiva
angariar membros para seu recém criado sindicato e tentar estabelecer
um mínimo de união na categoria que, segundo ele, é
muito dispersa.
número incrível de mortes faz a profissão ser mais
perigosa que a das forças especiais do exército norte-americano,
mais perigosa que a dos bombeiros e até que a dos policiais
militares .
Mesmo assim, o número de 250 mortes anuais não revela o número
de feridos: sem vínculos trabalhistas, na maioria dos casos - somente
7% dos motoboys eram regulares em 2000 - o motoboy é obrigado
a arcar com os custos de seu ferimento que podem facilmente incapacitá-lo
para o resto da vida. Inquietava-nos, portanto, saber porque a profissão
era escolhida, dado os riscos envolvidos, e porque eles não se uniam
enquanto categoria. As respostas às entrevistas eram parecidas:
o desemprego era o motivo principal para a escolha da profissão,
além da perspectiva de poder ficar longe de um escritório
fixo, em um horário, com um chefe sempre atento ao menor erro.
Certamente que a realidade mostrou o quanto era equivocada a imagem que
faziam da profissão, mas a facilidade de se comprar uma motocicleta
e de com ela arranjar trabalho motivou muitos a unirem o útil ao
agradável.
m
vários locais, a motocicleta é o único meio de transporte
possível para o poder aquisitivo da população, além
de ser o veículo por excelência da juventude que muito antes
de sentar no assento de um carro já passa pelo banco de uma
moto. Como "Alemão" relatou: "Quando percebi
que alguém poderia pagar para eu fazer o que sempre fiz e gostei,
que era andar de moto, nem acreditei!" Outros motoboys entrevistados
nos falaram do status que a moto dava no bairro em que eles moram e deduzimos
também que o ganho diferenciado do motoboy - bem acima da média
dos salários dos bairros de classe baixa da cidade - além
do imaginário de perigo envolvida na profissão, fornecem
uma certa "aura" ao motociclista profissional, aura que os faz conscientes
de sua importância no desprezo que demonstram pelo motorista comum,
alvo de praticamente todos os motoboys entrevistados quando questionados
sobre que a categoria, na visão deles, mais atrapalhava
o trânsito. Ou seja: a moto tem, para muitos, um apelo de liberdade,
de ousadia e de contestação que muito fala da opção
destes indivíduos em relação à profissão.
As justificativas mais racionais desdenham os aspectos perigosos da vida
sobre uma motocicleta como se aquilo fosse um fato a ser suportado com
resignação. Mesmo no aspecto primário do uso de equipamentos
de segurança, muitos responderam que o preço elevadíssimo
das multas constituiu fator determinante para que tais equipamentos fossem
adotados. Mais que racionalismo, portanto, acreditamos que fatores simbólicos
e características de uma sociedade de "risco" influem na escolha
pela categoria.
m
"Risk Society: Towards a New Modernity" Ulrick Beck defende a idéia
de que a sociedade moderna tem na tecnologia um fator de risco que as pessoas
parecem aceitar. Em uma visão totalizadora, o autor relaciona a
produção capitalista com o meio-ambiente e as possíveis
conseqüências de uma crescente industrialização
que se consolidaria em detrimento da natureza, mas, no caso do específico
do trânsito, parece que cada vez mais o risco se faz presente no
perigo inerente a um processo de evolução tecnológica
que cria carros mais rápidos e eficientes e, por isso mesmo, mais
situações potenciais de risco principalmente para os que
estão em posição de desvantagem. "A lógica
da produção e da distribuição de riscos, hoje,
se processa simultaneamente à lógica de distribuição
de riqueza" .

s
novas tecnologias dissimulam riscos dentro do discurso da segurança.
