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SANTANA
DE PARNAÍBA: MEMÓRIA E COTIDIANO
José
Guilherme Cantor Magnani
Continuação
Vila
Nova: os “de dentro”
A pesquisa
de campo em Vila Nova foi desenvolvida paralelamente à do Centro
Histórico, com o objetivo de servir de contraponto àquele.
E também aqui, era o ser “de dentro” ou “de fora” que explicava
a formação dos grupos e das diferentes representações
que elaboravam sobre o patrimônio, a preservação
e a cidade. Os “de dentro” eram parnaibanos que, por problemas de
herança aliada à especulação imobiliária,
foram “expulsos” do centro. Os “de fora” eram pessoas oriundas da área
rural e urbana das cidades vizinhas e de São Paulo. No geral eram
trabalhadores sem ou com pequena qualificação profissional.
Conversar
com esses parnaibanos sobre a cidade significava recuperar fragmentos
de sua história, trazidos à memória quando descreviam
o cotidiano, as festas, a vida na cidade:
“Antes
o pessoal não precisava de nada, era mais animado. A cidade era
muito melhor que agora. No tempo do padre Bruno e Anacleto tinha muita
festa. Começava na Sexta-feira. Tinha pau de sebo, ovo na colher,
corrida, tinha muita coisa, congada, Antigamente a banda ia na casa dos
festeiros chamando para a missa. Tinha bastante festeiro. A gente morava
no sítio, se pintava com essas bandeirinhas de festa que a gente
guardava, molhava e passava no rosto. Ficava parecendo um macaco.” (D.
Cecília – parnaibana, mais ou menos 60 anos, há 20 anos mora
na Vila Nova)
Assim,
para estes parnaibanos, a cidade antes era muito animada, havia muitas
festas, todo mundo participava e os próprios padres contribuíam
para que elas se realizassem. Até o pessoal do sítio vinha
para a cidade nesses dias para as festas do Divino, “Corpus Christi”, festa
de Sant’Ana, festas juninas etc. quando Parnaíba era praticamente
auto-suficiente. A economia de subsistência aliada a alguns estabelecimentos
comerciais asseguravam o abastecimento para uma população
composta por poucas famílias.
“Antigamente
era só as famílias daqui, todo mundo se conhecia. Eu sou
daqui, minha família toda, também. Meu marido não;
é de fora.” (D. Antonieta, parnaibana, 50 anos, nasceu e foi criada
no Centro e há 4 anos mora em Vila Nova)
Para
esses parnaibanos da Vila Nova, a importância da cidade estava, como
no Centro Histórico, centrada na participação das
famílias, nas festas. A especificidade que se observava no discurso
deles, contudo, era em relação ao patrimônio
edificado.
Diferentemente
dos do Centro, descreviam as casas e acompanhavam as transformações
e reformas por que passaram, mesmo após tê-las vendido. Assim,
o Centro era valorizado e apropriado apenas através dos laços
afetivos que ainda os uniam a esse espaço, o que era transmitido
por várias gerações no interior de uma família.
A
sensação irremediável de perda e a necessidade de
tornar presente aquilo que deixou de existir, conservando pelo menos na
memória o espaço privado de sua família, levava-os
a acompanhar, a controlar até, as modificações que
suas antigas casas foram ou iam sofrendo.
“Eu
morei lá na cidade, na casa que hoje é do Paul. Saí
daquela casa porque, quando meus pais morreram, eu não tinha
condições de comprar a parte de meu irmão e nem ele
a minha. Sabe, é casa histórica, tem um valor muito
grande. Se não fosse isso eu continuava morando lá até
hoje. Tem paredes de taipa, bem grossas, cômodos enormes, era uma
beleza. A cozinha era dentro e o banheiro fora. Quem vê a fachada
não dá nada pela casa, mas se você entrar... imagina
que hoje tem até piscina. Eu acho que Parnaíba tem que ser
preservada. Eu gosto muito daqui e acho que a cidade tem que ficar como
está. Não deviam nem ter deixado construir umas casas modernas
lá no Centro.” (D. Antonieta)
Para
os parnaibanos que vieram do sítio para a Vila Nova e que, portanto,
não possuíam casas no Centro Histórico, a Vila Nova
aparecia como sendo o espaço privilegiado da cidade, já que
eles não tinha vínculos estreitos com aquelas famílias
cuja história e identidade estava plasmada no Centro Histórico.
“O
centro é muito parado. Ficam todas as casas fechadas. De noite não
dá prá andar lá. Dá medo. Não tem gente
nas ruas, não tem nada lá, tá morto, parece. Aqui
não; tem gente na rua, tem televisão ligada, tem música,
tem crianças. Daqui a alguns anos dizem que o centro da cidade será
aqui.” (D. Cecília)
Vila
Nova: Os “de fora”
No
discurso dos “de fora” o que aparecia eram as condições
de vida, semelhantes às da periferia dos grandes centros urbanos:
faltavam transporte, hospital, escolas e água; as vias públicas
eram mal conservadas, os moradores só conseguiam construir suas
próprias casas nas horas vagas, havia problema de desemprego, segurança
etc. Era pois um discurso centrado na percepção das carências
do bairro e, portanto, radicalmente diferente dos depoimentos dos
“de dentro”.
“Não
dá prá aceitar que uma cidade tão velha que dizem
que D. Pedro morou, não tenha hospital, escola, ônibus, água.
Osasco, Barueri, Carapicuíba, que são bem mais novas que
Parnaíba, que pertenceram a Parnaíba, tem tudo isso. Agora,
aqui não.” (Ângelo, 25 anos, há 2 anos em Vila Nova)
No
caso desses moradores, isso ocorria em virtude de suas histórias
de vida, suas relações familiares e afetivas estarem associadas
a outras cidades. Dessa forma, Parnaíba surgia sempre numa visão
comparativa com experiências anteriores. Na tentativa de solucionar
os problemas do bairro e melhorar suas condições de vida,
tomaram várias iniciativas: abaixo-assinados, protestos diante da
prefeitura etc. Ao mesmo tempo em que contavam isso, ia se delineando a
imagem que os “de fora” de Vila Nova tem dos parnaibanos:
“Eu
estava pensando em criar uma Sociedade ou Associação Amigos
do Bairro. Lá em São Paulo, em todo bairro tem, e o pessoal
vai mesmo para as Secretarias reclamar. E acabam resolvendo o problema.
Mas o pessoal daqui é muito parado.” (Rita, 18 anos, há três
anos mora em Vila Nova)
À
imagem do parnaibano acomodado, passivo, acrescentava-se a resistência
que manifestavam contra os “de fora”.
