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Música e
significado cultural: uma abordagem antropológica do filme“Assédio”
de Bernardo Bertolucci
Lilian de Lucca Torres
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Acho político mostrar
Roma com o que chamamos de extracomunitari (cidadãos que
não pertencem à comunidade européia). Os italianos
não procriam mais, e acho que os italianos do futuro serão
os filhos dos extracomunitários, o que representará uma injeção
fantástica de vitalidade e frescor na cultura italiana (apudByington
& Carelli, p. 57, 1999).
Representar
Roma como uma cidade multiétnica é, simultaneamente, um ato
político e cultural. Após a Segunda Guerra Mundial, os países
europeus depararam-se com os processos de descolonização
da África, Ásia e Caribe, bem como com a emigração
de enormes contingentes de ex-colonos “da periferia para o centro”. A pobreza,
a fome, as guerras civis, os regimes políticos autoritários,
o subdesenvolvimento econômico, a dívida externa, bem como
os atrativos do consumismo global constituem os principais fatores causais
desta movimentação em massa de pessoas.
O
estranhamento cultural provoca nos recém-chegados a manutenção
e o reforço dos vínculos com seus lugares de origem e tradições,
bem como o diálogo com a cultura dominante, sem que ocorra uma simples
assimilação ou a perda total de suas identidades, tornando
híbridos os contextos de convivência. Por outro lado, os ex-colonizadores
vivem a ilusão de tentar reconstruir algum tipo de pureza cultural/racial
original (Hall, 2000, p. 88-89) ou,
numa perspectiva mais relativizadora, adotam a visão da mudança-por-reunião,
da transformação criativa advinda das inesperadas combinações
de idéias, tradições e valores (Salmon Rushdie, apud
Hall,
2000, p. 92). O futuro é, simultaneamente, italiano e extracomunitário,
proclama Bertolucci.
As
cidades de Bertolucci
A
Roma de Assédio é mostrada, como foi visto, como uma
cidade multiétnica, e a personagem principal – imigrante, negra
e pobre – pode ser pensada como uma das representações possíveis
da cidade, aquela que Bertolucci escolheu filmar. Em Antes da Revolução,
o tema da mulher como metáfora da cidade já havia sido abordado.
Neste filme, o personagem Fabrício, um estudante que não
trabalha e mora com os pais, questiona seu noivado com Clélia, uma
jovem de família abastada. Em nome de ideais políticos (é
ligado ao PCI – Partido Comunista Italiano), Fabrício critica a
Igreja e o Estado, assim como as elites de Parma (aliás, cidade
natal de Bertolucci). Para ele, Clélia representa os burgueses “que
freqüentam a missa do meio-dia” e “estão fora da História”.
“Clélia é a cidade”, afirma; é “aquela parte da cidade
que rejeitei” .
Entre
Assédio, O Último Tango em Paris e Antes
da Revolução, é neste que, comparativamente, a
cidade enquanto cenário mais aparece: a praça central, as
igrejas, as ruas do comércio mais sofisticado, cafés, a estação
de trem e áreas mais periféricas. As cenas iniciais de Antes
da Revolução, retiradas de um sonho ou talvez das divagações
de Fabrício, mostram a cidade de Parma através de uma tomada
aérea, em que se vêem estradas, pontes, cúpulas, campanários,
vias urbanas, edificações e o Rio – o Torrente Parma, afluente
do Pó – que separa, segundo o protagonista, a “cidade dos ricos”
da “cidade dos pobres”. Diferentemente de Roma e Paris, Parma é
menos cosmopolita, sendo, no filme, contraposta à cidade de Milão,
referência de pólo industrial e de lazer no norte da Itália.
Gina, tia de Fabrício e aquela com quem ele vai viver um romance
secreto e incestuoso, mora em Milão e reclama das poucas opções
de lazer de Parma. Parma fica tão perto do campo que, segundo Fabrício,
“de noite sente-se o cheiro do feno”.
