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SANTANA DO PARNAÍBA: MEMÓRIA E COTIDIANO-José Guilherme C. Magnani (continuação)

 
 
 
 

2. Significado das festas

A partir da descrição acima podemos fazer uma primeira classificação no que se refere ao caráter das festas. A da Padroeira, São Benedito, São Sebastião, Romaria de Santo Antônio do Suru, Corpus Christi, São João da Vila Nova e São João da Família Chaves: são festas essencialmente religiosas. Ou seja, o ponto focal dessas comemorações está na devoção do santo que celebram, o que não quer dizer que não tenham elementos ou momentos profanos, tais como as barraquinhas, o baile, a madrugada de preparação das ruas para o Corpus Christi e etc. As demais teriam então um caráter marcadamente profano, como a festa de aniversário da cidade, a comemoração do Sete de Setembro e o Carnaval.
 

Entretanto, essa classificação não basta para identificar a maneira como os grupos da cidade participam nas diversas festas, e especificamente em cada uma delas. Essa participação diz respeito à maneira pela qual esses se apropriam do espaço social da cidade, baseada no referencial histórico de cada um e expressa os conflitos e tensões que permeiam o cotidiano.
 

Observando em primeiro lugar a relação dos "de dentro" com as festas, vemos, nitidamente, que a maior valorização e participação recai justamente naquelas festas que reforçam a identidade parnaibana: a festa da Padroeira e o aniversário da cidade. Na festa da Padroeira são eles que enfeitam o altar e seguem a procissão rezando e cantando. No Aniversário da Cidade, todos estão na rua desde cedo e no baile à noite. 
 

Pode se perceber em ambas, a importância que os "de dentro" atribuem a sua realização, quer pela participação quer pela exaltação à cidade, a seus fundadores e às famílias tradicionais. Por outro lado, os moradores da Vila Nova e dos bairros da periferia da cidade participam dessas festas na qualidade apenas de espectadores, enquanto os "de fora" do Centro Histórico sequer tomam conhecimento delas.
 

A festa de Corpus Christi expressa outras relações. O núcleo da festa - os tapetes de serragem que enfeitam as ruas por onde passa a procissão - foi uma novidade introduzida por uma pessoa de fora, trabalho que hoje é feito principalmente por pessoas da Vila Nova com amigos de cidades próximas (Barueri, Osasco e Pirapora), com destaque para a participação dos "artistas". Eles se reúnem previamente para decidir o tema que orientará a decoração dos tapetes (este ano, 1984, foi o "Trabalho e os Santos").
 

Assim, os "artistas", independentemente da rua em que residem, enfeitam a praça 14 de Novembro, normalmente com temas e  materiais não muito ortodoxos, o que sempre gera muitos comentários na cidade. São poucos os "de dentro" que enfeitam as ruas; sua participação é dada pelo controle e pela crítica, quando de manhã passeiam pela cidade observando o trabalho, revelando também no momento da festa a disputa e o conflito que existe entre os grupos.
 

A festa de São João da Vila Nova, expressa também a posição dos moradores desse bairro na dinâmica dos grupos. Essa festa nasce justamente como afirmação e delimitação do espaço, já que naquele momento esse grupo era fortemente discriminado pelos "de dentro"; o Clube, por exemplo, não os admitia como sócios. Hoje este papel de "periferia", de "baianos", é preenchido pelos moradores de bairros mais afastados do centro, como o Jardim Isaura, por exemplo. Assim, essa festa também reflete uma nova oposição: a presença de moradores que têm outro tipo de vínculo com a cidade, e que se relacionam muito mais com os habitantes das cidades vizinhas, principalmente Osasco e Barueri - num certo sentido seus "iguais" - do que com os "de dentro".
 

Já o Carnaval é a festa da inversão, do permitido, das fantasias que ocultam e revelam, dos outros papéis. Portanto, participam todos: os "de dentro", os "de fora", os "artistas", os "estrangeiros", a periferia e os turistas; ainda que essa participação ocorra de forma diferenciada. Assim, nas duas escolas de samba manifesta-se novamente, a oposição Centro Histórico/Vila Nova; o baile de rua e o do clube também marcam novas diferenças. E o "Bloco dos Fantasmas" e o "Grito da Noite" são caracteristicamente parnaibanos, já que há mais de cem anos são eles que abrem o Carnaval na Sexta-feira à noite.
 

