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SANTANA
DO PARNAÍBA: MEMÓRIA E COTIDIANO-José Guilherme C.
Magnani (continuação)
IV -
Os moradores
A partir da delimitação
da área a ser pesquisada - Centro Histórico, recorte já
dado através do tombamento, e Vila Nova, como contraponto, buscamos
verificar nossa hipótese centra a heterogeneidade dessa população
e suas opiniões. Assim, foi possível montar a rede dos diversos
grupos em função dos significados diferenciais atribuídos
ao cotidiano, memória, preservação da cidade. A partir
dos primeiros contatos e entrevistas foi estabelecido o corte inicial que
divide essa população: ser "de dentro", ou seja, ser parnaibano
e ter pelo menos três gerações nascidas em Santana
de Parnaíba; e ser "de fora", grupo que se subdivide devido à
própria imagem, relação que tem com a cidade, e as
razões pelas quais esses novos moradores ai se fixaram: são
estrangeiros, artistas, profissionais diversos.
1. Centro Histórico:
os "de dentro"
A maioria das indicações
nos remeteu a velhos moradores sob a alegação de que eles
teriam muito para contar sobre Parnaíba. Para nossos informantes
e, como mais tarde pudemos verificar, para a toda população,
são esses velhos que contam e reavivam o passado de Paraíba.
O contato foi facilitado por sua disponibilidade: a maioria é aposentada
e não costuma se ocupar de outras atividades. Partíamos de
uma pergunta genérica dizendo estar interessados em conhecer um
pouco de Parnaíba e pedindo que nos contassem alguma coisa.
"Gosto de
Parnaíba, aqui eu me criei, minha mãe, minha avó,
aqui eu estudei, aprendi a trabalhar, fiz de tudo, carpi, lenhei, cuidei
de galinheiro, porco, faço bordado, crochê, flor..." (D. Ermínia)*
Aos poucos fomos percebendo
que, para esses velhos, falar de Parnaíba significava recuperar
a memória afetiva consagrada nas relações familiares,
de amizade e nas festas. Reconstituindo a memória de Parnaíba
iam nos revelando o cotidiano da cidade, as relações entre
os grupos e sua ordenação, o que se confirmava a medida que
a pesquisa avançava. Mergulhados no passado, iam ao longo das conversas
fazendo-nos entender um pouco da história e do papel de recuperadores
da cidade que a eles é atribuído. Assim, auto-suficiente,
solidária e cheia de alegria, Parnaíba era a cidade de poucas
famílias e muitas festas, que aglutinavam essas folias e pontilhavam
seu cotidiano;
"Antigamente era
tudo coisa da terra, carros de boi trazendo coisa do sítio, mas
a vida era assim mais alegre, forjada aqui mesmo, tinha teatro, cinema,
as festas." (Batista)
"Naquele tempo era
gostoso, as festas, tinha muita festa., de rua, de igreja, era muito bonito,
barraca, cada barraca tinha seu grupo uniformizado. Cada grupo tinha um
uniforme diferente, então tinha 5, 6 barracas, eram 5, 6 grupos
assim uniformizados, e cada um escolhia o uniforme, a cor, o modelo como
queria, então um escondia do outro, não queria que o outro
soubesse, assim quando chegava no dia era pra ser tudo surpresa (...)"
(D. Maria)
Orgulhosos de sua história,
remontam o passado valorizando suas características de gente da
terra, enraizados, dignos descendentes dos fundadores da cidade: Uma cidade
que manteve seu traçado ao longo do tempo, carregando a tradição
dos doces, bordados, transmitida de geração em geração.
"O parnaibano é
bandeirante, minha mulher é dos Bueno, bandeirante" (Tico)
No entanto, nos
últimos vinte e cinco anos a melhoria de condições
de acesso ao município e a instalação de indústrias
ao longo das rodovias gerando acentuado incremento populacional, fez com
que esse universo parnaibano passasse por transformações
muito significativas.
"Antigamente
era tudo família, não podia falar mal de ninguém que
era como mexer num vespeiro, agora tá cheio de gente esquisita,
foi lá por 1960 que veio essa baianada prás indústrias,
não parou mais de chegar gente de fora". (Tico)
Esse sentimento em relação
à população que veio de fora constituindo os novos
bairros que se formaram a partir da década de 60, se mostra mais
acentuado quando se manifestam acerca da possibilidade de morar nesses
locais.
