| Uma
vida contada a muitas mãos
Autor
de mais de 400 títulos espíritas, Chico Xavier pouco escreveu
sobre si mesmo. Dois prefácios, escritos nos anos 30, foram os únicos
documentos encontrados17.
Há, porém, inúmeras biografias produzidas ao longo
de sua carreira que compilam casos, episódios e eventos contados,
em primeira mão, pelo próprio Chico Xavier. Assim, por meio
de terceiros a sua narrativa foi transformada numa espécie de "história
oficial"18.
Uma
das características desse relato é que ele se constrói
em torno de uma única chave: a do sofrimento. Essa categoria narrativa
estabelece laços de continuidade entre as etapas fundamentais de
sua carreira e trajetória pessoal, cuja estrutura reproduz o modelo
hagiográfico: 1) a fase profana, período que engloba
a sua infância e adolescência, é marcada por conflitos
surgidos no âmbito familiar e das relações primárias.
Nessa etapa o modo de interpretação da experiência
mediúnica é característico: tal como na história
de vida de outros médiuns, esta é uma experiênciarejeitada;
2) a conversão ao Espiritismo marca o início de uma
nova etapa, de liminaridade, em que o afastamento domundo
é sinalizado pela tensão entre projetos pessoais e a imposição
de um rígido programa de disciplinamento moral e de manejo dos "dons";
3) a consolidação de sua liderança no campo espírita,
associada à produção literária intensa, marca
simbolicamente o itinerário de retorno19.
Nessa etapa, assumindo a vida como cumprimento de uma missão, a
renúncia a projetos de caráter pessoal se consolida fazendo-se
acompanhar da produção de um estilo de vida exemplar.
Nesse
percurso o confronto inicial com o imaginário católico e,
posteriormente, a reinterpretação e apropriação
de idéias e práticas deste constituem uma marca fundamental.
Esse processo não envolve, porém, apenas a incorporação
de práticas do Catolicismo popular, mas também do Catolicismo
institucional, eclesiástico, o que se torna sobretudo relevante
na terceira etapa de sua trajetória como se verá adiante.
"Com
o diabo no corpo": a interpretação católica do fenômeno
mediúnico
Nascido
a 2 de abril de 1910, em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, Chico Xavier teve
uma educação eminentemente católica como era corrente
entre os moradores do lugar. Mas já na infância, segundo seus
relatos, começaram a ocorrer as primeiras manifestações
de "contato com os espíritos".
O evento
propulsor foi a morte de sua mãe, fato ocorrido em 1915, quando
ele tinha apenas cinco anos. João Cândido, seu pai, era vendedor
de bilhetes de loteria e viajava muito. Vendo- se, portanto, sem condições
de criar os filhos sozinho resolveu distribuí-los entre parentes
e vizinhos. Chico Xavier foi entregue à Rita de Cássia, sua
madrinha, mais tarde sarcasticamente por ele definida como "grande educadora".
De acordo com seus relatos ela o surrava com vara de marmelo todos os dias.
Muitas vezes sem motivo. Os castigos, porém, aumentaram depois que
ele contou-lhe "ter visto e conversado com a mãe no fundo do quintal".
A partir daí, além da surras, a madrinha passou a dar-lhe
garfadas na barriga acusando-o, em função de suas "conversas
com os mortos", de "ter parte com o diabo". Esse suplício durou
dois anos.
Depois
disso Chico voltou a morar com o pai, que se casara novamente. A reestruturação
da vida familiar não interrompeu, porém, a ocorrência
das "visões". Segundo se conta, freqüentemente ele "levantava
no meio da noite, batia papo com fantasmas e muitas vezes estragava o café
da manhã do pai com notícias de parentes mortos e descrições
de viagens por cenários fantásticos" (Souto Maior, 1995:
16). Essas experiências ele também relatava, em confissão,
ao padre Scarzelli, pároco da cidade.
