|
Rosana da Câmara Teixeira
|
Todo jornal que eu
leio
Me diz que a gente já era
Que já não é
mais primavera
Ô baby, a gente ainda nem
começou
Cachorro urubu (Raul Seixas/Paulo
Coelho,1973)
Neste
texto discuto
algumas dimensões simbólicas da idolatria a partir das formas
de auto-representação dos fãs de Raul Seixas, dos
significados atribuídos ao artista e a sua obra e das redes de sociabilidade
que instituem.
Morto
em 1989, aos 44 anos de idade, a despeito da ausência física,
a admiração e o interesse por sua obra musical e por sua
persona intensificaram-se. Que qualidades o tornam objeto de fascínio?
De que maneiras o artista vem se eternizando no imaginário de seus
fãs? Desde sua morte, multiplicam-se narrativas, transformadas
em quadrinhos, livros, poesias, cordéis, vídeos, ensaios,
e em sua homenagem organizam-se tributos, shows, passeatas. Todas essas
atividades vêm sendo, ainda, redimensionadas pelo advento da Internet
(rede mundial que interliga milhões de computadores e de usuários)
que possibilita um intercâmbio sem precedentes entre fãs em
todo o território nacional e até mesmo fora deste. Outras
modalidades de divulgação entram em cena, como as páginas,
dentre as quais podemos destacar entre outros, a do fã-clube
oficial , a do site oficial
, a lista virtual
, além das várias comunidades criadas no Orkut,
que conecta pessoas através de “uma rede de amigos confiáveis”.
Artista
idolatrado e seguido por muitos, inspira uma série de manifestações
e formas de identificação e sociabilidade. Deve-se ter em
mente que o culto a alguém sugere o caráter especial, diferencial,
assumido por esse indivíduo, num certo contexto. Raul Seixas, segundo
seus fãs, mais que um cantor/compositor, é também
poeta, filósofo, profeta. Um ídolo singular, autêntico,
original.
Na
perspectiva de Walter Benjamim (1987a), a autenticidade
de uma coisa refere-se a tudo o que ela contém e é originalmente
transmissível, desde sua duração material até
seu poder de testemunho histórico. A aura de um objeto ou ser humano
está, portanto, associada à sua originalidade, ao seu caráter
único e a uma relação genuína com o passado.
Mas o que leva um indivíduo a admirar outro, que se torna, deste
modo, alvo de certas percepções e atitudes? Que qualidades
atribuídas ao ídolo justificam o devotamento? Que estratégias
conscientes e inconscientes favorecem a fabricação de seres
mitológicos? Que experiência é essa: ao mesmo tempo
em que parece ancorar-se única e exclusivamente na vontade deliberada
dos indivíduos, obedecendo tão somente aos seus impulsos
e caprichos, expressa, por outro lado, uma vivência coletivamente
partilhada, valorizada e legitimada entre nós? Segundo o dicionário
(CUNHA, 1989), fã, forma reduzida da palavra
inglesa fanatic, designa o admirador exaltado de esportes, espetáculos
e, particularmente, de grandes astros e estrelas. Trata-se de um adepto,
partidário ou torcedor. O ídolo, por sua vez, é a
pessoa a quem se tributa respeito ou afeto excessivo. Alguém objeto
de admiração, estima, amor platônico. Afeto capaz
de promover comportamentos, ações e discursos. Para
Coelho (1999) fã/ídolo constituem duas
formas de vivenciar a mesma experiência e a “compreensão articulada
desses dois pontos de vista abre uma porta para a reflexão sobre
a condição do indivíduo no mundo moderno” (p.19).
Do
ponto de vista das emoções, vale lembrar as contribuições
de Mauss (1979), quando afirma que os sentimentos
são categorias sociais que variam de acordo com a grade classificatória
de cada cultura, por isso são expressões coletivas que o
indivíduo aprende a experimentar, do contrário, seriam sempre
iguais em sua manifestação. Assim considerando, o modo de
expressar esse sentimento é, também, a forma de experimentá-lo.
Partindo
do pressuposto de que não é preciso ser um fã para
conhecer um, parece fundamental como sugere Geertz
(1998), primeiro, captar os conceitos utilizados para definir o que vêem,
pensam, sentem e imaginam (“experiência próxima”) para depois
conectá-los de forma eficaz e esclarecedora com aqueles que os cientistas
utilizam para tratar dos elementos mais gerais da vida social (“experiência
distante”). Todavia, assumindo, desde já, que o antropólogo
não é capaz de perceber aquilo que seus informantes percebem,
seu esforço deve ser no sentido de detectar “com que”, “por meios
de que” ou “através de que” percebem. Compreender o ponto de vista
nativo implica, portanto, pesquisar, analisar palavras, instituições,
comportamentos, símbolos em cujos termos as pessoas se representam
a si mesmas para os outros.
No
caso em estudo, pergunta-se como os admiradores de Raul Seixas se definem?
Analisando a fala dos diferentes atores sociais, notar-se-á que
mesmo entre aqueles que compartilham da idéia de que, através
de suas músicas, Raul deixou uma mensagem, ela não é
consensualmente apreendida, há dissensos e apropriações
diferenciadas. Assim, a disputa classificatória e, portanto, simbólica,
em torno de seu nome e da sua obra, revela-se um fator privilegiado
para a compreensão de sua popularidade já que os sentidos
que lhe são conferidos permanecem objeto de debates e releituras,
assim como sua imagem pública, alvo de ressignificações
constantes. Do mesmo modo que em vida, obsessivamente procurou distinguir-se,
assumindo inclusive várias personas (guru, profeta, inconformado,
roqueiro rebelde) após a morte, como foi frisado “ele teima
em perturbar”.
Neste
artigo, procuro demonstrar de que maneira a admiração estimula
a construção de subjetividades e visões estruturadoras
das percepções dos sujeitos e a inserção em
redes de sociabilidade, analisando especialmente duas situações
de encontro entre estes indivíduos, uma virtual, na “komuna raulseixístika”
e a outra, “real”, na passeata que ocorre anualmente na cidade de
São Paulo para celebrar a memória de Raul Seixas.
No
mundo virtual: “a komuna raulseixística”
O
grupo virtual “komunidade raulseixístika”
foi criado a 16 de dezembro de 2001 por Sylvio Passos fundador e presidente
do Raul Rock Club/RRC (1981). Para acompanhar as discussões não
é preciso se cadastrar, nem ser sócio do RRC; muitos
inclusive não o são. O ambiente virtual é público,
contudo, para responder às mensagens em pauta ou lançar novas
discussões é necessário pertencer ao grupo, o que
é feito por meio de um cadastro que consiste na escolha de um nome/login
e do endereço eletrônico diretamente na página.
