| Waldo
Vieira: entre a religião e a ciência23
Conhecido
no meio espírita pela produção de livros em co-autoria
com Chico Xavier, Waldo Vieira realizou um percurso que pode ser balizado
em dois momentos: o primeiro, aquele de sua juventude, compreende o período
em que desenvolveu a prática mediúnica sob a liderança
e na companhia de Chico Xavier; a ruptura com o Espiritismo, em meados
dos anos 60, marca a segunda etapa, fase em que, depois de dedicar-se ao
estudo da medicina, decide investir numa carreira solo, assumindo, alguns
anos mais tarde, a liderança de um grupo voltado à prática
de "experiências fora do corpo" (ou "viagem astral" como a denominam
os espíritas). Conhecido pelo nome de Projeciologia, esse grupo
fundado e liderado por Waldo Vieira teve o seu desenvolvimento desdobrado
em duas fases: na primeira, segundo D'Andrea (1981)
que realizou estudo de caso sobre o tema, predomina a construção
carismática da imagem pública de sua liderança; a
outra, mais recente, envolve a institucionalização e burocratização
organizacional do grupo.
Assim
como outras correntes que integram o universo das chamadas paraciências,
a Projeciologia se caracteriza pela pretensão de promover uma síntese
entre saberes científicos e não-científicos. Trata-se,
portanto, da construção de um pensamento de cunho secular
sobre fenômenos que, no senso comum, são tidos como próprios
do domínio religioso. Neste caso, o objeto-alvo de produção
de conhecimento é a experiência de consciência "fora
do corpo físico".
Fundador
do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia, Waldo Vieira
começou a divulgar sua experiência pessoal e conhecimentos
sobre o tema por meio da realização de palestras públicas
e da produção de livros. Os mais conhecidos dentre estes
últimos foram lançados nas últimas décadas,
com um intervalo de aproximadamente dez anos: Projeciologia: panorama
das experiências da consciência fora do corpo humano foi
publicado em 1986; 700 experimentos de Conscienciologia foi lançado
em 1994. Nesse ínterim, entre uma publicação e outra,
deu-se a institucionalização do movimento. Segundo D'Andrea
esse processo foi conduzido por Waldo Vieira por meio da realização
de cursos de treinamento, visando a formação de professores.
Criando por meio desse expediente uma ampla rede de disseminadores de suas
idéias, Waldo Vieira passou a ter nestes "profissionais" uma base
para a disseminação de núcleos de estudo e pesquisa,
os quais se encontram hoje espalhados no Brasil e no exterior.
Observa
D'Andrea que esse processo de disseminação não atinge,
contudo, a produção intelectual, que permanece sendo monopólio
de seu fundador.
O estilo
de liderança adotado é de tipo carismático: à
semelhança de certos gurus indianos, Waldo Vieira usa uma vasta
barba (branca), veste-se sempre de branco e ostenta, para além de
traços distintivos de aparência, certos dons, dentre eles
a mediunidade, a projetibilidade, a clarividência e a manipulação
de energias para cura e materializações. A essas faculdades
se soma ainda, como fator de distinção, a ostentação
de sua condição de médico. A formação
acadêmica serve nesse caso não apenas como fator de prestígio,
mas, também, como suporte para a pretensão de cientificidade
que reinvidica para a sua produção.
Com
relação a esse último aspecto observa-se que a tentativa
de aproximação do campo científico se realiza basicamente
por meio de dois expedientes: 1) ênfase no experimentalismo, prática
que envolve o desenvolvimento e a catalogação de técnicas
de produção da projetibilidade, isto é, da capacidade
de "sair do corpo"; e 2) investimento na construção de um
universo conceitual singular. O rebuscamento lingüístico se
apresenta como índice desse layout pretensamente científico,
o qual se caracteriza pela criação de palavras, supostamente
novas, que gradativamente vão sendo agregadas a um repertório
cujo traço marcante é estar sempre em construção24.