Os carros incorporam diversos avanços tecnológicos que os
tornam mais seguros e confortáveis e justamente por isso, mais rápidos
e perigosos pois a sensação de segurança traz consigo
a falta de cuidado e a ilusão da inviolabilidade. Que os automóveis
sejam mais rápidos e seguros que há vinte anos e as motos
permaneçam basicamente as mesmas diz muito do disparate existente
nas ruas da cidade em relação aos riscos assumidos na sociedade
industrial. Sem dúvida, a promessa de ganhos de em média
R$ 700,00 mensais compensem o risco envolvido principalmente para pais
de família que precisam de complementos extras no final do mês
e o caráter de novidade da profissão abre novas perspectivas
para milhares de pessoas, mas só isso não explica o fenômeno,
principalmente no tocante ao número de mortes e ao tratamento recebido
pela profissão.
raticamente
todos os motoboys entrevistados sentiam-se injustiçados quanto ao
tratamento -para eles preconceituoso- que recebem da população
em geral. Queixam-se da polícia que, segundo eles, tem preferência
pelo motoboy quando está fazendo uma blitz. Um motoboy entrevistado
mencionou o fato de que enquanto era parado por policiais, outros motociclistas
não-profissionais passavam incólumes pelo bloqueio. Queixam-se
do temor que inspiram ao pararem perto das janelas dos carros, cujos ocupantes
tratam de fecha-las rapidamente por medo de um possível assalto.
Queixam-se da desconfiança constantemente demonstrada pelos seguranças
privados, principalmente dos bancos, local diariamente freqüentado
por muitos deles e que pode sinalizar um preconceito da sociedade em relação
à parcela da população que atua no setor de serviços
básicos e que, por força destes, tem de freqüentar os
mesmos locais das outras classes sociais. "Alemão", no entanto,
salientou o fato de muitos motoboys serem de classe média, sendo
que o preconceito que sofrem não está relacionado portanto
à classe social a qual pertencem, mas ao tipo de trabalho que fazem.
o
vídeo "Mão Dupla", um programa de entrevistas produzido pela
TV Educativa do Rio de Janeiro, o proprietário de uma empresa de
motoboys salienta que seus funcionários são instruídos
a portarem-se de modo educado e cortês - bem ao gosto das relações
de trabalho caracteristicamente subservientes presentes no país
- usando terno e gravata, para assim atingirem um grau diferenciado de
profissionalismo. Cursos de direção defensiva e de primeiros-socorros
ainda estão em estudo, mas os de boas maneiras já são
constantemente ministrados.
lessandra
Olivato salienta que, dos entrevistados para seu trabalho, os motoboys
foram unanimemente execrados por todas as outras categorias, exceto os
"perueiros", o que indica uma certa solidariedade de grupos que ainda não
estabeleceram um lócus apropriado dentro da sociedade e lutam por
firmarem-se.
"Praticamente
todas as críticas que se possam fazer a um usuário no trânsito
foram feitas aos motoboys pelos entrevistados. Além das já
citadas, eles foram considerados folgados, desrespeitosos à sinalização,
acham que estão sempre certos, que são donos da rua e devem
ter prioridade além de não terem treinamento adequado para
dirigir, serem irresponsáveis e 'tudo louco'. Entrevistados em todas
as categorias, exceto taxistas, declararam que eles quebram os retrovisores,
estragam o carro e riscam os ônibus, o que, aliás, é
admitido naturalmente por alguns dentre eles. "
a
cidade, nossa pesquisa revelou que conjuntos comerciais recém construídos
já delimitam espaços específicos para as motocicletas
e para os motoboys, o que agrada à maioria entrevistada pois evita
confusão. Na verdade, é aparente que a cidade está
aceitando e adaptando-se à sua existência na convivência
diária, como exemplifica a recente reforma por que passou a Avenida
Rebouças para a construção de um corredor de ônibus
em seu canteiro central. As antigas quatro faixas que espremiam os automóveis
- e tornavam a vida do motoboy impossível - foram reduzidas para
três de modo que aquele importante corredor seja novamente usado
com desenvoltura pelas motocicletas. Aliás, a Artigo da Lei que
obrigaria as motocicletas a portarem-se como automóveis foi derrubado,
em grande parte por vontade e força dos motoboys, pois inviabilizaria
o exercício da profissão. A cidade, caracteristicamente,
vai delimitando espaços e sinalizando posições adequadas,
onde diferentes atores possuem diferentes hierarquias dentro do tecido
social.

