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José
Guilherme Cantor Magnani
Departamento
de Antropologia da Universidade de São Paulo
(versão
atualizada em 01/05/2007)
Introdução
“As
chamadas cidades históricas não são apenas cenários
de antigos acontecimentos e que ainda conservam, no traçado e casario,
as marcas da época; é preciso reconhecer que a vida,
aí, continua. As relações entre os atuais atores com
esses cenários, contudo, nem sempre são levadas na devida
conta pelos órgãos de preservação. Esta omissão
pode ser percebida em algumas premissas que orientam a prática preservacionista.
A primeira é a suposição de que os critérios
com os quais se selecionam e classificam os bens culturais são universais
e que são compartilhados de forma homogênea por todos os usuários.
A outra é considerar estes últimos como meros obstáculos
à preservação já que na maior parte das vezes
a relação usuários/ órgãos preservacionistas
é conflitante, seja no que diz respeito aos critérios de
escolha, seja com respeito à intervenção do Estado
através do mecanismo de tombamento”.
Assim
começava o relatório final de um projeto intitulado “Santana
de Parnaíba: memória e cotidiano” que coordenei como parte
de uma consultoria prestada ao CONDEPHAAT, (Conselho de Defesa do Patrimônio
Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico
do Estado de São Paulo), em 1984 .
Cidade pequena, Santana de Parnaíba contava com um acervo arquitetônico
de interesse, sob proteção de tombamento em nível
estadual e federal
, mas apresentava problemas de relacionamento com os técnicos
do órgão, oferecendo dificuldades para a fiscalização
e implementação de algumas medidas previstas pelas
políticas de preservação. Para diagnosticar esse problemas
surgiu, então, a idéia de uma pesquisa em moldes antropológicos
.
Era,
por conseguinte, uma pesquisa encomendada, com propósitos
práticos, destinada a oferecer subsídios às ações
daquele órgão e as conclusões a que se chegou têm
como base e fonte a situação da época. A pergunta
que agora se coloca é: qual o interesse em retomar esse relato,
já que se trata de um trabalho, datado, antigo? Relendo-o, contudo,
depois de todo esse tempo, percebe-se como fio condutor a aplicação
de uma estratégia de pesquisa cuja metodologia pode ainda ser de
interesse para trabalhos similares – de levantamento, identificação
e análise de questões específicas relativas ao
patrimônio em áreas urbanas.
Esquematicamente,
foram três as etapas da estratégia então seguida:
uma fase inicial, exploratória, em seguida a organização
dos primeiros dados numa grade classificatória e, finalmente a fase
de observação de campo mais intensiva.
À
pesquisa, então; antes, porém, uma rápida caracterização
da própria cidade, apresentação das hipóteses
e procedimentos.
A
cidade
Surgida
no primeiro século de povoamento, em 1580, Santana de Parnaíba
se destaca como vila colonial por volta de 1620 como um dos pontos mais
importantes de partida das bandeiras em virtude de sua localização
estratégica às margens do Rio Tietê e da antiga
rota de penetração para os sertões de Mato Grosso
e Goiás. Essa primeira atividade de significado econômico
mais amplo manteve?se durante quase um século, propiciando o desenvolvimento
de um comércio que fez da vila importante pousada, bem como centro
de oferta de tropas de muares para o transporte de cargas.
No
século XVII, com a abertura de três novas vias de comunicação
ligando São Paulo, respectivamente, a Sorocaba, Itu e Jundiaí,
sem passar por Parnaíba, o dinamismo inicial que fizera do comércio
parnaibano importante rival do paulistano, se reduziu, entrando a vila
num longo processo de estagnação, revitalizada por momentos
apenas pontuais de desenvolvimento. Foi assim com o ciclo de cana-de-açúcar
na segunda metade do século XVIII, com o café em meados do
século XIX e com a inauguração da represa Edgar de
Souza, em 1901, pela São Paulo Tramway Light e Power Co. Ltd.
Cabe destacar que as edificações mais significativas de Parnaíba
surgiram em função desses momentos de desenvolvimento, e
sua permanência até hoje se deveu muito mais ao reduzido dinamismo
da economia local do que, propriamente, de interesses voltados para sua
preservação.
Com
a melhoria das condições da estrada SP-312 e abertura
de duas importantes vias de penetração para o interior, as
rodovias Anhanguera e Castelo Branco, Parnaíba passou
novamente por um momento de desenvolvimento que, principalmente nas últimas
décadas, trouxe conseqüências profundas para a dinâmica
do município. Verificaram?se reflexos na ocupação
de seu território com a instalação de indústrias
ao longo das duas rodovias a partir da descentralização do
parque industrial de São Paulo, ao lado de um acentuado incremento
populacional.
Ocorreu
também um processo de especulação imobiliária
gerado pela facilidade de acesso com loteamentos próximos ao centro,
expulsando os pequenos sitiantes e destinados, principalmente, a chácaras
e casas de veraneio.Na área leste do município, principalmente,
processou?se uma ocupação determinada pela instalação
de indústrias com todas as características que, em casos
semelhantes, tem levado à aparição de vilas
autônomas com relação ao centro, que é o núcleo
orgânico de toda área municipal.
