| Exército
O exército
é uma instituição nacional e permanente, um poder
público, que possui em seu efetivo aproximadamente 180 mil indivíduos
sob uma rígida cadeia disciplinar, além de um corpo de reservistas.
Porém, entre estes indivíduos há uma parcela em cuja
auto-imagem há a visão de que apenas eles são militares
“de fato”: os militares de carreira, que representam hoje aproximadamente
metade do efetivo acima21,
excluindo desta parcela tanto aqueles que se encontram na condição
transitória do recrutamento imposto pelo serviço militar
obrigatório quanto os que pertencem ao corpo da reserva22.
Portanto, nessa construção, o militar “legítimo” –
que inclusive usufrui desta condição – é aquele consagrado
por uma carreira que tem como trajetória única o pertencimento
a uma cadeia de comando-obediência pela qual cada indivíduo
tem o direito de realizar uma escalada hierárquica23.
Basicamente, este foi o conjunto de pessoas – os militares de carreira
– a cujo campo de pesquisa se teve acesso. Mas, esta trajetória,
apesar de ocorrer sob o aval de duas instituições públicas
– exército e universidade –, não ocorreu sem percalços.
A partir
de uma dificuldade surgida em campo em meados de 1993, começou-se
a questionar o sentido não somente da configuração
da relação pesquisador-pesquisado mas, também, como
isto estava ligado aos lugares que havia acesso e aos lugares que não
havia acesso para pesquisar24.
Juntamente, percebeu-se que não somente os locais, mas havia pessoas
com atribuições específicas a quem tinha acesso, enquanto
a outras isto era restrito25.
E mais, percebeu-se a partir de uma mudança de postos das pessoas
com quem tinha contato que a relação pesquisador-pesquisado
não era com estas pessoas, mas, sim, com estes postos, por meio
dos quais qualquer pessoa que os ocupasse teria a atribuição
de estabelecer um contato com a parcela do mundo civil que pertence à
Universidade. Finalmente, percebeu-se com isto que locais, pessoas e atribuições
eram fatos relacionados, e, ainda, que também o mundo de fora, através
das posições que o pesquisador ocupou para a instituição,
era definido de acordo com o mesmo critério classificatório
que liga pessoas, locais e atribuições.
Neste
quadro, esses militares acabam realizando a construção de
uma espécie de grade classificatória em que a categoria militar
aparece de forma restritiva e hierarquizada, dependendo da situação
em que ela é exigida: entre os próprios oficiais de carreira,
há aqueles que se definem por estar numa Arma (infantaria, cavalaria,
intendência, etc.) mais militar em oposição a uma menos
militar ou mais técnica (Castro,
1990:102); ainda entre oficiais, entre aqueles que se situam melhor na
escala hierárquica e aqueles pior situados26,
tendo os primeiros mais vocação militar que os últimos;
entre oficiais e praças, os primeiros se consideram mais militares
que os últimos, especialmente os últimos da cadeia de comando,
os recrutas (Costa, 1985); entre as três forças, um oficial
do exército se considera mais militar que um da Aeronáutica,
por exemplo; entre os chamados militares da ativa e os reservistas; e,
finalmente, entre os que se consideram como militares, se reconhecendo
como um grupo distinto do resto da sociedade, e os paisanos – como bem
apontou Castro (1990).
Durante
a pesquisa, ocorreram situações que demonstraram simultaneamente
esta clivagem interna e uma generalização do mundo exterior
(muito próximas em termos estruturais ao modelo segmentar nuer27).
Além disso, observou-se características peculiares à
organização militar que remetiam à idéia de
que a cadeia de comando se constitui ao mesmo tempo em um bloco único,
pelas características intrínsecas da disciplina militar,
mas também, interiormente, segmentada em múltiplos planos
que conferem significados diversos perante situações determinadas.
Foi esta ambigüidade que permitiu ao mesmo tempo reconstituir um único
“ponto de vista militar” e distinguir diferentes níveis de discursos
e práticas dentro da corporação, mostrando que a maneira
de classificar as coisas passa pelo princípio organizacional desses
que se consideram “os militares”.
