V
- Visões da cidade
A partir
do material colhido durante o trabalho de campo - nos fins de semana, nos
dias de festas, por ocasião de acontecimentos sociais (vernissage
no "Museu", aniversários etc.) - pudemos reunir elementos que apontam
na direção de nossa hipótese central - a heterogeneidade
dos habitantes de Santana do Parnaíba revertendo em diferentes representações
e não a suposta homogeneidade - como se o valor "histórico"
fosse transparente e partilhado por todos - com a qual os órgãos
de preservação tradicionalmente trabalham. Ressentimo-nos
da impossibilidade de ficar um tempo corrido maior em Parnaíba,
para observar melhor o comportamento dos moradores e o cotidiano da cidade.
Ainda
assim foi possível, através da observação das
atitudes e análise dos depoimentos, detectar os diferentes grupos
e a diversidade de significados a respeito do patrimônio e, mais
amplamente, da cidade.
Assim,
por exemplo, ser "de dentro" e ser "de fora" surgem como cortes que balizam
os costumes, as atitudes e também as representações.
Ser parnaibano, ser "de dentro", traduz um forte sentimento de pertencimento
à terra, de "donos da cidade", advindos de sua descendência
secular dos fundadores da cidade, de uma cidade de 400 anos.
Nessa
medida, o que esse grupo valoriza, e o que interessa preservar são
as relações sociais centradas na família, ainda que
o referencial seja a suposta solidariedade, a noção de conjunto
que existia... "quando Parnaíba era da gente..." Valorizam o "vivo",
esse é o patrimônio que interessa. As festas surgem assim
nesse contexto com grande destaque, pois são os momentos de expressão
e concretude dessas relações, quando então é
possível voltar a apropriar-se da cidade e dos espaços públicos
que valorizam as ruas de cima, de baixo e do meio, a praça e a Igreja.
É também um dos códigos de entrada no mundo parnaibano,
é no público que se admite os de fora, dificilmente no âmbito
do privado.
Fora
do calendário de festas, o cotidiano tranqüilo da cidade acontece
entre as famílias, nas casas, herança de várias gerações,
a que só tem acesso os parentes: "eles vêm na sua casa, conversam,
mas não te convidam prá ir na casa deles", dizem os "de fora".
A casa
é, portanto, o espaço das famílias, do privada, onde
se encastelam e se defendem dos "de fora". Se hoje já não
são efetivamente os "donos da cidade", é porque há
outros grupos disputando o domínio das relações e
controlando alguns setores da vida social, na casa o domínio continua
existindo e não permitem nem a entrada, nem a interferência
dos "de fora". Ela é o símbolo que restou dessa tradição,
que se legitima na descendência dos fundadores da cidade.
Não
faz parte do código que orienta o comportamento desse grupo o valor
histórico arquitetônico de suas casas. A história que
permeia sua organização social é uma história
familiar, portanto restrita, que não passa por um conhecimento especializado.
Apenas os parnaibanos que saíram da cidade e voltaram e os
da Vila Nova que foram expulsos do Centro é que somam à casa
esse valor, ainda que também de forma secundária. Isso se
deve tanto à possibilidade de comparação com outras
cidades quanto ao acesso a esse tipo de informação.
Os
termos mais utilizados para designar o patrimônio são "antigüidade"
e "tradição". Alguns não diferenciam o CONDEPHAAT
da SPHAN, referindo-se apenas ao "patrimônio". Também a lei
de tombamento é desconhecida no que diz respeito à competência
do Estado e da Secretaria da Cultura, dos limites à competência
do Estado e da Secretaria da Cultura, dos limites e instrumentos de que
dispõem. Ouvimos várias versões: o tombamento se refere
apenas às duas casas bandeiristas tombadas pela SPHAN nos anos 50,
ou foi uma lei municipal aprovada pela Câmara ou ainda se refere
apenas à Igreja.
Para
estes, as poucas referências a um cuidado e atendimento às
normas do tombamento se restringem à conservação das
fachadas. Com relação ao CONDEPHAAT, é interessante
notar que a maioria não conhece o órgão. Os que conhecem
é porque tiveram problemas com reformas em suas casas e para eles
a imagem do CONDEPHAAT é negativa, caracterizada pela ineficiência,
demora e tratamento desigual: "implicam com umas coisinhas de nada
e deixam passar coisas mais graves". Ou então não entendem
a existência de um órgão que se preocupe com "antigüidades"
nos dias de hoje: "... eu não entendo isso, tanta coisa acontecendo,
o mundo tão mudado, não sei como é que sobrou o CONDEPHAAT,
eu não entendo..."
