Retomar
aqui essas ponderações visa explicitar que também
o papel metodológico do transeunte em minha investigação
muito deve à perspectiva etnográfica. O que o transeunte
revela sobre a maneira como a sociedade se ajustou ao advento da modernidade
em São Paulo? Tendo-se em mente que o transeunte corporifica as
duas regras de conduta acima explicitadas, é em especial a primeira
que permite entrever toda a potencialidade metodológica da personagem.
Está em jogo na circulação um conjunto de técnicas
corporais num ritmo específico: a passagem física pelas ruas
regularmente. Já que os ritmos são constituídos por
repetições cíclicas (de origem cósmica) e lineares
(de origem social) de movimentos no tempo que, precisamente por ocorrerem
no espaço, engendram diferenças (Lefebvre 1992), eles constituem
uma via privilegiada para a compreensão das mudanças sociais
no “nível” do “vivido”, do “carnal”, do “corpo” (Idem: 91). Uma
vez que esse nível é caro ao “diálogo para valer”
que o antropólogo busca, então o transeunte é, no
contexto em foco, uma referência metodológica extremamente
útil. Se tornar-se transeunte é inevitável na São
Paulo oitocentista, a questão é apreender como a passagem
regular, a circulação, vira regra de comportamento nas ruas;
e o que tal fato implica para as regras de conduta que envolvem as interações.
Permanece em aberto como procedi
nessa direção, se só o que tinha à disposição
eram documentos históricos. Os ombros nativos ainda parecem tão
distantes...
Também na etapa do levantamento
de dados a perspectiva etnográfica se mostrou de valia. Se o que
importava eram movimentos corporais e interações dos indivíduos
em seu dia-a-dia nas ruas da cidade ao longo do século XIX, seria
necessário concentrar-se em fontes históricas que revelassem
a dinâmica envolvida nesse plano “carnal” dos corpos em movimento
pelas vias durante o dia, momento de maior burburinho humano ali, ao longo
de todo o século. Fui assim conduzida a ruas específicas,
a períodos históricos também definidos e, conseqüentemente,
a documentos peculiares.
Levando-se em conta a importância
da dimensão de “teatro espontâneo” que envolve a rua em qualquer
cidade (Lefebvre 1970: 29), mas também as próprias características
da história da urbanização paulistana, nota-se que
um perímetro relativamente restrito de vias centrais no núcleo
povoado da cidade congregava, nesse momento, as principais funções
político-administrativas, comerciais, lúdico-religiosas e,
a partir de finais dos Oitocentos, até funções industriais.
É inevitável, portanto, que para ali fossem atraídos
dia a dia, enquanto era dia, grupos sociais dos mais diversos, e que fosse
grande a pressão social (e político-repressiva) em prol da
civilidade moderna. Estou falando das ruas, becos, travessas e largos da
chamada colina histórica que, para fins operacionais, recortei de
maneira definida, que aqui reproduzo para aproximar o leitor o máximo
possível do cenário em relação ao qual realizei
a etnografia das ruas do passado:

Figura 1: “Nova Planta da Cidade
de São Paulo com indicação dos principaes edificios
publicos – 1891 – por U. Bonvicini & V. Dubugras” [e detalhe, circundado
por um traçado em preto, com o perímetro enfocado em especial]
[U. Bonvicini & V. Dubugras/Benedito Lima de Toledo, Prestes Maia e
as Origens do Urbanismo Moderno em São Paulo, 1996]
Convém ressaltar que se remeter
a esse cenário físico sob a orientação da perspectiva
etnográfica implicou incorporar à noção de
“rua” todas as variações topográfico-urbanísticas
(largos, becos, praças, ladeiras) decorrentes do princípio
básico que define a rua: o fato de ser lugar público, de
acesso social irrestrito. Por isso mesmo, trata-se de um espaço
que pode exercer, como nenhum outro local da cidade, o papel de “teatro
espontâneo” no qual representantes dos mais diversos grupos sociais
se movimentaram e interagiram segundo regras de conduta peculiares, em
momentos específicos dos Oitocentos e do início dos Novecentos.
Quanto ao período histórico
no âmbito do qual me movimentei, também ele foi definido tendo
como base a civilidade de que o transeunte é protagonista. Um evento
que incidiu diretamente sobre a maneira de os indivíduos se movimentarem
em São Paulo foi a chegada da ferrovia (1865-1867). Os primeiros
trilhos instalados foram a materialização física mais
acabada do princípio da circulação de tudo e de todos,
indo e vindo da capital. Por isso os meados da década de 1860 constituem
um marco instigante de periodização, que permite avaliar
como regras de civilidade vigentes nas ruas antes da implantação
da ferrovia se alteraram na seqüência.