"Deus me
livre! Vila Nova só tem gente de fora, gente desconhecida, tem poucos
moradores antigos". (D. Maria)
Parnaíba
sofreu no decorrer dos últimos anos, transformações
que para muitos representou uma descaracterização violenta
da cidade naquilo que para eles é o mais significativo - a vida
na cidade.
"A cidade
não tinha tanta gente como hoje, porque o meio de vida era o botequim
ou a roça, o sítio, essa gente morava tudo nos terrenos fora,
nos sítios, sabe? Só vinha na cidade de Sábado e Domingo
prá assistir a missa. Vinha Sábado, pousava; Domingo de tarde
ia embora pro sítio outra vez prá trabalhar lá. As
casas aqui, elas davam prá gente morar nas casas, prá não
ficar fechada, porque casa fechada estraga né, então eles
davam prá uma pessoa... Oh! Você fica morando lá, toma
conta de minha casa. É só vinha aos sábados e domingos.
Prá não estragar as casas, eles davam prás pessoas
morar, ninguém alugava casas". (Sr. Francisco)
Em síntese,
é esse o discurso dominante que expresso pelos velhos caracteriza
profundamente os "de dentro", ou seja, todos os parnaibanos independentemente
da faixa etária ou condição sócio-econômica.
A família é o elemento forte que baliza o cotidiano, as festas,
a cidade.
Há, entretanto,
nesse discurso, algumas especificidades que vale a pena ressaltar, principalmente
em relação à imagem física da cidade, dada
pela possibilidade de comparação com outras cidades, reveladas
no discurso dos velhos durante algumas décadas viveram em outras
cidades e pelos jovens, estes com possibilidades de acesso constante a
São Paulo, Barueri e Osasco. No que diz respeito aos velhos que
saíram e voltaram, a ausência durante alguns anos é
justificada em razão das difíceis condições
de vida e trabalho que a cidade oferecia até o começo da
década de 60, quando tem início um pequeno surto industrial.
O período
anterior à instalação de indústrias no
município é marcado por um mercado de trabalho restrito,
sendo o comércio e o trabalho rural as grandes opções,
além da instalação da Light que, no começo
do século, incorporou uma pequena parte dessa população.
Portanto, a opção de sobrevivência, na maioria
das vezes, só era possível fora da cidade, o que obrigou
muitos a saírem e voltarem mais tarde, quando aposentados.
O retorno buscava
o restabelecimento da identidade perdida nas grandes metrópoles,
invocando-se a posição de descendentes das famílias
fundadoras de Parnaíba. Recuperar, na velhice, a Parnaíba
das três ruas onde passaram a infância e a juventude, através
da comparação com as grandes cidades, representa reaver sua
cidade que, apesar de alterada, não perdeu a "calma, o sossego e
a tranqüilidade".
As alterações
são por eles sentidas e percebidas tanto no que diz respeito à
presença dos "de fora", como também em relação
ao patrimônio edificado. Conhecem os órgãos de preservação
e atribuem as descaracterizações à falta de conhecimento
da população.
"A cidade
enfeiou, agora estão dando uma ajeitada, estão começando
uma retomada. Hoje eles são incapazes de derrubar uma casa, o patrimônio
não deixa mais, agora todo mundo que faz casa já faz com
arco e tudo. O colonial né. O Petiti foi o pioneiro aqui em matéria
de conservar o antigo. Essa coisa de antigüidade, ele é uma
pessoa empenhada, é uma coisa mais de cultura, é essa gente
que veio de fora que conserva". (D. Inês)
Já os jovens
que não vivenciaram a história anterior, mas são filhos
de algumas gerações de Parnaíba, valorizam na mesma
medida o eixo fundamental revelado nos velhos. Gostam da cidade porque
ela é de seus pais, avós, bisavós, suas famílias
fundaram a cidade e eles "continuam donos". Gostam do "estilo" do "jeito"
dela por comparação com outras cidades; quanto ao patrimônio
edificado, referem-se apenas à fachada. Devido ao pequeno desenvolvimento
de Parnaíba - cidade que não lhes oferece muitas opções
de lazer, trabalho e comércio - uma grande parte estuda e/ou trabalha
em Osasco, Barueri e São Paulo.
"Eu gosto
do tipo de Parnaíba, é pequena, eu gosto do jeito como ela
é, não é igual a Osasco, que tem tudo feio; aqui não;
é casinha perto de casinha, principalmente as casas coloniais".
