Notas sobre a análise antropológica de setores do Estado brasileiro- Ciméa Bevilaqua & Piero de C. Leirner
parte 2
 
 
 
 
Exército

O exército é uma instituição nacional e permanente, um poder público, que possui em seu efetivo aproximadamente 180 mil indivíduos sob uma rígida cadeia disciplinar, além de um corpo de reservistas. Porém, entre estes indivíduos há uma parcela em cuja auto-imagem há a visão de que apenas eles são militares “de fato”: os militares de carreira, que representam hoje aproximadamente metade do efetivo acima21, excluindo desta parcela tanto aqueles que se encontram na condição transitória do recrutamento imposto pelo serviço militar obrigatório quanto os que pertencem ao corpo da reserva22. Portanto, nessa construção, o militar “legítimo” – que inclusive usufrui desta condição – é aquele consagrado por uma carreira que tem como trajetória única o pertencimento a uma cadeia de comando-obediência pela qual cada indivíduo tem o direito de realizar uma escalada hierárquica23. Basicamente, este foi o conjunto de pessoas – os militares de carreira – a cujo campo de pesquisa se teve acesso. Mas, esta trajetória, apesar de ocorrer sob o aval de duas instituições públicas – exército e universidade –, não ocorreu sem percalços.

A partir de uma dificuldade surgida em campo em meados de 1993, começou-se a questionar o sentido não somente da configuração da relação pesquisador-pesquisado mas, também, como isto estava ligado aos lugares que havia acesso e aos lugares que não havia acesso para pesquisar24. Juntamente, percebeu-se que não somente os locais, mas havia pessoas com atribuições específicas a quem tinha acesso, enquanto a outras isto era restrito25. E mais, percebeu-se a partir de uma mudança de postos das pessoas com quem tinha contato que a relação pesquisador-pesquisado não era com estas pessoas, mas, sim, com estes postos, por meio dos quais qualquer pessoa que os ocupasse teria a atribuição de estabelecer um contato com a parcela do mundo civil que pertence à Universidade. Finalmente, percebeu-se com isto que locais, pessoas e atribuições eram fatos relacionados, e, ainda, que também o mundo de fora, através das posições que o pesquisador ocupou para a instituição, era definido de acordo com o mesmo critério classificatório que liga pessoas, locais e atribuições.

Neste quadro, esses militares acabam realizando a construção de uma espécie de grade classificatória em que a categoria militar aparece de forma restritiva e hierarquizada, dependendo da situação em que ela é exigida: entre os próprios oficiais de carreira, há aqueles que se definem por estar numa Arma (infantaria, cavalaria, intendência, etc.) mais militar em oposição a uma menos militar ou mais técnica (Castro, 1990:102); ainda entre oficiais, entre aqueles que se situam melhor na escala hierárquica e aqueles pior situados26, tendo os primeiros mais vocação militar que os últimos; entre oficiais e praças, os primeiros se consideram mais militares que os últimos, especialmente os últimos da cadeia de comando, os recrutas (Costa, 1985); entre as três forças, um oficial do exército se considera mais militar que um da Aeronáutica, por exemplo; entre os chamados militares da ativa e os reservistas; e, finalmente, entre os que se consideram como militares, se reconhecendo como um grupo distinto do resto da sociedade, e os paisanos – como bem apontou Castro (1990).

Durante a pesquisa, ocorreram situações que demonstraram simultaneamente esta clivagem interna e uma generalização do mundo exterior (muito próximas em termos estruturais ao modelo segmentar nuer27). Além disso, observou-se características peculiares à organização militar que remetiam à idéia de que a cadeia de comando se constitui ao mesmo tempo em um bloco único, pelas características intrínsecas da disciplina militar, mas também, interiormente, segmentada em múltiplos planos que conferem significados diversos perante situações determinadas. Foi esta ambigüidade que permitiu ao mesmo tempo reconstituir um único “ponto de vista militar” e distinguir diferentes níveis de discursos e práticas dentro da corporação, mostrando que a maneira de classificar as coisas passa pelo princípio organizacional desses que se consideram “os militares”.

