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José
Guilherme Cantor Magnani
Departamento
de Antropologia da Universidade de São Paulo
“Este
livro é a edição sem retoques dos meus diários
de campo nas duas expedições que fiz, entre 1949 e 1951,
às aldeias dos Urubus-Kaapor. Eu tinha, então, 27 anos, o
vigor, a alegria e o elã dessa idade, de que tenho infinitas saudades.
Enfrentava sem medo marchas de mil quilômetros, temporadas de dez
meses (...). Meus diários são anotações que
fiz dia-a-dia, lá nas aldeias, do que via, do que me acontecia e
do que os índios me diziam. Gastei nisso uns oito grossos cadernos,
de capa dura, que ajudava a sustentar a escrita. Porque índio não
tem mesa. Muitas vezes escrevia sobre minhas pernas ou deitado em redes
balouçantes. Você imaginará a letra horrível
que resultava disso”.
Assim
começava o mais recente livro de Darcy Ribeiro,
“Diários Índios”, uma bela edição, mais de
seiscentas páginas com dados de campo, relatos das viagens e seus
incidentes, descrições de ritos, desenhos, fotos, diagramas
de parentesco e até rabiscos feitos pelos próprios
índios.
A pergunta
é: e daí? O conhecido antropólogo já não
publicou o resultado de suas pesquisas em outras obras, mais bem elaboradas,
de acordo com os cânones da academia? A edição destas
notas traz alguma nova contribuição para o conhecimento antropológico,
ou se trata apenas de uma (justa) homenagem ao ativo e polêmico intelectual?
E, em termos mais gerais, qual a importância e lugar dos cadernos
de campo na atividade do antropólogo?
Na
verdade soa meio deslocado,
old-fashionable mesmo, falar em caderno
- principalmente em tempos de Internet, cyberspace e
sites; o pesquisador tem hoje à sua disposição, como
instrumentos de trabalho, os versáteis, portáteis e potentes
lap-tops ou notebooks equipados com modem, ligados on-line a webs,
isso sem falar nos já familiares e práticos gravadores, filmadoras,
câmaras fotográficas. Neste contexto, o caderno de campo mais
parece um artefato jurássico, vestígio dos tempos heróicos
da disciplina.
Sim,
porque está se falando em caderno mesmo, o de 90 folhas, por exemplo,
com espiral, formato 100 x 140 mm., próprio para a jaqueta ou o
bolso de trás da calça jeans. Equipamento indispensável
na mochila do etnógrafo, seja ele marinheiro de primeira viagem
ou velho lobo do mar, vem sendo usado como depositário de
notas, impressões, observações, primeiras teorizações,
mapas, esboços, desabafos, entrevistas e garatujas de informantes.
Foi o que ocorreu com Darcy Ribeiro e com Bronislaw Malinowski -
para citar dois casos ilustres - e assim continua ainda
hoje com antropólogos de toda as estirpes,
no campo, na cidade, na aldeia.
Pode-se
discutir se o caderno,
em pessoa, ainda é bom para escrever;
mas, parafraseando Lévi-Strauss, sem dúvida é bom
para pensar: permite retomar a especificidade do próprio métier
do etnógrafo.
Um
antecedente famoso
Em
1967 foi publicado, despertando imediatamente ácidas polêmicas,
o livro A Diary in the strict sense of the term, edição
póstuma do diário de Malinowski,
por decisão de sua esposa. Escrito originalmente em polonês,
língua materna do antropólogo, cobre parte de seu período
de trabalho de campo (dezenove meses, entre 1915 e 1918) junto aos
mailu e aos trobriandeses, na Melanésia. Redigido na forma de diário
íntimo, consiste basicamente no registro de seus estados de ânimo,
preocupações com a saúde, impressões e expressões
(nem sempre elogiosas) sobre os nativos e sobre as condições
do trabalho - a solidão, as leituras, os encontros, - e também
o mau-cheiro, o barulho, as tentações.
