Os
últimos anos de Darcy Ribeiro foram marcados por retrospectivas,
o que se viu tanto em "O Povo Brasileiro", como em "Diários Índios",
obras que reuniram material que se encontrava engavetado há muito
tempo à espera de revisão e aperfeiçoamento e ao qual
a perspectiva da morte deu urgência de publicação.
Contando com estas "Confissões", de natureza mais biográfica,
somam-se cerca de 1500 páginas de conhecimento e avaliações
que fazem pensar no quanto teria sido melhor se tivessem sido publicadas
mais cedo, enquanto a maior parte do material ainda era realmente novo
e Darcy disponível para discussões. O adiamento não
parece ter sido por falta de oportunidade de edição mas,
pelo que se deduz em Confissões, pelas ambições
do antropólogo de produzir uma obra que dividisse águas,
o que a procrastinação acabou impedindo que acontecesse.
Se em todas estas publicações, incluindo as Confissões,
fica uma imensa admiração pelo trabalho e energia do antropólogo
e educador, fica também uma certa sensação de dejà
vu quanto às análises que faz de vários temas,
a maior parte delas já feitas por outros autores, muitas vezes baseados
nos trabalhos do próprio Darcy e talvez por isto ignorados por ele.
Suas "Confissões" dão pistas para entender ao menos
uma das causas deste retardamento: as convicções de Darcy.
Brasileiro consciente da
peculiaridade de nossa cultura, estava determinado a fazer mais do que
apenas refletir e escrever sobre o que via baseando-se em modelos teóricos
alheios a nós e preocupava-se em não se deixar envolver pelo
academicismo de modelo americano ou europeu que vive de si e para si, poucas
vezes preocupado com seu papel transformador da sociedade. Darcy pensava
em construir uma grande teoria antropológica brasileira que nos
explicasse e aos nossos problemas e soluções. Ele critica
a academia brasileira que, a seu ver, insiste em privilegiar a interlocução
com teorias e conceitos estrangeiros, "testando", "verificando" e "aplicando"
estas teorias e menos preocupada em produzir a sua própria,
ainda que fossem teorias de uma "ciência subdesenvolvida",
como queria o sociólogo Guerreiro Ramos, e a quem dá o braço
a torcer depois de haver combatido em função desta mesma
idéia. Darcy volta a dizer que as ciências sociais, especialmente
a antropologia, devem ser instrumentos de transformação social
e chama de infecunda a ciência que se mantém distante e imparcial,
apenas observando, sem se importar com as condições
de existência dos grupos estudados. Fica claro que, para Darcy Ribeiro,
não se tratava apenas de pensar o mundo, mas de transformá-lo.
Embora a intenção
de Confissões seja a de ser um livro de Darcy sobre Darcy,
visando mesmo comover o leitor, como declara no prólogo, não
se pode deixar de vê-lo como um livro de história do Brasil,
à qual sua vida e idéias estão profundamente ligadas.
Pouca coisa parece desconhecida dos que têm mais de 40 anos ou que
partilharam de algum modo a vida ou os interesses do antropólogo,
educador e político, a não ser os aspectos mais pessoais.
A narrativa, desenvolvida através da representação
do tempo nos espaços onde viveu e funções que exerceu
é também narrativa da história do Brasil. Traçada
em ordem cronológica, começa em Montes Claros, 1922, com
seu nascimento e desvela para o leitor, minuciosamente, o lugar, a família,
as avós, tias e primos (muitas vezes citados nominalmente com carinho
e humor), amigos, numa privilegiada visão da infância mineira
no começo do século, apesar da prematura perda do pai, vista
como um dado positivo: "não tive quem me domesticasse".
