São
Paulo
21,
22 e 23 de novembro de 2005.
Campus
da Cidade Universitária
Prédio
de Ciências Sociais, sala 24
Horário:
17 horas
UNIVERSIDADE
DE SÃO PAULO
REITOR:
Prof. Dr. José Adolfo Melfi
VICE-REITOR:
Prof. Dr. Hélio Nogueira da Cruz
FACULDADE
DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
DIRETOR:
Prof. Dr. Sedi Hirano
VICE-DIRETORA:
Profa. Dra. Eni de Mesquita Samara
DEPARTAMENTO
DE ANTROPOLOGIA
CHEFE:
Profa. Dr. John Cowart Dawsey
VICE-CHEFE:
Prof. Marta Amoroso
NÚCLEO
DE ANTROPOLOGIA URBANA
COORDENADOR:
Prof. Dr. José Guilherme Cantor Magnani
VICE-COORDENADOR:
Prof. Dr. Vagner Gonçalves da Silva
Comissão
Organizadora:
Alexandre
Barbosa Pereira (mestre em Antropologia Social FFLCH-USP)
Ana
Luiza Mendes Borges (graduada em Ciências Sociais FFLCH-USP)
Bruna
Mantese de Souza (mestranda em Antropologia Social FFLCH-USP)
Camila
Iwasaki (graduada em Ciências Sociais FFLCH-USP)
Clara
de Assunção Azevedo (graduada em Ciências Sociais
FFLCH-USP)
Daniela
do Amaral Alfonsi (mestranda em Ciências Sociais FFLCH-USP)
Henrique
Genereze da Silva (graduando em Ciências Sociais FFLCH-USP)
Apresentação
José
Guilherme Cantor Magnani
Em
seu quarto ano de realização, o evento A Graduação
em Campo IV: Seminários de Antropologia Urbana das Ciências
Sociais mantém a mesma orientação e formato desde
que foi proposto pelo NAU, em sua primeira edição, em 2002.
Vale a pena retomar a citação de Lévi-Strauss que,
na apresentação dos cadernos de resumos anteriores, serve
não apenas de epígrafe, mas fundamenta, de forma sintética
e precisa, o propósito da iniciativa:
(...) “é por uma razão muito profunda, que se prende à
própria natureza da disciplina e ao caráter distintivo de
seu objeto, que o antropólogo necessita da experiência do
campo. Para ele, ela não é nem um objetivo de sua profissão,
nem um remate de sua cultura, nem uma aprendizagem técnica. Representa
um momento crucial de sua educação, antes do qual ele poderá
possuir conhecimentos descontínuos que jamais formarão um
todo, e após o qual, somente, estes conhecimentos se ‘prenderão’
num conjunto orgânico e adquirirão um sentido que lhes
faltava anteriormente”. (1991: 415-416
)
Trata-se
da apresentação de relatórios de pesquisa que foram
realizados em disciplinas de Antropologia no Curso de Ciências Sociais
da FFLCH/USP, com ênfase no trabalho de campo. A realização
de uma etnografia supõe, ao contrário do que às vezes
se pensa, planejamento e cumprimento de etapas: o projeto de pesquisa,
com a delimitação do objeto de estudo, justificativa, estabelecimento
dos objetivos, discussão do quadro conceitual e proposta de cronograma;
em seguida, passa-se à etapa de campo propriamente dita, com todos
seus imprevistos e, finalmente, a elaboração do relatório,
com os resultados do trabalho. Tudo dentro das limitações
de um semestre, que é o tempo de duração de nossas
disciplinas.
No
entanto, a atividade não acaba com a entrega do relatório
e a avaliação do professor: é preciso aprender a expor
oralmente o trabalho, submetê-lo a uma discussão pública,
argumentar e defender as escolhas. E este é um dos objetivos do
evento que o NAU organiza há quatro anos, com a crescente participação
dos alunos da graduação, para os quais nem sempre há
oportunidades para esse tipo de exercício.
A
exemplo de anos anteriores, não apenas o seminário e os resumos
mas também alguns dos trabalhos terão um espaço
suplementar de difusão, o site do Núcleo de Antropologia
Urbana http://www.n-a-u.org. É mais um veículo disponível
para tornar público o trabalho que, alunos e professores, aqui
realizamos.