(Débora)
Esses jovens possuem,
diferencialmente dos velhos, uma relação mais dinâmica
com a cidade, centrada no presente, freqüentam os locais públicos:
o clube, a sorveteria, o barzinho. A praça e o espaço de
vivência, desde a infância, onde se encontram para brincar,
até a adolescência quando, nos fins de semana, ao entardecer,
se reúnem para conversar, namorar, combinar os programas para a
noite. A turma é uma caracterização determinante nas
relações. Em geral um grupo não se relaciona com outro.
"A turma
se encontra prá conversar, vai ao clube, às vezes a gente
sai prá ir ao cinema, lanchonete em São Paulo, mas
não é sempre, na maioria das vezes a gente fica aqui. Aqui
tem várias panelinhas". (Débora)
O centro é importante,
é o local onde realizam as atividades sociais, "todos se conhecem".
Entretanto, essa familiaridade também pode representar alguns problemas,
particularmente no que diz respeito ao controle que sofrem diante da vigilância
exercida pelos velhos.
"Aqui tem
muito velho, as velhas são muito fofoqueiras, elas não têm
o que fazer, então ficam atrás da janela vendo e depois saem
contando prá cidade todo". (Vera)
Durante o tempo que
estivemos em campo, pudemos observar, seja através das conversas
com eles, assim como dos eventos que participamos, a ausência desses
jovens nos eventos socio-culturais patrocinados na cidade, em particular
os do Museu, geralmente promovidos pelos artistas.
"Aqui a
cultura é pouca, ninguém dá muito valor prá
essas coisas históricas, turista é que dá, a gente
tá acostumado, não liga, essa exposição de
pintura no Museu é só prá elite, o pessoal não
tem cultura prá isso". (Vera)
Os melhoramentos mais
reivindicados por eles referem-se ao transporte, escolas, trabalho e lazer,
mas isso significaria mudanças muito grandes na cidade. Assim, tanto
os velhos que saíram e voltaram como os jovens, têm - diferentemente
dos parnaibanos que nunca saíram da cidade - uma outra alternativa,
além da história familiar, para expressar a imagem da cidade:
a comparação com outros centros urbanos.
"Eu não gostaria
que tivesse muita mudança, ia chegar muita gente, ia estragar".
(Débora)
2. Centro Histórico:
os "de fora"
Artistas
Os artistas foram
se fixando em Parnaíba pouco a pouco, principalmente devido à
possibilidade de morar em uma cidade pequena, portanto, tranqüila
e, ao mesmo tempo, próxima da Capital.
São basicamente
artistas plásticos que residem na cidade há pelo menos três
anos, e dependem de outra atividade para sua manutenção;
há vários professores de 1 e 2 graus, alguns funcionários
públicos e profissionais liberais. Ficamos bastante próximos
de alguns deles, especialmente de André, professor, artista plástico
e promotor de alguns eventos na cidade, tais como: feira de arte, promoção
do artesanato local etc. Sua casa, localizada no largo da Matriz, ponto
de encontro do grupo, passou também a ser (também) passagem
obrigatória em nossas visitas à Parnaíba. Era lá
que nos informávamos sobre os acontecimentos da semana e tínhamos
acesso às "fofocas" - pessoais, políticas, religiosas etc.
E nas conversas
foi se revelando a visão que possuem da cidade.
"Parnaíba
é uma cidade tranqüila, gostosa de se morar, calma, todo mundo
se conhece. É uma cidade bonita, de valor histórico". (Edu)
"Mudou pouca coisa
aqui, o pessoal é bem tradicional, as mudanças se operam
lentamente. Eu acho que é uma contradição, porque
eles querem as mudanças, mas têm receio e eles não
gostam que as mudanças partam de fora". (Cleuza)
Segundo a perspectiva
desse grupo, a tendência da cidade era de se transformar em dormitório,
totalmente voltada para São Paulo. Essa tendência não
se concretizou, segundo eles, devido à ação do próprio
grupo, que criou alternativas: feiras de arte, exposições
na "Caso do Anhangüera" e o teatro.
"Até
abrir a Castelo dizem que Parnaíba era uma coisa especial, tinha
seresta. São Paulo era longe ainda e o pessoal vivia prá
dentro da cidade." (André)
Comentando sobre a inserção
deles na sociedade local, explicitam a imagem que formam do parnaibano.
"O nosso
grupo é diferente, é um grupo meio assim à parte,
até botaram um apelido aqui em casa: `Arca de Noé', porque
tinha tudo quanto era bicho." ( André)
"Parnaibano é
acomodado, não faz nada, é só o pessoal de fora que
faz as coisas aqui." (Edu)
Para esse grupo, nossa
identidade de funcionários do CONDEPHAAT se manteve, principalmente
no começo da pesquisa, e assim vez por outra, nos cobravam uma atitude
mais enérgica do órgão e se colocavam como os únicos
preocupados com a preservação.