A própria mudança de denominação do grupo para
Conscienciologia se insere nessa lógica. Sendo seu objetivo é
expresso nos seguintes termos: trata-se de um movimento que visa o "estudo
da consciência (a partir de uma) abordagem integral, holossomática,
multidimensional, bioenergética, projetiva, autoconsciente
e cosmoética" (D'Andrea, 2000: 164;
destaques meus).
Concebido
como "índice de racionalidade", esse investimento de ordem lingüística
visa marcar, simbolicamente, o distanciamento de Waldo Vieira de outros
sistemas de idéias, que operam essas mesmas práticas, tendo
porém como fundamento orientações tradicionais, doutrinárias.
O intenso investimento na organização burocrático-administrativa,
implementada por ele especialmente nos últimos anos, tem esse mesmo
sentido: os padrões de racionalidade, eficiência e profissionalismo
adotados visam, dentre outros, marcar seu distanciamento do campo religioso25.
É
interessante observar nessa trajetória a tendência à
aproximação daquele que era o projeto de Allan Kardec, isto
é, fazer do Espiritismo uma doutrina científica. Essa mesma
intenção mobiliza Waldo Vieira com relação
à Projeciologia, projeto que o distancia definitivamente da tradição
espírita, em especial da interpretação religiosa consolidada
sob a liderança de Chico Xavier. Como resultado tem-se, portanto,
um deslizamento, isto é, a constituição de uma corrente
dissidente, que assume como característica básica o deslocamento
da ênfase no aspecto moral em favor do experimentalismo26.
Waldo
Vieira sinaliza dessa forma um afastamento da tradição religiosa
que marcou a sua iniciação. Os sinais diacríticos
utilizados remetem simbolicamente à modernidade, cujo discurso tem
na racionalidade um de seus valores fundamentais. Esses valores são
explicitados de duas formas: por meio da produção discursiva
e da ênfase que vem sendo dada nos anos mais recentes à organização
burocrática.
Luiz
Antonio Gasparetto: entre o Espiritismo, a auto-ajuda e a cosmologia new
age
Luiz
Antonio Gasparetto seguiu caminho oposto ao de Waldo Vieira, realizando
um percurso que é emblemático do carnavalesco, termo empregado
aqui tal como utilizado por Da Matta (1981). Sua trajetória
segue, em princípio, o mesmo modelo acima observado: a primeira
fase é marcada por forte influência de Chico Xavier e da Federação
Espírita Brasileira; a segunda envolve o desenvolvimento de um percurso
voltado à inovação, prática que, "pelas artes
do sincretismo", se concretiza por meio da incorporação de
idéias e práticas de auto-ajuda e do universo da chamada
Nova Era.
Este
é, portanto, um percurso que implica, como no caso anterior, em
distanciamento da tradição, embora não configure,
como no caso de Waldo Vieira, um total rompimento com o Espiritismo27.
Os
anos 80 constituem nesse caso o marco da mudança. Por essa época
Luiz Gasparetto realizou uma série de viagens à Europa e
aos Estados Unidos com a finalidade de promover a divulgação
do Espiritismo. As sessões públicas de pintura mediúnica
e programas de TV de que participou lhe permitiram observar a atuação
de outros médiuns. Numa dessas viagens esteve também em Esalem,
o centro new age da Califórnia (EUA), onde entrou em contato com
idéias e práticas de diversos sistemas de conhecimento, especialmente
com o então chamado "pensamento positivo" e técnicas de psicoterapia
corporal. De volta ao Brasil, Luiz Gasparetto começou a se indispor
com a Federação Espírita Brasileira. O alvo principal
de suas críticas era dirigido ao moralismo espírita,
manifesto, entre outros, no tratamento de certos temas, sexo e dinheiro,
por exemplo.
Quando
viajo para o estrangeiro e converso com os médiuns, os espíritos
conversam abertamente de sexo e seus problemas. Aqui não. No Brasil
nenhum espírito toca nesse assunto [...]. Aqui só
dizem: "vai tomar passe, vai tomar passe!" [...] "apesar dos espíritos
terem tentado passar uma mensagem libertadora, aqui os médiuns eram
católicos e a linguagem que usaram era própria de sua estrutura
mental. Passou o que foi possível. O resto ficou cheio de catolicismo.