Mas o quanto antes dos anos de 1860
iniciei a análise e em relação a que momento histórico
a encerrei? Como a idéia era acompanhar o impacto da modernidade
no plano dos comportamentos corporais e das interações nas
ruas de São Paulo no século XIX, o contexto social e cultural
que envolve a chamada “abertura dos portos”, em 1808, ofereceu uma referência
inicial interessante. E isso não somente porque o evento representa,
em termos simbólicos e históricos, um certo prenúncio
involuntário de processos históricos ligados à modernidade
que agitaram, sobretudo a partir da segunda metade do século XIX,
recônditos interioranos como São Paulo numa colônia
cujo povoamento, ao longo de três séculos, fora principalmente
litorâneo. Mas também porque foi no bojo das negociações
que desembocaram na decisão política de abrir os portos às
“nações amigas” que chegou em São Paulo o viajante
inglês John Mawe (1764-1829). Foi ele um dos primeiros autorizados
a embrenhar-se pelos sertões da então colônia, como
resultado do favorecimento com o qual a Inglaterra pôde contar por
ter viabilizado política e logisticamente a fuga da família
real portuguesa da Corte, durante as guerras napoleônicas. O autor
produziu uma documentação de singular riqueza (Mawe 1812)
no que diz respeito a indícios sobre sua maneira de movimentar-se
e de interagir com terceiros nas ruas de São Paulo entre finais
de 1807 e o início de 1808. Por suas características, o relato
forneceu um ponto de partida metodológico apropriado para a apreensão
analítica de transeuntes na documentação. Relevante
passou a ser buscar nas fontes referências aos comportamentos corporais
e interações dos próprios autores ou dos tipos humanos
a eles correspondentes – no caso de Mawe, viajantes – nas ruas centrais
da cidade.
Se o primeiro intervalo temporal
contemplado perpassou grosso modo os primeiros sessenta anos do século,
o segundo foi do início da década de 1880 a 1917. É
de 1882 o relato de viagem do carioca Firmo de Albuquerque Diniz (?-?)
sobre a São Paulo na qual vivera, como estudante de Direito, trinta
anos antes (Diniz [1882] 1978). O texto foi relevante para mim por ser
o mais antigo que conheço que, produzido por um viajante brasileiro,
aborda as andanças desse indivíduo pelas ruas da cidade.
A novidade histórica que as memórias de Mawe representam
para o primeiro intervalo temporal aqui contemplado, as notas de viagem
de Diniz representam para o segundo.
O limite da investigação
foi julho de 1917, quando uma revista paulistana, A Cigarra, publicou uma
reportagem fotográfica pioneira sobre um cortejo fúnebre
que alterou os destinos da primeira grande greve geral que estava em curso
na cidade em julho daquele ano. Foi uma manifestação social
que envolveu a presença maciça e politicamente determinante
de mais de dez mil indivíduos, em boa parte, operários pouco
remediados, nas ruas centrais no dia 12 de julho. Por ali conduziram em
procissão o caixão com o corpo do sapateiro espanhol José
Ineguez Martinez (1896-1917), morto em confrontos com a polícia,
durante a greve geral desencadeada na cidade de quase 500 mil habitantes
alguns dias antes. A publicação da série de fotografias
sobre o evento expressa, em imagens, a consolidação, nas
ruas de São Paulo, de duas personagens que, ao mesmo tempo em que
produtos do passado, apontam para a possibilidade histórica de regras
de civilidade bem diferentes ali a partir de então, na cidade. Por
um lado, consagra-se o transeunte que, além de fotógrafo,
é repórter: o repórter jornalístico. Por outro
lado, o fotógrafo foi responsável por eternizar, em imagens,
uma multidão constituída em instrumento político moderno
passível de ser difundido pelo veículo de representação
também moderno que é a fotografia publicada em revistas.
Explicitados esses aspectos, há
como reiterar sob um novo ângulo a relevância da mediação
da perspectiva etnográfica na seleção da documentação.
Em busca do “diálogo para valer” com os indivíduos que, em
movimentação pelas ruas centrais paulistanas, se encontravam,
sem saber, imersos no processo histórico de virem a ser transeuntes,
foi fundamental concentrar-se em fontes históricas cujos autores
discorressem direta ou indiretamente sobre a sua própria maneira
de deslocar-se fisicamente e de interagir socialmente nas ruas centrais
da cidade ao longo dos dois intervalos em foco.
Evidentemente inexistem documentos
referidos às vivências de um único indivíduo
nas ruas por mais de cem anos. Porém há, em relação
às ruas centrais de São Paulo, textos e fotografias que,
originados no decorrer dos primeiros sessenta anos do século XIX
e do intervalo entre os anos de 1880 e 1917, têm como autores indivíduos
que, nos documentos que produziram, figuram como porta-vozes de tipos humanos
que integraram a sociedade paulistana nos dois períodos aqui em
questão: o “viajante” (estrangeiro ou brasileiro), o “estudante
da Academia de Direito”, a “mulher de elite”, o “jornalista”, o “fotógrafo
de rua”.
