As
cadeiras na calçada.
É
bastante comum, em depoimentos de moradores de bairros que passaram por
processos de rápida transformação, principalmente
nas grandes cidades, a evocação nostálgica de um tempo
em que era costume colocar cadeiras na calçada em frente da casa,
para apreciar o movimento da rua do fim de tarde. Não se trata apenas
de recordação; em certos casos, a volta desse hábito
é celebrada como uma conquista, segundo se depreende da entrevista
concedida por um diretor de teatro com projeto experimental no Largo da
Lapa, em plena área do centro do Rio de Janeiro. Explicando
os efeitos induzidos por sua proposta no entorno, constata que
-
"(...) as famílias que moram na redondeza da Lapa saem e vão
sentar ali; ficam sossegados, namoram...".
-
Como se fosse numa cidade do interior, apesar do paradoxo?
-
Aqui, nesse coração deteriorado do Rio de Janeiro, o Largo
recuperou um ar provinciano, saudável, cotidiano. Quando tudo estiver
funcionando, e a gente estiver com as casas abertas e em atividade, tudo
iluminado - bares e cadeiras na calçada - isso aqui vai ser
um lugar lindo (...)
"
Como
tendência geral, contudo, há muito as cadeiras foram recolhidas
porque - justifica-se - a rua tornou-se inóspita ou porque, àquela
hora, o apelo da televisão mantém os moradores
no espaço privado da casa.
Associado
com o modo de vida de cidade do interior, tal comportamento parece cada
vez mais incompatível com as atuais condições de existência
nas metrópoles contemporâneas: as dimensões e
complexidade inerentes à estrutura, funções
e modos de vida dos grandes centros urbanos, com efeito, são
de tal ordem que é até de se perguntar "se o próprio
conceito de cidade não está ultrapassado". (HABERMAS,
1987:123).
Dentre
os inúmeros diagnósticos sobre as transformações
em curso nas atuais metrópoles, podem-se distinguir duas visões
principais. Uma enfatiza os aspectos desagregadores do processo, como
o colapso do sistema de transporte, as deficiências do saneamento
básico, a falta de moradia, a concentração e
má distribuição dos equipamentos, poluição,
violência, sub-emprego: com base em variáveis
e indicadores de ordem macro (sociológicos, econômicos, demográficos),
este é o quadro geralmente aplicado às grandes cidades do
Terceiro Mundo. Nesta linha, em recente reunião da Conferência
das Nações Unidas sobre os Assentamentos Humanos - Habitat
2
,
São Paulo foi apontada em alguns relatórios como exemplo
de anti-cidade.
Uma
outra visão, geralmente referida às grandes cidades do Primeiro
Mundo, projeta uma feérica sucessão de imagens montada a
partir da justaposição de signos, simulacros, apelos publicitários,
redes e pontos de encontro virtuais. Esta é a cidade que se delineia
a partir da análise dos semiólogos, arquitetos, críticos
pós-modernos, identificada com a sociedade pós-industrial.
Na
primeira visão, mostra-se uma continuidade evolutiva, onde
os fatores de crescimento, desordenados, terminam por produzir inevitavelmente
o caos urbano; na segunda, enfatiza-se a ruptura, resultado de um
salto tecnológico que torna obsoletas não só as estruturas
urbanas anteriores como as formas de comunicação e sociabilidade
a elas correspondentes. Uma, fruto do capitalismo selvagem; a outra, identificada
com o capitalismo tardio.
Ainda
que por motivos diferentes, essas duas perspectivas - aqui polarizadas
para efeito comparativo e de contraste - levam a conclusões
semelhantes no plano da culturaurbana
:
deterioração dos espaços e equipamentos públicos,
com a conseqüente privatização da vida coletiva, segregação,
evitação de contatos face-a-face, confinamento em ambientes
e redes sociais restritos.
Não
há como negar a existência de tais características
e seus fatores determinantes, comprovados não só por índices,
tabelas e projeções, como também pela própria
experiência do dia-a-dia. No entanto, é possível também
multiplicar exemplos de "boas práticas urbanas", muitas delas premiadas
no mesmo encontro da Habitat 2, que atestam um movimento ou ao menos
focos de resistência no sentido contrário à tendência
da desordem urbana
.