“Quando
eu cheguei aqui, foi difícil me entrosar com os parnaibanos. São
muito desconfiados. Parece que acham que a gente vem aqui se aproveitar
deles. Depois de algum tempo, quando descobriram que eu não
era nenhum monstro, começaram a me aceitar. Antes era mais difícil.”
(Ernesto, 35 anos, há 7 anos mora na Vila Nova)
Para
eles, o centro era a passagem para o trabalho ou para a escola em Osasco,
e o local onde encontravam serviços públicos e as poucas
opções de lazer que podiam usufruir: o bar, a praça.
O ponto de referência dominante continuava centrado nas carências
do bairro, ainda que com algumas alusões esparsas sobre o tombamento
ou o valor histórico da cidade:
“Com
esse negócio de tombar a cidade, ninguém mais pode alugar
casa lá. E prá comprar muito menos. Pobre não
pode morar em Parnaíba. Prá mim não interessa se essa
cidade é histórica ou não. O que adianta ela ser antiga
se não existem condições pra população?
E o povo daqui também não dá valor prá nada.”
(Ângelo)
Assim,
também na Vila Nova confirmava-se a hipótese inicial, a da
heterogeneidade da população ligada à existência
de significados diferenciais. Os “de dentro”, da Vila Nova, compartilhavam,
com os parnaibanos do centro, as mesmas representações: o
orgulho de ser parnaibano, o forte sentimento de pertencimento à
cidade e a percepção das transformações profundas
na dinâmica de Parnaíba, que era só das famílias.
Os “de fora”, os novos segmentos de população que se fixaram
na Vila Nova, elaboravam uma imagem radicalmente diferente da cidade, centrada
no bairro e suas carências, já que não possuíam
nem a história familiar nem tinham acesso à história
mais ampla para valorizar a cidade com outros critérios.
Visões
da cidade
Com
base nas entrevistas, conversas e contatos, foi possível detectar
uma regularidade no discurso dos “de dentro”: o que eles valorizavam
eram os costumes, lembranças e relações sociais
referidos a um tempo em que ‘Parnaíba era da gente...’ Nesse
sentido, as festas surgiam com grande destaque como momentos
de expressão, concretude e atualização daquelas
relações, quando então era possível voltar
a apropriar-se da cidade e dos espaços públicos em destaque:
as três ruas – a de cima, a de baixo e a do meio – a praça
e a Igreja. Esse era também um dos códigos de entrada
no mundo parnaibano, era no domínio público que se admitiam
os de fora, dificilmente no âmbito do privado.
Fora
do calendário de festas, o cotidiano da cidade acontecia entre as
famílias, no interior das casas, herança de várias
gerações, a que só têm acesso os parentes: “Eles
vêm na sua casa, conversam, mas não te convidam prá
ir na casa deles”, diziam os “de fora”. A casa era, portanto, o espaço
onde se encastelam e se defendem dos “de fora”. Se já não
são efetivamente os “donos da cidade”, porque havia outros grupos
disputando o domínio das relações e controlando alguns
setores da vida social, é no âmbito da casa, entretanto,
que esse domínio continuava existindo, pois nela não permitiam
nem a entrada, nem a interferência dos “de fora”. A casa é
o símbolo que restou dessa tradição, que se legitima
na descendência dos fundadores da cidade.
Por
conseguinte, não era tanto o valor histórico-arquitetônico
das edificações que orientava a visão de cidade e
patrimônio desse segmento. A história que permeava seu sistema
de valores e visão era antes uma história familiar,
portanto restrita, que não passava por um conhecimento mais especializado.
Apenas os parnaibanos que saíram da cidade e voltaram e os
da Vila Nova que foram expulsos do Centro é que somavam à
casa esse valor, ainda que de forma secundária, e isso se
devia à possibilidade de comparação com outras
cidades.
Os
termos mais utilizados para designar o patrimônio eram “antigüidade”
e “tradição”. Alguns não diferenciavam o CONDEPHAAT
do IPHAN, referindo-se apenas ao “patrimônio”; o tombamento
era pouco compreendido: há quem pensasse ser uma lei municipal
aprovada pela Câmara abrangendo apenas a igreja
ou as duas casas bandeiristas tombadas pelo IPHAN. As poucas referências
a um cuidado e atendimento às normas do tombamento se restringiam
à conservação das fachadas. Os que tinham um maior
conhecimento do CONDEPHAAT eram justamente os que tinham tido problemas
com reformas em suas casas e para eles a imagem era negativa, caracterizada
pela ineficiência, demora e tratamento desigual: “implicam
com umas coisinhas de nada e deixam passar coisas mais graves”. Ou então
não entendiam a existência de um órgão preocupado
com “antiguidades” nos dias de hoje: “... eu não entendo isso, tanta
coisa acontecendo, o mundo tão mudado, não sei como é
que sobrou o CONDEPHAAT, eu não entendo...”
O
“ser parnaibano”– apesar das especificidades advindas seja da condição
de classe, faixa etária ou de expectativas de vida diferentes relacionadas
à cidade – traduzia-se na tentativa de manutenção
da identidade desse segmento face às transformações
pelas quais a cidade vinha passando nas últimas décadas.
A integração progressiva da cidade à Grande São
Paulo, com todas as mudanças já citadas: ingresso de novos
segmentos da população, formação de novos bairros,
especulação imobiliária etc., tinha gerado alterações
profundas na composição social da cidade. “Ser parnaibano”
era quem, por oposição, definia o outro – os “de fora” –
artistas, estrangeiros, operários, comerciantes e professores.
Para
os “de fora”, residentes no Centro Histórico, a cidade existia e
tinha importância enquanto patrimônio edificado. É um
atributo importante tanto para aqueles que investiram muito na restauração
de suas casas como para os que contavam com a implementação
do turismo na cidade para divulgação e ampliação
de suas atividades. Assim valorizavam a cidade tanto por causa da tranqüilidade
e proximidade com São Paulo, como por seu patrimônio histórico
e arquitetônico. Conheciam o órgão de preservação
que atuava na cidade e na maior parte das vezes cobravam uma atuação
mais rígida de fiscalização e a necessidade de um
programa educativo para a população.