Foram essas personagens que me cederam
involuntariamente seus “ombros” para que, por detrás deles, eu pudesse
apreender as mudanças nos padrões de conduta nas ruas paulistanas
do século XIX. Concebi a documentação como um conjunto
de testemunhas oculares nos termos – aliás, contundentemente antropológicos
– do historiador Peter Burke (2001: 183), ao refletir sobre as imagens
como fonte histórica: “elas testemunham as maneiras estereotipadas
e, no entanto, gradualmente cambiantes pelas quais os indivíduos
ou grupos enxergam o mundo social, incluindo o mundo de sua imaginação”.
Sob essa perspectiva, é crucial variar os olhares, os testemunhos.
Rastreei as fontes à procura de indícios dos comportamentos
corporais e das interações desses tipos humanos com terceiros
nas ruas do primeiro intervalo de estudo, apreendendo regras de conduta
singulares cujas transformações acompanhei em relação
ao segundo período em jogo.
Tanto textos quanto fotografias foram
imprescindíveis, já que são suportes diversos de “olhares”
(“gazes”) também diferentes a respeito do mundo social (Idem: 126,183).
Mas foram textos e fotografias precisos: documentos que tematizam essencialmente
a presença dos respectivos autores nas ruas centrais da São
Paulo nos dois intervalos. Constituíram o corpus documental da investigação
em questão primeiramente relatos de viagem de alguns estrangeiros
europeus e norte-americanos sobre as vias do centro paulistano do período.
Tendo freqüentado em geral, quando na cidade, as rodas mais prestigiadas
da sociedade, esses forasteiros produziram em seus textos, antes de tudo,
“imagens do outro” imbuídas de inevitáveis preconceitos e
estereótipos (Idem: 139). No entanto, há mais, quando se
explora o “encontro cultural” que cada um desses textos testemunha (Idem,
ibidem). Por evidenciar olhares de fora sobre a movimentação
física e as interações dos estrangeiros com nativos
nas ruas, esse material fornece instigantes contrapontos à reflexão
sobre as vivências dos próprios membros “nativos” da sociedade
paulistana em relação a esse espaço.
No segundo intervalo temporal, as
ruas da cidade foram eternizadas em textos de estrangeiros que não
estavam mais somente de passagem. Multiplicaram-se órgãos
de imprensa ligados às cada vez mais numerosas colônias de
imigrantes, além de fotógrafos também adventícios
(envolvidos com a produção de fotografias e de cartões
postais) que na cidade se instalaram. Por isso mesmo, em relação
a esse período importaram os dados que jornais, fotografias e postais
pudessem conter a respeito da movimentação corporal e as
interações cotidianas de alguns de seus autores nas vias
centrais. Debrucei-me particularmente sobre as - cotidianas - crônicas
e notícias de dois desses jornais (um italiano e um alemão),
mas também sobre imagens de um fotógrafo suíço
e de um italiano que pelas ruas se locomoveram com regularidade entre finais
do século XIX e o início do XX. As profissões fazem
desses tipos humanos representantes das nascentes camadas médias
paulistanas.
Considerei, por outro lado, toda
uma documentação “nativa”, por assim dizer, textos e imagens
produzidos por brasileiros no período. São documentos pessoais
(cartas, no primeiro intervalo, e um diário, no segundo) de endinheirados
estudantes da Academia de Direito paulistana, aberta em 1828; memórias
de antigos estudantes da instituição também oriundos
das elites – ou, no mínimo, vinculados pessoalmente a estas no momento
em que escreveram os seus textos; memórias de mulheres de elite
sobre o seu passado de meninas abastadas na cidade. No segundo intervalo
temporal contemplado entraram em cena também os livros de viagem
de alguns antigos estudantes não-paulistanos da Academia: a passagem
pela cidade anos após o término do curso rendeu evocações
memoráveis sobre a movimentação dos próprios
autores pelas ruas centrais tanto de seu passado juvenil quanto do seu
presente adulto.
Mas também havia nesse período
na cidade tipos humanos “nativos” que, pela profissão, podem ser
associados às camadas médias de São Paulo. Foram importantes,
por um lado, determinadas crônicas e notícias jornalísticas
que começam a ser trazidas a público pelos nascentes jornalistas
na cidade a partir de 1854, com o aparecimento do primeiro jornal paulistano
que assumiu o dia-a-dia das ruas como assunto cada vez mais constante de
suas páginas. Por outro lado, consegui encontrar fotografias da
área central produzidas também por brasileiros, nos dois
intervalos em questão. Os autores dessa documentação
provavelmente também tenham tido laços com as elites. Como
era muito restrito o número de alfabetizados na cidade – e, de resto,
no país – , não é difícil inferir que os leitores
dos jornais e mesmo os empregados ligados a esses órgãos
de imprensa fossem aparentados daqueles em cujos círculos a probabilidade
de letrados poderia ser maior, dependendo das condições econômicas.