"Tá
cheio de construção aqui que não tem nada a ver...
para a população daqui tanto faz se encher de prédio,
ninguém tá nem aí, eles não querem é
que mexam com eles, querem sossego." (Edu)
"O pessoal daqui
não sabe o valor das coisas, tem mania de modernização."
(Marina)
À medida que
nossas relações com esse grupo foram se estreitando, o tema
da preservação começou a adquirir nuances mais complexas
e a crítica ao CONDEPHAAT já não se dirigia a nós,
passaram apenas a nos contar o que pensavam a respeito dessa questão.
"Acho que
uma coisa que assustou o parnaibano foi essa posição do CONDEPHAAT
e do SPHAN de que "vocês têm uma coisa valorosa na mão
e vocês não percebem isso". Eu acho que isso assustou, assustou
numa boa né? De repente, ele olhou prá parede dele e falou:
"Meu Deus! O que foi que eu fiz! Eu arranquei minha janela e botei uma
vidraça e agora o pessoal veio falar que eu joguei fora". Eu acho
que assustou, de repente ele não compreendeu bem o que aconteceu,
porque quando surgiram as vidraças era muito mais bonito, mais cômodo,
mais transado e aí trocaram tudo, agora vem o pessoal falar que
não era bem assim..." (André)
Assim também
a existência de vários grupos e o lugar de cada um na dinâmica
social foi se explicitando.
"Existem
duas colocações aqui, a do pessoal daqui que chama a gente
de estranho - e sempre vai ser assim, mesmo se você morar 80 anos
aqui - porque você não é parnaibano. O pessoal que
é daqui tem esse sentimento fortíssimo de ser daqui. E tem
o pessoal de fora mesmo - porque tem os de fora que são de dentro
e que somos nós - que fala mal do pessoal daqui de dentro, tipo
assim "quem faz as coisas aqui somos nós que viemos de fora". Acho
que essa colocação é falta de compreensão,
porque tem essa característica do parnaibano, essa morosidade que
existe, devido, eu acho, aos 400 anos da cidade, numa cidade que manteve
a população estável durante praticamente 200 anos."
(André)
Mas o que vai definir
a interrelação entre os grupos e a imagem que os artistas
fazem dos vários grupos, está associado à apropriação
que cada grupo faz da cidade, ligada aqui, de um lado, à vida social
e, de outro, à apropriação de bem cultural, autônomo,
isolado das relações sociais. Particularmente significativo
é o depoimento de André a esse respeito:
"Eu acho
o seguinte: o pessoal de fora, que a gente tem observado, eles vêm
muito assim pela beleza da cidade, certo? O arquitetônico da cidade
é que conta, não se preocupam em nada com as pessoas. Então
eles vêm morar numa cidade colonial, prá esses não
conta o parnaibano, não participa da vida deles. E aí o pessoal
de fora sabe o que tem valor, compra a casa pela casa, só existe
a casa. Aí valoriza, restaura, arruma e dane-se o social. A gente
até comentava, há uns dois anos atrás, que eles vão
colocar um portão e cobrar entrada prá ver a cidade que eles
compraram. E o parnaibano só critica, mas não interfere."
( André)
Sentindo-se "de dentro"
percebem as transformações que esse fato acarreta e, ao mesmo
tempo, a impossibilidade de conter esse processo:
"O que a
gente queria que continuasse aqui é essa comunidade, todo mundo
amigo. E isso é difícil porque o pessoal de fora não
percebe isso, então vai quebrando, vai dificultando e você
vai vendo casas fechadas, casas fechadas, tudo bem, acho que todo mundo
tem o direito de comprar casa, mas é esse esfriamento do pessoal
que fica ruim..." (André)
Conforme pudemos
observar, tanto na casa do André como nas vernissages do "Museu",
é rara a presença de parnaibanos. Assim, apesar de se colocarem
como "de dentro", acabam por constituir um grupo fechado, mantendo, entretanto,
uma preocupação ampla com a cidade que engloba patrimônio
e prática social.
A partir dos depoimentos
desse grupo, novos recortes se delinearam: os "parnaibanos", "os de fora,
de dentro" e os "de fora mesmo". Assim as transformações
que a cidade vem passando são percebidas e expressas pela posição
que cada grupo ocupa nesse processo.
