Esta
festa não se acaba
Esta
festa não tem fim
Se
esta festa se acabar
Ai,
ai meu Deus
Que
será de mim?1
Introdução
O
tempo da festa é o tempo da seca. Depois que já foram feitas
as colheitas do milho, do feijão e do arroz, entre os meses de maio
e setembro, este é o período propício para as festividades
do município de Mossâmedes, no sudoeste do estado de Goiás.
Em maio, há a Festa de São José, o padroeiro da cidade;
em finais de agosto, comemora-se o Divino Espírito Santo; em julho,
Nossa Senhora das Graças e em junho, especialmente, dezenas de famílias
dirigem-se em romaria para a grande Festa do Divino Pai Eterno2,
no santuário de Trindade, a poucos quilômetros de Goiânia.
Esta é uma das mais importantes festas católicas de Goiás
e atrai romeiros de diversas regiões do país, principalmente
do Centro-Oeste, que chegam até lá nos mais variados meios
de transporte: caminhão, ônibus, carro, carroça, carro
de bois e a pé.
No
pequeno município rural de Mossâmedes, com poucos mais de
5500 habitantes, cada ano é marcado pelo período anterior
e posterior à Festa do Divino Pai Eterno – a referência central
em relação às demais comemorações, que
se intercalam às atividades cotidianas, ao longo da época
da estiagem. Todos os anos, aproximadamente quarenta famílias percorrem
150 quilômetros de estrada de terra em carro de bois, durante seis
dias, até chegar ao santuário.
Durante
a festa, Trindade chega a receber mais de 300 mil pessoas e entre elas
mais de dez mil chegam à cidade em carro de bois, originárias
principalmente dos municípios que circundam a capital. São
justamente estes romeiros, os chamados carreiros, que são o foco
deste texto, mais especificamente o grupo de Mossâmedes, que é
um dos mais antigos no hábito de fazer essa romaria utilizando esse
meio de transporte. Mas este hábito de viajar em carro de bois em
direção a uma terra santa, embora possa ser interpretado
como ‘tradicional’ ou ‘antigo’, não se mostra uma prática
folclórica de velhos romeiros e velhas devoções. A
romaria, como pretendo demonstrar no decorrer do artigo, mostra-se uma
proposta contemporânea de continuidade de elementos das culturas
tradicionalmente rurais e do chamado catolicismo rústico e, ao mesmo
tempo, apresenta a possibilidade de dialogar com certos aspectos das culturas
urbanas3.
Nesse
sentido, meu propósito é mostrar que, diferentemente do que
os estudos de Maria Isaura Pereira de Queiroz, nos anos 1960 e 1970, prenunciavam
– de que, pelo processo de urbanização e industrialização,
os elementos fundamentais do catolicismo rústico4,
tenderiam a desaparecer, inclusive as festividades, que organizavam os
bairros rurais5
– a festa de romaria mantém traços de uma forma tradicional
de devoção e não está fechada nem vulnerável
às transformações que provém de um mundo urbanizado.
Apesar
de enfatizar a falta de isolamento e a ligação dos bairros
rurais com a sociedade global, Queiroz previa um triste futuro para a organização
tradicional dessas populações rurais. A urbanização
e a industrialização terminariam por incorporá-las
ao universo das cidades e elas perderiam seus traços característicos,
inclusive as manifestações do catolicismo rústico,
que organizavam os bairros rurais. Em suas palavras, “não apenas
o catolicismo rústico brasileiro se constituiu segundo as necessidades
do bairro rural tradicional, como também a ele está associado
de maneira profunda, não sobrevivendo se por acaso o bairro rural
desaparece” (1973a:96)6.
Contudo, na atualidade, ainda se podem observar diversas formas de religiosidade,
especialmente festas populares, associadas ao catolicismo rústico
entre populações sertanejas no Brasil. Ele se manifesta de
diferentes maneiras, não somente na zona rural como também
nas cidades, e continua a apresentar-se como um dos elementos formadores
da chamada cultura rústica7
e que contribuem para a sua permanência.
Miguel
Santos (1976), em sua dissertação de mestrado sobre o
santuário de Trindade, já aponta para o crescimento das romarias
durante o desenvolvimento do processo de urbanização: primeiramente
quando a capital é transferida para Goiânia, em 1934 e, posteriormente,
quando a sede federal transporta-se para Brasília, em 1960.
Atualmente,
a Festa do Divino Pai Eterno é um grande evento de massa, organizado
pelos missionários redentoristas, que dirigem o santuário
desde o final do século XIX 8,
pela Prefeitura de Trindade e por comerciantes. Por parte dos padres, eles
realizam missas de hora em hora nas duas igrejas da cidade, procissões
todas as manhãs, e também confissões. A cidade fica
repleta de camelôs, barracas de comida, bebida e de jogos, parques
de diversões, shows e bailes.
A pesquisa
de Carlos Steil sobre o santuário de Bom Jesus da Lapa, na Bahia,
indica também que, ao contrário da previsão de Queiroz,
o processo de urbanização e as mudanças contemporâneas
na economia, na política e na cultura no campo não estimulam
o desaparecimento dessas manifestações religiosas de caráter
popular. Na verdade, vê-se um aumento do número de romeiros
nas últimas décadas. “As mudanças sociais nas relações
sociais no campo e o processo explosivo de urbanização têm
feito crescer o número de romeiros” (Steil,
1996:294).
Para
desenvolver uma etnografia da romaria, então, é preciso analisá-la
como um processo múltiplo, que abarca diferentes dimensões
(religiosas, sociais, econômicas, culturais) e mobiliza a vida social
dos romeiros de Mossâmedes na sua totalidade. A idéia é
percorrer três momentos distintos, seguindo o caminho do ciclo da
peregrinação – o lugar de origem dos romeiros, a viagem propriamente
dita e a festa no santuário – e não delimitar o campo de
investigação apenas ao evento oficial da Festa do Divino
Pai Eterno, em Trindade, do qual a romaria de Mossâmedes seria apenas
um complemento.
Como
um lugar de encontro, a romaria, para além do seu aspecto religioso,
conforma uma ampla rede de sociabilidade e comunicação entre
seus atores. Pelo menos uma vez ao ano, eles têm a oportunidade não
apenas de participar das comemorações à Santíssima
Trindade mas também de experimentar um estilo de vida diferenciado
que dialoga, de certa forma, com as culturas urbanas, como se poderá
compreender melhor ao longo do texto9.
No
caminho de Trindade
A
romaria para a Festa do Divino Pai Eterno começa com os preparativos
no município de Mossâmedes, tanto na zona rural quanto na
cidade. Participar ativamente da romaria significa realizar determinadas
atividades antes, durante e depois da viagem e contribuir para que ela
tenha realmente êxito. Não basta ser devoto do Divino Pai
Eterno, para ser romeiro é preciso trabalhar e cumprir certas regras
de sociabilidade.
Em
sua maioria, os romeiros possuem pequenas propriedades na zona rural, o
equivalente a terras até aproximadamente 100 hectares em fazendas10
de criação de gado, e sustentam-se com o trabalho familiar.
Mesmo aqueles que moram na cidade possuem pequenas propriedades ou trabalham
no campo como diaristas.
A pequena
cidade de São José de Mossâmedes nasceu da formação
de um aldeamento jesuítico nos tempos da colonização,
em meados do século XVIII. Atualmente, a cidade é uma extensão
do campo, onde se encontra um pouco mais da metade da população
do município. As atividades pecuárias – de leite e de corte
– são a base da sua economia e a agricultura (arroz, milho, feijão,
mandioca, cana-de-açúcar) está voltada, de modo geral,
para a subsistência.
