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“Da porta pra fora”:
a constituição de um problema social
Eduardo Martinelli Leal
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Conforme Alvim
(1988), a partir da década de 20 a área jurídica irá
se ocupar da infância pobre, sobretudo aquela que, mesmo após
a regulamentação do trabalho infantil, permanecia ociosa
nas ruas. Em 1921, a lei que “cria” o menor abandonado, pressionará
os pais a controlar seus filhos através de critérios para
manter a guarda, englobando prerrogativas como habitação,
meios de subsistência e capacidade do responsável. O Juízo
de menores criado em 1923, atuara na proteção da mão
de obra infantil utilizada nas fábricas, combatendo a mendicância
e a criminalidade mediante o isolamento da infância em instituições
especializadas para os menores abandonados e delinqüentes.
Nos anos 30, o trabalho na rua será
permitido desde que institucionalizado e controlado. Na década de
40, a concepção de que os espaços públicos
seriam espaços de socialização da marginalidade, além
do temor acerca da possibilidade do “descontentamento das massas”; e de
que o Estado deveria fornecer subsídios à formação
de indivíduos úteis por meio do trabalho, dá origem
ao Serviço de Assistência ao Menor- SAM. Como corolários
desta concepção, surgem a partir de 1942, com o apoio do
empresariado industrial e como política social do regime Vargas,
serviços como o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial-
SENAI, de qualificação para a indústria. No ano de
1943, os direitos e deveres da infância trabalhadora passaram a ser
regulamentados na Consolidação das Leis Trabalhistas - CLT.
A partir de 1946, surgem o Serviço Social da Indústria -
SESI, o Serviço Social do Comércio - SESC e o Serviço
Nacional de Aprendizado Comercial - SENAC (ALVIM,
1988).
Com a urbanização acelerada
e concentrada em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro, a década
de 50 se deparará com acentuados níveis de desigualdade e
pobreza, e um processo de desenvolvimento regional desigual. Nos anos 60,
no interior de uma moderna atuação na política social,
surge a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor - FUNABEM,
como resposta às denúncias efetuadas pela imprensa ao SAM,
uma vez que este se constituía como um espaço de criação
de criminosos e alvo de inúmeros inquéritos. A FUNABEM surge
como o reconhecimento do colapso da atuação governamental
até então desenvolvida, propondo a reeducação
do menor, sem centralizar a sua atuação exclusivamente na
internação, mas também no auxílio à
família e à comunidade. Além disso, a FUNABEM se diferenciará
por uma reestruturação na forma de organização
que a tornará mais flexível, constituindo-se em uma fundação
nacional e de várias fundações estaduais (ALVIM,
1988).
A década de 60 marcará
a ampliação da presença do Estado na política
social. A preocupação social com a criminalidade, incentivou
a iniciativa dos juristas em encomendar pesquisas sociológicas para
orientar seu trabalhos nos juizados, assinalando na década de 70,
o marco de entrada de cientistas sociais no tratamento do tema. É
também na década de 70 que se aprofundará a atuação
e engajamento da Igreja na questão do menor, sobretudo a partir
de 1978, com a criação da Pastoral do menor. Nesse período,
a imprensa denunciava a atuação de “pivetes” e “trombadinhas”,
associando a criminalidade com a situação de rua, pressionando
o seu recolhimento e internação em instituições
especializadas (ALVIM, 1988).
Surgem as estimativas acerca dos
menores abandonados e delinqüentes, como o realizado pela CPI do menor,
em 1976, o qual estimou em 25 milhões o número de menores
carentes e abandonados, tornando-se documento obrigatório e referência
sobre o tema. Mas é no final da década de 70, no ano internacional
da criança, que se dá a ampliação da questão
do menor, com o aumento da mobilização social e da preocupação
com a violência contra as crianças, cometida sobretudo pela
policia e pela FEBEM. Em um contexto de visibilidade da questão
do “menor” em situação “irregular”, um novo código
de menores será criado em 1979. No entanto, o código terá
uma preocupação em reforçar dispositivos de controle
da situação do menor infrator, buscando dominar um problema
que se desenrolava desde os anos 50, a infância “perigosa”, mediante
a implementação de mecanismos de punição aos
infratores (ALVIM, 1988).
A partir de 1980, os profissionais
de pesquisa passarão a fazer parte do cenário antes ocupado
somente por assistentes sociais e juristas (GREGORI, 2000). No entanto,
a visibilidade em relação ao fenômeno dos meninos de
rua criou uma série de representações, tal como àquela
em que a criança pobre passou a ser vista como sinônimo de
criança de rua; ou a de que uma vez em contato com a rua através
do trabalho, a criança transformar-se-ia progressivamente em marginal,
se menino, “delinqüente”, se menina, “prostituta”; ou com relação
às estimativas sobre o número de crianças na rua,
os quais compreenderiam números sempre altos e com um aumento progressivo
(ROSEMBERG, 1995). A despeito da culpabilização
da pobreza pelos problemas sociais, Gregori pondera que “não é
apenas em um contexto de carência que proliferam jovens desassistidos
ou mesmo violentos” (GREGORI, 2000, p.