Os parnaibanos, fechados,
conservadores, assistem às mudanças que implicam na destruição
de seu universo, mas não interferem, são passivos. Os "de
fora mesmo" só estão interessados na cidade enquanto cenário,
alheios à vida social e ao que representam para os demais. Os "de
fora, de dentro", os artistas curiosamente tentam, de alguma forma, recuperar
o universo parnaibano e divulgá-lo, valorizando alguns de seus aspectos
através das atividades artísticas. Sentem-se "parnaibanos"
já que se colocam hoje como os agentes culturais da cidade e, diferentemente,
dos "de fora mesmo", estabeleceram vínculos pessoais e de trabalho
em Parnaíba. Tem como projeto para a cidade aproveitar o patrimônio
edificado como elemento potencial de atuação turística
para a divulgação de seus trabalhos e tornar Parnaíba
conhecida como "cidade dos artistas".
Estrangeiros
Os estrangeiros
- franceses, espanhóis e alemães - são os "de fora
mesmo". Pessoas de alta renda que compraram casas antigas na cidade e as
transformaram em residências luxuosíssimas. Boa parte dessas
casas são utilizadas apenas nos finais de semana. Esse grupo alia
os atributos de cidade do interior às características de
cidade histórica para descrevê-la:
"Gostosa,
tranqüila, 20:30 da noite não tem ninguém na rua, só
cachorro." (Pierre)
"Sempre vem gente
de São Paulo aqui e todos querem mudar prá cá por
causa do charme dessas casas antigas, né? (Sônia)
Com relação
aos parnaibanos, o discurso é semelhante ao dos artistas:
"Não
sabem o valor da cidade, não sabem mesmo. Precisava esclarecer,
orientar; eles têm orgulho de serem parnaibanos daqui mesmo." (Pierre)
e, às vezes,
mais agressivos:
"O pessoal
daqui não dá, veja a diferença de Parati, Ouro Preto...
não tem o menor senso de proporção, é um horror...
o pessoal daqui é inculto, grosseiro, não entende nada."
(Morales)
Também
eles se colocam como modelo para a cidade, na qualidade de interessados
com a preservação:
"Nós
servimos de exemplo aqui, depois que restauramos nossas casas é
que o pessoal viu que era possível, que ficava bonito, que valia
a pena... A minha casa deu muito trabalho para restaurar, destelhei onze
casas aí no sítio e troquei com eles por telhas novas, troquei
móveis antigos por de fórmica, trouxe coisas da Bahia, Minas,
Rio de Janeiro, madeira do Paraná para fazer o assoalho..." (Pierre)
Para esse grupo a preservação
é encarada particularmente, não existe uma preocupação
com o conjunto, com o patrimônio da cidade: preservar se restringe
a restaurar suas próprias casas.
Mesmo valorizando
esse aspecto de cidade pequena, onde todos se conhecem, pudemos observar
que se relacionam apenas dentro do seu grupo e com amigos de São
Paulo, já que a maior parte deles manteve vínculos pessoais
e de trabalho na Capital. Quando vieram para Parnaíba, tinham uma
proposta definida: comprar as casas antigas, restaurá-las, apostando
numa intervenção do Estado que impedisse o crescimento da
cidade, principalmente no que diz respeito à proibição
de formação de novos bairros para a população
de baixa renda.
"O Estado
precisaria fazer uma intervenção definitiva em Parnaíba.
Considerá-la monumento paulista, cuidar do núcleo de 5 km.
À volta dele, impedindo indústrias, tudo..." (Morales)
Esse projeto parece
que já fracassou, dado o crescimento espacial e populacional que
a cidade vem tendo em função de ocupação industrial
nas rodovias próximas. A preocupação agora é
a de ter retorno do capital investido, do sonho frustrado da "Parati Paulista..."
"Parnaíba
não tem mais jeito, nós colocamos milhões aqui e agora
não dá mais, daqui a três anos vai ser igual a Barueri."
(Morales)
Os
profissionais
São professores,
donas de casa, comerciantes, portanto, integrados ao cotidiano da cidade
mas não articulados em um grupo fechado como os artistas e os estrangeiros.
Foi a partir do discurso dessas pessoas que delimitamos definitivamente
os grupos e esclarecemos algumas incógnitas que estavam colocadas
desde o início da pesquisa: o que é ser parnaibano e o que
é ser "de fora" para os parnaibanos.
Essas pessoas manifestaram
logo no começo de nossas conversas a dificuldade de adaptação
na cidade.
