SANTANA DE PARNAÍBA: MEMÓRIA E COTIDIANO 
José Guilherme Cantor Magnani

Continuação

 
Vila Nova: os “de dentro”
 

A pesquisa de campo em Vila Nova foi desenvolvida paralelamente à do Centro Histórico, com o objetivo de servir de contraponto àquele. E também aqui, era o ser “de dentro” ou “de fora” que explicava a formação dos grupos e das diferentes representações que elaboravam sobre o  patrimônio, a preservação e a cidade. Os “de dentro”  eram parnaibanos que, por problemas de herança aliada à especulação imobiliária, foram “expulsos” do centro. Os “de fora” eram pessoas oriundas da área rural e urbana das cidades vizinhas e de São Paulo. No geral eram trabalhadores sem ou com pequena qualificação profissional.


 

Conversar  com esses parnaibanos sobre a cidade significava  recuperar fragmentos de sua história, trazidos à memória  quando descreviam o cotidiano, as festas, a vida na cidade:

 

“Antes o pessoal não precisava de nada, era mais animado. A cidade era muito melhor que agora. No tempo do padre Bruno e Anacleto tinha muita festa. Começava na Sexta-feira. Tinha pau de sebo, ovo na colher, corrida, tinha muita coisa, congada, Antigamente a banda ia na casa dos festeiros chamando para a missa. Tinha bastante festeiro. A gente morava no sítio, se pintava com essas bandeirinhas de festa que a gente guardava, molhava e passava no rosto. Ficava parecendo um macaco.” (D. Cecília – parnaibana, mais ou menos 60 anos, há 20 anos mora na Vila Nova)


Assim, para estes parnaibanos, a cidade antes era muito animada, havia muitas festas, todo mundo participava e os próprios padres contribuíam para que elas se realizassem. Até o pessoal do sítio vinha para a cidade nesses dias para as festas do Divino, “Corpus Christi”, festa de Sant’Ana, festas juninas etc. quando Parnaíba era praticamente auto-suficiente. A economia de subsistência aliada a alguns estabelecimentos comerciais asseguravam o abastecimento para uma população composta por poucas famílias.

 

“Antigamente era só as famílias daqui, todo mundo se conhecia. Eu sou daqui, minha família toda, também. Meu marido não; é de fora.” (D. Antonieta, parnaibana, 50 anos, nasceu e foi criada no Centro e há 4 anos mora em Vila Nova)

 

Para esses parnaibanos da Vila Nova, a importância da cidade estava, como no Centro Histórico, centrada na participação das famílias, nas festas. A especificidade que se observava no discurso deles, contudo,  era em relação ao patrimônio edificado. 

 
 

Diferentemente dos do Centro, descreviam as casas e acompanhavam as transformações e reformas por que passaram, mesmo após tê-las vendido. Assim, o Centro era valorizado e apropriado apenas através dos laços afetivos que ainda os uniam a esse espaço, o que era transmitido por várias gerações no interior de uma família.


 

A sensação irremediável de perda e a necessidade de tornar presente aquilo que deixou de existir, conservando pelo menos na memória o espaço privado de sua família, levava-os a acompanhar, a controlar até, as modificações que suas antigas casas foram ou iam sofrendo.

 

“Eu morei lá na cidade, na casa que hoje é do Paul. Saí daquela casa porque, quando meus pais morreram, eu  não tinha condições de comprar a parte de meu irmão e nem ele a minha. Sabe, é  casa histórica, tem um valor muito grande. Se não fosse isso eu continuava morando lá até hoje. Tem paredes de taipa, bem grossas, cômodos enormes, era uma beleza. A cozinha era dentro e o banheiro fora. Quem vê a fachada não dá nada pela casa, mas se você entrar... imagina que hoje tem até piscina. Eu acho que Parnaíba tem que ser preservada. Eu gosto muito daqui e acho que a cidade tem que ficar como está. Não deviam nem ter deixado construir umas casas modernas lá no Centro.” (D. Antonieta)


Para os parnaibanos que vieram do sítio para a Vila Nova e que, portanto, não possuíam casas no Centro Histórico, a Vila Nova aparecia como sendo o espaço privilegiado da cidade, já que eles não tinha vínculos estreitos com aquelas famílias cuja história e identidade estava plasmada no Centro Histórico.

 

“O centro é muito parado. Ficam todas as casas fechadas. De noite não dá prá andar lá. Dá medo. Não tem gente nas ruas, não tem nada lá, tá morto, parece. Aqui não; tem gente na rua, tem televisão ligada, tem música, tem crianças. Daqui a alguns anos dizem que o centro da cidade será aqui.” (D. Cecília)


 
 
Vila Nova: Os “de fora”
No discurso dos “de fora” o que aparecia  eram as condições de vida, semelhantes às da periferia dos grandes centros urbanos: faltavam transporte, hospital, escolas e água; as vias públicas eram mal conservadas, os moradores só conseguiam construir suas próprias casas nas horas vagas, havia problema de desemprego, segurança etc. Era pois um discurso centrado na percepção das carências do bairro e, portanto,  radicalmente diferente dos depoimentos dos “de dentro”.

 
“Não dá prá aceitar que uma cidade tão velha que dizem que D. Pedro morou, não tenha hospital, escola, ônibus, água. Osasco, Barueri, Carapicuíba, que são bem mais novas que Parnaíba, que pertenceram a Parnaíba, tem tudo isso. Agora, aqui não.” (Ângelo, 25 anos, há 2 anos em Vila Nova)


No caso desses moradores, isso ocorria em virtude de suas histórias de vida, suas relações familiares e afetivas estarem associadas a outras cidades. Dessa forma, Parnaíba surgia sempre numa visão comparativa com  experiências anteriores. Na tentativa de solucionar os problemas do bairro e melhorar suas condições de vida, tomaram várias iniciativas: abaixo-assinados, protestos diante da prefeitura etc. Ao mesmo tempo em que contavam isso, ia se delineando a imagem que os “de fora” de Vila Nova tem dos parnaibanos:

 

“Eu estava pensando em criar uma Sociedade ou Associação Amigos do Bairro. Lá em São Paulo, em todo bairro tem, e o pessoal vai mesmo para as Secretarias reclamar. E acabam resolvendo o problema. Mas o pessoal daqui é muito parado.” (Rita, 18 anos, há três anos mora em Vila Nova)


À imagem do parnaibano acomodado, passivo, acrescentava-se a resistência que manifestavam contra os “de fora”.