As demais festas do calendário da cidade se inscrevem em outros eixos de significação. O Sete de Setembro é uma festa cívica, obrigatória, realizada em todos os municípios. A Romaria de Suru, a menos dinâmica e com sinais de enfraquecimento, reflete principalmente as transformações pelas quais passou a área rural do município com a expulsão dos sitiantes, dando lugar a loteamentos e chácaras de fim de semana. O Suru é hoje, talvez, o último bairro rural onde ainda é dominante a presença de pequenos sitiantes, o que até vinte anos atrás era a regra na vida rural.
 

Na festa de São João, de Joãozinho Chaves, vemos também a manutenção das tradições ligadas ao catolicismo rural aliada à realização do baile - forró - que é o momento mais concorrido da festa.
 

As outras duas festas, São Sebastião e São Benedito, são festas religiosas que perdem vitalidade ano a ano, e que refletem apenas a devoção ainda presente, principalmente, nos velhos "de dentro".
 

Também em relação "a maneira como a população da cidade avalia as festas, pudemos perceber significados e valores diferenciados atribuídos a cada uma delas.
 

Assim, para os "de dentro" percebemos a valorização do tempo em que as festas tinham um caráter mais familiar, voltadas apenas para a comunidade local. Essa perspectiva se apresenta tanto no discurso dos velhos como no de seus filhos e netos, que dominam uma história localizada e o significado dessas festas, que dão conteúdo ao ser "parnaibano".
 

Este grupo qualifica as festas em geral, através da comparação com as do passado. Assim, contam que a maior parte delas era de caráter religioso, exercendo um papel atuante no cotidiano das famílias. A igreja era cuidada e decorada por elas, sendo que cada uma recebia a incumbência de manter o altar de um Santo; em todos os quintais eram plantadas flores destinadas à decoração da igreja. As mulheres bordavam toalhas, faziam roupas para vestir os santos, etc. Para cada festa era, todo ano, sorteado um festeiro que arcava com a totalidade das despesas e sempre procurava superar seu antecessor. Assim, os santos eram homenageados e as festas podiam durar até vários dias com grandes doações aos leilões (geralmente animais de criação) e fartura de bebida e comida gratuita para todos.
 

"... Tinha quermesse, a quermesse era movimentada, tinha congada, tinha pau de sebo, leilão com aqueles bichos, tinha bolo, tinha porco, bezerro, cabrito, galinha, nas festas lá no jardim da praça. Tinha tanto bicho que os sitiantes traziam, principalmente na festa de São Benedito, que é ele que protege os animais. Todo sitiante dava um bicho pra São Sebastião que ra pra guardar os animais, proteger. Então cada sitiante, quando era festa dele, trazia um bicho. Até 1947, eu me lembro que era assim, depois foi fracassando. Todo quintal que tinha frango, porco, cabrito, o dono da casa dizia: "esse não pode matar que é de São Sebastião", não podia matar vinha pro leilão. Atualmente não tem mais nada que presta". (D. Margarida)


É importante esclarecer que essas descrições correspondem ao período no qual a atividade agrícola era dominante. Assim, também é forte a lembrança das rezas caipiras, da folia de reis, das congadas, sempre ressaltadas pela simplicidade que caracterizam a vida em Parnaíba.
 

Hoje, no discurso dessas famílias, as festas são descritas pelos que elas não tem e não são mais. Segundo elas, a falta de religiosidade, característica dos tempos modernos, aliada ao desinteresse do padre que "não gosta de festa" - chegou mesmo a impedir a realização de algumas delas - é agravada pelo interesse principalmente comercial que orienta a realização das festas: "ninguém mais segue a procissão, todos só querem montar barraquinha pra vender alguma coisa", dizem.
 

Essas mudanças são explicadas pelas transformações que a cidade sofreu nas duas últimas décadas, principalmente o crescimento do município e o conseqüente aumento populacional, que geraram modificações profundas no cotidiano da cidade e se refletem também no significado das festas. Para os "de dentro", os costumes, os valores e as tradições se perderam.
 