omo
final de um complexo sistema de produção, os motoboys são
obrigados a cumprirem prazos extremamente apertados. Sua eficiência
em cruzar a cidade em poucas horas fez deles os profissionais ideais na
hora de entregar algo imediato, sejam documentos, valores ou objetos. No
entanto, o fato de estarem constantemente, e literalmente, em trânsito,
obriga-os a portarem-se e trajarem-se de modo particular. Sob frio, chuva
ou sol eles são obrigados a trafegarem em meio à sujeira
das ruas, com roupas que muitas vezes inviabilizam sua entrada em locais
fechados. Mais que isso, e talvez mais importante, eles são os subalternos
de todos e por isso podem ser tratados como cidadãos de segunda
classe. No fragor do trânsito, a visão de um motoboy apressado
passando a centímetro do carro pode assustar e indignar quem encara
com zelo o espaço que lhe é devido na cidade. Provavelmente
esta pessoa pode estar naquele exato momento usando os serviços
de um motoboy, mas ela simplesmente não quer saber como aquele documento
chagará ao lugar de destino no prazo estipulado por ela mesma. O
importante aqui é o funcionamento de uma teia de serviços,
invisíveis na cidade, que são realizados por uma classe de
trabalhadores cuja materialidade é ignorada por quase todos. É
comum que "classes subalternas" realizem o trabalho "sujo" para que a sociedade
continue operando normalmente. Dos teóricos da sociedade brasileira,
vários salientaram os resquícios que a escravidão
provocou no caráter nacional e a desigualdade social abismal presente
no país pode ter uma de suas origens nesse processo. Gilberto Freire,
Sérgio Buarque de Holanda, Roberto Schwarz, Florestan Fernandes
etc. comentaram ad nauseum as particularidades das relações
sociais brasileiras e o que elas originaram. No caso dos motoboys, parece
claro pelas entrevistas realizadas que a origem da maioria dos motoboys
é de classe média baixa a baixa, principalmente pelo fato
da profissão não exigir conhecimento específico além
da condução de uma motocicleta. Muitos moram na periferia
e a própria imagem da profissão não permite que os
filhos das classes mais privilegiadas aventurem-se numa moto que não
seja por lazer. É tentador então formular a hipótese
de que os preconceitos que os motoboys tanto reclamam podem sim ser originados
pelo caráter específico de sua condição de
trabalho, que lhes fornece um local subalterno na hierarquia da cidade,
ao mesmo tempo em que lhes dá visibilidade excessiva, tanto no trânsito
quanto na mídia.
a
entrevista que fizemos com o motoboy "Neca", ligado ao sindicato e atuante
há anos em grupos e associações de motociclistas profissionais,
um fato chamou particularmente a atenção. Quando a reforma
do Vale do Anhangabaú tornou as passarelas sob o Viaduto do Chá
obsoletas, um grupo de motoboys teve a idéia de fazer delas um estacionamento
exclusivo para a categoria. Ora, as antigas passarelas dividiam-se em quatro,
dando acesso privilegiado para os motociclistas que viessem de todos os
pontos da cidade, de modo que poderiam estacionar e sair rapidamente para
qualquer direção usando a extensa malha viária que
cruza o vale. Não somente isso: dado o grande número de motoboys
concentrados na região devido à proximidade do centro financeiro
das ruas Boas Vista, Direita etc. - centro este que concentra as bolsas
de valores e mercadorias, inúmeros bancos, cartórios e escritórios
- as ruas adjacentes ficariam mais livres para o tráfego já
problemático e para os pedestres que então disputavam com
as motos lugares nas ruas e muitas vezes nas calçadas. O deslocamento
dos estacionamentos dos motoboys da região para as obsoletas passarelas
seria uma solução interessante, na concepção
da categoria, para incrementar a logística de seu trabalho e para
melhorar o entorno. Segundo "Neca", o projeto foi abortado pois a "Associação
Viva o Centro" mostrou-se radicalmente contra a presença dos motoboys
ali e conseguiu que o então prefeito Celso Pitta demolisse as passarelas
já nos estertores de seu governo.