São
Paulo, novembro de 2005.
Dia 21.11.2005
Sociabilidade e espaços
institucionais
Trabalhos
apresentados:
Território
esquecido: um estudo de campo sobre o instituto “A Casa”.
Gabriela
Grabler Pen
O
brincar na escola: cultura infantil na EMEF “Marcos Mélega”.
Camila
de Oliveira.
Trabalho,
lazer e juventude: um exercício de etnografia sobre a sociabilidade
na Universidade de São Paulo.
Eduardo
L. R. da Cunha, Fábio M. Candotti, Ilan Lapyda, Maria Caramez Carlotto.
A
caminho da fronteira: moradia e sociabilidade em Cidade Tiradentes
Tiarajú
Pablo D´Andrea
RESUMOS
Território
esquecido: um estudo de campo sobre o instituto “A Casa”.
Gabriela
Grabler Pen
Esta
pesquisa tem como questão principal explorar o funcionamento do
hospital-dia de tratamento psiquiátrico A Casa suas alternativas
de tratamento, grupos terapêuticos, terapia ocupacional e oficinas
realçando como estão expressas nestas atividades relações
importantes tais como loucura e doença; médico e paciente;
cura e representação. A partir destas inquietações,
pretende-se estudar as conseqüências de uma iniciativa que abriu
suas portas e de certa forma diluiu as personagens tradicionais louco,
loucura e médico envolvidas neste cenário. Como fica,
neste sentido, as relações de identificação
e “reconhecimento”? A antropologia se torna uma ferramenta fundamental
para adentrar um campo como este, em que o questionamento da realidade
eu/outro ocorre inevitavelmente, a partir do momento que a loucura se coloca
na frente do espelho e deixa de ser legítima para ser experiência.
O
brincar na escola: cultura infantil na EMEF “Marcos Mélega”
Camila
de Oliveira
A cultura
infantil, definida como um sistema de designação e interpretação
das atividades humanas que possibilita a ação de brincar,
sempre foi destaque nos trabalhos e discussões pertencentes ao campo
da Pedagogia. Porém, dificilmente a cultura infantil torna-se o
foco principal de análise enquanto um objeto social per si. Este
trabalho propõe buscar traços da cultura infantil (vivência,
produção e reprodução) dentro do ambiente escolar
de alunos do ensino fundamental. A pesquisa foi realizada em uma EMEF durante
os horários de intervalo, nos quais supostamente, as crianças
podem exercer livremente as atividades pertencentes ao seu universo. Com
a observação das brincadeiras e atividades infantis, pode-se
identificar algumas referências subjetivas nelas presentes que permitem
delimitar seus sentidos e as relações que elas implicam.
Trabalho,
lazer e juventude: um exercício de etnografia sobre a sociabilidade
na Universidade de São Paulo.
Eduardo
L. R. da Cunha, Fábio M. Candotti, Ilan Lapyda, Maria Caramez Carlotto
A pesquisa
consiste numa etnografia realizada em três faculdades da Universidade
de São Paulo FEA (Economia, Administração e
Contabilidade); FFLCH (Filosofia, Letras e Ciências Humanas) e FD
(Direito) , entre abril e junho de 2005. O objetivo principal da pesquisa
foi abordar o tema da sociabilidade universitária tendo em vista
as transformações ocorridas no ensino superior a partir da
década de 1960 e, sobretudo, 1990. Procurou-se dar especial atenção
às novas relações entre sociabilidade, lazer e trabalho
que emergem deste novo contexto universitário. A partir disso, buscou-se
também a problematização do diagnóstico de
perda da centralidade da Universidade para a sociabilidade estudantil e
a conseqüente diluição da identidade de “estudante”.
A
caminho da fronteira: moradia e sociabilidade em Cidade Tiradentes
Tiarajú
Pablo D´Andrea
Tendo
apenas 30 anos de ocupação, a Cidade Tiradentes teve um abrupto
crescimento demográfico, tendo hoje 220 mil habitantes, dos quais
150 mil vivem na Cidade Tiradentes “legal” e 70 mil na “ilegal”. Em geral,
existem quatro tipos de moradias no local: apartamentos, auto-construção
em ocupações, mutirões e favelas. A mudança
ao bairro em geral acontece por três causas: impossibilidade de moradia
em outros bairros, remoção de favelas e beneficiamento em
programas de habitação. Para além dos preditores da
mudança e das formas de ocupação, descreveremos três
mecanismos de obtenção de moradia: um clube formado por mutuários
em dívida, um mutirão de casas populares gerido por um movimento
social, e como acontece a deliberada e perigosa “invasão” de apartamentos.