Nos
dias que prenunciam as festividades, os trabalhos para a festa alternam-se
com os realizados no cotidiano. Os trabalhos são divididos entre
homens e mulheres. Estas permanecem muitas horas na cozinha preparando,
além dos almoços e jantares rotineiros, carnes, doces, bolos
e salgados para a festa. Esse é um momento em que mães, filhas,
noras e cunhadas encontram-se com mais freqüência e trabalham
de forma coletiva. Elas também aproveitam a ocasião para
contar casos, piadas e principalmente fofocas. A conhecida expressão
“lugar de mulher é na cozinha”, tão pejorativa no universo
urbano das grandes cidades, revela-se aqui uma realidade cotidiana que
não é vista nem como ultrapassada nem como negativa. A cozinha
é predominantemente o lugar das mulheres. Principalmente na zona
rural, elas ficam dias sem visitar o curral, as roças, os pastos
e os bois, lugar do trabalho masculino. Por sua vez, os homens circulam
pela cozinha durante todo o dia, seja para comer, seja para tomar café,
conversar com a esposa ou receber alguma visita. No dia a dia, eles estão
sempre de passagem entre a casa, a cozinha e a fazenda, e elas circulam
apenas pelos espaços da casa e do terreiro. Assim, os homens têm
uma maior mobilidade em relação às mulheres e, como
se verá mais adiante, esta situação tende a alterar-se
durante a romaria.
Enquanto
as mulheres preparam o banquete para a festa, fora da cozinha os homens
dedicam-se aos trabalhos no curral (produção de leite) e
nas roças, e à montagem dos carros de bois, que vão
conduzi-los até o santuário. Um cuidado especial com o carro
é que ele deve cantar. A roda deve emitir um som característico
– o chiado – que pode ser ouvido e identificado a quilômetros de
distância. Se a roda não canta, o carro morreu, acabou, explica
um velho carreiro.
Desse
modo, desde os preparativos até as festividades no santuário
de Trindade, os trabalhos não são suspensos. Na situação
de festa, a obrigação do trabalho de cada dia torna-se voluntária.
Como nos diz Victor Turner (1974b), nas peregrinações
particularmente cristãs, a obrigação transforma-se
em uma experiência desejável.
No
caso da romaria de Mossâmedes, o aumento do volume de trabalho em
função da festa cria uma situação prazerosa
e necessária, revelando que esse aparente sacrifício é
concebido como um valor. Nesse sentido, o trabalho não se opõe
à festa mas a complementa. Ambas categorias revelam-se constitutivas
de um certo ethos camponês, no qual se insere o universo de valores
dos romeiros.
Segundo
Klaas Woortmann, há três categorias comuns às populações
camponesas, relacionais e interdependentes, que constituem a sua ordem
moral: a terra, a família e o trabalho, vinculadas aos princípios
de honra e hierarquia. “O importante, contudo, não é que
sejam comuns – pois elas estão presentes, também, em culturas
urbanas – mas que sejam nucleantes e, sobretudo, relacionadas, isto é,
uma não existe sem a outra. Nas culturas camponesas, não
se pensa a terra sem pensar em família e o trabalho, assim como
não se pensa o trabalho sem pensar a terra e a família. Por
outro lado, essas categorias se vinculam estreitamente a valores e princípios
organizatórios centrais, como a honra e a hierarquia” (Woortmann,
K., 1990:23).
Em
Mossâmedes, partindo do modelo de Woortmann, o trabalho, a família
e a terra também são categorias fundamentais para a compreensão
de sua organização social. Mas, em relação
às formas de sociabilidade, uma outra categoria revela-se importante:
a festa. Nessa realidade etnográfica específica, ela se mostra
como um dos componentes centrais do universo de valores dessa população
camponesa. A festa constrói uma rede de sociabilidade que dialoga
com diferentes dimensões do cotidiano, inclusive o trabalho, e sintetiza,
rearranja e intensifica as relações na esfera das relações
de gênero, da família, da vizinhança, como será
desenvolvido mais adiante.
A partida
da romaria é feita na casa do seu Tota, na fazenda Paraíso,
que possui um grande prestígio no município, especialmente
porque ele é um dos romeiros mais antigos, que participa da viagem
há mais de quarenta anos. Tradicionalmente, os carros de sua família
ocupam a primeira posição e guiam os demais pelas estradas,
formando uma comprida carreata. A sua presença na romaria mostra-se
de fundamental importância para os demais participantes; ele é
visto como um líder no período da festa e representa, acima
de tudo, a garantia de sua perpetuação.
De
sua casa, os romeiros saem para uma viagem de seis dias, por estradas de
terra, e acampam em fazendas até chegar ao santuário. Uns
atrás dos outros, os carros de bois, numa ordem que quase nunca
é interrompida, seguem num balanço vagaroso e cantam, cada
um à sua maneira, até chegar aos pousos. A romaria passa
por algumas pequenas cidades: Americano do Brasil, Capelinha (vilarejo)
e Avelinópolis.
A ordem
dos carros obedece a uma relativa hierarquia, determinada pela tradição.
A posição específica de cada carro depende do período
em que o carreiro está participando da viagem. Assim, os primeiros
da fila são aqueles que já fazem a viagem há muitos
anos e os últimos são aqueles que começaram a participar
da jornada há pouco tempo e ainda não estão familiarizados
com as suas regras. Então, na frente, vão os carros da família
do seu Tota, depois alguns carreiros mais antigos e assim por diante. Na
verdade, não existe uma ordem rígida que determine uma posição
específica para cada carreiro, que pode estar aleatoriamente um
pouco mais na frente ou mais atrás, dependendo do ano. Além
disso, cada família extensa11,
que tem mais de um carro, procura posicionar seus carros uns atrás
dos outros.
Percorrendo
em média 25 quilômetros por dia, ao cair da tarde, os romeiros
chegam aos pousos – terras de fazendeiros previamente negociadas e escolhidas
pelo líder. Em cada pouso, repetem-se as mesmas atividades. Se,
pelas estradas, os homens realizam o trabalho de carreiro, nos pousos,
as mulheres cumprem também a sua obrigação, num ato
de reciprocidade, e fazem a janta.
As
refeições são momentos de reunião familiar.
Interessante notar que, na maioria das barracas, as mulheres utilizam os
mesmos utensílios domésticos para preparar as comidas: fogão
industrial em caixote de madeira, panela de pressão, panelas de
ferro, tacho e latões para armazenar água. E a dieta também
não varia muito entre as famílias (arroz, feijão,
carne seca, carne de vaca cozida, feijão, repolho, tomate e macarrão).
Nos
pousos, cada grupo familiar ampliado, ou melhor, cada família extensa,
dorme e come de baixo do mesmo teto. Essa é uma situação
peculiar em relação ao cotidiano, em que cada família
nuclear possui a sua própria casa e, algumas vezes, a sua propriedade.
A romaria possibilita uma ampliação da convivência
entre parentes, intensificando as relações familiares.
Depois
da janta, em cada pouso, os romeiros reúnem-se para a reza. As orações
são organizadas por duas jovens mulheres, irmãs, ambas noras
do seu Tota. Antigamente, as famílias faziam, individualmente, a
reza do terço nas barracas, sem compartilhar as orações
com todo o grupo de romeiros. Cada um fazia sua devoção na
barraca. Cada um fazia seu pedido a Deus, conta uma romeira idosa.
Somente
há dez anos as rezas passaram a ser coletivas, estimuladas por essas
jovens mulheres, que circulam entre as barracas chamando todos os romeiros.
As orações apresentam uma estrutura definida: partilha dos
acontecimentos do dia, uma intervenção de um representante
da Igreja, leitura do Evangelho, o Pai Nosso, às vezes seguido de
uma Ave Maria cantada, intercalando vozes femininas e masculinas, e a música
principal que é cantada durante todo o percurso: Romaria12.
Essas
rezadeiras, leigas, são coordenadoras de um grupo católico
que se reúne na zona rural de Mossâmedes, e que parece ter
sido originado de uma proposta de formação de uma Comunidade
Eclesial de Base. Esse grupo, que se autodenomina comunidade, faz parte
de um projeto mais amplo da Diocese de Goiás que, a partir dos anos
1980, começou a desenvolver uma pastoral popular para “dar voz”
aos trabalhadores do campo. O objetivo era descobrir “uma religiosidade
comum que traduzisse a ‘caminhada’, a luta popular em que se envolviam
ao mesmo tempo os agentes da base (os lavradores e outros) e os agentes
de pastoral (os padres e outros)” (Brandão;
1985:158).
