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O Negro Brasileiro
Arthur Ramos
Graphia
Editorial
Rio de Janeiro, 2001, 342
págs
O Candomblé da
Bahia
Roger Bastide
Companhia
das Letras
São Paulo, 2001,
379 págs
Para ler os clássicos
das "macumbas".
Vagner
Gonçalves da Silva
A recente publicação
de dois estudos clássicos sobre as religiões afro-brasileiras,
"O Negro Brasileiro", de Arthur Ramos, e "O Candomblé da Bahia",
de Roger Bastide, é um sintoma salutar de que essas obras e seus
autores ainda despertam o interesse para as novas gerações
de pesquisadores, religiosos e leitores em geral. Livros esgotados há
décadas, sua leitura ainda se mantém obrigatória,
seja para entender religiões tão populares no Brasil como
o candomblé e a umbanda, seja para constatar e reavaliar o papel
fundamental que seus autores tiveram na formação e consolidação
dos estudos afro-brasileiros no meio acadêmico nacional.
Arthur
Ramos e a valorização do negro
A
história destes estudos começa com a publicação
em francês do "Animismo fetichista dos negros baianos" do médico
Nina Rodrigues, em 1900. Embora esta obra (reunião de alguns artigos
publicados em português alguns anos antes), defendesse equivocadamente
teses racistas sobre a inferioridade do negro e de sua religiosidade, teve
o mérito de ser a pioneira a descrever com detalhes os candomblés
baianos. Com a morte prematura de Nina Rodrigues em 1906 estes estudos
ficaram num certo limbo do interesse intelectual até a década
de 1930 quando Artur Ramos, também médico de formação
e proclamando-se discípulo e continuador do que denomina a "Escola
Nina Rodrigues", iniciou a publicação de seus principais
livros sobre o tema. O negro brasileiro (revisto e ampliado em 1940) surge
neste contexto sendo o primeiro volume de uma série que compreende
O folclore negro do Brasil (1935), As culturas negras no novo mundo (1937)
e a Aculturação negra no Brasil (1942).
Duas novidades garantiram
a importância de "O Negro Brasileiro" na época de sua edição.
A primeira foi a ampliação da área de estudos sobre
a religiosidade de origem africana que incluiu, além dos terreiros
baianos de tradição ritual sudanesa, estudados por Nina Rodrigues,
os catimbós do Nordeste e os terreiros de tradição
ritual banto (as chamadas "macumbas") do Rio de Janeiro e de São
Paulo. A segunda foi que essa religiosidade deixou de ser entendida como
manifestação de uma suposta inferioridade da raça
negra, e por meio dela se criticou o próprio conceito de raça,
substituindo-o pelo de cultura. Ao retirar a explicação racial
da base dos fenômenos culturais, mais do que desviar-se do pensamento
de Nina Rodrigues, Artur Ramos procurou deslocar os estudos sobre religiões
afro-brasileiras da fronteira com as ciências médicas ainda
que seu interesse pela psicanálise continuasse presente neste livro.
A primeira parte dele é dedicada às "Religiões e cultos
negros no Brasil" e a segunda à "Exegese psicanalítica".
Mas esse interesse aos poucos também foi sendo deixado de lado,
como se percebe na mudança do subtítulo deste livro que na
edição de 1934 aparece como Ethnografia religiosa e psicanálise
e na de 1940 apenas como Etnografia religiosa.
Em "O Negro Brasileiro",
Artur Ramos, apesar de deixar as teorias evolucionistas de lado, não
conseguiu se desvencilhar de uma certa classificação enviesada
que faz dos diferentes grupos étnicos africanos. Na introdução
do livro, o autor agrupa a origem étnica dos negros introduzidos
no Brasil em dois grandes grupos: os sudaneses (basicamente iorubas ou
nagôs e jêjes) e os bantos (angolas, congos, cambindas, benguelas
etc.). Compartilhando a idéia da superioridade cultural do sistema
mítico dos sudaneses, defendida por Nina Rodrigues, Ramos descreve
esse sistema enquanto liturgia de uma "religião" (capítulos
I e II), contrastando-o com os "cultos" descritos nos outros capítulos,
dedicados às práticas dos malês - negros islamizados
- (capítulo III) e principalmente dos bantos (capítulo IV),
estes inclusive mais próximos do "sincretismo religioso" (capítulo
V) e das "práticas mágicas" de feitiçaria e curandeirismo
(capítulo VI). Como se vê pela própria organização
e título dos capítulos há uma idéia implícita
de diferenciação e hierarquização entre um
"sistema de religião" mais "coeso" e "puro" (jejê-nagô)
e "sistemas de culto" mais "impuros" e "sincréticos" (malês,
bantos etc.).