Ao morar no local durante 15 dias, pude etnografar estas dentre outras
experiências urbanas dos moradores de um bairro de periferia ainda
em formação que expressa a produção publica
e privada de um modelo urbano segregacionista. Por fim, cabe destacar a
relação dos velhos e novos moradores com o bairro, dada a
estigmatização que paira sobre ele.
Dia 22.11.2005
Práticas de
lazer
Trabalhos
apresentados:
Desvendando
a inserção da mulher no surf: de uma perspectiva feminista
à paixão pelo esporte
Soraia
Barbosa da Silva
A
arte do negócio: um estudo sobre a cordialidade e a ressignificação
de estigmas sociais no universo dos vernissages paulistanos
Frederico
Menino Bindi de Oliveira, Iara Rolnik Xavier, Juliana Kwast Yazbek.
O
supermercado como espaço de socialização
Fernanda
Faccin, Pedro Gustavo Aubert
RESUMOS
Desvendando
a inserção da mulher no surf: de
uma perspectiva feminista à paixão pelo esporte
Soraia
Barbosa da Silva
O surf
é um esporte milenar, considerado o esporte dos deuses. “Dos deuses”
e não das deusas! Por muitos anos, o surf foi praticado exclusivamente
por homens. Não há relatos sobre a prática pelas mulheres
na história do surgimento desse esporte. O mar começou a
receber a presença delas discretamente, há poucas décadas.
No entanto, há alguns anos, o número de mulheres surfistas
tem crescido rapidamente e elas estão ocupando seu lugar no mar,
ao lado deles. O objetivo da pesquisa é desvendar a recente inserção
feminina no surf, levando em consideração a influência
das teorias feministas e a atual popularidade que esse esporte vem adquirindo
nos últimos anos. Investigar os motivos que levaram mulheres “pioneiras”
a entrar num universo antes dominado pelos homens: a paixão pelo
esporte, por adrenalina, as dificuldades que enfrentavam e ainda enfrentam,
a necessidade de se igualar a eles... Seria essa inserção
feminina parte de uma luta da mulher em ampliar seu espaço? Ou uma
forma de diversão? O que explicaria a paixão delas por esse
esporte radical?
A
arte do negócio. Um estudo sobre a cordialidade e a ressignificação
de estigmas sociais no universo dos vernissages
paulistanos
Frederico
Menino Bindi de Oliveira, Iara Rolnik Xavier, Juliana Kwast Yazbek
O tema
central desta pesquisa é a negociação, criação
e recriação de valores sociais que ocorre durante a cena
específica e muito particular dos vernissages. Realizados semanalmente
nas galerias de arte de São Paulo, os vernissages atraem um público
eclético, que participa do evento sob o pretexto de apreciar a boa
arte e homenagear o artista que inaugura uma nova exposição.
Em meio a quadros, gravuras, esculturas e instalações, circulam
não apenas artistas e galeristas entusiasmados, mas também
garçons, estudantes e os famosos “bicões”. Juntos, eles compõem
uma cena complexa de sinais e gestos, que acabam por atribuir às
artes plásticas bem como ao circuito que a envolve uma
aura especial e sofisticada. O objetivo desta breve pesquisa é revelar,
por meio de uma abordagem etnográfica, as qualidades próprias
dessa aura assim como os gestos e sinais que compõem o mundo das
artes plásticas paulistano.
O supermercado
como espaço de socialização
Fernanda
Faccin, Pedro Gustavo Aubert
A pesquisa
propõe uma discussão sobre o uso do espaço de supermercados
como um local de interação social, encontro e distração.
Através da observação direta e de entrevistas realizadas
com freqüentadores, foram analisados quatro supermercados da região
oeste da cidade de São Paulo, diferentes quanto ao tamanho e ao
tipo de público. A partir da etnografia foi possível chegar
a alguns indícios de regularidades, como por exemplo, o ato da compra
funcionando como uma espécie de bilhete de entrada para o tipo de
sociabilidade ali existente, ou ainda a ambigüidade do discurso: há
um discurso sobre si e outro discurso sobre o outro. Outras questões
se mostraram interessantes para futuros desdobramentos, entre elas a abordagem
antropológica sobre o consumo.