Sylvio,
gerente da lista, é uma mistura de mestre de cerimônias, fã
número um - por ter conhecido e convivido com Raul - , e representa
a autoridade, funcionando como uma espécie de mediador, árbitro
no caso de certas contendas ou quando uma conduta é considerada
inadequada. Apesar do grande número de pessoas inscritas na lista
e da presença constante de algumas delas, nem todas participam efetivamente
dos debates. Este espaço revelou-se privilegiado para observar o
relacionamento entre pessoas com trajetórias distintas congregadas
por um interesse comum, partilhando uma mesma identificação.
Enquanto estão
on-line, ou seja, conectados à rede,
compartilham de uma definição comum da realidade, através
de uma rede de significados (GEERTZ apud VELHO,
1994). Durante um certo período de tempo, cruzam-se ali diversas
trilhas sociológicas e culturais, aglutinam-se pessoas em torno
de uma adesão, todavia observam-se atitudes muito diferenciadas
assim como, opiniões discordantes. As polêmicas e discussões
acaloradas suscitaram muitas vezes, desentendimentos, acusações
e agressões exigindo intervenções do Sylvio e levando
certos participantes a se desligarem temporária ou definitivamente
do grupo.
Trata-se
de um campo marcado pela negociação cujo instrumento básico
de interação é a linguagem – forma de comportamento
e de ação (BAKHTIN, 1992). A continuidade
do grupo pressupõe a capacidade de, apesar dos eventuais conflitos,
compartilharem alguns consensos mínimos, entre eles, garantir que
todos possam manifestar livremente suas opiniões.
Comunidade
virtual é o termo utilizado para os agrupamentos humanos que
surgem no ciberespaço, através da comunicação
mediada pelas redes de computadores (PALÁCIOS,
1998; RECUERO, 2001) .
Segundo Pierre Lévy (2001, p.115), o virtual
não é nem imaginário (já que produz efeitos),
nem é oposto ao real, mas uma dimensão dele. Assim, a escolha
entre a nostalgia de um real datado e um virtual ameaçador é
enganosa e o que está em jogo são diferentes concepções
do virtual. Também não é sinônimo de alienação,
nem apenas uma forma de difusão de mensagens mas “uma interação
no seio de uma situação que cada um contribui para modificar
ou estabilizar, de uma negociação sobre significações”.
A propósito da comunidade virtual afirma que apesar de “não
presente” já que a geografia não é mais nem um ponto
de partida, nem uma coerção, está repleta de paixões
e de projetos, de conflitos e de amizades. Virtualizar-se significa,
assim, tornar-se “não-presente”, desterritorializar-se.
O
contato se dá via texto digitalizado, que circula no interior das
redes locais ou mundiais das quais cada participante é “um autor
e um editor em potencial”. De acordo com Lemos (1998)
a cibercultura forma-se precisamente da convergência entre o social
e o tecnológico em que nenhuma das partes determina irreversivelmente
a outra:
“A cibercultura que se forma
sob os nossos olhos mostra, para o melhor ou para o pior é bom que
fique claro, como as novas tecnologias estão sendo, efetivamente,
utilizadas como ferramentas de convivialidade e de formação
comunitária (...). Mesmo se cibernética (do grego "Kubernetes")
significa controle e pilotagem, a cibercultura não é o resultado
linear e determinista de uma programação técnica do
social. Ela parece ser, ao contrário, o resultado de uma apropriação
simbólica e social da técnica.” (p. 8-9).
Vale
dizer que a “komuna” funciona também como um lugar de troca de objetos
e materiais, além daqueles comercializados pelo RRC (CDs, vídeos,
textos, camisas), os integrantes se valem da lista para negociar ou permutar
(discos de vinil, CDs, livros, textos,) já que são todos
potenciais colecionadores. É importante assinalar que, como um espaço
de encontro virtual, não se esgota nesta dimensão, alguns
marcam encontros em suas cidades, ou passam a manter correspondência
particular. Nesse sentido, tanto aproxima pessoas de lugares distantes
como permite que aqueles de uma mesma localidade possam se reunir. Contudo,
conforme destaca Recuero (op.cit.), os laços
sociais forjados são mantidos sobretudo no grupo virtual.
De
certo modo, a lista é construída pelos integrantes, que foram
“pessoalizando” esse espaço, colocando fotos suas, da família,
amigos, namorados (as), esposas e sugerindo a criação de
outros quadros de mensagens que atendessem a interesses diversos como o
“Poesias e Contos”, onde os participantes publicam textos de sua
autoria. Inevitavelmente, em função dos variados interesses
é comum que se tornem objeto de debate temas como futebol, religião
e política a contragosto de alguns adversos a essa “abertura excessiva”,
advogando que Raul Seixas seja o foco .
É
interessante assinalar que o fórum reúne um público
muito variado em sua origem, local de moradia, faixa etária, gênero,
ocupação profissional, formação escolar, credo,
pertencimento étnico, geração. A lista é inclusiva
e pressupõe duas coisas; uma de ordem técnica, o acesso a
um computador, e outra de ordem afetiva, a admiração por
Raul Seixas e o desejo de encontrar iguais.
Classificações
em luta: raulseixista ou raulmaníaco?
Como se definem os fãs de
Raul Seixas? Qual é a sua auto-representação?
É comum se autodenominarem de raulseixistas, muito embora,
alguns recusem tal nome. De modo geral, designa aqueles que entendem a
obra musical de Raul Seixas como uma espécie de “veículo”
através do qual uma certa filosofia e visão de mundo é
difundida:
Quando me autodenomino ‘raulseixista’
é porque acredito e muitas vezes sigo o que foi escrito, feito por
ele. É claro que como todos ele também tinha seus problemas,
defeitos, mas prefiro ficar com a coisas boas, com sua inteligência,
com suas ótimas idéias, etc.... E é por isso que digo
com todas as letras que sou raulseixista, pois concordo e coloco
em prática, muita coisa que aprendi com suas letras, quantas vezes
ele me fez pensar e ainda faz sobre um determinado tema.
-Vocês acreditam que
existe alguma coisa em comum entre os vários modos de ser raulseixista?
Sim. Raul é o ponto
em comum. No meu ponto de vista Raul é quem permitiu com os ensinamentos
de sua obra, abrirmos nossas mentes para fatores e valores alternativos,
nos ensinou a lutar contra o sistema e tudo que os burocratas e a mídia
nos impõem. Creio que a riqueza que Raul nos deixou, e pode-se
ver em cada discípulo raulseixista, é a busca pelo conhecimento,
o respeito mútuo e simplesmente o bem (alguém já ouviu
falar de algum raulseixista que pratique o mal contra a sociedade?). Lutamos
contra o sistema porém sem violência e sim com conscientização.