Portanto,
Parnaíba apresentava, à época da pesquisa, contornos
diferenciados: traços de cidade industrial, de cidade-dormitório
e de veraneio coexistiam com as características de cidade de interior
que mantinha ainda um patrimônio cultural diferenciado, produto de
quatro séculos de existência. Foi justamente essa conjunção
de características que constituiu o ponto partida para as hipóteses
que nortearam a pesquisa.
Hipóteses
e procedimentos
O
projeto “Santana de Parnaíba: Memória e Cotidiano” propunha?se
realizar uma pesquisa cuja propósito era o levantamento e posterior
interpretação das representações dos moradores
acerca de suas tradições, sua cidade e da própria
ação ali desenvolvida pelos órgãos de preservação.
As hipóteses de trabalho iniciais, de caráter bastante pragmático,
postulavam que:
A política
de preservação e/ou revitalização do patrimônio
cu1tural deve contar com o respaldo e participação de usuários,
proprietários e demais pessoas envolvidas com a questão do
patrimônio;
Para formular
e implementar uma política assim entendida, impõe?se conhecer
os valores, interesses e opiniões dos habitantes pois contrariamente
a uma idéia bastante difundida, a população de uma
cidade como Santana de Parnaíba, ainda que pequena em termos numéricos,
não é homogênea nem do ponto de vista de sua composição
social, nem no que diz respeito às percepções acerca
da cidade, do patrimônio e da intervenção do Estado;
Tais percepções
não necessariamente concordam com os critérios que norteiam
a prática dos órgãos de preservação,
resultando daí, muitas vezes, um antagonismo entre a ação
preservacionista institucional e as expectativas da população;
Não
se trata, por certo, de abandonar os tradicionais critérios técnicos
(valor histórico, artístico, arquitetônico e outros)
adotados pelo órgão, em face de outra escala de valores,
a dos usuários, mas de encontrar formas capazes de articulá?los
com os valores, tradições e aspirações da população.
Para
além dessas preocupações mais diretamente ligadas
ao tema da preservação (ou previamente a elas),
estava posta uma questão mais geral, sobre o próprio
caráter de comunidade de Santana de Parnaíba. Para tanto,
a Escola de Chicago e, mais perto de nós, as pesquisas realizadas
na Escola Livre de Sociologia e Política conhecidas como “estudos
de comunidade”, ofereciam uma bibliografia de referência. Posteriormente,
ao retomar esse tema em aulas, o texto de George Marcus (1991) sobre etnografias
da modernidade permitiu ampliar a reflexão. Este autor afirma
que é preciso repensar a noção clássica de
comunidade, tal como foi estabelecida e utilizada no contexto do que denomina
a “etnografia realista”, em oposição a uma “etnografia modernista”.
Nessa linha, afirma, é preciso repensar o conceito de
comunidade que, “no sentido clássico de valores, identidade e, portanto,
cultura compartilhados, foi baseado literalmente no conceito de localidade,
de modo a definir uma referência básica que orientasse a etnografia”.(idem,
1991:204).
Articulando
ambas as linhas, a da crítica à “solidez e homogeneidade”,
supostamente atributos da forma de vida comunitária e
as dificuldades de relação entre os moradores da cidade e
as políticas de preservação, o que estava em
pauta, no caso de Santana de Parnaíba, era a existência
ou não de representações uniformes e compartilhadas
entre seus moradores sobre o patrimônio de sua cidade.
Na
primeira fase, definida como exploratória, o primeiro passo foi
proceder a um levantamento inicial das opiniões dos habitantes
de Santana de Parnaíba sobre a cidade, mais em busca de pistas
do que de um discurso articulado. Para tanto, as experiências anteriores
a partir do escritório do CONDEPHAAT, que funcionava na “Casa do
Anhanguera”, possibilitaram contatos mais próximos com alguns
moradores, entre eles a diretora de escola, o organizador das atividades
culturais da cidade e responsável pela “Casa do Anhanguera”, sede
também da Secretaria Municipal de Turismo; uma bibliotecária,
uma ex?funcionária da Secretaria Municipal da Promoção
Social e moradora de um bairro fora do centro histórico, com
estreitos laços junto à população.
Por
meio desses pessoas, contatadas ainda em razão de vínculos
institucionais, foi possível obter indicações de algumas
dezenas de moradores com as quais poderíamos “conversar a respeito
da cidade”: tal foi a primeira via de acesso, que abriu a possibilidade
de ampliar os contatos necessários para a identificação
de outros grupos nomeados com categorias nativas. Logo a vinculação
dos pesquisadores com o CONDEPHAAT começou a passar despercebido
pois o que importava na construção da relação
era a indicação por parte de pessoas conhecidas. Algumas
aproximações foram feitas diretamente acompanhadas
por alguns de nossos apresentadores, o que dava à conversa o caráter
de visita de cortesia. Aos poucos, porém, foi possível prescindir
dessa ajuda: a presença dos pesquisadores já fazia parte
do cotidiano, e dizer que queríamos “conversar sobre a cidade”,
“saber como era a vida em Parnaíba”, bastava para iniciar as entrevistas.