 

“Quando eu cheguei aqui, foi difícil me entrosar com os parnaibanos. São muito desconfiados. Parece que acham que a gente vem aqui se aproveitar deles.  Depois de algum tempo, quando descobriram que eu não era nenhum monstro, começaram a me aceitar. Antes era mais difícil.” (Ernesto, 35 anos, há 7 anos mora na Vila Nova)


Para eles, o centro era a passagem para o trabalho ou para a escola em Osasco, e o local onde encontravam serviços públicos e as poucas opções de lazer que podiam usufruir: o bar, a praça. O ponto de referência dominante continuava centrado nas carências do bairro, ainda que com algumas alusões esparsas sobre o tombamento ou o valor histórico da cidade:

 

“Com esse negócio de tombar a cidade, ninguém mais pode alugar casa lá. E prá comprar muito menos. Pobre não  pode morar em Parnaíba. Prá mim não interessa se essa cidade é histórica ou não. O que adianta ela ser antiga se não existem condições pra população? E o povo daqui também não dá valor prá nada.”  (Ângelo)

Assim, também na Vila Nova confirmava-se a hipótese inicial, a da heterogeneidade da população ligada à existência de significados diferenciais. Os “de dentro”, da Vila Nova, compartilhavam, com os parnaibanos do centro, as mesmas representações: o orgulho de ser parnaibano, o forte sentimento de pertencimento à cidade e a percepção das transformações profundas na dinâmica de Parnaíba, que era só das famílias. Os “de fora”, os novos segmentos de população que se fixaram na Vila Nova, elaboravam uma imagem radicalmente diferente da cidade, centrada no bairro e suas carências, já que não possuíam nem a história familiar nem tinham acesso à história mais ampla  para valorizar a cidade com outros critérios.
 
 

Visões da cidade
 

Com base nas entrevistas, conversas e contatos, foi possível detectar uma regularidade no discurso dos  “de dentro”: o que eles valorizavam  eram os costumes, lembranças e relações sociais  referidos a  um tempo em que ‘Parnaíba era da gente...’ Nesse sentido, as festas surgiam com grande destaque  como  momentos de expressão,  concretude e atualização daquelas relações, quando então era possível voltar a apropriar-se da cidade e dos espaços públicos em destaque: as três ruas  – a de cima, a de baixo e a do meio – a praça e a Igreja. Esse era  também um dos códigos de entrada no mundo parnaibano, era no domínio público que se admitiam os de fora, dificilmente no âmbito do privado.


 

Fora do calendário de festas, o cotidiano da cidade acontecia entre as famílias, no interior das casas, herança de várias gerações, a que só têm acesso os parentes: “Eles vêm na sua casa, conversam, mas não te convidam prá ir na casa deles”, diziam os “de fora”. A casa era, portanto, o espaço onde se encastelam e se defendem dos “de fora”. Se já não são efetivamente os “donos da cidade”, porque havia outros grupos disputando o domínio das relações e controlando alguns setores da vida social,  é no  âmbito da casa, entretanto, que esse domínio continuava existindo, pois nela não permitiam nem a entrada, nem a interferência dos “de fora”. A casa é o símbolo que restou dessa tradição, que se legitima na descendência dos fundadores da cidade.
 

Por conseguinte,  não era tanto o valor histórico-arquitetônico das edificações que orientava a visão de cidade e patrimônio desse segmento. A história que permeava seu sistema de valores e visão era antes  uma história familiar, portanto restrita, que não passava por um conhecimento mais especializado. Apenas  os parnaibanos que saíram da cidade e voltaram e os da Vila Nova que foram expulsos do Centro é que somavam à casa esse valor, ainda que de forma secundária, e  isso se devia  à possibilidade de comparação com outras cidades.
 

Os termos mais utilizados para designar o patrimônio eram “antigüidade” e “tradição”. Alguns não diferenciavam o CONDEPHAAT do IPHAN, referindo-se apenas ao “patrimônio”; o  tombamento era pouco compreendido: há quem pensasse ser  uma lei municipal aprovada pela Câmara  abrangendo apenas  a  igreja ou as  duas casas bandeiristas tombadas pelo IPHAN. As poucas referências a um cuidado e atendimento às normas do tombamento se restringiam à conservação das fachadas. Os que tinham um maior conhecimento do CONDEPHAAT  eram justamente os que tinham tido problemas com reformas em suas casas e para eles a imagem  era negativa, caracterizada pela ineficiência, demora  e tratamento desigual: “implicam com umas coisinhas de nada e deixam passar coisas mais graves”. Ou então não entendiam a existência de um órgão preocupado com “antiguidades” nos dias de hoje: “... eu não entendo isso, tanta coisa acontecendo, o mundo tão mudado, não sei como é que sobrou o CONDEPHAAT, eu não entendo...”
 

O “ser parnaibano”– apesar das especificidades advindas seja da condição de classe, faixa etária ou de expectativas de vida diferentes relacionadas à cidade – traduzia-se na tentativa de manutenção da identidade desse segmento  face às transformações pelas quais a cidade vinha passando nas últimas décadas. A integração progressiva da cidade à Grande São Paulo, com todas as mudanças já citadas: ingresso de novos segmentos da população, formação de novos bairros, especulação imobiliária etc., tinha gerado alterações profundas na composição social da cidade. “Ser parnaibano” era quem, por oposição, definia o outro – os “de fora” –  artistas, estrangeiros, operários, comerciantes e professores.
 

Para os “de fora”, residentes no Centro Histórico, a cidade existia e tinha importância enquanto patrimônio edificado. É um atributo importante tanto para aqueles que investiram muito na restauração de suas casas como para os que contavam com a implementação do turismo na cidade para divulgação e ampliação de suas atividades. Assim valorizavam a cidade tanto por causa da tranqüilidade e proximidade com São Paulo, como por seu patrimônio histórico e arquitetônico. Conheciam o órgão de preservação que atuava na cidade e na maior parte das vezes cobravam uma atuação mais rígida de fiscalização e a necessidade de um programa educativo para a população.
 