"... Naquele tempo era gostoso as festas, tinha muita festa de rua, da igreja, era muito bonito: barraca, cada barraca tinha um grupo uniformizado. (...) As barracas eram em benefício da igreja, que nem essas festas do Divino, de Santana, essas festas grandes que tinha, (...) tinha congada, era tudo daqui, era tão bonito, depois foi morrendo, foi acabando tudo, agora não tem mais... Tinha uma porção de divertimento, muito bonito, depois acabou tudo. Os costumes da cidade, do povo mesmo, já não é como era, né, tem muita gente de fora aqui, tem muita gente: aqui pro centro não aumentou, é a mesma coisa de sempre, mas lá pra cima, aquela vila que formaram, é tudo gente de fora, pouca gente daqui." (D. Maria)
 

 " Essa festa do Corpus Christi ou seja, esse enfeite nas ruas é relativamente recente, é de após guerra. (...) Corpus Christi antes, aqui, enfeitava-se as janelas, punha-se colchas bonitas, toalhas, flores, crucifixo em cada janela. Ainda se faz isso, algumas pessoas, as mais velhas, as mais moças já não enfeitam as janelas pra passar a procissão. (...) antes aqui era uma comunidade literalmente fechada. Então a gente vivia só com recurso próprio e participava muito, porque a festa do divino, por exemplo, era uma festa muito importante. O festeiro era sorteado quando terminava uma festa. Chamava o Imperador do Divino e a Imperatriz. E tinha que ter capitão de mastro, alferes da bandeira. (...) A festa de Santana, antes, tinha mais importância que Corpus Christi hoje, porque era a Padroeira; Corpus Christi tinha, mas nem chamava Corpus Christi porque era o "Triunfo da Eucaristia" né. Isso é muito antigo (...) Era o enfeite das janelas e as folhas odoríficas que pisava e ficava aquele cheiro bom na rua (...) mas agora, na verdade, não é mais o espírito religioso, predomina mais o espírito turístico, né." (D. Antônia)

Já para os "de fora", que não têm acesso ao passado da cidade e à memória das festas, a avaliação que fazem delas hoje é positiva e é um atributo importante na caracterização da cidade. Expressam, segundo eles, a manutenção do "tradicional" de uma cidade pequena, de interior. Assim, tanto para os "estrangeiros" como para os "artistas", a opção por Santana de Parnaíba significava a possibilidade de morarem em uma cidade com essas características: uma "comunidade" pequena, ainda não transformada totalmente em seus hábitos pelos meios de comunicação de massa e conservando aquele "charme antigo". Para os "profissionais", que vieram se integrar diretamente no cotidiano da cidade, as festas aparecem como a possibilidade de penetração no mundo fechado do parnaibano, e, como eventos que atualizam, de forma um tanto nebulosa, a memória de Santana de Parnaíba.
 
"(...) Os artistas têm que se envolver na vida da cidade através daquilo que sabem fazer, através da arte. Por exemplo, nas festas como o Corpus Christi, o Carnaval... são possibilidades que a gente tem de participar fazendo aquilo que o artista sabe e deve fazer; essa é minha opinião, entendeu? Eu gosto de morar aqui, aqui você ainda tem uma vida diferente... o Carnaval aqui, eu gosto muito, ainda é uma festa familiar sem confusão." (Sr. Gregório)
 

"Eu gosto de Parnaíba, dessa vida de interior. Eu conheço as tias, o açougueiro, o pessoal do sítio que vende frutas, sou amigo de todos... aqui, você dá uma saída e todo mundo sabe onde você está... e tem muita festa, aqui eles ainda conservam as tradições; coisa que você não vê nas grandes cidades. Eu participo das festas, sempre que posso, até fotografei e filmei o Carnaval e o Corpus Christi." (Pierre)


Há, entretanto, diferenças substantivas se compararmos os discursos com o comportamento desses grupos em relação à sua participação nas festas.
 

Segundo os depoimentos dos "de dentro", as festas acabaram, não têm mais sentido; no entanto, esse grupo continua participando e organizando algumas delas, principalmente as religiosas e, em especial, a da Padroeira e a do aniversário da Cidade.
 

No discurso dos "de fora" vemos a valorização de todas as festas em conjunto, contudo, participam efetivamente daquela que tem um caráter mais nitidamente marcado de exposição da cidade para fora, de valorização de "cenário" da cidade: o Corpus Christi.
 

Portanto, o que se pode concluir é que, se as festas passam por um processo de transformação, inclusive no que se refere aos seus aspectos formais, tais como, duração, organização e "brilho", - elas continuam existindo com diferentes graus de dinamismo: marcam posições, definem espaços, revelam aspectos do cotidiano atualizando os conflitos como as possibilidades de integração.
 

VII - Conclusões
 

A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas, cada qual em torno de um eixo básico. A primeira parte, mais exploratória, tinha como objetivo levantar o conjunto das opiniões, interesses e valores existentes na população de Santana de Parnaíba a respeito da cidade e do patrimônio cultural procurando ao mesmo tempo agrupar os entrevistados em segmentos segundo recortes e categorias que eles mesmos utilizam. 
 