em
dúvida que o projeto era problemático, principalmente se
é levado em conta a incongruência de se colocar dezenas de
motocicletas sobre uma passarela não projetada nem dimensionada
para tanto, numa região de lazer e repleta de pedestres, o que certamente
geraria conflitos potencialmente perigosos. No entanto, é importante
salientar que ambas as partes mostraram o quanto o problema do espaço
do motoboy é assunto polêmico na cidade e só agora
começa a ser resolvido, em parte. Do lado dos motociclistas profissionais,
fica a sensação que eles demandam tal espaço mesmo
que este seja à revelia de partes da cidade ou da população,
demonstrando também pouca preocupação com áreas
onde sua presença significaria a degradação do ambiente,
comportamento, aliás, comum entre os habitantes da cidade em geral.
O conceito de cidadania sempre foi problemático no país e
nos grandes centros tal fato se agrava e muito.
lguns
dos motoboys por nós entrevistados trabalhavam na rua, literalmente.
Sentados em bancos na calçada e recebendo chamadas telefônicas
no orelhão próximo do "ponto", a "empresa" situava-se em
pleno espaço público sem, aparentemente, nenhuma forma de
fiscalização. Ali aguardavam a encomenda de um serviço
via telefone público para em seguida dirigirem-se ao local que solicitou
seus serviços. A ilegalidade em que muitos motoboys vivem é
terreno fértil para tal tipo de atitude, que certamente extravasa
para seu relacionamento nas ruas e avenidas da cidade, quando "qualquer
que for a lei, a gente tem é pressa. Essa é a nossa lei".
O desrespeito ao público e a apropriação dos
bens e do espaço públicos em benefício próprio
não é exclusividade da categoria, mas nela, graças
às suas particularidades, tal fato fica particularmente evidente.
No terreno indeterminado entre público e privado, categorias como
"casa" e "rua" perdem sentido. O "pedaço" do motoboy é o
trânsito; é onde se dá sua vida profissional diária.
Muitos podem ter trajetos mais ou menos rotineiros, mas a maioria percorre
a cidade indiscriminadamente, surgindo afirmações como "hoje
a gente é dono da rua". Mesmo que circunscritos, na maioria
dos casos, ao chamado "centro expandido" da cidade, onde se concentram
as maiores empresas e escritórios, os motoboys trabalham nos quatro
cantos da metrópole e fazem do anonimato das ruas o seu ambiente.
É comum verificar uma espécie de "cumplicidade" entre motoboys
parados em pontos ou esperando o semáforo verde, geralmente em cima
da faixa de pedestres. Ali é seu pedaço e sua condição
profissional lhe dá as credenciais necessárias para o sentimento
de pertencimento ao grupo. Mesmo que muitos neguem a existência dos
motoboys enquanto categoria, é clara sua identidade mesmo na similaridade
de discursos, o que sinaliza fortemente para uma identidade simbólica.
percepção que os atores que participam do trânsito
da cidade têm em relação aos motoboys, mostra claramente
que além do preconceito existente em relação ao seu
trabalho e sua classe de origem, os últimos parecem fazer por merecer
tal visão negativa. Alessandra Olivato defende a tese de que o individualismo
é a fonte central da visão do trânsito. Ela afirma
a dificuldade de se enxergarem as leis como coisa pública e o espaço
como bem comum. Ora, o trânsito é uma relação
social em que atores interagem em um espaço público e das
relações que ali se estabelecem muito pode ser dito sobre
a cidade que gera tais possibilidades. Certamente o automóvel, em
si, é um fator que contribui muitíssimo para a individualização
das percepções do trânsito. Veículo individual
por excelência, o carro fornece ao seu possuidor uma carapaça
metálica que o protege em suas intenções e na relação
com o outro. No entanto, a interação entre diferentes atores
pode revelar formas interessantes de posicionamento em relação
ao espaço público citadino. Muito se fala sobre a degradação
do espaço público nas grandes cidades. Teresa Pires do Rio
Caldeira defende a idéia que São Paulo tornou-se uma "cidade
de muros":
"Foi