"A vida
foi difícil prá gente no começo, mais difícil
ainda foi a recepção aqui. O povo aqui não encara
você assim como uma pessoa que tá vindo fazer o bem, ele olha
meio desconfiado.... levou um ano prá uma daqui me cumprimentar."
(Teresinha - professora)
"É muito diferente
se você vem só prá passear, aí tudo bem, sorrisos,
cafezinhos etc. Agora, quando você diz que veio prá ficar,
aí muda tudo.... no começo foi horrível, eles são
muito fechados, sofri muito, ficou uma marca." (Carmen - dona de casa,
casada com parnaibano, há cinco anos em Parnaíba)
Na verdade, foi
através do discurso dessas pessoas que se estabeleceu o eixo que
organiza a formação dos grupos e seus discursos, independentemente
de faixa etária ou de condições sócio-econômicas:
o corte mais preciso e ao mesmo tempo mais amplo se resume em ser "de fora"
ou "de dentro".
"... uma
das primeiras reuniões aqui na escola, uma das professores aqui
da cidade me olhou e disse: - mais uma forasteira na cidade... Eles são
só entre a família deles, só se for parente.... é
assim aqui; porque eu nasci aqui, meu avô, meu bisavô, meu
tataravô, a família toda, desde os primeiros, porque eu sou
fulana de tal, o nome, o nome é muito importante aqui... se você
conseguir penetrar em uma família, sinta-se vitoriosa." (Terezinha)
Mais uma vez
confirma-se a imagem do parnaibano e sua posição dinâmica
da vida social:
"Parnaibano
é acomodado, não participa, não tem iniciativa, eles
não brigam pelo que é deles, pelo direito deles." (Carmen)
"Os parnaibanos em
termos de cultura, eles não valorizam a cidade. Eu acho que quem
dá mais valor prá essas coisas de Parnaíba, para as
construções daqui, são as pessoas de fora ou as pessoas
daqui que saíram quando pequenas e foram educadas em outro lugar
e voltaram para cá aí sim. Eles gostam porque têm,
porque é deles, porque pertenceram aos antepassados deles." (Teresinha)
Colocam o parnaibano
numa atitude permanente de reserva e desconfiança para com os de
fora. Na verdade, esse comportamento expressa uma atitude de resistência
dos "de dentro" à invasão de seu universo próprio,
apoiada na estrutura familiar.
"O parnaibano
é desconfiado, meu marido fala que aqui até as janelas são
fechadas. Eles não abrem as janelas, espiam pelas frestas, eles
têm esse costume, parece que estão preocupados se você
vai trazer alguma coisa ruim prá eles... Eles são fechados,
foi muito difícil fazer amizade, e olha que eu estou aqui há
quantos anos? E não sei se essas amizades que eu consegui são
sólidas." (Carmen)
Além disso, os
depoimentos mostram a existência de regras de comportamento para
a entrada no mundo parnaibano a presença de um forte controle social.
"Eu acho
que tem um código mesmo, têm regras que você tem que
cumprir para ser aceita... eu não gostava de Carnaval, "Corpus Christi",
essas coisas, mas aqui você tem que gostar, tem que se envolver,
senão fica de fora." (Teresinha)
"Se uma pessoa de
fora - quer dizer que mora aqui, né - faz alguma coisinha, eles
caem matando. Agora quando é um deles, aí você não
pode falar nada que eles mudam de assunto, como se dissessem: - você
é de fora, não tem que se meter, e todos são parentes."
(Sônia)
A explicação
para todo esse comportamento, segundo a visão dessas pessoas e reafirmando
o depoimento dos artistas, vem do fato da cidade ter 400 anos e do
forte sentimento de pertinência e de "donos" da cidade que os parnaibanos
têm:
"Eu atribuo
isso ao processo de formação da cidade. Em Conchas, minha
cidade, é assim: são todos imigrantes, além do caboclo,
é claro. Lá tem de todo tipo: o caboclo, o italiano e o português,
que plantam nas terras e, na cidade, o comércio com os sírios.
E lá há um entrosamento entre as raças, todo mundo
é imigrante, todo mundo veio de longe, então a cidade é
para nós mesmos. Vamos fazer, vamos construir, vamos fazer o progresso
dessa terra. Aqui não, aqui quem mandava eram os senhores da terra,
os chefes políticos e tinha os escravos, então eu acho que
por haver essa diferença social, Santana do Parnaíba é
assim. Eles são os herdeiros, são os donos da terra..."
