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Noites Nômades: espaço e subjetividade nas culturas jovens contemporâneas.
Maria Isabel Mendes de Almeida & Kátia Maria de Almeida Tracy
Editora Rocco
Rio de Janeiro, 2003.

 
Por  Alexandre Barbosa Pereira e Carolina de Camargo Abreu
 

Atentas ao movimento extensivo de jovens em torno das boates da Zona Sul carioca, as autoras de Noites Nômades procuram correlacionar regimes de experiência espacial com configurações da subjetividade no contexto contemporâneo. Inspiradas pelas reflexões do sociólogo polonês Zygmunt Bauman sobre uma retomada do nomadismo e uma não fixação dos sujeitos a um lugar específico no mundo, acreditam que a "noite" carioca tenha sido transformada em uma categoria fundamentalmente espacial. A mobilidade teria se tornado o traço distintivo da ocupação noturna da cidade. A "noite" - ou night na expressão nativa - é, então, compreendida como uma rede de trajetórias simultâneas delineadas por multidões de jovens que fariam do deslocamento um fim em si. 

Partindo do pressuposto teórico de que haveria um movimento contemporâneo de reescritura do espaço, que estaria substituindo o tempo como princípio de inteligibilidade das formações culturais contemporâneas, as autoras afirmam que as identidades, em particular as identidades juvenis, também passariam por mudanças, pois estas não teriam mais o lugar como referência, mas sim os fluxos e as migrações, ou seja, na contemporaneidade, segundo elas, teríamos identidades multilocalizadas e dispersas. Neste sentido, captar a formação destas identidades específicas, constitui-se em um dos objetivos que este trabalho apresenta. 

Na verdade, a pesquisa debruça-se sobre o segmento de jovens "classe média" frequentador dos eventos e lugares de encontro noturnos localizados nos bairros da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, que se concentrava na faixa etária entre 15 e 19 anos. Embora a idéia de nomadismo seja o fio condutor da perspectiva adotada, conotando um cenário de fluidez, dispersão e não permanências, a pesquisa de campo não deixa de revelar que os fluxos dos jovens atendem a trajetórias suficientemente regulares para que grupos que se reconhecem se encontrem e reforcem redes de contatos que se estendem para além da night - redes estas tecidas durante a semana nos colégios, faculdades, academias, cinemas, shoppings - circunscrevendo um circuito razoavelmente delimitado. 
As autoras correlacionam a sistematicidade e velocidade com que os deslocamentos são efetivados com a utilização intensa de inovações tecnológicas do setor de comunicações, especialmente do telefone celular e da Internet. Pregam que a popularização das tecnologias virtuais haveria introduzido a mobilidade em todos os planos da experiência e, neste sentido, caracterizam  o universo estudado como 'geração zapping'- definida como aquela que vive mudando de canal o tempo todo - ou ainda, 'total zapping' como um estilo de relação dos jovens com o mundo regido por intensidades, fragmentações e segmentações, que dariam origem a subjetividades que se constituem em fluxos.
As autoras surpreendem-se com as formas inusitadas de apropriação de espaços que foram projetados inicialmente para a passagem, como 'não-lugares' - termo cunhado por Marc Augé -, tais como postos de gasolina ou ilhas de cimento entre pistas de rodagem automotiva, já que são freqüentados por jovens e significados como pontos de encontro e paquera. As entrevistas dos jovens confirmam: o que dá a graça da night não é o evento, a boate, ou o lugar, mas a participação social num grupo de amigos, pois a diversão "é estar com a galera". A night é o próprio exercício da sociabilidade. O que nos leva a levantar a questão de que, embora os jovens circulem e experimentem diversos espaços e relações, desenhando constantemente novos arranjos territoriais, eles ocupam e significam lugares a partir de suas práticas e redes sociais, traçando trajetos em circuitos delimitados e não de forma aleatória .
Ainda que o livro possa intimidar até os especialistas mais interessados por causa da discussão teórica um tanto prolixa que inicia cada um dos capítulos, guarda preciosidades nas transcrições de depoimentos colhidos ao longo de dois anos de trabalho de campo, e vem a ser, desta forma, mais uma boa contribuição a um tema caro da atualidade: o das culturas juvenis urbanas. 
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