Como,
então, encarar adequadamente o fato da complexidade, sem cair na
descrição sem fim de particularismos e casos isolados, ou
na generalidade de enfoques redutores? O problema é que, nas visões
correntes, que tomam a cidade como unidade de análise, tende-se
a generalizar os efeitos de suas distorções estruturais e
a reduzir seus moradores a um tipo médio e abstrato: o déficit
habitacional é de tal magnitude; a taxa de área verde por
habitante está tantos por cento abaixo do padrão aceitável,
e assim por diante.
Esses
enfoques, até por uma questão de escala, não conseguem
captar o nível em que se dão os inúmeros exemplos
da diversidade de estratégias locais de vida e sobrevivência
em assentamentos urbanos, principalmente quando constituem o centro
de uma área de oito mil quilômetros quadrados, habitada
por mais de quinze milhões de pessoas, como é o caso de São
Paulo e sua região metropolitana.
Portanto,
em vez da habitual perspectiva de longe, ou de passagem
- a primeira, característica da visão que privilegia o nível
das macro variáveis e a segunda, cujo paradigma é o simulacro
sem referente na "hiperrealidade" - o que se propõe é um
enfoque de perto e de dentro, capaz de permitir traçar, se não
um diagnóstico exaustivo dos problemas da cidade, ao menos o movimento
de alguns processos urbanos e reconhecer as articulações
entre suas dinâmicas.
O
olhar antropológico.
O enfoque
que se propõe - de perto e de dentro - é o da Antropologia.
Como se sabe, esta disciplina forjou seus conceitos e metodologia de pesquisa
inicialmente no estudo de sociedades de pequena escala dedicadas à
caça, coleta, agricultura de subsistência e cujo modo de vida
tinha como base o acampamento e a aldeia, mas não a cidade.
À
primeira vista, esta experiência evidentemente não a credenciaria
para deslindar as complexidades da sociedade urbano-industrial (e pós-industrial)
contemporânea. No entanto, seu modo de operar apresenta algumas características
que talvez permitam captar processos cuja dinâmica passaria desapercebida,
se enquadrados exclusivamente por uma grande angular.
Numa
linha interpretativa, com efeito, cujo enfoque é microscópico,
a etnografia tem como objetivo a busca do significado da ação
social. É a partir de "material produzido por um trabalho de campo
quase obsessivo de peneiramento, a longo prazo, principalmente (embora
não exclusivamente) qualitativo, altamente participante e realizado
em contextos confinados, que os megaconceitos com os quais se aflige legitimamente
a ciência social contemporânea - modernização,
integração, conflito, carisma, estrutura, significado - podem
adquirir toda a espécie de atualidade sensível que possibilita
pensar não apenas realista e concretamente sobre eles, mas, o que
é mais importante, criativa e imaginativamente, com eles". (GEERTZ,
1978: 33-34).
É
esse particular tipo de contato, confronto, diálogo com o "outro"
que constitui o fundamento da verdadeira etnografia (PEIRANO,
1995). Eles - que nos estudos antropológicos clássicos são
os nativos de alguma distante aldeia -, no contexto das grandes cidades
são os múltiplos, variados e heterogêneos grupos de
atores sociais que nelas vivem, sobrevivem, trabalham, se viram, circulam,
usufruem de seus equipamentos ou deles são excluídos.
Para
descrever a multiplicidade dos arranjos através dos quais esses
atores organizam sua vida cotidiana - o trabalho, a vida familiar, a devoção,
o lazer - é preciso observá-los no contexto em que são
realizados; não há outra forma de avaliar se ainda é
possível ver neles, apesar das profundas transformações
por que vêm passando, uma genuína experiência urbana.
A
natureza da experiência urbana.
Antes,
porém, de enfrentar a questão de se e onde subsiste, em meio
ao ritmo e condições de vida característicos das grandes
metrópoles, uma "genuína experiência urbana", é
preciso perguntar qual a natureza dessa experiência e em que situações
ela pode ser identificada.