É importante destacar, entretanto, que mesmo para os “de fora” a concepção do que seja preservar era diversa da do órgão e às vezes conflitante com ela. Assim por exemplo, um dos estrangeiros demoliu uma das duas casas antigas que comprou, construindo uma nova, imitando a demolida e restaurou outra às custas de destelhar onze casas de zona rural. Também a idéia de que o tombamento e a preservação se resumiam apenas à fachada das casas era generalizada tanto para os “de fora” como para os parnaibanos.
 

Para os “de fora” residentes na Vila Nova, que ali se fixaram em função das exigências do mercado de trabalho e que eram trabalhadores sem ou com pequena qualificação profissional, a representação  da cidade estava plasmada no bairro e o dominante no discurso eram as reivindicações de melhorias na infra-estrutura do bairro – água, esgoto, asfalto etc.: o Centro Histórico era apenas a passagem para o trabalho ou o local onde estão os serviços públicos.
 

A observação dos casos atendidos no escritório do CONDEPHAAT confirmou as questões levantadas na pesquisa. Assim, apesar do esforço por parte dos técnicos  para justificar a importância de  manter as características originais das casas e, nos  casos de reforma ou ampliação, proceder de maneira criteriosa a fim de não comprometer o valor do imóvel – inúmeras vezes os proprietários  se opuseram à orientação dada e cederam apenas em parte em suas intenções iniciais. A casa é o domínio do privado, aí não aceitam interferências.
 

Outro dado interessante que foi possível observar  foi em relação a algumas pessoas que, anos atrás, fizeram reformas descaracterizadoras das casas como, por exemplo, trocar janelas por vitrôs e hoje querem  retornar ao “antigo”, ao original. A valorização do “antigo” vai pouco a pouco ganhando terreno na cidade, não em função do valor histórico arquitetônico das casas, mas em função do valor comercial que elas passaram a ter em função da especulação imobiliária surgida principalmente devido à procura de pessoas de fora, “pelo charme que as casas antigas têm”. Assim mesmo nas novas construções, todos queriam o “estilo colonial”, já incorporado pela  indústria da construção.
 

Enfim, conclui-se que o que estava em jogo era a questão da apropriação da história  e as maneiras pelas quais essa apropriação se dava. De um lado estavam  os parnaibanos cuja identidade está colada à história familiar e que tentavam ainda manter um controle, rejeitando os de fora, cuja vinda para a cidade era associada à destruição de estilo e vida tradicional. Para esse segmento, o patrimônio edificado, tanto as casas com o as edificações públicas,  tinham valor enquanto referido  à história das famílias, faltando-lhes um contexto mais amplo que lhes permitiria entender e até mesmo valorizar os bens culturais com os critérios institucionais da preservação.
 

De outro, estavam os “de fora” que atribuíam à ignorância dos parnaibanos o descaso pela preservação  e que justamente por manipularem e terem acesso a um conhecimento mais especializado, valorizavam o patrimônio edificado com os critérios que se aproximavam aos dos órgão de preservação, ainda que as atitudes de preservar se mostrassem às vezes contraditórios aos interesses do órgão, já que a preocupação que norteava esse grupo era, principalmente, ditada por sua visão particular, pressupondo dividendos pessoais na preservação dos imóveis ou da cidade. Esse grupo acabava tendo, portanto, a mesma percepção que se pôde observar na maior parte das intervenções dos órgãos de preservação: valorizar o objeto, por si mesmo, sem levar em conta os significados projetados no bem e sua inserção no tecido social.
 
 
 
 

As Festas
 

Tendo em vista a freqüência e destaque com que o tema das festas apareceu, de diferentes maneiras, no discurso dos moradores, e ao seu caráter público, em oposição aos valores ligados  à vivência do domínio doméstico, no interior das casas, essas celebrações, profanas e religiosas, terminaram constituindo um espaço privilegiado para o andamento da pesquisa. A primeira tarefa foi identificar o calendário festivo anual para, na continuação, fazer a observação de cada uma delas. Esse ciclo era constituído por festas que celebram desde momentos de significação mais ampla como o Corpus Christi, o Sete de Setembro e o Carnaval, até comemorações mais restritas ou rurais, como a festa de São João, de Joãozinho Chaves e a Romaria de Santo Antônio do Surú, passando por festas religiosas e de marcos significativos para a cidade, como a Festa de Santa Ana e o aniversário da cidade.


 

Em ordem cronológica elas se distribuíam a seguinte maneira: São Sebastião e São Benedito em janeiro; Carnaval; Santo Antônio do Surú (17/06); Corpus Christi (21/06); São João, de Joãozinho Chaves (30/06); Festa de São João da Vila Nova (final de junho); Festa de Sant’Ana (29/07); Sete de Setembro e Aniversário da Cidade (14/11).Por razões de espaço serão apresentadas aqui apenas Corpus Christi, o Carnaval e a Festa da Padroeira.
 
 
 

Descrição
 

Corpus Christi: 

A festa de Corpus Christi é realizada em Parnaíba há muito tempo, havendo registros em documentos até do século XVII. A maneira tradicional de enfeite da cidade era jogar flores e ervas aromáticas nas ruas por onde a procissão passava. Sua forma atual, com tapetes de serragem colorida decorando as ruas é, entretanto, bastante recente. Por volta dos anos 60, uma professora vinda de Itu introduziu essa técnica de enfeite e, a partir de então, todas as festas foram feitas assim.
 

A festa é organizada pela prefeitura, pelos moradores e pela igreja, cabendo à primeira tingir a serragem e distribuí-la; aos moradores a decoração das ruas, que compreende a definição dos temas e desenhos e a escolha de pessoas para ajudar a fazer o trabalho; à igreja, a organização e a realização da missa e da procissão 
 

A preparação da festa  que foi objeto de observação para a pesquisa começou mais ou menos dez dias antes, com a tintura da serragem, feita por funcionários da Prefeitura em uma pracinha em frente ao Largo São Bento. Durante esse período também foram feitas reuniões na prefeitura com os responsáveis por rua para saber a quantidade de serragem, nas diferentes cores que cada um iria precisar. Também os moldes de madeira ou de papel que iriam ser utilizados para os desenhos, foram feitos alguns dias antes. As barraquinhas a ser montadas no dia da festa foram fornecidas pela prefeitura e os responsáveis se inscreveram no Departamento de Turismo.
 