17).
No que se refere à intervenção,
ocorreram muitas mudanças na forma com que atuam os órgãos
assistenciais desde a implantação do Estatuto da Criança
e do Adolescente – ECA em 1990; como a alteração do modelo
correcional-repressivo herdado do período ditatorial, na qual mais
se institucionalizava do que “ressocializava”, tornando o “menor” um inadaptado
para viver em sociedade (MILITO, 1995).
A onda democratizante do fim dos anos 80 e início dos 90 marca a
preocupação em tratar a criança e o adolescente de
maneira a respeitar sua autonomia e, desde a sua implantação,
já se pode observar resultados significativos nesse sentido; afinal
é “a criança que tem que se adaptar à instituição
ou a instituição tem que se adaptar à criança?”
(MILITO, 1995, p.132). No entanto, a aplicação do ECA. também
expõe uma fragilidade na sua pretensão universalista que
diz respeito às suas vozes dominantes que contemplam, sobretudo,
visões e concepções culturalmente definidas. A esse
respeito, Cardarello (1996) afirma
que o ECA se apresenta com uma tal ambigüidade que por vezes abre
possibilidade para diferentes interpretações, constituindo-se
como um direito universal que muitas vezes se torna um privilégio
de alguns.
Com relação aos diferentes
modos de conceber e viver a infância, proponho-me a contextualizar
a diversidade cultural do desenvolvimento infantil, de modo a relativizar
a sociabilidade no espaço da rua.
A infância na rua
Segundo o historiador Philippe Áries,
a representação social da criança corresponde a concepções
mutáveis e historicamente situadas (ARIÉS, 1981) e seu conteúdo
se modifica de acordo com cada grupo ou classe social. Assim, se em classes
populares de Porto Alegre, podemos encontrar a concepção
de criança como um “adulto incompetente” (e não como um “adulto
em formação”); em classes médias, por sua vez, a criança
é concebida como um ser emocionalmente frágil e tomada como
um projeto, um investimento na construção de uma família
(FONSECA, 1995).
Ao estudar o significado do ter um
filho para moradores de uma vila em Porto Alegre, a antropóloga
Cláudia Fonseca (FONSECA, 1995)
atribui o valor simbólico da criança, nesse contexto, à
consolidação do status de adulto e à ampliação
dos laços com a comunidade. A autora vê o fenômeno da
circulação de crianças, ou seja, a “coletivização
da responsabilidade pelas crianças”, uma espécie de adoção
não formalizada entre parentes ou pessoas de classes sociais distintas
(da qual participavam pelo menos 70% das mulheres da vila), como uma estratégia
de sobrevivência e como uma das formas de consolidar redes de solidariedade
já existentes (consangüíneas ou não). Além
disso, a criança teria um valor material que diz respeito à
possibilidade do sustento econômico futuro dos pais, pois seja qual
for o destino da criança, a mãe biológica sempre terá
prioridade sobre a identidade materna, já que o “sangue puxa”. Nesse
sentido, para a mãe é digno de sua parte afastar-se temporariamente
de seu filho, esperando que ele seja criado numa situação
melhor, para retomá-lo quando puder ser capaz de cumprir com o seu
papel de forma satisfatória.
Longe das preocupações
dos adeptos das idéias do reverendo Malthus ,
as vantagens da maternidade encontram em outras lógicas e alternativas
a solução da incapacidade da mãe em criar seus próprios
filhos. Assim, essa redistribuição ou troca realizada com
a criança, muitas vezes é “inevitável”; como no caso
em que o novo companheiro da mãe recusa o “ridículo” de ser
pai de criação do filho de um outro, ainda mais “inevitável”
se ocorre o nascimento de um outro filho dessa união (FONSECA,
1995). Assim, da mesma forma que dar a criança não seja visto
pela mãe como abandono, não podemos afirmar que a situação
de pobreza dos pais possa ser encarada como “negligência”.
A prática da circulação
pode motivar também o contato com o espaço social da rua.