Nas
declarações, ser raulseixista consistiria, entre outras coisas,
em “seguir os passos do mestre”, o que está escrito nas letras,
ouvindo os conselhos, procurando colocá-los em prática, assumindo
posturas baseadas nos aprendizados e ensinamentos sugeridos nas canções.
Deste modo, mesmo que esteja presente a idéia de que “Raul aparece
para cada um de uma forma” e que, portanto, há vários modos
de ser raulseixista, fica evidente que a obra é pensada como contendo
uma filosofia, conjunto de idéias que pregaria o respeito ao ser
humano, a luta contra o sistema e o estímulo para que cada um busque
valores alternativos de vida, no reconhecimento da diversidade de opiniões
e pontos de vista.
Outra
designação recorrente é a de raulmaníaco,
sugerindo posturas consideradas nitidamente diferenciadas quanto ao modo
de conceber e manifestar sua identificação. Entre as várias
explicações, algumas são bastante elucidativas e mostram
como estas identidades tendem a afirmar-se por oposição:
O Raulmaníaco
curte mais Raul dos Santos Seixas que o artista. Mais o homem que a obra.
Geralmente são os mais ‘loucos’, que não estão basicamente
envolvidos em estudá-la ou divulgá-la, mas sim, pegar como
álibi os ‘defeitos’ de Raul Santos Seixas para justificarem os seus
.
Ambos são fãs
de Raul Seixas, porém, o raulseixista é aquele que
se afina com as idéias e vai fundo em buscar respostas. Questiona
tudo. O Raulseixista, ao meu ver, é um tipo de fã mais ‘pé
no chão’, com embasamento e opinião própria, que até
discorda de algumas coisas dentro do universo raulseixístico. (...)
De certa forma, acredito que todos já fomos raulmaníacos
em algum tempo. Afinal raulmaníaco é o primeiro estágio,
é o neófito. Para depois tornar-se um iniciado, um raulseixista.
Assim,
o raulmaníaco seria um fã mais “apaixonado” que “curte” o
som, coleciona, mas não segue ou se apropria da filosofia deixada
por Raul Seixas em suas canções, pode ser visto como mais
inconseqüente, assumindo algumas vezes condutas não convencionais,
ou mesmo claramente transgressoras. Nesse sentido, usaria a obra musical
do cantor como um
álibi, inspirando-se, deste modo, mais
no homem Raul Seixas, estigmatizado como “louco”, ou ainda na sua imagem
de “rebelde” do que propriamente no artista. Ou seja, por não compreender
a mensagem transmitida, a deturparia enquanto o raulseixista, estaria mais
interessado na obra, em seu estudo e divulgação, se
autodefinindo como mais crítico e consciente. A postura do raulmaníaco,
tida como mais fanática, ou disruptiva pelos raulseixistas pode
ser também avaliada como uma fase, um “primeiro estágio”,
enquanto neófito, ele experimentaria e viveria esse momento intensamente
até que mais amadurecido e consciente, passasse então a dedicar-se
ao estudo da obra, tornando-se, portanto, mais questionador.
Uma
outra discussão mostra-se ainda mais mobilizadora e ajuda a melhor
dimensionar a questão da auto-representação dos fãs
e diz respeito à utilização da palavra raulseixista.
Esta foi cunhada pelo próprio Raul Seixas para referir-se ao fato
de que seguia única exclusivamente a si mesmo, suas idéias
e visões e que cada um deveria fazê-lo em relação
à condução da sua vida. Exatamente por isso, seu uso
é contestado por aqueles que entendem que este termo só poderia
ser empregado por Raul para designar sua própria filosofia de vida:
Na minha opinião
quando Raul falava em raulseixismo, ele estava se referindo única
e exclusivamente a pessoa dele. Eu por exemplo teria que falar em reinaldismo.
O Raul disse certa vez que o pessoal não tinha entendido nada do
que ele falou, ele tentou fazer cada um pensar com a própria cabeça,
mas o pessoal insistia em ficar acampando na frente da casa dele, e ele
detestava. Até fez uma musica falando disso, Messias Indeciso,
ouça e me diga depois. Me considero raulmaníaco (ou não),
pois tenho tudo do Raul, da certidão de nascimento ao atestado de
óbito e não derrubo cachaça no túmulo de ninguém,
pelo menos se ela for da boa. Por isso, não consigo me apropriar
do termo, acho muito pessoal.
Para
outros, no entanto, nada impede que ela seja reapropriada pelos fãs,
sem que necessariamente signifique uma adesão equivocada ou acrítica,
defendendo um outro uso, uma reelaboração da classificação
original.
Ele criou uma visão
de mundo própria, um sistema de pensamento. Entendi perfeitamente
o que Raul quis dizer quando se denominou raulseixista, mas os fãs
se reapropriam desse e de outros termos lhe dando outros significados.
De qualquer forma, Raul transmite uma busca e um ser você mesmo.
Ele diz para não termos velhas opiniões, mas não diz
quais são, diz que o caminho é fácil seguir, mas não
diz qual é, por tudo isso é tão rico e são
tão múltiplas as possibilidades de apropriação
do seu discurso
Mas a verdade é que
os fãs se apropriaram do termo e é o que nos difere dos outros
fãs de artistas. Raul meteu a mão em tanta coisa alheia que
não ficaria chateado só pelo fato de nós termos metido
a mão na expressão que ele cunhou para si próprio.
De qualquer forma, teríamos garantido 100 anos de perdão.
Há
aqueles ainda que rejeitam qualquer classificação alegando
que elas expressam uma certa dependência para com o ídolo,
uma mitificação, tomando-o como uma espécie
de muleta, indo na contramão de tudo que Raul formulou.
Concordo com quem disse
que quando Raul falava em raulseixismo, estava se referindo única
e exclusivamente a pessoa dele. Por isso esses rótulos que as pessoas
alegremente aceitam, até com orgulho, eu rejeito solenemente. Não
sou raulmaníaco nem raulseixista mas apenas um cara que admira a
obra do Raul e assimila isso em sua vida. É uma pena que tantos
gostem desses rótulos, como se precisassem de muletas para andar.
É uma estranha relação de dependência do fã
com o ídolo, enquanto que o Raul justamente desmistificou toda e
qualquer forma de idolatria. Raul cantou a vida inteira essa verdade do
caminho individual mas não estimulou os fãs a se denominarem
assim.
Se
por um lado, parece consensual na lista que Raul Seixas se diferenciou
por ser autêntico, original, carismático, o que dizer de seus
fãs? O tema foi alvo de polêmicas, embates muito curiosos
e sugestivos de como eles se pensam e se classificam. De modo geral, também
se vêem diferentemente dos fãs de outros artistas que alguns
consideram “convencionais”, e caracterizam o fã de Raul como uma
figura inquieta, um pensador, um insatisfeito que procura respostas e
revela-se crítico em relação à realidade que
o cerca. E o que ele encontra na obra de seu ídolo é justamente
a possibilidade de novos horizontes a serem pesquisados.