Dia 23.11.2005
O jogo dos símbolos
Trabalhos
apresentados:
Fumantes
e não fumantes: dois grupos sociais vistos através da imagem
Andréa
Sales Ribeiro, Ana Karina de Araujo Saito
Igreja
Universal do Reino de Deus e religiões afro-brasileiras: um estudo
sobre a manipulação simbólica
Amanda
Schoenmaker, Fabio Alves dos Santos Dias, Lia Palm, Peri de Ulhoa Canto
Live
action, um jogo entre as narrativas orais e o teatro: uma reflexão
sobre a relação entre pessoa e personagem em uma perspectiva
antropológica
Ana
Letícia de Fiori, Marcos Vinícius Malheiros Moraes
RESUMOS
Fumantes
e não fumantes: dois grupos sociais vistos através da imagem
Andréa
Sales Ribeiro, Ana Karina de Araujo Saito
A pesquisa
se propõe analisar de que forma um determinado grupo social interage
com as imagens da campanha antitabagista veiculadas nos maços de
cigarros por obrigatoriedade do Ministério da Saúde. O objetivo
é averiguar como dois grupos sociais, os fumantes e os não-fumantes,
percebem e lidam com as imagens construídas tendo eles como público
alvo. A análise baseia-se no princípio de que para reconhecer
sensorialmente as mensagens é preciso que as mesmas contenham elementos
que façam parte dos códigos culturais dos grupos em questão.
Levando em conta o contexto de uma cidade onde os indivíduos são
constantemente metralhados por inúmeras imagens de significados
variados, a pesquisa busca saber como se constrói um discurso sobre
pequenas imagens que não estão em outdoors ou faixas, mas
diretamente nas mãos e bolsos dos indivíduos.
Igreja
Universal do Reino de Deus e religiões afro-brasileiras: um estudo
sobre a manipulação simbólica
Amanda
Schoenmaker, Fabio Alves dos Santos Dias, Lia Palm, Peri de Ulhoa Canto
A pesquisa
foi realizada nas sessões de descarrego que acontecem aos domingos,
no templo maior da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), e em terreiros
de Candomblé e de Umbanda em especial. Tratou-se, num primeiro momento,
da manipulação simbólica de elementos das religiões
afro-brasileiras pela IURD, a partir de um levantamento de alguns destes
elementos e de como estes são reinterpretados dentro da chave neopentecostal
da IURD. Em um segundo momento, procurou-se ir além do estudo de
quais elementos são manipulados simbolicamente e de como esta se
dá, a partir de uma reflexão sobre o por quê desta
apropriação, partindo da doutrina neopentecostal da IURD,
tentado compreender a importância destes elementos neste sistema
religioso. Partiu-se do pressuposto de que, sem a existência de diálogo
a aproximação “simbólica-estrutural” entre os dois
sistemas este sincretismo, ainda que singular em suas formas, não
seria possível.
Live action,
um jogo entre as narrativas orais e o teatro: uma reflexão sobre
a relação entre pessoa e personagem em uma perspectiva antropológica
Ana
Letícia de Fiori, Marcos Vinícius Malheiros Moraes
A pesquisa
desenvolveu-se sobre as práticas performáticas de jogos de
narrativas orais em um grupo de live action, o “Refúgio dos Ventos”.
Analisou-se como se dá a dinâmica entre personagem e pessoa
através dos conceitos de narrador de Walter Benjamin, aventureiro
de Georg Simmel, jogo de Johan Huizinga, performance e liminóide
de Victor Turner e por meio da observação participante, da
descrição densa e de entrevistas e questionários aplicados,
que nos deram o perfil sócio-econômico e cultural de seus
participantes, além de um panorama geral sobre seu auto conceito.
Fragmentou-se a análise em aspectos de espaço-tempo; grupo;
situação e performance e personagem e pessoa. Os resultados
da pesquisa levaram a concluir que os jogos de RPG são uma forma
“boa para pensar” as relações sociais, atuando como uma metáfora
da vida real, e que a sociabilidade é o fator mais valorizado pelos
jogadores.