O "ser
parnaibano"- apesar das especificidades advindas seja da condição
de classe, faixa etária ou de expectativas de vida diferentes relacionadas
à cidade - traduz-se na manutenção da identidade desse
grupo face às transformações pelas quais a cidade
vem passando nas últimas décadas. A integração
progressiva da cidade à Grande São Paulo, com todas as mudanças
já citadas: ingresso de novos segmentos da população,
formação de novos bairros, especulação imobiliária
etc., tem gerado alterações profundas na constituição
social e a esse grupo só restou a manutenção
dessa identidade, não controlam mais a dinâmica da cidade.
Este "ser parnaibano" é quem por oposição, define
então o outro - o "de fora" - artistas, estrangeiros, operários,
comerciantes e professores.
Para
os "de fora", residentes no Centro Histórico, a cidade existe e
tem importância enquanto patrimônio edificado. É um
atributo importante tanto para aqueles que investiram muito na restauração
de suas casas como para os que contam com a implementação
do turismo na cidade para divulgação e ampliação
de suas atividades. Assim valorizam na cidade, tanto por causa da tranqüilidade
e proximidade com São Paulo, como por seu patrimônio histórico
e arquitetônico. Conhecem os órgão de preservação
que atuam na cidade e na maior parte das vezes cobram uma atuação
mais rígida de fiscalização e a necessidade de um
programa educativo para a população.
Entretanto,
é importante destacar que mesmo para os "de fora" a concepção
do que seja preservar é diversa da do órgão e às
vezes conflitante. Assim por exemplo, um dos estrangeiros demoliu uma das
duas casas antigas que comprou, construindo uma nova, imitando a demolida
e restaurou outra às custas de destelhar onze casas de zona rural.
Também a idéia de que o tombamento e a preservação
se resume apenas à fachada das casas é generalizada tanto
para os "de fora" como para os parnaibanos.
Para
os "de fora" residentes na Vila Nova, que ali se fixaram em função
das exigências do mercado de trabalho e que são trabalhadores
sem ou com pequena qualificação profissional, a representação
da cidade está plasmada no bairro e o dominante no discurso são
as reivindicações de melhorias na infra-estrutura do bairro
- água, esgoto, asfalto etc. A cidade, enquanto história
não tem visibilidade para esse grupo e o Centro é apenas
a passagem para o trabalho ou o local onde estão os serviços
públicos.
A observação
dos casos atendidos no escritório confirmou as questões levantadas
na pesquisa. Assim,
apesar
de ampla explicação didática por parte dos técnicos
do CONDEPHAAT - quanto à importância de se manterem as características
originais das casas e, nos casos de reforma ou ampliação,
proceder de maneira criteriosa a fim de não comprometer o valor
do imóvel - inúmeras vezes os proprietários
se opuseram à orientação dada pelos técnicos
e cederam apenas em parte em suas intenções iniciais. A casa
é o domínio do privado, aí não aceitam interferências.
Outro
dado interessante que pudemos observar foi em relação a algumas
pessoas que, há anos atrás, fizeram reformas descaracterizadoras
das casas como, por exemplo, trocar janelas por vitrôs e hoje que
retornar ao "antigo", ao original. A valorização do "antigo"
vai pouco a pouco ganhando terreno na cidade, não em função
do valor histórico arquitetônico das casas, mas em função
do valor comercial que elas passaram a ter em função da especulação
imobiliária surgida principalmente devido à procura de pessoas
de fora, "pelo charme que as casas antigas têm". Assim também
nas novas construções, todos querem o "colonial". Este dito
"estilo colonial", equívoco comum aos leigos, está presente
em padrões ditados pela indústria da construção,
modismo constituído por falsidades histórico-arquitetônicas
mal alinhavadas, visto que se apropria apenas de elementos superficiais
e supérfluos da arquitetura genuinamente colonial.
Enfim,
pelo exposto, conclui-se que o que está em jogo é a questão
da apropriação da história e as maneiras pelas
quais essa apropriação se dá. De um lado, temos os
parnaibanos cuja identidade está colada à história
familiar, na memória dos velhos, na prática social, onde
tentam ainda manter um controle, rejeitando os de fora, cuja vinda para
a cidade é associada à destruição de seu universo
próprio. Para esse grupo o patrimônio edificado não
tem relevo isoladamente, faz parte do todo e não é, como
já vimos, o elemento mais significativo; não vêem esse
patrimônio de maneira reificada, como coisa, ele adquire sentido
enquanto vinculado às histórias familiares. Por outro lado,
não têm acesso à história mais ampla que lhes
permitiria entender e até mesmo valorizar os bens culturais com
os critérios institucionais da preservação.