Em
vez de proceder a uma reconstituição histórica, remontando
até às primeiras formas de assentamento que sucederam às
aldeias neolíticas, para determinar os tipos de práticas
associadas com o pretendido modo de vida citadino, optou-se por partir
de um elemento recorrente da paisagem urbana que terminou se tornando símbolo
de sua experiência: a rua
.
Utilizada
como "categoria sociológica" (DA
MATTA, 1979;1991), rua permite identificar e classificar
experiências que se tornam plenamente significativas quando
postas em relação ao outro termo, a casa, com o qual
constitui um sistema de oposições. Seu poder evocativo para
pensar as práticas urbanas provém, de um lado, da relação
metonímica que mantém com a própria cidade, e de outro,
da referência a conceitos já clássicos no estudo da
sociedade e relações sociais em geral, e do fenômeno
urbano em particular.
Trata-se
do conhecido modelo comunidade versus sociedade formulado por Tönnies
([1935]1963), utilizado para tipificar dois conjuntos paradigmáticos
de relações sociais. Como se sabe, o primeiro designa
laços de sangue, relações primárias, consenso,
rígido controle social; sociedade, ao contrário, caracteriza-se
pela presença de relações secundárias, pela
convenção, anonimato, troca de equivalentes.
Aplicado
a diferentes contextos - campo (ou aldeia)/ cidade; cidade pequena/ metrópole;
bairro/ centro; casa/ rua, etc. - e mantendo a mesma distância, permite
separar e distinguir aqueles traços que remetem, em cada novo contexto,
a cada um dos pólos que atualizam a relação de oposição.
Cada termo evoca, pois, à sua maneira, os mesmos significados
sugeridos por comunidade e sociedade
.
Portanto,
quando se está referindo à rua, obviamente não é
por sua materialidade enquanto elemento físico constante da paisagem
urbana, mas pelo lugar que ocupa, como categoria, no interior do sistema
e na distância que mantém com relação ao outro
termo da oposição. Nesse sentido, remete a um conjunto definido
de normas, direitos, deveres, costumes, comportamentos e expectativas que,
inicialmente, podem ser caracterizados como pertencentes ao
domínio do público, por oposição ao
privado
.
Esta
é, na verdade, uma das mais recorrentes associações
que rua evoca. Seus correlatos são o ágora, o forum, o mercado;
as atividades que nelas se desenrolam vão desde práticas
políticas (assembléias, manifestações, protestos,
panfletagens, barricadas;), de poder (o desfile, o castigo, a execução),
passando pelas religiosas (a procissão, a promessa, o testemunho,
a pregação, o despacho), de lazer (o passeio, a festa, o
espetáculo, a brincadeira, o jogo, a banda), de encontro/ confronto
(a troca, a conversa, a paquera, a discussão, a baixaria, a briga),
informação (o arauto, a fofoca, o boato), de trabalho, de
aventura...
Ainda
que esses (e outros) aspectos possam ser encontrados, em maior ou menor
medida, em todas as modalidades históricas da cidade, uma delas
celebrizou, para alguns talvez como o canto do cisne, a experiência
por antonomásia proporcionada pela rua: Paris de meados do século
XIX.
São
bem conhecidas as propostas e as consequências da ampla reforma conduzida
pelo barão Haussmann, sob o imperativo de adequar a cidade às
profundas transformações induzidas pela nova etapa do crescimento
capitalista, cujas necessidades já não eram compatíveis
com o acanhado desenho e dimensões da cidade pré-industrial.
Para
atender às exigências de circulação (de pessoas
e mercadorias), fora preciso abrir amplas vias de circulação
no tecido da velha cidade, o que possibilitou uma nova gama de contatos,
encontros, sensações, protagonizados por personagens
(o flâneur, o dândi, o anônimo na multidão) celebrizados
por Baudelaire, analisados por Benjamin. Multiplicadas e reverberadas em
outros espaços - nas passagens cobertas, nos pavilhões das
exposições universais, nas estações ferroviárias
- as novas experiências foram consideradas como resultado de "novas
esferas de vida
".