Sua
madrasta, Cidália, com quem ele conversava nos fins de tarde ao
pé do tanque, por inúmeras vezes ouviu-o dizer que "via próximas
ao varal figuras cobertas com mantos coloridos" (: 17). Ela, segundo se
conta, dava-lhe crédito, ao contrário de dona Rosária,
sua professora primária. Ao participar de um concurso de redação
instituído pelo governo do Estado de Minas Gerais em comemoração
ao primeiro centenário da Independência, Chico levantou-se
em meio à prova para comunicar à professora que pressentia
a presença de um homem que lhe ditava um texto. Sem dar-lhe muita
atenção, ela pediu que ele voltasse ao seu lugar e terminasse
a prova. A notícia, porém, espalhou-se na sala e na aula
seguinte os colegas fizeram-lhe um desafio. Como prova queriam que o "tal
homem" viesse "outra vez, ali mesmo [...] à frente de todos para
escrever sobre um tema escolhido por eles". O tema proposto, escolhido
ao acaso por um dos meninos foi o grão de areia. Chico relata: "lembro-me
que o espírito [...] ao meu lado começou ditando: 'Meus filhos,
que ninguém escarneça da criação. O grão
de areia é quase nada, mas parece uma estrela'" (Barbosa,
1992 [1967]: 17).
Fatos
como esses se repetiam quase diariamente, em sonhos, na escola, nos momentos
de ócio. João Cândido, pai de Chico Xavier, inúmeras
vezes ameaçou internar o filho num sanatório. A tese de que
se tratava de caso de loucura era, porém, refutada pelo padre Scarzelli,
que procurava aplacar a situação com o receituário
católico tradicional: novenas, penitências, rezar mil ave-marias...
Essas
duas posições com relação ao fenômeno
mediúnico (assinaladas, de um lado, pelo padre e a madrinha nos
termos da religião, de outro, pelo pai, que aderia ao argumento
médico) ilustram os termos do debate da questão na época.
Conforme Giumbelli (1997), que se dedica
ao estudo desse tema, as primeiras décadas do século XX constituem
o período em que o pensamento médico no Brasil amplia significativamente
o espaço editorial conferido ao tema, o que se observa pelo aumento
do número de artigos, teses e livros sobre o assunto (: 198). Construindo-se
à época como discurso hegemônico, a perspectiva médica
teve o endosso do discurso jurídico, resultando dessa aliança
um prolongado embate com a versão tradicional, religiosa do fenômeno
(Giumbelli, 1994).
Mas
numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, como era Pedro Leopoldo
no início do século XX, o padre era ainda considerado uma
"autoridade". Ou seja, a ascendência do padre sobre as famílias
dos meios populares corria incontestada. O relato biográfico de
Chico Xavier é exemplar nesse sentido. Vários são
os episódios relembrados que sugerem o poder da opinião padre.
Chico Xavier lembra, por exemplo, que por ordem do pároco participou,
aos nove anos, de uma procissão carregando uma pedra de 15 quilos
na cabeça. A penitência devia ser complementada pela obrigação
de repetir mil vezes a ave-maria. Não se tratava, porém,
de prática isolada. Impuseram-lhe que freqüentasse regularmente
a igreja, participando inclusive das novenas. Os resultados, contudo, não
foram os esperados. Segundo seu relato, enquanto rezava e contava acompanhando
a procissão, "um espírito desocupado fazia caretas e bocas
para atrapalhar seus cálculos" (Souto
Maior, 1994: 11). Além disso, quando estava na igreja, cumprindo
as novenas, "assombrações flutuavam sobre os bancos e beijavam
os santos" (idem). Padre Scarzelli decidiu então "ser mais duro".
Aconselhou João Cândido, pai de Chico, a ocupar o tempo livre
do menino, arranjando-lhe um emprego. À época a fábrica
de tecidos da cidade estava empregando crianças para trabalhar no
período noturno. Chico Xavier foi admitido: "Fui trabalhar como
tecelão. Entrava às três da tarde, saía à
uma da madrugada. Dormia até às seis, ia para a escola, saía
às onze. Almoçava, dormia uma hora [...] e entrava de novo
na fábrica" (Machado, 1992[1984]: 25-6). A rotina diária
era estafante para uma criança de dez anos. Restava-lhe apenas o
fim de semana para descanso e lazer. Algumas atividades, contudo, foram-lhe
proibidas: o padre Scarzelli recomendou, como medida complementar, que
se evitasse a "má influência" dos livros, revistas e jornais.