De
outro, os "de fora" que atribuem à ignorância dos parnaibanos
o descaso pela preservação, e que justamente por manipularem
e terem acesso a esse conhecimento especializado, valorizam o patrimônio
edificado com os mesmo critérios dos órgão de preservação,
ainda que as atitudes de preservar se mostrem às vezes contraditórios
aos interesses do órgão, já que a preocupação
que norteia esse grupo é, principalmente, ditada por sua visão
particular, pressupondo dividendos pessoais na preservação
dos imóveis ou da cidade. Esse grupo acaba tendo, portanto, a mesma
percepção que podemos observar na maior parte das intervenções
dos órgãos de preservação: valorizar o objeto,
por si mesmo, sem levar em conta os significados projetados no bem e sua
inserção no tecido social.
VI
- As Festas
1.
Descrição
O calendário
de festas de Santana do Parnaíba é constituído, atualmente,
por festas que celebram desde momentos de significação mais
ampla como o Corpus Christi, o Sete de Setembro e o Carnaval, até
comemorações familiares ou rurais, como a festa de São
João, de Joãozinho Chaves e a Romaria de Santo Antônio
do Surú, passando por festas religiosas e de marcos significativos
para a cidade, como a Festa de Santa Ana e o aniversário da cidade.
Em
ordem cronológica elas se distribuem da seguinte maneira: São
Sebastião e São Benedito em janeiro; Carnaval; Santo Antônio
do Surú (17/06); Corpus Christi (21/06); São João,
de Joãozinho Chaves (30/06); Festa de São João da
Vila Nova (final de junho); Festa de Sant'Ana (29/07); Sete de Setembro
e Aniversário da cidade (14/11).
A descrição
que apresentamos a seguir, foi feita a partir de observações
diretas e de depoimentos colhidos junto aos moradores, durante o ano de
1984, a exceção de São Benedito e São Sebastião
que são descritas apenas a partir de depoimentos.
Corpus
Christi:
A
festa de Corpus Christi é realizada em Parnaíba há
muito tempo, havendo registros dela em documentos até do século
XVII. A maneira tradicional de enfeite da cidade era jogar flores e ervas
aromáticas nas ruas por onde a procissão passava.
Sua
forma atual, com tapetes de serragem colorida decorando as ruas é,
entretanto, bastante recente. Há menos de vinte anos, uma professora
vinda de Itu introduziu essa técnica de enfeite e, a partir de então,
todas as festas foram feitas assim.
A festa
é organizada pela Prefeitura, pelos moradores e pela Igreja. Cabe
à Prefeitura tingir a serragem e distribuí-la; aos moradores
a decoração das ruas, que compreende a definição
dos temas e desenhos e a escolha de pessoas para ajudar a fazer o trabalho;
à Igreja, a organização e a realização
da missa e da procissão.
A preparação
da festa começa mais ou menos dez dias antes, com a tintura da serragem,
que é feita por funcionários da Prefeitura em uma pracinha
em frente ao Largo São Bento. Durante esse período também
são feitas reuniões na Prefeitura com os responsáveis
por rua para saber a quantidade de serragem, nas diferentes cores que cada
um vai precisar. Também os moldes de madeira ou de papel que vão
ser utilizados para os desenhos, são feitos alguns dias antes. As
barraquinhas que serão montadas no dia da festa, são fornecidas
pela Prefeitura e os responsáveis se inscrevem no Departamento de
Turismo.
A decoração
das ruas - Santo Antônio, Santa Cruz, Suzana Dias, Praça 14
de novembro e o trecho final da Bartolomeu Bueno - começa na noite
e madrugada anteriores ao dia da festa e se estende até a hora do
almoço do dia 21. Apenas a rua Coronel Raimundo e o trecho inicial
da rua Bartolomeu Bueno começam de manhã cedo. Durante a
noite e a madrugada são principalmente os jovens que trabalham,
inclusive alunos das várias escolas do município. A cidade
ganha então um ritmo completamente diferente do habitual: pessoas
circulando pelas ruas, grupos de serenata e garrafas térmicas de
café e quentão animando o trabalho.