A decoração das ruas centrais  – Santo Antônio, Santa Cruz, Suzana Dias – da  Praça 14 de novembro e o trecho final da Bartolomeu Bueno começou na noite e madrugada anteriores ao dia da festa e se estendeu até a hora do almoço do dia seguinte. Apenas a rua Coronel Raimundo e o trecho inicial da rua Bartolomeu Bueno começaram de manhã cedo. Durante a noite e a madrugada foram  principalmente os jovens que trabalharam, inclusive alunos das várias escolas do município quando então a  cidade ganhou um ritmo completamente diferente do habitual: pessoas circulando pelas ruas, grupos de serenata e garrafas térmicas de café e quentão animando o trabalho.
 

Os grupos, à exceção das escolas, eram pequenos, com cinco ou seis pessoas por trechos de rua. A decoração começou com a feitura do motivo principal que pode ser feito a partir de moldes de madeira, de papel ou riscados no chão à mão livre ou a partir de desenho prévio. O fundo do quadro foi coberto primeiro com serragem natural e depois com colorida; foram usadas duas qualidades, uma grossa e outra mais fina. A serragem é o elemento básico utilizado na decoração além da farinha de trigo, cascas de ovos, pó de café, papel crepom, tampinhas de garrafas cobertas com papel laminado e outros.
 

De manhã cedo, as barracas de comida e artesanato começaram a ser montadas. As de comida ocupavam a Praça 14 de Novembro, as ruas e as garagens das casas. Na maioria destas, vendiam-se doces caseiros. Na praça, as barracas eram da Assistência Social e da igreja. Havia também barraquinhas da Santa Casa, do Centro Espírita e do Teatro. As de artesanato, tanto de Parnaíba como de fora, tomavam conta da praça e da lateral da igreja. Os trabalhos de Parnaíba eram feitos principalmente em crochê, retalhos, bonecas de pano e artesanato em madeira; os de fora, aqueles habitualmente  presentes nas feiras do Embu e Praça da República, o chamado “artesanato industrializado”.
 

No começo da tarde a cidade já estava cheia e todos  -  turistas, vindos principalmente de São Paulo, Barueri e Osasco, moradores,  assim como os habituais repórteres de jornal e televisão -  passeavam  observando os tapetes e consumindo os produtos oferecidos nas barraquinhas. Às 16 horas, a banda da cidade – “Corporação Musical Santa Cecília” – começou a tocar em frente à Igreja, de onde sairia procissão  às 16:30 horas, composta pelo padre, o prefeito e um senhor carregando o pálio; a seguir a banda e, atrás, o povo. Durante todo o percurso, os turistas se aglomeravam nas calçadas, assistindo e/ou fotografando, enquanto a maioria dos parnaibanos ou seguia a procissão ou a via passar da janela de suas residências. As casas de fim de semana estavam abertas e com muita gente. Muitas tinham suas janelas e sacadas enfeitadas com toalhas de crochê, arranjo de flores, imagens  e velas. Um altar, na calçada da rua Bartolomeu Bueno, era também ponto de aglutinação   já que nesse local  é costume a procissão parar e o padre fazer uma breve benção.
 

O momento máximo é a  procissão, cuja passagem desfaz a decoração das ruas, o que marca o final da festa.
 
 
 

Festa de Sant’Ana, Padroeira de Parnaíba

O dia 26 de junho é feriado em Santana do Parnaíba: a cidade celebra o dia de sua padroeira, mas as comemorações, em geral, são transferidas para o fim de semana mais próximo. Essa festa, tradicional na cidade, é uma das mais antigas e justamente por ser a da Padroeira, é uma das que mobiliza mais fortemente os moradores “de dentro”. Em tempos idos  durava vários dias; mais recentemente é celebrada uma missa em louvor à Sant’Ana no dia 26 e, no domingo, há procissão, missa campal, barraquinhas e música na praça.
 

Essa festa atrai poucas pessoas de fora, a maioria dos presentes é de moradores da cidade, dos bairros próximos e da zona rural. N ano em que a pesquisa foi realizada, a movimentação maior teve início à tarde, quando as barraquinhas de comida e de bebida já estavam armadas e um alto falante começou a tocar. Por volta das 16:00, todos se aglomeraram no Largo da Matriz. Saiu, então, a procissão tendo à frente  os “Violeiros do Brasil” – grupo de Osasco contratado para animar a festa –, a seguir a imagem de São Sebastião (“ele tem que ir na frente para não chover”), a imagem de Sant’Ana, o padre, as autoridade locais, a banda da cidade e um grupo de fiéis. Por ser a procissão da Padroeira, o percurso é  maior, estendendo-se até o limite do Centro com a Vila Nova.
 

Após a procissão foi realizada a missa campal, em frente à igreja; a seu término, a festa continuava  na praça, onde os “Violeiros do Brasil” apresentaram uma série de cantores e duplas de viola  no coreto, onde, ademais, ocorreram  danças tradicionais como Folia de Reis, quadrilha, catiras etc. Outra atração da praça foi a barraquinha de leilão de bonecas. Organizada pela igreja – o padre comprara e distribuíra  as bonecas entre as senhoras da cidade para que as vestissem –, no dia da festa a barraca foi  ponto de aglutinação no Centro Histórico.Também em homenagem  ao dia da Padroeira, o Museu esteve aberto expondo trabalhos de artesanato em pano e retalhos de moradores da cidade. 
 

No ano em que a pesquisa foi realizada fazia muito frio no dia da festa e ainda assim era maciça a presença de moradores da cidade, em particular os do Centro Histórico (os mais velhos, principalmente). Os jovens ficaram na praça até por volta de 19:00 quando foram para o clube, onde todos os domingos à noite há um balada. Após a apresentação dos violeiros, a banda ocupou o coreto até cerca de 21:00, quando todos se dispersaram e a festa terminou.
 

 
Carnaval
O carnaval em Santana de Parnaíba é uma festa tradicional e bastante conhecida na região, principalmente em Barueri, Osasco e Pirapora. A abertura é, há mais de cem anos, na sexta-feira à noite com o "Bloco dos Fantasmas" e o "Grito da Noite". Este último é o grupo que vai puxando o samba com temas improvisados, geralmente sobre personagens e situações do cotidiano da cidade. Atrás do "Grito" vem o "Bloco dos Fantasmas", em que todos participam vestidos com mortalhas brancas, caveiras e máscaras ou com fantasias de terror; o maior cuidado é não ser reconhecido. O primeiro grupo de "fantasmas" saiu, no ano de realização da pesquisa,  por volta das 22:00 do Museu, no Largo da Matriz. Aos poucos, vários outros "fantasmas" ,  de todas as partes da cidade – inclusive do cemitério –  foram engrossando o bloco.