É certo que cada um dos documentos
foi produzido a partir de lugares sociais distintos – e mesmo em tempos
e espaços diversos, se levamos em conta que as memórias e,
em particular, as memórias de viagem, não foram produzidas
em São Paulo. Além disso, cada fonte obedece aos ditames
formais dos respectivos tipos documentais a que pertence, em meio à
dinâmica de sua produção. Isso para não falar
de aspectos de apreensão mais difícil. Memórias de
viagem, de infância e de juventude, nas cartas e diários pessoais,
resultam de seleções que obedecem a critérios de fundo
eminentemente afetivo. Já no caso das crônicas e notícias
dos jornais, as seleções obedecem a critérios políticos
e literários. Nas fotografias e cartões postais fotográficos
sobre as ruas, a seleção é de outro tipo ainda, obedecendo
à natureza da própria fotografia. Combina limitações
técnicas, a perspectiva do fotógrafo, referida à própria
inserção deste no mundo social, e a “imaginação
fotográfica” que, ensejada por motivações estéticas
ou documentais, leva o fotógrafo a buscar desconstruir o visível
(Martins 2002: 223). Esses critérios variados se transformam, em
última instância, em pretextos que norteiam a escolha que
os respectivos autores fazem desse ou daquele aspecto implícito
à sua movimentação pelas ruas, a fim de eternizá-lo,
explícita ou implicitamente, nos diversos gêneros documentais
considerados. Se, nas fontes textuais, o que resulta da escolha são
fragmentos mais ou menos ficcionais relativos aos “imponderáveis”
implícitos às andanças dos respectivos autores pelas
ruas paulistanas, nas fotografias a realidade fotografada constituída
na fixidez da película retida pela moldura remete de forma imediata
a fragmentos efetivos da movimentação física do fotógrafo
na hora da tomada
.
Mediada por esses aspectos todos,
a seleção de cada autor acabará por conter referências
diretas ou indiretas à maneira como estes teriam se movimentado
fisicamente e interagido dia-a-dia nas ruas do período. Foi essa
a matéria-prima de minha análise. E dá-lhe perspectiva
etnográfica, nesta etapa da investigação trabalhada
em termos teórico-metodológicos por meio de interlocução
com as considerações de outro historiador afinado com a antropologia:
Carlo Ginzburg ([1979]1991; [1989]1989). As referências sobre a movimentação
corporal e as interações contidas nas fontes se insinuam
através de detalhes cujo significado interpretativo se define a
partir do cruzamento a que o pesquisador submete os dados contidos fontes.
Desse cruzamento emerge um desencontro entre aquilo que Ginzburg chamou
de “opacidades” e de “zonas privilegiadas – sinais, indícios” de
uma “realidade” mais ampla ([1979]1991: 177).
Em função da experiência
que tiveram das ruas paulistanas, os autores da documentação
transformaram-se, após todo esse tratamento teórico-metodológico
epistemologicamente informado pela etnografia, em informantes por trás
de cujos “ombros” documentais pude empreender a etnografia das ruas do
passado. Informantes revelados pela documentação a partir
do diálogo que, pela mediação da perspectiva etnográfica,
pude travar com a teoria – antropológica, sociológica, histórica
.
Há que se ressaltar, por fim,
que a perspectiva etnográfica imbui também a representação
literária dos resultados da investigação. De fato,
concebo narrativamente o texto monográfico em questão como
etnografia da civilidade que, nas ruas, foi historicamente possível
para tipos humanos específicos que estavam vinculados às
elites e às camadas médias paulistanas entre o início
do século XIX e o início do XIX (Frehse 2004: 51-54). Assumindo
como ponto de partida literário os discursos de cada uma das personagens
sobre a sua maneira de se movimentar pelas vias centrais (capítulos
1 e 2) e de interagir ali (capítulo 3) nas primeiras seis décadas
do século, a primeira parte da monografia avança, a partir
dos indícios sobre os comportamentos corporais, para as regras envolvidas
na movimentação corporal de viajantes, de estudantes de Direito,
de mulheres de elite, de jornalistas e fotógrafos ali naquele período
(capítulos 1 e 2). Ancorado nesses dados, o texto parte em direção
a pistas sobre os padrões de conduta das interações
nas ruas nesse período (capítulo 3). Após um Intermédio
que evoca as transformações socioeconômicas, demográficas,
urbanísticas, tecnológicas e político-administrativas
pelas quais as ruas centrais de São Paulo passaram no intervalo
entre os anos de 1860 e 1880, entra em cena a segunda parte do estudo.