Os
grupos, à exceção das escolas, são pequenos,
cinco ou seis pessoas por trechos de rua. A decoração começa
com a feitura do motivo principal que pode ser feito a partir de moldes
de madeira, de papel ou riscados no chão à mão livre
ou a partir de desenho prévio. O fundo do quadro é coberto
primeiro com serragem natural e depois com colorida; são usadas
duas qualidades, uma grossa e outars mais fina. A serragem é o elemento
básico utilizado na decoração além da farinha
de trigo, cascas de ovos, pó de café, papel crepom, tampinhas
de garrafas cobertas com papel laminado e outros.
De
manhã cedo, as barracas de comida e artesanato começam a
ser montadas. As de comida ocupam a Praça 14 de Novembro, as ruas
e as garagens das casas. Na maioria destas, vende-se doces caseiros. Na
praça, as barracas eram da Assistência Social e da Igreja.
Havia também barraquinhas da Santa Casa, do Centro Espírita
e do Teatro. As de artesanato, tanto de Parnaíba como de fora, tomam
conta da praça e da lateral da Igreja. Os trabalhos de Parnaíba
são feitos principalmente em crochê, retalhos, bonecas de
pano e artesanato em madeira; os de fora são os que habitualmente
estão presentes nas feiras do Embu e Praça da República:
"artesanato industrializado", posters, roupas em algodão cru e etc.
No
começo da tarde, tudo está pronto para a procissão.
Os turistas começam a chegar vindos principalmente de São
Paulo, Barueri e Osasco, assim como repórteres de jornal e televisão.
A cidade está cheia e todos passeiam observando os tapetes e consumindo
os produtos oferecidos nas barraquinhas. Às 16 horas, a banda da
cidade - "Corporação Musical Santa Cecília" - começa
a tocar em frente à Igreja, indo odos para lá aguardar a
procissão que sai às 16:30 horas.
A procissão
sai da Igreja com o padre, o prefeito e um senhor carregando o pálio;
a seguir a banda e, atrás, o povo. Durante todo o percurso, os turistas
se aglomeram nas calçadas, assistindo e/ou fotografando. A maioria
dos parnaibanos ou segue a procissão ou a vê passar da janela
de suas casas. As casas de fim de semana estavam abertas e com muita gente.
Muitas casas tinham suas janelas e sacadas enfeitadas com toalhas de crochê,
arranjo de flores e velas. Um altar, na calçada da rua Bartolomeu
Bueno, era também ponto de aglutinação do povo, já
que nesse local, todos os anos a procissão pára e o padre
faz uma breve benção.
O momento
máximo da festa é a procissão, cuja passagem desfaz
a decoração das ruas, o que marca o final da festa.
Festa
de Sant'Ana, Padroeira de Parnaíba
O
dia 26 de junho é feriado em Santana do Parnaíba: a cidade
celebra o dia de sua padroeira, mas as comemorações, em geral,
são transferidas para o fim de semana mais próximo. Este
ano foi no dia 29, sendo seus organizadores a Prefeitura e a Igreja.
Essa
festa, tradicional na cidade, é uma das mais antigas e justamente
por ser a da Padroeira, é uma das festas que mobiliza mais fortemente
os maradores. Antigamente durava vários dias; atualmente é
celebrada uma missa em louvor à Sant'Ana no dia 26 e, no domingo,
há procissão, missa campal, barraquinhas e música
na praça.
Esta
festa atrai poucas pessoas de fora, a maioria dos presentes é de
moradores da cidade, dos bairros próximos e da zona rural. A movimentação
tem início à tarde, quando as barraquinhas de comida e de
bebida já estão armadas e um alto falante começa a
tocar. Por volta das 16 horas, todos se aglomeram no Largo da Matriz. Sai,
então, a procissão tendo à frente os "Violeiros do
Brasil" - grupo de Osasco contratado para animar a festa -, a seguir a
imagem de São Sebastião ("ele tem que ir na frente para não
chover"), a imagem de Sant'Ana, o padre, as autoridade locais, a banda
da cidade e um grupo de fiéis. Por ser a procissão da Padroeira,
o percurso é maior, estendendo-se até o limite do Centro
com a Vila Nova.
Após
a procissão é realizada a missa campal, em frente à
Igreja, cantada pelo grupo de violeiros. Terminada a missa, a festa continua
na praça, onde os "Violeiros do Brasil" apresentam, no coreto, uma
série de cantores e duplas de viola, além de danças
folclóricas: Folia de Reis, quadrilha, catiriteiras e outras.