A comunidade,
que tive a oportunidade de observar na fazenda Paraíso, não
possui mais um vínculo direto com os projetos originais das Cebs,
de caráter político e militante. Durante as reuniões,
não se discutem nem se põem em prática as questões
político-religiosas divulgadas pela Teologia da Libertação.
Contudo, durante a romaria, o espírito da “caminhada” conduz as
orações. As coordenadoras, ao lado de padres, monges e seminaristas
visitantes, procuram estimular os seus participantes a expressarem suas
opiniões sobre a experiência da romaria, e sobre a leitura
do Evangelho do dia.
As
rezas realizadas nos pousos indicam que há uma reelaboração
de diversas formas de oração que foram incorporadas pelos
romeiros. De um lado, as organizadoras leigas procuram incentivar a participação
de todos nas celebrações e, de certo modo, permanecem ligadas,
pelo menos no discurso, nos princípios comunitários das Cebs,
ainda que não haja uma clara preocupação política
e militante. De outro, parece existir uma certa independência das
rezas em relação às celebrações realizadas
pelos agentes eclesiásticos. Mesmo que alguns padres acompanhem
a romaria, no momento das rezas eles participam apenas de maneira periférica
como “assistentes” das coordenadoras. Ou seja, as orações
são organizadas de maneira relativamente autônoma em relação
aos padrões oficiais da Igreja Católica e apontam, portanto,
para a permanência de um aspecto fundamental do catolicismo rústico
tal como foi definido por Maria Isaura Pereira de Queiroz
(1973a): a ausência de padres.
Depois
das orações, são os jovens que animam a festa noturna,
com bailes, música e paquera. O baile começa antes da reza,
é suspenso durante as orações coletivas, e depois
continua noite adentro. Quando não tem baile, grupos de jovens costumam
reunir-se ao redor de carros ou de fogueiras para ouvir músicas.
Antes
do nascer do sol, todos se preparam para continuar a jornada. As mulheres
fazem um almoço matinal, todas as bagagens retornam para os carros
e juntam-se os bois. À medida que a carreata vai saindo do pouso,
formam-se alguns grupos: além dos carreiros, mulheres casadas que
andam a pé, moças solteiras, também a pé e
jovens a cavalo. Também há pessoas que estão pagando
promessas, que fazem todo o percurso a pé. Os carreiros e candeeiros
permanecem próximos aos carros, para que os bois não desviem
do caminho certo13.
Em
relação às mulheres, há duas maneiras de fazer
o percurso: dentro ou fora do carro. Na primeira, são as mães
com crianças pequenas ou aquelas que preferem ficar com seus esposos
ou as que simplesmente não gostam de andar. Na outra, estão
as que optaram andar na frente, e entre elas as que estão pagando
promessas. Nesse último caso, as mulheres andam em grupos nos quais
a presença masculina é quase nula. As solteiras preferem
distanciar-se das casadas, porque a viagem é um momento propício
para paquerar e namorar os rapazes.
Certa
vez, uma das mulheres que nos primeiros dias andava a pé resolveu
acompanhar o marido, ao lado do carro de bois, e foi alvo de comentários
como ela não larga o marido. Largar o marido, mais para umas e menos
para outras, revela-se um fato extraordinário, já que o casamento,
para essas mulheres, implica permanecer em casa a maior parte do tempo.
Durante a romaria, elas têm a oportunidade de afastar-se temporariamente
do marido, mas este não perde de vista a sua esposa, pois sabe que
está na frente, no grupo das casadas, e portanto fora do risco do
adultério. Em contrapartida, as mulheres também estão
sempre de olhos abertos em relação aos maridos. Nas palavras
de uma romeira, homem é bicho custoso.
No
caminho, entre um pouso e outro, forma-se uma rede de sociabilidade que
redimensiona as relações sociais estabelecidas no cotidiano.
Abre-se uma brecha para as mulheres casadas afastarem-se temporariamente
do marido, para as moças se encontrarem com rapazes sem a presença
da família, para os homens mostrarem sua masculinidade nas cavalgadas
e suas habilidades de carreiro. Ao mesmo tempo, formam-se novas relações
entre romeiros de diferentes municípios e entre romeiros e moradores
das fazendas em que passa a romaria.
Na
estrada, os moradores das fazendas e das cidades esperam os romeiros com
garrafas de água e abrem suas casas para o uso dos banheiros. Sabe-se
aproximadamente o horário em que a romaria passa e as famílias
ficam na beira da estrada para ver os carros de bois. Pressupõe-se
uma certa hospitalidade em relação aos moradores dos lugares
em que passam os romeiros. Só encontramos gente boa no caminho,
comentou uma romeira de Americano do Brasil, que estava cumprindo promessa,
que acompanhava o grupo de Mossâmedes. Essas cidades de passagem
criam uma sociabilidade momentânea fundamental, formando pontos de
encontro entre moradores e romeiros. “Nesse comércio particular
– troca de víveres e abrigo por orações –, o sacrifício
da caminhada adquire o seu sentido próprio, sacra facere, faz sagradas
as coisas e pessoas ao redor” (Fernandes; 1994:
25).

Lugar
de encontro
A rede
de sociabilidade que se forma na romaria amplia as relações
dos romeiros para fora da esfera restrita do seu lugar de origem e, ao
mesmo tempo, dinamiza as relações familiares, entre famílias
e entre os gêneros. A romaria, nesse sentido, mostra-se como um lugar
de encontro.
Pierre
Sanchis, em seus estudos sobre peregrinações e festas populares
em Portugal, aponta para uma noção de “estrutura de encontro”
das romarias: estas revelariam os permanentes conflitos entre as formas
de religiosidade popular e aquelas consideradas oficiais pela Igreja Católica.
Desse maneira, o autor procura demonstrar que as romarias formam-se por
uma ambigüidade intrínseca de conflito e compatibilidade entre
uma religião popular e a religião católica oficial.
“Essa ambigüidade fundamental, na visão das coisas e no comportamento
cultual, terá tendência a permanecer viva, de uma vida subterrânea,
para emergir e se alojar, desta vez visivelmente, em qualquer nicho de
legitimidade oferecido pelas manifestações religiosas aceitas
pela hierarquia. A principal, desde então e até hoje, será
a romaria” (Sanchis, 1973:10). Segundo ele, a romaria,
no caso específico português, representaria um espaço
de tolerância e reivindicação da religião popular
como resposta à ordenação e regulamentação
da religião oficial.
No
caso de Mossâmedes, para além da religião, o processo
da romaria abarca outras dimensões da vida social dos seus atores,
entre elas o parentesco, a sociabilidade (familiar e de vizinhança),
o trabalho, o consumo. Esta perspectiva tem sua inspiração
na teoria de Victor Turner. Para ele, as peregrinações, de
modo geral, devem ser compreendidas como um processo social que apresenta
uma estrutura temporal determinada:
lugar
familiar – lugar distante – lugar familiar
O autor
pensa essa estrutura a partir da teoria de Van Gennep
(1969) em relação aos rituais de passagem, que possuem três
fases distintas: separação – margem – reagregação.
Resumidamente, nesses ritos, o indivíduo é posto à
margem da sociedade em que está inserido, por um tempo determinado,
para depois ser reagregado a ela, assumindo um novo papel social. Mas enquanto
esses ritos introduzem um estado permanente a peregrinação
precisa ser repetida todos os anos (Steil, 1996).
Turner
faz essa analogia para mostrar que, nas romarias, forma-se uma situação
liminar na qual o indivíduo liberta-se das obrigações
cotidianas e vive temporariamente um novo modelo de vida. “A romaria libera
o indivíduo dos constrangimentos cotidianos obrigatórios
de status e papéis, o define como um ser humano integral com capacidade
de fazer escolhas livres, e dentro dos limites de sua ortodoxia religiosa,
lhe apresenta um novo modelo de vida, de fraternidade humana” (1974b:107).