É então a vez respectivamente dos discursos, indícios
e das regras referidas às ruas do centro paulistano no intervalo
entre 1880 e 1917 (capítulos 5, 6 e 7).
A referência teórica
que orientou a estrutura argumentativa, na qual cada parte se constitui
a partir dos indícios sobre os comportamentos corporais, a fim de
aprofundar verticalmente, na seqüência (respectivamente capítulos
3 e 7), as regras envolvidas nas interações em meio a esses
comportamentos, foi a premissa geertziana de que ao antropólogo
cabe concentrar-se na “hierarquia estratificada de estruturas significativas”
([1973]2000: 7). No caso, trata-se de uma hierarquia de significados que,
apreensíveis através do cruzamento de dados das diferentes
fontes, dizem respeito a regras que, por sua vez, perpassam os comportamentos
corporais e, pela mediação destes, as interações
em questão. Mas lanço mão da noção de
etnografia para caracterizar a monografia tendo em conta que a estrutura
de cada uma de suas partes tem um caráter densamente descritivo:
iniciando-se na descrição dos indícios sobre a movimentação
física nas ruas, a argumentação passa para as regras
significativas que esses indícios sugerem para comportamentos corporais
e interações. Já o Intermédio é a mediação
que dá sentido a essa densidade, de conteúdos socioculturais
e históricos diferentes em cada período, por mais que a lógica
cultural implícita às regras, a etiqueta, permaneça
inalterada.
Etnografia, mas também perspectiva
etnográfica, já que o enfoque sobre as movimentações
corporais e nas interações dos diferentes transeuntes pelas
ruas em cada momento é uma estratégia literária que
visa aproximar cognitivamente o leitor tanto daquelas vias que se torna
quase inevitável que ele seja levado a estranhar as suas próprias,
deste início de século XXI. Se estas são ruas paulistanas,
quantas diferenças... Mas também, tantas semelhanças...
Em meio a limitações,
rendimentos de cunho teórico-metodológico e literário
Escaparia aos intuitos deste artigo
apresentar os resultados interpretativos detalhados na e através
da etnografia das ruas do passado que constitui a monografia em questão
(cf. nesse sentido Frehse 2004). Mais vale apontar o que o exercício
de estranhamento aqui realizado revela sobre as potencialidades da etnografia
para a abordagem antropológica justamente das ruas paulistanas oitocentistas.
São potencialidades que se apresentam em meio às inevitáveis
limitações do recurso quando o assunto são problemáticas
referidas a um tempo histórico que não é aquele em
que vive e pesquisa o antropólogo.
As limitações são
óbvias quando se assume como parâmetro a concepção
clássica de etnografia vigente na antropologia. Não há
como ter contato físico com os nativos que se estuda; não
há como “conversar com eles” (Geertz, [1973]2000: 13), portanto.
Ademais, se, como diz Geertz, os dados do antropólogo são
sempre construções das construções dos outros
(Idem: 9), as construções, no caso de estudos antropológicos
de temáticas históricas, se fazem com base apenas em indícios
das construções dos outros.
Entretanto, penso que o exercício
de estranhamento aqui realizado contribui para atestar que as limitações
não são suficientes para demover o antropólogo do
empreendimento, se o que ele visa é afirmar, a partir dos referenciais
da disciplina, algo sobre a sociedade em questão. Existe uma perspectiva
etnográfica que o acompanha mesmo quando ele se defronta com modos
de viver, de pensar e de se relacionar socialmente que não lhe são
contemporâneos. Essa perspectiva medeia a construção
teórico-metodológica da investigação, perpassa
a coleta, análise e interpretação dos dados, a redação
dos resultados.
Se contemplada sob esse prisma, a
etnografia é, por um lado, prenhe de rendimentos de cunho teórico-metodológico
para a abordagem das ruas do passado. Ela abre espaço para que se
problematize antropologicamente, lançando mão do norte epistemológico
que é o “diálogo para valer”, essa seara muito específica
da vida social que é a vida de todo dia. Trata-se de um ponto de
reparo passível de descortinar os dilemas culturais e históricos
envolvidos nos fatos aparentemente menores do dia-a-dia. Sobretudo quando
o assunto são a cidade e a modernidade, temáticas tão
caras às chamadas “sociedades complexas”, a perspectiva etnográfica
incentiva o pesquisador a estranhar essa seara, influenciada de forma tão
contundente por esse modo de vida historicamente peculiar que é
o cotidiano. Tal ponto de vista permite trazer à tona, em meio ao
vigor do processo histórico de difusão da modernidade pelos
quatro cantos do mundo, as ressignificações peculiares deste,
dependendo do contexto sócio-histórico e cultural em questão.