A
Paris de O Último Tango também é representada
como uma cidade multiétnica (em termos históricos, Paris
experimentou a onda de imigração proveniente das ex-colônias
bem antes das cidades italianas). No prédio residencial onde acontecem
os encontros amorosos tematizados pelo filme, a zeladora é negra,
bem como a maioria dos hóspedes do hotel cujo proprietário
é o personagem principal, o americano (protagonizado por Marlon
Brando). Também de maneira similar, como que prenunciando as escolhas
que seriam feitas no filme Assédio, ao invés da Torre
Eiffel, do Arco do Triunfo, dos Champs Elysées e dos
boulevards, Paris é vista sob a ótica de um hotel
de terceira categoria, becos e ruas comerciais de menor visibilidade.
Um
olhar antropológico sobre o filme Assédio
Este
é um filme de baixo orçamento, feito em 28 dias, em que a
maioria das cenas é gravada em interiores. São dois estrangeiros
em Roma coabitando a mesma casa. Saídos de contextos muito diferentes
entre si - um país africano em guerra civil ou em processo de golpe
de Estado e um país europeu capitalista de primeira ordem -, uma
estudante negra e um pianista inglês vêem-se reunidos numa
situação de convivialidade doméstica marcada mais
por contrastes do que por convergências. Ele, o patrão, com
seu piano de cauda, seus quadros, tapeçarias e estatuetas. Ela,
a empregada, com o esfregão, o balde, a vassoura e o espanador.
O músico solitário usufruindo a herança deixada por
uma tia; a jovem imigrante sem visto permanente de residência. Um
branco; uma negra. Um representante da maior potência imperialista
da história; um símbolo dos povos colonizados que, no mundo
globalizado, estão reduzidos à posição de “terceiros”.
Pode-se afirmar que todos os personagens negros do filme enfrentam a realidade
do subemprego (menos, talvez, o padre), que recoloca os imigrantes das
ex-colônias em posições subalternas nas cidades industrializadas
de países europeus.
Na
cidade de Roma, a jovem imigrante cursa a faculdade de Medicina, estudando
com afinco em seu tempo livre. Na mesa de seu pequeno quarto, mobiliado
apenas com o necessário, quando não há roupas para
passar ou costurar, encontramos livros abertos em sinal de uso constante.
É digno de observação o fato de que seu único
amigo italiano, um homossexual, é seu colega de curso, mas, ao contrário
dela, é disperso e indisciplinado para os estudos. Certo dia, os
dois passam duas horas na fila de um órgão público
que emite visto permanente de residência para estrangeiros, sem,
ao final, obterem qualquer resultado. O amigo, então, a convida
para sair e relaxar, frente ao que ela reage de forma explosiva dizendo
“tenho prova, e isto é uma perda de tempo”, referindo-se também
aos entraves burocráticos encontrados. O outro reconhece que precisaria
estudar, mas tenta convencê-la a descontrair através de uma
brincadeira muito perspicaz: “vocês africanos nem sabem o que é
o tempo; diga-me, quem inventou o relógio?” Volta, então,
a cena em que o músico africano está cantando e tocando sob
a árvore.
Aqui
se faz referência à África tribal, das culturas míticas,
onde o tempo não é percebido de modo linear, como algo que
se perde ou se ganha, que pode ser medido pelo relógio, mas como
estando vinculado aos ciclos da natureza – à posição
do sol durante o dia, à estação do ano – ou, então,
à tarefa que está sendo realizada; o tempo é circular
e tudo aquilo que já aconteceu, e é narrado pelo mito, voltará
a ocorrer num eterno retorno (Prandi,
2005). Este episódio sugere que a personagem, confrontada com o
modo de vida ocidental, adaptou-se a uma experiência do tempo própria
do sistema de produção capitalista, que molda o presente
aos fins a serem atingidos. Quanto ao exame oral, será aprovada
com nota 10; o amigo italiano, reprovado. Encontrando-se, portanto, numa
condição subalterna, a jovem racionaliza seu tempo, dedica-se
tenazmente aos estudos, vence o obstáculo da língua e é
aprovada com nota máxima por uma banca de professores rigorosos
e preconceituosos (descritos, perante o amigo gay, como homofóbicos).
Na sua turma, é a única aluna negra. Percebem-se aqui os
grupos excluídos – imigrantes, negros, homossexuais - que vivem
à margem numa sociedade patriarcal, de brancos ex-imperialistas.