Produziu
o maior frisson no meio, provocando indignadas reações de
ex-alunos e muitas dúvidas quanto à oportunidade e validade
da iniciativa. Das inúmeras resenhas e comentários
ficou um consenso: em termos de método ou teoria pouco acrescentou
ao que já se conhecia da obra de Malinowski, expressa em suas monografias.
Seja como for, o “Diary...” permitiu revelar o lado humano, vulnerável,
do autor e da real situação
de pesquisa.
Já
os “Diário Indios”, de Darcy Ribeiro é mais caderno de campo
do que diário íntimo. Contém dados e informações,
ainda que não a totalidade do material coletado. Mantém a
ordem cronológica das expedições e a do deslocamento
espacial e, nesse sentido, aproxima-se do gênero
relato de viagem. Diferentemente do texto de Malinowski, não só
foi publicado com sua autorização, mas cuidadosamente editado,
apesar da declaração inicial de que contém “sem retoques”
o material original.
Trata-se
de dois estilos, bastante diferentes, que deixam antever a versatilidade
do gênero; os cadernos de campo de todo antropólogo contêm
elementos, em graus variáveis, de ambos os modelos. Entretanto -
polêmicas e comparações à parte - cada
qual, a seu modo, dá a dimensão do que é o processo
de imersão que caracteriza a pesquisa etnográfica: trata-se
de uma experiência que nenhuma outra abordagem proporciona
pois tem como pressuposto o contato com o Outro, nos termos - espaço,
temporalidade, códigos - deles; é uma experiência-limite,
que transforma uns e outros. Mas há outras coisas, como se verá
a seguir, que os cadernos ensinam.
A
jornada antropológica
Raymond
Firth, quem fez as duas Introduções ao “Diary ...”.,
uma quando do lançamento do livro em 1967 e a segunda para a edição
de 1989, nesta última reconhece que, originalmente, havia encarado
os diários como uma espécie de chave para a interpretação
da personalidade de Malinowski e, a partir daí, de seu trabalho.
No entanto, para antropólogos mais jovens que jamais tiveram contato
com o autor dos “Argonautas...”, o interesse do livro estaria muito mais
em obter dele uma ajuda ou maior confiança para o entendimento
do que acontece na sua própria experiência de campo.
Firth
refere-se a um desses antropólogos, Anthony Forge, segundo
o qual do “Diary...” pouco se aproveita em termos metodológicos:
na verdade ele ilustra os dilemas do pesquisador em campo, como o
de manter a própria identidade em meio à dinâmica da
sociedade local. A solidão do antropólogo, aí,
é de uma espécie particular, e nesse contexto o diário
não teria sentido senão para aquele que o redigiu, produto
de um estado de suspensão entre duas culturas2.
O caderno
de campo, entretanto - para além de uma função
catártica - pode ser pensado também como um dos instrumentos
de pesquisa. Ao registrar, na linha dos relatos de viagem, o particular
contexto em que os dados foram obtidos, permite captar uma informação
que os documentos, as entrevistas, os dados censitários, a descrição
de rituais, - obtidos por meio do gravador, da máquina fotográfica,
da filmadora, das transcrições - não transmitem.
Tomando
como referência a expressão com que Geertz
(1983) caracteriza os dois momentos constitutivos da prática etnográfica,
experience-near
e experience-distant, pode-se dizer que o caderno de campo situa-se
justamente na intersecção de ambos: ao transcrever a experiência
da imersão, corresponde a uma primeira elaboração,
ainda vernacular, a ser retomada no momento da experience-distant.
Quando já se está “aqui”, o caderno de campo fornece o contexto
de “lá”; por outro lado, transporta de certa forma para
“lá”, para o momento da experience-near, a bagagem
adquirida e acumulada nos anos gastos “aqui”, isto é, na academia,
entre os pares, no debate teórico.