A regra
que fica da subtração entre esses cenários e esses
atores remeteu ao universo da hierarquia, pois, já sabendo de antemão
que havia uma organização burocrática – no sentido
de uma burocracia típica tal como definida por Weber28
– que dividia tarefas no exército, somou-se o fato depois sabido
que cada pessoa dentro da corporação possui uma classificação
própria, e que isto criava sutilezas na importância a cada
um atribuída na cadeia de comando-obediência. Desse modo,
além de estratos, patentes, departamentos e segmentos, temos uma
complexa malha classificatória que abrange a posição
de cada um dentro da força29.
Então, ao contrário do que se aponta em geral para os sistemas
burocráticos (do qual o militar seria exemplar, segundo Weber),
a hierarquia não se constitui no nosso caso numa simples “pirâmide”
entre patentes em cadeia e numa seccionalização em departamentos
especializados, mas, antes, constitui uma complexa rede de classificações
que segue vários princípios de segmentação,
abarcando desde o indivíduo singular até todo o conjunto
“exército”, e que, por isso, ela “totaliza” as dimensões
da vida daqueles que nela estão inseridos – os que participam da
carreira militar.
Desse
modo, a hierarquia militar, ao mesmo tempo em que totaliza, sob a cadeia
de comando e obediência, criando na visão interna uma série
de clivagens em relação à sociedade envolvente, “endogamicamente”
opera com os caracteres da coisa pública, constituindo assim a idéia
de que as dimensões próprias da vida militar são as
dimensões próprias da vida nacional.
Como
resultado geral dessa disposição da organização
burocrática está o fato que esta instituição
pública opera, num registro sociológico mais amplo, sob o
espectro de um grupo fechado, mas internamente se assume como a coisa pública
por excelência, assumindo todos os principais caracteres desta –
especialmente o individualismo competitivo – , enquanto que o resto da
sociedade seria composta de grupos particulares fechados em seus interesses,
o que de certa maneira “justificaria”, segundo o ponto de vista nativo,
todas as suas intervenções na história política.
E, de fato, essa visão de mundo estaria espelhada na sociabilidade
interna, uma vez que, “para dentro”, os caracteres universais do individualismo
e da livre concorrência estariam calcados num princípio ativo
que moveria toda uma organicidade e cosmologia de uma organização
que equaciona competição e solidariedade social.
Portanto,
a relação de pesquisa que se destacou, daí ter incorporado
tantos dilemas: de um lado, tratar de uma instituição que,
por ser pública, está relegada a uma lógica comum
e sobre a qual inclusive deveríamos ter alguma ingerência;
de outro, uma corporação que está longinquamente cerrada
sob uma cosmologia distinta.
Tudo
isso vem dos desdobramentos de uma pesquisa de campo que demonstrou que,
na base desta cosmologia, está um princípio de organização
social que faz um equacionamento sui generis da relação
indivíduo-sociedade. De um lado, baseada no pressuposto de uma cadeia
de comando que indica um fechamento endogâmico em relação
à sociedade envolvente, enunciando um princípio de constituição
de uma totalidade que se impõe sobre uma forte experiência
socializadora entre seus agentes; de outro, ainda que sob a forma homogeneizadora
da cadeia disciplinar, temos indivíduos em livre competição
e com múltiplas possibilidades dentro da cadeia de relações
pessoais para se traçar uma trajetória de ascensão
dentro da força.
Desse
modo, se de um lado temos papéis sociais prescritos e uma relação
entre a instituição e seus agentes que pressupõe uma
totalidade “holista”, de outro, temos uma hierarquização
tão exacerbada na organização interna que chegamos
a uma espécie paradoxal de “castas de um homem só”30
(Leirner, 1997), com indivíduos
hierarquicamente superpostos mas ao mesmo tempo dotados de múltiplas
possibilidades de mobilidade dentro dessa fila.
Parece-nos
que o que há de maior interesse neste tipo de enunciado que a hierarquia
militar revela está no fato de ela conjugar elementos geralmente
tomados pela literatura antropológica como relativamente discrepantes.
Estes estariam situados na clássica oposição entre
princípios individualistas e holistas que, na formulação
dumontiana, assumiram o estatuto de oposições hierárquicas
(Dumont, 1992). A hierarquia
militar, embora logicamente seja uma hierarquia como qualquer outra, sociologicamente
aponta para um tipo de solução organizacional diferenciada
da tipologia de Dumont.
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