Outra
atração da praça é a barraquinha de leilão
de bonecas. Organizada pela Igreja - o padre compra e distribui as bonecas
entre as senhoras da cidade para que as vistam -, no dia da festa a barraca
é ponto de aglutinação das senhoras do Centro Histórico.
Também
em comemoração ao dia da Padroeira, o Museu esteve aberto
expondo trabalhos de artesanato em pano e retalhos de moradores da cidade.
Este
ano fazia muito frio no dia da festa e ainda assim era maciça a
presença de moradores da cidade, em particular os do Centro Histórico
(velhos principalmente). Os jovens ficaram na praça até por
volta de 19 horas quando foram para o clube, onde todos os domingos à
noite há "discoteque". Após a apresentação
dos violeiros, a banda ocupou o coreto até cerca de 21 horas, quando
todos se dispersaram e a festa terminou.
Festa
de aniversário da cidade
Dia
14 de novembro é um dia muito especial para os parnaibanos: comemora-se
o aniversário da cidade, é feriado e todos estão nas
ruas desde cedo.
A abertura
oficial das comemorações é às 6 horas com o
toque de Alvorada; às 8 horas, hasteamento das três bandeiras
- Nacional, Estadual e Municipal - e, em seguida, é celebrada
missa na Igreja Matriz.
Durante
todo o dia o Museu está aberto com exposição de quadros
alusivos à cidade.
A história
do município e suas principais personalidades são relembradas
pelos estudantes das escolas no desfile comemorativo. Este ano uma escola
escolheu como tema para o desfile as principais reivindicações
da cidade e do país: a poluição do rio, as carências
de infra-estrutura e saneamento básico, defesa da ecologia, eleições
diretas para Presidente da República etc.
As
autoridades assistem ao desfile em palanque armado na rua Suzana Dias.
Os moradores das ruas por onde o desfile iria passar disputavam os espaços
nas janelas e portas de suas casas, enquanto os outros se acotovelavam
pelas calçadas para aplaudir parentes e amigos que desfilavam.
Os
jovens dispensados do Serviço Militar são nesse dia convocados
para compromisso à Bandeira. O ato foi realizado, após o
desfile, com a presença de uma unidade do Exército.
Aos
poucos todos voltaram para suas casas com a lembrança do tempo antigo
em que, nas palavras de D. Nina, "tinha uma festa com comida e bebida de
graça para todo mundo". Hoje, apenas as autoridades são recepcionadas
com um coquetel. À noite há sessão solene na Câmara
Municipal e logo após o baile na quadra de futebol de salão
do Clube Atlético Santana, devidamente decorada com arranjos de
flores e guarnecida com um palco para a orquestra. O baile começa
por volta das 23:30 e vai até às 4 horas, com a presença
maciça de adolescentes e jovens da cidade, em grupos, ou acompanhados
pelos pais. Não há muitas pessoas de fora. O traje é
"passeio" e percebe-se também no baile - pelos comentários
que os moradores fazem acerca da festa - o mesmo clima, de comemoração
da data mais importante da cidade para os parnaibanos.
Festa
de São Sebastião e São Benedito
No
final de semana mais próximo ao dia 20 de janeiro, ocorre a festa
em homenagem a São Sebastião e São Benedito. Segundos
os depoimentos dos moradores, trata-se de uma "festa pequena", com pouca
participação e restrita aos moradores do Centro Histórico
e de Vila Nova, por isso o padre resolveu fazê-las num único
dia.
Tem
início entre 15: 30 e 16:00 horas com a celebração
de uma missa na Matriz.
Em
seguida, sai a procissão com as imagens de São Sebastião
e São Benedito, seguidas pelo padre e autoridades; poucas pessoas
acompanham.
Na
volta, quermesse na praça 14 de novembro, com apenas duas barracas
de comida de responsabilidade da Igreja. Às 19 horas, a banda começa
a tocar no coreto. A festa acaba por volta das 22:30 horas.
Festa
de 7 de Setembro
A
festa cívica em comemoração à Semana da Pátria
é organizada pela Prefeitura e escolas do município.
Às
8 horas, o prefeito, vereadores e personalidade convidadas abrem as solenidades
com o hasteamento das bandeiras do Brasil, São Paulo e Parnaíba
e hinos alusivos cantados por um grupo de estudantes, no Largo da Matriz.