Paralelamente há potencialidades
literárias na etnografia. Balizando a elaboração de
textos fortemente marcados por fórmulas narrativas que visam conduzir
o leitor pela “hierarquia de estruturas significativas” que envolvem as
práticas culturais, a perspectiva etnográfica implícita
à etnografia acaba por incentivar a reflexividade do leitor, ao
mesmo tempo tão próximo e tão distante do contexto
descrito densamente na etnografia.
Expostos esses rendimentos, seria
possível inverter a questão inicial deste texto para refletir
sobre a potencialidade que uma análise das ruas do passado pode
ter para a antropologia. Se não é o caso aqui de delongar-se
nesse sentido, ciente de que essa tentativa é, ela mesma, pretexto
para um outro artigo, reconheço que, por meio do empreendimento
aqui tematizado, fui levada a ponderar sobre mediações teórico-metodológicas
que, por mais que perpassem também as etnografias realizadas no
chamado “presente etnográfico”, nestas freqüentemente passam
desapercebidas, ou não são explicitamente problematizadas
em função de uma confiança talvez excessiva do antropólogo
nas virtudes dos insights “em campo”. Refiro-me especialmente à
definição da questão teórica a ser analisada,
mas também à construção teórica de uma
referência metodológica para abordar essa questão,
o que acarreta a elaboração de etnografias bem específicas,
através de informantes singulares, que são construções
também teóricas, mais do que resultados exclusivos do contato
empírico com o campo. Isso para não falar da relevância
da chamada “crítica da fonte”, tão conhecida dos historiadores,
para o processo de coleta, análise e interpretação
de dados etnográficos.
Já do ponto de vista teórico,
foi possível reconhecer a perturbadora da historicidade de longa
duração que impregna práticas culturais como a civilidade.
Explorando a hierarquia de estruturas simbólicas, deparei-me com
regras de conduta com conteúdos diversificados em momentos históricos
distintos; mas a lógica simbólica que os envolve tem uma
historicidade que faz reaparecerem em plena rua republicana e pós-escravista
regras de conduta cerimoniais do período escravista. Em face dessa
constatação, fica para a antropologia a seguinte questão:
Há como compreender os significados dos comportamentos sem recorrer
à história?
Em meio a suas limitações
e possibilidades, a etnografia das ruas do passado, mesmo que ofereça
uma história da sociedade paulistana oitocentista e do início
do século XX, não deixa de ser antropológica. Mas
uma antropologia que parte de um pressuposto específico: o de que
esta sociedade – se não toda – não pode ser pensada sem que
se incorpore à reflexão sobre ela suas especificidades na
maneira de perceber, viver, conceber a passagem do tempo.
Notas
Versão
reformulada da comunicação apresentada no Simpósio
“Sociedade, población y economia” do VI Congreso Internacional de
Etnohistoria realizado em Buenos Aires (Argentina) entre 22 e 25 de novembro
de 2005. Publicado em Cadernos
de Campo, v.15, n.14/15, jan/dez de 2006.
No
contexto internacional a discussão já é mais antiga
(Bloch 1977; Geertz [1980]1991; Sahlins 1981; Gaunt 1982; Rowland 1987).
No que se refere ao cenário brasileiro, discussões sistemáticas
sobre a temática são mais recentes e vêm tendo lugar
em eventos científicos específicos. Sobressai nesse sentido,
entre outros, o Seminário Temático “A Antropologia e seus
métodos: o arquivo, o campo, os problemas”, coordenado por Marcio
Goldman e Emerson Giumbelli e realizado no âmbito do 25º Encontro
Anual da ANPOCS, de outubro de 2001 e cujas contribuições
estão registradas em disquete (Seminário 2001), e o Seminário
“Quando o campo é o arquivo: etnografias, histórias e outras
memórias guardadas”, coordenado por Celso Castro e Olívia
Maria Gomes da Cunha realizado pelo CPDOC da Fundação Getulio
Vargas e pelo Laboratório de Antropologia e História do IFCS/UFRJ
em novembro de 2004, e cujas contribuições foram publicadas
na revista Estudos Históricos, 36, 2005.
Uma
revisão bibliográfica crítica dessas e de outras referências
encontra-se em José de Souza Martins ([1998]2000: 55-64).
Aliás,
Geertz preconiza que deveria ser o “comportamento” o foco primordial do
antropólogo, “pois é através do fluxo do comportamento
– ou, mais precisamente, da ação social – que as formas culturais
encontram articulação” ([1973]2000: 17).
É
preciso considerar a condição indicial da fotografia - ou
seja, o fato de meramente afirmar, pelo ato que a funda, a existência
de uma realidade (objeto, paisagem) à qual se referencia (Dubois
[1990]1994: 55,88,51-2). Após o ato de exposição da
chapa à luz, essa realidade é “imediatamente (re-)tomada,
(re-)inscrita nos códigos” relativos às “formas culturais
da representação” (Idem: 85-6).
