José Guilherme Cantor Magnani
Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo

 
 
 
 
 
As cadeiras na calçada.
 

É bastante comum, em depoimentos de moradores de bairros que passaram por processos de rápida transformação, principalmente nas grandes cidades, a evocação nostálgica de um tempo em que era costume colocar cadeiras na calçada em frente da casa, para apreciar o movimento da rua do fim de tarde. Não se trata apenas de recordação; em certos casos, a volta desse hábito é celebrada como uma conquista, segundo se depreende da entrevista concedida por um diretor de teatro com projeto experimental no Largo da Lapa, em  plena área do centro do Rio de Janeiro. Explicando os efeitos induzidos por sua proposta  no entorno, constata que
 
 

 -  "(...) as famílias que moram na redondeza da Lapa saem e vão sentar ali; ficam sossegados, namoram...".
- Como se fosse numa cidade do interior, apesar do paradoxo?
 - Aqui, nesse coração deteriorado do Rio de Janeiro, o Largo recuperou um ar provinciano, saudável, cotidiano. Quando tudo estiver funcionando, e a gente estiver com as casas abertas e em atividade, tudo iluminado - bares e  cadeiras na calçada - isso aqui vai ser um lugar lindo (...)

Como tendência geral, contudo, há muito as cadeiras foram recolhidas porque - justifica-se - a rua tornou-se inóspita ou porque, àquela hora,  o apelo da televisão  mantém os moradores no espaço privado da casa.
 

Associado com o modo de vida de cidade do interior, tal comportamento parece cada vez mais incompatível com as atuais condições de existência nas metrópoles contemporâneas: as  dimensões e complexidade inerentes à estrutura, funções  e modos de vida dos grandes centros urbanos, com efeito,  são de tal ordem que é até de se perguntar "se o próprio conceito de cidade não está ultrapassado". (HABERMAS, 1987:123).
 

Dentre os inúmeros diagnósticos sobre as transformações em curso nas atuais metrópoles, podem-se distinguir duas visões principais. Uma enfatiza os aspectos desagregadores do processo, como  o colapso do sistema de transporte, as deficiências do saneamento básico,  a falta de moradia, a concentração e má distribuição dos equipamentos, poluição, violência, sub-emprego: com base  em  variáveis e indicadores de ordem macro (sociológicos, econômicos, demográficos), este é o quadro geralmente aplicado às grandes cidades do Terceiro Mundo. Nesta linha, em recente reunião da Conferência das Nações Unidas sobre os Assentamentos Humanos - Habitat 2,  São Paulo foi apontada em alguns relatórios como  exemplo de anti-cidade. 
 

Uma outra visão, geralmente referida às grandes cidades do Primeiro Mundo, projeta uma feérica sucessão de imagens montada a partir da justaposição de signos, simulacros, apelos publicitários, redes e pontos de encontro virtuais. Esta é a cidade que se delineia a partir da análise dos semiólogos, arquitetos, críticos pós-modernos, identificada com a sociedade pós-industrial.
 

Na primeira visão, mostra-se uma  continuidade evolutiva, onde os fatores de crescimento, desordenados, terminam por produzir inevitavelmente o caos urbano; na segunda, enfatiza-se a ruptura, resultado  de um salto tecnológico que torna obsoletas não só as estruturas urbanas anteriores como as formas de comunicação e sociabilidade a elas correspondentes. Uma, fruto do capitalismo selvagem; a outra, identificada com o capitalismo tardio.
 

Ainda que por motivos diferentes, essas duas perspectivas - aqui polarizadas para efeito comparativo e de contraste -  levam a conclusões semelhantes no plano da culturaurbana: deterioração dos espaços e equipamentos públicos, com a conseqüente privatização da vida coletiva, segregação, evitação de contatos face-a-face, confinamento em ambientes e redes sociais restritos.
 