É
importante destacar, entretanto, que mesmo para os “de fora” a concepção
do que seja preservar era diversa da do órgão e às
vezes conflitante com ela. Assim por exemplo, um dos estrangeiros demoliu
uma das duas casas antigas que comprou, construindo uma nova, imitando
a demolida e restaurou outra às custas de destelhar onze casas de
zona rural. Também a idéia de que o tombamento e a preservação
se resumiam apenas à fachada das casas era generalizada tanto para
os “de fora” como para os parnaibanos.
Para
os “de fora” residentes na Vila Nova, que ali se fixaram em função
das exigências do mercado de trabalho e que eram trabalhadores sem
ou com pequena qualificação profissional, a representação
da cidade estava plasmada no bairro e o dominante no discurso eram as reivindicações
de melhorias na infra-estrutura do bairro – água, esgoto, asfalto
etc.: o Centro Histórico era apenas a passagem para o trabalho ou
o local onde estão os serviços públicos.
A
observação dos casos atendidos no escritório do CONDEPHAAT
confirmou as questões levantadas na pesquisa. Assim, apesar do esforço
por parte dos técnicos para justificar a importância
de manter as características originais das casas e, nos
casos de reforma ou ampliação, proceder de maneira criteriosa
a fim de não comprometer o valor do imóvel – inúmeras
vezes os proprietários se opuseram à orientação
dada e cederam apenas em parte em suas intenções iniciais.
A casa é o domínio do privado, aí não aceitam
interferências.
Outro
dado interessante que foi possível observar foi em relação
a algumas pessoas que, anos atrás, fizeram reformas descaracterizadoras
das casas como, por exemplo, trocar janelas por vitrôs e hoje querem
retornar ao “antigo”, ao original. A valorização do “antigo”
vai pouco a pouco ganhando terreno na cidade, não em função
do valor histórico arquitetônico das casas, mas em função
do valor comercial que elas passaram a ter em função da especulação
imobiliária surgida principalmente devido à procura de pessoas
de fora, “pelo charme que as casas antigas têm”. Assim mesmo nas
novas construções, todos queriam o “estilo colonial”, já
incorporado pela indústria da construção.
Enfim,
conclui-se que o que estava em jogo era a questão da apropriação
da história e as maneiras pelas quais essa apropriação
se dava. De um lado estavam os parnaibanos cuja identidade está
colada à história familiar e que tentavam ainda manter um
controle, rejeitando os de fora, cuja vinda para a cidade era associada
à destruição de estilo e vida tradicional. Para esse
segmento, o patrimônio edificado, tanto as casas com o as edificações
públicas, tinham valor enquanto referido à história
das famílias, faltando-lhes um contexto mais amplo que lhes permitiria
entender e até mesmo valorizar os bens culturais com os critérios
institucionais da preservação.
De
outro, estavam os “de fora” que atribuíam à ignorância
dos parnaibanos o descaso pela preservação e que justamente
por manipularem e terem acesso a um conhecimento mais especializado, valorizavam
o patrimônio edificado com os critérios que se aproximavam
aos dos órgão de preservação, ainda que as
atitudes de preservar se mostrassem às vezes contraditórios
aos interesses do órgão, já que a preocupação
que norteava esse grupo era, principalmente, ditada por sua visão
particular, pressupondo dividendos pessoais na preservação
dos imóveis ou da cidade. Esse grupo acabava tendo, portanto, a
mesma percepção que se pôde observar na maior parte
das intervenções dos órgãos de preservação:
valorizar o objeto, por si mesmo, sem levar em conta os significados projetados
no bem e sua inserção no tecido social.
As
Festas
Tendo
em vista a freqüência e destaque com que o tema das festas apareceu,
de diferentes maneiras, no discurso dos moradores, e ao seu caráter
público, em oposição aos valores ligados à
vivência do domínio doméstico, no interior das casas,
essas celebrações, profanas e religiosas, terminaram constituindo
um espaço privilegiado para o andamento da pesquisa. A primeira
tarefa foi identificar o calendário festivo anual para, na continuação,
fazer a observação de cada uma delas. Esse ciclo era constituído
por festas que celebram desde momentos de significação mais
ampla como o Corpus Christi, o Sete de Setembro e o Carnaval, até
comemorações mais restritas ou rurais, como a festa de São
João, de Joãozinho Chaves e a Romaria de Santo Antônio
do Surú, passando por festas religiosas e de marcos significativos
para a cidade, como a Festa de Santa Ana e o aniversário da cidade.
Em
ordem cronológica elas se distribuíam a seguinte maneira:
São Sebastião e São Benedito em janeiro; Carnaval;
Santo Antônio do Surú (17/06); Corpus Christi (21/06); São
João, de Joãozinho Chaves (30/06); Festa de São João
da Vila Nova (final de junho); Festa de Sant’Ana (29/07); Sete de Setembro
e Aniversário da Cidade (14/11).Por razões de espaço
serão apresentadas aqui apenas Corpus Christi, o Carnaval e a Festa
da Padroeira.
Descrição
Corpus
Christi:
A
festa de Corpus Christi é realizada em Parnaíba há
muito tempo, havendo registros em documentos até do século
XVII. A maneira tradicional de enfeite da cidade era jogar flores e ervas
aromáticas nas ruas por onde a procissão passava. Sua forma
atual, com tapetes de serragem colorida decorando as ruas é, entretanto,
bastante recente. Por volta dos anos 60, uma professora vinda de Itu introduziu
essa técnica de enfeite e, a partir de então, todas as festas
foram feitas assim.
A
festa é organizada pela prefeitura, pelos moradores e pela igreja,
cabendo à primeira tingir a serragem e distribuí-la; aos
moradores a decoração das ruas, que compreende a definição
dos temas e desenhos e a escolha de pessoas para ajudar a fazer o trabalho;
à igreja, a organização e a realização
da missa e da procissão
A
preparação da festa que foi objeto de observação
para a pesquisa
começou mais ou menos dez dias antes, com a tintura da serragem,
feita por funcionários da Prefeitura em uma pracinha em frente ao
Largo São Bento. Durante esse período também foram
feitas reuniões na prefeitura com os responsáveis por rua
para saber a quantidade de serragem, nas diferentes cores que cada um iria
precisar. Também os moldes de madeira ou de papel que iriam ser
utilizados para os desenhos, foram feitos alguns dias antes. As barraquinhas
a ser montadas no dia da festa foram fornecidas pela prefeitura e os responsáveis
se inscreveram no Departamento de Turismo.