Esta
etapa encerrou-se com um duplo resultado: de um lado, um panorama dos temas
mais comentados pelos entrevistados, geralmente idosos, membros
das famílias tradicionais, com muito tempo para conversar:
a vida de antanho em Santana de Paranaíba, a importância das
festas, a desconfiança com os novos moradores, a valorização
das antigas famílias; e de outro, a identificação
das demais categorias de moradores. A partir dos dados da fase exploratória
começou a segunda, denominada classificatória, pois permitiu
organizar, agrupando-os, numa mesma grade, os diferentes protagonistas
– os “de dentro” e os “de fora”; os do centro histórico versus os
da Vila Nova
; os estrangeiros, os artistas, os funcionários – e seus discursos
sobre o patrimônio e a cidade, suas apreciações
sobre os demais atores sociais etc. Foi quando se pôde comprovar,
não a homogeneidade e o clima de consenso e convivência
mas, ao contrário, as opiniões divergentes, os conflitos
etc.
A
terceira etapa, de observação, foi também
sugerida e planejada a partir de dois conjuntos de pistas colhidas
na fase inicial: em primeiro lugar, a recorrência de alusões
às festas que eram realizadas “antigamente” e constantes comparações
com as atuais; e também a percepção, por parte dos
vários segmentos da população, de dois espaços
claramente diferenciados: o da casa (privado) e o público. É
neste último onde se realizam eventos festivos tradicionais, sagrados
e profanos, que não só mobilizam o conjunto da população
como também oferecem algumas “marcas registradas” da cidade, para
os turistas: o Carnaval, a festa de Corpus Christi, a festa da Padroeira
e outros.
As
festas – eventos públicos valorizados pelos parnaibanos, realizados
no espaço do patrimônio edificado – apareceram assim como
momentos privilegiados para aprofundar as conclusões da primeira
etapa da pesquisa e dar continuidade ao trabalho. Tratou-se
então de identificar as relações existentes entre
ambos de forma a colocar a questão específica da preservação
e revitalização do patrimônio arquitetônico e
histórico em consonância e em correlação com
um aspecto vivo e atual do patrimônio cultural que é o ciclo
de festas. Impunha?se, por conseguinte, levantar o calendário completo
das festas, inclusive as já desaparecidas e as de menor expressão
para, em seguida, observar com mais detalhe a dinâmica particular
de cada uma (mecanismos, participantes, formas de organização),
obter depoimentos sobre a maneira como essas festas eram realizadas
em outros tempos e, finalmente, avaliar sua vitalidade.
A
PESQUISA
Os
moradores
Delimitada
a área da pesquisa – o Centro Histórico, recorte já
dado através do tombamento, e o bairro Vila Nova, fora do perímetro
tombado, como contraponto, – buscou-se trabalhar a partir da hipótese
sobre a heterogeneidade dessa população e suas opiniões
a respeito do patrimônio. Para tanto, foi preciso montar
a rede dos diversos segmentos em função dos significados
que atribuem ao cotidiano, à história, ao patrimônio.
Com base nos primeiros contatos e entrevistas foi estabelecido o corte
inicial que divide essa população: ser “de dentro”, ou seja,
ser parnaibano e ter pelo menos três gerações nascidas
em Santana de Parnaíba; e ser “de fora”, grupo que, por sua vez,
se subdivide a partir de alguns critérios como a auto-imagem, relação
que se tem com a cidade, as razões pelas quais esses novos
moradores aí se fixaram: são os estrangeiros, os artistas,
os profissionais.
Centro
Histórico: os “de dentro”
A
maioria das indicações remeteu a antigos moradores
sob o pretexto de que eles teriam muito para contar sobre a cidade. O contato
foi facilitado por sua disponibilidade: a maioria era de aposentados e
não costumavam se ocupar de outras atividades. Partiu-se de uma
questão genérica, o interesse em conhecer melhor Parnaíba,
para daí solicitar que contassem alguma coisa a respeito.
Paulatinamente foi-se percebendo que, para os moradores mais velhos, falar
de Parnaíba significava recuperar uma memória afetiva ancorada
nas relações familiares, na experiência das festas
e no círculos de amizade. Aos poucos iam revelando o cotidiano
da cidade, os vínculos entre os grupos e as regras de conivência
e construindo uma certa imagem da cidade: auto?suficiente, solidária
e cheia de alegria, Parnaíba era a cidade de poucas famílias
e muitas festas, que aglutinavam essas celebrações e pontilhavam
seu cotidiano:
“Gosto
de Parnaíba, aqui eu me criei, minha mãe, minha avó,
aqui eu estudei, aprendi a trabalhar, fiz de tudo, carpi, lenhei, cuidei
de galinheiro, porco, faço bordado, crochê, flor...”