Este
estado de liminaridade, que se encontra “no meio e entre as posições
atribuídas e ordenadas pela lei, pelos costumes, convenções
e cerimonial” (Turner, 1974a:117), permite, pois
a experiência da communitas que, segundo o autor, pode ser analisada
a partir de três diferentes tipos. A primeira, existencial ou espontânea,
resulta de um sentimento momentâneo de uma identidade coletiva e
homogênea, como se os romeiros fossem, em determinados momentos nos
santuários, membros de uma irmandade. A segunda, normativa, relaciona-se
à necessidade de organização e controle social de
seus membros por meio de regras determinadas. A terceira, ideológica,
refere-se a modelos e projetos utópicos baseados na communitas existencial14.
De
acordo com a teoria de Turner, a communitas normativa é a predominante
porque, nas romarias, a distância geográfica entre o lugar
de origem e o santuário, além do grande número de
participantes, compele à organização e à disciplina.
Todavia, esta situação não elimina as regras da estrutura
social mas as simplifica. A experiência da communitas, fons e origo
da estrutura, põe em questão suas regras, dialoga com ela
e sugere novas possibilidades. Para Turner, essa ambigüidade sugere
um compromisso mútuo entre a estrutura15
e a communitas, um movimento entre a obrigação e a
voluntariedade, a norma e o desvio, o sagrado e o secular.
Segundo
Carlos Steil, a experiência da communitas não esgota o sentido
da peregrinação porque essa idéia rompe justamente
com as fronteiras de classe, de idade e de sexo das estruturas sociais
e pressupõe uma certa homogeneidade e uma espécie de igualitarismo
entre os romeiros. Sua abordagem aproxima-se de John Eade
e Michael Sallnow (1991), que pensam a romaria como um campo no qual
competem diversos discursos, religiosos e seculares, oficiais e não-oficiais
(realm of competing discourses). Eade e Sallnow argumentam que, nas peregrinações
de tradição cristã, ao invés de uma atenuação
ou dissolução dos laços sociais (que se observa na
communitas), há um reforço tanto do consenso quanto da separação,
tanto dos laços quanto das distinções sociais.
Partindo
da perspectiva desses autores, Carlos Steil argumenta
que a romaria comporta múltiplas divergências internas e pode
ser melhor compreendida a partir da noção de totalidade contraditória:
uma dinâmica da inclusão das diferenças, uma articulação
entre o local e o universal, a tradição e a modernidade,
a convenção e a invenção. Desse modo, ela permite
a formação de um sistema de comunicação, isto
é, de um espaço de trocas culturais, que inclui, mas não
privilegia, a experiência da communitas.
A descrição
etnográfica da romaria de Mossâmedes aqui elaborada possibilita
apresentar um contraponto às interpretações de Steil,
Eade e Sallnow, sem, no entanto, adotar a abordagem de um único
autor. Esta peregrinação revela uma dinâmica específica
que, antes de mais nada, não cria um estado que rompe com o anterior,
mas promove o diálogo entre situações heterogêneas,
dentro e fora do contexto da festa. Assim, ela contribui para reforçar
a idéia de que a experiência da communitas não subverte
completamente a ordem estabelecida e não oferece um modelo de vida
mais homogêneo no qual as distinções sociais atenuam-se.
Na verdade, a communitas pode ser vista como um ideal a alcançar
– um lugar no qual todas as famílias, vizinhos, amigos viveriam
em harmonia –, mas que está longe de propor concretamente regras
e padrões diferenciados na duração da romaria16.
Portanto, apesar de se apresentar como um lugar de encontro – no qual impera,
à primeira vista, a experiência da communitas –, a romaria
de Mossâmedes também se mostra como um espaço de reafirmação
de diferenças sociais e permite o estabelecimento de relações
de alteridade.
Além
disso, ela sugere uma nova possibilidade para se pensar a estrutura da
peregrinação proposta por Victor Turner (lugar familiar –
lugar distante – lugar familiar) porque o percurso que faz a ligação
entre esses dois lugares diferentes também deve ser levado em conta
para compreender a dinâmica da festa na sua totalidade. Nesse sentido,
sugiro um desdobramento desta estrutura, desmembrando o lugar denominado
por Turner como “distante” que, em princípio, poderia ser entendido
como homogêneo:
lugar
familiar – travessia – santuário – lugar familiar
No
momento em que a romaria sai do seu lugar de origem e cria uma situação
que difere do cotidiano, ela forma dois tipos de contextos – na estrada
e no santuário –, construídos de diversas maneiras e que
mantêm uma relação também diferente com o lugar
familiar, de origem dos romeiros.
Na
capital da fé
Quando
chegam ao santuário, depois de sete dias de viagem, os romeiros
de Mossâmedes, junto com grupos de outros municípios, participam
de um desfile que inaugura o início das festividades no santuário
de Trindade numa quinta-feira17.
A entrada triunfal na cidade sagrada em carros de boi representa uma participação
fundamental na festa, celebrando e valorizando não somente este
antigo meio de transporte mas um símbolo central que remete à
identidade de ser romeiro e carreiro, originário da zona rural.
Assim,
os carreiros e suas famílias de Mossâmedes, Sancrerlândia,
Anicuns, Inhumas, Avelinópolis, Americano do Brasil, Damolândia,
entre outros reúnem-se na entrada da cidade e desfilam pelas ruas
principais do santuário. Geralmente, o grupo de Mossâmedes
– conhecido como um dos mais tradicionais, talvez porque possui carreiros
que fazem a romaria há mais de quarenta anos – é o primeiro
da fila e depois unem-se a ele os representantes dos demais municípios18.
Depois
do desfile, a primeira coisa que se faz é ir nos pés do Divino
Pai Eterno: a primeira coisa, quando eu toco meus bois, é ir lá
nos pés do Divino Pai Eterno, do jeitinho que eu estou na viagem,
eu posso ter poeira até dentro dos olhos. A primeira coisa que eu
faço é ir lá. A hora que eu fiz minhas preces, então,
eu venho. Aí qualquer coisa que você quiser eu já faço.
Eu vou fazer barraca, vou tomar banho, qualquer trem já me serve.
Mas até aquele momento, enquanto eu não vou lá não
está certo. Eu não cumpri minha missão (Seu José,
carreiro de Mossâmedes, julho de 1998).
O
ato de visitar a imagem sagrada é conhecido como o beijamento. Fitas
coloridas são amarradas à imagem do Divino Pai Eterno e os
devotos, em fila, beijam-nas, rezam, passam por baixo delas e fazem o sinal
da cruz. Alguns escrevem pedidos. Depois disso, os romeiros estão
livres para festar e podem entrar no universo das práticas profanas.
Segundo
Rubem César Fernandes, na cosmologia dos romeiros católicos,
tomando como exemplo os Cavaleiros do Bom Jesus – homens que vão
a cavalo de Campinas à Pirapora do Bom Jesus em romaria –, não
há separação entre as esferas do sagrado e do profano
mas uma sobreposição de ambas. Elas fazem parte de um mesmo
mundo no qual a dualidade é irredutível, “e permite sempre
a descoberta da manipulação profana nas coisas sagradas e,
vice-versa, o sacrifício pelo sagrado nas lides profanas” (Fernandes;
1983:85).
Para
fazer reverência ao santo, antes de mais nada, o romeiro deve visitar
a sua casa. Essa possível sujeição à coisa
ou à pessoa sagrada pressupõe um sacrifício que pode
ser representado de diversas maneiras: viajar em carro de bois durante
dias em estradas tortuosas, fazer a romaria a pé, entrar de joelhos
na igreja e andar nesta posição até o altar etc. Segundo
Fernandes, é a dimensão simbólica do sacrifício
que permite a passagem do plano profano, comum, ao sagrado, ideal. Se,
de um lado, o carreiro é exaltado pelos demais agentes da festa
durante o desfile de carro de bois, de outro, ele faz reverência
ao Divino Pai Eterno num ritual de sacrifício, chegando do jeito
que está na viagem para visitar a sua imagem na igreja.