A abertura é rápida e com poucas pessoas presentes; o tempo
não ajudou - frio e garoa - o que por pouco não impossibilitou
a saída do desfile.
Aos
poucos os alunos e familiares começam a chegar, as escolas mais
distantes vieram de ônibus.
A cidade,
calma e tranqüila, nesse dia fica diferente. Muita gente nas ruas,
principalmente pessoas dos bairros mais distantes que vieram para ver o
desfile em que participam amigos e familiares. É esse o motivo que
atrai as pessoas para a cidade. E por se tratar apenas de um desfile cívico,
que é realizado em todas as cidades, não há presença
de turistas.
O ponto
de chegada e encontro das escolas é na E. E. P. G. "Colasso", localizada
no centro da cidade. Na rua Suzana Dias fica instalado o palanque destinado
às autoridades locais e convidados - empresários da região,
o padre, os vereadores e secretários municipais.
Quando
cada escola desfila em frente ao palanque é feito um histórico
de sua origem: fundação da escola, descrição
do espaço físico, responsável pela realização
da obra e os benefícios concedidos à população.
Pais,
parentes e amigos dos estudantes postam-se nas calçadas para apreciar;
os moradores cujas casas estão situadas no trajeto do desfile, o
fazem de suas janelas. Os que desfilam, por sua vez, obedecem a uma hierarquia:
em destaque as balisas, porta-bandeiras e os que carregam as faixas. Atrás,
em fila, os alunos uniformizados marchando ao som de uma longínqua
fanfarra - é a última a passar - cuja marcação
quase não se ouve. Terminando o desfile, todos se retiram e voltam
para casa.
Festa
de São João da Vila Nova
A
festa de São João da Vila Nova - bairro próximo ao
Centro Histórico - ocorre durante e mês de junho, normalmente
até o dia 30, a não ser que haja algum impedimento pela realização
de outra festa no mesmo dia, dado o extenso calendário de festas
juninas da cidade. Considerada já uma tradição, esta
festa teve início em 1970 quando João Coelho, um jovem do
bairro, organizou com um grupo de amigos a primeira festa em homenagem
a seu santo de devoção. Com o auxílio de duas experientes
famílias de festeiros do bairro - Brandino e Vilar - e a solidariedade
dos moradores, a festa foi realizada.
O objetivo
inicial era de que os moradores da Vila Nova tivessem a sua própria
festa, já que todas as outras são realizadas no Centro Histórico.
Inicialmente não visava lucros mas apenas proporcionar um momento
de diversão.
A morte
de João Coelho, aliada ao seu desejo de construir uma capela no
bairro, fez com que as duas famílias citadas assumissem esse compromisso.
Dessa forma, a festa de São João passou a ter o objetivo
de arrecadar fundos para a construção da capela. Levou dez
anos para ser construída às custas de diversas doações
e devidamente administrada por uma diretoria.
Hoje,
a festa busca levantar fundos para a manutenção e reparos
finais de acabamento da capela. A responsabilidade pela capela e realização
da festa de São João é da família Brandino
e amigos. Para a organização da festa, as tarefas são
divididas e distribuídas no interior da família e vizinhança.
Os preparativos começam cerca de um mês antes da data da festa.
Na semana que antecede o evento, todos assumem suas tarefas e tem início
o trabalho definitivo: a arrecadação de prendas, os ensaios
da quadrilha, a preparação do quentão, a compra de
carne, etc. No entanto, é no dia anterior à festa que, sob
a coordenação de Cida - filha do Sr. Brandino - é
dado o impulso final. São formados diversos grupos: um que sai em
busca das últimas prendas como alimentos em conserva, bebidas, material
de limpeza, etc; outro, grupo, formado basicamente por mulheres,
dedica-se à limpeza e ornamentação da capela.
No
dia da festa, os homens erguem as barracas, o pau de sebo, encarregando-se
da iluminação e da fogueira, enquanto as mulheres preparam
o andor para a procissão e enfeitam as barracas.
Às
19 horas, começam os festejos. Com a ajuda simbólica de todos
- cada um dá três batidas - o Sr. Brandino levanta o mastro
com a bandeira do santo. As mulheres saem da capela carregando o andor,
dando início a procissão saudada por rojões durante
todo o percurso. O destino é a bica, de onde é retirada a
água para lavagem da imagem; com a água que sobra, agora
"benta", todos se persignam. Na volta é rezada a missa no interior
da capela.