Em Salvador, Ramos centralizou
suas pesquisas no terreiro do Gantois, como já havia feito Nina
Rodrigues, tomando-o como "um do mais antigos" e "modelo para os demais".
Os cultos bantos, predominantes na região sudeste do país
foram vistos em termos de uma suposta "pobreza mítica" contrastada
com o modelo baiano de candomblé. Daí terem sido tão
facilmente influenciados pela mitologia jêje-nagô que lhes
teria imposto seus orixás, pelas idéias do catolicismo e
do espiritismo e pelas sobrevivências de cultos ameríndios.
Para Ramos, os cultos de procedência banto, caracterizados por uma
"mitologia paupérrima" e facilmente sincretizado com elementos de
outras culturas, como a européia e ameríndia, poderiam ser
descritos na forma da macumba, tal como era praticada, principalmente no
Rio de Janeiro. Os terreiros de macumba foram vistos então pelo
autor como "toscos e simples", sem a "teoria de corredores e compartimentos
dos terreiros jêje-iorubanos", a estrutura hierárquica seria
relativamente simples e as divindades apresentar-se-iam divididas por linhas
ou falanges e tanto mais poderoso seria o pai-de-santo quanto maior fosse
o número de linhas em que ele trabalhasse. Nas macumbas o transe
seria muito freqüente tendo muito de efeito procurado ou simulado,
contrariamente ao candomblé onde a "queda no santo" é demorada
e exige cerimônias especiais. Vale lembrar que estas interpretações
foram revistas em estudos posteriores, sobretudo a partir dos anos 70,
quando outros autores fizeram uma revisão crítica desta supremacia
dos terreiros de tradição sudanesa em relação
aos bantos, mostrando como as disputas por legitimidade que envolvem os
terreiros muitas vezes promovem interpretações tendenciosas
por arte dos pesquisadores.
Do
ponto de vista do mercado editorial dos estudos afro-brasileiros "O Negro
Brasileiro" também representou um marco. Sua 1a. edição
inaugurou a coleção Bibliotheca de Divulgação
Scientífica, editada pela Editora Civilização Brasileira,
que sob a direção de Artur Ramos, tornou-se nos anos de 1930,
um dos principais veículos de divulgação dos estudos
etnográficos sobre o negro realizados com grande força em
várias partes do Brasil. O segundo volume desta coleção,
publicado em 1935, foi nada menos que a tradução de "O animismo
fetichista dos negros bahianos", de Nina Rodrigues, com prefácio
e notas de Artur Ramos. Entre 1934 e 1940, dos vinte títulos publicados
nessa coleção, treze deles abordavam quase que diretamente
o tema da religiosidade afro-brasileira, tornando conhecidos autores como
Edíson Carneiro, Gonçalves Fernandes, Manuel Quirino. Os
anais de dois importantes Congressos realizados neste período, o
1o. Congresso Afro-brasileiro do Recife, organizado por Gilberto Freyre
em 1934, e o 2o. Congresso Afro-brasileiro (Bahia) organizado por Edison
Carneiro e Aydano Ferraz em 1937, também foram publicados pela "Biblioteca"
com os títulos, respectivamente, de "Novos Estudos Afro-brasileiros"
(com prefácio de Artur Ramos) e 'O Negro no Brasil".
A publicação
do "Negro Brasileiro" também marcou o empenho de Artur Ramos na
formação de uma bibliografia abrangente para o ensino da
antropologia. Como se sabe, o estudo das populações negras
juntamente com o das sociedades indígenas formaram os dois principais
grupos de interesse de investigação da antropologia que se
constituía na época como disciplina acadêmica. E a
indicação de Artur Ramos, em 1939, para ocupar a cátedra
de antropologia e etnografia da recém-criada Faculdade Nacional
de Filosofia, foi decisiva não só no encaminhamento de sua
carreira em direção à antropologia, mas também
na localização do seu tema predileto de pesquisa, o negro,
como parte do curriculum oficial de ensino desta disciplina. Graças
aos esforços de Ramos foi criada a Sociedade Brasileira de Antropologia
e Etnologia em 1941. Essa associação, a primeira sociedade
científica antropológica de âmbito nacional, embora
tenha tido uma curta existência (até 1949, ano da morte de
Artur Ramos), teve um significativo papel, não tanto por suas atividades
científicas reais, mas por indicar o crescente fortalecimento da
antropologia que buscava um foro próprio para agrupar seus praticantes
e afirmar a sua especificidade no panorama das ciências sociais brasileiras.