A literatura sobre meninos (as) de rua faz alusão a essa prática
de “aventurar-se” pelas ruas longe de casa, desde a incorporação
da fuga no cotidiano da família (MILITO,
1995); até o auxílio de benzedeiras, “despachos” e o próprio
batismo para curar o “menino fujão”; ou a criança “reencarnada
num corpo que o espírito rejeita” (FONSECA,
1995). Nesse sentido, Maria Filomena Gregori também observa que,
“(...) a saída definitiva nunca é a primeira e que os meninos
levam um bom tempo nas idas e vindas, até que fiquem mais enlaçados
às ruas e comecem a circular- também em idas e vindas- entre
as instituições e as ruas” (GREGORI,
2000, 88). A autora complementa,
“A fragilidade de laços
e de estabilidade, que já se inicia na experiência familiar,
associada à mobilidade no espaço urbano- que dificulta a
formação de laços comunitários mais consistentes-
e a uma vivência escolar irregular, traz como conseqüência
uma situação em que a criança fica sem lastro para
relações mais permanentes. Esse padrão intensifica-se
quando esses meninos e meninas começam a estabelecer uma rede de
sociabilidade no universo da rua. Mesmo transferindo para esse universo
a busca de algo que perderam nas outras esferas, eles encontram imensa
dificuldade de fixação identitária e espacial” (GREGORI,
2000, p. 86).
Gregori (2000) vê na dinâmica
da situação de rua um padrão urbano popular resultante
da pobreza, sobretudo dos que não tiveram êxito em se manter
na esfera da sociabilidade privada (casa, bairro, comunidade, trabalho
fixo). Os ensinamentos informais gerados através das fugas de casa,
do contato com os agrupamentos de rua e com instituições
é um dado relevante na relação mais estreita do menino
com a rua. É preciso considerar também que o aprendizado
da circulação e da vivência na rua, com sua linguagem,
seus códigos e dinâmica, possa ser iniciado na própria
família com a experiência dos irmãos mais velhos, iniciada
pela mãe, ou simplesmente através do trabalho informal; muito
embora a situação de rua seja uma iniciativa que independe
da atenção ou decisão dos pais. .
Quando utilizo o termo rua, refiro-me
ao espaço localizado longe da residência familiar onde haja
um ambiente mais propício ao trabalho informal, mendicância
e até pequenos furtos. Como veremos mais adiante, trabalharei a
idéia de dependência ao espaço da rua relacionado muito
mais a uma interdependência constituída por uma sociabilidade
mediada por uma prática cultural. Essa sociabilidade, no entanto,
já pode vir antecipada, em grande medida, do ambiente da casa -
residência familiar - (FONSECA, 1995), dessa forma, o seu ingresso
na rua pode não marcar uma situação de extremo contraste
(GREGORI, 2000; LEMOS,
2002).
A respeito da antecipação
dessa socialização, Jardim
(1998) observou em sua etnografia realizada em uma vila da Grande Porto
Alegre, que o pátio se constituía como uma auto-referência
geográfica e simbólica que identifica moralmente as famílias.
A autora mostra que o ambiente moral do pátio se constitui como
um espaço de relações de reciprocidade entre vizinhos,
tomados muitas vezes como parentes, ampliando tanto a noção
de espaço “privado” para além dos limites da casa, como de
família, esta entendida também como relações
de cunho econômico e moral.
No mesmo sentido, Magnani
(1998) se propõe
a pensar na rua como uma experiência simbólica, ou seja como
"suporte de sociabilidade". Empreendendo pesquisas sobre práticas
de lazer, locais de encontro e formas de sociabilidade no contexto da cidade
de São Paulo, o autor identifica espaços distintos, o bairro
e o centro. Tratando-se dessas formas de sociabilidade no espaço
do bairro, o autor elabora o conceito de “pedaço”, denotando uma
categoria êmica que representava um espaço social delimitado
de cumplicidade de códigos, lealdades e pertencimento,
O termo na realidade designa aquele
espaço intermediário entre o privado (a casa) e o público,
onde se desenvolve uma sociabilidade básica, mais ampla que a fundada
nos laços familiares, porém mais densa, significativa e estável
que as relações formais e individualizadas impostas
pela sociedade (MAGNANI, 1984, p. 138).
A referência ao “pedaço”
enquanto código de identificação, demonstra que a
periferia se encontra recortada por espaços socialmente diferenciados
por regras, marcas e acontecimentos específicos que oferecem uma
ampla rede de significados,
Essa malha de relações
assegura aquele mínimo vital e cultural que assegura a sobrevivência,
e é no espaço regido por tais relações onde
se desenvolve a vida associativa, desfruta-se o lazer, trocam-se informações,
pratica-se a devoção- onde se tece, enfim, a trama do cotidiano
(MAGNANI, 1984, p.140).