Finda
a cerimônia religiosa, os mais velhos se retiram. "A missão
está cumprida", afirma o festeiro. Aos poucos as pessoas - basicamente
moradores de Vila Nova, de Pirapora, de Barueri e alguns do Centro Histórico
- vão chegando; circulam entre barracas de churrasco e quentão,
o pau de sebo, a fogueira e os sanfoneiros, enquanto aguardam a quadrilha.
"Esse ano foi fraca, porque não deu prá ensaiar direito",
nos disse Cida.
Fazia
muito frio e quando o quentão acabou, todos foram se dispersando
com o compromisso de voltarem no próximo ano.
Romaria
de Santo Antônio do Suru
A
romaria de Santo Antônio do Suru é muito antiga: existe com
certeza desde o começo do século, com alguns períodos
de interrupção (1972 a 1974). Consiste em levar a imagem
de Santo Antônio da Igreja Matriz até a capela do bairro do
Suru (bairro rural distante - 6 km do Centro).
A festa
tem sido organizada, nos últimos dez anos, por uma família
residente no Centro Histórico. É essa família que
providencia as prendas para o leilão e cuida de todos os detalhes:
instalação elétrica e de som para animar a festa,
bandeirinha em volta da capela e no terreiro, e os sanduíches de
carne desfiada que são servidos para os amigos e a família.
Apenas a decoração da capela fica a cargo de uma senhora
que mora no Suru.
A festa
teria início às 8 horas com a saída da romaria da
Matriz. Esse ano não houve romaria por falta de participantes; apesar
de lembrada nos depoimentos de antigos moradores, essa festa tem se esvaziado
progressivamente nos últimos anos. Mesmo assim, as pessoas
- a maioria sitiantes da região que vinham a pé, e algumas
famílias residentes no Centro - foram chegando para assistir a missa:
é o único dia do ano que essa cerimônia religiosa é
celebrada na capela. Terminado o ato litúrgico, uma senhora distribuía
pães a todos - o ritual de Santo Antônio, que garante fartura
durante o ano todo; a maioria dos moradores do sítio voltou para
casa após a missa.
Durante
o dia todo um aparelho de som tocava músicas juninas e carnavalescas,
rojões eram estourados e as crianças se divertiam com o sorteio
das prendas: bebidas, alimentos em conserva, latas de doce, frango assado,
utensílios de plástico, brinquedos etc. Havia também
duas barracas, uma como bebidas (refrigerantes, batidas e cervejas) e outra
de comidas (cachorro-quente e salgadinhos).
Os
adultos conversavam em grupos, por família, ou homens e mulheres
separados. O festeiro comportava-se como coordenador da festa, circulando
todo o tempo, observando e trabalhando para que tudo funcionasse corretamente.
Apenas duas famílias almoçavam no morro próximo, seguindo
a tradição dessa festa, de fazer "pic-nic".
Às
17 horas já não havia mais ninguém. Alegando cansaço,
muito trabalho e pouca cooperação por parte dos moradores,
a família responsável pela Romaria do Suru afirmou não
estar mais disposta a organizar a festa nos próximos anos.
Festa
de São João, de Joãozinho Chaves
A
festa de São João, realizada no sitio da família Chaves,
no final do mês de junho, acontece há mais de cem anos. Em
cada geração há um "João" que fica responsável
pela festa em hora ao Santo. Isto significa arcar com todos os custos -
comida e bebida, conjuntos de violeiros e sanfoneiros que animam o baile
- além da obrigação de enfeitar o local dos festejos.
O sítio
fica distante 2 km do Centro e a festa é celebrada num galpão
próximo à casa onde habitualmente são guardadas as
máquinas agrícolas, e num espaço aberto contíguo
ao galpão. Esse último é decorado com bandeirinhas
coloridas e arranjos de folhas de palmeiras.
O ritual
começa com o levantamento do mastro às 20 horas, e várias
pessoas ajudam a erguê-lo, fazendo pedidos, como manda a tradição;
uma espiga de milho é amarrada ao mastro para garantir fartura no
próximo ano. Por volta de 21 horas, chegam os rezadores, residentes
no bairro de Suru. Um altar com a imagem de São João já
está colocado e enfeitado no fundo do galpão. A reza - o
terço caipira - dura cerca de uma hora. Toda a família Chaves
e os sitiantes presentes acompanham a reza, ajoelhados, com muita seriedade.