Por tudo isso, a reedição
de 'O Negro Brasileiro", que segue integralmente o texto da edição
de 1940 e apresenta um posfácio de Luitgarde Barros, é bem-vinda
não apenas por ressaltar o lugar importante que ocupa seu autor
na história dos estudos afro-brasileiros mas também por sinalizar
a contribuição ainda possível desta obra para as novas
gerações de pesquisadores
Roger Bastide
e a sutil metafísica do candomblé
Um dos primeiros
contrastes que os "novos estudos afro-brasileiros", de influência
francesa, estabeleceram em relação aos estudos raciais, de
Nina Rodrigues, ou culturalistas, de Artur Ramos, foi o de substituir a
busca pelas formas com que a África se dissolveu no Brasil pelos
pedaços indissolúveis da África que teriam permanecidos
entre nós. A frente desta jornada se colocou Roger Bastide, professor
francês que chegou ao Brasil em 1938 fazendo parte da delegação
de professores estrangeiros que integrou o quadro docente do Departamento
de Ciências Sociais da recém-criada Faculdade de Filosofia
Ciências e Letras da Universidade de São Paulo.
Bastide
viera substituir Claude Lévi-Strauss, contratado como professor
da cadeira de sociologia da USP entre 1935 e 1938. Curiosamente estes dois
pesquisadores desenvolveram suas carreiras acadêmicas a partir do
estudo dos dois principais grupos enfocados pela antropologia brasileira:
índios e negros.
A "descoberta" dos índios
e dos negros a partir das "viagens etnográficas" que Lévi-Strauss
realizou pelo interior do Brasil e Roger Bastide pela faixa litorânea
do nordeste ajudou a redimensionar os estudos sobre estes grupos. Inicialmente
Roger Bastide interessou-se pela poesia afro-brasileira destacando a importância
desta na constituição da literatura nacional. Em 1944, na
viagem que fez ao litoral da Bahia e de Pernambuco encantou-se pelo universo
das religiões de origem africana descrito em "Imagens do nordeste
místico em branco e preto" (1945), uma mistura de crônicas
de suas andanças com uma análise do barroco brasileiro e
a descrição do "mundo dos candomblés". O encanto despertado
pela "mística" dessas imagens religiosas, descritas inicialmente
de modo impressionista, levou Roger Bastide a propor análises mais
refinadas publicadas em inúmeros trabalhos. Mas foi a partir de
1954, quando retornou à França, que escreveu suas duas obras
mais importantes sobre o tema das religiões afro-brasileiras: "O
candomblé da Bahia (rito nagô)" (1958) e "As religiões
africanas do Brasil" (1960). Posteriormente, ainda publicou "As Américas
Negras" (1967) no qual ampliou o campo de análise para os africanismos
presentes em outros locais da América.
"O candomblé da Bahia
(rito nagô)" e "As religiões africanas do Brasil", cujas edições
brasileiras saíram em 1961 e 1971, respectivamente, foram as duas
teses com as quais Roger Bastide obteve o título de Doctorat d'Etat
na Universidade de Paris. Como é de praxe nesta titulação,
o candidato deve apresentar uma tese mais geral, sistemática, e
outra menor, subsidiária, na qual demonstra de forma mais localizada
as idéias defendidas. "O candomblé da Bahia" foi esta tese
subsidiária, na qual Bastide escolhendo o rito nagô como modelo
(seguindo, portanto, uma tradição iniciada por Nina Rodrigues
e enfatizada por Artur Ramos, na qual é valorizada esta tradição,
tida como "pura") apresenta o candomblé como um sistema harmonioso
de participações, um conjunto de elementos de origens diversas
que formavam, porém, uma realidade autônoma e coerente. Bastide
acreditava que os estudos afro-brasileiros anteriores deixaram de lado
uma característica fundamental na análise do mundo do candomblé:
a presença de uma metafísica sutil cujo entendimento deveria
ser o principal objetivo da investigação sócio-antropológica.