No
sobrado antigo, situado numa das regiões comerciais mais movimentadas
de Roma, a Piazza di Spagna, onde estão as modernas lojas
das principais grifes italianas, nossa personagem ocupa um cômodo
no piso inferior utilizado simultaneamente como área de serviço,
quarto e cozinha. O espaço que lhe cabe é tão limitado
que o elevador de cargas serve, também, de armário. O restante
da casa, com vários níveis, é ocupado por um só
morador, o novo proprietário, sendo percorrido pela jovem somente
nas ocasiões em que está fazendo seu trabalho. Aliás,
é um não terminar nunca de lavar degraus, espanar o pó
de objetos de arte, polir peças de metal e limpar os arabescos de
ferro das grades de uma escadaria em caracol.

O
elevador de cargas e a escadaria em espiral cumprem relevante função
na interação que se estabelece entre os dois: intercomunicam,
física e subjetivamente, o alto e o baixo, instaurando uma verticalidade
ao mesmo tempo espacial e simbólica que sugere hierarquização.
Objetos, olhares e palavras vêm de cima para baixo ou vice-versa,
remetendo a distâncias e desigualdades, tanto sociais quanto culturais.
Esta forma de comunicação indireta e hierarquizada é
reforçada pelo fato dos personagens, desde o início da estória,
lançarem olhadas investigativas através de janelas, do vão
da escadaria, de portas entreabertas, de divisórias do ambiente
ou quando o outro está fora ou de costas. Na ausência da jovem,
o patrão vê a porta de seu quarto encostada e entra; folheia
um livro e toca suavemente, quase acariciando, um tecido africano que está
em uma cadeira. Em certa manhã, ao se levantar, antes mesmo de lavar
o rosto, ele vai até a janela entreaberta para vê-la caminhando
na rua lá embaixo. Em outra cena, do alto da escadaria, meio escondido
pela penumbra, ele a observa chegar depois do anoitecer. Ao sair de casa,
sentindo-se observada (ou desejando sê-lo), ela volta o olhar para
o alto e encontra o olhar dele que a acompanha. Por três vezes ao
longo do filme, já estando deitada, ela recebe objetos através
do elevador, o qual, aliás, intercomunica o quarto principal da
casa com os aposentos da empregada .

Como
que sinalizando para essa forma indireta de interação, encontra-se,
entre outros objetos de arte que integram a herança recebida pelo
pianista, uma estatueta do deus grego Hermes, cujo nome significa intérprete,
guia ou mensageiro. Exercendo o papel de intermediário entre os
deuses e entre estes e os homens, Hermes age como uma espécie de
embaixador, transmitindo comunicados entre o Olimpo, a Terra e até
mesmo o Inferno (Pugliesi, 2005,
p. 68). Desce do Olimpo e atravessa o espaço com a rapidez de um
raio, sendo representado com asas nos pés ou em seu capacete (o
petasus alado). Deus da eloqüência e da arte da oratória,
também protege os viajantes, os negociantes (Mercúrio, o
nome de Hermes em latim, vem de merces, mercadoria) e os ladrões.
Na mitologia, foi Hermes quem primeiramente elaborou uma língua
juntamente com os primeiros caracteres de uma escritura, tendo nomeado
uma infinidade de coisas (Pugliesi,
2005, p. 69). Por fim, Hermes foi o inventor da lira, instrumento musical
de cordas (como o piano), que remete àquele tocado pelo africano
no início do filme. Assim, Hermes “comunica”, é um intermediário,
levando e trazendo mensagens. Além do mais, utiliza-se não
só da palavra, mas também da música (no filme, o deus
grego está representado com uma flauta de tubos
em uma das mãos). Não parece aleatório o arranjo das
estatuetas na estante da sala, Hermes remetendo à possível
ponte entre mundos culturais distintos, construída, como se verá,
principalmente através da música.
Retomando
a questão da nomeação, foi visto que Hermes é
o deus que dá nome aos seres. Que sejam nomeados, então,
os personagens: “Sr. Kinsky” e Shandurai, segundo o modo como se tratam
entre si, com o designativo de respeito e posição superior
sempre acompanhando o nome do patrão. Kinsky e Shandurai parecem
necessitar da “ajuda dos deuses” para se comunicar: Hermes, da mitologia
greco-romana, e Exu, seu correspondente na mitologia africana, cuja reprodução
em madeira aparece uma única vez no filme e oferece, neste caso,
um contraponto cultural. O orixá africano e o deus grego possuem
três atributos similares: são mensageiros, pois estabelecem
a comunicação entre os deuses e entre estes e os homens;
contrariam regras estabelecidas (Hermes, por causar confusões entre
os deuses, é expulso do Olimpo por Zeus e condenado a ser pastor
de rebanhos na Terra; Exu é o orixá da mudança, da
transformação); por fim, cuidam das relações
sexuais e dos assuntos amorosos (sobre Exu, vide
Prandi,
2005, p. 73-75).