 

No "Bloco dos Fantasmas" todos participaram: velhos, mulheres, crianças, moradores do Centro Histórico, da Vila Nova. Nos outros dias de carnaval, três eventos se realizaram: o baile no clube, o baile na rua e o desfile das escolas de samba, no domingo e na terça-feira. Para o carnaval no Clube Atlético Santana foi contratado um conjunto de fora; o baile é bastante animado, na opinião dos participantes, indo das 23 até às 4 horas da manhã.
 

Na Praça 14 de Novembro foi realizado o baile de rua, promovido pela prefeitura e animado pela banda da cidade. O baile começou às 19:30 horas, indo até meia noite, e normalmente é uma opção para aqueles que não podem pagar o ingresso para o baile do clube, assim como para as crianças.
 

A organização e preparação do desfile ficaram por conta da prefeitura e do Clube. Eram duas as escolas de samba da cidade: a "Unidos de Parnaíba", subvencionada pela prefeitura e a do "Clube Atlético Santana". Foi o  Departamento de Turismo que idealizou a decoração das ruas, contratou a costureira e providenciou as verbas para a compra de material para as fantasias.
 

Às 16:30 horas saiu o desfile com a "Unidos" na frente e a escola do C.A.S.A. a seguir. Nessa hora, as calçadas estavam cheias de turistas e os moradores do Centro aguardavam nas janelas de suas casas a passagem do desfile. A "Unidos" era a escola maior, com a ala das crianças, das mulatas, bloco de moças, bloco dos rapazes,   rainha da bateria, bateria, porta-bandeira, mestre sala, rainha e rei momo. A maior parte dos integrantes dessa escola era da Vila Nova, além de alguns amigos de São Paulo, Barueri e Osasco. A escola do C.A.S.A. saiu com o bloco das casadas, o bloco das moças porta-bandeira, mestre-sala, bateria e destaques. Nessa escola a maior parte dos participantes era do Centro Histórico e das famílias tradicionais da cidade.
 
 
 

Significado das festas

A partir da observação do conjunto das festas pode-se fazer uma primeira classificação: As da Padroeira, São Benedito, São Sebastião, Romaria de Santo Antônio do Suru, Corpus Christi, São João da Vila Nova e São João da Família Chaves são festas essencialmente religiosas, ou seja, seu ponto focal está na devoção do santo que celebram, o que não quer dizer que não tenham elementos ou momentos profanos, tais como as barraquinhas, o baile, a madrugada de preparação das ruas para o Corpus Christi e etc. As demais teriam então um caráter marcadamente profano, como a festa de Aniversário da Cidade, a comemoração do Sete de Setembro e o Carnaval. Entretanto, essa classificação não é suficiente para identificar como  cada segmento participa das diversas festas, pois esta participação é  um importante indício das suas apropriações  do espaço social da cidade, baseadas no referencial histórico de cada um e expressa os conflitos e tensões que permeiam o cotidiano.
 

Observando a relação dos “de dentro” com as festas, vê-se, nitidamente, que a maior valorização e participação recaia justamente naquelas festas que reforçam a identidade parnaibana: a festa da Padroeira e o aniversário da cidade. Na festa da Padroeira são eles que enfeitam o altar e seguem a procissão rezando e cantando. No Aniversário da Cidade, todos estão na rua desde cedo e no baile à noite. Pode-se perceber, em ambas, a importância que os “de dentro” atribuem à sua realização, quer pela participação quer pela exaltação à cidade, a seus fundadores e às famílias tradicionais. Por outro lado, os moradores da Vila Nova e dos bairros da periferia da cidade participavam dessas festas na qualidade apenas de espectadores, enquanto os “de fora” do Centro Histórico sequer tomavam conhecimento delas.
 

A festa de Corpus Christi expressa outras relações. O núcleo da festa – os tapetes de serragem que enfeitavam as ruas por onde passava a procissão – foi uma novidade introduzida por uma pessoa de fora, trabalho que hoje é feito principalmente por pessoas da Vila Nova com amigos de cidades próximas, com destaque para a participação dos “artistas”. Eles se reuniram previamente para decidir o tema que orientaria a decoração dos tapetes – no  ano da pesquisa  foi  “O Trabalho e os Santos”.
 

Assim, os “artistas”, independentemente da rua em que residiam, enfeitaram a praça 14 de Novembro, normalmente com temas e  materiais não muito ortodoxos, o que gerou  muitos comentários na cidade. Eram poucos os “de dentro” que enfeitam as ruas; sua participação era dada pelo controle e pela crítica, quando de manhã passeavam pela cidade observando o trabalho, revelando também no momento da festa a disputa e o conflito que existe entre os grupos.
 

A festa de São João da Vila Nova, por sua vez, expressava também a posição dos moradores desse bairro na dinâmica dos grupos. Essa festa nasceu justamente como afirmação e delimitação de espaço, já que naquele momento esse grupo era fortemente discriminado pelos “de dentro”; o Clube, por exemplo, não os admitia como sócios. Mais recentemente  este papel de “periferia”, de “baianos”, é preenchido pelos moradores de bairros mais afastados do centro, como o Jardim Isaura, por exemplo. Assim, essa festa também refletia uma nova oposição: a presença de moradores que têm outro tipo de vínculo com a cidade, e que se relacionam muito mais com os habitantes das cidades vizinhas, principalmente Osasco e Barueri – num certo sentido seus “iguais” – do que com os “de dentro”.
 

Já o Carnaval, como  festa de inversão, das fantasias que ocultam e revelam, da possibilidade de representar outros papéis, permitia a participação de  todos: os “de dentro”, os “de fora”, os “artistas”, os “estrangeiros”, a periferia e os turistas, ainda que essa participação ocorra de forma diferenciada. Assim, nas duas escolas de samba manifestou-se novamente a oposição Centro Histórico/Vila Nova; o baile de rua e o do clube também marcaram novas diferenças. E o “Bloco dos Fantasmas” e o “Grito da Noite” são caracteristicamente parnaibanos, já que há mais de cem anos são eles que abrem o Carnaval na Sexta-feira à noite.
 