O espaço assim delimitado,
combinava relações de parentesco, vizinhança, procedência
e vínculos de participação social, traçando
fronteiras simbólicas de pertencimento, identificando, por exemplo,
quem era “do pedaço” e quem era “fora do pedaço”. Analisando
o espaço da cidade, o autor destaca a referência às
atividades de lazer, referindo-se aos fluxos no espaço da cidade
e nos espaços urbanos, pelo termo “trajeto”.
A respeito dos deslocamentos, Gregori
(2000), referindo-se a processos dinâmicos de constituição
de identidade de meninos em situação de rua em São
Paulo, analisa o processo de circulação à luz da dinâmica
da “viração”. Assim, a autora se refere à “viração”
como uma dinâmica constitutiva de vida dos meninos em situação
de rua no qual a circulação, a instabilidade e o não
estabelecimento de vínculos permanentes se faz presente em seu cotidiano.
Embora preservando laços familiares e contato com a residência
familiar, os meninos não se fixam nas relações, a
mobilidade e a fragilidade de laços impede também que desenvolvam
vínculos comunitários ou que se fixem até mesmo na
sociabilidade no universo da rua. A instabilidade é constitutiva
da dinâmica da “viração”, na qual o apoio e proteção
institucional aumentam a crença dos meninos na sua capacidade individual,
ou seja, na ilusão de independência. Este instrumento de sobrevivência
na instabilidade exige um aprendizado sobre os procedimentos de vivência
na rua, no qual até mesmo as imagens e o discurso sobre eles são
adaptadas e utilizadas de forma estratégica nos discursos e práticas
dos meninos. No entanto, a “viração” se coloca como um fim
em si mesmo, pois o menino “(...) está longe de conseguir projetar
um caminho de saída da menoridade. Seu destino permanece preso na
circularidade das ações. Parece condenado a ser, para sempre,
um menino de rua.” (GREGORI, 2000, p.
22).
Assim, por referência aos deslocamentos
constantes e característicos da dinâmica da “viração”
(GREGORI, 2000), o conceito de “trajeto” (MAGNANI, 1984) deve ser entendido
como parte constitutiva do cotidiano dos meninos. Esse fluxo que abre o
“pedaço” (MAGNANI, 1984) para o exterior e possibilita a experiência
das ruas urbanas e os deslocamentos entre os seus espaços, é
auxiliado tanto pelas experiências de lazer quanto pelas possibilidades
de trabalho informal que a cidade oferece. Lemos (2002) elenca como um
dos fatores da sociabilidade com as ruas urbanas, o reduzido espaço
de lazer das regiões periféricas, atribuindo aos meninos
em situação de rua uma tal familiaridade com o espaço
da rua que não permitiria uma distinção muito clara
entre o espaço público e o privado. Para Gregori (2000),
a privatização do espaço público, ou a indiferenciação
público/privado colocaria em risco a individualidade, auto-estima
e consciência de cidadania dos meninos em situação
de rua. Dessa forma, apesar da “casa” e da “rua” tratarem-se de categorias
analíticas importantes na compreensão da realidade brasileira
(MATTA, 1997), penso que elas não
possuem significados rígidos ou homogêneos, mas se tratam
de categorias que devem sempre ser referenciados em seus usos em contextos
e lógicas culturais específicas.
Como já foi citado, o contato
com a família não desaparece com o contato com a rua. Os
dados apontados no último levantamento quantitativo (FASC,
2004), mostram que 71% das crianças e adolescentes de Porto Alegre
responderam que têm contato com a família “sempre (todos ou
quase todos os dias)”, contra 7% dos que responderam que “nunca” têm
contato com a família (FASC, 2004, p.96). Assim, é importante
considerar a relação familiar como complementar e concomitante
com a rua e até como uma estratégia da própria família;
não se pode dizer que a família perca a criança para
a rua ou o inverso, uma vez que reafirmaríamos novamente que a rua
não é o lugar da criança sem perceber o que ela oferece.
Essas noções podem ser encontradas tanto no senso comum,
quanto nas definições acadêmicas, a exemplo da primeira
definição de “menino de rua” em 1979, na obra de Rosa Maria
Fisher Ferreira, na qual o espaço da rua e a relação
com comerciantes, policiais, outros meninos, etc, passaria a substituir
o espaço doméstico e a relação com a família
(FERREIRA, 1979 apud ROSENBERG,
1995).
No senso comum, a situação
de rua aparece freqüentemente representada em dois extremos, a saber,
a condição de meninos vítimas ou algozes. Nesse sentido,
é comum considerar a situação de rua como a ação
de indivíduos inadaptados ou indisciplinados que buscam a liberdade
na rua ou pela negligência de adultos que abandonam e exploram. A
primeira idéia é muitas vezes apropriada no discurso dos
meninos (as) como uma motivação para a situação
de rua, mas como bem observa Gregori (2000),
é preciso desconfiar dessas justificativas e perguntar se os meninos
efetivamente estavam “presos” na residência familiar.