Sobre
a pertinência de falar em informantes “quando o campo é o
arquivo”, cf. Frehse (2005b: 131-156).
Referências Bibliográficas
BLOCH, Maurice. 1977. "The past and
the present in the present". Man, 12: 278-92.
BURKE, Peter. 2001. Eyewitnessing.
The uses of images as historical evidence. Ithaca: Cornell University Press.
CLIFFORD, James. [1983]. “Sobre
a autoridade etnográfica”. Trad. Patrícia Farias. Rev. Técn.
José Reginaldo Santos Gonçalves. In J. R. S. Gonçalves
(org.), James Clifford. A experiência etnográfica. Antropologia
e literatura no século XX. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2002,
pp. 17-62.
______; MARCUS, George. (eds.).
1986. Writing culture. The poetics and politics of ethnography. Berkeley/Los
Angeles/London: University of California Press.
DAMATTA, Roberto. [1974]. “O ofício
do etnólogo ou como ter anthropological blues”. In E. Nunes (org.),
A aventura sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978, pp. 23-35.
DINIZ, Firmo de Albuquerque (Junius).
[1882]. Notas de viagem. São Paulo: Governo do Estado de São
Paulo, 1978.
DUBOIS, Philippe. [1990]. O ato
fotográfico e outros ensaios. Trad. Marina Appenzeller. Campinas:
Papirus, 1994.
ELIAS, Norbert. [1939]. Über
den Prozess der Zivilisation. Soziogenetische und psychogenetische Untersuchungen.
2 vols. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1993.
ESTUDOS Históricos. Antropologia
e arquivos, 36, 2005.
FREHSE, Fraya. 1999. Entre o passado
e o presente, entre a casa e a rua: tempos e espaços na cidade de
São Paulo de fins do Império. Dissertação de
Mestrado em Antropologia Social. São Paulo: Faculdade de Filosofia,
Letras e Ciências Humanas – Universidade de São Paulo.
______. 2004. Vir a ser transeunte.
Civilidade e modernidade nas ruas da cidade de São Paulo (entre
o início do século XIX e o início do século
XX). Tese de Doutorado em Antropologia Social. São Paulo: Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Universidade de São
Paulo.
______. 2005a. O tempo das ruas
na São Paulo de fins do Império. São Paulo: Edusp.
______. 2005b.“Os informantes que
jornais e fotografias revelam: para uma etnografia da civilidade nas ruas
do passado”. Estudos Históricos, 36: 131-156.
GAUNT, David. 1982. Memoir on history
and anthropology. Stockholm: The Swedish Research Councils/Publishing House.
GARFINKEL, Harold. [1967]. Studies
in ethnomethodology. Cambridge: Polity Press, 1984.
GEERTZ, Clifford. [1980] Negara.
O estado teatro no século XIX. Trad. Miguel Vale de Almeida, 1a
ed. Lisboa: Difel/Bertrand Brasil, 1991.
______. [1973]. The interpretation
of cultures. Selected essays. New York: Basic Books, 2000.
______. [1983]. Local knowledge.
Further essays in interpretive anthropology. New York: Basic Books, 2000.
______. 1988. Works and Lives. The
anthropologist as author. Stanford: Stanford University Press.
GINZBURG, Carlo. [1979]. “Sinais.
Raízes de um paradigma indiciário”. In C. Ginzburg, Mitos,
emblemas e sinais. Morfologia e história. São Paulo: Companhia
das Letras, 1991, pp. 143-189.
______. 1989. “O inquisidor como
antropólogo”. In C. Ginzburg, A micro-história. Lisboa: Bertrand,
pp. 203-214.
GOFFMAN, Erving. [1956]. “The nature
of deference and demeanor”. In E. Goffman, Interactional ritual. Essays
on face-to-face behavior. Garden City: Anchor Books, 1967, pp. 47-95.
________. [1959]. A representação
do eu na vida cotidiana. Trad. Maria Célia Santos Raposo. Petrópolis:
Vozes, 1995.
________. 1967. Interaction ritual.
Essays on face-to-face behavior. Garden City: Anchor Books.
GOLDMAN, Márcio. 2001. “Do
ponto de vista não-nativo: sobre a incompreensão antropológica
ou os tambores dos mortos e os tambores dos vivos”. Comunicação
apresentada no seminário temático “A antropologia e seus
métodos: o arquivo, o campo, os problemas”, XXV Encontro Anual da
ANPOCS, Caxambu. Mimeo.
LEFEBVRE, Henri. 1958, 1961, 1981.
Critique de la vie quotidienne. 3 vols. Paris: L’Arche Éditeur.