No
entanto, apesar de indispensável no trabalho de campo, e de
seu caráter de instrumento usado tanto nos primeiros contatos, como
em projetos mais alentados, não se pode evitar, associada ao caderno,
uma certa conotação de “coisa de iniciante”: é algo
descartável, opõe-se a livro - este sim, “definitivo”
- e a relatório, que vai ser lido e avaliado. Caderno
evoca e supõe um estado de aprendiz, daquele que, por nada saber,
tudo anota, não deixa passar nada.
E é
justamente por esse atributo que o caderno de campo, mais do que qualquer
outro objeto do kit, representa e simboliza a prática
e a atitude fundamental do antropólogo. “Há muitas
possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito”,
diz o mestre
Shunryu Suzuki, em Mente Zen,
mente de principiante (1994: 20). Diante da cultura dos outros, somos todos
aprendizes e, quase sempre, aprendizes desajeitados.
Mariza
Peirano refere-se a esta atitude quando mostra que, longe do “impacto
existencial e psíquico da pesquisa de campo, o material etnográfico
se torna frio, distante e mudo” (1995:51). E é do confronto de teorias
e visões de mundo de nativos e antropólogos que surgem
aqueles “resíduos reveladores” a que se refere Peirano e dos quais
o caderno de campo é o primeiro testemunho.
Começamos
com Darci Ribeiro, finalizamos com o diário de Malinowski, do qual,
como não poderia deixar de ser, a ótica pós-moderna
também tirou sua casquinha: para James Clifford, que considera
“Os Argonautas...” e o “Diary...” como um único
texto expandido, a importância deste último reside no fato
de constituir “um inventivo texto polifônico, e um crucial
documento na história da antropologia porque revela a complexidade
dos encontros etnográficos”3.
Falar em encontro etnográfico é falar numa particular
aventura marcada pelo duplo esforço, de uns para contar,
e de outros para compreender, tal como - na leitura de Ítalo
Calvino, em As Cidades Invisíveis - protagonizaram Marco
Polo e Kublai Khan - seu objetivo: a busca de um código compartilhado
para entender e apreciar as diferenças entre as inúmeras
cidades do vasto império e que, no fundo, eram uma só4.
Notas
1-
Este artigo foi publicado originalmente na Revista Sexta-feira n.
1, maio de 1997, São Paulo.
2-
Note-se que tal situação já fora caracterizada por
Roberto Da Matta em “O ofício do etnólogo ou como ter Anthropological
Blues” (1974).
3-
James Clifford, 1986, citado por Raymond Firth, na Introdução
ao “Diary...”, p. XXX)
4-
Observação feita pelo aluno Massimo di Felice durante
seminário do curso “A dimensão cultural das práticas
urbanas”, PPGAS/USP, 2º semestre de 1996.
Referências
bibliográficas
Calvino,
I. - As Cidades Invisíveis. São Paulo, Companhia das Letras,
1991
Da
Matta, R. - “O ofício do etnólogo ou como ter Anthropological
Blues”. Rio, Cadernos do Programa de Pós-Graduação
em Antropologia Social, 1974.
Geertz,
C. - Local Knowledge. Basic Books, New York, 1983
Firth,
R. - “Introduction”, “Second Introduction”, in A Diary in the Strict Sense
of the Term. California, Stanford University Press, 1989.
Malinowski,
B. - A Diary in the Strict Sense of the Term. California, Stanford University
Press, 1989.
Malinowski.
B. - Os Argonautas do Pacífico Ocidental. São Paulo,
Ed. Abril, 1978
Peirano,
M. - A favor da etnografia. Rio, Relume-Dumará, 1995.
Ribeiro,
D. - Diários Índios. São Paulo, Companhia das Letras,
1996
Suzuki,
S. - Mente Zen, mente de principiante. São Paulo, Editora Palas
Athena, 1994
São
Paulo, novembro de 1996

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