{D. Lúcia) .
“Antigamente
era tudo coisa da terra, carros de boi trazendo coisa do sítio,
mas a vida era assim mais alegre, forjada aqui mesmo, tinha teatro, cinema,
as festas.” (Jair)
“Naquele
tempo era gostoso, as festas, tinha muita festa., de rua, de igreja, era
muito bonito, barraca, cada barraca tinha seu grupo uniformizado. Cada
grupo tinha um uniforme diferente, então tinha 5, 6 barracas, eram
5, 6 grupos assim uniformizados, e cada um escolhia o uniforme, a cor,
o modelo como queria, então um escondia do outro, não queria
que o outro soubesse, assim quando chegava no dia era pra ser tudo surpresa
[...]” (D. Estela)
Orgulhosos
de sua história, remontavam o passado valorizando suas características
de gente da terra, enraizados, dignos descendentes dos fundadores da cidade:
uma cidade que manteve seu traçado ao longo do tempo, carregando
a tradição dos doces, bordados, transmitida de geração
em geração. No entanto, nas últimas décadas
a melhoria de condições de acesso ao município e a
instalação de indústrias ao longo das rodovias gerando
acentuado incremento populacional, fez com que o pacato universo
parnaibano passasse por transformações muito significativas.
“O
parnaibano é bandeirante, minha mulher é dos Bueno, bandeirante”
(Lico)
“Antigamente
era tudo família, não podia falar mal de ninguém que
era como mexer num vespeiro, agora tá cheio de gente esquisita,
foi lá por 1960 que veio essa baianada prás indústrias,
não parou mais de chegar gente de fora”. (Lico)
Esse
sentimento em relação à população que
veio de fora constituindo os novos bairros que se formaram a partir da
década de 60, se mostrou mais acentuado quando se manifestavam acerca
da possibilidade de morar nesses locais, palco de transformações
que para muitos representou uma descaracterização violenta
da cidade naquilo que para eles é o mais significativo – um certo
estilo de vida:
“Deus
me livre! Vila Nova só tem gente de fora, gente desconhecida, tem
poucos moradores antigos”. (D. Estela)
“A
cidade não tinha tanta gente como hoje, porque o meio de vida era
o botequim ou a roça, o sítio, essa gente morava tudo nos
terrenos fora, nos sítios, sabe? Só vinha na cidade de Sábado
e Domingo prá assistir a missa. Vinha Sábado, pousava; Domingo
de tarde ia embora pro sítio outra vez prá trabalhar lá.
As casas aqui, elas davam prá gente morar nas casas, prá
não ficar fechada, porque casa fechada estraga né, então
eles davam prá uma pessoa... Oh! Você fica morando lá,
toma conta de minha casa. É só vinha aos sábados e
domingos. Prá não estragar as casas, eles davam prás
pessoas morar, ninguém alugava casas”. (Sr. Antônio)
Em
síntese, era esse o discurso dominante expresso pelos mais
velhos para caracterizar os “de dentro”, ou seja, todos os parnaibanos
nativos, independentemente da faixa etária ou condição
sócio-econômica. A família era o elemento que baliza
o cotidiano, as festas, a cidade.
Havia,
entretanto, nesse discurso, algumas particularidades em virtude do efeito
comparação com outras cidades, reveladas nos depoimentos
daqueles que durante algumas décadas viveram fora, e pelos
jovens, estes com possibilidades de acesso constante a São Paulo,
Barueri e Osasco. No que diz respeito aos velhos que saíram e voltaram,
a ausência durante alguns anos era justificada em razão das
difíceis condições de vida e trabalho que a cidade
oferecia até o começo da década de 60, quando teve
início um pequeno surto industrial.
O
período anterior à instalação de indústrias
no município foi marcado por um mercado de trabalho restrito, sendo
o comércio e o trabalho rural as grandes opções, além
da instalação da Light que, no começo do século,
incorporou uma pequena parte dessa população. Portanto, a
opção de sobrevivência, na maioria das vezes,
só era possível fora da cidade, o que obrigou muitos a saírem
e voltarem só mais tarde, quando aposentados.
O retorno
representava o restabelecimento da identidade perdida nas grandes metrópoles,
invocando-se, agora, a posição de descendentes das
famílias fundadoras de Parnaíba. Recuperar, na velhice, a
Parnaíba das três ruas onde passaram a infância e a
juventude, através da comparação com as grandes cidades,
representava reaver sua cidade que, apesar de alterada, não perdeu
a “calma, o sossego e a tranqüilidade”. Algumas das alterações
eram por eles sentidas e percebidas tanto em razão da presença
e atuação de alguns dos “de fora”, como também dos
órgãos de preservação.