A
decoração das ruas centrais – Santo Antônio,
Santa Cruz, Suzana Dias – da Praça 14 de novembro e o trecho
final da Bartolomeu Bueno começou na noite e madrugada anteriores
ao dia da festa e se estendeu até a hora do almoço do dia
seguinte. Apenas a rua Coronel Raimundo e o trecho inicial da rua Bartolomeu
Bueno começaram de manhã cedo. Durante a noite e a madrugada
foram principalmente os jovens que trabalharam, inclusive alunos
das várias escolas do município quando então a
cidade ganhou um ritmo completamente diferente do habitual: pessoas circulando
pelas ruas, grupos de serenata e garrafas térmicas de café
e quentão animando o trabalho.
Os
grupos, à exceção das escolas, eram pequenos, com
cinco ou seis pessoas por trechos de rua. A decoração começou
com a feitura do motivo principal que pode ser feito a partir de moldes
de madeira, de papel ou riscados no chão à mão livre
ou a partir de desenho prévio. O fundo do quadro foi coberto primeiro
com serragem natural e depois com colorida; foram usadas duas qualidades,
uma grossa e outra mais fina. A serragem é o elemento básico
utilizado na decoração além da farinha de trigo, cascas
de ovos, pó de café, papel crepom, tampinhas de garrafas
cobertas com papel laminado e outros.
De
manhã cedo, as barracas de comida e artesanato começaram
a ser montadas. As de comida ocupavam a Praça 14 de Novembro, as
ruas e as garagens das casas. Na maioria destas, vendiam-se doces caseiros.
Na praça, as barracas eram da Assistência Social e da igreja.
Havia também barraquinhas da Santa Casa, do Centro Espírita
e do Teatro. As de artesanato, tanto de Parnaíba como de fora, tomavam
conta da praça e da lateral da igreja. Os trabalhos de Parnaíba
eram feitos principalmente em crochê, retalhos, bonecas de pano e
artesanato em madeira; os de fora, aqueles habitualmente presentes
nas feiras do Embu e Praça da República, o chamado “artesanato
industrializado”.
No
começo da tarde a cidade já estava cheia e todos -
turistas, vindos principalmente de São Paulo, Barueri e Osasco,
moradores, assim como os habituais repórteres de jornal e
televisão - passeavam observando os tapetes e consumindo
os produtos oferecidos nas barraquinhas. Às 16 horas, a banda da
cidade – “Corporação Musical Santa Cecília” – começou
a tocar em frente à Igreja, de onde sairia procissão
às 16:30 horas, composta pelo padre, o prefeito e um senhor carregando
o pálio; a seguir a banda e, atrás, o povo. Durante todo
o percurso, os turistas se aglomeravam nas calçadas, assistindo
e/ou fotografando, enquanto a maioria dos parnaibanos ou seguia a procissão
ou a via passar da janela de suas residências. As casas de fim de
semana estavam abertas e com muita gente. Muitas tinham suas janelas e
sacadas enfeitadas com toalhas de crochê, arranjo de flores, imagens
e velas. Um altar, na calçada da rua Bartolomeu Bueno, era também
ponto de aglutinação já que nesse local
é costume a procissão parar e o padre fazer uma breve benção.
O
momento máximo é a procissão, cuja passagem
desfaz a decoração das ruas, o que marca o final da festa.
Festa
de Sant’Ana, Padroeira de Parnaíba
O
dia 26 de junho é feriado em Santana do Parnaíba: a cidade
celebra o dia de sua padroeira, mas as comemorações, em geral,
são transferidas para o fim de semana mais próximo. Essa
festa, tradicional na cidade, é uma das mais antigas e justamente
por ser a da Padroeira, é uma das que mobiliza mais fortemente os
moradores “de dentro”. Em tempos idos durava vários dias;
mais recentemente é celebrada uma missa em louvor à Sant’Ana
no dia 26 e, no domingo, há procissão, missa campal, barraquinhas
e música na praça.
Essa
festa atrai poucas pessoas de fora, a maioria dos presentes é de
moradores da cidade, dos bairros próximos e da zona rural. N ano
em que a pesquisa foi realizada, a movimentação maior teve
início à tarde, quando as barraquinhas de comida e de bebida
já estavam armadas e um alto falante começou a tocar. Por
volta das 16:00, todos se aglomeraram no Largo da Matriz. Saiu, então,
a procissão tendo à frente os “Violeiros do Brasil”
– grupo de Osasco contratado para animar a festa –, a seguir a imagem de
São Sebastião (“ele tem que ir na frente para não
chover”), a imagem de Sant’Ana, o padre, as autoridade locais, a banda
da cidade e um grupo de fiéis. Por ser a procissão da Padroeira,
o percurso é maior, estendendo-se até o limite do Centro
com a Vila Nova.
Após
a procissão foi realizada a missa campal, em frente à igreja;
a seu término, a festa continuava na praça, onde os
“Violeiros do Brasil” apresentaram uma série de cantores e duplas
de viola no coreto, onde, ademais, ocorreram danças
tradicionais como Folia de Reis, quadrilha, catiras etc. Outra atração
da praça foi a barraquinha de leilão de bonecas. Organizada
pela igreja – o padre comprara e distribuíra as bonecas entre
as senhoras da cidade para que as vestissem –, no dia da festa a barraca
foi ponto de aglutinação no Centro Histórico.Também
em homenagem ao dia da Padroeira, o Museu esteve aberto expondo trabalhos
de artesanato em pano e retalhos de moradores da cidade.
No
ano em que a pesquisa foi realizada fazia muito frio no dia da festa e
ainda assim era maciça a presença de moradores da cidade,
em particular os do Centro Histórico (os mais velhos, principalmente).
Os jovens ficaram na praça até por volta de 19:00 quando
foram para o clube, onde todos os domingos à noite há um
balada. Após a apresentação dos violeiros, a banda
ocupou o coreto até cerca de 21:00, quando todos se dispersaram
e a festa terminou.
Carnaval
O
carnaval em Santana de Parnaíba é uma festa tradicional e
bastante conhecida na região, principalmente em Barueri, Osasco
e Pirapora. A abertura é, há mais de cem anos, na sexta-feira
à noite com o "Bloco dos Fantasmas" e o "Grito da Noite". Este último
é o grupo que vai puxando o samba com temas improvisados, geralmente
sobre personagens e situações do cotidiano da cidade. Atrás
do "Grito" vem o "Bloco dos Fantasmas", em que todos participam vestidos
com mortalhas brancas, caveiras e máscaras ou com fantasias de terror;
o maior cuidado é não ser reconhecido. O primeiro grupo de
"fantasmas" saiu, no ano de realização da pesquisa,
por volta das 22:00 do Museu, no Largo da Matriz. Aos poucos, vários
outros "fantasmas" , de todas as partes da cidade – inclusive do
cemitério – foram engrossando o bloco.