exatamente no momento em que os movimentos sindicais eclodiram na periferia,
quando sindicatos paralisavam fábricas e lotavam estádios
para suas assembléias, quando pessoas votavam em cargos executivos
pela primeira vez em vinte anos, que os residentes da cidade começaram
a erguer muros e a se mudar para enclaves fortificados. Quando o sistema
político se abriu, as ruas foram fechadas e o medo do crime se tornou
a fala da cidade. "
aldeira
associa o novo processo de segregação da cidade de São
Paulo e sua transformação em uma "cidade de muros", com a
explosão de um processo em que a elite se refugia atrás de
formas privadas de segurança e de vida, através de condomínios
fechados com seguranças particulares, Shopping Centers de uso pouco
democrático e o fechamento - e conseqüente privatização
- de vias públicas. Com a democratização, ampliaram-se
também os acessos das pessoas aos bens de consumo, tornando mais
difícil uma clara distinção social e possibilitando
uma maior mobilidade dentro do ambiente urbano. Caldeira demonstra como
muito da "fala do crime" se impregna desse tipo de insegurança:
"Com
menos sinais óbvios de diferenciação à mão
e com mais dificuldade de afirmar seus privilégios e códigos
de comportamento no espaço público, as classes mais altas
se voltam aos sistemas de identificação. Assim, espaços
de circulação controlada servem para assegurar que a distância
e a separação ainda são possíveis em público.
Sinais de distância social são substituídos por muros
concretos. "
ogicamente,
o local público típico como ruas e praças, parques
e bulevares tornam-se lugares de passagem e os "olhos da vizinhança"
de que fala Jane Jacobs em "Morte e Vida das Grandes Cidades", como os
autênticos fornecedores de segurança e tranqüilidade
da comunidade, desaparecem levando como conseqüência necessária
o isolamento do local, mais abandono, degradação e finalmente
violência, alimentando o círculo de preconceito em relação
à quem não pode participar do jogo "espaço público
privatizado". A rua deixa então de ser um espaço de sociabilidade
e passa a ser uma "área de ninguém" que deve ser evitada.
Mais que evitada, a rua é um espaço que leva de um local
a outro e tudo o que atrapalha este trajeto é objeto de irritação
e agressividade. "Alemão" foi claro ao dizer que encara o trânsito
da cidade como um "barril de pólvora",
onde a irritabilidade característica de seus participantes pode
ser acionada a qualquer momento e tornar-se imprevisível. Acreditamos
portanto que este "barril de pólvora" é motivado em grande
parte por uma visão pouco democrática do espaço público
que é a rua, e uma percepção distorcida do que sejam
direitos do cidadão. Como o caso da passarela exemplifica, a cidade
parece existir em detrimento dos interesses individuais ou de categoria.
Quando os motoboys são taxados de "folgados", "desrespeitosos",
"loucos", "donos da razão" etc. pelos demais atores do trânsito,
tal fala sinaliza o fato de que os conflitos existentes na sociedade não
são administrados de forma democrática, mas encarados como
um problema do "outro", este "outro" sendo uma categoria criada ad hoc
para receber imediatamente todo tipo de adjetivos depreciativos, encaixando-os
assim em desejos de achar um "bode expiatório" que alivie a sensação
de desamparo frente ao imponderável e incontrolável problema
de se viver em grandes e superlotadas cidades. Como os famosos "baianos"
em São Paulo ou os "paraíbas" no Rio, os causadores das mazelas
do mundo acabam sendo as categorias que gostaríamos que fossem responsáveis
para podermos racionalizar nossa raiva com a realidade que não sabemos
explicar, ou com a democracia que ainda não sabemos lidar.

ois
famosos episódios ficaram inextricavelmente ligados, no imaginário
social da cidade, aos motoboys: o "maníaco do parque" e a morte
do "Titã" Marcelo Fromer. O primeiro era um maníaco sexual
que aproveitava sua condição de motociclista profissional
para levar suas vítimas para parques onde as estuprava e matava.