A idéia
do sacrifício está sempre presente no discurso dos romeiros
quando eles se referem à romaria de modo geral. Tem-se como pressuposto
que fazer a romaria é uma penitência.
Na
romaria se torna penitência porque a gente dedica alimentação,
tudo ali vive em comum, tanto com os que a gente conhece como as pessoas
que a gente não conhece. E na comunidade a gente vive com quem a
gente conhece já e só partilha a palavra de Deus, a maioria
das vezes. E na Trindade não, além da gente partilhar a palavra
de Deus, há a caminhada, que é a penitência, e a alimentação,
né, com a maioria que a gente não conhece
(Jovem romeira de Mossâmedes, 1998).
Seguindo
a explicação acima, compartilhar as orações,
rezar, comer, viver em comum, fazer a viagem com romeiros de diferentes
regiões, com laços de parentesco e de vizinhança distintos,
implica um determinado sacrifício. Durante a festa, é preciso
criar novas formas de sociabilidade para lidar não somente com seus
parentes, compadres e amigos mas também com pessoas desconhecidas,
que são encaradas, muitas vezes, como um perigo em potencial.
Você
pode assuntar, romeiro não anda sozinho. Ao menos de dois. Uma hora
sai às vezes uma moça com velho, outra hora um menino com...
mas sair um sozinho é difícil. No ano passado, no ano retrasado,
mataram um cara bem ali (Seu José, carreiro de Mossâmedes,
1997).
O
fato de não se andar sozinho revela um cuidado especial com a cidade
onde está localizado o santuário. Nos acampamentos, os romeiros
procuram montar suas barracas nas proximidades do grupo do seu município,
o que cria uma sociabilidade segura entre pessoas conhecidas. No entanto,
nunca se deixa a barraca sozinha e sempre fica alguém tomando conta,
enquanto os outros vão passear na cidade. É preciso ficar
atento aos perigos de roubo, ainda que raros. Mesmo em uma cidade sagrada,
não se está isento dos perigos do mundo.
Padres
e missas
As
atividades religiosas do santuário de Trindade são dirigidas,
desde o século XIX, pelos padres redentoristas, cuja proposta está
diretamente voltada para um grande público, para a massa de devotos.
Os redentoristas – “especialistas em santuários”, nas palavras de
Carlos
Steil (1996) – também estão na direção
de centros como o de Aparecida, no estado de São Paulo e Bom Jesus
da Lapa, na Bahia.
Quando
se compara o santuário de Trindade com o de Aparecida e Bom Jesus
da Lapa, centros de devoção que vivem praticamente do movimento
de romeiros o ano inteiro, vê-se que ele apresenta uma peculiaridade.
Trindade só se concretiza como santuário quando vive a Festa
do Divino Pai Eterno. “O centro da vida social de Trindade é a grande
festa de julho, em que a cidade se transfigura e transborda de seus padrões
normais, marcando profundamente o calendário na dicotomia ‘antes
e depois da festa’” (Santos, 1976:33). Fora deste
período, ela volta ao ritmo normal de uma cidade do interior19,
e há apenas um pequeno movimento de romeiros aos domingos, principalmente
de Goiânia, para assistir à primeira missa do dia no Santuário
Novo.
Inserida
no catolicismo popular tradicional, a festa, originalmente, era dirigida
por leigos e as celebrações eram feitas em torno de uma capela.
Pela ausência de padres na região, até o final do século
XIX, a Igreja atuava esporadicamente em diversas vilas e pequenas cidades,
exercendo as chamadas Santas Missões. Eles faziam a substituição
de paróquias vagas, pregações na Semana Santa e desobrigas20.
Inicialmente, os padres visitavam Trindade apenas no primeiro domingo do
mês e somente a partir de 1924 a presença de um representante
da Igreja tornou-se permanente. Assim, as comunidades realizavam suas festas
de maneira independente, sem a interferência dos padres, nos moldes
de um catolicismo tradicional rural.
A tentativa
de interferir nas festividades populares por parte dos redentoristas não
se fez sem conflitos, já que a Igreja Católica pretendia
realizar uma transformação radical da religiosidade popular.
O Padre Ângelo Licati, que foi durante dez anos reitor do santuário
de Trindade, e também trabalhou no santuário de Bom Jesus
da Lapa, na Bahia, narra sua versão do conflito:
(...)
foi uma briga. A briga maior não foi por causa da religião,
foi porque a irmandade da capela ficava com o cofre e repartia entre si.
Eram quatro espertalhões, quatro coronéis, que eles comandavam
a festa. (...) Coronéis mesmo. Eles então eram os donos.
Todo povo que vinha tinha que obedecer. Então o carro que vinha,
leiloava, e repartia o dinheiro entre eles, e acabava a festa. A capela
não tinha nem vela, nem paramento, ficava lá. Esse bispo
que foi nomeado para Goiás, d. Eduardo, não aceitou mesmo.
Tem que mudar. E como ele sozinho não podia foi buscar os alemães,
nossos padres em 189421.
A
preocupação da Igreja era separar as dimensões consideradas
sagradas e profanas da festa. Contudo, um dos traços mais característicos
das festas do catolicismo popular, tradicionalmente rural, estava (e está)
na mistura, na bricolagem, de ritos e festejos de devoção
e diversão. “Apesar dos esforços da Igreja para separar uma
parte propriamente religiosa das outras, folclóricas ou das francamente
profanas, para o devoto popular o sentido da festa não é
outra coisa senão a sucessão cerimonial de todas essas situações,
dentro e fora do âmbito restrito dos ritos da Igreja” (Brandão,
1989:37).
A partir
do Concílio do Vaticano II (1962 a 1 965), a Igreja Católica
redefiniu sua postura em relação ao catolicismo popular.
As preocupações clericais voltaram-se sobretudo para as questões
sociais, estimulando a participação de leigos em suas atividades.
Essas reformas possibilitaram o desenvolvimento de correntes voltadas especialmente
para as classes populares, como a Teologia da Libertação
e as Comunidades Eclesiais de Base, de um lado, e a Renovação
Carismática, de outro.
A proposta
dos redentoristas no santuário de Trindade parece não estar
ligada diretamente a esses movimentos. O que existe é um projeto
específico dirigido para o público do santuário que
pretende abarcar a massa dos fiéis, sem distinção
econômica, política ou social. Não há propriamente
uma pastoral especializada em atender grupos específicos de romeiros
e que procure voltar a atenção para questões sociais
e políticas da população que visita o santuário.
Nos últimos anos, porém, alguns padres e leigos estão
procurando elaborar projetos pastorais em Trindade22.
Segundo
o padre Ângelo Licati, a preocupação eclesiástica
está voltada acima de tudo para o aspecto religioso: o trabalho
dos padres é esse: acolher, incentivar a fé, sustentar a
vivência cristã, renovar o compromisso com Deus nosso senhor.
Rezando
você vai conseguir o que precisa, Deus é seu pai
(Goiânia,
março de 1998). Atualmente, a principal estratégia dos redentoristas
está centrada nas celebrações oficiais, realizadas
nas igrejas, sem interferir diretamente nas formas de religiosidade popular.
Durante a festa, os padres celebram missas de hora em hora nas duas igrejas
e realizam confissões coletivas. Organizam também as Procissões
da Penitência, todas as manhãs, e uma procissão de
encerramento, no domingo à noite. Fora desse período, as
missas são realizadas em diversos horários na Igreja Matriz
e em quatro outras igrejas da cidade, de acordo com os tradicionais deveres
paroquiais.
A tendência
hoje em Trindade é concentrar as celebrações no Santuário
Novo, que pode abrigar um número muito maior de devotos do que a
antiga Igreja Matriz. No santuário, os redentoristas podem pôr
em prática os ideais desta ordem religiosa: atingir grandes assembléias
populares. E nada mais propício para ampliar a sua atuação
do que a Festa do Divino Pai Eterno.