O
primeiro nome de Kinsky - Jason (Jasão) - também remete à
mitologia. Jasão era filho do rei Éson, que foi destronado
pelo próprio irmão. Enviado para longe, a fim de crescer
em segurança, Jasão partirá em busca do Velocino de
Ouro para obter de volta o reino que era seu de direito. O velocino ficava
pendurado num bosque na Cólquida, no Mar Negro, e era vigiado por
um dragão. Jasão navegou até lá a bordo do
Argo, com sua tripulação, os Argonautas. Ajudado por duas
deusas, Minerva e Medéia, vence os obstáculos e encontra
o velocino. Como Jasão, o personagem do filme também vivencia
um tipo de desterro e, de modo semelhante ao mito do herói, lutará
por um objetivo – como se verá adiante – vencendo seus limites pessoais.
Tendo
sido nomeados os personagens, passemos agora ao nome do próprio
filme, “Besieged”, assediado/a em inglês, porém traduzido
para “Assédio” nas versões italiana e brasileira. A palavra
“Besieged” aparece, no início da projeção, sobreposta
às imagens do lago e do vulcão, remetendo às forças
imprevisíveis e incontroláveis da natureza. O vulcão
pode ser associado, neste contexto, ao desejo humano, à sexualidade
(assim como ao “assédio”). Por outro lado, Kinsky, que pouco fala,
se expressa intensamente através do corpo: ao tocar, movimenta-se
devagar ou agitadamente, acompanhando as sonoridades que interpreta ou
cria, remetendo ora a um sentimento de tranqüilidade ora a rompantes
de emoções (o lago, com suas águas profundas e calmas;
o vulcão, com sua instabilidade).
Foi
dito que olhares, palavras e objetos, principalmente no início da
estória, percorrem o espaço-relação de cima
para baixo ou vice-versa, física e simbolicamente, dada a situação
de hierarquização existente. Pode-se desenvolver melhor agora
um quarto elemento, talvez o mais importante do filme, pois é aquele
que não reconhece fronteiras, que se propaga através do espaço
vencendo obstáculos físicos, que não sobe nem desce
exatamente, mas se expande simultaneamente em todas as direções:
os sons musicais. A música, inclusive, não conhece fronteiras
culturais. Dir-se-ia que ela possui a faculdade da horizontalidade no sentido
de igualar os homens, ou melhor, de ultrapassar barreiras sócio-econômicas.
Kinsky e Shandurai comunicam-se através da música, muito
embora essa interação não signifique uma compreensão
mútua inicial (nem total “horizontalidade”).
O
acontecimento que inaugura, para o espectador do filme, a existência
de uma relação entre Shandurai e alguém que lida com
música (e que ainda não está referido a nenhuma situação,
nem sequer se sabe se é um homem) é o recebimento, no meio
da noite, através do elevador, da folha de partitura vazia com o
ponto de interrogação. Através da interpretação
emocionada de composições de Bach, Beethoven e Mozart, Kinsky
tenta expressar o quanto Shandurai o atrai. Por sua vez, do pequeno aparelho
portátil de Shandurai só saem sons musicais africanos, os
quais Kinsky absorve entre curioso e instigado. Shandurai não compreende
aquele homem que vive isolado, sem amigos, apenas para a sua música
(as únicas pessoas com as quais ele se relaciona são, fora
ela, crianças para quem dá aulas particulares de piano).
Kinsky, ao tocar, imagina atingir Shandurai, mas não consegue “sair
do lugar”: não sai de seu território cultural, pois interpreta
apenas compositores europeus, nem chega até onde vive, reclusa,
a emoção de Shandurai. Parafraseando Lévi-Strauss
(1991), Shandurai “se ouve através de sua própria música”,
reencontrando nas sonoridades africanas seu passado, sua identidade, não
se reconhecendo na música de Kinsky. Embora a música não
estabeleça de modo imediato uma ponte entre eles, cada um absorve,
mesmo que inconscientemente, os elementos musicais do outro, da cultura
do outro, ocorrendo uma transformação interior quase imperceptível,
a qual a consciência ora rejeita ora acolhe.