O segundo foi o caso de um atropelamento de um músico que praticava
"cooper" na Avenida Sumaré por um motoboy. Na época algumas
reportagens salientavam a apreensão de muitos motociclistas profissionais,
principalmente quando ainda não se sabia quem atropelara o músico,
pois temia-se que se fosse um motoboy eles seriam ainda mais agredidos
pelos outros motoristas no trânsito. Muitos se confessavam fãs
do "Titã" e achavam que tal fato seria a pior coisa que poderia
acontecer com a categoria. Quando confirmado o fato, muitos passaram a
ver os motoboys com olhos mais amargos ainda, mas a poeira do tempo assentou
e hoje eles se impõe nas ruas e avenidas como um "mal necessário".
aracteristicamente,
muitos dos motoboys que entrevistamos atribuem sua conduta no trânsito
ao "outro" motoboy - aquele que denigre a categoria ao dirigir acima da
velocidade, andar na contramão, desrespeitar os sinais de trânsito,
chutar espelhos e andar armado - e às condições de
trabalho, que os obrigam a correr demais para chegarem a tempo de realizarem
o serviço. Interessante, no entanto, foi perceber que na entrevista
com os motoboys mais velhos, tanto em idade quanto em profissão,
estes foram unânimes quanto à preocupação com
a segurança e o fato de que andar um pouco mais devagar e de forma
um pouco mais responsável não atrasa ninguém. "Alemão",
em particular, foi enfático ao descrever uma situação
comum que acontece em firmas de motoboys, quando um indivíduo mais
lerdo espera seu lugar na fila para transportar uma encomenda: quando chega
sua vez, ele vira alvo de brincadeiras dos colegas que fazem piadas de
seu modo de dirigir e do tempo que levará para completar sua tarefa.
Isso faz com que este indivíduo corra mais para não ser alvo
constante de brincadeiras, o que indica uma hierarquia, um status que se
relaciona à habilidade na condução da motocicleta
e que, segundo "Alemão", já levou a muitos acidentes. Pela
própria característica da brincadeira, os mais jovens são
mais propensos a tais atitudes, o que irrita os mais velhos pois estes
criticam o fato de que muitas vezes sofrem discriminação
e são alvo de agressividade explícita no trânsito por
força dos profissionais mais jovens, segundo eles, mais irresponsáveis
e propensos a excessos de todo o tipo. Pode-se pensar, aqui, na elaboração
de um "código de conduta" que aos poucos toma conta da profissão.
O próprio nome "motofrete" sinaliza para uma profissionalização
da categoria, fato salientado pelo próprio Sindimoto, cuja existência
já demonstra a preocupação de setores da categoria.
Os mais jovens, portanto, entrariam na profissão ainda cheios
de ilusões e expectativas, muitas associadas ao ganho fácil,
mas outras associadas fortemente a valores simbólicos presentes
na própria condição profissional do motoboy
.
motocicleta em si já carrega um imaginário construído
ao longo dos anos de "sloanismo"
da indústria mundial: "O consumidor vive rodeado não apenas
por coisas, mas por fantasias. "
Este imaginário pode provocar a atitude inconseqüente do jovem
profissional que deseja se arriscar para sentir a emoção
de correr entre um corredor de automóveis. Pode explicar também
que além da oportunidade de emprego e ganho, o "motofrete" oferece
ao jovem uma oportunidade de trabalhar com algo com que ainda se identifica.
Na entrevista com "Alemão" este não disfarçou seu
prazer ao descrever seu "passeio" pela cidade na hora do rush com uma jornalista
na "garupa". Esta lhe deu liberdade para agir como sempre e "Alemão"
não deixou por menos: pegando a Avenida 23 de Maio de Rubem Berta
paradas, ele "voou" por entre os carros, ziguezagueando, freando e buzinando
como se precisasse entregar um documento urgente. Durante nossa entrevista,
ele ria ao descrever a cara da repórter quando a viagem acabou,
"de pernas bambas e dizendo que éramos loucos,
que nunca mais iria falar mal de motoboy". Pode-se identificar aí
o orgulho de pertencer a uma profissão de risco, que necessita de
coragem para suportar a adrenalina do dia a dia nos corredores apertados
de carros que muitas vezes não os vêm ou não têm
a habilidade necessária para lidarem com uma nova situação
no trânsito. No final da entrevista ele lamentou que o fruto daquela
viagem fora uma reduzida reportagem de revista. Assim resume-se a situação:
os profissionais do "motofrete" sabem de sua importância e dos riscos
que correm, orgulham-se de sua condição de viris desafiadores
da "selva" que é o trânsito em veículos pequenos e
desprotegidos, mas sentem-se pouco ou nada reconhecidos. Pelo contrário,
são tratados como marginais.