No
"Bloco dos Fantasmas" todos participaram: velhos, mulheres, crianças,
moradores do Centro Histórico, da Vila Nova. Nos outros dias de
carnaval, três eventos se realizaram: o baile no clube, o baile na
rua e o desfile das escolas de samba, no domingo e na terça-feira.
Para o carnaval no Clube Atlético Santana foi contratado um conjunto
de fora; o baile é bastante animado, na opinião dos participantes,
indo das 23 até às 4 horas da manhã.
Na
Praça 14 de Novembro foi realizado o baile de rua, promovido pela
prefeitura e animado pela banda da cidade. O baile começou às
19:30 horas, indo até meia noite, e normalmente é uma opção
para aqueles que não podem pagar o ingresso para o baile do clube,
assim como para as crianças.
A
organização e preparação do desfile ficaram
por conta da prefeitura e do Clube. Eram duas as escolas de samba da cidade:
a "Unidos de Parnaíba", subvencionada pela prefeitura e a do "Clube
Atlético Santana". Foi o Departamento de Turismo que idealizou
a decoração das ruas, contratou a costureira e providenciou
as verbas para a compra de material para as fantasias.
Às
16:30 horas saiu o desfile com a "Unidos" na frente e a escola do C.A.S.A.
a seguir. Nessa hora, as calçadas estavam cheias de turistas e os
moradores do Centro aguardavam nas janelas de suas casas a passagem do
desfile. A "Unidos" era a escola maior, com a ala das crianças,
das mulatas, bloco de moças, bloco dos rapazes, rainha
da bateria, bateria, porta-bandeira, mestre sala, rainha e rei momo. A
maior parte dos integrantes dessa escola era da Vila Nova, além
de alguns amigos de São Paulo, Barueri e Osasco. A escola do C.A.S.A.
saiu com o bloco das casadas, o bloco das moças porta-bandeira,
mestre-sala, bateria e destaques. Nessa escola a maior parte dos participantes
era do Centro Histórico e das famílias tradicionais da cidade.
Significado
das festas
A
partir da observação do conjunto das festas pode-se fazer
uma primeira classificação: As da Padroeira, São Benedito,
São Sebastião, Romaria de Santo Antônio do Suru, Corpus
Christi, São João da Vila Nova e São João da
Família Chaves são festas essencialmente religiosas, ou seja,
seu ponto focal está na devoção do santo que celebram,
o que não quer dizer que não tenham elementos ou momentos
profanos, tais como as barraquinhas, o baile, a madrugada de preparação
das ruas para o Corpus Christi e etc. As demais teriam então um
caráter marcadamente profano, como a festa de Aniversário
da Cidade, a comemoração do Sete de Setembro e o Carnaval.
Entretanto, essa classificação não é suficiente
para identificar como cada segmento participa das diversas festas,
pois esta participação é um importante indício
das suas apropriações do espaço social da cidade,
baseadas no referencial histórico de cada um e expressa os conflitos
e tensões que permeiam o cotidiano.
Observando
a relação dos “de dentro” com as festas, vê-se, nitidamente,
que a maior valorização e participação recaia
justamente naquelas festas que reforçam a identidade parnaibana:
a festa da Padroeira e o aniversário da cidade. Na festa da Padroeira
são eles que enfeitam o altar e seguem a procissão rezando
e cantando. No Aniversário da Cidade, todos estão na rua
desde cedo e no baile à noite. Pode-se perceber, em ambas, a importância
que os “de dentro” atribuem à sua realização, quer
pela participação quer pela exaltação à
cidade, a seus fundadores e às famílias tradicionais. Por
outro lado, os moradores da Vila Nova e dos bairros da periferia da cidade
participavam dessas festas na qualidade apenas de espectadores, enquanto
os “de fora” do Centro Histórico sequer tomavam conhecimento delas.
A
festa de Corpus Christi expressa outras relações.
O núcleo da festa – os tapetes de serragem que enfeitavam as ruas
por onde passava a procissão – foi uma novidade introduzida por
uma pessoa de fora, trabalho que hoje é feito principalmente por
pessoas da Vila Nova com amigos de cidades próximas, com destaque
para a participação dos “artistas”. Eles se reuniram previamente
para decidir o tema que orientaria a decoração dos tapetes
– no ano da pesquisa foi “O Trabalho e os Santos”.
Assim,
os “artistas”, independentemente da rua em que residiam, enfeitaram a praça
14 de Novembro, normalmente com temas e materiais não muito
ortodoxos, o que gerou muitos comentários na cidade. Eram
poucos os “de dentro” que enfeitam as ruas; sua participação
era dada pelo controle e pela crítica, quando de manhã passeavam
pela cidade observando o trabalho, revelando também no momento da
festa a disputa e o conflito que existe entre os grupos.
A
festa de São João da Vila Nova, por sua vez, expressava
também a posição dos moradores desse bairro na dinâmica
dos grupos. Essa festa nasceu justamente como afirmação e
delimitação de espaço, já que naquele momento
esse grupo era fortemente discriminado pelos “de dentro”; o Clube, por
exemplo, não os admitia como sócios. Mais recentemente
este papel de “periferia”, de “baianos”, é preenchido pelos moradores
de bairros mais afastados do centro, como o Jardim Isaura, por exemplo.
Assim, essa festa também refletia uma nova oposição:
a presença de moradores que têm outro tipo de vínculo
com a cidade, e que se relacionam muito mais com os habitantes das cidades
vizinhas, principalmente Osasco e Barueri – num certo sentido seus “iguais”
– do que com os “de dentro”.
Já
o Carnaval, como festa de inversão, das fantasias que ocultam
e revelam, da possibilidade de representar outros papéis, permitia
a participação de todos: os “de dentro”, os “de fora”,
os “artistas”, os “estrangeiros”, a periferia e os turistas, ainda que
essa participação ocorra de forma diferenciada. Assim, nas
duas escolas de samba manifestou-se novamente a oposição
Centro Histórico/Vila Nova; o baile de rua e o do clube também
marcaram novas diferenças. E o “Bloco dos Fantasmas” e o “Grito
da Noite” são caracteristicamente parnaibanos, já que há
mais de cem anos são eles que abrem o Carnaval na Sexta-feira à
noite.