(Apud Stoll, 1999: 46)
Pouco
tempo depois, aliando sua formação de psicólogo à
experiência mediúnica, Luiz Gasparetto acabou criando um espaço
alternativo de trabalho. Inaugurado em São Paulo nos anos 80, o
Espaço Vida e Consciência passou a integrar o circuito dos
espaços neo-esotéricos da cidade. Suas atividades regulares
são cursos e palestras, às quais se somam shows e workshops,
realizados eventualmente.
Por
muitos anos Luiz Gasparetto se dividiu entre essas atividades e o exercício
da prática da pintura mediúnica no centro Os Caminheiros,
dirigido pela sua mãe, Zíbia Gasparetto. Por mais de dez
anos a complementaridade definiu o trabalho realizado nesses dois espaços.
Ou seja: no centro as atividades obedeciam ao padrão espírita
tradicional (realização de sessões públicas
de pintura mediúnica e aconselhamento; manutenção
de uma creche a título de trabalho de caridade; destinação
dos recursos financeiros, oriundos das atividades mediúnicas da
família, para esta última); por sua vez, no Espaço
Vida e Consciência, local definido como de exercício de atividade
de cunho profissional, predominava a realização de atividades
em caráter experimental, destacando-se entre estas, cursos e práticas
voltados à questão da auto-ajuda. Com essa perspectiva Luiz
Gasparetto explorou, nesse "espaço", as mais diversas linguagens.
Além de novos usos dados à pintura mediúnica, como
o de objeto de cenografia para seus shows, verifica-se a utilização
de práticas discursivas diversas, incorporando-se ao seu repertório
o uso da música, da expressão corporal, de técnicas
de relaxamento e do psicodrama, bem como da representação
teatral.
A divulgação
das atividades desenvolvidas nesses dois "espaços" contou com recursos
diversos de mídia, destacando-se dentre eles os programas de rádio
que nos últimos anos passaram a ser diários. Protagonizados
pelo próprio médium, Luiz Gasparetto, nos últimos
anos estes passaram a contar, às segundas-feiras, com a participação
de Zíbia Gasparetto, mãe de Luiz, cuja presença tem
sido uma constante nas listas dos livros de auto-ajuda ou não-ficção
mais vendidos.
Essa
duplicidade dos "espaços" e das atividades desenvolvidas uma
caracterizada como profissional, a outra como mediúnica manteve-se
por mais de uma década, tendo sido preservada, em larga medida,
em função da restrição dos espíritas
quanto à remuneração da atividade mediúnica.
Como
outras já citadas, essa reinterpretação espírita
da tradição cristã tem em Chico Xavier um modelo exemplar.
Tensões crescentes em relação a esse modelo, moral
e ético, levaram afinal a família Gasparetto ao rompimento
com a prática institucional espírita, fato consumado em 1995,
quando se decidiu encerrar as atividades do centro Os Caminheiros. Essa
decisão, assumida publicamente como resultado da "orientação
dos espíritos", abriu caminho para se promover, com mais liberdade,
o uso da mediunidade com fins lucrativos. Um primeiro passo nessa direção
fora dado anteriormente, quando se decidiu fechar a editora do centro Os
Caminheiros. A abertura de um novo selo, desvinculado do centro, tornou
possível a apropriação dos direitos autorais de livros
psicografados, prática condenada na tradição espírita.
"Podemos fazer uma mediunidade moderna", disse Gasparetto numa de suas
palestras, sintetizando nessa fala a possibilidade do médium fazer
uso da mediunidade
visando o seu próprio bem-estar (inclusive
financeiro), além de utilizá-la para a orientação
dos indivíduos na solução de seus problemas cotidianos.
Esse
afastamento do ideal kardecista da caridade caracteriza um deslizamento
significativo com relação à tradição.
A essa prática soma-se ainda, neste caso, a reintepretação
da noção de karma de uma forma mais positiva, permitindo
assim a passagem da ética da caridade que implica a
noção de doação como sacrifício
para a ética da prosperidade tema do repertório
neo-esotérico e de auto-ajuda, que tem como objeto a questão
do bem-estar dos indivíduos, aqui e agora.