(...) o fã de Raul
Seixas, que não seja preguiçoso, têm vários
horizontes a averiguar: a obra, o artista, o homem, os cenários
políticos que foram delineando a própria obra e o pensamento,
não só do Raul Seixas como do Raul dos Santos Seixas, o raulseixismo
e suas apropriações, o perfil de seus divulgadores, Paulo
Coelho, Crowley ... quer mais? Em resumo, me parece uma obra que abre portas
para outros conhecimentos, que não se esgota em si mesma. Antes
a sós com Raul Seixas que mal acompanhado por essas coisas bisonhas
que rolam nas FM's da vida.
Os
fãs de Raul Seixas não estão preocupados apenas em
juntar recortes de jornais e muito menos ficar admirando um pôster
do Raul na parede do quarto, coisas estas características dos fãs
ditos convencionais.Mas nem todos têm a mesma percepção,
ponderando que muitos mostram-se “bitolados”, “alienados”, não usufruindo
o potencial que sua obra possibilita. Assim, “tem marginal interpretando
Raul”, “tem espírita se apropriando dele”, “têm pessoas bebendo
e fumando e achando que isso é filosofia raulseixista”. Em suma,
apenas uma minoria manifestaria uma postura crítica ou reflexiva.
Você vai dizer que
o fã do Raul é diferente, que ele critica, etc. Ok!
mas isso é uma minoria. A maior parte é bitolada e entende
Raul como quer entender. Tem marginal interpretando Raul, tem espírita
se apropriando dele, tem nego bebendo e fumando todas e achando que isso
é filosofia raulseixista, enfim, tem de tudo. Se os fãs
de Raul não se deixassem rotular como raulseixistas, aí sim
eu te diria que o fã do Raul é diferente de qualquer outro
porque ele seria inclassificável, como Raul foi...
Observa-se
assim, um campo de tensões, de luta de significados já que
as formas de auto-representação não são rigidamente
demarcadas, nem assimiladas, suas distinções não são
tão claras assim. Em alguns momentos, os fãs mostram-se em
dúvida sobre qual delas assumir, outros rejeitam qualquer classificação.
A impressão que se tem é que as fronteiras confundem-se,
algumas características seriam comuns a ambas ou pode ser que o
próprio sentido de cada uma delas esteja sendo diferentemente apreendido
e apropriado.
Todavia,
é recorrente a idéia de que a descoberta da obra musical
deste artista, ao invés da admiração cega, de um comportamento
acrítico, pode gerar reflexões sobre a vida, além
de “abrir portas” para outros conhecimentos, sejam mágicos, filosóficos,
poéticos ou políticos.
Sylvio
Passos, conta que a criação do fã-clube e a aproximação
com seu ídolo provocou uma ruptura em seu estilo de vida, tendo
início um relacionamento que traria implicações sobre
sua vida, hábitos, projetos que acalentava.
Em
vários depoimentos, encontram-se menções a esta transformação
interna/psicológica, emocional, e até mesmo física,
que a obra de Raul Seixas pode propiciar. Uma mudança de comportamento,
visão de mundo, estilo de vida. Dependendo da intensidade desta
ligação, alguns procuram mesmo assemelhar-se fisicamente
ao cantor, deixando o cabelo crescer, usando cavanhaque ou barba, botas,
óculos escuros, casacos de couro, adereços que sempre caracterizaram
sua figura pública. Muitos fazem tatuagens com imagens do cantor
ou com símbolos presentes em sua obra, como a chave da Sociedade
Alternativa e o trem que representa a chegada do Novo Aeon. De acordo
com Abonízio (1999) certos fãs
de Raul se apropriam de idéias e justificam suas atitudes citando
trechos das canções – tomadas como ensinamentos – , extraindo
delas uma filosofia de vida.
A obra do Raul mudou a vida
de muita gente. Pessoas, ao conhecer sua obra, mudaram suas visões
de mundo e posturas, várias pessoas se separaram dos cônjuges,
inventaram empregos mais alternativos, tendo uma outra postura diante da
vida. Por isso, eu acho que Raul não é só um ídolo
qualquer. Ele criou uma visão de mundo própria, um sistema
de pensamento.
Esta
dimensão fica particularmente evidente entre os fãs divulgadores [
que consideram sua obra, uma espécie de “testamento”, o legado a
ser preservado e, sobretudo, continuado por ser portadora de uma mensagem
que sugere caminhos, alternativas, posturas idealmente libertadoras para
o “angustiado homem contemporâneo”. Empenham-se, assim, em divulgá-la,
seja através de publicações variadas, shows, associações
como o Raul Rock Club e o Imagick,
Centro de Estudos Psíquicos . Por meio de suas narrativas
uma diferente forma de identificação se evidencia. A maneira
pela qual tiveram contato com a obra do cantor/compositor é descrita
como emblemática, sendo percebida como uma espécie de sinal,
um convite à transformação.
Interessante
destacar a existência de uma percepção comum de que
sendo a obra portadora de uma mensagem, ela tem o poder de mudar a vida
dos indivíduos, por isso deve ser propagada, sua palavra tem
de ser compartilhada. Como emissários devem transformar esse aprendizado
em ação, esse despertar numa experiência coletiva.
Ao
fazê-lo, institui-se um circuito de reciprocidade estabelecendo uma
obrigação simbólica, ao retribuir a dádiva
recebida cria-se uma aliança e uma comunhão indissolúvel
entre aquele que dá – no caso Raul/e sua obra - e o que recebe o
presente – o fã/divulgador, devendo então fazê-lo circular.
Como diria Mauss (1974:129): “Se se dão
e retribuem coisas, é porque se dão e retribuem “respeitos”
– dizemos ainda “gentilezas”. Mas é também porque o doador
se dá ao dar, e, se ele se dá, é porque ele se “deve”-
ele e seu bem – aos outros”.
Vários
divulgadores mencionam em seus escritos que a principal mensagem deixada
pelo artista, se possível fosse resumi-la, refere-se à capacidade
de os indivíduos se transformarem, para somente, então, lutar
por seus ideais e mudar a realidade a sua volta. Construir um mundo
melhor, pressupõe antes de mais nada, uma predisposição
à mudança interna, que implica por sua vez, a busca de caminhos
alternativos procurando conjugá-los ao mundo convencional. Sem dúvida,
a idéia de Sociedade Alternativa, aparece como referência
central em suas falas:
Então, constataremos
que a Sociedade Alternativa não era apenas um sonho poético
de Raul Seixas. Ela é possível nesse novo tempo que está
surgindo. Nós a estamos construindo com as ferramentas que Raul
nos deixou (ALVES In PASSOS, op.cit., p.24).