As
demais festas do calendário da cidade se inscreviam em outros eixos
de significação. O Sete de Setembro é uma festa cívica,
obrigatória, realizada em todos os municípios. A Romaria
de Suru, a menos dinâmica e com sinais de enfraquecimento, refletia
principalmente as transformações pelas quais passou a área
rural do município com a expulsão dos sitiantes, dando lugar
a loteamentos e chácaras de fim de semana. O Suru era, à
época da pesquisa, talvez o último bairro rural onde ainda
era dominante a presença de pequenos sitiantes.
Na
festa de São João, de Joãozinho Chaves, via-se também
a manutenção das tradições ligadas ao catolicismo
rural aliadas à realização do baile – forró
– que é o momento mais concorrido da festa. As outras duas festas,
São Sebastião e São Benedito, eram festas religiosas
que perdiam vitalidade ano a ano, repercutindo apenas a devoção
ainda presente, principalmente, entre os mais velhos, “de dentro”.
Também
em relação à maneira como a população
da cidade avaliava as festas, foi possível perceber significados
e valores diferenciados atribuídos a cada uma delas. Assim, para
os “de dentro”, há a valorização do tempo em que as
festas tinham um caráter mais familiar, voltadas apenas para a comunidade
local. Essa perspectiva se apresentava tanto no discurso dos velhos como
no de seus filhos e netos, que dominam uma história localizada e
o significado dessas festas, que dão conteúdo ao ser “parnaibano”.
Este
grupo qualificava as festas em geral através da comparação
com as do passado. Assim, contavam que a maior parte delas era de caráter
religioso, exercendo um papel atuante no cotidiano das famílias.
A igreja era cuidada e decorada por elas, sendo que cada uma recebia a
incumbência de manter o altar de um santo; em todos os quintais eram
plantadas flores destinadas à decoração da igreja.
As mulheres bordavam toalhas, faziam roupas para vestir as imagens
etc. Todo ano era sorteado um festeiro que arcava com a totalidade das
despesas e sempre procurava superar seu antecessor. Assim, os santos eram
homenageados e as festas podiam durar até vários dias com
grandes doações aos leilões (geralmente animais de
criação) e fartura de bebida e comida gratuita para todos.
“...
Tinha quermesse, a quermesse era movimentada, tinha congada, tinha pau
de sebo, leilão com aqueles bichos, tinha bolo, tinha porco, bezerro,
cabrito, galinha, nas festas lá no jardim da praça. Tinha
tanto bicho que os sitiantes traziam, principalmente na festa de São
Benedito, que é ele que protege os animais. Todo sitiante dava um
bicho prá São Sebastião que era prá guardar
os animais, proteger. Então cada sitiante, quando era festa dele,
trazia um bicho. Até 1947, eu me lembro que era assim, depois foi
fracassando. Todo quintal que tinha frango, porco, cabrito, o dono da casa
dizia: “esse não pode matar que é de São Sebastião”,
não podia matar porque vinha pro leilão. Atualmente não
tem mais nada que presta”. (D. Dilma)
É
importante esclarecer que descrições desse tipo correspondem
ao período no qual a atividade agrícola era dominante. Assim,
também era forte a lembrança das rezas caipiras, da folia
de reis, das congadas, sempre ressaltadas pela simplicidade que caracterizavam
a vida em Parnaíba.
Mais
recentemente, no discurso dessas famílias, as festas eram
descritas pelo que elas não têm e não são mais:
a falta de religiosidade, característica dos tempos modernos, aliada
ao desinteresse de um padre que “não gosta de festa” – chegou
mesmo a impedir a realização de algumas delas – é
agravada pelo interesse principalmente comercial que orienta a realização
das festas: “ninguém mais segue a procissão, todos só
querem montar barraquinha prá vender alguma coisa”, diziam. Essas
mudanças eram explicadas pelas transformações que
a cidade sofreu nas últimas décadas, principalmente o crescimento
do município e o conseqüente aumento populacional, que geraram
modificações profundas no cotidiano da cidade e se refletiam
também no significado das festas. Para os “de dentro”, os costumes,
os valores e as tradições se perderam:
“...
Naquele tempo era gostoso as festas, tinha muita festa de rua, da igreja,
era muito bonito: barraca, cada barraca tinha um grupo uniformizado. (...)
As barracas eram em benefício da igreja, que nem essas festas do
Divino, de Santana, essas festas grandes que tinha, (...) tinha congada,
era tudo daqui, era tão bonito, depois foi morrendo, foi acabando
tudo, agora não tem mais... Tinha uma porção de divertimento,
muito bonito, depois acabou tudo. Os costumes da cidade, do povo mesmo,
já não é como era, né, tem muita gente de fora
aqui, tem muita gente: aqui pro centro não aumentou, é a
mesma coisa de sempre, mas lá prá cima, aquela vila que formaram,
é tudo gente de fora, pouca gente daqui.” (D. Estela)
“
Essa festa do Corpus Christi ou seja, esse enfeite nas ruas é
relativamente recente, é de após guerra. (...) Corpus
Christi antes, aqui, enfeitava-se as janelas, punha-se colchas bonitas,
toalhas, flores, crucifixo em cada janela. Ainda se faz isso, algumas pessoas,
as mais velhas, as mais moças já não enfeitam as janelas
prá passar a procissão. (...) antes aqui era uma comunidade
literalmente fechada. Então a gente vivia só com recurso
próprio e participava muito, porque a festa do divino, por exemplo,
era uma festa muito importante. O festeiro era sorteado quando terminava
uma festa. Chamava o Imperador do Divino e a Imperatriz. E tinha que ter
capitão de mastro, alferes da bandeira. (...) A festa de Santana,
antes, tinha mais importância que Corpus Christi hoje, porque
era a Padroeira; Corpus Christi tinha, mas nem chamava Corpus
Christi porque era o “Triunfo da Eucaristia” né. Isso é
muito antigo (...) Era o enfeite das janelas e as folhas odoríficas
que pisava e ficava aquele cheiro bom na rua (...) mas agora, na verdade,
não é mais o espírito religioso, predomina mais o
espírito turístico, né.” (D. Emília)
Já
para os “de fora”, que não têm acesso ao passado da cidade
e à memória das festas, a avaliação que faziam
delas é positiva, sendo um atributo importante na caracterização
da cidade. Expressavam, segundo eles, a manutenção do caráter
“tradicional” de uma cidade pequena, de interior. Assim, tanto para os
“estrangeiros” como para os “artistas”, a opção por Santana
de Parnaíba significava a possibilidade de morarem em uma cidade
com essas características: uma “comunidade”, ainda não transformada
totalmente em seus hábitos pelos meios de comunicação
de massa e conservando aquele “charme antigo”. Para os “profissionais”,
que vieram se integrar diretamente no cotidiano da cidade, as festas aparecem
como a possibilidade de penetração no mundo fechado do parnaibano,
e, como eventos que atualizam, de forma um tanto nebulosa, a memória
de Santana de Parnaíba.