O percurso
trilhado por Luiz Gasparetto descreve, portanto, um modo particular de
produção da inovação da tradição
espírita, sem implicar um total rompimento com esta, como no caso
de Waldo Vieira. Isso porque o uso da mediunidade em moldes espíritas
continua sendo a forma de produção da mediação
entre este e o "outro mundo", prática religiosa que se mantém
como fonte de autoridade das práticas e idéias que o grupo
sustenta. Trata-se, portanto, de um outro modo de "ser espírita"
menos convencional, menos constrangido pelo moralismo católico,
mais afeito ao experimentalismo no que diz respeito ao uso de linguagens,
de técnicas de comunicação, e mais voltado às
questões de ordem psicológica.
Retomando,
enfim, o argumento de início, esse "sistema de personagens" sugere
serem diversos os modos de produção da fragmentação
do campo espírita, que a colocam, cada um a seu modo, a tradição
sob "riscos empíricos" (cf. Sahlins, 1990).
Um dos resultados produzidos é o alargamento do campo das interlocuções
estabelecidas: os casos apresentados sugerem um processo de redefinição
das margens de trânsito, confronto e aliança, tanto dentro
como fora do campo religioso. No que se refere ao aspecto da crítica
ao sincretismo católico, este movimento se coaduna com o que alguns
autores observam em relação a certos segmentos do Candomblé28.
No entanto, as respostas apresentadas pelo Espiritismo parecem ter um espectro
mais amplo, uma vez que estas incluem tanto projetos que visam o distanciamento
completo de um viés religioso caso dos grupos que, a exemplo
de Waldo Vieira, buscam uma reaproximação da ciência
, como grupos ou movimentos que buscam a renovação das idéias
e práticas espíritas por meio do amálgama de possibilidades
que oferece o chamado universo neo-esotérico. Desse segundo movimento
emerge um aspecto inovador, que consiste na abertura de um novo campo de
diálogo no interior do campo religioso, na medida em que o ideário
da prosperidade se apresenta como moeda moral que agrega segmentos tradicionais
e novos do campo religioso, dentre eles, certas correntes do universo neo-esotérico,
do Espiritismo e das religiões neopentencostais, como a Igreja Universal
do Reino de Deus.
Publicado
originalmente na Revista de Antropologia. v.45 n.2 São Paulo 2002
______________________________________________
Notas
1
Este ensaio condensa algumas das principais idéias que apresento
em minha tese de doutorado em Antropologia Social, defendida na Universidade
de São Paulo, intitulada Entre dois mundos: o espiritismo da França
e no Brasil (1999, mimeo.). Agradeço a José Guilherme Magnani,
orientador, pelo estímulo constante e a Capes pelo financiamento
das condições materiais para a realização desta
pesquisa.
2
Esses dados foram obtidos em matérias de imprensa divulgadas à
época pelas agências on-line: Isto É Online; GloboNews;
Folha Online; JB Online.
3
Publicado em 1932 pela Federação Espírita Brasileira,
Parnaso de além-túmulo teve como primeiro comentarista o
escritor e jornalista Humberto de Campos, que escreveu dois artigos no
Diário Carioca. O jornal O Globo entrou no debate mais tarde. Em
1935 enviou um jornalista, Clementino de Alencar, a Pedro Leopoldo (MG),
onde vivia Chico Xavier, para investigar in loco a autenticidade de suas
práticas mediúnicas. Publicadas semanalmente, as matérias
desse jornalista ocuparam as páginas do jornal O Globo por mais
de um mês.
4
Os termos desse processo judicial bem como artigos de juristas e literatos
que na época participaram dos debates foram compilados por Miguel
Timponi (1978 [1959]). Para mais detalhes sobre esse episódio veja-se
Stoll (1999).
5
Além de ser noticiado na imprensa espírita, o fato foi comentado
com escárnio pelo National Enquire e pelo Physis News dos Estados
Unidos. Apesar disso, outras mensagens psicografadas por Chico Xavier foram
utilizadas como instrumento de defesa em dois outros processos, nos anos
80 (cf. Souto Maior, 1995: 207).