Por
parte dos romeiros de Mossâmedes, a participação nas
missas é relativamente esporádica. Só nos últimos
seis anos é que eles começaram a freqüentar uma celebração
que foi criada especialmente para os que vieram em carro de bois e em grupos
de folias: a “Missa dos Carreiros e Foliões”. Os carreiros vão
com suas varas de ferrão, os foliões com seus instrumentos
e bandeiras, e ambos os grupos participam ativamente da celebração.
O trabalho dos redentoristas está voltado, cada vez mais, para a
criação de mecanismos e estratégias para atrair um
certo público que não costuma freqüentar a igreja nos
lugares de origem, principalmente se habitam nas zonas rurais. Há
uma preocupação em investir em determinados símbolos
populares e tornar as missas mais atrativas, em que os fiéis podem
se identificar como parte de uma mesma coletividade23.
Este projeto também reflete-se no incentivo que está sendo
dado aos carreiros para participarem do desfile de carros de bois24.
As
missas são momentos nos quais pode aparecer mais nitidamente a idéia
de communitas de Victor Turner. A diversidade dos romeiros, provenientes
das mais variadas regiões, é momentaneamente homogeneizada
e todos voltam-se para um único interesse: entrar em contato com
o sagrado por meio das orações. Assistir à missa e
entrar para ver e beijar a imagem significa interromper, por um momento,
as festividades profanas.
Como
todo centro de devoção, a famosa Sala dos Milagres atrai
muita gente. Em Trindade, ao cenário tradicional de fotografias,
quadros, pedaços de cabelos, muletas, cruzes, objetos pessoais,
cabeças, braços e pernas feitos de cera, oferecidos ao Divino
Pai Eterno por promessas cumpridas e graças recebidas, misturam-se
stands com projeções de vídeo organizadas por empresas
especializadas com imagens da festa, da cidade e especialmente das romarias
de carros de bois.
O santuário
torna-se também um local propício para as atividades de mendicância.
Em Trindade, a grande circulação de mendigos e doentes incentivou
a Igreja a criar a instituição Vila São José
Bento Cottolengo que, desde a década de 1950, acolhe centenas de
deficientes, além de prestar serviços de saúde para
a população. A Vila sustenta-se com doações,
inclusive dos romeiros de Mossâmedes que, todos os anos, oferecem
a ela toneladas de sacos de arroz e feijão.
Passeios
pelos camelôs
Além
dos ritos devocionais – beijamento, missa, procissão –, os romeiros
freqüentam bares e lanchonetes, parque de diversões, circo
e rodeio. Mas uma das maiores atrações são as barraquinhas.
A cidade torna-se um gigantesco camelódromo. Há produtos
para todas as idades, gostos e necessidades. Muitas vezes, os passeios
pelo santuário, quando já se visitou a imagem e assistiu-se
a alguma missa, resumem-se aos camelôs.
Na
verdade, os produtos comprados em Trindade têm mais importância
simbólica do que econômica. Um camelódromo montado
no santuário ganha um significado especial para os consumidores
romeiros. Importa mais onde e menos o quê está sendo comprado.
Além disso, durante a festa, Trindade oferece, para a população
que vem do interior do estado de Goiás, uma variedade de bens de
consumo que só são encontrados naquela quantidade e preço
barato nas grandes cidades.
Assim,
a “capital da fé” (o nome oficial de divulgação do
santuário) torna-se um pólo de consumo. Este deve ser entendido
nos seus múltiplos aspectos: como atividade cultural e de lazer,
religiosa e comercial. Segundo Mike Featherstone, os bens materiais não
podem ser considerados apenas utilidades mas comunicadores, que derivam
da produção e da manipulação ativa de signos.
Por exemplo, num shopping center, as mercadorias incitam desejo, fascínio
e sonhos “à medida que a curiosidade do passante é alimentada
pela paisagem em constante mutação, onde os objetos aparecem
divorciados do seu contexto e submetidos a associações misteriosas,
que são lidas nas superfícies das coisas” (Featherstone;
1995: 44).
De
modo analógico, pode-se afirmar que, para os romeiros, o camelódromo
do santuário é o seu “shopping center mambembe”. Como quer
Carlos Steil, o santuário é um espaço de trocas simbólicas
que inclui um circuito de comércio religioso, espiritual e material.
“Assim como se podem alcançar favores materiais por intermédio
de orações e penitência, também se podem alcançar
graças sobrenaturais, através de doações em
dinheiro” (1996:83).
Especialmente
entre as mulheres, um dos assuntos centrais são as compras nas barraquinhas.
Até o fim das festividades, no domingo, já se sabe onde comprar
a calça mais barata de determinado modelo, ou panelas de ferro com
o melhor preço, ou a bolsa mais bonita. Interessante observar que,
durante o dia, as mulheres circulam ao lado de suas cunhadas, irmãs
e comadres, não necessariamente em companhia dos seus maridos, que
também fazem passeios pelo santuário junto com outros homens.
No entanto, à noite, as casadas circulam pela festa ao lado de seus
esposos, ou permanecem nas barracas, e as solteiras, com autorização
dos pais, passeiam em grupos ou com os namorados. Não se pode esquecer
também que, entre um passeio e outro, elas são responsáveis
pelo preparo de todas as refeições para a família
e visitas de parentes.
Assim,
enquanto velhos e casados podem ficar nos acampamentos contando causos,
as moças e os rapazes solteiros, sempre em turmas, saem para os
bares e bailes da cidade. Em uma das avenidas existe uma concentração
de barracas, uma do lado da outra, que vendem bebidas alcóolicas
e colocam, na rua, caixas de som com músicas dançantes, no
estilo axé, forró sertanejo, dance music, e até telões
com transmissão de videoclips. Este é o lugar de maior movimento
durante a noite. Existem circuitos de bares específicos que a juventude
de Mossâmedes costuma freqüentar. Nesses lugares, em meio à
multidão, os jovens podem encontrar pessoas do seu município
e arredores. Assim, uma moça ou um rapaz pode encontrar um pretendente
da rede de relações sociais conhecidas da família.
Mas também existe relativamente uma abertura para conhecer pessoas
diferentes, que moram em outras cidades como Goiânia ou mesmo Trindade.
A
cozinha da festa
Enquanto
uma intensa movimentação acontece no centro de Trindade,
no acampamento forma-se uma outra dinâmica. O grupo de Mossâmedes
monta suas barracas num território comum e transforma-as em casas
improvisadas. De modo geral, cada barraca abriga uma família extensa,
composta de uma ou várias famílias nucleares. A sociabilidade
das barracas promove uma experiência familiar especial em que todos
os parentes podem dormir e comer debaixo do mesmo teto, conformando uma
comunidade de substância.
Nesse
sentido, alguns aspectos do mundo doméstico, da casa, são
postos em evidência, em contraposição à rua,
representada pelo santuário como um todo. Segundo Roberto
DaMatta (1997), nas situações normais e rotineiras, separamos
três visões de mundo complementares: o código da casa,
o código da rua e o do outro mundo. No primeiro, encontramos as
relações de parentesco, de intimidade, lugar propriamente
das pessoas e, principalmente, da mulher; no segundo, um código
regulado por leis impessoais, pelo mercado, lugar público onde as
pessoas são identificadas como indivíduos; o terceiro refere-se
à síntese dos outros dois, espaço de renúncia
do mundo com suas dores e ilusões, que se refere aos momentos extraordinários,
das festas e dos rituais.
Tendo
como referência a classificação de DaMatta, no acampamento
em Trindade, de um lado, reproduzem-se as mesmas atividades domésticas,
cotidianas, como o preparo das comidas; de outro, e ao mesmo tempo, transformam-se
essas atividades pela própria dinâmica da festa. Se as mulheres
continuam exercendo as funções de donas de casa, os homens,
por sua vez, interrompem o trabalho de carreiro. Assim, a tradicional divisão
do trabalho entre os sexos permanece, mas adaptada ao contexto festivo.