Os demais - pessoas da Vila Nova, Barueri e Osasco, principalmente - ficam
mais distantes, em pé, conversando. Finda a cerimônia é
servido café preto com mandioca cozida a todos os presentes.
Uma
pessoa da família, o animador da festa, sobe ao palanque armado
para os músicos e abre o baile, recomendando que uma vez feita a
devoção, "agora é hora de divertimento e a festa esse
ano, como todas, é uma festa familiar e ordeira". No entanto, logo
a seguir, anuncia ter pedido policiamento para evitar brigas como sucedem
em ocasiões anteriores.
Na
ausência da mãe do Joãozinho, que estava doente, o
baile é aberto com uma valsa dançada pelo animador e sua
filha. Dois conjuntos se revezam tocando forró nordestino. A "temperatura"
- bebida fria, feita com pinga, açúcar queimado, gengibre,
noz moscada, hortelã, folha de lima, cravo e canela - e os sanduíches
de carne desfiada com molho de tomates começam a ser servidos.
Todos
dançam e há troca constante de pares que vão girando
dando a volta no salão; quem fica em torno permanece conversando,
paquerando e aguardando sua vez de dançar (mulheres), ou escolhendo
seu par (homens). Durante todo o tempo o animador vai brincando com os
presentes, saudando alguma autoridade ou algum convidado especial. O final
da festa é marcado todo ano para às 4 horas da manhã,
mas normalmente se prolonga até 5 ou 6 horas.
Carnaval
O
carnaval em Santana de Parnaíba é uma festa tradicional e
bastante conhecida na região (Barueri, Osasco e Pirapora).
A abertura
é, há mais de cem anos, na sexta-feira à noite com
o "Bloco dos Fantasmas" e o "Grito da Noite". Este último é
o grupo que vai puxando o samba com temas improvisados, geralmente sobre
personagens e situações do cotidiano da cidade. Atrás
do "Grito" vem o "Bloco dos Fantasmas", onde todos participam vestidos
com mortalhas brancas, caveiras e máscaras na cabeça ou com
fantasias de terror. O importante é não ser reconhecido.
O primeiro grupo de "fantasmas" sai por volta das 22 horas do Museu, no
Largo
da Matriz. Aos poucos, vários outros "fantasmas" vão, de
todas as partes da cidade - inclusive do cemitério - engrossando
o bloco.
No
"Bloco dos Fantasmas" todos participam: velhos, mulheres, crianças,
moradores do Centro Histórico, da Vila Nova, vindo também
muitos turistas de São Paulo e das cidades próximas para
assistir e fotografar.
Nos
outros dias de carnaval, três eventos se realizam: o baile no clube,
o baile na rua e o desfile das escolas de samba, no domingo e na terça-feira.
Para
o carnaval no Clube Atlético Santana é contratado um conjunto
de fora. O baile é bastante "animado", na opinião dos participantes,
indo das 23 até às 4 horas da manhã.
Na
Praça 14 de Novembro é realizado o baile, de rua, promovido
pela Prefeitura e animado pela banda da cidade. O baile começa às
19:30 horas, vai até meia noite, e normalmente é uma opção
para aqueles que não podem pagar o ingresso para o baile do clube,
assim como para as crianças.
A organização
e preparação do desfile ficam por conta da Prefeitura e do
Clube. São duas as escolas de samba da cidade: a "Unidos de Parnaíba",
subvencionada pela Prefeitura e a do "Clube Atlético Santana". É
o Departamento de Turismo que idealiza a decoração das ruas,
contrata a costureira e providencia as verbas para a compra de material
para as fantasias.
Às
16:30 horas sai o desfile com a "Unidos" na frente e a escola do C.A.S.A.
a seguir. Nessa hora, as calçadas estão cheias de turistas
e os moradores do Centro aguardam na janela de suas casas a passagem do
desfile. A "Unidos" é a escola maior, com a ala das crianças,
das mulatas, bloco de moças, bloco dos rapazes (este ano não
saiu), rainha da bateria, bateria, porta-bandeira, mestre sala, rainha
e rei momo. A maior parte dos integrantes dessa escola é da Vila
Nova, além de alguns amigos de São Paulo, Barueri e Osasco
(este ano metade da bateria era da Oba-Oba de Barueri.
A escola
do C.A.S.A. sai com o bloco das casadas, o bloco das moças (este
ano não saiu), porta-bandeira, mestre-sala, bateria e destaques.
Nessa escola a maior parte dos participantes é do Centro Histórico
e das famílias tradicionais da cidade
.