“A
cidade enfeiou, agora estão dando uma ajeitada, estão começando
uma retomada. Hoje eles são incapazes de derrubar uma casa, o patrimônio
não deixa mais, agora todo mundo que faz casa já faz com
arco e tudo. O colonial, né. O Paul foi o pioneiro aqui em matéria
de conservar o antigo. Essa coisa de antigüidade, ele é uma
pessoa empenhada, é uma coisa mais de cultura, é essa gente
que veio de fora que conserva”. (D. Marta)
Para
os jovens, a cidade não oferecia muitas opções
de lazer, trabalho e consumo, razão pela qual uma grande parte estudava
e/ou trabalhava em Osasco, Barueri e São Paulo. No entanto, mesmo
não tendo vivenciado a história anterior, são descendentes
de famílias tradicionais e valorizavam na mesma medida o eixo
fundamental revelado pelos mais velhos. Gostam de Paranaíba
porque ela é de seus pais, avós, bisavós, que fundaram
a cidade e da qual eles “continuam donos”. Gostam do estilo, do “jeito”
dela por comparação com outras cidades; quanto ao patrimônio
edificado, referem-se apenas à fachada.
“Eu
gosto do tipo de Parnaíba, é pequena, eu gosto do jeito como
ela é, não é igual a Osasco, que tem tudo feio; aqui
não; é casinha perto de casinha, principalmente as casas
coloniais”. (Luciana)
Esses
jovens possuiam, diferentemente dos mais velhos, uma relação
dinâmica com a cidade, centrada no presente: freqüentavam os
locais públicos como o clube, a sorveteria, os barzinhos.
A praça era o espaço de vivência, desde a infância,
onde se encontravam para brincar, até a adolescência quando,
nos fins de semana, ao entardecer, se reuniam para conversar, namorar,
combinar os programas para a noite. A turma era uma caracterização
determinante nas relações. Em geral um grupo não se
relaciona com outro.
“A
turma se encontra prá conversar, vai ao clube, às vezes a
gente sai prá ir ao cinema, lanchonete em São Paulo,
mas não é sempre, na maioria das vezes a gente fica aqui.
Aqui tem várias panelinhas”. (Luciana)
O
centro era importante, o local onde realizavam as atividades sociais,
em que “todos se conhecem”. Entretanto, essa familiaridade também
pode representar alguns problemas, particularmente no que diz respeito
ao controle que sofrem diante da vigilância exercida pelos mais velhos.
“Aqui
tem muito velho, as velhas são muito fofoqueiras, elas não
têm o que fazer, então ficam atrás da janela vendo
e depois saem contando prá cidade toda”. (Célia)
Durante
o tempo da pesquisa de campo, foi possível constatar, seja através
das conversas com eles, assim como pela observação
dos eventos, a ausência desses jovens nos eventos socio-culturais
patrocinados na cidade, em particular os do Museu, geralmente promovidos
pelos artistas:
“Aqui
a cultura é pouca, ninguém dá muito valor prá
essas coisas históricas, turista é que dá, a gente
tá acostumado, não liga, essa exposição de
pintura no Museu é só prá elite, o pessoal não
tem cultura prá isso”. (Célia)
Assim,
tanto os velhos que saíram e voltaram, como os jovens, tinham –
diferentemente dos parnaibanos que nunca deixaram a cidade – uma outra
visão, além da história familiar, para construir
a imagem da cidade: a comparação com outros centros urbanos.
Os melhoramentos mais reivindicados por eles referiam-se ao transporte,
escolas, trabalho e lazer; com ressalvas, pois isso poderia significar
mudanças indesejáveis na cidade:
“Eu
não gostaria que tivesse muita mudança, ia chegar muita gente,
ia estragar”. (Luciana)
Centro
Histórico: os “de fora”
Artistas
Os
“artistas” foram se fixando em Parnaíba pouco a pouco, principalmente
devido à possibilidade de morar em uma cidade pequena, tranqüila
e ao mesmo tempo próxima da capital.
Eram
basicamente artistas plásticos que, à época da pesquisa,
residiam na cidade há pelo menos três anos,
dependendo de outra atividade para sua manutenção: professores
de 1º e 2° graus, alguns funcionários públicos e
profissionais liberais. A relação com alguns deles foi
bastante próxima, especialmente com Henrique, professor,
artista plástico e organizador de alguns eventos na cidade como
a feira de arte, para a promoção do artesanato
local. Sua casa, localizada no largo da Matriz, ponto de encontro do grupo,
passou também a ser também passagem obrigatória em
nossas visitas a Parnaíba, pois era lá que se comentavam
os acontecimentos da semana. E nas conversas foi se revelando a visão
que esse segmento tinha da cidade e dos parnaibanos:
“Parnaíba
é uma cidade tranqüila, gostosa de se morar, calma, todo mundo
se conhece. É uma cidade bonita, de valor histórico”. (Danilo)
“Mudou
pouca coisa aqui, o pessoal é bem tradicional, as mudanças
se operam lentamente. Eu acho que é uma contradição,
porque eles querem as mudanças, mas têm receio e eles não
gostam que as mudanças partam de fora”. (Cleide)
Segundo
a perspectiva desse grupo, a tendência da cidade era de se transformar
em dormitório, totalmente isolada mas dependente de São
Paulo. Essa tendência só não se concretizou completamente,
segundo eles, devido à ação do próprio grupo,
que criou alternativas: feiras de arte, exposições na “Caso
do Anhanguera” e o teatro.