Assentindo, João Cândido "fez uma fogueira das páginas
proibidas" (: 18). Dizendo-se inconformado, Chico relata que recorreu,
como sempre fazia, ao espírito da mãe. Esta lhe deu um conselho:
"Aprenda a calar-se. Quando lembrar, por exemplo, alguma lição
ou experiência recebida em sonho, fique em silêncio. Mais tarde
talvez você possa falar" (idem). Chico passou então a restringir
seus comentários ao confessionário. Mas o padre Scarzelli
insistia: "Ninguém volta a conversar depois da morte" (idem). E
acrescentava: "O demônio procura perturbar-lhe o caminho" (idem).
Chico, porém, não se deixava convencer: "Mas padre, foi minha
mãe quem veio" (idem). O padre retrucava: "Foi o demônio"
(idem).
Os
exemplos poderiam continuar sendo multiplicados, mas os acima apresentados
parecem ser suficientes para evidenciar o peso e significado da interpretação
institucional, católica, do fenômeno mediúnico nos
meios populares à época. A convergência de leigos e
eclesiásticos na interpretação do fenômeno mediúnico
chama atenção, considerando-se que o pároco e a madrinha
de Chico Xavier o entendem da mesma forma, isto é, como "coisa do
diabo". Essa convergência se manifesta também quanto às
atitudes assumidas em relação ao fenômeno da mediunidade:
ambos entendiam ser preciso reprimi-lo, inibir sua manifestação,
num caso por meio de castigos corporais, noutro pela oração
e penitência.
Confrontando-se
na sua experiência cotidiana com esse caráter prescritivo
do Catolicismo oficial em relação ao fenômeno da mediunidade,
Chico Xavier desenvolveu nessa etapa inicial de sua trajetória uma
relação ambígua com as crenças católicas:
sua "carolice de infância" se desenvolveu permeada de experiências
que fogem ou são reprimidas pelo Catolicismo oficial, resultando
em conflitos pessoais, tanto com representantes da Igreja, como com membros
do universo de suas relações de sociabilidade primária.
A
conversão
Transição
de natureza marcadamente simbólica, a conversão de Chico
Xavier ao Espiritismo ocorreu a partir da experiência de cura de
uma sua irmã, realizada por um casal espírita, depois de
sucessivos tratamentos médicos malsucedidos visando o controle de
seus "acessos de loucura". Então com 17 anos, Chico Xavier participou
das orações e passes, sendo em seguida introduzido à
obra de Allan Kardec. A narrativa desse fato ao pároco e a decisão
de seguir a nova doutrina marcaram o seu desligamento oficial do Catolicismo.
Antes, porém, Chico Xavier buscou a bênção do
padre:
Eu
respondi [...] que apesar de respeitá-lo muito, ia estudar
o Espiritismo e dedicar-me à mediunidade. Ele permaneceu calado
[...].
Pedi a ele que me estendesse a mão [...]. Depois de beijá-la,
pedi que me abençoasse. Ele, então, me disse: "Seja feliz,
meu filho. Eu rogarei à nossa Mãe Santíssima para
que te abençoe e proteja [...]". Levantei-me e saí,
sabendo que havia tomado a decisão de praticar a mediunidade; quando
cheguei à porta, voltei-me para vê-lo ainda uma vez, notei
que ele
[...] me acompanhava com o olhar e sorria. (Barbosa
1992 [1967]: 29)
A
mudança de tutoria constitui, nesse caso, uma das marcas fundamentais
do trânsito religioso. Como demonstram os dados acima, até
então a tutela espiritual de Chico Xavier vinha sendo exercida pela
mãe, "em espírito", e pelo padre. Essa dualidade foi eliminada
com a conversão religiosa, estabelecendo-se a partir daí
a sujeição exclusiva à tutela dos espíritos.