6
Matérias sensacionalistas ainda por vezes ocorrem, mas nestas os
personagens centrais são hoje seus familiares, haja vista as recentes
denúncias registradas na imprensa quanto aos maus tratos que o médium
estaria sofrendo por parte destes, alguns dos quais também se acusa
de estarem envolvidos no desvio de donativos destinados a instituições
filantrópicas. A título de exemplo consulte-se a matéria
"Casa da guerra. Filho adotivo e nora de Chico Xavier brigam por dinheiro"
(Veja, 14 de fevereiro de 2001).
7
A íntegra do programa se encontra publicada sob o título
Pinga-fogo com Chico Xavier (São Paulo, Edicel, 1987).
8
Os trabalhos mais recentes produzidos sobre o tema incluem estudos de caráter
histórico como o de Damazio (1994), predominando, porém,
os estudos antropológicos, entre eles, Cavalcanti (1983), Giumbelli
(1994) e D'Andrea (1996 e 1997).
9
Veja-se Birman (1992 e 1994); Sanchis (1994a e 1994b); Mariz & Machado
(1994); Negrão (1997); dentre outros.
10
A Livraria Garnier, considerada à época a principal casa
editorial do Rio de Janeiro, lançou o primeiro título, O
livro dos espíritos, em português, em 1875. Isto é,
15 anos depois da segunda edição do mesmo na Europa. Segundo
consta, o sucesso de público alcançado pela obra estimulou
o lançamento pela Livraria Garnier, nesse mesmo ano, de dois outros
títulos publicados por Allan Kardec: O livro dos médiuns
(1861) e O céu e o inferno (1865). Cf. Machado (1983: 117).
11
Cândido Procópio Camargo publicou o primeiro título
sobre o tema – Kardecismo e Umbanda –, em 1960. Mais tarde publicou um
novo estudo, intitulado Católicos, Espíritas e Protestantes
(1963).
12
Roger Bastide escreveu primeiro um artigo, Spiritism au Brésil,
publicado em Archives des Sciensces Sociales des Religions (24, juil.-dec.
1967). As idéias básicas deste artigo foram posteriormente
reapresentadas num capítulo de As religiões africanas no
Brasil (1985 [1960]).
13
Para análise detalhada da produção desses autores
a respeito do Espiritismo, assim como de outros que os sucederam no estudo
desse tema, veja-se Stoll (1999: capítulo 2).
14
Giumbelli (1994) chama atenção no seu trabalho para a complexidade
dessas relações fora do campo religioso, destacando em particular
a interlocução entre o Espiritismo e os campos médico
e jurídico no Brasil, entre 1890 e 1940.
15
Magnani (1999) sugere o uso do termo neo-esotérico em lugar de expressões
correntes como "movimento Nova Era" (Amaral, 1998) ou "New Age" (D'Andrea,
1996) na medida em que não se trata exatamente de um movimento articulado,
mas de um conjunto de sistemas religiosos, filosofias e práticas
de origens e matizes os mais diversos, cujos pontos de articulação
estão em constante movimento e reconstrução.
16
A literatura espírita e acadêmica sustenta ter sido Bezerra
de Meneses, fundador e primeiro presidente da Federação Espírita
Brasileira, um dos principais responsáveis pela institucionalização
da feição religiosa de que se revestiu o Espiritismo no Brasil.
O papel de Chico Xavier parece-me, porém, fundador na medida em
que sua exemplaridade o torna um modelo a ser seguido pelos adeptos da
doutrina.
17
"Palavras minhas", texto publicado na introdução de seu primeiro
livro, Parnaso de além-túmulo (1932), descreve a iniciação
de Chico Xavier na experiência e prática da mediunidade. "Explicando",
publicado em Emmanuel (1938), relata o seu primeiro encontro com Emmanuel,
seu guia-espiritiual.