“Até
abrir a Castelo dizem que Parnaíba era uma coisa especial, tinha
seresta. São Paulo era longe ainda e o pessoal vivia prá
dentro da cidade.” (Henrique)
Comentando
sobre a inserção deles na sociedade local, explicitavam a
imagem que formam do parnaibano.
“O
nosso grupo é diferente, é um grupo meio assim à parte,
até botaram um apelido aqui em casa: `Arca de Noé’, porque
tinha tudo quanto era bicho.” ( Henrique)
“Parnaibano
é acomodado, não faz nada, é só o pessoal de
fora que faz as coisas aqui.”(Danilo)
Alguns
integrantes desse grupo cobravam uma atitude mais enérgica dos órgãos
do patrimônio e se colocavam como os únicos preocupados com
a preservação.
“Tá
cheio de construção aqui que não tem nada a ver...
para a população daqui tanto faz se encher de prédio,
ninguém tá nem aí, eles não querem é
que mexam com eles, querem sossego.” (Danilo)
“O
pessoal daqui não sabe o valor das coisas, tem mania de modernização.”
(Cristina)
“Acho
que uma coisa que assustou o parnaibano foi essa posição
do CONDEPHAAT e do SPHAN de que ‘vocês têm uma coisa
valorosa na mão e vocês não percebem isso’. Eu acho
que isso assustou, assustou numa boa, né? De repente, ele
olhou prá parede dele e falou: – ‘Meu Deus! O que foi que eu fiz!
Eu arranquei minha janela e botei uma vidraça e agora o pessoal
veio falar que eu joguei fora’. Eu acho que assustou, de repente ele não
compreendeu bem o que aconteceu, porque quando surgiram as vidraças
era muito mais bonito, mais cômodo, mais transado e aí trocaram
tudo, agora vem o pessoal falar que não era bem assim...” (Henrique)
Assim
também a existência de vários grupos e o lugar de cada
um na dinâmica social foi se explicitando:
“Existem
duas colocações aqui, a do pessoal daqui que chama a gente
de estranho – e sempre vai ser assim, mesmo se você morar 80 anos
aqui – porque você não é parnaibano. O pessoal que
é daqui tem esse sentimento fortíssimo de ser daqui. E tem
o pessoal de fora mesmo – porque tem os de fora que são de dentro
e que somos nós – que fala mal do pessoal daqui de dentro, tipo
assim “quem faz as coisas aqui somos nós que viemos de fora”. Acho
que essa colocação é falta de compreensão,
porque tem essa característica do parnaibano, essa morosidade que
existe, devido, eu acho, aos 400 anos da cidade, numa cidade que manteve
a população estável durante praticamente 200 anos.”
(Henrique)
O
que definiu a inter-relação entre os grupos e a imagem
que os artistas fazem dos vários grupos, contudo, está associado
à apropriação que cada qual faz da cidade, ligada
aqui, de um lado, à vida social e, de outro, à apropriação
de bem cultural, autônomo, isolado das relações sociais.
Particularmente significativo foi o depoimento de Henrique a esse respeito:
“Eu
acho o seguinte: o pessoal de fora, que a gente tem observado, eles vêm
muito assim pela beleza da cidade, certo? O arquitetônico da cidade
é que conta, não se preocupam em nada com as pessoas. Então
eles vêm morar numa cidade colonial, prá esses não
conta o parnaibano, não participa da vida deles. E aí o pessoal
de fora sabe o que tem valor, compra a casa pela casa, só existe
a casa. Aí valoriza, restaura, arruma e dane-se o social. A gente
até comentava, há uns dois anos atrás, que eles vão
colocar um portão e cobrar entrada prá ver a cidade que eles
compraram. E o parnaibano só critica, mas não interfere.”
( Henrique)
Sentindo-se
de certa forma “de dentro”, percebiam as transformações que
esse fato acarretava e, ao mesmo tempo, a impossibilidade de conter esse
processo:
“O
que a gente queria que continuasse aqui é essa comunidade, todo
mundo amigo. E isso é difícil porque o pessoal de fora não
percebe isso, então vai quebrando, vai dificultando e você
vai vendo casas fechadas, casas fechadas, tudo bem, acho que todo mundo
tem o direito de comprar casa, mas é esse esfriamento do pessoal
que fica ruim...” (Henrique)
Conforme
foi possível observar, tanto na casa do Henrique como nas vernissagens
do Museu, era rara a presença de parnaibanos. Assim, apesar de se
colocarem como “de dentro”, acabavam por constituir um grupo fechado, mantendo,
entretanto, uma preocupação ampla com a cidade que engloba
patrimônio e prática social.. A partir dos depoimentos desse
grupo, novos recortes se delinearam: os “parnaibanos”, “os de fora, de
dentro” e os “de fora mesmo”. Assim as transformações por
que a cidade vinha passando eram percebidas e expressas pela posição
que cada grupo ocupava nesse processo.