Ritualmente a mudança foi marcada pela substituição
do vínculo de consangüinidade (mãe/filho) pelo vínculo
de parentesco simbólico, selado na relação de apadrinhamento
estabelecida entre médium e guia espiritual. Este último,
no entanto, não se identificou de imediato. Segundo relato de Chico
Xavier, Emmanuel se manteve incógnito por quatro anos (de 1927 a
1931), período considerado de treinamento de sua mediunidade, em
especial da prática da psicografia.
Fase
liminar, característica dos processos iniciáticos, essa etapa
foi marcada pela produção anônima, envolvendo dupla
iniciação: além do desenvolvimento da escrita mediúnica,
as mensagens psicografadas promoveram a familiarização de
Chico Xavier com um "discurso de virtudes", que incisivamente remetia à
questão da obediência, da paciência e da humildade.
Esses temas, que até então haviam sido objeto de orientação
materna como solução para os conflitos familiares, passaram
a partir de então a promover a formatação de sua personalidade
pública.
Um
"contrato de trabalho", visando a produção de livros mediúnicos
selou, a partir de 1931, a relação entre médium e
guia espiritual. Chico Xavier conta que se encontrava num final de tarde
em orações à beira de um açude, localizado
à saída da cidade, quando avistou um espírito "envergando
uma túnica semelhante à dos sacerdotes" que a ele se apresentou:
"Está mesmo disposto a trabalhar na mediunidade?", perguntou. "O
senhor acha que estou em condições de aceitar o compromisso?",
retrucou o médium. O espírito respondeu: "Perfeitamente,
desde que respeite três pontos básicos". Chico perguntou:
"Qual o primeiro ponto?" Resposta: "Disciplina". "E o segundo?" "Disciplina".
"O terceiro?" "Disciplina" (Gama 1995 [1955]:
64).
Aceito
os termos do contrato, desenvolveu-se entre ambos uma relação
de maior abrangência: duradoura, cotidiana, sobretudo, disciplinadora.
As tensões que emergiam de início em função
da divergência entre pretensões, projetos e/ou decisões
pessoais do médium e a vontade dos espíritos evidenciam como
se deu o processo de seu treinamento disciplinar, abrangendo as mais variadas
dimensões de sua vida cotidiana. Segundo seu próprio relato,
o seu tempo passou a ser dividido entre o trabalho remunerado e as atividades
noturnas e de fim de semana no centro. Restavam-lhe poucos momentos de
lazer. Conversas numa roda de amigos eram raras.
Chico
Xavier afirma que a postura de Emmanuel era implacável em todas
as situações. Inclusive diante das dificuldades econômicas
por ele enfrentadas. Ele conta que em 1939 um grupo de cientistas russos
lhe fez uma oferta: convidaram-no a passar seis meses em Moscou, com o
fim de realizar testes sobre sua mediunidade. A oferta parecia tentadora:
"o dinheiro era suficiente para construir cinqüenta casas populares.
Uma fortuna para quem estava às voltas com a primeira de oito prestações
de um novo chapéu" (Souto Maior,
1995: 56). Mas Emmanuel foi logo pondo fim às suas pretensões:
"Se quiser, pode ir disse ele eu fico". Igualmente rigorosa
foi sua conduta em relação aos problemas de saúde
do médium.
Chico
Xavier conta que, uma noite, estava psicografando quando "sentiu o olho
esquerdo invadido por fragmentos de areia" (: 29). Esfregou-o "mas a coceira
continuou. Tentou fixar a lâmpada com a pupila incomodada, mas em
vez da luz acesa viu um foco difuso. Mal conseguia enxergar os versos récem-escritos".
Assustado recorreu, como sempre fazia, à oração. Apareceu-lhe
o "dr. Bezerra de Menezes20",
que pouco depois informou: "Sua vista amoleceu por razões que não
podemos saber agora. Prepare-se para ir a tratamento em Belo Horizonte,
para que sua família não diga que você ficou sem se
tratar por nossa causa" (: 29). Dois dias depois, soube do diagnóstico
oficial: "Isso é um tipo de catarata [...] inoperável" (idem).