Em síntese,
como já foi dito, esses moradores não organizam um grupo
fechado dentro da cidade tal como os artistas e os estrangeiros. Por isso
mesmo, são eles que sentem e caracterizam mais profundamente o "ser
de fora": "... tem sempre uma parede de vidro, você olha mas não
chega perto".
Portanto, entre os
"de fora" - artistas, estrangeiros e profissionais - não se estabelece
um discurso dominante que permeia todos os grupos, já que tanto
a inserção de cada grupo na sociedade parnaibana quanto as
representações que elaboram são diferenciadas.
O que os unifica é justamente a característica de serem todos
qualificados pelos parnaibanos como sendo "de fora", ainda que haja gradações
de um grupo para outro na participação do mundo "de dentro".
3. Vila Nova:
os "de dentro"
A pesquisa de campo
em Vila Nova foi desenvolvida simultaneamente à do Centro Histórico,
com o objetivo de servir de contraponto àquele. E também
aqui, é o ser "de dentro" ou "de fora" que explica a formação
dos grupos e das diferentes representações que elaboram sobre
o patrimônio, a preservação e a cidade.
Os "de dentro"
são parnaibanos que, por problemas de herança aliada à
especulação imobiliária, foram "expulsos" do centro.
Os "de fora" são pessoas oriundas da área rural e urbana
das cidades vizinhas e de São Paulo. No geral são trabalhadores
sem ou com pequena qualificação profissional.
Conservar com esses
parnaibanos sobre a cidade significa recuperar fragmentos de sua
história, trazidos à memória de cada um quando descrevem
o cotidiano, as festas, a vida na cidade:
"Antes o
pessoal não precisava de nada, era mais animado. A cidade era muito
melhor que agora. No tempo do padre Bruno e Anacleto tinha muita festa.
Começava na Sexta-feira. Tinha pau de sebo, ovo na colher, corrida,
tinha muita coisa, congada, Antigamente a banda ia na casa dos festeiros
chamando para a missa. Tinha bastante festeiro. A gente morava no sítio,
se pintava com essas bandeirinhas de festa que a gente guardava, molhava
e passava no rosto. Ficava parecendo um macaco." (D. Dalva - parnaibana,
mais ou menos 60 anos, há 20 anos mora na Vila Nova)
Assim, para os parnaibanos
a cidade antes era muito animada, tinham muitas festas, todo mundo
participava e os próprios padres contribuíam para que elas
se realizassem. Até o pessoal do sítio vinha para a cidade
nesses dias: Festas do Divino, "Corpus Christi", festa de Santana, festas
juninas etc. quando Parnaíba era praticamente auto-suficiente. A
economia de subsistência aliada a alguns estabelecimentos comerciais
asseguravam o abastecimento para uma população composta por
poucas famílias.
"Antigamente
era só as famílias daqui, todo mundo se conhecia. Eu sou
daqui, minha família toda também. Meu marido não,
é de fora." (D. Raquel, parnaibana, 50 anos, nasceu e foi criada
no Centro, há 4 anos mora em Vila Nova)
Para esses parnaibanos
da Vila Nova, a importância da cidade está, como no Centro
Histórico, centrada na participação das famílias,
nas festas, no elemento "vivo". A especificidade que se observa no discurso
deles é em relação ao patrimônio edificado.
Diferentemente dos do Centro, descrevem as casas e acompanham as transformações
e reformas por que passaram, mesmo após tê-las vendido. Assim,
o Centro é valorizado e apropriado apenas através dos laços
afetivos que ainda os unem a esse espaço, o que era transmitido
por várias gerações no interior de uma família.
A sensação
irremediável de perda e a necessidade de tornar presente aquilo
que deixou de existir, conservando pelo menos na memória o espaço
privado de sua família, leva-os a acompanhar, a controlar até,
as modificações que suas antigas casas foram ou vão
sofrendo.
"Eu morei
lá na cidade, na casa que hoje é do Pierre. Saí daquela
casa porque, quando meus pais morreram, eu não tinha condições
de comprar a parte de meu irmão e nem ele a minha. Sabe, é
casa histórica, tem um valor muito grande. Se não fosse isso
eu continuava morando lá até hoje. Tem paredes de taipa,
bem grossas, cômodos enormes, era uma beleza. A cozinha era dentro
e o banheiro fora. Quem vê a fachada não dá nada pela
casa, mas se você entrar, imagina que hoje tem até piscina.