Na
opinião de Zelinda Hypólito, criadora do Imagick, Raul produziu
uma “obra aberta e sem preconceitos” que permite a cada um compreender,
por mais diferente que seja, com o que tem dentro de si. E a despeito de
não ter conseguido concretizar a filosofia da Sociedade Alternativa
em vida “a semente foi lançada e está no coração
dos jovens de ontem e hoje”, deixando seu trabalho como herança,
“e a nós cabe continuá-lo”. (HYPOLITO
In: PASSOS, op.cit., p.39).
Há
que se destacar ainda o trabalho realizado por alguns covers
(www.paulomano.com/; www.robertoseixas.com.br),
que através dos shows acreditam estarem não apenas
homenageando Raul mas contribuindo para levar sua música/obra a
todos os lugares. Espalhados pelo Brasil, mais particularmente atuantes
em São Paulo , os covers propiciam uma oportunidade aos fãs,
especialmente aqueles que não viram um show do Raul, de imaginar
como seria, simulando uma proximidade hoje impossível de concretizar-se.
Produzem, assim, uma experiência corporal, sensorial, fabricam a
ilusão de um contato que não poderá realizar-se. Caracterizados
na roupa, no comportamento, no gestual, cada um procura construir um Raul
à sua maneira e deste modo, representam o que está distante.
Eu entro no palco é
uma transformação muito grande, eu me transformo realmente,
procuro dar o máximo de mim e eu não sei, dá tudo
certo porque com Raul, tem certas coisas que têm que dar errado
prá dar certo e acaba no final dando tudo certo, impressionante,
é uma energia muito grande que rola, esse contato com o público,
com a galera. E é uma coisa que eu procuro deixar sempre claro,
eu tenho a minha personalidade só que eu faço isso porque
quero, porque está dentro de mim, porque eu aceito quase tudo que
ele disse nas músicas, por isso, tem uma identificação.
Com a pessoa, com a obra, aquele jeito que ele tinha, acima de tudo, dentro
do que eu faço em primeiro lugar Raul Seixas, depois o meu trabalho.
Eu sou apenas a ponte, Raul, Ayrton e a galera. Vou defender a obra
dele até o fim dos meus dias porque tem a ver comigo.
Ao
se assumirem imitadores terminam por reforçar a autenticidade do
original, quanto mais se reproduz mais fica evidente a aura deste, seu
caráter único. A partir das idéias de BENJAMIM
(1987a: 14) poder-se-ia dizer que, se por um lado a multiplicação
de cópias permitiria ao objeto reproduzido “oferecer-se à
visão e à audição, em qualquer circunstância”
conferindo-lhe atualidade permanente, por outro lado, “configura-se como
a aparição de uma realidade longínqua por mais próxima
que pareça”. Eles assim, evocam o distante, o ausente, o que não
pode estar. Como cópias, não se confundem com o original
que não poderá ser substituído.
O
universo dos admiradores aqui descrito revela-se múltiplo, ao contrário
do que pode supor o senso comum não há um comportamento padronizado,
unívoco. Seus relatos apontam para trajetórias, concepções
e formas de ação e identificação variadas.
Desde aquele que ouve os discos, participa de eventos, lê os livros,
organiza sua coleção particular, até aqueles especialmente
engajados na divulgação da obra de Raul Seixas situando-a
como importante em seu projeto pessoal.

Embora
predomine a denominação de raulseixista, ela não é
unânime, há os que se dizem raulmaníacos e outros ainda
arredios a qualquer classificação. Alguns entendem que Raul
foi profeta, filósofo, rebelde, artista genial , anarquista ou que
tem enviado mensagens
do outro mundo “desdizendo” muito do que disse antes, sem
que necessariamente essas visões se excluam. Outros vêem sua
obra como mensagem, filosofia de vida em que cada um tem o direito de viver
do jeito que quiser, experimentar de tudo, viver os prazeres sem se preocupar
com o amanhã. Como se pode notar, ele pode ser entendido e admirado
por razões distintas. Trata-se deste modo de um campo polissêmico
e plural onde predominam inúmeras interpretações.
A
passeata: celebração e culto
Dentre
os rituais de celebração e comemoração envolvendo
o nome de Raul Seixas, a passeata, que acontece anualmente na cidade de
São Paulo tem grande importância para os fãs.
O
primeiro evento dessa natureza foi realizado quando Raul ainda era vivo,
em 16 de abril de 1986, organizado pelo fã-clube Raul Mania, hoje
extinto. É interessante notar que, posteriormente, o enterro de
Raul será tomado como novo marco inicial, uma espécie de
mito de origem quando os fãs em cortejo, acompanharam carro do corpo
de bombeiros até o aeroporto. Alguns situam este momento como fundador
da passeata, por isso, a sua data oficial é 21 de agosto de 1989,
apesar da primeira ter ocorrido três anos antes. De certa forma,
ela foi reinventada, novos atores sociais vêm assumir sua coordenação,
a despeito de se dizer que ela não pertence a nenhum grupo organizado.Em
2002, primeira vez que participei, pude observar que muitos estavam envolvidos
na manifestação pelo voto nulo, alguns deles, inclusive,
distribuindo panfletos entre o público.
No
carro de som, estava uma faixa onde se lia o slogan “O dia em que
a terra parou contra a farsa eleitoral pelo voto nulo”. E trazia uma foto
de Raul provavelmente tirada meses antes de sua morte (ao lado da mãe
e da governanta) vestindo uma camisa na qual se lia “Vote nulo. Não
sustente parasitas”.
No
entanto, o que me pareceu surpreendente foi perceber que, para além
de questões de ordem política, as pessoas ali se encontravam
para homenagear o ídolo, prestar-lhe um tributo já que nem
todos compartilhavam a idéia de anular seu voto. Mas afinal
qual o sentido em se evocar o morto? O que está em destaque nestas
ocasiões? Por que lembrar alguém exatamente na passagem do
aniversário de sua morte? O que esse fenômeno tem de singular?
(ABREU, 1994). O aniversário de morte é
um momento privilegiado no qual emergem representações acerca
do homem, da obra e aquelas que os amigos e admiradores têm de si
mesmos.
Segundo
Da Matta (1983) na sociedade industrial,
individualista e moderna, o ritual tende a criar o momento coletivo
sendo um de seus traços distintivos a dramatização,
isto é, a condensação de algum aspecto, elemento ou
relação colocando-o em foco, em destaque.