Para
Berman,
essa "velha rua moderna, com sua volátil mistura de pessoas e tráfego,
negócios e residências, ricos e pobres" (1989:162), é
o próprio símbolo da experiência da modernidade, "meio
no qual a totalidade das forças materiais e espirituais modernas
podia se encontrar, chocar-se e se misturar para produzir seus destinos
e significados últimos." (1989: 300). Em The Death and Life of
Great American Cities (1992), Jane
Jacobs compara o complexo movimento da rua com a dança, não
na forma de um balé em que os dançarinos fazem os mesmos
gestos, mas onde as participações de cada um reforçam
as dos demais e terminam produzindo um conjunto ordenado. "O balé
das calçadas nunca se repete: em cada lugar está sempre repleto
de novas improvisações" (1992:50).
O problema
que se coloca é se existe, ainda, uma tal experiência, no
contexto das atuais metrópoles. Quando Habermas
se pergunta se o conceito de cidade já não estaria ultrapassado,
a questão que tem em mente é o descompasso entre as funções
urbanas habituais e os novos padrões de temporalidade e espacialidade:
enquanto era um mundo abarcável, a cidade podia ser arquitetonicamente
formada e representada para os sentidos. As funções sociais
da vida urbana - trabalho, moradia, atividades religiosas, políticas,
econômicas, de recreação - "podiam ser traduzidas
em fins, em funções de utilização temporalmente
regulada dos espaços configurados. Contudo, no século XIX
ao mais tardar, a cidade torna-se ponto de intersecção de
relações funcionais de outra espécie (...) e
o mundo urbano se encontra cada vez mais mediatizado por conexõessistêmicasnãoconfiguráveis."
(1987: 123)
.
Seguindo
essa linha de análise e a de outros autores atuais sobre a cultura
urbana, a conclusão seria de que a experiência da rua desapareceu
ou tornou-se prisioneira da intimidade, como aponta Sennett
(1988), e que o espaço emblemático da vida nos grandes centros
urbanos já não é a rua, mas o "não lugar"
.
É
aqui onde entra a Antropologia, ou melhor, o resultado de algumas
etnografias que permitem pensar, em outros termos, as transformações
recentes na cultura urbana das grandes metrópoles.
A
dinâmica cultural urbana.
Estudos
recentes sobre formas de sociabilidade e cultura de grupos - desde
juvenis, até da terceira idade - nas grandes cidades
contemporâneas mostram que, mesmo no interior de espaços considerados
"não lugares", existem formas de apropriação que dão
suporte a comportamentos não convencionais.
Os
shopping-centers, por exemplo, "templos" do consumo e um dos ícones
do estilo fashion de vida, planejados e sinalizados para fins específicos,
terminam sendo apropriados por grupos de jovens que ou subvertem suas regras
ou criam usos alternativos próprios, - para encontro, lazer, "zoada"
- dando novos significados, através de códigos particulares,
àquele espaço. (FRUGOLI,
1990).
Outro
exemplo é proporcionado pelos diferentes serviços telefônicos
de encontros. Muitas vezes associados à solidão que se supõe
caracterizar o modo de vida das grandes cidades, nem sempre se limitam
ao anonimato que é seu traço principal, pois acabam propiciando
trocas de experiências personalizadas. Os interlocutores, mesmo quando
não identificam o próprio bairro, a profissão e o
nível de escolaridade, "acabam por falar de seu círculo de
lazer, locais de compras, gostos musicais e preferências estéticas,
remetendo os interlocutores a um universo sócio-cultural demarcado
em termos de um estilo de vida" (TORRES,
1993:74). Não raras vezes, contatos iniciados na linha acabam em
encontros reais, em espaços convencionais de lazer.
Eventos
marcados por altos índices de "supermodernidade", como a Mostra
Internacional de Cinema de São Paulo, transformam-se, em alguns
momentos - principalmente durante os "rituais" da filas de espera à
entrada das salas - em ocasiões de aproximação e contato
(ALMEIDA, 1995).