uito
interessante também, seguindo a linha de investigação
quanto ao imaginário que cerca a motocicleta, foi a entrevista que
fizemos com "motogirls". O que ficou patente foi o tratamento nitidamente
machista que recebem dos colegas e das pessoas com quem convivem no trabalho.
Vistas com desconfiança, uma delas revelou que quando o trabalho
era mais complicado chamavam um homem para realizá-lo. Estava além
do escopo deste trabalho investigar as relações de gênero
presentes entre a categoria, mas tais atitudes indicam a forte presença
do ideal de virilidade e masculinidade que acompanha as motocicletas. Não
por acaso, a revista da categoria agora estampa modelos em trajes mínimos
na capa, coisa não muito diferente das revistas importadas dedicadas
aos motociclistas, evidentemente apelativas, estimulando um clichê
do gênero quando mulheres são meros acessórios de um
"negócio de homem", expressão aliás usada constantemente
pelos motoboys quando confrontados com mulheres trabalhando na profissão.
"motofrete" pode muitas vezes ser uma profissão de oportunidade.
"Alemão" salientou o fato de que muitos motoboys ganham a motocicleta
dos pais, "pra pararem de encher o saco em casa"
e então partem para trabalhar em farmácias ou pizzarias do
bairro. Logicamente, estes profissionais não têm preocupação
nenhuma com segurança ou com os preços que cobram, que podem
ser baixos o suficiente para inflacionar todo o mercado. O policial civil
L., de 33 anos e 12 de polícia civil, mora no Brooklin, o bairro
paulistano com maior índice de seqüestros relâmpagos
de São Paulo. Ele relata, em entrevista, que os motoboys, segundo
ele, são perigosos na medida em que muitos praticam roubos, furtos,
assaltos e seqüestros como forma de complementar seus salários.
Quando pegos, muitos mostram carteira profissional assinada e dizem que
nada têm a ver com o ocorrido. A motocicleta é o veículo
ideal para tal atividade pois permite a fuga imediata em alta velocidade
por lugares inacessíveis aos carros de polícia e a
grande quantidade de motocicletas na cidade, muitas sem nenhuma identificação,
facilita seu sumiço na multidão. Os próprios motoboys
temem o que chamam de "carona": uma motocicleta com dois ocupantes. Esta
é a forma clássica de roubo de motos em São Paulo
e uma forma comum de roubo de automóveis também, tão
comum que motivou o vereador Jooji Hato a formular um projeto de Lei que
proibia o "carona" na motocicleta dentro do município de São
Paulo, idéia que teve o apoio dos motoboys. Tais atitudes
realmente denigrem a imagem do motoqueiro que passa a ser encarado com
mais desconfiança ainda.
a
verdade, o mercado de motocicletas aumentou vertiginosamente com o advento
dos motoboys. Nas proximidades das ruas Aurora e Bento Freitas, no centro
da famosa "boca do lixo" e próximo da Rua Barão de Limeira
e suas lojas de automóveis usados, há uma grande quantidade
de lojas de motopeças.
s
peças originais são caras demais para os parcos recursos
do motoboy que tem que arcar com a manutenção de seu instrumento
de trabalho, que lhe pertence, na esmagadora maioria das vezes. As motos
roubadas também acabam nas mãos dos motoboys que pagam pouquíssimo
por elas. "Alemão" defende a cobrança do aluguel da moto
no preço do frete, coisa que inibiria, segundo ele, esse mercado
ilegal.