Chico Xavier tinha então apenas 21 anos. Ele decidiu consultar Emmanuel
a respeito. "Tenha serenidade, [...] você está sob cuidado
dos benfeitores espirituais e sob a assistência de médicos
atenciosos e amigos" (Barbosa, 1992 [1967]:
85), disse-lhe o espírito. "Quer dizer que preciso tratar-me?" (idem),
perguntou Chico desapontado, acrescentando em seguida: "O senhor quer dizer
que embora eu seja médium [...] não posso esperar a intervenção
do Plano Espiritual em meu benefício para curar-me?" (idem). Emmanuel
retrucou:
Por
que você receberia privilégios por ser médium? [...]
a condição de médium não exonera você
da necessidade de lutar e sofrer, em seu próprio benefício,
como acontece às outras criaturas que estão no Plano Físico.
(Idem)
Chico
Xavier não se resignou de imediato. Perguntou como poderia desenvolver
a tarefa de escrita dos livros espíritas, que apenas se iniciava,
se a deficiência visual de que era portador dificultava-lhe o trabalho.
Disse-lhe o guia: "Confie no Senhor, pois sua doença é arrimo
que ele enviou em seu auxílio" (: 86). Chico alegrou-se imediatamente:
"Então Jesus vai curar-me?" (idem). Ele mesmo prossegue o relato:
Emmanuel
me fitou
[...]
e mandou que eu abrisse O evangelho segundo o Espiritismo,
no capítulo VI [...]. Então comecei a ler em voz alta
[...].
Quando atingi a palavra "aliviarei", nosso Amigo Espiritual sustou-me a
leitura e disse: "Compreendeu bem? Jesus não promete curar-nos,
isto é, retirar-nos [...] das obrigações que
nos cabe cumprir perante as leis de Deus mas promete aliviar-nos e auxiliar-nos.
(Idem)
Sem
outra alternativa, Chico Xavier afinal deixou-se convencer: "Resignei-me",
disse ele (idem).
Anos
mais tarde, quando perguntado sobre a doença nos olhos, dizia: "Todo
médium tem seus testes" (: 47). Ou então afirmava: "Eu
não poderia escapar. Ainda hoje devo sofrer para aprender" (idem).
Houve também ocasiões em que fez suas as palavras de Emmanuel,
como, por exemplo, nessa entrevista: "Decerto o Mundo Espiritual permite
que eu passe por [...] provações para mostrar-me que
receber livros [...] não me cria privilégio algum"
(: 32).
Revendo
mais tarde sua trajetória, ele assim a resumiu: "Emmanuel tenta
adaptar-me para a colaboração com ele, desde 1931 até
agora, assim como um viajante [que] procura domar um animal freado
e irrequieto, a fim de realizar uma longa excursão" (: 66;
destaque meu).
O modo
como Chico Xavier retrata o processo de sua conversão e assujeitamento
à vontade dos espíritos permite observar que a produção
da liminaridade, característica dessa fase, expressa-se tanto por
gestos de ruptura, como de continuidade em relação à
filiação religiosa de origem. O modo de construção
da relação entre médium e guia espiritual é
exemplar especialmente com relação a esse último aspecto:
de um lado, essa relação ritual se inscreve nos termos do
parentesco simbólico, traduzindo-se o apadrinhamento numa relação
de proteção de tipo filial, o que remete ao modelo santorial
próprio do Catolicismo popular; de outro, o aporte institucional,
eclesiástico católico, também aparece como fundamento
da autoridade do espírito-guia. Além do preceito institucional
da obediência, que inscreve essa relação, a própria
imagem do guia, divulgada pelos espíritas, remete ao modelo institucional
católico. Basta observar as fotos reproduzidas em livros espíritas
a partir da narrativa de Chico Xavier: nestas Emmanuel aparece sempre com
vestes sacerdortais, semelhantes às de um padre jesuíta21.
Os trajes que ele ostenta (uma espécie de batina preta) assim como
a rígida disciplina de trabalho e de vida que impôs ao médium
são típicas desse aporte institucional.