Além
da música, é por meio do elevador que Kinsky emite mensagens
para Shandurai. A folha de partitura vazia com o ponto de interrogação
remete simultaneamente ao meio (música) e à mensagem (algo
a ser “composto” – a relação ).
A distância social (patrão x empregada) talvez o impeça
de ir verificar pessoalmente o que está ocorrendo na noite em que
Shandurai tem o pesadelo. Porém, mesmo em outras circunstâncias,
Kinsky continuará utilizando a comunicação indireta,
tal como no episódio em que, depois de agradecer a Shandurai por
ter feito uma barra em sua calça, envia-lhe, através do elevador,
uma orquídea. Inicialmente Shandurai rejeita esta tentativa de aproximação,
jogando imediatamente a flor no lixo, mas, na manhã seguinte, a
orquídea está num copo com água sobre a mesa onde
Shandurai passa roupas. Kinsky observa a cena através da porta aberta
e se delicia. Shandurai reage e, levantando o ferro de passar, esguicha
vapor d’água no ar na direção de Kinsky. Em outra
ocasião, ao abrir o elevador utilizado como prateleira, Shandurai
depara-se com o vazio. Irritada, grita “O armário é meu”,
sendo que imediatamente o mecanismo começa a funcionar e o elevador
desce. Dentro, suas roupas pessoais e, sobre elas, a lanterna de Shandurai
acesa iluminando... um belo anel de brilhante! A flor e a jóia são
símbolos muito difundidos do “fazer a corte”; a orquídea
também remete ao órgão sexual feminino, portanto,
ao desejo.

A
atividade do trabalho doméstico transcorre num terreno marcado por
ambigüidades. Embora seja mediada pelo capital e, à primeira
vista, possa ser classificada na esfera do mundo público, esta forma
de interação dá-se no recesso da casa, no ambiente
privado, que se contrapõe à rua e à formalidade dos
contatos sociais entre estranhos. Como bem definiu Clare Peploe, co-roteirista
e esposa de Bertolucci, “há algo de incrivelmente íntimo,
de intensa convivência, no trabalho doméstico” (apud
Byington & Carelli, p. 55,
1999). Por outro lado, somando-se à indefinição entre
público e privado própria deste tipo de relação
e à intimidade que ela gera, no caso de Assédio há,
também, a conotação sexual .

Shandurai
não tem uma vida social e de lazer muito ativa, não aparecendo
associada a outros jovens de sua idade a não ser durante as aulas
da faculdade. Mantém uma relação de amizade apenas
com um homossexual, que, aliás, a corteja. Se, num primeiro momento,
deixa de lado a partitura enviada por Kinsky e, na outra ocasião,
joga a orquídea no lixo, parece sempre voltar atrás. Pode-se
dizer que Shandurai oscila e não define claramente nem para si mesma
o caráter de sua relação com o pianista. Percebe as
investidas de Kinsky e, de maneira geral, mas não definitivamente,
o desencoraja (como o fazia Dianora com o barão). Ao remexer em
uma velha mala onde guarda, entre outras coisas de valor, objetos e fotografias
de sua vida passada, a partitura reaparece, desta vez associada às
suas recordações e experiências mais íntimas:
na mala estão, também, sua aliança de casamento e
algum dinheiro que economizou. Quanto à flor, pelo visto, passou
apenas algumas horas no cesto de lixo. Porém, sua reação
perante o anel foi muito mais intempestiva. As cenas que se seguem são
centrais no filme, representando o momento máximo da comunicação
e, simultaneamente, da distância existente entre eles.
Ao
pegar o anel, Shandurai sobe até a sala onde Kinsky está
tocando piano. Kinsky havia preparado cuidadosamente o ambiente, acendendo
velas e abajures, deixando-o à meia luz. Colocou vasos com flores
e virou o piano de modo a olhar diretamente para a porta por onde ela entraria.