or
conta disso, muitas motos são conservadas sujas e amassadas por
seus proprietários. Mesmo as motos novas são "decoradas"
para que pareçam velhas, cheias de adesivos por todos os lados -
adesivos de rádios em sua maioria, pois estas fazem constantes promoções
de discos e ingressos de shows, com vans personalizadas paradas em ruas
ou avenidas aguardando alguém que mostre o adesivo em seu carro
ou moto para só assim ganhar o prêmio - e propositadamente
amassadas. Paradoxalmente, o pessoal do sindicato vive às turras
com as montadoras, em especial Honda e Yamaha. As montadoras, segundo alguns
motoboys, poderiam estar por trás de novas normas que regulamentam
a profissão ao exigir que as motocicletas sejam vistoriadas periodicamente,
em proporção direta de sua idade útil. Isso motivaria
a venda de peças sobressalentes na medida em que as motos só
passariam pela vistoria se estivessem com todos os itens em perfeita ordem.
aura de criminalidade que envolve a categoria é veementemente rejeitada
pela imensa maioria dos entrevistados. Para eles, quem anda armado é
"bandido" e não profissional. O medo do assalto é patente
entre os motoboys, mas perde para o medo generalizado que todos manifestaram
na entrevista em relação ao trânsito. Tal atitude motivou
a lendária solidariedade da categoria, que em caso de acidente se
junta em torno do acidentado prestando-lhe solidariedade. Na verdade, as
entrevistas revelaram uma outra face do problema. Muitos motoboys alegaram
que tal solidariedade não mais existe como antes: "é
cobra comendo cobra" como disse um dos entrevistados. Eles alegam
que muitas vezes não param mais para prestar auxílio, pois
colegas já foram assaltados desse modo. É um golpe comum
simular acidente para roubar os motociclistas que eventualmente parem para
prestar auxílio. Outros motociclistas mais velhos e experientes,
como "Alemão" , alegam que o que existe é corporativismo
e não solidariedade; esta última seria a experiência
de um verdadeiro auxílio ao motoboy acidentado, a espera pelo resgate,
um telefonema para os familiares etc. O que ele alega que realmente acontece
é uma união para ver o ocorrido e auxiliar o motoboy a bater
em quem provocou o acidente. Isso sinaliza uma auto-imagem da categoria
como um grupo injustiçado e pronto a tomar satisfações
contra seus opressores, no caso o motorista de automóvel comum.
omo
ocorre do motorista em geral agrupar os motoboys em uma categoria única
perdendo de vista suas particularidades e os dois grupos distintos que
fazem parte de sua realidade diária - os mais experientes e o "bad
boys" mais novos e arrojados - os motociclistas profissionais encaram o
"outro" motorista, em "todas" as categorias - ou seja, um grupo indistinto
- como o grande responsável pelo perigo por que passam todos os
dias. O problema de percepção característico que cada
categoria apresenta ao encarar a realidade como uma função
de si mesmo, pode gerar conflitos potencialmente violentos na medida em
que cada ator se arvora conhecedor e portador da verdade única amparada
na Lei, o que no Brasil é especialmente problemático dado
o fato que para os exames de habilitação pouca exigência
é feita no tocante ao conhecimento destas mesmas leis. O adjetivo
"dono da verdade" é então usado por todos para descreverem
seus "inimigos" potenciais e assim as tensões se intensificam. Além
da falta de habilidade em usar o espelho retrovisor para verem a motocicleta
e assim permitirem sua passagem, os motoboys acusam os motoristas de abusarem
da troca de faixas, cruzando o corredor que eles encaram como sendo de
seu direito, como na frase do entrevistado que diz "o
espaço da faixa é nosso, não interessa a lei".
Na verdade, a convivência dos motoboys com os automóveis é
marcada ao longo de anos e de centenas de acidentes fatais. O espaço
entre as faixas sempre foi um território entre os carros e nada
além disso. Sua ocupação por parte das motos limitou
o espaço de manobra dos carros no trânsito cada vez mais caótico
da cidade, sendo natural então a recusa de certos motoristas de
aceitarem o fato. "Alemão" salientou que a forma dos espelhos retrovisores
atuais colabora também para acidentes. A maioria deles é
convexa, o que aumenta a área de visualização mas
altera a distância do veículo na imagem, fazendo parecer que
este se encontra mais longe do que realmente está. Isso prejudica
a capacidade de
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