A
passeata ,
evento híbrido, conjuga aspectos formais - pressupõe certo
planejamento, possui data, local, horário e um trajeto definidos
- (dia 21/08 com concentração prevista para às 16hs
no Teatro Municipal e saída às 18hs atravessando o Vale do
Anhangabaú até a Praça da Sé, culminância
do evento onde se observa o congraçamento entre os fãs) -
, e informais - trata-se de uma situação dominada pela brincadeira,
diversão, licença, clima de festa e confraternização,
observando-se a suspensão temporária das regras.
Organizado
por associações voluntárias, o objetivo é o
encontro; tem-se a possibilidade de reencontrar amigos, conhecer
pessoas. A celebração do ídolo aglutina, temporariamente,
percursos sociais muito diferenciados. Na medida em que há
espaço para todos os personagens, categorias e grupos, engendra-se
um campo social cosmopolita, polissêmico, por excelência: seu
mecanismo básico é o da inversão, na medida em que
junta categorias e papéis normalmente separados, idades, posições
sociais não são determinantes. Pelo menos essa é a
sua promessa. Na passeata, configura-se um campo da licença, do
joking, produzindo-se uma espécie de momento communitas
em que predomina uma certa comunhão em torno da homenagem a Raul
Seixas, ele é a razão da festa e por isso, sua imagem está
presente em camisas, em tatuagens, faixas, bandanas.
Como
numa espécie de culto profano, os fãs, muitos deles considerando-se
fiéis seguidores, celebram, rememoram e reverenciam Raul Seixas
entoando suas canções, vestidos e travestidos à sua
imagem e semelhança, lançando vivas à Sociedade Alternativa.
Reforçando os laços com o ídolo, convertem aquele
fisicamente ausente numa presença, através de um manifesto
criado por e para os fãs que ali vivem um momento de catarse coletiva,
afirmando-se como coletividade frouxa e temporariamente articulada em nome
da admiração, da devoção e da saudade. Nesta
ocasião, diferentemente das disputas simbólicas observadas
na lista virtual entre raulseixistas e raulmaníacos todos parecem
submetidos a uma identidade comum, abrangente e encompassadora: a de “fãs
do Maluco Beleza”.
Comunicando
o mundo visível e o invisível, pela lembrança, a saudade
revela-se aqui como categoria boa para pensar as relações
que ali se estabelecem. De acordo com Roberto
Da Matta (1993, p.25), através da saudade, podemos dialogar
com pedaços do tempo e, ao fazê-lo, trazemos os momentos especiais
e desejados de volta. Por isso, essa categoria expressa igualmente a duração
que pode ser (re) vivida e (re) experimentada generosa e positivamente.
Assim, desafiando a crença moderna de que a as emoções
seriam espontâneas e individuais, ela demonstra “como os sentimentos
são produzidos pela sociedade e impostos aos seus membros. Da dor
ao riso, do amor ao ódio, do esquecimento à saudade, os sentimentos
são marcados e impostos pelo sistema”.
O
rito proporciona deste modo, um enquadramento espacial e temporal que permite
selecionar certas experiências, estabelecendo um sentido de continuidade,
de ligação entre o passado e o presente (DOUGLAS,
op.cit.,p.80-1). Como um símbolo exterior, ele controla e organiza
a memória dos fãs, impõe limites à experiência,
inclui temas desejáveis, excluindo aqueles considerados indesejáveis.
Os ritos cumprem, pois, uma função mnemônica, “o fato
de acontecerem num lugar e tempo pré-estabelecidos desperta uma
espécie de atenção particular”. Além disso,
todo ato ritual é criativo, não sendo meramente utilitário,
tem sua eficácia no próprio ato, “não só exterioriza
a experiência, não só a ilumina, como a modifica pela
própria maneira como a exprime”.
Assim,
Raul Seixas parece encarnar a idéia de que “saiu da vida para entrar
na história”, vivendo como corpo representado e resignificado que
serve, assim, de foco para os vivos, concretizando os elos que ligam as
pessoas de um grupo ou comunidade. Nesse sentido, a passeata é um
evento emblemático, ao explicitar a idolatria que já lhe
era devotada em vida e que se acentuou após a morte.
Considerações
Finais
Entre
as mais interessantes perguntas não respondidas de nosso tempo está
a que indaga quais características estruturais fazem as criações
de uma determinada pessoa sobreviverem ao processo de seleção
de uma série de gerações, sendo gradualmente absorvidas
no padrão das obras de arte socialmente aceitas, enquanto as de
outras pessoas caem no mundo sombrio das obras esquecidas (ELIAS,
1994, p.52).
Para
fins de análise, é fundamental o afastamento de certas visões
do senso comum que entendem a idolatria como admiração cega,
coisa da idade, estando normalmente associada à adolescência,
impulsos e arroubos da juventude, ou ainda a uma necessidade psicológica,
de afirmação do indivíduo, revelando a projeção
de desejos e carências.
Ao
analisar a literatura a respeito dos fãs, Joli
Jenson (1992) observou a recorrência de duas imagens: a
do solitário que, obcecado pela influência da mídia
estabelece uma relação fantasiosa com a celebridade,
e a do histérico membro da multidão, o frenético adolescente
que vai até o aeroporto receber o ídolo do rock.
Para
o autor, estes retratos patológicos dizem mais a respeito da sociedade
moderna do que sobre as relações entre fãs-celebridades.
O solitário obcecado evoca o alienado, enquanto o membro da multidão
frenética, o vulnerável, irracional, vítima da persuasão
da massa. Todos esses argumentos sobre alienação, vulnerabilidade,
irracionalidade, a influência da mídia, a sociedade narcisista,
a hipnose provocada pelo rock e o contágio da multidão são
utilizados para explicar como esses indivíduos tornam-se vítimas
de uma sociedade na qual o presente materialmente avançado encontra-se
espiritualmente ameaçado. A decadência social, cultural e
moral vivida na modernidade é explicada, em grande parte,
pelo declínio da vida em comunidade que protegeria os indivíduos
lhes dando suporte através dos laços estabelecidos. A medida
em que esses laços se rompem, o indivíduo percebe-se vulnerável,
sem orientação sólida num mundo complexo, multifacetado
e cheio de estímulos. A ausência de uma identidade estável
o lança a apelos irracionais.
Por
outro lado, a mídia, a sociedade de massa exerceriam grande
poder sobre ele, que, seduzido pela propaganda, pela popularidade do rádio
e do cinema, pode ser cooptado pelas multidões. Solitário,
desorientado, o fã cria uma fixação irracional em
uma celebridade. De acordo com Jenson, a crítica à
modernidade é nostálgica e romântica porque localiza
as virtudes perdidas no passado e crê na possibilidade de seu retorno.