Pudemos identificar, assim, duas divisões bem nítidas: os "de dentro" e os "de fora".
Para os primeiros, a importância da cidade aparecida principalmente no contexto das relações de família; o discurso era centrado no passado, quando Parnaíba era "dos parnaibanos", "todos se conheciam" e quando as festas mobilizavam toda a cidade. As referências históricas - salvo genéricas alusões ao tempo dos bandeirantes - não iam além da história particular dos troncos familiares. É através da memória de um passado antes mítico que real, e da crítica aos "tempos atuais", à gente de fora, que os "de dentro se auto-representam como guardiães do verdadeiro "ser parnaibano".
 

Os "de fora" trazem a marca da modernidade, das transformações. Esta marca vai desde saber dar o devido valor ao patrimônio - diferentemente dos parnaibanos, "atrasados", "ignorantes" -, passando pela defesa da ecologia, até o caso mais extremo dos "de fora" da vila Nova, para os quais o que conta são as carências de equipamentos urbanos, como corresponde a moradores de periferia... Deixando de lado para efeitos de análise estes últimos cabe lembrar que o problema da preservação assume vários significados, entre os "de fora".
 

Para uns, o interesse é pessoal: restaurar as próprias casas, mesmo à custa de destruir outras; alguns viam na cidade a possibilidade de desenvolver atividades específicas, ligadas ao turismo, como ocorre em Parati ou Embú. O referencial, aqui, é o valor histórico-arquitetônico, apreendido de maneira ingênua - o "estilo colonial", que também sensibiliza alguns "de centro" - ou de forma genérica, o "charme das casas antigas". 
 

Nesse sentido, o discurso dos "de fora" aproxima-se em alguns aspectos da visão e prática dos organismos de preservação: a ênfase é colocada na história mais geral e no patrimônio edificado (é claro que no caso dos órgãos de preservação existe uma fundamentação histórica e arquitetônica elaborada, com base em conhecimentos técnicos especializados).
 

O importante, contudo, é notar que para os "de dentro" a história é idealizada e apreendida do ponto de vista restrito e fragmentado de suas vinculações familiares, ao longo de 400 anos; para os "de fora" a história é antes uma referência genérica e/ou ingênua; de qualquer maneira, são instâncias que não se encontram. Eis aí um problema a ser encarado pelos órgãos de preservação: atuar no sentido de estabelecer mediações entre esses pólos, de forma que o horizonte limitado das percepções dadas possa vincular-se a processos mais abrangentes, o que significa ampliar o que é restrito (percepções dos "de dentro") e tornar mais concreto e preciso o que é aprendido de maneira difusa e muitas vezes falseada (percepções dos "de fora").
 

Qualquer proposta, seja de esclarecimento ou de atuação, se pretende obter ressonância, deve partir dessa base mínima, e que não é a mesma para todos os moradores. Enquanto uns, os "de dentro", seguramente responderão a apelos que evoquem de alguma forma os laços familiares e a condição de "parnaibanos históricos", outros, os "de fora", serão mais sensíveis a questão e temas relacionados com a cidade enquanto conjunto arquitetônico com características específicas e aberta a iniciativas, atividades e propostas que a vinculem "ao resto do mundo" e aos dias atuais.
 

Tanto os "de dentro" como os "de fora" encontram-se, contudo, num plano, o das festas. E mais uma vez faz-se sentir a divisão já assinalada: para os primeiros, as festas de hoje não têm mais aquele "brilho" de antigamente; para os outros, são ocasiões de integração, agora, na cidade ou de aí exibir suas iniciativas e o produto de suas atividades. De um jeito ou de outro, porém a questão toca a todos, ainda que por motivações e valores diferentes.
 

A escolha do ciclo festivo como fio condutor da segunda etapa da pesquisa deveu-se, antes de mais nada, à importância que as festas assumiam no discurso dos informantes e no efeito mobilizador que contrastava com a rotina da cidade. Era preciso, contudo, explicar essa evidência empírica e assim fundamentar a linha de análise escolhida. Comparando, então, as conclusões d primeira parte com observações e depoimentos especificante em torno do tema das festas, pôde-se perceber uma oposição, de fundo, referente ao conceito de tempo. Num caso, tempo histórico, seqüencial-progressivo: era o passado justificando o "ser parnaibano" e servindo de critério para excluir os "de fora", essa gente de agora, sem laços com a tradição de Parnaíba; para estes últimos, o mesmo passado era visto como sinal de atraso, imobilismo, ou então não passava de um vago marco de referência.
 