As demais festas do calendário da cidade se inscreviam em outros eixos de significação. O Sete de Setembro é uma festa cívica, obrigatória, realizada em todos os municípios. A Romaria de Suru, a menos dinâmica e com sinais de enfraquecimento, refletia principalmente as transformações pelas quais passou a área rural do município com a expulsão dos sitiantes, dando lugar a loteamentos e chácaras de fim de semana. O Suru era, à época da pesquisa, talvez o último bairro rural onde ainda era dominante a presença de pequenos sitiantes.
 

Na festa de São João, de Joãozinho Chaves, via-se também a manutenção das tradições ligadas ao catolicismo rural aliadas à realização do baile – forró – que é o momento mais concorrido da festa. As outras duas festas, São Sebastião e São Benedito, eram festas religiosas que perdiam vitalidade ano a ano, repercutindo apenas a devoção ainda presente, principalmente, entre os mais velhos, “de dentro”.

 
Também em relação à maneira como a população da cidade avaliava as festas, foi possível  perceber significados e valores diferenciados atribuídos a cada uma delas. Assim, para os “de dentro”, há a valorização do tempo em que as festas tinham um caráter mais familiar, voltadas apenas para a comunidade local. Essa perspectiva se apresentava tanto no discurso dos velhos como no de seus filhos e netos, que dominam uma história localizada e o significado dessas festas, que dão conteúdo ao ser “parnaibano”.
Este grupo qualificava as festas em geral através da comparação com as do passado. Assim, contavam que a maior parte delas era de caráter religioso, exercendo um papel atuante no cotidiano das famílias. A igreja era cuidada e decorada por elas, sendo que cada uma recebia a incumbência de manter o altar de um santo; em todos os quintais eram plantadas flores destinadas à decoração da igreja. As mulheres bordavam toalhas, faziam roupas para vestir as imagens  etc. Todo ano era sorteado um festeiro que arcava com a totalidade das despesas e sempre procurava superar seu antecessor. Assim, os santos eram homenageados e as festas podiam durar até vários dias com grandes doações aos leilões (geralmente animais de criação) e fartura de bebida e comida gratuita para todos.
 

“... Tinha quermesse, a quermesse era movimentada, tinha congada, tinha pau de sebo, leilão com aqueles bichos, tinha bolo, tinha porco, bezerro, cabrito, galinha, nas festas lá no jardim da praça. Tinha tanto bicho que os sitiantes traziam, principalmente na festa de São Benedito, que é ele que protege os animais. Todo sitiante dava um bicho prá São Sebastião que era prá guardar os animais, proteger. Então cada sitiante, quando era festa dele, trazia um bicho. Até 1947, eu me lembro que era assim, depois foi fracassando. Todo quintal que tinha frango, porco, cabrito, o dono da casa dizia: “esse não pode matar que é de São Sebastião”, não podia matar porque vinha pro leilão. Atualmente não tem mais nada que presta”. (D. Dilma)


É importante esclarecer que descrições desse tipo correspondem ao período no qual a atividade agrícola era dominante. Assim, também era forte a lembrança das rezas caipiras, da folia de reis, das congadas, sempre ressaltadas pela simplicidade que caracterizavam a vida em Parnaíba.

Mais recentemente,  no discurso dessas famílias, as festas eram  descritas pelo que elas não têm e não são mais: a falta de religiosidade, característica dos tempos modernos, aliada ao desinteresse de um  padre que “não gosta de festa” – chegou mesmo a impedir a realização de algumas delas – é agravada pelo interesse principalmente comercial que orienta a realização das festas: “ninguém mais segue a procissão, todos só querem montar barraquinha prá vender alguma coisa”, diziam. Essas mudanças eram explicadas pelas transformações que a cidade sofreu nas últimas décadas, principalmente o crescimento do município e o conseqüente aumento populacional, que geraram modificações profundas no cotidiano da cidade e se refletiam  também no significado das festas. Para os “de dentro”, os costumes, os valores e as tradições se perderam:
 

“... Naquele tempo era gostoso as festas, tinha muita festa de rua, da igreja, era muito bonito: barraca, cada barraca tinha um grupo uniformizado. (...) As barracas eram em benefício da igreja, que nem essas festas do Divino, de Santana, essas festas grandes que tinha, (...) tinha congada, era tudo daqui, era tão bonito, depois foi morrendo, foi acabando tudo, agora não tem mais... Tinha uma porção de divertimento, muito bonito, depois acabou tudo. Os costumes da cidade, do povo mesmo, já não é como era, né, tem muita gente de fora aqui, tem muita gente: aqui pro centro não aumentou, é a mesma coisa de sempre, mas lá prá cima, aquela vila que formaram, é tudo gente de fora, pouca gente daqui.” (D. Estela)
 

 “ Essa festa do Corpus Christi ou seja, esse enfeite nas ruas é relativamente recente, é de após guerra. (...) Corpus Christi antes, aqui, enfeitava-se as janelas, punha-se colchas bonitas, toalhas, flores, crucifixo em cada janela. Ainda se faz isso, algumas pessoas, as mais velhas, as mais moças já não enfeitam as janelas prá passar a procissão. (...) antes aqui era uma comunidade literalmente fechada. Então a gente vivia só com recurso próprio e participava muito, porque a festa do divino, por exemplo, era uma festa muito importante. O festeiro era sorteado quando terminava uma festa. Chamava o Imperador do Divino e a Imperatriz. E tinha que ter capitão de mastro, alferes da bandeira. (...) A festa de Santana, antes, tinha mais importância que Corpus Christi hoje, porque era a Padroeira; Corpus Christi tinha, mas nem chamava Corpus Christi porque era o “Triunfo da Eucaristia” né. Isso é muito antigo (...) Era o enfeite das janelas e as folhas odoríficas que pisava e ficava aquele cheiro bom na rua (...) mas agora, na verdade, não é mais o espírito religioso, predomina mais o espírito turístico, né.” (D. Emília)

Já para os “de fora”, que não têm acesso ao passado da cidade e à memória das festas, a avaliação que faziam delas é positiva, sendo um atributo importante na caracterização da cidade. Expressavam, segundo eles, a manutenção do caráter “tradicional” de uma cidade pequena, de interior. Assim, tanto para os “estrangeiros” como para os “artistas”, a opção por Santana de Parnaíba significava a possibilidade de morarem em uma cidade com essas características: uma “comunidade”, ainda não transformada totalmente em seus hábitos pelos meios de comunicação de massa e conservando aquele “charme antigo”. Para os “profissionais”, que vieram se integrar diretamente no cotidiano da cidade, as festas aparecem como a possibilidade de penetração no mundo fechado do parnaibano, e, como eventos que atualizam, de forma um tanto nebulosa, a memória de Santana de Parnaíba.