Os
parnaibanos, fechados, conservadores, assistiam às mudanças
que implicavam aa destruição de seu universo, mas não
interferiam, eram passivos. Os “de fora mesmo” só estavam interessados
na cidade enquanto cenário, alheios à vida social e ao que
representam para os demais. Os “de fora, mas de dentro”, os artistas,
tentavam, de alguma forma, recuperar o universo parnaibano e divulgá-lo,
valorizando alguns de seus aspectos através das atividades artísticas.
Sentiam-se parnaibanos já que se colocavam como os agentes culturais
da cidade e, diferentemente, dos “de fora mesmo”, estabeleceram vínculos
pessoais e de trabalho em Parnaíba. Tinham como projeto para a cidade
aproveitar o patrimônio edificado como elemento potencial de atuação
turística para a divulgação de seus trabalhos e tornar
Parnaíba conhecida como “cidade dos artistas”.
Estrangeiros
Os
estrangeiros – franceses, espanhóis e alemães – eram os “de
fora mesmo”. Pessoas de alta renda que compraram casas antigas na cidade
e as transformaram em residências luxuosas. Boa parte dessas casas
eram utilizadas apenas nos finais de semana. Esse grupo aliava os atributos
de cidade do interior às características de cidade histórica
para descrevê-la:
“Gostosa,
tranqüila, 20:30 da noite não tem ninguém na rua, só
cachorro.” (Paul)
“Sempre
vem gente de São Paulo aqui e todos querem mudar prá cá
por causa do charme dessas casas antigas, né? (Cinira)
Com
relação aos parnaibanos, o discurso era semelhante ao dos
artistas:
“Não
sabem o valor da cidade, não sabem mesmo. Precisava esclarecer,
orientar; eles têm orgulho de serem parnaibanos daqui mesmo.” (Paul)
....
e, às vezes, mais agressivos:
“O
pessoal daqui não dá, veja a diferença de Parati,
Ouro Preto... não tem o menor senso de proporção,
é um horror... o pessoal daqui é inculto, grosseiro, não
entende nada.” (Pablo)
Também
eles se colocavam como modelo para a cidade, na qualidade de interessados
com a preservação:
“Nós
servimos de exemplo aqui, depois que restauramos nossas casas é
que o pessoal viu que era possível, que ficava bonito, que valia
a pena... A minha casa deu muito trabalho para restaurar, destelhei onze
casas aí no sítio e troquei com eles por telhas novas, troquei
móveis antigos por de fórmica, trouxe coisas da Bahia, Minas,
Rio de Janeiro, madeira do Paraná para fazer o assoalho...” (Paul)
Para
esse grupo a preservação era encarada de forma privada, não
existindo uma preocupação com o conjunto, com o patrimônio
da cidade: preservar se restringia a restaurar suas próprias casas.
Mesmo valorizando esse aspecto de cidade pequena, onde todos se conhecem,
pôde-se observar que se relacionavam apenas dentro do seu grupo e
com amigos de São Paulo, já que a maior parte deles manteve
vínculos pessoais e de trabalho na Capital. Quando vieram para Parnaíba,
tinham uma proposta definida: comprar as casas antigas, restaurá-las,
apostando numa intervenção do Estado que impedisse o crescimento
da cidade, principalmente no que diz respeito à proibição
de formação de novos bairros para a população
de baixa renda.
“O
Estado precisaria fazer uma intervenção definitiva em Parnaíba.
Considerá-la monumento paulista, cuidar do núcleo de 5 km
à volta dele, impedindo indústrias, tudo...” (Pablo)
Esse
projeto parece que já fracassou, dado o crescimento espacial e populacional
que a cidade vinha tendo em função de ocupação
industrial nas rodovias próximas. A preocupação era
a de ter retorno do capital investido, do sonho frustrado da “Parati Paulista...”
“Parnaíba
não tem mais jeito, nós colocamos milhões aqui e agora
não dá mais, daqui a três anos vai ser igual a Barueri.”
(Pablo)
Eram
professores, donas de casa, comerciantes, integrados, portanto, ao cotidiano
da cidade, mas sem constituir um grupo fechado como os artistas e os estrangeiros.
Foi a partir do discurso dessas pessoas que se pôde delimitar
os diferentes grupos e precisar melhor o que era ser “parnaibano” e o que
é ser “de fora” nessa cidade. Essas pessoas manifestaram logo
no começo dos depoimentos suas dificuldades de adaptação:
“A
vida foi difícil prá gente no começo, mais difícil
ainda foi a recepção aqui. O povo aqui não encara
você assim como uma pessoa que tá vindo fazer o bem, ele olha
meio desconfiado.... levou um ano prá uma daqui me cumprimentar.”