Além
disso, a romaria transpõe para o mundo da festa uma parte fundamental
do seu cotidiano: o universo da cozinha, lugar feminino e, ao mesmo tempo,
da mais íntima convivência social entre parentes. Na festa
de romaria, a cozinha está representada pelo interior das barracas.
Mesmo durante a viagem, é como se os romeiros levassem, nos e com
os carros de bois, aqueles elementos mais significativos da estrutura social.
Dessa
maneira, o fogão simboliza um elemento fundamental do universo dos
romeiros e, em particular, do feminino. A presença do fogão
dentro das barracas, tanto nos pousos quanto no acampamento no santuário,
representa uma unidade familiar. Cada família nuclear ou extensa
– que dorme e come na mesma barraca – possui o seu próprio fogão,
mesmo que seus membros estejam viajando com mais de um carro de bois. É
o caso, por exemplo, da família do líder: cada filho viaja
com seu próprio carro de bois, mas há apenas um fogão
para toda a família, no qual as mulheres compartilham o preparo
das refeições. Mas há outra família, em que
as mulheres, (duas cunhadas, casadas com dois irmãos) cozinham juntas
no mesmo fogão durante a travessia e, depois, separam as cozinhas
em Trindade e passam a fazer a comida separadamente, para seus maridos
e filhos.
Se,
durante a viagem, homens e mulheres reproduzem algumas atividades rotineiras,
o trabalho com os bois e o preparo dos alimentos, em Trindade, as mulheres
continuam cozinhando e arrumando a “casa”, enquanto os homens, por sua
vez, suspendem o trabalho com os bois, já que os animais permanecem
em pastos nas redondezas da cidade. No acampamento, durante o dia, podem-se
observar mulheres lavando roupas em bacias, outras areando panelas e cozinhando
– atividades comuns no cotidiano que aqui são improvisadas. Os homens
fazem os serviços braçais mais pesados, como descarregar
bagagens e mantimentos, buscar água em latões, além
de comprar alguns alimentos no centro da cidade.
A romaria,
então, não elimina propriamente as posições
sociais. No tempo da festa, ao mesmo tempo em que afirma o lugar social
de cada participante, associado ao fato de ser homem ou ser mulher, casado
(a) ou solteiro (a), apresenta novos arranjos para as relações
estabelecidas pela rotina.
Se,
na festa, os romeiros mantêm uma proximidade que intensifica as relações
de intimidade e cria grupos de sociabilidade específicos, depois
da intensa união que mantiveram durante a romaria, as famílias
dispersam-se em suas casas, na fazenda ou na cidade, e suas relações
diluem-se em meio a outras relações, articuladas por meio
do parentesco, do compadrio, da terra e do gado, da vizinhança e
das relações com as cidades.
O fim
da romaria fecha o ciclo da Festa do Divino Pai Eterno e inaugura o retorno
dos romeiros para as atividades rotineiras em Mossâmedes. Das artes
mais tradicionais de cozinhar, rezar, fazer romaria em carro de bois aos
camelôs, shows e videoclips, Trindade termina suas comemorações
ao Divino Pai Eterno, depois de nove dias de festa, com muito lixo nas
ruas e a expectativa dos romeiros de retornar no próximo ano25.
Considerações
finais
De
forma atual, a romaria oferece a possibilidade para seus participantes
de experimentarem um estilo de vida diferenciado e de estabelecerem redes
de relações que intensificam, aglutinam e repensam as relações
de intimidade/identidade e de alteridade. De um lado, há uma preservação
dos laços familiares, condensando a unidade familiar até
mesmo num único espaço físico da barraca (nos pousos
e nos acampamentos). De outro, e ao mesmo tempo, há uma maior elasticidade
do canal de comunicação entre redes de relações
que se diferenciam no cotidiano.
A romaria
reúne pessoas de todas as faixas etárias, inclusive um grande
número de jovens, famílias inteiras, dos avós aos
netos, parentes e compadres, padres e pagadores de promessa, patrões
e peões, gente da cidade e gente da roça. Nesse grande encontro,
que possibilita também desencontros ocasionais entre homens e mulheres,
a vitalidade da cultura rústica ou caipira é celebrada e
renovada.
A rearticulação
de formas de sociabilidade femininas e masculinas possibilita repensar
a separação entre homens e mulheres nos momentos de trabalho.
Esta divisão só faz sentido na relação com
os períodos festivos nos quais se formam grupos nitidamente diferenciados
pelo gênero e pela situação social (casados e solteiros).
Na verdade, há uma nova organização das redes de sociabilidade
que não excluem aquela estabelecida no cotidiano. Em outros termos,
as categorias do trabalho e da família, neste ethos camponês,
estão intimamente ligadas à categoria da festa. Assim, ao
invés de eliminar as posições sociais estabelecidas
no dia a dia, tornando-as mais homogêneas, mesmo que haja uma proposta
de vida comunitária que, de certa maneira, aproxima todos os romeiros
provenientes de Mossâmedes, a romaria reforça determinados
papéis atribuídos a cada um dos sexos, a cada faixa etária
e aos membros das famílias, e ainda destaca certos códigos,
como o da cozinha.
Esse
revigoramento daquilo que é culturalmente tradicional não
impede a procura por formas de lazer urbanas, como realizar passeios pelos
camelôs durante a festa no santuário e fazer compras. Consumir
e transitar entre “vitrines” faz parte da prática sagrada da romaria.
Além disso, alguns elementos do catolicismo rústico manifestam-se
e perpetuam-se como uma forma de organização social e de
religiosidade popular dentro de um contexto mais amplo de uma celebração
de massa. Para os romeiros de Mossâmedes, rezar, comer, socializar,
namorar, participar de missas, divertir-se, visitar as barracas e comprar
são todos elementos fundamentais de uma mesma festa.

Dessa
maneira, de um lado, a festa mostra-se um espaço privilegiado para
a compreensão do universo camponês e para sua atualização,
e, de outro, para o estabelecimento de trocas entre valores e práticas
distintos, rurais e urbanos. Em outras palavras, ela se apresenta como
um lugar de encontro não somente entre seus atores mas também
entre visões de mundo e estilos de vida distintos, relativos aos
mundos do campo e da cidade. Nesse sentido, a criação do
novo, neste universo camponês, não emerge necessariamente
de uma relação estática ou passiva com a sociedade
abrangente mas de um processo interno e externo de permanência e
transformação.
Texto
originalmente publicado na revista Religião e Sociedade, 22/2, Rio
de Janeiro, 2002.
Notas
1
“Folia da comunidade”, autoria de Zé Modesto, Mingas e Carlinho/Mossâmedes.
2
A Festa do Divino Pai Eterno comemora uma das imagens da Santíssima
Trindade – o Pai, de um lado, o Filho, de outro, e a Virgem Maria no meio,
coroada pela pomba branca do Espírito Santo. Essa celebração
tem sua origem em um suposto milagre, no qual um casal de camponeses teria
encontrado um medalhão de barro gravado com a imagem, enquanto roçava
o pasto – história que faz parte de um quadro de narrativas entre
os santuários espalhados pelo Brasil, que apresentam relatos sobre
aparições milagrosas de imagens de santos justificando o
início daquela devoção.
3
Essa noção de cultura urbana refere-se à definição
de José Guilherme Magnani, como “um conjunto de códigos induzidos
por e exigidos para o uso de equipamentos, espaços e instituições
urbanas e responsáveis pelo desempenho de formas de sociabilidade
adequadas” (1998: 58). Essa noção abrange também o
conjunto de conhecimentos usados para determinados recursos, bens e serviços
oferecidos pela cidade.
4
Maria Isaura P. de Queiroz (1973a) define o catolicismo rústico
como formas de religiosidade populares católicas baseadas nas festas
coletivas, danças, rezas, romarias que se realizam, tradicionalmente,
sem a interferência direta de padres ou representantes oficiais da
Igreja. Esse catolicismo está baseado no culto aos santos, realizado
especialmente durante as festas de padroeiro.