18
Lembra Le Goff a respeito de São Francisco de Assis que "o santo,
em sua humildade, não trata de si próprio. Não se
pode, portanto, esperar de sua obra [...] informação [...]
sobre sua vida" (2001: 45). Quando isso ocorre, porém, como nos
casos contados por Chico Xavier, a intenção é que
estes sirvam "como exemplo" (idem).
19
Para a construção desse modelo narrativo baseio-me em Certeau
(1982) e Beinert (1990).
20
Trata-se do espírito de Adolfo Bezerra de Meneses, morto em abril
de 1900, no Rio de Janeiro. No meio espírita ele é reverenciado
como um dos principais divulgadores da doutrina kardecista no século
passado. Além de médico, jornalista e presidente da Federação
Espírita Brasileira, ocupou cargos eletivos: foi vereador por duas
gestões e elegeu-se deputado geral em 1867. Morreu aos 69 anos e,
segundo os relatos registrados na bibliografia consultada, logo em seguida
começou "a se manifestar" mediunicamente por meio de Chico Xavier.
A sua relação com o médium não é historiada
pela literatura consultada. Apenas se informa que foi por meio desse espírito
que Chico Xavier praticava a atividade receitista.
21
Emmanuel, que se apresenta como espírito que teve algumas encarnações
à época do Império Romano, segundo relato de Chico
Xavier em sua última experiência terrena, foi o jesuíta
Manoel da Nóbrega, um dos fundadores da cidade de São Paulo.
Veja-se a esse respeito Costa e Silva (1995 [1977]); Tavares (1991 [1967])
e Machado (1983); dentre outros.
22
Afirma Da Matta sobre esse tema: "sabemos que o modelo de quem renuncia
na sociedade ocidental é aquele encampado e legitimado pela Igreja,
em sua incorporação do paradigma de Cristo" (1981: 207; destaque
meu). Esse modelo permite, porém, segundo o autor, duas formas de
aproximação: "A primeira é feita pela própria
ideologia da Igreja Católica, com sua vida votiva de castidade (renúncia
à reprodução e ao prazer físico), de pobreza
(renúncias às glórias deste mundo) e de obediência
(renúncia à própria individualidade) [...]. A segunda
é feita com a política, quando em certas sociedades e circunstâncias
históricas, o líder político que atinge o poder [...]
apresenta-se como um sacrificado e verdadeiro renunciador das glórias
desse mundo" (: 207-8).
23
Os dados relativos à história pessoal e carreira de Waldo
Vieira se baseiam no trabalho de D'Andrea (2000).
24
A constituição de um glossário é a base da
produção literária de Waldo Vieira. Em geral, os conceitos
por ele produzidos resultam de uma construção etimológica
baseada na bricolagem de prefixos e sufixos de palavras preexistentes.
É o caso de termos como, por exemplo, holopensene, que resulta da
seguinte conjunção: holo=todo, pen=pensamento, sen=sentimento,
ene=energia, ou seja, "um conjunto-padrão de pensamentos, sentimentos
e energias" (apud D'Andrea, 2000: 167), que se acredita influenciar todo
e qualquer grupo de pessoas, "auxiliando-o ou prejudicando-o" (idem) conforme
o contexto.
25
O Instituto de Projeciologia apresenta organização administrativo-burocrática
"complexa e altamente departamentalizada". Seguindo moldes empresariais
de estruturação, a "matriz" se liga uma rede de "filiadas"e
"núcleos" espalhados pelo Brasil, assim como no exterior. Os seus
dirigentes porém raramente são remunerados (cf. D'Andrea,
2000: 165).
26
Observa D'Andrea (: 171) que esse deslizamento perde força com o
tempo: da mesma forma que ocorreu com Kardec, no movimento organizado por
Waldo Vieira cresce, com o passar do tempo, a tendência à
moralização do discurso.
27
Os dados sobre Luiz Gasparetto constam de minha tese de doutorado, tendo
sido obtidos por meio de pesquisa etnográfica e documental.
28
Sobre essa questão da busca de redefinição da identidade
do Candomblé baiano veja-se os artigos de Consorte (1999) e Ferretti
(1999), dentre outros.
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