(Virgínia – professora)
“É
muito diferente se você vem só prá passear, aí
tudo bem; sorrisos, cafezinhos etc. Agora, quando você diz que veio
pra ficar, aí muda tudo.... no começo foi horrível,
eles são muito fechados, sofri muito, ficou uma marca.” (Letícia
– dona de casa, casada com parnaibano, há cinco anos em Parnaíba)
Na
verdade, foi através do discurso dessas pessoas que se estabeleceu
o eixo que organiza a formação dos grupos e seus discursos,
independentemente de faixa etária ou de condições
sócio-econômicas: o corte mais preciso e ao mesmo tempo mais
amplo se resumia em ser “de fora” ou “de dentro”.
“...
uma das primeiras reuniões aqui na escola, uma das professores aqui
da cidade me olhou e disse: – ‘mais uma forasteira na cidade...’.
Eles são só entre a família deles, só se for
parente.... é assim aqui; porque eu nasci aqui, meu avô, meu
bisavô, meu tataravô, a família toda, desde os primeiros,
porque eu sou fulana de tal, o nome, o nome é muito importante aqui...
se você conseguir penetrar em uma família, sinta-se vitoriosa.”
(Terezinha)
“Parnaibano
é acomodado, não participa, não tem iniciativa, eles
não brigam pelo que é deles, pelo direito
deles.” (Letícia)
“Os
parnaibanos em termos de cultura, eles não valorizam a cidade. Eu
acho que quem dá mais valor prá essas coisas de Parnaíba,
para as construções daqui, são as pessoas de fora
ou as pessoas daqui que saíram quando pequenas e foram educadas
em outro lugar e voltaram para cá; aí sim. Eles gostam porque
têm, porque é deles, porque pertenceram aos antepassados deles.”
(Virgínia)
Colocavam
o parnaibano numa atitude permanente de reserva e desconfiança para
com os de fora. Na verdade, esse comportamento expressava uma atitude de
resistência dos “de dentro” à invasão de seu universo
próprio, apoiada na estrutura familiar.
“O
parnaibano é desconfiado; meu marido fala que aqui até as
janelas são fechadas. Eles não abrem as janelas, espiam pelas
frestas; eles têm esse costume. Parece que estão preocupados
se você vai trazer alguma coisa ruim prá eles... Eles são
fechados. Foi muito difícil fazer amizade; e olha que eu estou aqui
há quantos ano!. E não sei se essas amizades que eu consegui
são sólidas.” (Letícia)
Além
disso, os depoimentos mostravam a existência de regras de comportamento
para a entrada no mundo parnaibano e a presença de um forte
controle social.
“Eu
acho que tem um código mesmo, tem regras que você tem que
cumprir para ser aceita... eu não gostava de Carnaval, “Corpus Christi”,
essas coisas; mas aqui você tem que gostar, tem que se envolver,
senão fica de fora.” (Virgínia)
“Se
uma pessoa de fora – quer dizer... mesmo que more aqui, né – faz
alguma coisinha, eles caem matando. Agora, quando é um deles, aí
você não pode falar nada que eles mudam de assunto, como se
dissessem: – ‘você é de fora, não tem que se meter’.
E todos são parentes”. (Cinira)
A
explicação para todo esse comportamento, segundo a visão
dessas pessoas, reafirmando os depoimentos dos artistas, vinha do
fato de a cidade ter 400 anos e do forte sentimento de pertencimento
e de “donos” da cidade que os parnaibanos têm:
“Eu
atribuo isso ao processo de formação da cidade. Em Conchas,
minha cidade, é assim: são todos imigrantes, além
do caboclo, é claro. Lá tem de todo tipo: o caboclo, o italiano
e o português, que plantam nas terras e, na cidade, o comércio
com os sírios. E lá há um entrosamento entre as raças,
todo mundo é imigrante, todo mundo veio de longe, então a
cidade é para nós mesmos. Vamos fazer, vamos construir, vamos
fazer o progresso dessa terra. Aqui não, aqui quem mandava eram
os senhores da terra, os chefes políticos e tinha os escravos, então
eu acho que por haver essa diferença social, Santana do Parnaíba
é assim. Eles são os herdeiros, são os donos da terra...”
Em
síntese, como já foi dito, esses moradores não constituíam
um grupo fechado dentro da cidade tal como os artistas e os estrangeiros.
Por isso mesmo, eram eles que sentiam e caracterizavam mais profundamente
o “ser de fora”: “... tem sempre uma parede de vidro, você olha mas
não chega perto” – era a queixa.Contudo, mesmo entre os “de
fora” – artistas, estrangeiros e profissionais – não se estabelecia
um discurso homogêneo, já que tanto a inserção
de cada grupo na sociedade parnaibana quanto as representações
que elaboram eram diferenciadas. O que os unificava é justamente
a característica de serem todos qualificados pelos parnaibanos como
sendo “de fora”, ainda que houvesse gradações de um grupo
para outro na participação do mundo “de dentro”. 

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