5
Os bairros rurais são definidos como um “agrupamento de algumas
ou muitas famílias, mais ou menos vinculadas pelo sentimento de
localidade, pela convivência, pelas práticas de auxílio
mútuo [mutirão] e pelas atividades lúdico-religiosas”
(Candido, 1987:62).
6
É importante ressaltar que Maria Isaura P. Queiroz, e também
Antonio Candido, estavam preocupados em apreender os traços característicos
das sociedades ditas rústicas, principalmente no interior de São
Paulo, e registrar suas especificidades já que, para os autores,
a tendência era que, pelo avanço das cidades, em um período
de importantes transformações no meio rural brasileiro, elas
corriam o risco de desaparecer. Seus trabalhos tiveram bastante influência
dos chamados estudos de comunidade (Hermann, 1948; Nogueira, 1962; Pierson,
1951; Wagley, 1957; Willems e Mussolini, 1952; Willems, 1947),
que estavam preocupados em investigar as sociedades rurais tradicionais,
até então vistas como “isoladas” da sociedade abrangente
e do contato com as grandes cidades.
7
Nas palavras de Antonio Candido, “o termo rústico é empregado
aqui não como equivalente de rural ou de rude, tosco, embora os
englobe. Rural exprime sobretudo localização, enquanto ele
pretende exprimir um tipo social e cultural, indicando o que é,
no Brasil, o universo das culturas tradicionais do homem do campo” (1987:21,
grifos do autor).
8
A ordem religiosa dos padres redentoristas também está na
direção dos santuários de Aparecida, em São
Paulo, de Bom Jesus da Lapa, na Bahia e São Francisco das Chagas,
em Canindé, no Ceará.
9
A maioria dos dados apresentados aqui foi resultado de pesquisas de campo
realizadas em 1997, 1998 e 1999 que foram feitas para a minha dissertação
de mestrado, defendida em 2000, A romaria do Divino Pai Eterno – uma festa
para a cidade. Em campo, procurei seguir, basicamente, o clássico
método da observação participante, convivendo com
os moradores e participantes das festas e procurando observar seus modos
de vida, comportamentos, crenças, hábitos, práticas,
ou, como queria Bronislaw Malinowki, “vivendo mesmo entre os nativos”.
10
A zona rural de Mossâmedes está dividida em várias
sub-regiões denominadas fazendas. Esse é um termo nativo
que representa grandes porções de terra, antigamente pertencentes
a um único proprietário, que hoje estão distribuídas
em pequenas propriedades, cada uma com seu respectivo dono. Para saber
mais sobre o desenvolvimento sócio-histórico das fazendas
nas regiões sertanejas do Brasil, vale a pena consultar o artigo
de José de Souza Martins “A vida privada nas áreas de expansão
da sociedade brasileira” in História da Vida Privada, vol. 4, Companhia
das Letras, SP, 1998.
11
O termo família extensa refere-se, aqui, a um conjunto de famílias
nucleares, que se formaram pelos filhos que casaram e saíram da
casa dos pais para criar uma nova família nuclear em uma outra pequena
propriedade. O termo família nuclear aproxima-se da “família
elementar” de Radcliffe-Brown – o pai, a mãe e seus filhos solteiros.
12
Autoria de Walter José, compositor goiano, contratado pelos padres
redentoristas para compor diversas músicas para a Festa do Divino
Pai Eterno. Entre as várias que são lançadas e divulgadas
todos os anos, a música Romaria foi aquela que ganhou uma grande
repercussão e é conhecida pela maioria dos romeiros, originários
do estado de Goiás.
13
São dois homens que conduzem cada carro. O carreiro posiciona-se
ao lado dos bois e conduz os animais com uma comprida vara com um chocalho
e um espeto na ponta. O candeeiro fica na frente dos bois, também
segurando uma vara e guiando a direção do carro. Geralmente,
um menino começa na profissão como candeeiro e depois torna-se
carreiro, evidenciando uma hierarquia de funções.
14
Alphonse Dupront aprofunda a noção de communitas ideológica
de Turner. Para Dupront, a peregrinação forma-se por “um
grupo humano dotado de uma irresistível pulsão comum, movido
por uma força que o ultrapassa à procura de sua própria
sacralização” (1987:406). Ele pensa na formação
de uma sociedade peregrina que, para além das fronteiras de sexo,
idade, hierarquia, busca uma aproximação com os poderes sobrenaturais
do sagrado. O autor enfatiza a idéia de uma experiência, acima
de tudo, religiosa que, percorrendo um espaço até o lugar
sagrado, permite fazer uma transformação misteriosa e espiritual.
“Transmutação do homem. Transmutação do espaço”
(idem:375).
15
A noção de estrutura para Victor Turner baseia-se na definição
de Robert Merton: “o arranjo padronizado de conjunto de papéis,
conjunto de status e seqüências de status reconhecidos conscientemente
e regularmente operativos numa dada sociedade e ligado às normas
e sanções políticas legais” (1974b: 201, tradução
Paula Miraglia).
16
Mas em situações de emergência os carreiros podem tornar-se
mais solidários e, por exemplo, quando há algum acidente
com os carro de bois na estrada, muitos ajudam a concertar o carro da vítima
e a amparar a sua família. Todavia, se tudo correr como o esperado,
há mais um espírito de reciprocidade e de solidariedade do
que propriamente a sua concretização porque cada família
é que produz a sua própria comida e monta o seu próprio
carro de bois. Ou seja, o trabalho não é compartilhado entre
todo o grupo de romeiros, somente dentro das famílias, como ocorre
no cotidiano.
17
A festa termina sempre em uma segunda-feira.
18
Geralmente, os romeiros que se dirigem para o santuário em carros
de bois são originários de municípios localizados
no Mato Grosso Goiano, região de pecuária no entorno de Goiânia.
19
Até a década de 70, a principal atividade econômica
de Trindade era a agropecuária. E, atualmente, a economia da cidade
vive da produção de derivados do leite e da carne e refrigerantes,
sendo 80% das indústrias micro e pequenas empresas. Atualmente,
apenas 5100 habitantes (7% do total da população do município)
vivem na zona rural e 48900 na zona urbana, aproximadamente.
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As desobrigas eram visitas ocasionais dos padres nas fazendas onde não
existiam paróquias para realizar os sacramentos, como batismos e
casamentos. Elas também eram realizadas durante a Páscoa,
seguindo o preceito católico de que, nesta ocasião, é
preciso comungar, além de se confessar pelo menos uma vez ao ano.
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Entrevista realizada na Casa Paroquial dos padres redentoristas em Goiânia,
em março de 1998.
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Um padre redentorista, Agnaldo Gonzaga, está tentando desenvolver
uma “pastoral dos carreiros”. Está procurando atender e solucionar
os problemas principalmente de saneamento básico nos pousos em que
ficam instalados os romeiros.
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Essa estratégia também pode ser observada em outros santuários
dirigidos pelos redentoristas, como o de São Francisco das Chagas,
em Canindé, no Ceará. Foi criada atualmente uma Missa do
Vaqueiro, valorizando um personagem importante na região nordestina.
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Para a divulgação da festa, os redentoristas também
estão incorporando o uso de novas tecnologias e de meios de comunicação
de massa. Geralmente a rádio Mil FM, voltada para um público
jovem, e a Difusora AM, rede católica de rádio, ambas de
Goiânia, fazem a cobertura da festa, instalando-se no santuário
neste período. Há também projeções de
videoclips em ruas da cidade para a animar a festa e, na internet, pode-se
acessar o site do santuário, criado em 1996 (www.persogo.com.br/paieterno).
É importante ressaltar que existe uma denominação
comum para o santuário, usada pelos padres, políticos e jornalistas:
“a capital da fé”, que traduz o seu caráter modernizador,
como um pólo religioso e de consumo.
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A volta para casa é feita de maneira dispersa. A ordem dos carros
de bois não é mais seguida à risca e os carreiros
fazem o percurso da viagem em menos dias. Muitas mulheres preferem retornar
para Mossâmedes de ônibus ou carro, acompanhando seus maridos
somente na ida.
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