Shandurai ouve a música, aproxima-se hesitante, mas, por fim, coloca
o anel com força sobre o piano, dizendo: “Acho que isto é
seu”. “Pertenceu à minha tia”, diz ele de modo quase displicente
voltando a tocar.

Perturbada,
Shandurai grita: “Não entendo você; não entendo esta
música!”. Diz que não compreende o motivo do presente e que
não pode aceitá-lo. Kinsky, então, pára de
tocar e declara seu amor. Desconcertada ela pede desculpas, se vira e sai
da sala; Kinsky abandona sua postura um tanto “blasé”, corre atrás
dela, abraça-a e pede-a em casamento. Diante de nova negativa, promete
levá-la para a África. Neste ponto, o par parece atingir
o auge da dificuldade de comunicação: “África? O que
você sabe sobre a África?” Ele só consegue dizer: “Por
favor, me ame; faço qualquer coisa, o que é preciso?” A resposta
é “Tire meu marido da prisão”, algo que a princípio
parece tão impossível ou paradoxal quanto o pedido de Dianora
ao barão Ansaldo na novela de Boccaccio. Shandurai não respondeu
nem “sim” nem “não” (como Dianora), formulando uma exigência
(que se assemelha à “prova” de amor da novela) e continuando a transitar
no terreno indefinido da prática da sedução .
Ao contrário da obra de Boccaccio, Kinsky não sabia que Shandurai
era casada, mas, como o barão Ansaldo, não se sentirá
intimidado por este fato.
Somente
a esta altura ficamos sabendo que Shandurai é a esposa do professor
preso no início do filme. Talvez este tenha sido o motivo determinante
para sua estada na Europa. Shandurai não tem notícias de
seu marido, que está em uma prisão militar, e não
mantém contato com familiares (ao contrário de imigrantes
representados falando ruidosamente num telefone público). Não
recebe nem envia cartas. Tal como Kinsky, não aparece se comunicando
com parentes ou amigos que tenham ficado no contexto de origem. Shandurai,
ao menos, possui algumas fotografias, sendo que Kinsky nem isso tem. Em
seu quarto, Shandurai colocou na parede ao lado da cama a foto de um menino
sorrindo e a de uma árvore frondosa; em sua velha mala, fotos de
seu esposo e de familiares estão guardadas junto com outros objetos,
como já foi visto. Diferentemente, nenhuma imagem vincula Kinsky
a um mundo de relações interpessoais, sejam estas de parentesco
ou amizade; há somente bens materiais herdados de uma tia rica (a
casa, o mobiliário, os objetos de arte). A referência, neste
caso, está ancorada no patrimônio, não parecendo haver
uma memória afetiva a ser preservada.

Ao
contrário de Kinsky, Shandurai está inserida em algumas redes:
ao passar por uma área de comércio negro na cidade, é
reconhecida e chamada pelo nome; por ser aluna regularmente matriculada
em um curso superior, tem colegas e professores. Kinsky não participa
exatamente de redes de interação: além das crianças
para quem ele, um adulto, dá aulas de música, iniciará
um relacionamento com um padre negro que o orientará na busca de
uma solução para o problema de Shandurai. Em várias
cenas do filme, Kinsky é associado aos peixes ornamentais de um
aquário que fica na sala de música. Parece ter dificuldades,
inclusive, de comunicar sua arte para um público mais amplo. Diante
da pergunta do padre sobre o motivo pelo qual não dava concertos,
enumera exemplos de artistas conhecidos que deixaram de se apresentar em
audições: um porque imaginava que seus dedos fossem de vidro
e poderiam se quebrar; outro porque, ao subir no palco, sentia uma força
empurrando-o para trás e desmaiava. No caso dele, não se
sentia “bom o suficiente”.
Em
certa cena, Kinsky está assistindo a uma missa católica em
uma comunidade negra. A pregação, quando se inicia, é
sobre Ló e Sodoma. O sacerdote comenta a passagem em que a cidade
de Sodoma é destruída por uma chuva de fogo e enxofre que
atinge todos, menos Ló e sua família. Finaliza, então,
com uma citação literal do texto bíblico: “Todo aquele
que tentar preservar a vida, a perderá; e todo aquele que a perder,
estará em segurança”. Esta cena do filme remete-se à
novela de Boccaccio e à moral daquela história: aquele que
consegue se desprender do que é material, ou elevar-se acima dos
desejos carnais, atinge a nobreza de espírito (ou a salvação,
em termos religiosos). Aqui está presente a idéia do desapego
(é interessante lembrar que, para as filmagens de O Pequeno Buda,
Bertolucci aproximou-se do budismo pelo qual passou a nutrir simpatia).