______. 1966. La sociologie de Marx.
Paris: Puf.
______. [1968]. La vida cotidiana
en el mundo moderno. Trad. Alberto Escudero. Madrid: Alianza Editorial,
1972.
______. 1970. La revolution urbaine.
Paris: Gallimard.
______. 1992. Élements de
rythmanalyse. Introduction à la connaissance des rythmes. Paris,
Syllepse.
LÉVI-STRAUSS, Claude. “Introduction
à l’oeuvre de Marcel Mauss”. In Marcel Mauss, Sociologie et anthropologie.
Paris, PUF, 1997, pp. ix-li.
______. [1958]. Antropologia estrutural.
Trad. Chaim Samuel Katz e Eginaldo Pires. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1970.
______. [1960]. Antropologia estrutural
dois. Trad. Maria do Carmo Pandolfo et alii. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1972.
MAGNANI, José Guilherme Cantor.
2002. “De perto e de dentro: Notas para uma etnografia urbana”. Revista
Brasileira de Ciências Sociais, 17 (49): 11-29.
MALINOWSKI, Bronislaw. [1922]. Argonautas
do Pacífico Ocidental: Um relato do empreendimento e da aventura
dos nativos nos arquipélagos da Nova Guiné, Melanésia.
Trad. Anton P. Carr e Lígia Aparecida Cardieri Mendonça.
Rev. Técn. Eunice Ribeiro Durham. São Paulo: Abril Cultural,
1978.
MARCUS, George E. e CUSHMAN, Dick.
1982. “Ethnographies as texts”. Annual Revue of Anthropology, 11: 25-69.
MARTINS, José de Souza. [1998].
“O senso comum e a vida cotidiana”. In J. de Souza Martins, A sociabilidade
do homem simples. São Paulo: Hucitec, 2000, pp. 5-64.
______. 2002. “A imagem incomum:
a fotografia dos atos de fé no Brasil”. Estudos Avançados,
45: 223-260.
MAWE, John. 1812. Travels in the
interior of Brazil. Particularly in the gold and diamond districts of that
country. By authority of the Prince Regent of Portugal. London: Longman,
Hurst, Rees, Orme and Brown, Paternoster-Row-Strahan and Preston.
MAUSS, Marcel. [1936]. «Les
techniques du corps». In M. Mauss, Sociologie et anthropologie. Paris:
Quadrige/Puf, 1997, pp. 363-386.
MCCALLUM, Cecília. 2001.
“O saber antropológico e a totalidade nos fatos sociais”. Comunicação
apresentada no seminário temático “A antropologia e seus
métodos: o arquivo, o campo, os problemas”, XXV Encontro Anual da
ANPOCS, Caxambu. Mimeo (citado com permissão da autora em e-mail
de 29 de novembro de 2006).
PEIRANO, Mariza. 1995. A favor da
etnografia. Rio de Janeiro: Relume Dumará.
______. 2006. A teoria vivida e
outros ensaios de antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.
PONS, Alan. 1992. “Sur la notion
de civilité”. In A. Montandon (org.), Etiquette e politesse. Clermont-Ferrand:
Association des Publications de la Faculté des Lettres et Sciences
Humaines de Clermont-Ferrand, pp. 19-30.
REVEL, Jacques. [1986]. “Os usos
da civilidade”. In P. Ariès; R. Chartier (orgs.), História
da vida privada [Vol. 3: Da Renascença ao Século das Luzes].
Trad. Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, pp.
169-209.
ROWLAND, Robert. 1987. Antropologia,
história e diferença. Alguns aspectos. Lisboa: Edições
Afrontamento.
SAHLINS, Marshall. 1981. Historical
metaphors and mythical realities. Ann Arbor: The University of Michigan
Press.
______. [1985]. Ilhas de história.
Trad. Barbara Sette. Rev. Técn. Márcia Bandeira de Mello
Leite. Rio de Janeiro: Zahar, 1994.
SCHÜTZ, Alfred. [1970]. Fenomenologia
e relações sociais. (org. Helmut R. Wagner), tradução
de Ângela Melin. Rio de Janeiro, Zahar, 1979.
SEMINÁRIO Temático
“A antropologia e seus métodos: o arquivo, o campo, os problemas”.
Disquete. XXV Encontro Anual da ANPOCS, Caxambu, 2001.
SIMMEL, Georg. [1903]. “A metrópole
e a vida mental”. Trad. Sérgio Marques dos Reis. In O. Velho (org.),
O Fenômeno Urbano. Rio de Janeiro: Zahar, 1967, pp. 13-23.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. [1998].
“Entrevista com Eduardo Viveiros de Castro”. In E. Viveiros de Castro,
A inconstância da alma selvagem. E outros ensaios de antropologia.
São Paulo: Cosac & Naify, 2002, pp. 475-492.