Masculino e feminino
nos cultos de possessão.
José
Guilherme Cantor Magnani
Os cultos habitualmente agrupados
sob a designação "afro-brasileiros" constituem, de longe,
o campo mais pesquisado da antropologia da religião no Brasil. Umbanda
e candomblé - em suas inúmeras variações e
denominações regionais - são considerados como a contribuição
mais original deste país ao terreno das práticas religiosas,
tendo sido tema de incontáveis teses, artigos, obras de ficção,
filmes, ensaios fotográficos e até de enredos de escolas
de samba.
Talvez por isso mesmo tem-se
a impressão que tudo de mais importante a seu respeito já
foi dito e a proposta de mais uma pesquisa ou o lançamento
de um novo livro sejam recebidos com certo ceticismo. Afinal, que
se poderia acrescentar ao que já foi escrito e analisado por uma
longa e prolífica linhagem de estudiosos e que remonta aos
pais fundadores - Nina Rodrigues, Arthur Ramos, Roger Bastide? No
máximo, uma filigrana local, um aspecto secundário ou mais
um estudo de caso.
Fazer estilo criando gêneros:
Possessão e diferenças de gênero em terreiros de umbanda
e candomblé no Rio de Janeiro, de Patrícia Birman,
contudo, foge ao lugar comum porque apresenta, com competência,
um original e relevante recorte. A autora, ao construir seu objeto de análise,
refaz uma trajetória na qual se destacam, numa ponta, Ruth
Landes - cujo pioneiro estudo recebe as devidas criticas -
e Peter Fry, seu orientador de tese, com os seminais artigos sobre sexualidade
e religião reunidos em "Para Inglês Ver".
Mas de que trata, afinal,
este livro e seu longo título? O ponto de partida é a constatação
de uma realidade bastante conhecida não só dos estudiosos
e freqüentadores de terreiro, mas que já é também
do domínio público: a marcante presença de homossexuais
nas festas, cerimônias e ritos, principalmente do candomblé.
Quem não lembra da caricata figura de "painho", construída
justamente a partir do estereótipo do pai-de-santo efeminado?
A autora repassa a bibliografia
relacionada ao tema mas marca sua diferença com respeito às
explicações mais correntes: em primeiro lugar, não
se pode transpor noções de significado mais geral, como o
próprio termo homossexualismo, ou o popular "bicha", nem considerar
sua ocorrência no terreiro como algo a ele. Trata-se de parte de
um fenômeno mais complexo, interno a esse espaço religioso,
e que só pode ser entendido por referência a seu
mecanismo central, a possessão. E para explicitar o que classifica,
com propriedade, de processo de produção de novas categorias,
no domínio de identidades e papéis sexuais e de gênero,
Patrícia começa distinguindo essas duas ordens que se cruzam,
mas não se misturam: na dinâmica do terreiro há homens
e mulheres, que ocupam lugares e cumprem papéis masculinos
e femininos: mas as duas séries não se confundem.
Esta distinção
inicial e básica permite-lhe contrapor-se não apenas às
batidas noções do senso comum, como também àquelas,
mais elaboradas, que estabelecem, por exemplo, vinculações
entre candomblé e uma espécie de "matriarcado", ou entre
possessão e o atributo da maternidade. Homem e mulher
não cobrem, respectiva e univocamente, os segmentos masculino
e feminino do espectro.
É preciso relembrar
que, numa religião como o candomblé, o mecanismo de contato
entre a esfera do humano e a do sobrenatural é a possessão,
através da qual homens e mulheres incorporam divindades masculinas
ou femininas; nessa direção é legítimo perguntar,
por exemplo, quais os efeitos de um orixá claramente determinado
por atitudes e traços de feminilidade, como Oxum, sobre um filho-de-santo
homem? E, inversamente, como se estrutura a personalidade de uma mulher
tomada por Xangô ou Ogun, orixás reconhecidamente masculinos?
Eis o que conspira para a ambigüidade na elaboração
de identidades mas que, por outro lado, permite estabelecer distinções
mais sutis e não coincidentes entre as duas instâncias, a
biológica e a de gênero.
Entretanto, há funções
indispensáveis a cumprir no culto (o toque dos atabaques, por exemplo)
e que são desempenhadas por pessoas que não "viram no santo".
E é por referência a esse lugar, imune à possessão,
que se define o polo da masculinidade, pleno no caso dos ogãs (que
são sempre homens) e menos marcado nas ekedes. Desta forma,
a possessão é o divisor de águas, o operador das diferenças
de gênero nos terreiros de candomblé, como assinala Peter
Fry no prefácio: "Os que recebem santo entram automaticamente num
mundo feminizado, enquanto que os participantes que não são
possuídos ocupam o polo masculino nos terreiros".
É nesse princípio
básico que a autora ancora a especificidade das marcações
de gênero produzidas ao longo do espectro masculino /feminino, e
que não necessariamente coincidem com categorias vigentes
em outros domínios. Dentre essas identidades destaca-se a dos adés,
em sua maioria constituída por jovens rapazes que, por seus inconfundíveis
trejeitos, pelas vistosas performances no barracão quando
incorporados e pela tendência a "virar no santo" ao primeiro
toque e até mesmo em simular o transe - "dar ekê" - só
pelo gosto da exibição, certamente são os responsáveis
pela imagem que associa candomblé e homossexualismo.
A análise de Patrícia
Birmam, contudo, não fica restrita a esse peculiar processo de diferenciação
de gêneros que se realiza no interior da dinâmica do
terreiro. Ao observar o funcionamento de tais centros religiosos, organizados
com base na estrutura familiar, contrapõe-se aos que vêem
na "família-de-santo" o locus do poder feminino, numa espécie
de inversão do que ocorre com o padrão dominante: na realidade
é a lógica vigente na sociedade brasileira (o "modelo mediterrâneo"),
onde o público é domínio dos homens e o privado, das
mulheres, que hierarquiza as relações entre eles, no seio
da "família-de-santo".
Numa apreciação
mais de conjunto, nota-se que a obra, apesar do que anuncia seu título,
refere-se mais ao candomblé que à umbanda. Esta, além
de fornecer os ritos de "abertura" e "fechamento" do livro, na figura da
pomba-gira, pouco aparece. Na realidade, apesar das diferenças entre
um e outra, são considerados como fazendo parte do mesmo universo.
Finalizando, cabe retomar
o que foi assinalado no início: no terreno já demasiadamente
repisado das religiões afro-brasileiras, a autora propõe
um enfoque original, fecundo e, como é de esperar-se da boa
etnografia, realiza uma análise no detalhe que permite pensar instâncias
mais abrangentes. Ao mostrar que esse espaço, operando no plano
do simbólico, produz suas próprias e peculiares distinções
e categorias, aporta elementos concretos para a atual polêmica com
as posições que postulam determinação
de ordem genética para o comportamento humano em geral e para a
sexualidade em particular.
A edição bem
cuidada (com alguns deslizes aqui e ali, sendo que um deles aparece logo
no início, na referência ao ano de publicação
do livro de Marlyse Meyer), o texto de agradável leitura e, principalmente,
as pistas que abre, fazem do trabalho de Patrícia Birmam uma obra
de interesse para além do círculo mais restrito
de especialistas em antropologia das religiões.