No entanto, não quero com
isso afirmar a existência de uma certa indiferença familiar
com a criança em classes populares, mas apontar que; primeiro, a
rua não é representada como um espaço totalmente “separado”
e potencialmente negativo, e de certa forma também é vista
como inevitável; e segundo, que o discurso de liberdade formulado
pelos meninos possa ser formulado para um interlocutor específico
que provavelmente congregaria das mesmas representações.
No entanto, o relato de alguns pais sobre a insistência em buscar
a criança de volta pra casa e as fugas constantes também
devem ser consideradas enquanto estratégias mais ou menos bem sucedidas
(GREGORI, 2000).
Conforme Gregori, as inúmeras
fugas podem vir acompanhadas da desistência dos responsáveis
de ir à busca dos meninos e de um processo de criação
de laços de sociabilidade que mais do que solidariedade, pode socializar
estratégias de sobrevivência na rua: “Há um vínculo
entre a aptidão para viver na ‘viração’ e a desistência
dos responsáveis de tomar conta deles” (GREGORI, 2000, p.94).
Trazendo um pouco de algumas visões
sociais sobre as motivações para o contato de crianças
e adolescentes com o espaço da rua, nos deparamos com uma série
de concepções desse fenômeno. São muito disseminadas
aquelas interpretações nas quais a situação
de rua aparece como uma motivação de cunho racional, como
uma opção pela liberdade, e aquelas nas quais a presença
desses meninos (as) significa uma estratégia de exploração
dos recursos dos que transitam nas ruas, garantindo a possibilidade do
ócio, ou dinheiro fácil à família desses meninos.
Nessa linha estão ainda os argumentos de que os programas sociais
em vigência são suficientes
para evitar a situação de rua, pois beneficiam as famílias
com uma renda extra e estas se aproveitariam desses recursos ao permitirem
(ao contrário do que impõem esses programas) que os meninos/as
trabalhem na rua para manterem seu sustento, sem que precisem trabalhar.
A esse respeito, Lemos (2002) destaca que
os serviços de assistência às famílias pobres,
acabam não tendo papel decisivo na sobrevivência destas, sobretudo
com relação às bolsas-auxílio, que além
de se tratarem de valores muito baixos em comparação aos
proventos gerados pela mendicância, furto, exploração
sexual e/ou tráfico de drogas, têm um prazo de duração
restrito.
A respeito das motivações
sobre a dependência do espaço da rua, ou da dificuldade em
“tirar” essas crianças e adolescentes desse espaço, encaminhando-os
à família, abrigos, adoção, etc., temos a concepção
de que basta oferecer outro espaço “melhor” no que se refere às
condições materiais, que por si só todos os problemas
estariam resolvidos. Mas a questão não se encerra aqui, autores
como Gregori (2000) já apontaram a necessidade de superação
de uma visão reduzida à esfera econômica, sobretudo
limitada a uma mera questão de renda, aludindo para a relevância
da compreensão das experiências e do universo material e simbólico
em que os meninos estão inseridos.
Por outro lado, também é
errôneo afirmar a dependência da criança às elaborações
culturais adultas, deixando de ver o papel das experiências práticas
na consolidação das sociabilidades infantis. Existem poucos
estudos em antropologia que dão ênfase no papel ativo da criança
como ser produtor de cultura. Clarice
Cohn (2000), em seu artigo sobre os Xikrin, subgrupo Kayapó
do sudoeste do Pará, propõe-se a pensar a infância
e o desenvolvimento infantil resgatando noções e experiências
antropológicas, mas com um olhar voltado para as experiências
infantis enquanto uma etapa específica de criação
cultural. Conforme a autora, mais do que socializadas passivamente, as
crianças se constituem, por meio de suas vivências e interações,
em agentes sociais ativos da cultura.
Resgatando a noção
de pessoa, enquanto uma acepção cultural de humanidade, a
autora explicita como entre os Xikrin o processo de aprendizado das crianças
depende da iniciativa delas. No “sentar ao lado [de quem sabe] para ouvir",
a criança demonstra interesse em aprender e através de um
“pedido" (kukiere), ela especifica o que se quer aprender,
Esse pedido pode ser feito
para pessoas com quem não se tem uma ligação de parentesco,
embora deva-se sempre respeitar as restrições de comunicação
envolvidas; por isso, um jovem me disse que havia pedido a um velho a quem
chama de sogro que lhe ensinasse alguns remédios do mato, mas por
intermédio de um de seus netos, que intermedia não apenas
o pedido, mas também a situação de aprendizado, acompanhando
os dois homens na floresta. Assim o interesse e a motivação
para o aprendizado são individuais, e o repertório de conhecimentos
adquiridos é dado pela iniciativa, e não pela posição
social (COHN, 2000, p. 8).