 

“(...) Os artistas têm que se envolver na vida da cidade através daquilo que sabem fazer, através da arte. Por exemplo, nas festas como o Corpus Christi, o Carnaval... são possibilidades que a gente tem de participar fazendo aquilo que o artista sabe e deve fazer; essa é minha opinião, entendeu? Eu gosto de morar aqui, aqui você ainda tem uma vida diferente... o Carnaval aqui, eu gosto muito, ainda é uma festa familiar sem confusão.” (Sr. Lourenço)
 

“Eu gosto de Parnaíba, dessa vida de interior. Eu conheço as tias, o açougueiro, o pessoal do sítio que vende frutas, sou amigo de todos... aqui, você dá uma saída e todo mundo sabe onde você está... e tem muita festa, aqui eles ainda conservam as tradições; coisa que você não vê nas grandes cidades. Eu participo das festas, sempre que posso, até fotografei e filmei o Carnaval e o Corpus Christi.” (Paul)

Havia, entretanto, diferenças significativas se se comparavam os discursos com o comportamento desses grupos em relação à sua participação nas festas. Segundo os depoimentos dos “de dentro”, as festas acabaram, não têm mais sentido; no entanto, esse grupo continua participando e organizando algumas delas, principalmente as religiosas e, em especial, a da Padroeira e a do aniversário da Cidade. No discurso dos “de fora” tem-se a valorização de todas as festas em conjunto, contudo, participavam efetivamente daquela que tinha um caráter mais nitidamente marcado de exposição da cidade para fora, de valorização de “cenário” da cidade: o Corpus Christi.

 

Pode-se concluir que, se as festas passaram por um processo de transformação, inclusive no que se refere aos seus aspectos formais, tais como, duração, organização e “brilho”, – elas continuavam existindo com diferentes graus de dinamismo, marcando posições, definindo espaços, revelando aspectos do cotidiano  e atualizando tanto os  conflitos como as possibilidades de integração.


 
 

Conclusões

 

A pesquisa foi desenvolvida em três  etapas – exploratória, classificatória, e de observação -  cada qual em torno de um eixo básico. A primeira parte tinha como objetivo levantar o conjunto das opiniões, interesses e valores existentes na população de Santana de Parnaíba a respeito da cidade e do patrimônio cultural procurando a partir daí agrupar os entrevistados em segmentos segundo recortes e categorias que eles mesmos utilizavam. Foi possível  identificar, assim, duas divisões bem nítidas: os “de dentro” e os “de fora”.

Para os primeiros, a importância da cidade aparecia principalmente no contexto das relações de família; o discurso era centrado no passado, quando Parnaíba era “dos parnaibanos”, “todos se conheciam” e quando as festas mobilizavam toda a cidade. As referências históricas – salvo genéricas alusões ao tempo dos bandeirantes – não iam, contudo,  para além da história particular dos troncos familiares. Era através da memória de um passado antes mítico que real, e da crítica aos “tempos atuais”, à gente de fora, que os “de dentro se auto-representavam como guardiões do verdadeiro “ser parnaibano”.

 

Os “de fora” traziam a marca da modernidade, das transformações. Esta marca ia desde saber dar o devido valor ao patrimônio – diferentemente dos parnaibanos, considerados “atrasados”, “ignorantes” –, passando pela defesa da ecologia, até o caso mais extremo dos “de fora” da vila Nova, para os quais o que conta são as carências de equipamentos urbanos, como corresponde a moradores de periferia. 
 

Para uns, o interesse era pessoal: restaurar as próprias casas, mesmo à custa de destruir outras; alguns viam na cidade a possibilidade de desenvolver atividades específicas, ligadas ao turismo, como ocorre em Parati ou Embú. O referencial, aqui, era o valor histórico-arquitetônico, apreendido de maneira algo ingênua – o “estilo colonial”, que também sensibiliza alguns “de centro” – ou de forma genérica, o “charme das casas antigas”. Nesse sentido, o discurso dos “de fora” aproximava-se em alguns aspectos da visão e prática dos organismos de preservação: a ênfase era colocada na história mais geral e no patrimônio edificado com a diferença de que no caso dos órgãos de preservação existe uma fundamentação histórica e arquitetônica elaborada, com base em conhecimentos técnicos especializados.
 

O importante, contudo, é notar que para os “de dentro” a história era idealizada e apreendida do ponto de vista restrito e fragmentado de suas vinculações familiares; para os “de fora” a história era antes uma referência genérica, e/ou ingênua; de qualquer maneira, trata-se de instâncias que não se encontravam. Este era  um problema a ser encarado pelos órgãos de preservação: atuar no sentido de estabelecer mediações entre esses pólos, de forma que o horizonte limitado das percepções dadas pudesse vincular-se a processos mais abrangentes, o que significava ampliar o que é restrito (percepções dos “de dentro”) e tornar mais concreto e preciso o que é aprendido de maneira difusa e permeada pelo senso comum (percepções dos “de fora”).
 

Qualquer proposta, seja de esclarecimento ou de atuação, se pretendesse obter ressonância, devia partir dessa base mínima, e que não era a mesma para todos os moradores. Enquanto uns, os “de dentro”, seguramente responderiam a apelos que evocassem de alguma forma os laços familiares e a condição de “parnaibanos históricos”, outros, os “de fora”, seriam mais sensíveis a questão e temas relacionados com a cidade enquanto conjunto arquitetônico com características específicas e aberta a iniciativas, atividades e propostas que a vinculassem “ao resto do mundo” e aos dias atuais.
 

Tanto os “de dentro” como os “de fora” encontravam-se, contudo, num plano, o das festas. E mais uma vez fazia-se sentir a divisão já assinalada: para os primeiros, as festas de hoje não tinham, mais aquele “brilho” de antigamente; para os outros, eram ocasiões de integração, agora, na cidade ou de aí exibir suas iniciativas e o produto de suas atividades. De um jeito ou de outro, porém, a questão tocava a todos, ainda que por motivações e valores diferentes.
 