Esta percepção decorria também de sua formação
intelectual baseada numa forte tradição filosófica
francesa que impregnava seu olhar para as coisas do Brasil. Além
desta tradição, "O candomblé da Bahia" revela outras
fontes de inspiração teórica: a teoria das classificações
primitivas de Emile Durkheim e Marcel Mauss - na qual Bastide se apóia
para explicar o sincretismo-, e a "sociologia em profundidade" de Georges
Gurvitch, que auxilia Bastide a definir o problema da aculturação
afro-brasileira em termos das múltiplas referências que perfazem
a totalidade do fenômeno de contato entre as civilizações
e em cuja base estão as transformações do quadro social.
Para Bastide, as religiões
africanas sofreram os efeitos das modificações pelas quais
passou a sociedade brasileira no estabelecimento de um regime escravocrata
e na transição deste para uma economia capitalista baseada
no trabalho livre; transformações separadas no tempo e de
significados estruturais diferentes nos locais onde ocorreram. Nas capitais
litorâneas do nordeste, as religiões africanas puderam se
organizar e acomodar, pois estavam mergulhadas, segundo seu julgamento,
num mundo ainda permeado por valores tradicionais, comunitários
ou pré-capitalistas - aproximados, portanto, daqueles valores que
predominaram nos locais de origem dessas religiões na África.
Todavia, a infra-estrutura que sustentava esses valores fora destruída
por ocasião do tráfico de escravos e das peculiariedades
do sistema escravocrata brasileiro que aqui separou etnias, coibiu a formação
de famílias e não permitiu a permanência da ordem social
africana. O surgimento dos candomblés espelhariam, então,
a tentativa de reconstituição desta ordem. Nestas circunstâncias,
seus adeptos, negros africanos e seus descendentes, participavam de dois
universos: um, "africano", restrito ao mundo dos candomblés e, estes,
formando um casulo enquistado na sociedade abrangente, "brasileira". Bastide
definiu a possibilidade de trânsito entre esses dois universos através
do "princípio de corte" e acreditava que no universo dos candomblés
eram os valores religiosos que "segregavam as estruturas" moldando sua
base morfológica. Daí a enorme importância que, sob
esta ótica, adquiriram os estudos etnográficos de terreiros
de candomblé baianos, que em geral enfatizaram aspectos tradicionais
da religião africana e serviram de demonstração empírica
para a argumentação da sobreposição do domínio
do sagrado sobre as outras esferas sociais. A admiração do
autor pelas formas consideradas mais preservadas da religião, como
lhe pareceu encontrar nos candomblés baianos, no tambor de mina
maranhense, nos xangôs pernambucanos e nos batuques gaúchos,
o fez acreditar na força das tradições culturais diante
de um mundo ainda preso pelos laços comunitários.
Como
se vê, "O candomblé da Bahia", embora atualmente possa ser
criticado pela sua excessiva idealização dos terreiros de
candomblé nagô, teve um papel fundamental na valorização
desta religiosidade promovendo uma discussão que ainda hoje não
se esgotou, pois alude diretamente ao dilema cotidiano da cultura brasileira
que se passa em múltiplas esferas sobrepostas: do profano e do sagrado,
do moderno e do tradicional; enfim, do encontro e da repulsa entre as suas
diversas matrizes formadoras.
Por fim, cabe ressaltar
a edição bem cuidada de "O Candomblé da Bahia" que
além do texto original traz anotações do diário
de campo de Bastide, fotos inéditas, apresentação
de Fernanda Peixoto, comentário de Fernando Henrique Cardoso (no
qual ficamos sabendo que "Madame Bastide era mais ríspida, embora
estivesse freqüentemente presente para oferecer-nos o chá ou
o café") e alguns anexos: três artigos de Bastide (dois publicados
em revistas brasileiras e um em revista alemã) e textos de Jean
Duvignaud (introdução à edição francesa
do livro de 2000), de Jean Malaurie e de Claude Ravelet (bibliografia parcial).
Senti falta apenas de uma nota explicativa que "amarrasse" esses artigos
e textos que me pareceram pulverizados ao lado de uma obra tão "acabada"
como esta de Bastide. Se necessidade houvesse de dizer mais, textos do
autor ainda não traduzidos, até onde sei, como "La rencontre
dês dieux africains et dês esprits indiens" (publicado numa
das suas melhores obras: "Le sacré sauvage et outres essais", Payot,
Paris, 1975) teriam contribuído de forma mais instigante na exposição
do vigor, contradições, complexidade e maturidade do pensamento
deste autor que veio da França ao Brasil e nos mostrou o quanto
temos de África em nossas veias e almas. Africanus sum.
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