A autora mostra como a função
das crianças como mensageiras e canais de ligação
entre as casas é uma tarefa específica destas devido à
distância social entre os adultos, por não serem “limitadas”
ou obrigadas a agir de acordo com o pia’am dos adultos (distância
ou respeito que regula as relações entre os adultos). A autora
explica que o pia'am que as crianças sentem e demonstram é
de outra natureza dos adultos, o pia’am das crianças volta-se a
qualquer pessoa não familiar de mais idade que ela própria,
como "vergonha". Para os adultos, o pia'am tem origem nas relações
de afinidade e impede a comunicação direta de categorias
de pessoas. Essas diferenças se expressam, na prática, pela
possibilidade das crianças entrarem em todas as casas e entre estas
e o pátio, a Casa dos Homens (ngà).
Ao meu ver, esse outro olhar sobre
a infância se contrapõe também, às nossas representações
culturais sobre esta etapa de desenvolvimento; a cultura ocidental essencializa
a maioridade como a condição obrigatória de tomada
da consciência individual e do protagonismo das ações,
deixando de considerar a socialização infantil como uma etapa
específica. A autora continua sua argumentação demonstrando
como as crianças Xikrin adquirem o que ela designa (valendo-se de
Schieffelin & Ochs, 1986) de “competência lingüística
e competência pragmática” (COHN,
2000, p.15), a saber, a “habilidade de se expressar corretamente e de modo
contextualizado, e de construir sentido a partir do que lhe é dito”
(COHN, 2000, p.15). Nesse aprendizado cultural,
a experiência de interação entre as crianças
Xikrin é de suma importância e diversa da experiência
dos adultos,
(...) em diversos momentos o que
elas fazem pode parecer uma imitação do mundo adulto - como
na caça a passarinhos dos meninos, que eram, ou deveriam ser, dados
às irmãs, reais ou classificatórias, co-residentes
ou não, para prepará-los para eles, como ainda acontece com
as frutas coletadas em suas excursões, ou como a pintura corporal
realizada pelas meninas. No entanto, o que as crianças estão
fazendo não é uma mera imitação do mundo adulto,
mas uma constituição ativa de relações sociais
que as acompanharão por toda a vida. Quando forem mães, essas
meninas vão também se reunir para sessões de pintura
corporal, tendo uma parceira fixa com quem se pintar (Vidal, 1992). Assim
também, na distribuição de produtos da roça
e de caça, a relação entre irmãos de sexo oposto
permanece importante por toda a vida. Portanto, o que esses meninos estão
fazendo, ao presentear suas irmãs com frutos colhidos em suas andanças,
nessa idade mais comuns a eles que a elas, ou trazendo o produto de sua
caça para que ela possa preparar para eles, não deve ser
entendido como um ensaio das relações entre marido e mulher,
mas como o início e a efetivação de uma relação
de reciprocidade que poderá durar toda a vida (COHN,
2000, p. 17).
Instigado com as reflexões
da autora, pude formular algumas questões acerca do papel da relação
entre os meninos em sua socialização. Estas lições
que a antropologia comparativa nos oferece permitem que retornemos ao ponto
inicial e possamos propor novas questões sobre nossa própria
cultura e, o que é mais importante, nosso fazer antropológico.
Longe de afirmar que a socialização infantil em nossa sociedade
se dá de forma idêntica à socialização
Xikrin ou que a criança nos dois contextos goza de ampla independência
em suas escolhas, gostaria apenas de apontar o quanto nossa sociedade,
mesmo pensada em termos dominantes, percebe a fase da infância sempre
atrelada (para não dizer dependente) a vidas adultas. Essa concepção
fica muito clara quando pensamos na situação de rua entre
crianças, uma vez que a socialização infantil sem
um adulto “responsável” é encarada como um problema social,
no qual invariavelmente há um adulto a quem se possa responsabilizar
por esta situação “irregular”. A esse respeito, Gregori
(2000) refere-se à cultura ocidental, destacando nesta o prolongamento
do período de dependência da infância e da juventude,
já que na hipótese da falha da guarda atribuída à
família nuclear, a sociedade civil e o Estado são responsabilizados.
Conforme Bálsamo
(2005), é a partir da década de 60 nos EUA que surgem estudos
que se contrapõe à visão universalista do parentesco.