Certo dia, Shandurai está limpando a escadaria quando vê Kinsky
deitado no sofá ouvindo música (significativamente, “My
favorite things”, de John Coltrane). Pergunta-lhe se quer café
ou qualquer outra coisa .
Ele agradece, levanta-se e começa a fotografar os quadros com uma
Polaroid. É quando Shandurai percebe que várias estatuetas
não estão mais na estante (inclusive a de Hermes).

Numa
manhã, ao limpar o quarto de Kinsky, Shandurai encontra, no cesto
de lixo, um envelope de carta amassado com selos de seu país (a
estampa é uma reprodução daqueles cartazes do início
do filme, com o busto de um militar sobre o mapa da África). Mais
tarde, sentada em sua mesa, pregando um botão na camisa de Kinsky,
pega no sono e começa a sonhar. O cantor do início do filme
aparece em seu sonho vestido com um terno branco, caminhando pelas ruas
da cidade africana onde Shandurai morava, tocando seu instrumento de cordas
e cantando uma música tradicional, enquanto ela arranca freneticamente
os cartazes com a figura do militar. Ao tentar retirar um deles, subitamente
a imagem se transforma e, no lugar do militar, aparece Kinsky vestido com
uniforme e quepe! Ela rasga o cartaz com muita raiva e olha para o músico
(volta a cena do lago e do vulcão). Segundo Clare Peploe, Shandurai
vem de um contexto de subdesenvolvimento e politiza a situação,
enxergando Kinsky como seu oposto: além de patrão, “ele pertence
ao mundo dos que exploram os países pobres” (apud Byington
& Carelli, 1999).

De
todos os elementos que, no filme, substituem a linguagem falada, foi visto
que a música é aquele que mais perdura enquanto forma de
comunicação. Em certa cena, Shandurai aspira o pó
dos tapetes da sala enquanto Kinsky compõe uma nova peça
musical, observando seu corpo em movimento, seu perfil. Gradativamente
os ruídos do aspirador e os sons do piano vão se interpenetrando.
A música de Kinsky reproduz o ritmo da atividade de Shandurai e
incorpora as dissonâncias do motor da máquina. Shandurai não
fica indiferente: acompanha os sons mexendo a cabeça e sorrindo.
Kinsky, finalmente, encontrou a “chave musical” para chegar até
Shandurai, uma africana acostumada às sonoridades ritmadas.
*

Kinsky
organiza uma audição para mostrar sua nova composição
para Shandurai e, além dela, convida seus jovens alunos. Durante
a apresentação, a campainha toca e Shandurai atende: é
um telegrama de seu esposo avisando que foi solto e chegará a Roma
na manhã seguinte. Embora confusa quanto ao que sente, compra uma
blusa nova, uma garrafa de champagne e pede permissão ao patrão
para hospedar temporariamente seu marido na casa .
Nenhum dos dois fala sobre as condições da libertação
de Winston, embora Shandurai perceba que Kinsky desfez-se de todos os seus
bens, inclusive do piano, para obter dinheiro. Shandurai ensaia um discurso
sobre a coragem de seu marido que sobreviveu à repressão
militar, enquanto Kinsky, um tanto retraído, brinca com uma bola
de futebol que encontrou no quintal. Nesta mesma noite, Shandurai começa
a escrever uma carta, mas não consegue ir além do “muito
obrigada”. Preenche toda a folha com estas duas palavras e termina por
escrever “Eu te amo”. Abre a champagne e bebe sozinha a garrafa inteira.
Vai se deitar e tem um sonho erótico. Acorda no meio da noite e
decide ir até o quarto de Kinsky, que também chegou bêbado
e dorme profundamente. Shandurai deixa o bilhete no criado mudo, tira-lhe
os sapatos, desabotoa sua camisa e deita-se ao seu lado. Na manhã
seguinte, ambos acordam nus ao som da campainha que toca insistentemente.
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