A seguir, a descoberta dos
amores, do sexo, as dificuldades da adolescência e a vinda para São
Paulo a fim de estudar medicina, curso do qual desistiu devido à
inescapável vocação humanista que o "forçava"
a matar aulas para assistir palestras na Faculdade de Filosofia, decidindo-se
pelas ciências sociais, para desgosto da família. Lembra com
emoção viva do encanto e influência de professores
da Escola de Sociologia e Política, como Herbert Baldus e Roger
Bastide e de colegas como Florestan Fernandes e Oscar Niemeyer (que ilustra
o livro de seu amigo). E de modo muito especialmente respeitoso, fala de
seu único ídolo declarado: Cândido Rondon (que ele
compara a Gandhi), com quem trabalhou e aprendeu muito sobre a ação
prática no que diz respeitos aos índios. Sua vida junto a
várias nações indígenas, o tanto que com eles
aprendeu e os contratempos criados por sua mania de falar demais, são
momentos saborosos do livro e revelam o modo de agir nada mineiro de Darcy.
Seguindo a cronologia, comenta sua entrada para o partido comunista e sua
ida para Brasília, onde ajudaria a planejar a Universidade que viria
a ser sua mais amada criação. Lembra o governo João
Goulart; os exílios, e sobretudo fala de seus amores. Muitos. Nos
melhores ou piores momentos, Darcy Ribeiro se sustenta de amor e livros,
embora afirme que os segundos lhe eram mais queridos.
Suas confissões são
quase um romance cujo personagem central é ele mesmo com suas paixões
e arrependimentos, exaltando vaidoso suas virtudes e feitos e perdoando
seus defeitos, chegando mesmo a assumir alguns posições bastante
"politicamente incorretas", como falar de Berta Ribeiro, sua primeira
mulher, sempre como sua devedora, eterna discípula e tratando-a
como tal mesmo quando valoriza seu trabalho. Ou confessando que não
estimulou a carreira de certa aluna porque ela lhe parecia "bonita demais
para ser etnóloga". Narra ainda vários episódios
de amores clandestinos com mulheres comprometidas das quais chega a citar
o nome ou apelido e ainda as várias doenças venéreas
que o levaram à esterilidade, não tendo pois que "domesticar
ninguém". E ainda que deixou fora de suas publicações
interessantes informações a respeito da existência
da homossexualidade entre os índios kadiwew.
Num certo momento do livro,
quando fala de política e educação, sentimos que perdemos
nosso romântico personagem da primeira parte, que se torna figura
pública: o antropólogo, o professor, o burocrata, o ministro,
o senador, o candidato, o planejador. Sua imensa humanidade só se
expressa, então, nos amores que de que ele tanto parece se orgulhar.
Vamos
recuperar nosso herói quando ele fala do primeiro câncer.
Não porque sentisse medo, pois medrosos não se tornam Darcys
Ribeiros, mas por sua reflexão sobre o morrer e o viver. Descobrimos
um homem que também redescobre a si mesmo e à vida
no corpo doente, questionando-a como essência pela primeira vez.
Suas posições convictas diante do que importa ou não
na vida são talvez o componente mais forte de sua biografia. A frase
"sei apenas que a vida vale a pena se não dói muito e não
exige sacrifícios demais da vida dos outros" resume seu modo de
pensar. Talvez no segundo câncer Darcy não acreditasse, passado
já dos 70 anos de idade, que isto ainda fosse possível. Seu
retorno ao Brasil a fim de operar-se do primeiro câncer dá
oportunidade a que ele conte das dificuldades impostas pela ditadura, entre
elas a de conseguir emprego, lidar com as atitudes de alguns amigos e do
amor que recebeu das muitas mulheres que o amaram, aos quais dedica todo
o ultimo capítulo do livro, numa espécie de revisão
de sua coleção de afetos.
Antonio Cândido disse
que o que espantava em Darcy era sua capacidade de viver muitas diferentes
vidas ao mesmo tempo, enquanto a maioria de nós mal consegue
dar conta de uma. Suas confissões mostram que ele realmente fez
isso, assumindo inteira responsabilidade pelos resultados, nem sempre satisfatórios.
Mas confessa que viveu e muito bem, sendo tudo que já se sabe e
também um carente crônico, mulherengo, autoritário,
às vezes prepotente, mas lúcido, humorado e apaixonado, supremamente
verdadeiro e amante de seu povo e seu país. Humano, troppo humano.
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da Tarde