Não há como negar a existência de tais características e seus fatores determinantes, comprovados não só por índices, tabelas e projeções,  como também pela própria experiência do dia-a-dia. No entanto, é possível também multiplicar exemplos de "boas práticas urbanas", muitas delas premiadas no mesmo encontro da Habitat 2, que atestam  um movimento ou ao menos focos de resistência no sentido contrário à tendência da desordem urbana
 

Como, então, encarar adequadamente o fato da complexidade, sem cair na descrição sem fim de particularismos e casos isolados, ou na generalidade de enfoques redutores? O problema é que, nas visões correntes, que tomam a cidade como unidade de análise, tende-se a generalizar os efeitos de suas distorções estruturais e a reduzir seus moradores a um tipo médio e abstrato: o déficit habitacional é de tal magnitude; a taxa de área verde por habitante está tantos por cento abaixo do padrão aceitável, e assim por diante. 
 

Esses enfoques, até por uma questão de escala, não conseguem captar o nível em que se dão os inúmeros exemplos da diversidade de estratégias locais de vida e sobrevivência em assentamentos urbanos, principalmente quando constituem  o centro de uma área  de oito mil quilômetros quadrados, habitada por mais de quinze milhões de pessoas, como é o caso de São Paulo e sua região metropolitana. 
 

Portanto, em vez da habitual perspectiva de longe, ou de passagem - a primeira, característica da visão que privilegia o nível das macro variáveis e a segunda, cujo paradigma é o simulacro sem referente na "hiperrealidade" - o que se propõe é um enfoque de perto e de dentro, capaz de permitir traçar, se não um diagnóstico exaustivo dos problemas da cidade, ao menos o movimento de alguns processos  urbanos e reconhecer as articulações entre suas dinâmicas.
 
 

O olhar antropológico.

O enfoque que se propõe - de perto e de dentro - é o da Antropologia. Como se sabe, esta disciplina forjou seus conceitos e metodologia de pesquisa inicialmente no estudo de sociedades de pequena escala dedicadas à  caça, coleta, agricultura de subsistência e cujo modo de vida tinha como base o acampamento e a aldeia, mas não a cidade. 
 

À primeira vista, esta experiência evidentemente não a credenciaria para deslindar as complexidades da sociedade urbano-industrial (e pós-industrial) contemporânea. No entanto, seu modo de operar apresenta algumas características que talvez permitam captar processos cuja dinâmica passaria desapercebida, se  enquadrados exclusivamente por uma grande angular. 
 

Numa linha interpretativa, com efeito, cujo enfoque é microscópico,  a etnografia tem como objetivo a busca do significado da ação social. É a partir de "material produzido por um trabalho de campo quase obsessivo de peneiramento, a longo prazo, principalmente (embora não exclusivamente) qualitativo, altamente participante e realizado em contextos confinados, que os megaconceitos com os quais se aflige legitimamente a ciência social contemporânea - modernização, integração, conflito, carisma, estrutura, significado - podem adquirir toda a espécie de atualidade sensível que possibilita pensar não apenas realista e concretamente sobre eles, mas, o que é mais importante, criativa e imaginativamente, com eles". (GEERTZ, 1978: 33-34). 
 

É esse particular tipo de contato, confronto, diálogo com o "outro" que constitui o fundamento da verdadeira etnografia (PEIRANO, 1995). Eles - que nos estudos antropológicos clássicos são os nativos de alguma distante aldeia -, no contexto das grandes cidades são os múltiplos, variados e heterogêneos grupos de atores sociais que nelas vivem, sobrevivem, trabalham, se viram, circulam, usufruem de seus equipamentos ou deles são excluídos.
 

Para descrever a multiplicidade dos arranjos através dos quais esses atores organizam sua vida cotidiana - o trabalho, a vida familiar, a devoção, o lazer - é preciso observá-los no contexto em que são realizados; não há outra forma de avaliar se ainda é possível ver neles, apesar das profundas  transformações por que vêm passando, uma genuína experiência urbana. 
 
 
 

A natureza da experiência urbana.