Filiadas a uma perspectiva evolucionista, as teorias da arqueologia, lingüística
e antropologia biológica concebiam o parentesco através da
análise formal e descritiva e não eram mais do que projeções
culturais a outras culturas. Ancorados numa teoria simbólica do
parentesco, antropólogos como Clifford Geertz passaram a criticar
tal perspectiva compreendendo a cultura como fenômeno empírico
centrado na prática e discursos locais, ou seja, como sistemas simbólicos
de ordenação do mundo. Assim, o parentesco pensado a partir
do ponto de vista simbólico, passou a oferecer um outro olhar e
o aprendizado de que estruturas de parentesco semelhantes podem corresponder
a significados diferentes.
Além dos apontamentos de outros
autores, pude perceber no relato dos meninos, principalmente os mais velhos
e com maior tempo na rua que, muito embora a família seja uma referência
importante, as relações da rua acabam se tornando mais significativas.
Aquilo que muitos autores costumam designar como uma “outra família”
na rua acaba sendo uma motivação posterior na permanência
no circuito do atendimento específico.
Mas será que é relevante
nos preocuparmos com a distância da família uma vez que as
condições sociais dos meninos são, por vezes, muito
parecidas com o de meninos de classes populares? Alguns autores (GREGORI,
2000; MILITO, 1995) já se perguntavam
sobre o que faz a diferença entre as famílias que mantêm
os filhos fora da rua e as que não o conseguem evitá-lo.
Creio que seja fundamental entender os processos históricos de estigmatização
que possibilitaram a delimitação do espaço da rua.
Assim, poderemos nos perguntar mais particularmente, qual a diferença
entre uma criança que está trabalhando nas ruas, daquela
que trabalha com os pais, ou daquela que tem o seu contato com a rua iniciada
pela família, que a acompanha no trabalho? Outro fator importante
é a constatação de que na rua os ganhos diários
dos meninos são muito maiores.
Em 2004, o Laboratório de
Observação Social da IFCH-UFRGS (FASC) realizou um mapeamento
com crianças e adolescentes em situação de rua na
Grande Porto Alegre; na qual foram utilizadas técnicas quali-quantitativas,
sobretudo o questionário estruturado. Em um dos pontos do questionário,
os meninos foram indagados sobre a renda familiar mensal em salários
mínimos. Para 31% destes a renda familiar mensal corresponderia
de ½ a 1 (meio a um) salário mínimo - com uma média
geral de 1 a 1 ½ (um a um e meio) salário mínimo (FASC,
2004, p.95). A meu ver, essa variável precisa ser relacionada com
uma média geral de 6,5 pessoas dependentes por família e
de uma porcentagem igual de 26% para os que responderam ter, respectivamente,
entre três e quatro, e sete a quatorze irmãos (FASC,
2004, p.96, 93). A média familiar corresponde quase exatamente à
renda individual mensal adquirida pelos meninos na rua, que em 32% dos
casos ficam com uma parte e entregam a outra para a família; em
31% ficam com todo o dinheiro, e em 29% dos casos entregam tudo para a
família ( p.103,104).
Conforme o estudo realizado pelo
FASC (2004), entre os meninos entrevistados,
51% responderam que iniciaram seu contato com a rua “para trabalhar/ ajudar
a família/ ter dinheiro”; 21% dos meninos teriam vindo “por opção/
por gostar da rua”; 17% por “problemas familiares (separação,
brigas, violência)”; 4% “para acompanhar parentes e amigos” e 1%
deles “para usar drogas” (p. 110). É preciso ainda contar os programas
e serviços assistenciais que eles mobilizam com sua presença
na rua; a visibilidade da criança pobre na rua permite a ela barganhar
com uma certa prioridade o direito que provavelmente não seria assegurado
se estivesse com a família. Mostrarei no próximo capítulo,
que a obtenção de dinheiro, alimentação, bens
materiais, etc também depende de estratégias e de conhecimentos
aprendidos através de experiências práticas e da sociabilidade
com os outros meninos e as instituições.
Negociando a autonomia
É tarefa deste artigo recompor
um pouco do cotidiano dos meninos (as) num espaço institucional,
a saber, uma escola que atende especificamente a população
de crianças e adolescentes em situação de rua em Porto
Alegre. Através da discussão de algumas histórias
de vida e do cotidiano da escola, tento descortinar o significado da experiência
e das relações estabelecidas nesse espaço, enquanto
lócus específico da problemática abordada. Posteriormente,
passarei a abordar a relevância dos usos e conhecimentos de estratégias
na consecução de bens materiais e simbólicos.
A Escola Porto Alegre é uma
escola de caráter municipal com doze anos de trabalho, restringindo
sua atuação em 1994, ano da construção da Escola,
em um serviço de abordagem de rua, o Serviço Social de Rua-
SESRUA. Com a efetiva fundação da Escola em 1995, a maioria
dos educadores que atuavam no SESRUA passou a vir trabalhar na Escola.