Donde
se pode afirmar que nessa primeira etapa do percurso iniciático
de Chico Xavier a experiência da conversão é construída
a partir de um duplo sincretismo com a tradição católica.
Na etapa seguinte, porém, prevalece a interlocução
com o modelo institucional, como se verá a seguir.
Vida
de santo
Num
seu trabalho recente, Le Goff (2001) define
São Francisco de Assis como figura de transição entre
o medieval e o moderno, sugerindo ter sido uma de suas contribuições
a renovação da santidade católica a partir de seu
estilo de vida e de apostolado. Em suas palavras: "Tomando e dando como
modelo o próprio Cristo e não mais seus apóstolos,
ele comprometeu o cristianismo com uma imitação do Deus-Homem"
(: 13-4). Além disso, combateu o modelo eremítico de santidade,
vigente desde o século IV: "Vencendo ele próprio a tentação
da solidão [foi viver em] meio da sociedade [...], nas cidades e
não nos desertos, nas florestas ou no campo" (: 13-4). Essas inovações
introduzidas implicaram a constituição do espaço
público e da vida cotidiana em "esfera de salvação".
Com relação a esse último aspecto a santificação
da vida cotidiana , observa-se, porém, tendência à
preservação de práticas institucionais estabelecidas.
Segundo Le Goff, os escritos de São Francisco exortam a necessidade
de "respeitar os três votos: de obediência, de pobreza e castidade"
(: 93).
O "itinerário
de santidade" (Certeau, 1982) de Chico
Xavier segue esse mesmo modelo, o que significa que a narrativa de sua
vida e carreira religiosa encenam uma noção de santidade
que, a exemplo de São Francisco de Assis, "se manifestam menos por
milagres [...] e pela exibição de virtudes, do que pela linha
geral de uma vida totalmente exemplar", conforme sugere Le
Goff (: 43).
Para
Chico Xavier, como outros santos, a constituição dessa vida
santificada não transcorreu, porém, sem hesitações,
incertezas, dificuldades. Sua narrativa, de início, é, portanto,
freqüentemente marcada pelo lamento. Mas com o tempo ele próprio
começa a produzir provas de humildade, um dos preceitos básicos
da vida de santo. Trata-se de um ideal de comportamento, que deve se manifestar
publicamente de várias formas, inclusive como modo de auto-representação,
como indicam alguns dos exemplos acima mencionados.
A renúncia
complementa esse modelo de construção da vida de santo. Nesse
caso, porém, ela não se manifesta por meio do retiro da sociedade
e, sim, pela criação de um estilo de vida sui generis, cuja
marca de separação consiste na oposição a certos
valores culturais e práticas correntes em seu meio social. Os relatos
biográficos de Chico Xavier evidenciam que essa construção
de uma vida santificada não teve o mérito da inovação.
Em larga medida ele a produziu inspirando-se no modelo monástico
de virtuosidade católica, para o qual constitui preceito fundamental
a renúncia ao sexo, ao casamento e a bens materiais:
Para
que os livros nascessem de minhas pobres faculdades, de modo mais intenso
[...]
foi
preciso, diz-nos Emmanuel, que eu aceitasse a existência em que me
encontro, na qual o matrimônio [...] não seria possível.
Isto não quer dizer que a mediunidade crie antagonismos entre médium
e casamento terrestre, mas sim que determinadas tarefas mediúnicas
requisitam condições especiais para que se façam cumpridas.
(Folha Espírita, nov. 1976, apud
Nobre,
1996: 145)
A
renúncia ao matrimônio como condição de realização
plena da potencialidade mediúnica sugere a concepção
cristã do sacerdócio. No depoimento de Chico Xavier, como
no de outros médiuns (cf. Dantas,
1988; Rodrigues, 1987; Prandi,
1996), observa-se que a imposição da castidade legitima a
releitura da própria biografia como a história de uma eleição.
Os relatos consultados evidenciam, porém, que a tendência
de Chico Xavier ao celibato se configurou, a princípio, independente
da questão mediúnica.