Antes, porém, de enfrentar a questão de se e onde subsiste, em meio ao ritmo e condições de vida característicos das grandes metrópoles, uma "genuína experiência urbana", é preciso perguntar qual a natureza dessa experiência e em que situações ela pode ser identificada. 
 

Em vez de proceder a uma reconstituição histórica, remontando até às primeiras formas de assentamento que sucederam às aldeias neolíticas, para determinar os tipos de práticas associadas com o pretendido modo de vida citadino, optou-se por partir de um elemento recorrente da paisagem urbana que terminou se tornando símbolo de sua experiência: a rua
 

Utilizada como "categoria sociológica" (DA MATTA, 1979;1991), rua permite identificar e classificar experiências que se tornam plenamente significativas  quando postas em relação ao outro termo, a  casa, com o qual constitui um sistema de oposições. Seu poder evocativo para pensar as práticas urbanas provém, de um lado,  da relação metonímica que mantém com a própria cidade, e de outro, da referência a conceitos já clássicos no estudo da sociedade e relações sociais em geral, e do fenômeno urbano em particular. 
 

Trata-se do conhecido modelo comunidade versus sociedade formulado por Tönnies ([1935]1963), utilizado para tipificar dois conjuntos  paradigmáticos de relações sociais. Como se sabe, o  primeiro designa laços de sangue, relações primárias, consenso, rígido controle social; sociedade, ao contrário, caracteriza-se pela presença de relações secundárias, pela convenção, anonimato, troca de equivalentes. 
 

Aplicado a diferentes contextos - campo (ou aldeia)/ cidade; cidade pequena/ metrópole; bairro/ centro; casa/ rua, etc. - e mantendo a mesma distância, permite separar e distinguir aqueles traços que remetem, em cada novo contexto, a cada um dos pólos que atualizam a relação de oposição. Cada termo evoca, pois, à sua maneira, os  mesmos significados  sugeridos por comunidade e sociedade
 

Portanto, quando se está referindo à rua, obviamente não é por sua materialidade enquanto elemento físico constante da paisagem urbana, mas pelo lugar que ocupa, como categoria, no interior do sistema e na distância que mantém com relação ao outro termo da oposição. Nesse sentido, remete a um conjunto definido de normas, direitos, deveres, costumes, comportamentos e expectativas que, inicialmente,  podem ser caracterizados como pertencentes ao  domínio do público, por oposição ao privado
 

Esta é, na verdade, uma das mais recorrentes associações que rua evoca. Seus correlatos são o ágora, o forum, o mercado; as atividades que nelas se desenrolam vão desde  práticas políticas (assembléias, manifestações, protestos, panfletagens, barricadas;), de poder (o desfile, o castigo, a execução),  passando pelas religiosas (a procissão, a promessa, o testemunho, a pregação, o despacho), de lazer (o passeio, a festa, o espetáculo, a brincadeira, o jogo, a banda), de encontro/ confronto (a troca, a conversa, a paquera, a discussão, a baixaria, a briga), informação (o arauto, a fofoca, o boato), de trabalho, de aventura... 
 

Ainda que esses (e outros) aspectos possam ser encontrados, em maior ou menor medida, em todas as modalidades históricas da cidade, uma delas celebrizou, para alguns talvez como o canto do cisne, a experiência por antonomásia proporcionada pela rua: Paris de meados do século XIX. 
 

São bem conhecidas as propostas e as consequências da ampla reforma conduzida pelo barão Haussmann, sob o imperativo de adequar a cidade às profundas transformações induzidas pela nova etapa do crescimento capitalista, cujas necessidades já não eram compatíveis com o acanhado desenho e dimensões da cidade pré-industrial. 
 

Para atender às exigências de circulação (de pessoas e mercadorias), fora preciso abrir amplas vias de circulação no tecido da velha cidade, o que possibilitou uma nova gama de contatos, encontros, sensações,  protagonizados por personagens (o flâneur, o dândi, o anônimo na multidão) celebrizados por Baudelaire, analisados por Benjamin. Multiplicadas e reverberadas em outros espaços - nas passagens cobertas, nos pavilhões das exposições universais, nas estações  ferroviárias - as novas experiências foram consideradas como resultado de "novas esferas de vida". 
 