“(...)
Os artistas têm que se envolver na vida da cidade através
daquilo que sabem fazer, através da arte. Por exemplo, nas festas
como o Corpus Christi, o Carnaval... são possibilidades que
a gente tem de participar fazendo aquilo que o artista sabe e deve fazer;
essa é minha opinião, entendeu? Eu gosto de morar aqui, aqui
você ainda tem uma vida diferente... o Carnaval aqui, eu gosto muito,
ainda é uma festa familiar sem confusão.” (Sr. Lourenço)
“Eu
gosto de Parnaíba, dessa vida de interior. Eu conheço as
tias, o açougueiro, o pessoal do sítio que vende frutas,
sou amigo de todos... aqui, você dá uma saída e todo
mundo sabe onde você está... e tem muita festa, aqui eles
ainda conservam as tradições; coisa que você não
vê nas grandes cidades. Eu participo das festas, sempre que posso,
até fotografei e filmei o Carnaval e o Corpus Christi.” (Paul)
Havia,
entretanto, diferenças significativas se se comparavam os discursos
com o comportamento desses grupos em relação à sua
participação nas festas. Segundo os depoimentos dos “de dentro”,
as festas acabaram, não têm mais sentido; no entanto, esse
grupo continua participando e organizando algumas delas, principalmente
as religiosas e, em especial, a da Padroeira e a do aniversário
da Cidade. No discurso dos “de fora” tem-se a valorização
de todas as festas em conjunto, contudo, participavam efetivamente daquela
que tinha um caráter mais nitidamente marcado de exposição
da cidade para fora, de valorização de “cenário” da
cidade: o Corpus Christi.
Pode-se
concluir que, se as festas passaram por um processo de transformação,
inclusive no que se refere aos seus aspectos formais, tais como, duração,
organização e “brilho”, – elas continuavam existindo com
diferentes graus de dinamismo, marcando posições, definindo
espaços, revelando aspectos do cotidiano e atualizando tanto
os conflitos como as possibilidades de integração.
Conclusões
A pesquisa
foi desenvolvida em três etapas – exploratória, classificatória,
e de observação - cada qual em torno de um eixo
básico. A primeira parte tinha como objetivo levantar o conjunto
das opiniões, interesses e valores existentes na população
de Santana de Parnaíba a respeito da cidade e do patrimônio
cultural procurando a partir daí agrupar os entrevistados em segmentos
segundo recortes e categorias que eles mesmos utilizavam. Foi possível
identificar, assim, duas divisões bem nítidas: os “de dentro”
e os “de fora”.
Para
os primeiros, a importância da cidade aparecia principalmente no
contexto das relações de família; o discurso era centrado
no passado, quando Parnaíba era “dos parnaibanos”, “todos se conheciam”
e quando as festas mobilizavam toda a cidade. As referências históricas
– salvo genéricas alusões ao tempo dos bandeirantes – não
iam, contudo, para além da história particular dos
troncos familiares. Era através da memória de um passado
antes mítico que real, e da crítica aos “tempos atuais”,
à gente de fora, que os “de dentro se auto-representavam como guardiões
do verdadeiro “ser parnaibano”.
Os
“de fora” traziam a marca da modernidade, das transformações.
Esta marca ia desde saber dar o devido valor ao patrimônio – diferentemente
dos parnaibanos, considerados “atrasados”, “ignorantes” –, passando pela
defesa da ecologia, até o caso mais extremo dos “de fora” da vila
Nova, para os quais o que conta são as carências de equipamentos
urbanos, como corresponde a moradores de periferia.
Para
uns, o interesse era pessoal: restaurar as próprias casas, mesmo
à custa de destruir outras; alguns viam na cidade a possibilidade
de desenvolver atividades específicas, ligadas ao turismo, como
ocorre em Parati ou Embú. O referencial, aqui, era o valor histórico-arquitetônico,
apreendido de maneira algo ingênua – o “estilo colonial”, que também
sensibiliza alguns “de centro” – ou de forma genérica, o “charme
das casas antigas”. Nesse sentido, o discurso dos “de fora” aproximava-se
em alguns aspectos da visão e prática dos organismos de preservação:
a ênfase era colocada na história mais geral e no patrimônio
edificado com a diferença de que no caso dos órgãos
de preservação existe uma fundamentação histórica
e arquitetônica elaborada, com base em conhecimentos técnicos
especializados.
O
importante, contudo, é notar que para os “de dentro” a história
era idealizada e apreendida do ponto de vista restrito e fragmentado de
suas vinculações familiares; para os “de fora” a história
era antes uma referência genérica, e/ou ingênua; de
qualquer maneira, trata-se de instâncias que não se encontravam.
Este era um problema a ser encarado pelos órgãos de
preservação: atuar no sentido de estabelecer mediações
entre esses pólos, de forma que o horizonte limitado das percepções
dadas pudesse vincular-se a processos mais abrangentes, o que significava
ampliar o que é restrito (percepções dos “de dentro”)
e tornar mais concreto e preciso o que é aprendido de maneira difusa
e permeada pelo senso comum (percepções dos “de fora”).
Qualquer
proposta, seja de esclarecimento ou de atuação, se pretendesse
obter ressonância, devia partir dessa base mínima, e que não
era a mesma para todos os moradores. Enquanto uns, os “de dentro”, seguramente
responderiam a apelos que evocassem de alguma forma os laços familiares
e a condição de “parnaibanos históricos”, outros,
os “de fora”, seriam mais sensíveis a questão e temas relacionados
com a cidade enquanto conjunto arquitetônico com características
específicas e aberta a iniciativas, atividades e propostas que a
vinculassem “ao resto do mundo” e aos dias atuais.
Tanto
os “de dentro” como os “de fora” encontravam-se, contudo, num plano, o
das festas. E mais uma vez fazia-se sentir a divisão já assinalada:
para os primeiros, as festas de hoje não tinham, mais aquele “brilho”
de antigamente; para os outros, eram ocasiões de integração,
agora, na cidade ou de aí exibir suas iniciativas e o produto de
suas atividades. De um jeito ou de outro, porém, a questão
tocava a todos, ainda que por motivações e valores diferentes.