A regra que fica da subtração entre esses cenários e esses atores remeteu ao universo da hierarquia, pois, já sabendo de antemão que havia uma organização burocrática – no sentido de uma burocracia típica tal como definida por Weber28 – que dividia tarefas no exército, somou-se o fato depois sabido que cada pessoa dentro da corporação possui uma classificação própria, e que isto criava sutilezas na importância a cada um atribuída na cadeia de comando-obediência. Desse modo, além de estratos, patentes, departamentos e segmentos, temos uma complexa malha classificatória que abrange a posição de cada um dentro da força29. Então, ao contrário do que se aponta em geral para os sistemas burocráticos (do qual o militar seria exemplar, segundo Weber), a hierarquia não se constitui no nosso caso numa simples “pirâmide” entre patentes em cadeia e numa seccionalização em departamentos especializados, mas, antes, constitui uma complexa rede de classificações que segue vários princípios de segmentação, abarcando desde o indivíduo singular até todo o conjunto “exército”, e que, por isso, ela “totaliza” as dimensões da vida daqueles que nela estão inseridos – os que participam da carreira militar.

Desse modo, a hierarquia militar, ao mesmo tempo em que totaliza, sob a cadeia de comando e obediência, criando na visão interna uma série de clivagens em relação à sociedade envolvente, “endogamicamente” opera com os caracteres da coisa pública, constituindo assim a idéia de que as dimensões próprias da vida militar são as dimensões próprias da vida nacional.

Como resultado geral dessa disposição da organização burocrática está o fato que esta instituição pública opera, num registro sociológico mais amplo, sob o espectro de um grupo fechado, mas internamente se assume como a coisa pública por excelência, assumindo todos os principais caracteres desta – especialmente o individualismo competitivo – , enquanto que o resto da sociedade seria composta de grupos particulares fechados em seus interesses, o que de certa maneira “justificaria”, segundo o ponto de vista nativo, todas as suas intervenções na história política. E, de fato, essa visão de mundo estaria espelhada na sociabilidade interna, uma vez que, “para dentro”, os caracteres universais do individualismo e da livre concorrência estariam calcados num princípio ativo que moveria toda uma organicidade e cosmologia de uma organização que equaciona competição e solidariedade social.

Portanto, a relação de pesquisa que se destacou, daí ter incorporado tantos dilemas: de um lado, tratar de uma instituição que, por ser pública, está relegada a uma lógica comum e sobre a qual inclusive deveríamos ter alguma ingerência; de outro, uma corporação que está longinquamente cerrada sob uma cosmologia distinta.

Tudo isso vem dos desdobramentos de uma pesquisa de campo que demonstrou que, na base desta cosmologia, está um princípio de organização social que faz um equacionamento sui generis da relação indivíduo-sociedade. De um lado, baseada no pressuposto de uma cadeia de comando que indica um fechamento endogâmico em relação à sociedade envolvente, enunciando um princípio de constituição de uma totalidade que se impõe sobre uma forte experiência socializadora entre seus agentes; de outro, ainda que sob a forma homogeneizadora da cadeia disciplinar, temos indivíduos em livre competição e com múltiplas possibilidades dentro da cadeia de relações pessoais para se traçar uma trajetória de ascensão dentro da força.

Desse modo, se de um lado temos papéis sociais prescritos e uma relação entre a instituição e seus agentes que pressupõe uma totalidade “holista”, de outro, temos uma hierarquização tão exacerbada na organização interna que chegamos a uma espécie paradoxal de “castas de um homem só”30 (Leirner, 1997), com indivíduos hierarquicamente superpostos mas ao mesmo tempo dotados de múltiplas possibilidades de mobilidade dentro dessa fila. 

Parece-nos que o que há de maior interesse neste tipo de enunciado que a hierarquia militar revela está no fato de ela conjugar elementos geralmente tomados pela literatura antropológica como relativamente discrepantes. Estes estariam situados na clássica oposição entre princípios individualistas e holistas que, na formulação dumontiana, assumiram o estatuto de oposições hierárquicas (Dumont, 1992). A hierarquia militar, embora logicamente seja uma hierarquia como qualquer outra, sociologicamente aponta para um tipo de solução organizacional diferenciada da tipologia de Dumont.


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