A escolha do ciclo festivo como fio condutor da terceira etapa da pesquisa deveu-se, antes de mais nada, à importância que as festas assumiam no discurso dos informantes e no efeito mobilizador que contrastava com a rotina da cidade. Era preciso, contudo, explicar essa evidência empírica e assim fundamentar a linha de análise escolhida. Comparando, então, as conclusões da primeira parte com observações e depoimentos especificamente em torno do tema das festas, pôde-se perceber uma oposição, de fundo, referente ao conceito de tempo. Num caso, tempo histórico, seqüencial-progressivo: era o passado justificando o “ser parnaibano” e servindo de critério para excluir os “de fora”, essa gente de agora, sem laços com a tradição de Parnaíba; para estes últimos, o mesmo passado era visto como sinal de atraso, imobilismo, ou então não passava de um vago marco de referência.
 

Com relação às festas, porém, o tempo de base é cíclico: cada ano repetia-se o mesmo calendário festivo. “As festas já não são como antigamente”, deploravam os mais velhos. No entanto persistiam, amparadas por uma estrutura que permanece, a despeito das inevitáveis mudanças. É que se o tempo histórico era percebido como irreversível, o tempo cíclico repunha, de forma ritualizada, eventos que evocam o passado, atualizando-o e articulando-o à rede de relações que permeiam a trama do dia-a-dia. Os ritos, assim, ao mesmo tempo em que alteram e estabelecem cortes no fluxo cotidiano, não constituem momentos essencialmente diferentes da rotina diária, uma vez que, neles, determinados aspectos desse mesmo cotidiano são salientados, colocados em foco. “O mito e o ritual seriam dramatizações ou maneiras cruciais de chamar a atenção para certos aspectos da realidade social, facetas que, normalmente, estão submersas pelas rotinas, interesses e complicações do cotidiano” (Da Mata, 1979, p. 34).
 

Daí o interesse pelas festas – momentos de encontro entre o passado e o presente, entre parnaibanos “históricos” e os “de fora”, entre moradores e visitantes; conforme afirma Da Mata”, é como se o domínio do ritual constituísse uma região privilegiada para se penetrar no “coração cultural” de uma sociedade, ou seja, no seu sistema de valores, uma vez que o rito permite tomar consciência de certas cristalizações sociais mais profundas”. (idem, ibidem, p. 29)
 

Foi mostrado como os “de dentro” e os “de fora” – artistas, profissionais, estrangeiros – participavam, em diversos graus, das festas. Cada evento festivo, mobilizando, assim, participações diferenciadas, tornava-se suporte de significados também diferentes; desta forma, não se pode decidir pela “autenticidade” ou descaracterização deste ou aquele, com base em critérios estabelecidos num corte temporal diacrônico: se ainda são realizados, é porque são investidos de significados por seus vários participantes. Assim, a festa da Padroeira e o aniversário da cidade, por exemplo, constituem rituais de reforço, para os artigos parnaibanos; já a comemoração de Corpus Christi, entre outras, para os “de fora”, abre a possibilidade de entrada e participação na vida da cidade.
 

Além da oposição em torno do eixo temporal, existia outra, presente nos depoimentos e no próprio comportamento dos entrevistados: é a que opunha espaço privado (a casa) e espaço público. Enquanto aquele era impenetrável, fechado aos “de fora” (inclusive aos órgãos de preservação e a seus técnicos, ns visitas de rotina) o último era acessível até para os turistas. O primeiro era o universo das famílias, o lugar de onde se exercia o controle – cortinas que se agitam, discretamente, janelas que abrigam olhares perscrutadores; já o segundo era aberto,  na modalidade de trajeto das procissões e dos desfiles e   local das barracas em dias de festa: era, enfim, o cenário dos rituais.
 

Se se pretende chegar até as casas (enquanto edifícios tombados, portanto sujeitos à ação preservacionista institucional) e aos seus moradores, sensibilizando-os para a questão global da preservação, seria  preciso começar pelo espaço público e, estrategicamente, pelas festas, elemento vivo e dinamizador do patrimônio cultural. O calendário de festas pode constituir uma via de acesso privilegiada para se começar a estabelecer as mediações entre as histórias familiares particulares e processos históricos mais abrangentes e entre estes e o patrimônio tombado.
 

Uma presença mais efetiva dos órgãos de preservação por ocasião das festas e de sua preparação – incentivando, documentando, divulgando, fornecendo subsídios de infra estrutura – permitiria contrabalançar a tradicional (e inevitável) função de órgão fiscalizador com outra, de apoio. Um centro de memória poderia dar continuidade a essa tarefa através de uma pesquisa histórica mais ampla, não apenas por meio da coleta de dados em instituições e arquivos, mas também com levantamentos de informações, documentos e objetos em poder dos próprios parnaibanos: seria preciso mostrar que os fragmentos que constituem sua memória fazem parte de processos mais amplos, responsáveis pelo que Santana de Parnaíba foi e conserva hoje, em seus costumes, casas, ruas,  edifícios e dinâmica de suas redes sociais.
 

Notas:
O  texto que segue é uma parte, re-relaborada, desse relatório; da pesquisa de campo, por mim coordenada, participaram Naira I. M. Morgado, Carmen Lúcia M. V. de Oliveira, Celina Kuniyosh e da elaboração do relatório participaram  Naira I. M. Morgado e Carmen Lúcia M. V. de Oliveira. 
Segundo informações contidas no site da Prefeitura, são   209 as edificações, tombadas, em 1982, pelo CONDEPHAAT. Mas antes, em 1958, a residência bandeirista urbana, construída na segunda metade do século XVII, onde atualmente funciona o Museu Histórico e Pedagógico Casa do Anhangüera e o sobrado construído no século XVIII, onde está instalada a Casa da Cultura, foram tombados pelo IPHAN. 
Cabe observar que o presidente do órgão, à epoca, era o antropólogo Antonio Augusto Arantes. 
Partiu-se de um recorte já dado, a área tombada. Esta área corresponde ao espaço de formação da cidade – atual “centro histórico” – então com funções de setor residencial, pequeno comércio, serviços públicos. Para efeitos de comparação, elegemos um bairro próximo ao centro, Vila Nova, resultante da recente expansão urbana em direção ao oeste
Todos os nomes dos informantes são fictícios.
  Como as  demais descrições que constam neste relato, a desta  festa  tem como base  observações feitas à época da pesquisa.
 
 

Bibliografia
 

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