Com relação às festas, porém, o tempo de base é cíclico: cada ano repete-se o mesmo calendário festivo. 
 

"As festas já não são como antigamente", deploram os mais velhos. No entanto persistem, amparadas por uma estrutura que permanece, a despeito das inevitáveis mudanças. É que se o tempo histórico é percebido como irreversível, o tempo cíclico repõe, de forma ritualizada, eventos que evocam o passado, atualizando-o e articulando-o à rede de relações que permeiam a trama do dia-a-dia. Os ritos, assim, ao mesmo tempo em que alteram e estabelecem cortes no fluxo cotidiano, não constituem momentos essencialmente diferentes da rotina diária, uma vez que, neles, determinados aspectos desse mesmo cotidiano são salientados, colocados em foco. "O mito e o ritual seriam dramatizações ou maneiras cruciais de chamar a atenção para certos aspectos da realidade social, facetas que, normalmente, estão submersas pelas rotinas, interesses e complicações do cotidiano" (Da Mata, 1979, p. 34).
 

Daí o interesse pelas festas - momentos de encontro entre o passado e o presente, entre parnaibanos "históricos" e os "de fora", entre moradores e visitantes; conforme afirma Da Mata", é como se o domínio do ritual constituísse uma região privilegiada para se penetrar no "coração cultural" de uma sociedade, ou seja, no seu sistema de valores, uma vez que o rito permite tomar consciência de certas cristalizações sociais mais profundas". (idem, ibidem, p. 29)
 

Já foi mostrado, no corpo do trabalho, como os "de dentro" e os "de fora" - artistas, profissionais, estrangeiros - participam, em diversos graus, das festas. Cada evento festivo, mobilizando, assim, participações diferenciadas, torna-se suporte de significados também diferentes; desta forma, não se pode decidir pela "autenticidade" ou descaracterização deste ou aquele, com base em critérios estabelecidos num corte temporal diacrônico: se hoje são realizados, é porque são investidos de significados por seus vários participantes. Assim, a festa da Padroeira e o aniversário da cidade, por exemplo, constituem rituais de reforço, para os artigos parnaibanos; já a comemoração de Corpus Christi, entre outras, para os "de fora", abre a possibilidade de entrada e participação na vida da cidade.
 

Além da oposição em torno do eixo temporal, existe outra, presente nos depoimentos e no próprio comportamento dos entrevistados: é a que opõe espaço privado (a casa) e espaço público. Enquanto aquele é impenetrável, fechado aos "de fora" (inclusive aos órgãos de preservação) o último é acessível até para os turistas. O primeiro é o universo das famílias, o lugar de onde se exerce o controle - cortinas que se agitam, discretamente, janelas que abrigam olhares prescrutadores; já o segundo é aberto, e o trajeto das procissões e dos desfiles, é o local das barracas em dias de festa, é, enfim, o cenário dos rituais.
 

Se pretende chegar até as casas (enquanto edifícios tombados, portanto sujeitos à ação preservacionista institucional) e as seus moradores, sensibilizando-os para a questão global da preservação, é preciso começar pelo espaço público e, estrategicamente, pelas festas, elemento vivo e dinamizador do patrimônio cultural. O calendário de festas pode constituir uma via de acesso privilegiada para se começar a estabelecer as mediações entre as histórias familiares particulares e processos históricos mais abrangentes e entre estes e o patrimônio tombado.
 

Uma presença mais efetiva do CONDEPHAAT nas festas e na dinâmica de sua preparação - incentivando, documentando, divulgando, fornecendo subsídios de infra estrutura - permitiria contrabalançar a tradicional (e inevitável) função de órgão fiscalizador com outra, de apoio. Um Centro de Memória poderia dar continuidade a essa tarefa através de uma reconstituição histórica mais ampla, não apenas por meio de pesquisa e coleta de dados em instituições e arquivos, mas também com levantamentos de informações, documentos e objetos em poder dos próprios parnaibanos: é preciso mostrar que os fragmentos que constituem sua memória fazem parte de processos mais amplos, responsáveis pelo que Santana de Parnaíba foi e conserva hoje, em seus costumes, casas, ruas e edifícios..
 
 

Bibliografia

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