Nos
tempos que correm é quase automática a relação
entre cidade e perigo; se se trata de uma metrópole como São
Paulo, então, essa vinculação é imediata: parecem
sinônimos. E justamente o espaço que aparece englobando todo
esse perigo é a rua. Esta, no entanto, é o próprio
emblema da cidade: se existe um elemento que melhor a representa, é
a rua. É nela que ocorrem, preferencialmente, as relações
e encontros entre pessoas com experiências, origens e visões
diferentes, e é da troca entre elas que resulta, mais rica, a cultura
urbana. Sem esse tipo de contato, as pessoas ficariam restritas ao convívio
entre os iguais, confinadas ao espaço doméstico. Essas trocas
e relações estão sujeitas a regras que definem um
domínio particular de convivência: o espaço público.
Essa
oposição entre espaço público e espaço
doméstico, bastante conhecida, ganhou novas conotações
a partir do trabalho do antropólogo Roberto
da Matta, que a transpôs para uma fórmula mais concreta:
casa versus rua. Cada um desses termos resume um conjunto de características
que se contrapõem, mas também esclarecem um ao outro. Assim,
"casa", que representa o domínio do privado, é o espaço
das relações de sangue, do contato íntimo, da segurança;
"rua", ao contrário, é o domínio do público,
das oportunidades, dos estranhos, e também do perigo. As crianças
conhecem muito bem essa diferença: "Já pra casa, menino!"
Ou então: "Que está fazendo até essa hora na rua?"
Entretanto, com base em pesquisas
antropológicas que desenvolvi na periferia da cidade de São
Paulo, e depois em regiões mais centrais, introduzi um terceiro
termo nessa relação, o "pedaço":
trata-se de um espaço intermediário entre a casa e a rua.
É quando, de um lado, a casa se abre para fora e, de outro, a rua
se torna mais acolhedora: do encontro, da interseção entre
ambos é que surge o pedaço,
vocábulo usual na linguagem comum, mas que pode ser tratado como
uma noção mais geral, uma categoria que também designa
relações, regras, normas. Assim foi definido, no livro Festa
no Pedaço:
"O termo, na realidade, designa aquele
espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público,
onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada
nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável
que as relações formais e individualizadas impostas pela
sociedade. Pessoas de pedaços diferentes, ou alguém em trânsito
por um pedaço que não o seu, são muito cautelosas:
o conflito, a hostilidade estão sempre latentes, pois todo lugar
fora do pedaço é aquela parte desconhecida do mapa e, portanto,
do perigo. Para além da soleira da casa, portanto, não surge
repentinamente o resto do mundo. Entre uma e outro situa-se um espaço
de mediação cujos símbolos, normas e vivências
permitem reconhecer as pessoas diferenciando-as, o que termina por atribuir-lhes
uma identidade que pouco tem a ver com a produzida pela interpelação
da sociedade mais ampla e suas instituições" (MAGNANI, José
Guilherme, Festa no Pedaço. São Paulo: Editora Hucitec, 1998,
p. 116-117).
Pelo fato de intermediar os dois
domínios, o pedaço apresenta características de ambos,
combinando-as, porém, na forma de novas regras: da casa reproduz
o ambiente de segurança e, da rua, a novidade, o imprevisto, a possibilidade
de contato com pessoas que não estão vinculadas pelos laços
de parentesco. Os freqüentadores de um pedaço, ou aqueles que
podem circular por ele não são totalmente estranhos. Dessa
forma, o pedaço pode ser considerado uma espécie de transformação,
de abertura da casa em direção ao espaço público,
englobando-o.
É nessa condição
que se institui um espaço privilegiado para o exercício da
sociabilidade. No caso das crianças, é aí que podem
iniciar-se, desde cedo, no exercício da cidadania, pois entram em
contato com outro ambiente, com outras pessoas, precisam conhecer novas
regras de convivência, entre as quais aprender a compartilhar, ceder,
negociar... Pode parecer muita responsabilidade, tarefa de adultos, mas
é no ambiente lúdico que essas regras se internalizam.
Na verdade, isso não constitui
nenhuma novidade, os educadores sabem muito bem. O importante, entretanto,
é assinalar que o pedaço, como uma espécie de modulação
da rua, precisa ser construído. Não está dado, não
foi previsto pelo planejamento urbano, é antes o resultado de um
investimento em termos de presença, uso e criatividade por parte
dos usuários. Na verdade, precisa ser conquistado. Em vez do movimento
de retração em direção ao espaço fechado,
isolado, superprotegido, como resposta à violência, é
preciso fazer com que a rua, o símbolo da convivência urbana,
volte a ser mais segura, hospitaleira e acolhedora. Para isso, é
preciso ocupá-la.
A propósito, cabe aqui o relato
de uma experiência, descrita e analisada por um grupo de alunos meus
(Fábio Peixoto, Jade Percassi, Marina Couto, Sandra Bitar - Infância
na Metrópole: o Tempo Livre das Crianças Que Freqüentam
o Projeto Piá, 2001) como trabalho de conclusão da disciplina
Pesquisa de Campo em Antropologia, na USP.
Foi uma pesquisa desenvolvida no
âmbito do Instituto Cactus de Educação e Cultura, conveniado
com a Faculdade de Educação da USP e Secretaria Municipal
de Educação. O que quero ressaltar não é tanto
a atividade pedagógica em si, muito interessante, mas a forma como
as crianças, à época um grupo de cerca de 20 integrantes,
de 2 a 12 anos, se dirigiam ao local do projeto: provenientes de vários
cortiços da região, encontravam-se na esquina das Ruas Lopes
Chaves com Margarida, na Barra Funda, na Casa de Mário de Andrade.
A partir daí, acompanhadas apenas por uma educadora, percorriam,
cantando, um itinerário pelas ruas do bairro até o Centro
Educacional e Esportivo Raul Tabajara, onde se situa seu pedaço
de destino. O importante a assinalar aqui é a constituição
de um trajeto
(outra das categorias que utilizo nas pesquisas sobre espaço urbano,
correlato ao de pedaço) por vias públicas, numa estratégia
que as tornava visíveis, despertando atenção, curiosidade.
À vista daquele bando ruidoso, transeuntes e pessoas do entorno
deixavam, por momentos, suas ocupações habituais e, das portas
ou janelas de seus carros, casas, escritórios e oficinas, formavam
uma orla de vigilância, no estilo que Jane
Jacobs denomina o balé das calçadas, a proteção
a partir dos múltiplos olhares (Vida e Morte de Grandes Cidades,
Martins Fontes, 2003).
Assim, vemos aqui o pedaço
no momento da partida ou encontro, um trajeto, e finalmente o pedaço
de destino, na forma de uma estratégia simples e ao mesmo tempo
ousada, instituindo uma verdadeira experiência de ocupação
de ruas e equipamentos públicos que, ao menos em determinados momentos,
foram transformados em espaços protegidos, acolhedores, mas não
confinados, repletos de estímulos produzidos pela própria
dinâmica urbana.
Publicado
originalmente na Revista
E, SESC, 2007.
|