A
escolha do ciclo festivo como fio condutor da terceira etapa da pesquisa
deveu-se, antes de mais nada, à importância que as festas
assumiam no discurso dos informantes e no efeito mobilizador que contrastava
com a rotina da cidade. Era preciso, contudo, explicar essa evidência
empírica e assim fundamentar a linha de análise escolhida.
Comparando, então, as conclusões da primeira parte com observações
e depoimentos especificamente em torno do tema das festas, pôde-se
perceber uma oposição, de fundo, referente ao conceito de
tempo. Num caso, tempo histórico, seqüencial-progressivo: era
o passado justificando o “ser parnaibano” e servindo de critério
para excluir os “de fora”, essa gente de agora, sem laços com a
tradição de Parnaíba; para estes últimos, o
mesmo passado era visto como sinal de atraso, imobilismo, ou então
não passava de um vago marco de referência.
Com
relação às festas, porém, o tempo de base é
cíclico: cada ano repetia-se o mesmo calendário festivo.
“As festas já não são como antigamente”, deploravam
os mais velhos. No entanto persistiam, amparadas por uma estrutura que
permanece, a despeito das inevitáveis mudanças. É
que se o tempo histórico era percebido como irreversível,
o tempo cíclico repunha, de forma ritualizada, eventos que evocam
o passado, atualizando-o e articulando-o à rede de relações
que permeiam a trama do dia-a-dia. Os ritos, assim, ao mesmo tempo em que
alteram e estabelecem cortes no fluxo cotidiano, não constituem
momentos essencialmente diferentes da rotina diária, uma vez que,
neles, determinados aspectos desse mesmo cotidiano são salientados,
colocados em foco. “O mito e o ritual seriam dramatizações
ou maneiras cruciais de chamar a atenção para certos aspectos
da realidade social, facetas que, normalmente, estão submersas pelas
rotinas, interesses e complicações do cotidiano” (Da
Mata, 1979, p. 34).
Daí
o interesse pelas festas – momentos de encontro entre o passado e o presente,
entre parnaibanos “históricos” e os “de fora”, entre moradores e
visitantes; conforme afirma Da Mata”, é como se o domínio
do ritual constituísse uma região privilegiada para se penetrar
no “coração cultural” de uma sociedade, ou seja, no seu sistema
de valores, uma vez que o rito permite tomar consciência de certas
cristalizações sociais mais profundas”. (idem,
ibidem, p. 29)
Foi
mostrado como os “de dentro” e os “de fora” – artistas, profissionais,
estrangeiros – participavam, em diversos graus, das festas. Cada evento
festivo, mobilizando, assim, participações diferenciadas,
tornava-se suporte de significados também diferentes; desta forma,
não se pode decidir pela “autenticidade” ou descaracterização
deste ou aquele, com base em critérios estabelecidos num corte temporal
diacrônico: se ainda são realizados, é porque são
investidos de significados por seus vários participantes. Assim,
a festa da Padroeira e o aniversário da cidade, por exemplo, constituem
rituais de reforço, para os artigos parnaibanos; já a comemoração
de Corpus Christi, entre outras, para os “de fora”, abre a possibilidade
de entrada e participação na vida da cidade.
Além
da oposição em torno do eixo temporal, existia outra, presente
nos depoimentos e no próprio comportamento dos entrevistados: é
a que opunha espaço privado (a casa) e espaço público.
Enquanto aquele era impenetrável, fechado aos “de fora” (inclusive
aos órgãos de preservação e a seus técnicos,
ns visitas de rotina) o último era acessível até para
os turistas. O primeiro era o universo das famílias, o lugar de
onde se exercia o controle – cortinas que se agitam, discretamente, janelas
que abrigam olhares perscrutadores; já o segundo era aberto,
na modalidade de trajeto das procissões e dos desfiles e
local das barracas em dias de festa: era, enfim, o cenário dos rituais.
Se
se pretende chegar até as casas (enquanto edifícios tombados,
portanto sujeitos à ação preservacionista institucional)
e aos seus moradores, sensibilizando-os para a questão global da
preservação, seria preciso começar pelo espaço
público e, estrategicamente, pelas festas, elemento vivo e dinamizador
do patrimônio cultural. O calendário de festas pode constituir
uma via de acesso privilegiada para se começar a estabelecer as
mediações entre as histórias familiares particulares
e processos históricos mais abrangentes e entre estes e o patrimônio
tombado.
Uma
presença mais efetiva dos órgãos de preservação
por ocasião das festas e de sua preparação – incentivando,
documentando, divulgando, fornecendo subsídios de infra estrutura
– permitiria contrabalançar a tradicional (e inevitável)
função de órgão fiscalizador com outra, de
apoio. Um centro de memória poderia dar continuidade a essa tarefa
através de uma pesquisa histórica mais ampla, não
apenas por meio da coleta de dados em instituições e arquivos,
mas também com levantamentos de informações, documentos
e objetos em poder dos próprios parnaibanos: seria preciso mostrar
que os fragmentos que constituem sua memória fazem parte de processos
mais amplos, responsáveis pelo que Santana de Parnaíba foi
e conserva hoje, em seus costumes, casas, ruas, edifícios
e dinâmica de suas redes sociais.
Notas:
O texto que segue é uma parte, re-relaborada,
desse relatório; da pesquisa de campo, por mim coordenada, participaram
Naira I. M. Morgado, Carmen Lúcia M. V. de Oliveira, Celina Kuniyosh
e da elaboração do relatório participaram Naira
I. M. Morgado e Carmen Lúcia M. V. de Oliveira.
Segundo informações contidas no site da Prefeitura, são
209 as edificações, tombadas, em 1982, pelo CONDEPHAAT. Mas
antes, em 1958, a residência bandeirista urbana, construída
na segunda metade do século XVII, onde atualmente funciona o Museu
Histórico e Pedagógico Casa do Anhangüera e o sobrado
construído no século XVIII, onde está instalada a
Casa da Cultura, foram tombados pelo IPHAN.
Cabe observar que o presidente do órgão, à epoca,
era o antropólogo Antonio Augusto Arantes.
Partiu-se de um recorte já dado, a área tombada. Esta área
corresponde ao espaço de formação da cidade – atual
“centro histórico” – então com funções de setor
residencial, pequeno comércio, serviços públicos.
Para efeitos de comparação, elegemos um bairro próximo
ao centro, Vila Nova, resultante da recente expansão urbana em direção
ao oeste
Todos os nomes dos informantes são fictícios.
Como as demais descrições que constam neste relato,
a desta festa tem como base observações
feitas à época da pesquisa.
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