O ingresso dos adolescentes na instituição se dá pela
abordagem do SESRUA e por meio das informações e “recomendações”
que circulam entre os meninos. Atualmente, a Escola também recebe
encaminhamentos de adolescentes em situação de rua de outras
instituições, tais como a Casa de Acolhimento, Acolhimento
Noturno, Lar Dom Bosco, Programa de Execução de Medidas Sócio-educativas,
Abrigo Municipal Ingá Britta; além de outras demandas da
comunidade, tal como a iniciativa de pessoas que vão até
a Escola levar o adolescente.
A Escola atende há aproximadamente
100 alunos matriculados, mas existe uma espécie de “revezamento”
em que alguns alunos freqüentam a escola de forma esporádica,
o que dá uma média de 25 alunos ao dia, mas também
há os que a freqüentam de forma regular; ao mês, em torno
de 42 alunos diferentes freqüentam a escola. O aluno pode realizar
sua matrícula em qualquer período do ano. Quando o aluno
chega à Escola, ele é encaminhado ao Serviço de Acompanhamento,
Integração e Acompanhamento – SAIA. O SAIA teria uma preocupação
em realizar um acolhimento diferenciado, pois no início do trabalho
da Escola havia uma negação dos grupos aos alunos novos que
chegavam. Para evitar isso, o acolhimento é realizado através
de uma “investigação oral, institucional e familiar”, para
saber qual o perfil do menino e o seu grupo adequado. Além da parceria
com o SESRUA, com os Abrigos e serviços da rede, a Escola se utiliza
da Visita Domiciliar- VD e de uma rede de serviços. Essas parcerias
também evitam que o menino tenha que realizar a mesma entrevista
em cada serviço, tendo um acolhimento inicial integrado. A Escola
realiza um monitoramento da situação dos meninos, com os
programas que este está freqüentando, do Conselheiro Tutelar
a que este está vinculado, etc. Há também a relação
com outras prefeituras, uma vez que uma parte significativa dos meninos
em situação de rua em Porto Alegre são originários
de cidades da Grande Porto Alegre. Após a entrevista, o aluno assina
um “contrato pedagógico” com direitos e deveres, especificando uma
sanção caso infrinja o acordo.
Os alunos são divididos em
grupos com um professor referência, os grupos centram-se em temas
geradores que dizem respeito às demandas dos meninos, por exemplo,
um dos grupos está mais ligado com o tema da identidade na transição
para a maioridade. Como há poucos alunos, é possível
“colar” nos alunos. Muito embora seja um desejo da coordenadora pedagógica
da Escola, os educadores não têm uma formação
específica para trabalhar com os meninos, a coordenadora alega que
isso redundaria numa visão “romantizada” da rua.
Como no início do trabalho
os meninos não podiam ficar o dia inteiro na Escola, pois tinham
de ir a busca de alguma fonte de renda, foram desenvolvidas atividades
de produção de cerâmica e de papel reciclado nas quais
os meninos ficam com o dinheiro da renda de sua produção;
exceto uma porcentagem fixa que permanece na Escola para a manutenção
das atividades sem que haja a necessidade dos recursos próprios
desta.
A Escola se encontra vinculada ao
Ensino de Jovens e Adultos- EJA, oferecendo até o equivalente à
quarta série do Ensino Fundamental. Inicialmente a Escola atendia
a demanda dos meninos às séries iniciais do ensino fundamental,
mas atualmente tem aumentado a procura pelas séries finais, evidenciando
um aumento da escolarização da população dos
meninos em situação de rua. A partir dos quinze anos, os
meninos em situação de rua são encaminhados à
EPA, se têm idade inferior são encaminhados ao Lar Dom Bosco;
o meninos mais velhos atendidos na EPA têm entre 20 a 24 anos.
Segundo a coordenadora da Escola
Porto Alegre, a especificidade da Escola foi sendo criada historicamente
no interior de um movimento iniciado em meados de 1985-1986, que propunha
propostas pedagógicas alternativas, a exemplo de escolas criadas
na FEBEM, no Movimento Sem Terra- MST, etc. Nesse movimento surge o Projeto
Escola Aberta, destinada inicialmente aos casos de defasagem e de evasão
escolar; evasão esta facilitada por mecanismos de “expulsão
” da Escola (CRAIDY, 1998). A coordenadora se refere ao tempo dos meninos
na Escola como uma etapa de preparação para que possam “suportar”
a escola regular, alegando que esta também precisa estar preparada,
citando a importância de resgatar a auto-estima dos meninos, pois
alguns se acham incapazes de aprender, há ainda o preconceito ao
fato de estarem mal vestidos, à aparência, corporeidade, agressividade,
etc. 
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