Para Berman,  essa "velha rua moderna, com sua volátil mistura de pessoas e tráfego, negócios e residências, ricos e pobres" (1989:162), é o próprio símbolo da experiência da modernidade, "meio no qual a totalidade das forças materiais e espirituais modernas podia se encontrar, chocar-se e se misturar para produzir seus destinos e significados últimos." (1989: 300). Em The Death and Life of Great American Cities (1992), Jane Jacobs compara o complexo movimento da rua com a dança, não na forma de um balé em que os dançarinos  fazem os mesmos gestos, mas onde as participações de cada um reforçam as dos demais e terminam produzindo um conjunto ordenado. "O balé das calçadas nunca se repete: em cada lugar está sempre repleto de novas  improvisações" (1992:50). 
 

O problema que se coloca é se existe, ainda, uma tal experiência, no contexto das atuais metrópoles. Quando Habermas se pergunta se o conceito de cidade já não estaria ultrapassado, a questão que tem em mente é o descompasso entre as funções urbanas habituais e os novos padrões de temporalidade e espacialidade: enquanto era um  mundo abarcável, a cidade podia ser arquitetonicamente  formada e representada para os sentidos. As funções sociais da vida urbana - trabalho, moradia, atividades religiosas, políticas, econômicas, de recreação -  "podiam ser traduzidas em fins, em funções de utilização temporalmente regulada dos espaços configurados. Contudo, no século XIX ao mais tardar, a cidade torna-se ponto de intersecção de relações funcionais de outra espécie (...) e  o mundo urbano se encontra cada vez mais mediatizado por conexõessistêmicasnãoconfiguráveis." (1987: 123).
 

Seguindo essa linha de análise e a de outros autores atuais sobre a cultura urbana, a conclusão seria de que a experiência da rua desapareceu ou  tornou-se prisioneira da intimidade, como aponta Sennett (1988), e que o espaço emblemático da vida nos grandes centros urbanos já não é a rua, mas  o "não lugar"
 

É aqui onde entra a Antropologia, ou melhor, o  resultado de algumas etnografias que permitem pensar, em outros termos, as transformações recentes na cultura urbana das grandes metrópoles.
 
 
 

A dinâmica cultural urbana. 

Estudos recentes sobre formas de sociabilidade  e cultura de grupos - desde juvenis, até da terceira idade -  nas grandes cidades  contemporâneas mostram que, mesmo no interior de espaços considerados "não lugares", existem formas de apropriação que dão suporte a comportamentos não convencionais.
 

Os shopping-centers, por exemplo, "templos" do consumo e um dos ícones do estilo fashion de vida,  planejados e sinalizados para fins específicos,  terminam sendo apropriados por grupos de jovens que ou subvertem suas regras ou criam usos alternativos próprios, - para encontro, lazer, "zoada" - dando novos significados, através de códigos particulares, àquele espaço. (FRUGOLI,  1990). 
 

Outro exemplo é proporcionado pelos diferentes serviços telefônicos de encontros. Muitas vezes associados à solidão que se supõe caracterizar o modo de vida das grandes cidades, nem sempre se limitam ao anonimato que é seu traço principal, pois acabam propiciando trocas de experiências personalizadas. Os interlocutores, mesmo quando não identificam o próprio bairro, a profissão e o nível de escolaridade, "acabam por falar de seu círculo de lazer, locais de compras, gostos musicais e preferências estéticas, remetendo os interlocutores a um universo sócio-cultural demarcado em termos de um estilo de vida" (TORRES, 1993:74). Não raras vezes, contatos iniciados na linha acabam em encontros reais, em espaços convencionais de lazer. 
 

Eventos marcados por altos índices de "supermodernidade", como a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, transformam-se, em alguns momentos - principalmente durante os "rituais" da filas de espera à entrada das salas - em ocasiões de aproximação e contato (ALMEIDA, 1995).


link para o portal da USP Site Meter