Do
ponto de vista psicológico, o comportamento do fã é
tido como uma compensação para as carências provocadas
pela vida moderna. Assim, muitos desenvolveriam lealdades a uma celebridade
e participam de concertos de rock ou de espetáculos esportivos na
ânsia de um ilusório sentido de comunidade. Outros seguiriam
os ídolos na esperança de prestígio para satisfazer
suas necessidades psicológicas que não conseguem na anônima
e fragmentada sociedade moderna compensando, deste modo, a ausência
de relações autênticas em sua vida .
Nesse
estudo, parte-se pois do pressuposto de que é fundamental desconstruir
a visão de senso comum que encara o fã como uma espécie
de entidade, detentor de uma essência, desnaturalizar a visão
que estigmatiza seu comportamento como unívoco fazendo uma incursão
nos diferentes modos de ser e vivenciar essa experiência buscando
capturar possíveis significados atribuídos ao ídolo
e a sua obra. Deste modo, a admiração está sendo pensada
como um fenômeno social revelador de processos de construção
de subjetividades e formas de sociabilidade características da sociedade
contemporânea que explicitam certas concepções sobre
indivíduo/sociedade; passado/presente; memória e biografia,
biografia e contexto. Fenômeno esse que possibilita compreender como
as ações de indivíduos diferentes se influenciam reciprocamente
e, como práticas sociais definem individualidades e, ao mesmo tempo,
grupos homogêneos.
De
acordo com Dumont (1992), as sociedades modernas,
marcadas pelos ideais de igualdade e de liberdade, o indivíduo assume
valor cultural fundamental tornando-se a unidade básica significativa.
Assim, suas trajetórias assumem relevância enquanto elemento
constituidor da sociedade: experiências pessoais, amores, desejos,
sofrimentos são enfatizados.
É
importante registrar que o espaço das metrópoles, marcado
pela impessoalidade, pelo anonimato e pela heterogeneidade de modos de
vida aparece como o locus privilegiado da idéia de fragmentação.
Para alguns autores, esta idéia - um dos indícios da Modernidade
- , diz respeito à multiplicidade de referências, seja em
termos de grupos ou de atitudes. Se as ideologias individualistas, por
um lado, marcam o advento do indivíduo-sujeito, por outro, expressam
a fragmentação de domínios que sucede a uma ordem
tradicional hipoteticamente mais integrada. Contudo, vale estar atento
ao fato de que à medida mesmo em que o indivíduo se destaca,
muda o caráter de sua relação com as instituições
preexistentes possibilitando o surgimento de novas formas de sociabilidade,
sem que se estabeleça uma dominância absoluta já que
holismo e tradição também encontram-se presentes em
certas áreas da vida social e do sistema de representações
(VELHO, 1994).
Portanto,
se a metrópole expõe os indivíduos a situações
múltiplas, contraditórias ou fragmentadoras; por outro lado
há que se pensar sobre as experiências e práticas que
ancoradas em certas definições da realidade dão
um sentido de continuidade, conferindo significado às trajetórias
individuais, permitindo reestruturar seus esquemas de percepção.
Até que ponto a inserção num fã-clube e a admiração
por um ídolo implicam uma adesão significativa para demarcação
de fronteiras e elaboração da identidade dos indivíduos?
O
estudo mais aprofundado das redes de sociabilidade criadas em torno da
memória de Raul Seixas contribui para este campo de reflexões.
No caso em questão, há um dado irredutível: fisicamente
ele não existe mais, sendo assim, o que move os fãs se já
não mais poderão encontrá-lo, obter dele um autógrafo,
ver um show ou lhe enviar cartas? A morte/ausência parecem ter desencadeado
narrativas, gerando uma obsessão pelos objetos : o desejo de reunir
tudo aquilo que o artista produziu, disse e também o que se
falou sobre ele, parece cumprir a tarefa de preencher a lacuna entre a
morte e a vida, transformando a ausência em presença, ligando
o mundo visível e o invisível. E neste processo está
em jogo a formação de uma certa subjetividade, a constituição
de uma autoconsciência. Se fisicamente não tem mais como provar
suas qualidades, simbolicamente continua a fazê-lo, através
de seus fãs, seu testemunho, e as disputas simbólicas travadas
o fazem vivo e presente no imaginário e com capacidade para cooptar
novos adeptos, admiradores.
Vale
ainda dizer que ao estudar uma participação comum, num certo
contexto, uma forma de adesão partilhada é preciso estar
atento à heterogeneidade, à diversidade de pertencimentos
outros, classe social, faixa etária, ocupação profissional,
diversidade étnica e, na medida do possível, conjugá-los,
reconhecendo a diferença como elemento constitutivo da sociedade
e o modo como as pessoas interagem, negociando essas experiências
e convívio.
Os
papéis distintos desempenhados pelos indivíduos ligam-se
aos planos diferenciados em que se movem, suas variadas inserções,
grupos de referência, que funcionam como âncoras numa Modernidade
que expõe os indivíduos a estímulos múltiplos.
Ao se analisar o tipo de adesão e comprometimento envolvidos num
determinado processo de construção da identidade deve-se
levar em conta estas questões.
Notas
Doutora
em Antropologia Cultural pelo Programa de Pós-Graduação
em Sociologia e Antropologia - PPGSA/UFRJ
As
argumentações presentes neste artigo estão desenvolvidas
na tese de doutorado “Krig-há Bandolo! Cuidado aí vem Raul
Seixas” apresentada ao PPGSA/UFRJ, 2004.
Em
março de 2002 me cadastrei, pela primeira vez, em um grupo de discussão
virtual: “a komunidade raulseixística”. A possibilidade de acompanhar
os debates redimensionou o trabalho. Através de um contato quase
cotidiano ao longo de 2 anos, foi possível trocar idéias,
tirar dúvidas, lançar questões e conhecer as visões
dos fãs sobre os mais variados temas ligados a Raul Seixas, além
de tomar conhecimento dos eventos em vários lugares do país.
Por tudo isso, esse campo “virtual” tornou-se parte fundamental deste estudo.
Nele encontrei colaboradores importantes, com os quais compartilhei questões
e temas que foram surgindo durante a pesquisa e aos quais sou muito grata.
Todavia,
há muitos debates e polêmicas acerca do mesmo. Para uma análise
da reconstrução teórica do conceito ver Recuero
(op.cit.).
A
reflexão acerca das representações e práticas
desses fãs divulgadores, assim como sobre as transformações
em suas visões de mundo e estilo de vida relacionadas aos significados
atribuídos à Sociedade Alternativa será objeto de
outro artigo.
Segundo
Walter
Benjamim (1987b:203) as narrativas são modalidades de discurso,
de construção da realidade em que não se está
perseguindo leis mas singularidades, particularidades, remetendo à
experiência vivida. Sem buscar a verificação imediata,
fica ao encargo do leitor ou ouvinte a possibilidade de interpretar a história
como quiser.