Na
fase adulta, o tema passou do circuito familiar à especulação
pública. Os boatos, muitas vezes contraditórios, corriam
com freqüência na imprensa. "Boatos de [um] possível
casamento", afirma Schubert, "aconteceram
mais de uma vez" (1986: 297). A maioria das especulações,
no entanto, girava em torno da suposta homossexualidade do médium.
A fala fina e mansa, complementada por maneiras delicadas, alimentou com
freqüência insinuações a respeito. Chico Xavier,
porém, jamais aceitou o rótulo de homossexual. Celibatário
convicto, ele inúmeras vezes explicitou essa sua condição.
Ele se defendia de insinuações a respeito de sua conduta
sexual recorrendo a frases feitas: "De que vale um perfume preso a um frasco?"
(Souto Maior, 1995: 74). Ou então:
"Por que ficar preso a uma mulher?" (idem). Fazendo uso dos mesmos argumentos
de que se serve o clero católico, por vezes dizia: "minha família
é a humanidade" (idem).
Capitalizadas
simbolicamente, as práticas do celibato e da castidade foram no
decorrer do tempo ressignificadas, transformando-se de componente da personalidade
do médium em forma de expressão modelar da mediunidade espírita.
Não sendo esta, porém, uma norma doutrinária, o que
esse percurso sinaliza é a apropriação por Chico Xavier
de práticas institucionais de construção da santidade
católica.
O mesmo
se observa no que se refere à relação com bens materiais.
A experiência de pobreza veio-lhe de berço. Mas o desapego
aos bens materiais, como forma de sinalizar distanciamento das "coisas
do mundo", foi uma experiência construída, referenciada no
voto de pobreza católico. Dos relatos de Chico Xavier se depreende
que este pouco desfrutou, em mais de 90 anos de existência, das benesses
do chamado "mundo moderno". A princípio, em conseqüência
das restrições financeiras que caracterizaram as condições
de vida de sua família. Mais tarde, por opção pessoal:
seus livros psicografados, traduzidos em várias línguas,
renderam milhões em direitos autorais. Ele, contudo, nunca se apropriou
de qualquer parcela desses rendimentos. Oficialmente, por meio de registro
em cartório, doou os proventos dos livros mediúnicos às
editoras de seus livros, bem como a inúmeras obras sociais. Viveu
sempre exclusivamente de seu minguado salário de funcionário
público de baixo escalão. Como prova de gratidão,
muita gente chegou a lhe oferecer dinheiro. Chico recusava sistematicamente:
"Ajude o primeiro necessitado que encontrar", dizia ele. O mesmo fazia
com os presentes com que era agraciado. Sistematicamente recusou também
doações que lhe foram feitas, envolvendo terras e dinheiro.
Tudo foi repassado a instituições de caridade.
Complementa
esse exercício de renúncia, a prática da caridade,
cujas formas introduzidas por Chico Xavier se tornaram, mais tarde, modelares
para a prática espírita. Também com relação
a essas se observa inspiração em práticas institucionais
católicas. É o caso da peregrinação, denominação
dada por Chico Xavier às visitas semanais que realizava, aos sábados
à tarde, a famílias que viviam embaixo de uma ponte em Pedro
Leopoldo. Acompanhado de um grupo de amigos, ele lhes levava doações
feitas durante a semana em roupas e alimentos. O cenário urbano
servia-lhe, assim, de palco para a pregação do Evangelho.
Em Uberaba, onde ele se estabeleceu alguns anos mais tarde, essa atividade
se estendeu também aos bairros de periferia. Realizadas ao ar livre,
suas pregações se tornaram famosas. Essa atividade "extramuros"
era complementada com as visitas a doentes em hospitais e a presidiários.
Ao contrário dos evangélicos, porém, Chico Xavier
não fazia pregações: "Não poderia aproveitar
que eles estão atrás de grades para fazer sermão"
(Souto Maior,1995: 218). Finalmente, à
época do Natal, saía em caravana de carros pelos bairros
de periferia distribuindo presentes.
No
bojo dessas práticas insinua-se a idéia de que a santidade
como modo de vida se realiza por meio da prática de doação.