Eu acho que Parnaíba tem que ser preservada. Eu gosto muito daqui
e acho que a cidade tem que ficar como está. Não deviam nem
ter deixado construir umas casas modernas lá no Centro." (D. Raquel)
Para os parnaibanos
que vieram do sítio para a Vila Nova e que, portanto, não
possuíam casas no Centro Histórico, a Vila Nova aparece como
sendo o espaço privilegiado da cidade, já que eles não
têm vínculos estreitos com aquelas famílias cuja história
e identidade está plasmada no Centro Histórico.
"O centro é
muito parado. Ficam todas as casas fechadas. De noite não dá
prá andar lá. Dá medo. Não tem gente nas ruas,
não tem nada lá, tá morto parece. Aqui não;
tem gente na rua, tem televisão ligada, tem música, tem crianças.
Daqui a alguns anos dizem que o centro da cidade será aqui." (D.
Dalva)
4. Vila Nova:
Os "de fora"
Os "de fora" tematizam
em seu discurso acerca da cidade basicamente as condições
de vida, semelhante
às da periferia dos grandes centros urbanos:
faltam transportes, hospital, escolas e água; as vias públicas
são mal conservadas, os moradores só conseguem construir
suas próprias casas nas horas vagas, há problema de desemprego,
segurança etc; é um discurso centrado na percepção
das carências do bairro e, portanto, radicalmente diferente
dos depoimentos dos "de dentro".
"Não
dá prá aceitar que uma cidade tão velha que dizem
que D. Pedro morou, não tenha hospital, escola, ônibus, água.
Osasco, Barueri, Carapicuíba, que são bem mais novas que
Parnaíba, que pertenceram a Parnaíba, tem tudo isso. Agora,
aqui não." (Jorge, 25 anos, há 2 anos em Vila Nova)
No caso desses
moradores, isso ocorre em virtude de sua história de vida, suas
relações familiares e afetivas estarem associadas a outras
cidades. Dessa forma, Parnaíba surge sempre numa visão comparativa
com suas experiências anteriores. Na tentativa de solucionar os problemas
do bairro e melhorar suas condições de vida, tomaram várias
iniciativas: abaixo-assinados, protestos diante da prefeitura etc. Ao mesmo
tempo em que contam isso, vai se delineando a imagem que os "de fora" de
Vila Nova tem dos parnaibanos:
"Eu estava pensando
em criar uma Sociedade ou Associação Amigos do Bairro. Lá
em São Paulo, em todo bairro tem, e o pessoal vai mesmo para as
Secretarias reclamar. E acabam resolvendo o problema. Mas o pessoal daqui
é muito parado." (Beatriz, 18 anos, há três anos mora
em Vila Nova)
À imagem do parnaibano
acomodado, passivo, acrescenta-se a resistência que manifestam contra
os "de fora".
"Quando
eu cheguei aqui, foi difícil me entrosar com os parnaibanos. São
muito desconfiados. Parece que acham que a gente vem aqui se aproveitar
deles. Depois de algum tempo, quando descobriram que eu não
era nenhum monstro, começaram a me aceitar. Antes era mais difícil."
(Adauto, 35 anos, há 7 anos mora na Vila Nova)
Para eles, o Centro
é a passagem para o trabalho ou para a escola em Osasco, e o local
onde encontram serviços públicos e as poucas opções
de lazer que possam usufruir: o bar, a praça, o ponto de referência
dominante continua centrado nas carências do bairro, ainda que com
algumas alusões esparsas sobre o tombamento ou o valor histórico
da cidade:
"Com esse
negócio de tombar a cidade, ninguém mais pode alugar casa
lá. E prá comprar muito menos. Pobre não pode
morar em Parnaíba. Prá mim não interessa se essa cidade
é histórica ou não. O que adianta ela ser antiga se
não existem condições prá população?
E o povo daqui também não dá valor prá nada."
(Jorge)
Assim também
na Vila Nova confirma-se nossa hipótese inicial: a da heterogeneidade
da população ligada à existência de significados
diferenciais. Os "de dentro", da Vila Nova, elaboram, em síntese,
as mesmas representações dos parnaibanos do centro: o orgulho
do parnaibano, o forte sentimento de pertinência à essa terra
e a percepção das transformações profundas
na dinâmica de Parnaíba, que era só das famílias.
Os "de fora", os
novos segmentos de população que se fixam na Vila Nova, elaboram
uma imagem radicalmente diferente da cidade, centrada no bairro, já
que não possuem nem a história familiar nem tem acesso à
história mais ampla para valorizar a cidade com outros critérios.  
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