Em
16 de abril de 2007 foi aprovada a Lei nº 14.373 do Vereador Carlos
Giannazi (PSOL): Art. 1º - Institui o "DIA PARA SEMPRE RAULZITO",
a ser comemorado anualmente na data de 21 de agosto, dia da morte do cantor
e compositor Raul Seixas.
Art.
2º - O Evento passará a constar no Calendário Oficial
de eventos do município de São Paulo.
Em
meu trabalho sobre as torcidas organizadas de futebol cariocas (TEIXEIRA,
1998) também observei a predominância nos meios de comunicação
de uma visão patológica acerca destas associações
que são analisadas pela ótica da violência, da transgressão
por ser o conflito uma dimensão constitutiva de suas práticas.
Classificados como desviantes em relação ao torcedor “comum”,
os organizados são tidos como perigosos por promoverem a desordem,
deturpando o sentido do futebol que seria o do congraçamento, da
manifestação saudável; argumenta-se, então,
a favor de sua extinção. Contudo, investigando os significados
atribuídos por esses torcedores ao futebol e à participação
na torcida, formas variadas de adesão e pertencimento tornaram-se
visíveis. A categoria de torcedor organizado compreende distintos
modos de vivenciar aquela experiência.
Referências
ABONÍZIO,
Juliana. O protesto dos inconscientes. Raul Seixas e micropolítica.Dissertação
(Mestrado em História) apresentada a UNESP/Assis, 1999.
ABREU,
Regina. Entre a nação e a alma:quando os mortos são
comemorados. Rio de Janeiro: Estudos Históricos, vol.7,
1994, p.205-230.
ALVES,
Luciane. Raul Seixas e a lucidez da loucura. In: PASSOS, Sylvio. Raul
Seixas: o trem das sete. São Paulo: Nova Sampa Editora,
1995.
BAKHTIN, Mikhail.
A
estética da criação verbal. São Paulo:
Martins Fontes, 1992.
BENJAMIN,
Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica.
In: Obras Escolhidas. Magia e técnica, arte e política.
Ensaios de Literatura e História da Cultura. São
Paulo: Brasiliense, 1987a, p.165-196.
BENJAMIN,
Walter. O narrador: considerações sobre a obra de Nicolai
Leskov. In: Obras Escolhidas. Magia e técnica, arte e política.
Ensaios de Literatura e História da Cultura. São
Paulo: Brasiliense, 1987b.v.1.p.197-221.
COELHO,
Maria Cláudia.
A experiência da fama. Rio de
Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999.
CORALIS, Patrícia
Baptista. Nunca te vi, sempre te amei: uma análise antropológica
da idolatria à Madonna em um fã-clube virtual. Dissertação
(Mestrado) apresentada ao PPCIS/UERJ, Rio de Janeiro, 2004.
CUNHA, Antonio
Geraldo da. Dicionário etnológico. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira,1989.
DA
MATTA, Roberto. A morte nas sociedades relacionais: reflexões a
partir do caso brasileiro. In: A casa e a rua. Rio de Janeiro:
Guanabara Koogan , 1991.p.143-170.
DA MATTA,
Roberto. Antropologia da Saudade. In: Conta de mentiroso: sete ensaios
de antropologia brasileira. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.p.17-34.
DA
MATTA, Roberto.
Carnavais, malandros e heróis. Para uma sociologia
do dilema brasileiro. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1983.
DOUGLAS, Mary.
Pureza
e perigo. Ensaio sobre as noções de poluição
e tabu. Lisboa: Perspectivas do Homem, Edições 70,
1991.
DUMONT,
Louis.
O individualismo. Uma perspectiva antropológica da
ideologia moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.
ELIAS, Nobert.
Mozart.
Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor,
1994.
GEERTZ, Clifford.
Do ponto de vista dos nativos: a natureza do entendimento antropológico.
In: GEERTZ, Clifford. Saber local. Petrópolis: Vozes,
1998.
HYPOLITO,
Zelinda. Raul Seixas. Uma nova dimensão de vida. In: PASSOS, Sylvio.
Raul
Seixas: o trem das sete. São Paulo: Nova Sampa Editora,
1995
JENSON,
Joli. Fandom as pathology: the consequences of characterization. In LEWIS,
L.
The adoring audience: fan culture and popular media. Routledge,
1992. Pp9-21.
LEMOS, André.
Ciber-socialidade.
Tecnologia e vida social na cultura contemporânea. Disponível
on line via http://www.facom.ufba.br/pesq/cyber/lemos/
LEVY,
Pierre.
O que é o virtual? São Paulo: Editora
34, 2001.
MAUSS, Marcel.
A expressão obrigatória dos sentimentos. In CARDOSO DE OLIVEIRA,
Roberto. (org.), Mauss, Coleção Grandes Cientistas
Sociais. São Paulo: Ática. 1979.p.147-153.
MAUSS, Marcel.
Ensaio sobre a dádiva. Forma e razão da troca nas sociedades
arcaicas. In: Sociologia e Antropologia, São Paulo:
EDUSP, 1974.p.37-178.
PALACIOS,
Marcos.
Cotidiano e sociabilidade no cyberespaço: apontamentos
para discussão.Disponível online via www.facom/ufba/br/pesq/cyber/pacios/cotidiano.html>.
PRIMO,
Alex. A Emergência das Comunidades Virtuais. In: Congresso da
Intercom, XX, Santos/SP, 1997. Disponível on line em <http://usr.psico.ufrgs.br/~aprimo
>
RECUERO, Raquel
da Cunha. Comunidades virtuais. Uma abordagem teórica. In:
Seminário
Internacional de Comunicação, V, Rio Grande do Sul, 2001.
Disponível on line via http://www.bocc.ubi.pt/_esp/autor.php?codautor=750
SENNA,
Costa. A lenda. In: PASSOS, Sylvio. Raul Seixas: o trem das sete.
São Paulo: Nova Sampa Editora, 1995.
PASSOS,
Sylvio. Raul Seixas: o trem das sete. São Paulo:
Nova Sampa Editora, 1995.
TEIXEIRA,
Rosana da Câmara. Krig-há bandolo! Cuidado aí
vem Raul Seixas. Tese (Doutorado em Antropologia Cultural) apresentada
ao PPGSA/UFRJ, Rio de Janeiro, 2004.
TEIXEIRA,
Rosana da Câmara Os perigos da paixão: filosofia e prática
das torcidas jovens cariocas. Dissertação (Mestrado)
apresentada ao PPGSA/UFRJ, Rio de Janeiro, 1998.
TEIXEIRA,
Rosana da Câmara Os perigos da paixão: visitando jovens
torcidas cariocas. São Paulo: Annablume, 2004.
VELHO,
Gilberto.
Projeto e Metamorfose: Antropologia das Sociedades Complexas.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1994.
|
|