Este é um elemento-chave da ética cristã da santidade:
enquanto os demais fazem e acumulam para si (ou para os seus), o santo
é aquele que acumula gestos e práticas de doação
aos outros. Esse ideal se realiza a partir de padrões culturais,
podendo concretizar-se, portanto, de formas variadas. O que distingue a
santidade espírita no Brasil, concretizada pela vida de Chico Xavier,
é o éthos institucional católico de que esta se impregnou22.
O
Espiritismo no Brasil: versões concorrentes
"Santidade",
afirma Rubem C. Fernandes, "é
um tema maior da religiosidade brasileira" (1994: 197). Sua importância
é de tal ordem que no Catolicismo "ouve-se costumeiramente falar
em 'Santa Trindade', 'São Bom Jesus', 'Festa do Divino'" (idem).
Segundo o autor, "pelas artes do sincretismo", essa noção
estendeu-se também a outros universos religiosos.
As
divindades africanas de origem ioruba, os orixás, também
são chamados costumeiramente de santos. Com efeito, os fiéis
afro-brasileiros são referidos como "povo do santo" e diz-se de
alguém iniciado que ele ou ela "é do santo". Os pentecostais
assimilam a palavra evangélica "sede santos como eu sou santo" e
distinguem-se entre as denominações protestantes pela ênfase
na presença ativa do Espírito Santo. (Idem)
O
Espiritismo também não foge à regra, se considerarmos
que Chico Xavier, seu personagem-símbolo, tornou-se conhecido, dentro
e fora do âmbito espírita, como um "homem santo".
Resistências
a esse modelo de expressão do Espiritismo brasileiro, no entanto,
começaram a se delinear especialmente a partir dos anos 80. Configurando
tendências ainda em construção, essas novas correntes
se apresentam como outras leituras da tradição. O ponto comum
entre elas, parece-me, reside na busca de afastamento da leitura católica
de que se impregnou o Espiritismo com Chico Xavier. Na maioria dos casos
a estratégia adotada consiste na constituição de outros
interlocutores, dentro e fora do campo religioso, resultando, em conseqüência,
a possibilidade de se trilhar caminhos diversos, como ocorreu, por exemplo,
com Waldo Vieira e Luiz Antonio Gasparetto. O primeiro, depois de abandonar
a prática espírita, envolveu-se na organização
de um movimento de cunho paracientífico (a chamada Projeciologia,
posteriormente renomeada Conscienciologia), ao passo que Luiz Antonio Gasparetto
procurou promover a inovação da doutrina por meio da síntese
desta com idéias e práticas de auto-ajuda e do universo da
chamada Nova Era.
D'Andrea
(2000) sugere que o aumento do número de adeptos do Espiritismo
ocorrido nos últimos anos está intimamente associado a essa
fragmentação do movimento, ocorrida nas últimas décadas.
Segundo esse autor, o processo de fragmentação do Espiritismo
resultou da incapacidade deste em atender a demandas divergentes de segmentos
da população que se diferenciam "especialmente no que tange
a estilos de vida, articulados com níveis de renda" (: 136). O ponto
crucial, acrescenta ele, consiste nas "pressões [...] e necessidades
[...] de indivíduos de classe média alta [que] se chocam
com o excessivo tradicionalismo e intelectualismo dogmático das
instituições kardecistas oficiais" (: 139).
Protagonistas
desse movimento, os dois personagens citados têm capitalizado essas
demandas, juntamente a outros grupos e lideranças. As alternativas
por eles construídas expressam, de forma exemplar, duas tendências
dominantes, que podem ser observadas também em outros contextos
nacionais: a busca de aproximação com a ciência, de
um lado; o estabelecimento de interlocução com grupos, seitas
e práticas que remetem ao ideário da chamada Nova Era, de
outro. No presente caso a trajetória de Waldo Vieira ilustra a primeira
alternativa, enquanto o percurso de Luiz Gasparetto ilustra a segunda.
No que segue apresento uma síntese do percurso desses dois personagens,
de forma a delinear com mais precisão a construção
dessas duas alternativas, surgidas do confronto com o viés católico
assumido pelo Espiritismo no Brasil.
|